Mostrando postagens com marcador comunismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comunismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de março de 2019

Mea culpa, mea maxima culpa



  "Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve."


Dom Hélder Câmara
Mea culpa, mea maxima culpa
por Diogo de Andrade
São Joaquim, Guanabara e Cidade. Em comum o fato de serem palácios importantes na história da cidade e do estado do Rio de Janeiro. Ah, se essas paredes falassem…
O primeiro, situado no bairro da Glória, tem um passado glorioso. Os mais garbosos bailes do país, que contavam com a presença de suas majestades Dom Pedro II e Dona Teresa, além do Marquês de Abrantes, do Visconde de Meriti, então dono do palácio, e da alta sociedade carioca daquele tempo, ocorriam no espaço onde hoje vivem os bispos católicos da igreja carioca.
O Palácio são Joaquim foi doado à igreja para servir de moradia ao primeiro cardeal do Rio de Janeiro, o cardeal Arcoverde.
Já o Palácio da Cidade, que foi a embaixada do Reino Unido no Brasil entre 1950 e 1970, em 74 foi vendido à cidade do Rio de Janeiro e, desde 75, é sua sede.
O Palácio Guanabara, por sua vez, foi residência da princesa Isabel, posteriormente abrigou o presidente Getúlio Vargas e foi doado ao estado do Rio quando a capital passou para Brasília
Prédios são símbolos. No caso dos três palácios, de poder político e religioso.
Assim como os três poderes da república, o religioso e o político precisam ser independentes. Diferentemente, porém, não precisam ser harmônicos quando o que está em jogo é o bem da população.
Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve. Em 1964, por pressão e intervenção dos militares que golpearam o Estado brasileiro, dom Hélder foi transferido da arquidiocese da capital do Brasil. Dom Hélder, fundador da CNBB, optou por denunciar a verdade em vez de ter uma relação harmônica com o poder político usurpador. E claro… Diante disso, restava aos militares o discurso que voltou à moda quando se pretende desqualificar alguém:
“comunista”, “socialista”, “esquerdista”.
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista” – Dom Hélder Câmara
O que observamos, hoje, na relação entre arquidioceses e o Estado Brasileiro é algo fora dos padrões do evangelho de Jesus Cristo. Prova disso é o acordo tríplice-palaciano por silêncio ou, no máximo, por amenização a críticas, fazendo-as de modo genérico. Evidência disso é que nunca se ouviram críticas explícitas do cardeal a ações dos governos estadual e municipal em casos agudos de crise. Cito 5 exemplos.
1 – Demolição do Museu do Índio para construção de estacionamento em vistas da copa do mundo. Cabral mandou, e a PM “desceu o cacetete” nos moradores da Aldeia Maracanã. Não houve nem uma notinha da Igreja, que tem como essência a opção preferencial pelos pobres.
Cf. https://m.folha.uol.com.br/…/1250643-batalhao-de-choque-da-…
A aldeia continua sob ataque, dessa vez retórico.
“Aldeia Maracanã é lixo urbano. Quem gosta de índio, vá para a Bolívia”
Rodrigo Amorim, deputado estadual eleito pelo PSL em entrevista a O Globo em 04/01/19
2 – Greve dos professores da rede municipal do Rio de Janeiro, em 2013. Diante de uma violência polícial totalmente desproporcional, em que professoras com mais de 50 anos de idade apanharam de Pms e na qual educadores foram alvejados por balas de borracha e bombas de gás, nada de denúncia contra a violência praticada pelo estado.
Cf. https://educacao.uol.com.br/…/rj-pm-afasta-policial-que-jog…
3 – Operações em favelas. A política do enfrentamento praticada pelo governo do estado costuma apreender alguma quantidade de drogas, algumas armas e prender alguns traficantes. No entanto, deixa um rastro de mortes inocentes de moradores e policiais em serviço. Em que momento o cardeal rompeu o silêncio e exclamou o óbvio: parem com operações dessa natureza! Parem de matar inocentes! Parem de enviar jovens soldados da PM para a morte! (Ou, se acredita na política de enfrentamento, quando o cardeal foi justo: Cabral, manda um caveirão para as portas de boates na zona sul, entre atirando e prenda os traficantes de drogas sintéticas. Ou quando o cardeal solicitou operações contra o tráfico de drogas que ocorre dentro da PUC?)
Cf.https://g1.globo.com/…/numero-de-mortes-por-intervencao-pol…
4 – De acordo com O Globo, a obra do Maracanã para a copa de 2014 custou aos cofres públicos 1,346 bilhão de reais. Levantamentos em dados oficiais mostram que a contrução de uma escola custa em torno de 6 milhões de reais e de um hospital 25 milhões. Seria possível construir cerca de 220 escolas públicas e, assim, evitar que agora, em 2019, houvesse mais de 20 mil alunos que ou não conseguiram vagas para o primeiro ano do Ensino Médio, ou estão tendo, com 15, 16 anos de idade, estudar à noite e longe de casa em uma das cidades mais violentas do país. Os gastos com um Maracanã também também equivalem à construção 50 hospitais públicos…
Cf. https://m.oglobo.globo.com/…/governardo-pezao-denunciado-pe…
5 – Crivella e o caso “Chama a Márcia”. Após um apoio explícito de parte efusiva de padres nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, quando, no segundo turno, o duelo foi entre Crivella x Freixo, houve o escândalo no Palácio da Cidade em que a máquina pública foi colocada à disposição de pastores evangélicos. Mais uma vez o cardeal arcebispo, que fingiu não ver padres fazendo campanhas nas missas para Crivella, não foi efetivo na denúncia contra a apropriação da máquina pública pela IURD.
Diante da flagrante má administração dos recursos públicos e da corrupção latente comandada por Cabral e Pezão e das denúncias contra Eduardo Paes, e Crivella, fica a dúvida:
POR QUE um dos cardeais mais influentes do Brasil, comandando uma das arquidioceses mais importantes do Brasil que configura o segundo maior colégio eleitoral do Brasil nunca teve a atitude profética que se espera de um sucessor dos apóstolos de se colocar frontalmente contra as ações de Cabral, Pezão, Paes e, mais recentemente, Crivella?
O cristianismo não deve assumir-se como detentor do poder político, mas tem o dever de lutar para que os que se encontram em cargos executivos, legislativos e judiciários ajam em defesa do bem comum. Quando isso não é feito de modo profético e efetivo, tem-se a omissão.
Sugiro ao cardeal orar com mais fervor:

Confiteor Deo omnipotens et vobis, fratres, quia peccavi omissione: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Você sabe o que é comunismo? Nunca vi, nem ouvi, eu só ouço falar..., por Janderson Lacerda


"Ouço as pessoas falarem a respeito do comunismo, mas custo a crer que a maioria saiba o que é... É a síndrome do caviar, com uma grande diferença: o caviar está na mesa dos ricos, o comunismo não!"

Do GGN:




Você sabe o que é comunismo? Nunca vi, nem ouvi, eu só ouço falar...
por Janderson Lacerda

Antes de iniciar esta crônica, quero deixar claro que seu título – um tanto extenso, é verdade – faz menção à música, “Caviar” de Zeca Pagodinho. Isto porque, o refrão do samba é uma pergunta com direito a resposta franca e direta: “você sabe o que é Caviar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”.



Ouço as pessoas falarem a respeito do comunismo, mas custo a crer que a maioria saiba o que é... É a síndrome do caviar, com uma grande diferença: o caviar está na mesa dos ricos, o comunismo não!
Antes de continuar a escrever preciso dizer-lhe que Zeca Pagodinho e minha mãe não são comunistas! Portanto, poupe-os de “elogios”. Aliás, não consigo compreender a lógica dos palavrões – por que puta, por exemplo, é palavrão? As prostitutas trabalham honestamente; cafetão ou cafetina é que deveria ser um termo chulo. São os cafetões que exploram a mão de obra das prostitutas - não só a mão de obra é verdade! Por falar em mão de obra espoliada, o comunismo é avesso, exatamente, à exploração. Karl Marx – a maior vítima das “fake news” da história – em sua teoria, teve a coragem de denunciar a exploração da burguesia (ricos) sobre os trabalhadores (pobres/ proletários). E por isso, foi odiado e perseguido.
O comunismo seria o estágio em que o homem pode pescar durante o dia e fazer crítica literária à noite; isto é, não existem classes sociais e os modos de produção não pertencem a uma classe dominante: pertencem a todos! Modos ou meios de produção são as fábricas, terras, ferramentas e utensílios utilizados no processo de produção.
No capitalismo, os meios de produção pertencem aos ricos e é a isto que denominamos de propriedade privada. Portanto, o que gera riqueza é o trabalho do operário. Partindo desta ideia, sua casa não se enquadra neste conceito e, por este motivo, não será socializada.
Na realidade, o que deve ser socializada são as riquezas, o trabalho e, evidentemente, as condições para ele... No capitalismo, o homem perde o direito ao trabalho e quando recebe a “dádiva da exploração”, é roubado, Marx chamava isto de mais-valia. Para utilizar uma explicação bem simplista: você trabalha, mas não recebe um salário justo. O capitalista (burguês) explora o trabalhador durante o processo de produção laboral, pagando-lhe menos do que merece. Em outras palavras, isto é uma apropriação indevida, exploração, roubo!
Diante desses fatos, a menos que você seja um capitalista (dono dos meios de produção), você não deveria estar preocupado com a “ameaça comunista”. 
Além disso, posso contar-lhe um segredo: não existe nenhum país comunista no mundo. Sei, sei que você está impressionado, mas, a Venezuela – antes que alguém a mencione – não é comunista!
A Venezuela é bolivariana (talvez um capitalismo de Estado). Simon Bolívar o “herói libertador da América do Sul” não era comunista. A propósito, Marx teceu muitas criticas ao suposto libertador dos trópicos, que podem ser, inclusive, conferidas no livro, “SIMON BOLIVAR POR KARL MARX”.
E quanto à China, Cuba e Coreia do Norte? Também não são comunistas! No comunismo não existe um líder... Sendo assim, a União Soviética de Stalin não foi comunista. Foi uma experiência socialista, aliás, abortada por Stalin que conseguiu destruir esta possibilidade sonhada por Lênin e Trotsky na Revolução de 1917... (Agora os Stalinistas ficarão bravos comigo, mas não tem problema...).
Por fim, caro leitor, se você não é capitalista não deveria ficar preocupado com o comunismo – ao contrário! Note, ainda, que ser capitalista é uma coisa e estar no sistema capitalista, como alguém que será explorado, é outra. E o que passa disto é bravata – conversa mole para tornar sua vida ainda mais dura. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Papa Francisco diz, reconhecendo a profundidade dos estudos e mensagem original de Marx, que "comunistas pensam como cristãos", já que lutam por igualdade de oportunidades e vida para todos.... Mas a mídia brasileira pouco fala, deturpa ou nada diz disto....


O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump


Roma – O papa Francisco afirmou que “são os comunistas os que pensam como os cristãos”, ao responder sobre se gostaria de uma sociedade de inspiração marxista, em entrevista publicada nesta sexta-feira no jornal italiano “La Repubblica”.

“São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”, explica Jorge Bergoglio.

Por isso, Francisco espera que os Movimentos Populares entrem na política, “mas não no político, nas lutas de poder, no egoísmo, na demagogia, no dinheiro, mas na política criativa e de grandes visões”.

O pontífice evitou falar do recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e assegurou que dos políticos só lhe interessa “os sofrimentos que sua maneira de proceder podem causar aos pobres e aos excluídos”.

Francisco explicou que sua maior preocupação é o drama dos refugiados e imigrantes, e reiterou que é necessário “acabar com os muros que dividem, tentar aumentar e estender o bem-estar, e para eles é necessário derrubar muros e construir pontes que permitam diminuir as desigualdades e dar mais liberdade e direitos”.

Sobre os supostos “adversários” que tem no seio da Igreja, Francisco assegurou que não os chamaria assim e que “a fé une todos, embora naturalmente cada um veja as coisas de maneira diferente”.

Fonte: Exame.com, da golpista Abril dos Civitas

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Papa Francisco lembra que é acusado por ricos e elitistas de ser "comunista" por dar voz aos pobres e ficar ao lado deles

Seguem dois diferentes mas complementares textos sobre o posicionamento realmente Cristão, posto que voltado para a justiça social e o apoio dos mais pobres, do Papa Francisco:

Texto I, extraído da Agência Ecclesia:



Vaticano: «Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos»



Francisco lembra quem o acusa de ser «comunista» por dar voz aos pobres

Cidade do Vaticano, 28 out 2014 (Ecclesia) - O Papa Francisco apelou hoje à defesa dos direitos dos trabalhadores e das suas famílias, durante um encontro com os participantes no primeiro encontro mundial de Movimentos Populares.

“Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”, declarou, perante trabalhadores precários e da economia informal, migrantes, indígenas, sem-terra e pessoas que perderam a sua habitação.

O encontro é promovido até quarta-feira pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), em colaboração com a Academia Pontifícia das Ciências Sociais.

“Não existe pior pobreza material do que aquela que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos laborais não são inevitáveis, são o resultado de opção social prévia, de um sistema económico que coloca os lucros acima do homem”, defendeu o Papa.

A intervenção alertou para o “escândalo da fome” e as consequências da “cultura do descartável”, condenando os “eufemismos” que se utilizam para falar do “mundo das injustiças”.


“Este sistema já não se consegue aguentar. Temos de mudá-lo, temos de voltar a levar a dignidade humana para o centro: que sobre esse pilar se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos”, explicou.

Francisco criticou o “império do dinheiro” que exige a “guerra”, o comércio de armamentos, para a sobrevivência de “sistemas económicos”.

O Papa agradeceu aos participantes pela sua presença no Vaticano para “debater tantos graves problemas sociais que afetam o mundo de hoje” desde a perspetiva de quem sofre a desigualdade e a exclusão “na sua própria carne”.

“Terra, teto e trabalho. É estranho, mas se falar disto, para alguns parece que o Papa é comunista”, começou por referir, antes de recordar que “o amor pelos pobres está no centro do Evangelho”.

"Terra, teto e trabalho, aquilo por que lutam, são direitos sagrados. Reclamar isso não é nada de estranho, é a Doutrina Social da Igreja", assinalou.

O Papa pediu que se mantenha viva a vontade de construir um mundo melhor, “porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai, ficou órfão porque deixou Deus de lado”.

Num discurso de cerca de meia hora, Francisco referiu que a presença dos Movimentos Populares é um “grande sinal”, porque estão no Vaticano para “pôr na presença de Deus, da Igreja, uma realidade muitas vezes silenciada”.

“Os pobres não só sofrem a injustiça mas também lutam contra ela”, precisou.

Jesus, acrescentou, chamaria “hipócritas” aos que abordam o “escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção” para procurar fazer dos pobres “seres domesticados e inofensivos”.


O discurso papal abordou ainda os temas da paz e da ecologia, para além das questões centrais do emprego e da habitação.

“São respostas a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos. Um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza que está cada vez mais longe da maioria”, sublinhou Francisco.


O Papa convidou os participantes a prosseguirem com a sua luta, “que faz bem a todos”, e deu-lhes como presente uns terços fabricados por artesãos, ‘cartoneros’ e trabalhadores da economia popular na América Latina.

Texto II: Extraído do Tijolaço.com.br:


“Parece que o Papa é comunista”, diz Francisco


29 de outubro de 2014 | 11:22 Autor: Fernando Brito

Definitivamente – e apesar da Cúria Romana – o Papa Francisco entrou na disputa por corações e mentes da qual a Igreja Católica havia se afastado.

É obvio – a gente anda precisando dizer o obvio, do jeito que as coisas andam – que o papa não é comunista. E não é também de nenhuma “esquerda católica” militante.


Mas seu líder, hoje,  além de humanidade, tem a percepção de que o catolicismo se enfraqueceu.

Primeiro, na Europa, e nos últimos 20 anos, também no Terceiro Mundo.

Vai enfrentar inúmeras dificuldades e resistências, mas sabe que, sem isso, continuará o afastamento das grandes massas populares da fé católica.

Sabe, também, que o espaço conservador, em grande parte, foi ocupada pelo protestantismo e suas fortes raízes – e canais de financiamento – norte-americanos.

Seu discurso, nos dias de hoje, provocaria tremores e esgares de ódio em qualquer reunião de madames, no Brasil.

É bem provável, mesmo, que o achassem comunista. Ou argentino, ou nordestino, ou “bovino”, como diz Diogo Mainardi.

Eu, apesar das minhas desavenças com Deus, estou achando é divino.






domingo, 9 de dezembro de 2012

Leonardo Boff: Oscar Niemeyer, a Veja Online e o Escaravelho


Texto de Leonardo Boff, sobre a imbecilidade direitista da Revista Veja, na pessoa do seu colunista Reinado Azevedo. Publicado em 09/12/2012



Com a morte de Oscar Niemeyer aos 104 anos de idade ouviram-se vozes do mundo inteiro cheias de admiração, respeito e reverência face a sua obra genial, absolutamente inovadora e inspiradora de novas formas de leveza, simplicidade e elegância na arquitetura. Oscar Niemeyer foi e é uma pessoa que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar.

E o fazemos por duas razões principais: a primeira, porque Oscar humildemente nunca considerou a arquitetura a coisa principal da vida; ela pertence ao campo da fantasia, da invenção e do lúdico. Para ele era um jogo das formas, jogado com a seriedade com que as crianças jogam.

A segunda, para Oscar, o principal era a vida. Ela é apenas um sopro, passageira e contraditória. Feliz para alguns mas para as grandes maiorias cruel e sem piedade. Por isso, a vida impõe uma tarefa que ele assumiu com coragem e com sérios riscos pessoais: a da transformação. E para transformar a vida e torná-la menos perversa, dizia, devemos nos dar as mãos, sermos solidários uns para com os outros, criarmos laços de afeto e de amorosidade entre todos. Numa palavra, nós humanos devemos aprender a nos tratar humanamente, sem considerar as classes, a cor da pele e o nível de sua instrução.

Isso foi que alimentou de sentido e de esperança a vida desse gênio brasileiro. Por aí se entende que escolheu o comunismo como a forma e o caminho para dar corpo a este sonho, pois, o comunismo, em seu ideário generoso, sempre se propôs a transformação social a partir das vítimas e dos mais invisíveis. Oscar Niemeyer foi um fiel militante comunista.

Mas seu comunismo era singular: no meu modo de ver, próximo dos cristãos originários pois era um comunismo ético, humanitário, solidário, doce, jocoso, alegre e leve. Foi fiel a esse sonho a vida inteira, para além de todos os avatares passados pelas várias formas de socialismo e de marxismo.
Na medida em que pudemos observar, a grande maioria da opinião pública mundial, foi unânime na celebração de sua arte e do significado humanista de sua vida. Curiosamente a revista VEJA de domingo, dedica-lhe 10 belas páginas. Outra coisa, porém, é a revista VEJA online de 7 de dezembro com um artigo do blog do jornalista Reinado Azevedo que a revista abriga.

Ele foi a voz destoante e de reles mau gosto. Até agora a VEJA não se distanciou daquele conteúdo, totalmente, contraditório àquele da edição impressa de domingo. Entende-se porque a ideologia de um é a ideologia do outro. Pouco importa que o jornalista Azevedo, de forma confusa, face às críticas vindas de todos os lados, procure se explicar. Ora se identifica com a revista, ora se distancia, mas finalmente seu blog é por ela publicado.

Notoriamente, VEJA se compraz em desfazer as figuras que melhor mostram nossa cultura e que mais penetraram na alma do povo brasileiro. Essa revista parece se envergonhar do Brasil, porque gostaria que ele fosse aquilo que não é e não quer ser: um xerox distorcido da cultura norte-americana. Ela dá a impressão de não amar os brasileiros, ao contrário expõe ao ridículo o que eles são e o que criam. Já o titulo da matéria referente a Oscar Niemeyer da autoria de Azevedo, revela seu caráter viciado e malevolente: ”Para instruir a canalha ignorante. O gênio e o idiota em imagens”. Seu texto piora mais ainda quando, se esforça, titubeante, em responder às críticas em seu blog do dia 8/12 também na VEJA online com um título que revela seu caráter despectivo e anti-democrático:”Metade gênio e metade idiota- Niemeyer na capa da VEJA com todas as honras! O que o bloco dos Sujos diz agora?” Sujo é ele que quer contaminar os outros com a própria sujeira de uma matéria tendenciosa e injusta.
O que se quer insinuar com os tipos de formulação usados? Que brasileiro não pode ser gênio; os gênios estão lá fora; se for gênio, porque lá fora assim o reconhecem, é apenas em sua terceira parte e, se melhor analisarmos, apenas numa quarta parte. Vamos e venhamos: Quem diz ser Oscar Niemeyer um idiota apenas revela que ele mesmo é um idiota consumado. Seguramente Azevedo está inscrito no número bem definido por Albert Einstein: ”conheço dois infinitos: o infinito do universo e o infinito dos idiotas; do primeiro tenho dúvidas, do segundo certeza”. O articulista nos deu a certeza que ele e a revista que o abriga possuem um lugar de honra no altar da idiotice.

O que não tolera em Oscar Niemeyer que, sendo comunista, se mostra solidário, compassivo com os que sofrem, que celebra a vida, exalta a amizade e glorifica o amor. Tais valores não cabem na ideologia capitalista de mercado, defendida por VEJA e seu albergado, que só sabe de concorrência, de “greed is good”(cobiça é coisa boa), de acumulação à custa da exploração ou da especulação, da falta de solidariedade e de justiça em nível internacional.

Mas não nos causa surpresa; a revista assim fez com Paulo Freire, Cândido Portinari, Lula, Dom Helder Câmara, Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, frei Betto, João Pedro Stédile, comigo mesmo e com tantos outros. Ela é um monumento à razão cínica. Segue desavergonhadamente a lógica hegeliana do senhor e do servo; internalizou o senhor que está lá no Norte opulento e o serve como servo submisso, condenado a viver na periferia. Por isso tanto a revista quanto o articulista revelam um completo descompromisso com a verdade daqui, da cultura brasileira.

A figura que me ocorre deste articulista e da revista semanal, em versão online, é a do escaravelho, popularmente chamado de rola-bosta. O escaravelho é um besouro que vive dos excrementos de animais herbívoros, fazendo rolinhos deles com os quais, em sua toca, se alimenta. Pois algo semelhante fez o blog de Azevedo na VEJA online: foi buscar excrementos de 60 e 70 anos atrás, deslocou-os de seu contexto (ela é hábil neste método) e lançou-os contra Oscar Niemeyer. Ela o faz com naturalidade e prazer, pois, é o meio no qual vive e se realimenta continuamente. Nada de surpreendente, portanto.

Paro por aqui. Mas quero apenas registrar minha indignação contra esta revista, em versão online, travestida de escaravelho por ter cometido um crime lesa-fama. Reproduzo igualmente dois testemunhos indignados de duas pessoas respeitáveis: Antonio Veronese, artista plástico vivendo em Paris e João Cândido Portinari, filho do genial pintor Cândido Portinari, cujas telas grandiosas estão na entrada do edifício da ONU em Nova York e cuja imagem foi desfigurada e deturpada, repetidas vezes, pela revista-escaravelho.
___________________________________________________________________
Oscar Niemeyer e a imprensa tupiniquim- Antonio Veronese

Crítica mesquinha, que pune o Talento, essa ousadia imperdoável de alçar os cornos acima da manada. No Brasil, Talento, como em nenhum outro país do mundo, é indigerível por parte da imprensa, que se acocora, devorada por inveja intestina. Capitania hereditária de raivosos bufões que já classificou a voz de Pavarotti de ruído de pia entupida; a música de Tom Jobim de americanizada; João Gilberto de desafinado e Cândido Portinari de copista…

Quando morre um homem de Talento, como agora o grande Niemeyer, os raivosos bufões babam diante do espelho matinal sedentos de escárnio.

Não discuto a liberdade da imprensa. Mas a pergunta que se impõe é como um cidadão, com a dimensão internacional de Oscar Niemeyer, (sua morte foi reverenciada na primeira página de todos os grandes jornais do mundo) pode ser chamado, por um jornalista mequetrefe, num órgão de imprensa de cobertura nacional, de metade-gênio-metade idiota? Isso após sua morte, quando não é mais capaz de defender-se, e ainda que sob a desculpa covarde, de reproduzir citação de terceiros…
O consolo que me resta é que a História desinteressa-se desses espasmos da estupidez. Quem se lembra hoje dos críticos da bossa nova ou de Villa-Lobos? Ao talent, no entanto, está reservada a reverência da eternidade.

Antonio Veronese (mideart@gmail.com)
••••••••••••••••••
Meu caro Antonio,
Que beleza o seu texto, um verdadeiro bálsamo para os que ainda acreditam no mundo de amanhã nascendo do espírito, da fé e do caráter dos homens de hoje!

Não é toda a imprensa, felizmente. Há também muita dignidade e valor na mídia brasileira. Mas não devemos nos surpreender com a revista semanal. Em termos de vileza, ela sempre consegue se superar. Ela terá, mais cedo ou mais tarde, o destino de todas as iniquidades: a vala comum do lixo, onde nem a história se dará o trabalho de julgá-la.

Os arquivos do Projeto Portinari guardam um sem número de artigos desta rancorosa revista, assim como de outras da mesma editora, sobre meu pai, Cândido Portinari e outros seus companheiros de geração. Sempre pérfidos, infames e covardes, como este que vem agora tentar apequenar um grande homem que para sempre enaltecerá a nossa terra e o nosso povo.

Caro amigo, é impossível ficar calado, diante de tanta indignidade.
Com o carinho e a admiração do
Professor João Candido Portinari (portinari@portinari.org.br)

*Leonardo Boff é filósofo, teólogo, escritor e comisionado da Carta da Terra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Leonardo Boff: O Comunismo ético e humanitário de Oscar Niemeyer




Texto de Leonardo Boff



  Não tive muitos encontros com Oscar Niemeyer. Mas os que tive foram longos e densos. Que falaria um arquiteto com um teólogo senão sobre Deus, sobre religião, sobre a injustiça dos pobres e sobre o sentido da vida?

  Nas nossas conversas, sentia alguém com uma profunda saudade de Deus. Invejava-me que, me tendo por inteligente (na opinião dele) ainda assim acreditava em Deus, coisa que ele não conseguia. Mas eu o tranquilizava ao dizer: o importante não é crer ou não crer em Deus. Mas viver com ética, amor, solidariedade e compaixão pelos que mais sofrem. Pois, na tarde da vida, o que conta mesmo são tais coisas. E nesse ponto ele estava muito bem colocado.Seu olhar se perdia ao longe, com leve brilho.

 Impressionou-se sobremaneira, certa feita, quando lhe disse a frase de um teólogo medieval: “Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe”. E ele retrucou: “mas que significa isso?” Eu respondi: “Deus não é um objeto que pode ser encontrado por ai; se assim fosse, ele seria uma parte do mundo e não Deus”. Mas então, perguntou ele: “que raio é esse Deus?” E eu, quase sussurrando, disse-lhe: “É uma espécie de Energia poderosa e amorosa que cria as condições para que as coisas possam existir; é mais ou menos como o olho: ele vê tudo mas não pode ver a si mesmo; ou como o pensamento: a força pela qual o pensamento pensa, não pode ser pensada”. E ele ficou pensativo. Mas continuou: “a teologia cristã diz isso?” Eu respondi: “diz mas tem vergonha de dizê-lo, porque então deveria antes calar que falar; e vive falando, especialmente os Papas”. Mas consolei-o com uma frase atribuída a Jorge Luis Borges, o grande argentino: "A teologia é uma ciência curiosa: nela tudo é verdadeiro, porque tudo é inventado”. Achou muita graça. Mais graça achou com uma bela trouvaille de um gari do Rio, o famoso “Gari Sorriso" : “Deus é o vento e a lua; é a dinâmica do crescer; é aplaudir quem sobe e aparar quem desce”. 

Desconfio que Oscar não teria dificuldade de aceitar esse Deus tão humano por estar acima dos homens e tão próximo a nós.

Mas sorriu com suavidade. E eu aproveitei para dizer: “Não é a mesma coisa com sua arquitetura? Nela tudo é bonito e simples, não porque é racional mas porque tudo é inventado e fruto da imaginação”. Nisso ele concordou adiantando que na arquitetura se inspira mais lendo poesia, romance e ficção do que se entregando a elucubrações intelectuais. E eu ponderei: “na religião é mais ou menos a mesma coisa: a grandeza da religião é a fantasia, a capacidade utópica de projetar reinos de justiça e céus de felicidade. E grande pensadores modernos da religião como Bloch, Goldman, Durkheim, Rubem Alves e outros não dizem outra coisa: o nosso equívoco foi colocar a religião na razão quando o seu nicho natural se encontra no imaginário e no princípio esperança. Ai ela mostra a sua verdade. E nos pode inspirar um sentido de vida.”

Para mim a grandeza de Oscar Niemeyer não reside apenas na sua genialidade, reconhecida e louvada no mundo inteiro. Mas na sua concepção da vida e da profundidade de seu comunismo. Para ele “a vida é um sopro”, leve e passageiro. Mas um sopro vivido com plena inteireza. Antes de mais nada, a vida para ele não era puro desfrute, mas criatividade e trabalho. Trabalhou até o fim, como Picasso, produzindo mais de 600 obras. Mas como era inteiro, cultivava as artes, a literatura e as ciências. Ultimamente se pôs a estudar cosmologia e física quântica. Enchia-se de admiração e de espanto diante da grandeza do universo.

Mas mais que tudo cultivou a amizade, a solidariedade e a benquerença para com todos. “O importante não é a arquitetura” repetia muitas vezes, “o importante é a vida”. Mas não qualquer vida; a vida vivida na busca da transformação necessária que supere as injustiças contra os pobres, que melhore esse mundo perverso, vida que se traduza em solidariedade e amizade. No JB de 21/04/2007 confessou: ”O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vive-la melhor”.

Seu comunismo está muito próximo daquele dos primeiros cristãos, referido nos Atos dos Apóstolos nos capítulos 2 e 4. Ai se diz que “os cristãos colocavam tudo em comum e que não havia pobres entre eles”. Portanto, não era um comunismo ideológico mas ético e humanitário: compartilhar, viver com sobriedade, como sempre viveu, despojar-se do dinheiro e ajudar a quem precisasse. Tudo deveria ser comum. Perguntado por um jornalista se aceitaria a pílula da eterna juventude, respondeu coerentemente: “aceitaria se fosse para todo mundo; não quero a imortalidade só para mim”.

Um fato ficou-me inesquecível. Ocorreu nos inícios dos anos 80 do século passado. Estando Oscar em Petrópolis, me convidou para almoçar com ele. Eu havia chegado naquele dia de Cuba, onde, com Frei Betto, durante anos dialogávamos com os vários escalões do governo (sempre vigiados pelo SNI), a pedido de Fidel Castro, para ver se os tirávamos da concepção dogmática e rígida do marxismo soviético. Eram tempos tranquilos em Cuba que, com o apoio da União Soviética, podia levar avante seus esplêndidos projetos de saúde, de educação e de cultura. Contei que, por todos os lados que tinha ido em Cuba, nunca encontrei favelas mas uma pobreza digna e operosa. Contei mil coisas de Cuba que, segundo Frei Betto, na época era “uma Bahia que deu certo”. Seus olhos brilhavam. Quase não comia. Enchia-se de entusiasmo ao ver que, em algum lugar do mundo, seu sonho de comunismo poderia, pelo menos em parte, ganhar corpo e ser bom para as maiorias.


Qual não foi o meu espanto quando, dois dias após, apareceu na Folha de São Paulo, um artigo dele com um belo desenho de três montanhas, com uma cruz em cima. Em certa altura dizia: “Descendo a serra de Petrópolis ao Rio, eu que sou ateu, rezava para o Deus de Frei Boff para que aquela situação do povo cubano pudesse um dia se realizar no Brasil”. Essa era a generosidade cálida, suave e radicalmente humana de Oscar Niemeyer.



Guardo uma memória perene dele. Adquiri de Darcy Ribeiro, de quem Oscar era amigo-irmão, uma pequeno apartamento no bairro do Alto da Boa-Vista, no Vale Encantando. De lá se avista toda a Barra da Tijuca até o fim do Recreio dos Bandeirantes. Oscar reformou aquele apartamento para o seu amigo, de tal forma que de qualquer lugar que estivesse, Darcy (que era pequeno de estatura), pudesse ver sempre o mar. Fez um estrado de uns 50 centrímetros de altura E como não podia deixar de ser, com uma bela curva de canto, qual onda do mar ou corpo da mulher amada. Ai me recolho quando quero escrever e meditar um pouco, pois um teólogo deve cuidar também de salvar a sua alma.



Por duas vezes se ofereceu para fazer uma maquete de igrejinha para o sítio onde moro em Araras em Petrópolis. Relutei, pois considerava injusto valorizar minha propriedade com uma peça de um gênio como Oscar. Finalmente, Deus não está nem no céu nem na terra, está lá onde as portas da casa estão abertas.


A vida não está destinada a desaparecer na morte mas a se transfigurar alquimicamente através da morte. Oscar Niemeyer apenas passou para o outro lado da vida, para o lado invisível. Mas o invisível faz parte do visível. Por isso ele não está ausente, mas está presente, apenas invisível. Mas sempre com a mesma doçura, suavidade, amizade, solidariedade e amorosidade que permanentemente o caracterizaram. E de lá onde estiver, estará fantasiando, projetando e criando mundos belos, curvos e cheios de leveza.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Adeus, Oscar....

 Adeus, Oscar Niemeyer... Que seus traços se concretizem no "céu" espiritual e que lá encontres a igualdade entre os homens que tanto sonhastes em ver na Terra....
 Valeu, companheiro, pela genialidade e, acima de tudo, pelo exemplo de vida, coerência e caráter humanista!

Carlos