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terça-feira, 15 de outubro de 2019

O ataque estratégico do neoliberalismo à educação, por Christian Laval, professor de sociologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, e autor, entre outros de A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público (Boitempo, 2019)



Desde o início da sua expansão o neoliberalismo mirou a escola, o sistema escolar e a universidade, pois esses são lugares fundamentais de formação de um certo tipo de subjetividade




Do Blog da Boitempo, republicado pelo Jornal GGN:


O ataque estratégico do neoliberalismo à educação

por Christian Laval
*Tradução de Mariana Echalar.
Desde o início da sua expansão o neoliberalismo mirou a escola, o sistema escolar, a universidade etc. Isso por várias razões diferentes, mas uma das motivações fundamentais é que se trata de um lugar de formação de um certo tipo de subjetividade. Em termos mais simples, é o lugar de criação de um “capital humano”, pensado como tal, que vai alimentar um sistema produtivo baseado na concorrência generalizada. Por isso, acredito que estudar, analisar o sistema educacional neoliberal é absolutamente fundamental para compreendermos o que é o neoliberalismo.
O neoliberalismo não é apenas uma política econômica monetária, não é só austeridade… ele é muito mais do que isso. Trata-se de uma política, uma estratégia mesmo, que visa modificar a sociedade e transformar o “humano” enquanto tal. E transformar como? Procurando transformar justamente os seus valores, transformar as relações de cada indivíduo consigo mesmo. Ou seja, ele difunde um modo de relação capitalista do indivíduo consigo mesmo, fazendo com que cada indivíduo se considere um capital.
E, para isso, é preciso começar muito cedo, muito jovem, a considerar que os estudos são, acima de tudo, um investimento que deve produzir uma renda, que deve ser rentável. A escola neoliberal tem como alicerce a eficiência, o desempenho, a rentabilidade. E, portanto, cada indivíduo deve se ver, rapidamente e desde cedo, como um empreendedor de si mesmo, um gestor de si mesmo, portanto, que cada um se considere um “capital”. A partir daí, temos uma matriz, uma matriz antropológica se quiser, que permite visar uma mudança muito mais global, muito mais geral da sociedade. Os neoliberais têm uma reflexão estratégica sobre a forma de mudar a sociedade e o homem.
Na verdade, as políticas neoliberais são políticas que visam oficialmente tornar a escola mais eficiente, melhorar o seu desempenho, porque esse é o ideal – ou a “ideologia” de fundo, digamos assim – do neoliberalismo. Mas, além disso, o neoliberalismo acredita que é capaz de realizar melhor do que outras soluções um objetivo progressista antigo: a igualdade. Como? Fazendo com que cada indivíduo possa levar as suas capacidades o mais longe possível. Por quê? Como? Simplesmente estimulando a competição, a concorrência entre os alunos, através de testes e avaliações sistemáticas, mas também fazendo os professores, as escolas competirem entre si.
Em resumo, para obter esse melhor desempenho da escola, essa igualdade, basta, segundo os neoliberais, instilar, instalar em toda parte situações de mercado, isto é, situações de concorrência. E, em primeiro lugar, a concorrência local. Os pais precisam poder escolher a escola e, para isso, precisam se transformar em consumidores. A ideia fundamental é que os pais sejam responsáveis… em razão do próprio dinheiro que têm de gastar… sejam responsáveis pelo investimento que fazem pelos filhos. Em resumo, o modelo aplicado é o que os neoliberais chamam de “soberania do consumidor”. E do qual decorreriam todas as vantagens.
Isso conduz não a uma escola com um desempenho melhor, mas a uma escola com um desempenho pior. Foi comprovado na França, na Europa, nos Estados Unidos e em muitos outros países, que a concorrência conduz a uma segregação escolar generalizada e sistemática. O que resulta numa queda do nível de educação no conjunto da população escolar. Portanto, o objetivo não é alcançado, ele apenas aumenta as desigualdades entre as crianças e entre as famílias.
***
Christian Laval é professor de sociologia da universidade Paris-Ouest Nanterre-La Défense, e autor, entre outros de A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público (Boitempo, 2019). Desde 2004, coordena junto com o filósofo Pierre Dardot o grupo de estudos e pesquisa Question Marx, que procura contribuir com a renovação do pensamento crítico. Juntos, escreveram A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Boitempo, 2016) e Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI (Boitempo, 2017). Colabora com o Blog da Boitempo, esporadicamente.

domingo, 22 de abril de 2018

Será mesmo que filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática? Texto de Priscila Aurora Landim de Castro



Do Justificando:

Será mesmo que filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática?

Foto: O pensador, escultura de Auguste Rodin

Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

Será mesmo que filosofia e sociologia obrigatórias derrubam notas em matemática?

Talvez você não identifique de imediato a natureza da Lei n.º 5.692/71, mas certamente já escutou falar sobre os resultados gerados por ela. Esse ato normativo foi responsável por reformular as bases curriculares do antigo 1º e 2º graus, atuais ensino fundamental e médio, durante o governo do General Médici e, entre outras coisas, excluiu o ensino de Sociologia e Filosofia cujo espaço foi ocupado pela inclusão das disciplinas Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil (OSPB). 
O passado, que tem tornado-se cada vez mais representativo do nosso presente, voltou à cena materializado pela veiculação de notícias que antecipam os resultados de pesquisa capitaneada pelos economistas Adolfo Sachsida e Thais Waideman Niquito, cujo caráter ainda não é público, e que deve ser lançada pelo IPEA. Os dados indicariam que a “inclusão de filosofia e sociologia como disciplinas obrigatórias no ensino médio em 2009 prejudicou a aprendizagem de matemática dos jovens brasileiros, principalmente os de baixa renda
Em oposição à tese de que contra fatos não há argumentos, os dados não podem ser compreendidos como fatos naturais, uma vez que são produzidos e, por isso, as discussões metodológicas a respeito dos critérios de produção são tão importantes. Além disso, os dados não falam por si só: é preciso que os resultados sejam mediados por teses explicativas que conectem as causas aos resultados do fenômeno estudado. Sobre o tema, leia a nota da Sociedade Brasileira de Sociologia.
As conclusões apresentadas na notícia indicam que a queda no desempenho em matemática estaria relacionada à perda da carga horária por parte de alguns componentes curriculares em face da inclusão da Sociologia e da Filosofia. Esse redimensionamento estaria relacionado a externalidades positivas, como o reforço de habilidades em áreas como português e história, e negativas, a exemplo do aludido prejuízo em matemática.
A respeito do saldo entre benefícios e perdas, os próprios pesquisadoreslançam o questionamento: “a pergunta é até que ponto esse ganho justifica sacrificar disciplinas como matemática?. A resposta para essa questão é de matriz tanto metodológica quanto político-pedagógico. A natureza metodológica envolve a (im)possibilidade de isolar dois componentes curriculares para fazer frente a outro, num modelo explicativo cujas causas e consequências são exploradas numa perspectiva conjectural de natureza binomial, ao invés de sistêmica. Por outro lado, a natureza político-pedagógica está condicionada ao reconhecimento do que é prioritário na educação infantojuvenil.
A necessidade de reestruturação curricular não é novidade e são inúmeras as dificuldades impostas. Não por acaso a matéria tem passado por inúmeros percalços destacados pelo atraso no lançamento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), prevista para 2016, cuja última versão foi apresentada em 6 de abril de 2018. O texto, finalizado com atraso, refere-se ao ensino infantil e fundamental e não contempla as bases do ensino médio.
Assim, o problema não envolve tão simplesmente constatar a necessidade de reformulação do que está posto, mas o questionamento a respeito de quais serão as bases que fundarão a reforma. De fato, a extensão do currículo onera os alunos, mas porque não falarmos sobre a priorização atribuída às diferentes disciplinas que o compõem? Para além das antigas e infrutíferas rixas entre as ciências “hards” e as humanidades, que tipo de conteúdo realmente deve compor a educação daqueles que virão a eleger suas áreas de especialidade quando (e se) ingressarem no ensino superior?
Soma-se à discussão a ideia legislativa apresentada por Thiago Turetti, cuja proposta incide na extinção da oferta dos cursos de humanas nas universidades públicas e que está submetida para manifestação de apoio no site do Senado.
A explicação para a proposta apresentada por Turetti é tão simples quanto infundada e, assim como as conclusões apresentadas pelos pesquisadores, incide numa hierarquização entre as áreas do conhecimento reconhecidas como prioritárias e na indicação das humanidades como não pertencente ao rol científico:
São cursos baratos que facilmente poderão ser realizados em universidades privadas, a medida consiste em focar em cursos de linha (medicina, direito, engenharia e outros). Os cursos de humanas poderão ser realizados presencialmente e à distância em qualquer outra instituição paga.
Não é adequado usar dinheiro público e espaço direcionado a esses cursos, o país precisa de mais médicos e cientistas, os cursos de humanas poderão ser feitos nas instituições privadas. Cursos de humanas da proposta: Filosofia, História, Geografia, Sociologia, Artes e Artes Cênicas.
Como aparentemente o autor da proposta não fez o dever de casa, resta explicar que as Ciências Sociais e Humanas são debatidas enquanto modelos científicos e, para além de teoria, produzem uma enorme quantidade de estudos empíricos. Quanto à discussão das bases epistemológicas que as fundamentam e que as particularizam em relação às demais ciências, assim como a aplicação ou não dos seus resultados, esse não é um debate legislativo e, para isso, existe um acervo acadêmico imenso e melhor instrumentalizado tecnicamente que os achismos politiqueiros.
O que mais há em comum entre a notícia dos resultados da pesquisa e a ideia legislativa referenciada? Tanto Thiago Turetti quanto Adolfo Sachsida encabeçam a lista dos apoiadores da campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Além de Sachsida, assume a responsabilidade da pesquisa a economista Thais Waideman Niquito, que é apresentada como signatária do manifesto pelo impeachment, cujo conteúdo começa com os dizeres: “Não há desenvolvimento sem equilíbrio econômico. Este, por sua vez, depende de instituições fortes que o sustentem. São as instituições de um país que separam as nações ricas das pobres”. Em resposta ao pressuposto do manifesto, suponho que não há desenvolvimento sem educação e que essa depende de uma sólida formação humana reflexiva.
Até o final de 2017, Sachsida era identificado como o principal conselheiropara assuntos econômicos do pré-candidato presidencial Jair Bolsonaro e abertamente defende projetos como a Escola Sem Partido. A respeito disso, o economista esclarece a natureza do projeto em seu blog:
Vamos ao básico, o que é o Escola Sem Partido? O Escola Sem Partido (ESP) é uma organização civil que tem 2 propostas: 1) combater a doutrinação ideológica nas escolas; e 2) oferece um projeto de lei (que se resume a colocação de um cartaz em sala de aula) para combater a doutrinação ideológica ocorrida dentro da sala de aula.
Incoerentemente conclui que:
Desnecessário dizer que esse projeto mira a educação pública. Escolas privadas confessionais por exemplo não estão abrangidas. E sim, é possível que o ponto 2 seja capturado pelos inimigos da sociedade aberta e intensifique ainda mais a doutrinação no futuro. Isso é a característica de qualquer proposta: ela sempre poderá ser pervertida. Para evitar isso só existe um remédio: a vigilância contínua.
Para além das discussões sobre a viabilidade da proposta, internamente ela comporta incoerências profundas, tal como a desobrigação da observância dos mesmos princípios por parte das escolas particulares e confessionais. Por que simplesmente coagir os professores da rede pública a uma obrigação que deveria ser compartilhada por todos, caso fosse reconhecida como pilar básico da educação? É sabido que as populações mais endinheiradas monopolizam a rede pública somente no nível superior e que toda formação anterior é realizada em escolas privadas. Por que a obrigação de não ideologizar incorreria somente sobre as populações carentes e, por isso, clientes das escolas públicas? Diante dessa incoerência resta inferir tratar-se de uma causa mais política que realmente pedagógica.
É impossível destituir a educação do seu lugar político e emancipatório, sendo as bases curriculares de educação o aporte para o comprometimento com o projeto de cidadania concebido pelo Estado. A valorização e a consequente desvalorização das humanidades implica na pedra lançada para o projeto do que nos tornaremos.
Priscila Aurora Landim de Castro é Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília, Mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, Graduada em Ciências Sociais Universidade de Brasília. Pesquisadora com ênfase na linha de violência e segurança pública no Núcleo de Estudos Sobre Violência e Segurança – NEVIS/UNB. Professora da Faculdade de Direito – UniCEUB

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O Golpe e a Mercantilização da Educação








O avanço da elite financeira sobre a educação e sobre a rede pública era um dos principais temores dos jovens que se apossaram das escolas em outubro de 2016. Um ano após as ocupações, pouca coisa mudou. Veja matéria em: https://interc.pt/2hrVsSu

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O céu sobre a universidade pública está carregado de nuvens escuras, por Roberto Kraenkel




GGN. - A dinâmica de criação de novos cursos universitários, sobretudo públicos, nos anos de ouro da era Lula/Dilma corresponde a um aumento de procura por pessoal qualificado por parte de empresas ou órgãos estatais. Representou, além disso, uma possibilidade de ascensão social para a classe média mais desmunida.
Após a estagnação no mundo acadêmico dos anos ’90 - vimo-nos  repentinamente desafiados: havia postos de trabalho para engenheiros, mas não havia engenheiros; havia necessidade de professores de ensino médio, mas tampouco os havia. Economistas, pessoal de tecnologia de informação, farmacêuticos: estavam em falta. E todo o terceiro setor clamava por gente que tivesse cursado artes, letras, jornalismo, biologia, estatística, arquitetura.
Tudo isso acabou
Desde a virada de Dilma, no seu segundo mandato, rumo à austeridade e, aceleradamente, no governo Temer, o futuro desabou.  Não o há. Foi cancelado.
A Lava-Jato deu cabo da Petrobras e suas demandas por engenheiros. A formação de professores estagnou. Há demasiado pessoal bem formado - hoje contrata-se um jornalista para escrever qualquer bobagem, alguém formado nas melhores escolas de cinema para fazer um teaser de dez segundos.
Que luxo, não? Não. Para cada secretária trilíngue que aceita um emprego de secretária monolíngue, uma destas últimas se quedará desempregada.
Bem vindo ao mundo do desemprego estrutural.
Assim desenha-se o futuro das universidades brasileiras na era que se apresenta: sem que haja necessidade de pessoas bem formadas, pois que todo savoir-faire passa a ser comprado do exterior, tornam-se supérfluas as universidades geradoras de conhecimento e formadoras de sujeitos esclarecidos.  Mesmo pessoas com conhecimentos específicos mais avançados numa determinada área deixam de ser necessárias . Salvam-se talvez os economistas - mas apenas os “de mercado”.
Sim, colega professor universitário, você que apoiou o golpe e luta pela meritocracia social - você bem-pensante que deseja uma universidade para os melhores, que é contra cotas, e que ao mesmo tempo quer que  o conhecimento seja levado em conta nas políticas públicas, você, colega - mon semblable, mon frère - talvez ingênuo e de boa fé, você está sendo feito de tolo. Você apoia aquilo que fará as universidades públicas se rebaixarem ao corriqueiro, ao que é treinamento, não mais conhecimento.
A política econômica neoliberal suprime a ideia de projeto nacional e estado social. É um jogo rude, cada qual que se vire como puder. Na periferia do capitalismo desaparece a necessidade de universidades produtoras de conhecimento. Na mesma ordem de ideias, a ciência e as humanidades tornam-se supérfluas. O mercado dará conta delas…
O céu sobre a universidade pública está carregado de nuvens escuras. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Defender a Filosofia contra cegueira neoliberal

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Projeto do governo para Ensino Médio chega ao Senado. Resistiremos: porque só uma visão não-fragmentada do mundo permite transformá-lo
Por Fran Alavina | Imagem: Pieter BruegelThe Parable of the Blind Leading the Blind, 1568
De novo, querem nos calar! De fato, não se trata de nenhuma novidade. Contra o silêncio da dúvida que precede toda contestação, querem impor o emudecimento forçado. Com efeito, a história da Filosofia está marcada por tentativas de fazer calar a potência do pensamento. Não foi assim contra Giordano Bruno, morto pela inquisição vaticana por ter nos mostrado as possibilidades abertas pelo alcance da infinitude? Não foi assim também com Walter Benjamim, perseguido até a morte pelos nazifascistas? Nessas, e em tantas outras tentativas, mesmo naquelas ocasiões em que os filósofos não são mortos, trata-se de realizar ações violentas contra uma forma de saber que sempre se coloca contra toda imposição.
De fato, o outro nome da Filosofia é Liberdade. São justamente os que querem a servidão dos ânimos, a subordinação do pensamento, em vez da sua autonomia doadora de pluralidade, que, mais uma vez, agindo violentamente, querem calar a voz rouca de um saber secular. Desta vez, trata-se de uma violência em forma de lei, por conseguinte uma violência constitucional. No final do ano passado, a Câmara dos Deputados votou pela não obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia na grade curricular do ensino médio. Para “disfarçarem” a violência de uma lei sem legitimidade, pois feita sem a devida discussão e sem a anuência da comunidade escolar, disseram que tratar-se-ia de dissolver os conteúdos filosóficos em outras disciplinas da grade curricular. Agora, ainda nesse primeiro semestre de 2017, o projeto deve ser discutido e votado no Senado Federal. Esta dissolução tentar enfraquecer a Filosofia e a Sociologia à medida que tenta fazer crer que seus conteúdos possam ser simplesmente dissolvidos em outros saberes.
Na verdade, não se trata de ensejar o diálogo interdisciplinar, mais sim de reduzir ao mínimo do mínimo possível o espaço propício ao pensamento crítico. Os conteúdos filosóficos e sociológicos possuem especificidades que lhes são próprias, demandando, por isso, tempo e espaço particulares. São conteúdos sólidos, que ao mesmo tempo em que ensejam um saber específico, podem colocar em diálogo disciplinas aparentemente díspares como a matemática e a literatura. Portanto, a via não é a dissolução dos conteúdos filosóficos e sociológicos, mas, pelo contrário, o fortalecimento deles, garantindo-lhes maior espaço e consideração na vida escolar.
Esta ação contra a Filosofia e a Sociologia está no bojo da famigerada reforma do ensino médio, que nada mais é que o retrocesso do sistema público de ensino. Se aprovada esta reforma-desmache, teremos dando dez passos para trás. Caindo em um tipo de ensino médio tecnicista capenga, reforçador das desigualdades sociais à medida que retira das classes populares o direito ao saber em sua completude. Para a imensa maioria, o mínimo; para alguns poucos, o tudo. Ademais, este gesto autoritário contra a Filosofia e a Sociologia dá margem a uma estupenda queda da qualidade do ensino, pois junta-se a isto, a possibilidade de que pessoas de “notório saber”, portanto sem a qualificação específica para o ensino, possam ministrar aulas. Desse modo, a reforma-desmanche do ensino médio tenta “flexibilizar” o saber para torná-lo um simples acúmulo de opções mínimas, dando aos alunos uma visão de mundo fragmentada e dispersa. Esta fragmentação e dispersão impede uma interpretação crítica da realidade, uma vez que faz parecer distante aquilo que está próximo. Retorna, em alguma medida, o lema do dividir para dominar melhor.
É esta visão dispersa de uma realidade apresentada como justaposição de fragmentos autônomos que possibilita, por exemplo, a ilusão de que a justificativa econômica está acima do argumento político; ou a fantasia desastrosa de que homens “não políticos” possam fazer política; ou ainda a crença supersticiosa de que todos nós somos empreendedores de nós mesmos; e, que, portanto, ao trabalharmos não somos trabalhadores, mas “prestadores de serviços”. Neste último caso, a reforma-desmanche do ensino médio está de mãos dadas com a ideologia neoliberal. É próprio da ideologia neoliberal fragmentar e dispersar para reduzir e limitar nossa visão de mundo. Não por mera coincidência, seu produto mais acabado no campo do saber é o aparecimento da figura do especialista. Aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Conforme avança a sanha neoliberal, mais pobre se torna a compreensão do que seja o processo educativo: reduzindo a dignidade do saber ao utilitarismo do mercado. Quem sabe em virtude da utilidade do mercado nunca sabe por si mesmo, portanto é um sujeito-objeto.
Um sujeito incapaz de dar um sentido único à dispersão que o aprisiona, um sujeito dócil, útil à servidão voluntária.
Dessa forma, tentam formar uma geração muda e resignada, mas que já deu mostras de não se deixar calar facilmente. Trata-se de um projeto de médio prazo: incapacitar o pensamento crítico no presente para fechar a possibilidade de qualquer futuro melhor e diferente do que temos hoje.
Ao neoliberalismo não interessa o saber na verdadeira acepção do termo, mas a ignorância disfarçada de conhecimento. Na medida em que não são ofertados os meios necessários para se constituir uma visão integral da realidade em suas diversas instâncias, conforme quer fazer a reforma-desmanche do ensino médio, mais de uma geração sofrerá um genocídio educacional. Não será apenas um genocídio simbólico, mas também material, uma vez que o tipo de saber construído afetará materialmente e politicamente as próximas gerações das classes trabalhadoras. Um genocídio típico dos regimes ditatoriais, mas, dessa vez, feito sob a tutela “democrática”.
Ora, a última vez que a Filosofia foi retirada da grade curricular foi justamente nos anos da ditadura militar. Os artífices do poder autoritário e dos regimes de exceção sabem que o exercício do pensamento quando feito livremente, e na sua plenitude, é por natureza indômito. Estavam cientes naquela época, como agora, que o pensamento é ousado e que nunca se dobra aos cerceamentos.
Ante a violência do poder que impõe, a Filosofia afasta toda forma de resignação. Nunca está resignado quem se põe a pensar sobras as causas de obviedades aparentes que sustentam a servidão voluntária. Questionar, por mais simples que seja o questionamento, já é não resignar-se. Por isso, a relação entre Filosofia e Democracia é algo inconteste. Quando os regimes democráticos estão ameaçados ou em crise, como no nosso caso, sempre se atenta contra a Filosofia, pois se reconhece nela uma forma de saber que mesmo sendo considerada inútil, se presta ao mais digno dos trabalhos: o reconhecimento da liberdade como único meio pelo qual se dá uma existência verdadeiramente humana. A Filosofia é, por excelência, o saber que interpela o poder. Por isso, não são poucos os que querem o seu silêncio.
Resistiremos, pois a Filosofia nunca se resigna. Ela resistiu desde quando aquele grego inoportuno fazia, no espaço público, simples perguntas aos seus concidadãos. Ele mostrou que a verdadeira vida democrática é aquela que não teme a dúvida, nem exaspera ante o reconhecimento dos opostos, fazendo da contestação um índice de vitalidade da vida democrática. Por isso, agora, que mais uma vez se tenta agir com violência contra a Filosofia, é a hora de fazer como fez o velho grego: ocupar os espaços públicos possíveis, fazer indagações simples e aparentemente inoportunas, pois este tipo de indagação é aquela que se presta ao desmoronamento das falsas certezas. Assim, talvez a primeira destas indagações seja esta: quem quer nos calar?