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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O Cristo cósmico e os muitos “Cristos” na história: a mensagem divina se expressa por diferentes gênios da humanidade, por Leonardo Boff


  "O Cristianismo não é uma cisterna de águas mortas. Ele possui a natureza de um organismo vivo que cresce e se enriquece em diálogo com o diferente. Ele tem agora a oportunidade de revelar virtualidades até hoje latentes. Deve mostrar-se não um problema, mas uma coisa boa."



O Cristo cósmico e os muitos "Cristos" na história


Por Leonardo Boff

O processo de planetização, colocou as religiões em contacto uma com as outras e mostrou como podemos ser religiosos das mais diferentes formas. Esta situação nova coloca a questão referente à figura de Jesus, crido como Cristo e salvador universal. Como situar Jesus ao lado de outros mestres, considerados por seus povos também como portadores de salvação?

O Cristianismo não é uma cisterna de águas mortas. Ele possui a natureza de um organismo vivo que cresce e se enriquece em diálogo com o diferente. Ele tem agora a oportunidade de revelar virtualidades até hoje latentes. Deve mostrar-se não um problema, mas uma coisa boa.

Queremos nos concentrar na relevância do Cristo cósmico. Ele é visto como dado que está se formando lentamente dentro do cosmos. Ele se densificou no homem Jesus de Nazaré. Mas esgotou nele todas as suas virtualidades ou outras figuras podem ser também expressões deste Cristo cósmico que está inserido na criação?

Mais e mais estamos atualmente nos acostumando a entender todos os fenômenos como emergências do universo em evolução. Assim as figuras de Jesus, de Sidarta Gautama e de outros e outras, antes de surgirem na história humana, estavam em gestação dentro do universo. O universo inteiro se organizou de tal forma que criou as condições de sua formação e emergência. O que irrompeu neles não se transformou em monopólio pessoal. Assim podemos dizer que o Jesus histórico surge como uma expressão singular do Cristo cósmico presente no processo da evolução. O Jesus histórico não esgotaria todas as formas possíveis das manifestações do Cristo cósmico. Algo semelhante vale para Sidarta Gautama.

Pertence à compreensão cristã dizer: cada ser humano foi tocado pelo Filho de Deus encarnado. O que se atribui a Jesus, por ter a nossa natureza, pode ser atribuído,sob uma forma própria, a cada ser humano,formado ao longo de milhões de anos de história cósmica.

Concretamente, nele e em Buda estão presentes todas as energias e os elementos físico-químicos que se forjaram no coração das grandes estrelas vermelhas antes de explodirem e de lançarem tais elementos pelo universo afora como o fósforo, o cálcio, o ferro e outros .

Como o universo não possui apenas exterioridade mas também interioridade podemos dizer que a profundidade psíquica deles vem habitada pelos movimentos mais primitivos do inconsciente coletivo com seus arquétipos ancestrais.

Sem estas determinações eles não seriam concretos como foram. Detenhamo-nos rapidamente na figura de Jesus pois ele é de nosso lar espiritual.

Pierre Teilhard de Chardin (+1955) viu a inserção cósmica de Jesus, chamado de Cristo e cunhou o termo “crístico” em distinção do “cristão”. O “crítico”é um dado objetivo da criação em evolução. Quando chega à consciência no homem Jesus, o “cristico” se transforma em “cristão” que é o “crístico” conscientizado.

Em outras palavras, o Jesus histórico não esgota em si todas as possibilidades contidas no “crístico”. O “crístico” irrompeu em Jesus mas pode emergir também em outras figuras e se encontra na raiz de todo o ser.

Para entender tais afirmações precisamos esclarecer a palavra “Cristo”. Não é um nome, mas um adjetivo que se atribui a uma pessoa. “Cristo” em grego ou “Messias” em hebraico significam o “ungido”.

“Ungido” é aquela pessoa assinalada para desempenhar uma determinada missão. O rei, os profetas, os sacerdotes eram “ungidos”, para desempenharem suas missões específicas. Mas cada pessoa individual é também um “ungido” pois tem o seu lugar no desígnio divino. Jesus foi chamado de “Cristo-ungido” por causa de sua obra redentora e libertadora, realizada de forma exemplar.

O budismo conhece semelhante caminho. Em primeiro lugar existe Sidarta Gautama, o ser histórico que viveu seiscentos anos antes de Cristo. Mediante um processo de interiorização e ascese chegou à “iluminação” que é um mergulho radical no Ser. Começou então a ser chamado de “Buda” que significa o “Iluminado”. Mas essa iluminação – ser Buda – não é o monopólio dele. Ela é oferecida a todos. Existe, portanto, a “budeidade”, aquela realidade radical que pode se autocomunicar de muitas formas às pessoas. O Buda é uma manifestação da “budeidade” que é a mais pura luz, a essência do Inominável. É um “ungido”.

Como transparece, o conteúdo concreto de “Cristo” e de “Buda” remete à mesma realidade “crística”. Ambos revelam o Ser que faz ser tudo o que é. Sidarta Gautama é uma manifestação do Cristo cósmico como o é também Jesus de Nazaré. Ou Jesus de Nazaré é um “Iluminado” como Buda.

Expressões singulares do Cristo cósmico ou da Iluminação são figuras como Krishna, Francisco de Assis. Mahatma Gandhi, o Papa João XXIII, Dom Helder Câmara, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce entre tantos e tantas. Eles e elas não esgotam as possibilidades desta sublime realidade “crística”. Ela se dá em todos. Mas neles ganharam tal densidade que se transformaram em referências e arquétipos orientadores para muitos.

O conhecido mestre yogui do Brasil, Hermógenes, já falecido, sem cair no sincretismo fácil mas a partir de uma profunda experiência espiritual de unidade com o Todo criou a seguinte fórmula como “Glória ao Uno”:

“Pedi a benção a Krishna. E o Cristo me abençoou.Orei ao Cristo. E foi Buda que me atendeu.Chamei por Buda.E foi Krishna que me respondeu”.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cristo, assim como outros que lutaram pela paz, teve morte violenta por sua mensagem e vida questionarem o sistema de poder vigente




Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Não é estranho, mesmo tragicamente contraditório, o fato de que os que mais fizeram em prol da paz, da justiça, da igualdade, libertação de consciências tenham tido quase sempre morte violenta? Ao menos, no Ocidente que se julga tão especial, isto tem sido quase que uma regra, mas não apenas aqui. Lembremos da morte trágica de Gandhi, que também foi violenta apesar de sua luta pacífica e de diálogo entre as diferenças.  

   A forma como tratamos os melhores homens e mulheres diz muito de nosso estágio evolutivo. Não é preciso expor exemplos inúmeros para confirmar isto. Basta alguns mais. Citemos, entre tantos, os de Sócrates, Jean Huss, Giordano Bruno, ou, mas recentemente, Martin Luther King, a injusta prisão de Nélson Mandela, entre outros casos assemelhados de perseguições a quem luta por justiça e igualdade social... Mas, sem dúvida, na História, talvez o mais conhecido e chocante dos casos tenha sido o de Jesus de Nazaré que, aliás, foi modelo para os citados acima no seu método de enfrentar as injustiças, com exceção de Sócrates e Buda que foram de uma época anterior. Dele sabemos que pregou e exemplificou o amor, a justiça, a irmandade entre todos os homens e mulheres e, com isto, expôs uma ética radical que, para o status quo de sua época - e também hoje -, era inaceitável e o levariam ao suplício.

 Independente de ter ou não Cristo a intenção de criar uma nova religião, não pode haver dúvidas de que ele pretendia despertar consciências, como o fizeram antes dele Sócrates, na Grécia, ou Buda, na Índia. E tal despertar não se faria apenas por uma aceitação "teórica" da paternidade de Deus. Tal realidade nos faz todos irmãos e só tem sentido na vivência ética da irmandade. É isto que fica explícito na doutrina original de Jesus resumida, pelos evangelistas, no famoso Sermão da Montanha, Aqui, destacamos o seguinte trecho do capítulo 25 do evangelho artibuído a Mateus, demonstrando , em sua linguagem poética muito útil para se gravar na memória, bem claramente que Cristo não separava a consciência do Reino de Deus de sua aplicação social na Terra:
34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; 
35 Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; 
36 Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 
37 Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? 
38 E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? 
39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 
40 E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 
41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; 
42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; 
43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 
44 Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 
45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. 
   Compare estas palavras com estas outras, também encontradas no evangelho atribuído a Mateus, capítulo 7:
21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 
22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? 
23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. 
24 Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; 
25 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. 
26 E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; 
27 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda. 
28 E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina; 
29 Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas.
  Portanto, o "Reino dos Cèus" se advém de Deus e de sua justiça, haveria de ser aplicado igualmente sobre a terra. Ou, em outras palavras, o a perfeição da justiça celesta haveria de ser aplicada igualmente na Terra e seu exemplo de vida seria o paradigma disto. Afinal, "o Reino dos Céus está dentro de vós" (Lucas 17:20-21).

  Isto não impedia que o próprio Jesus fizesse críticas severas aos que deveriam, mais que todos, cumprir a Lei Moral do judaísmo, que já traz, no meio de tanta letra morta, as pérolas referentes à regra de Ouro: Fazer a outrem o que gostaria que se fizessem.

  As discussões por vezes quase violentas entre Jesus e os doutores da Lei do Templo são bem conhecidas, como igualmente conhecida é sua atitude de expulsar os vendilhões do templo. Justiça social e crítica à hipocrisia eram expressões do ensinamento de Cristo e foi isto que lhe faria seguir em rota de colisão com os interesses poderosos deste mundo e o resultado final todos conhecemos. Daí também o fato de que a ética radical de Jesus por vezes ficar encoberta pela letra nos escritos que sobre ele foram feitos, anos depois de sua morte sem que, no entanto, impedisse o despertar, ao menos nos três primeiros séculos, de pessoas de todas as classes sociais para a solidariedade e a crítica social, motivo das perseguições violentas aos cristãos até a época de Constantino. Infelizmente, a clareza revolucionária da mensagem original estaria sendo soterrada por uma série de encobrimentos dogmáticos e teológicos à medida que a Igreja se aproximava mais de César que do povo. Fica, então, uma pergunta: em nossa época de egoísmo exacerbado, individualismo e neofascismo galopante, como os poderosos de hoje tratariam Jesus Cristo?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Guilherme Boulous reflete sobre como Jesus Cristo, com sua mensagem de fraternidade e partilha, seria tratado no Brasil (e no mundo) de Hoje...


Guilher Boulous é professor universitário escritor e ativista social, formado em Filosofia pela USP.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Leonardo Boff sobre o Natal: Sempre que nasce uma criança, em meio a um mundo transformado em caos pela ação humana, há o sinal de uma divina esperança...




Natal: sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano

Texto de Leonardo Boff


23/12/2015

Estamos na época de Natal mas a aura não é natalina, é antes de sexta-feira santa. Tantas são as crises, os atentados terroristas, as guerras que, juntas, as potências belicistas e militaristas (USA, França, Inglaterra, Russa e Alemanha) conduzem contra o Estado Islâmico, destruindo praticamente a Síria com uma espantosa mortandade de civis e de crianças como a própria imprensa tem mostrado, a atmosfera contaminada por rancores e espírito de vindita na política brasileira, sem falar dos níveis astronômicos de corrupção: tudo isso apaga as luzes natalinas e amortecem os pinheirinhos que deveriam criar uma atmosfera de alegria e de inocência infantil que ainda persiste em cada pessoa humana.

Quem pôde assistir o filme Crianças Invisíveis, em sete cenas diferentes, dirigido por diretores renomados como Spike Lee, Katia Lund, John Woo entre outros, pode se dar conta da vida destruída de crianças, de várias partes do mundo, condenadas a viver do lixo e no lixo; e ainda assim há cenas comovedoras de camaradagem, de pequenas alegrias nos olhos tristes e de solidariedade entre elas.

E pensar que são milhões hoje no mundo e que o próprio menino Jesus, segundo os textos bíblicos, nasceu fora de casa, numa mangedoura de animais porque não havia lugar para Maria, em serviço de parto, em nenhuma estalagem de Belém. Ele se misturou com o destino de todas estas crianças maltratadas pela nossa insensibilidade.

Mais tarde, esse mesmo Jesus, já adulto dirá:”quem receber esses meus irmãos e irmãs menores é a mim que recebe”. O Natal se realiza quando ocorre esse acolhimento como aquele que o Padre Lancelotti organiza em São Paulo para centenas de crianças de rua sob um viaduto e que contou, por anos, com a presença do Presidente Lula.

No meio desta desgraceira toda, no mundo e no Brasil, me vem à mente o pedaço de madeira com uma inscrição em pirografia que um internado num hospital psiquiátrico em Minas Gerais me entregou por ocasião de uma visita que fiz por lá para animar os atendentes. Lá estava escrito: ”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”.

Poderá haver ato de fé e de esperança maior que este? Em algumas culturas de África se diz que Deus está de uma forma toda especial presente nos assim chamados por nós de “loucos”. Por isso eles são adotados por todos e todos cuidam deles como se fossem um irmão ou uma irmã. Por isso são integrados e vivem pacificamente. Nossa cultura os isola e não se reconhece neles.

O Natal deste ano nos remete à essa humanidade ofendida e a todas as crianças invisíveis cujos padecimentos são como os do menino Jesus que, certamente, no severo inverno dos campos de Belém, tiritava na mangedoura. Segundo lenda antiga, foi aquecido pelo bafo de dois velhos cavalos que como prêmio ganharam, depois, plena vitalidade.

Vale lembrar o significado religioso do Natal: Deus não é um velho barbudo, de olhos penetrantes e juiz implacável de todos os nossos atos. É uma criança. E como criança não julga ninguém. Quer apenas conviver e ser acarinhado. Da mengedoura nos vem esta voz: ”Oh, criatura humana, não tenhas medo de Deus. Não vês que sua mãe enfaixou seu bracinhos? Ele não ameaça ninguém. Mais que ajudar, ele precisa ser ajudado e carregado no colo”.

Ninguém melhor que Fernando Pessoa entendeu o significado humano e verdadeiro do menino Jesus:

”Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro…Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano. E deita-me na cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.

Dá para conter a emoção diante de tanta beleza? Por causa disso, vale ainda, apesar dos pesares, celebrar discretamente o Natal.

Por fim tem alto significado esta última mensagem singela  e encantadora: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser “deus”. Só Deus quis ser menino”.

Abracemo-nos mutuamente, como quem abraça a Criança divina (o puer aeternus) que se esconde em nós e que nunca nos abandonou.

E que o Natal seja ainda uma festa discretamente feliz.

Leonardo Boff escreveu O Natal, a bondade e a jovialidade de nosso Deus,Vozes,Petrópolis 2003.

domingo, 5 de abril de 2015

A Páscoa permite relembrar a mensagem "subversiva" do Cristo. Deve ser por isso que o comércio e a midia, representantes dos opressores, o substituíram pelo consumismo e seu nome e mensagem são por eles evitados....




Cristo, sempre  e continuamente, é maltrado a cada dia, mesmo e principalmente pelos que se dizem "cristãos", no modo como pessoas pretensamente "esclarecidas" destratam os excluídos... Veja-se, por exemplo, a hipocrisa das bancadas religiosas, encobrindo ou mesmo estimulando as reais causas da violência e aprovando projetos para a reduação da maioridade penal, passando ao largo das origens reais da exploração e exclusão social...

Jesus, o perigoso Subversivo

texto de

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Sua pregação e, mais ainda, seu modo de vida foram interpretados como subversivos e sua mensagem e exemplos, como questionamentos do status quo das elites de seu tempo e, portanto, um perigo às forças de ocupação romanas e à burocracia judaica do Templo de Jerusalém, associadas aos primeiros. 
   
 Por sua mensagem ter repercutido em meio aos excluídos, aos marginalizados e ao povo, seu movimento de renovação das mentalidades tornou-se um verdadeiro escândalo para às forças opressoras e, assim, Jesus de Nazaré foi condenado publicamente à uma dolorosa e vergonhosa morte, sob duplo julgamento das elites da judeia e das forças do imperialismo dominante de então: Roma. Tudo isto simplesmente porque este homem pregava o amor, a fraternidade, a igualdade e a dignidade dos excluídos, dos pobres, dos que sofrem como consequencia de uma sociedade doente. Desde então, todos os que lutam pela igualdade, pela paz, pela renovação social são igualmente atacados, a maior parte sendo assassinada, tendo, depois, as suas memórias apossadas e deturpadas pelas mesmas forças que os perseguiram e mataram, fazendo-se muitas vezes, intérpretes e representantes das mensagens originais, distorcendo-as em proveito próprio... 

 Por pregar e exemplificar a fraternidade e o reconhecimento da importância humana, sem fazer distinções de classe, credo ou nível social, nem cobrar dízimos ou reconhecimento, Jesus se tornou o exemplo paradigmático do pacifista que é assassinado pelos grupos dominantes ou poderosos, como ocorreria mais tarde com tantos outros, como Jan Huss, Giordano Bruno, Gandhi, Martin Luther King, etc. e ainda teve sua vida e exemplos manipulados pelos mesmos poderosos grupos, posteriormente, para a manipulação de consciências em proveito próprio, num histórico que vai do Imperador Constantino aos atuais pastores midiáticos. 

 Hoje sua vida, nascimento e morte transformaram-se em pretextos secundários para um imenso comércio, em grande parte pela ação de muitos dos que se dizem "cristãos" e se julgam "salvos". 

 Porém, em sua sabedoria e conhecimento das limitações humanas, o próprio Jesus já havia alertado de que ninguém é mais especial ou tem mais vantagens diante de Deus por gritar "Senhor, Senhor", mas tão somente aqueles que fizerem boas obras em favor de seu semelhante, tornando-se expressão e ação do amor, sejam ou não cristãos (confira em Mateus 25: 41-45).



sábado, 4 de abril de 2015

Leonardo Boff: "A Ressurreição como insurreição" contra a perversidade dos maus


   "A ressurreição de Jesus mostrou que Deus tomou o partido dos vencidos. O algoz não triunfa sobre sua vítima. Deus ressuscitou a vítima e com isso não defraudou nossa sede por um mundo finalmente justo e fraterno que coloca a vida no centro e não o lucro e os interesses dos poderosos. Só ressuscitando os vencidos, fazemos justiça a eles e lhes devolvemos a vida roubada, vida agora transfigurada. Sem essa reconciliação com o passado perverso, a história permaneceria um enigma e até um absurdo."

Aparição de Cristo a Maria Madalena após a Ressurreição. Quadro de Alexander Ivanov (1806-1858)


A ressurreição como insurreição


Leonardo Boff


  Há uma questão da existência social do ser humano que atormenta o espírito e para a qual a ressurreição do Crucificado pode trazer um raio de luz: que sentido tem a morte violenta dos que tombaram pela causa da justiça e da liberdade? Que futuro têm aqueles proletários, camponeses, índios, sequestrados, torturados, assassinados pelos órgãos de segurança dos regimes despóticos e totalitários, como os nossos da América Latina, em fim, os anônimos que historicamente foram trucidados por reivindicarem seus direitos e a liberdade para si e para toda uma sociedade?

 Geralmente a história é contada pelos que triunfaram e na perspectiva de seus interesses. A nossa, a brasileira, foi escrita pela mão branca. Só com o historiador mulato Capistrano de Abreu apareceu a mão negra e mulata. O sofrimento dos vencidos quem o honrará? Seus gritos caninos que sobem ao céus quem os escutará?

 A ressurreição de Jesus pode nos oferecer alguma resposta. Pois, quem ressuscitou foi um destes derrotados e crucificados, Jesus, feito servo sofredor e condenado à vergonha da crucificação.

 Quem ressuscitou não foi um César no auge de sua glória, nem um general no apogeu de seu poderio militar, nem um sábio na culminância de sua fama, nem um sumo-sacerdote com perfume de santidade. Quem ressuscitou foi um Crucificado, executado fora dos muros da cidade, como lembra a Carta aos Hebreus, quer dizer, na maior exclusão e infâmia social.

 Mas foi ele que herdou as primícias da vida nova. Pois a ressurreição não é a reanimação de um cadáver como aquele de Lázaro. A ressurreição é a floração plena de todas as virtualidades latentes dentro de cada ser humano. Ela revela o sentido terminal da vida: a irradiação suprema do “homo absconditus” (o humano escondido) que agora se faz o “homo revelatus”(o humano revelado).

 A ressurreição de Jesus mostrou que Deus tomou o partido dos vencidos. O algoz não triunfa sobre sua vítima. Deus ressuscitou a vítima e com isso não defraudou nossa sede por um mundo finalmente justo e fraterno que coloca a vida no centro e não o lucro e os interesses dos poderosos. Só ressuscitando os vencidos, fazemos justiça a eles e lhes devolvemos a vida roubada, vida agora transfigurada. Sem essa reconciliação com o passado perverso, a história permaneceria um enigma e até um absurdo.

  Os injustamente executados voltarão, com a bandeira branca da vida. O verdadeiro sentido da ressurreição se mostra como insurreição contra as injustiças deste mundo que condena o justo e dá razão ao criminoso.

  Agora pode começar uma nova história, com um horizonte aberto para um futuro promissor para a vida, para a sociedade e para a Terra. Dizem historiadores que o mundo antigo não conhecia o sorriso. Mostrava a gargalhada do deus Baco ou o riso maldoso do deus Pan. O sorriso, comentam, foi introduzido pelo Cristianismo por causa da alegria da Ressurreição. Só pode sorrir verdadeiramente quando se exorcizou o medo e se sabe que a grande palavra final é vida e não morte. O sorriso, portanto, é filho da Ressurreição que celebra a vitória da vida sobre a morte, testemunha o encantamento sobre a frustração e proclama o amor incondicional sobre a indiferença e o ódio.

  Este fato é religioso é somente acessível mediante a ruptura da fé. Admitindo que a ressurreição realmente aconteceu intra-historicamente, então seu significado transcende o campo religioso. Ganha uma dimensão existencial, social e cósmica. Na expressão de Teilhard de Chardin, a ressurreição configura um “tremendous” de dimensões evolucionárias, pois representa uma revolução dentro da evolução.

  Se o Cristianismo tem algo singular a testemunhar, então é isso: a ressurreição como uma antecipação do fim bom do universo e a irrupção dentro da história ainda em curso do “novissimus Adam” como São Paulo chama a Cristo: o “Adão novíssimo”. Portanto, não é a saudade de um passado mas a celebração de um presente.

  Depois disso, cabe apenas se alegrar, festejar, ir pelos campos para abençoar os solos e as semeaduras como o faz ainda hoje Igreja Ortodoxa na manhã de Páscoa.Entoemos, pois, o Aleluia da vida nova que se manifestou dentro do velho mundo.

  Leonardo Boff, ecoteólogo e filposofo, é autor de A nossa ressurreição na morte (Editora Vozes).

domingo, 22 de março de 2015

Se Cristo estivesse a iniciar seu ministério no Brasil de hoje....





 E ele entregou à vida à causa que acreditava: que o Reino pertencia aos Excluídos, aos pobres, aos proscritos sociais.... Por defender e exemplificar esta mensagem, as elites, judaicas e romanas, de seu tempo o assassinaram...  E ainda depois, como faz a mídia de hoje, manipularam sua mensagem para justificar a permanência das divisões, as velhas injustiças e as elites (incluindo, entre elas, as religiosas) de sempre! Estivesse ele no Brasil de hoje e a bancada e igrejas evangélicas seriam os primeiros a persegui-lo, seguido de perto pela mídia elitista.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Papa Francisco lembra que é acusado por ricos e elitistas de ser "comunista" por dar voz aos pobres e ficar ao lado deles

Seguem dois diferentes mas complementares textos sobre o posicionamento realmente Cristão, posto que voltado para a justiça social e o apoio dos mais pobres, do Papa Francisco:

Texto I, extraído da Agência Ecclesia:



Vaticano: «Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos»



Francisco lembra quem o acusa de ser «comunista» por dar voz aos pobres

Cidade do Vaticano, 28 out 2014 (Ecclesia) - O Papa Francisco apelou hoje à defesa dos direitos dos trabalhadores e das suas famílias, durante um encontro com os participantes no primeiro encontro mundial de Movimentos Populares.

“Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”, declarou, perante trabalhadores precários e da economia informal, migrantes, indígenas, sem-terra e pessoas que perderam a sua habitação.

O encontro é promovido até quarta-feira pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz (Santa Sé), em colaboração com a Academia Pontifícia das Ciências Sociais.

“Não existe pior pobreza material do que aquela que não permite ganhar o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos laborais não são inevitáveis, são o resultado de opção social prévia, de um sistema económico que coloca os lucros acima do homem”, defendeu o Papa.

A intervenção alertou para o “escândalo da fome” e as consequências da “cultura do descartável”, condenando os “eufemismos” que se utilizam para falar do “mundo das injustiças”.


“Este sistema já não se consegue aguentar. Temos de mudá-lo, temos de voltar a levar a dignidade humana para o centro: que sobre esse pilar se construam as estruturas sociais alternativas de que precisamos”, explicou.

Francisco criticou o “império do dinheiro” que exige a “guerra”, o comércio de armamentos, para a sobrevivência de “sistemas económicos”.

O Papa agradeceu aos participantes pela sua presença no Vaticano para “debater tantos graves problemas sociais que afetam o mundo de hoje” desde a perspetiva de quem sofre a desigualdade e a exclusão “na sua própria carne”.

“Terra, teto e trabalho. É estranho, mas se falar disto, para alguns parece que o Papa é comunista”, começou por referir, antes de recordar que “o amor pelos pobres está no centro do Evangelho”.

"Terra, teto e trabalho, aquilo por que lutam, são direitos sagrados. Reclamar isso não é nada de estranho, é a Doutrina Social da Igreja", assinalou.

O Papa pediu que se mantenha viva a vontade de construir um mundo melhor, “porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai, ficou órfão porque deixou Deus de lado”.

Num discurso de cerca de meia hora, Francisco referiu que a presença dos Movimentos Populares é um “grande sinal”, porque estão no Vaticano para “pôr na presença de Deus, da Igreja, uma realidade muitas vezes silenciada”.

“Os pobres não só sofrem a injustiça mas também lutam contra ela”, precisou.

Jesus, acrescentou, chamaria “hipócritas” aos que abordam o “escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção” para procurar fazer dos pobres “seres domesticados e inofensivos”.


O discurso papal abordou ainda os temas da paz e da ecologia, para além das questões centrais do emprego e da habitação.

“São respostas a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos. Um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza que está cada vez mais longe da maioria”, sublinhou Francisco.


O Papa convidou os participantes a prosseguirem com a sua luta, “que faz bem a todos”, e deu-lhes como presente uns terços fabricados por artesãos, ‘cartoneros’ e trabalhadores da economia popular na América Latina.

Texto II: Extraído do Tijolaço.com.br:


“Parece que o Papa é comunista”, diz Francisco


29 de outubro de 2014 | 11:22 Autor: Fernando Brito

Definitivamente – e apesar da Cúria Romana – o Papa Francisco entrou na disputa por corações e mentes da qual a Igreja Católica havia se afastado.

É obvio – a gente anda precisando dizer o obvio, do jeito que as coisas andam – que o papa não é comunista. E não é também de nenhuma “esquerda católica” militante.


Mas seu líder, hoje,  além de humanidade, tem a percepção de que o catolicismo se enfraqueceu.

Primeiro, na Europa, e nos últimos 20 anos, também no Terceiro Mundo.

Vai enfrentar inúmeras dificuldades e resistências, mas sabe que, sem isso, continuará o afastamento das grandes massas populares da fé católica.

Sabe, também, que o espaço conservador, em grande parte, foi ocupada pelo protestantismo e suas fortes raízes – e canais de financiamento – norte-americanos.

Seu discurso, nos dias de hoje, provocaria tremores e esgares de ódio em qualquer reunião de madames, no Brasil.

É bem provável, mesmo, que o achassem comunista. Ou argentino, ou nordestino, ou “bovino”, como diz Diogo Mainardi.

Eu, apesar das minhas desavenças com Deus, estou achando é divino.






sábado, 11 de janeiro de 2014

A renovação social e o retorno aos pobres e a Cristo na Igreja do Papa Francisco


Segue reflexão importante do filósofo, ecologista e teólogo Leonardo Boff:

Os movimentos populares latino-americanos junto ao Papa Francisco





Algo inaudito está acontecendo com a Igreja Católica sob a direção do Papa Francisco. Uma coisa é falar dos pobres e dos excluídos e denunciar a violência praticada contra eles. E deixá-los lá longe com suas penas. 

A Igreja assumia, normalmente, uma função tribunícia: se propunha representar, como um  tribuno, os pobres. Agora com esse Papa, na linha da tradição latino-americana, os pobres e excluidos são considerados sujeitos autônomos. Como tais são convocados a Roma, junto à Sé Apostólica, para falarem por si mesmos. 

Ouvir a versão das vitimas e não apenas ouvir os analistas cinetíficos das causas que os tornam o que são, excluidos e explorados. O Papa empenhou a Academia Pontificia de Ciências para estudar as causas desta perversão. 

O tema fala por si: A emergência dos Exluidos". Isso nos remete a um tema central da Teologia da Libertação ainda nos seus primórdio: "A emergência dos pobres".  Lá estavam João Pedro Stédile do Movimento dos Sem Terra- Via Campensina, Juan Grabois  do Movimento do Trabalhadores Excluidos e  ainda os Trabalhadores da Economia Popular entre  outros que falaram no seu próprio dialeto de movimentos de base. Grabois foi posteriormente recebido pessoalmente pelo Papa. 

Uma coisa é ver o Brasil a partir das caravelas dos colonizadores: a paisagem é uma. Outra coisa é ver o Brasil a partir da praia: uma paisagem diria paradisíaca composta de indios inocentes, nus e hospitaleiros. É um outro Brasil. Algo semelhante ocorre aqui. Agora podemos ouvir como as vítimas denunciam elas mesmas os causadores de sua desgraça e da guerra total que se move contra a Mãe-Terrra. Como vão se justificar os “donos” do mundo, do dinheiro, dos rumos que impõem com força e violência aos outros? Terão que vir a público e todos poderemos ver  as suas desrazões e a crueldade e impiedade que praticam contra o sistema-vida, sistema-Humandidade e sistema-Terra. 

Por que a grande mídia não deu relevância nenhuma a este fato? É porque essa “gente” não conta para o sistema. Somente atrapalham “o crescimento”. Mas algo do Spirtus Creator, chamado de “Pater pauperum” pela liturgia da festa do Espírito Santo, o “Pai dos Pobres” está irrompendo na Humanidade pelos caminhos da Igreja franciscana de Francisco de Roma, seguidor de Francisco de Assis. Poderá ser o começo de uma nova vontade de reinventar a Humanidade par que não seja tão malvada e inimiga da vida. Leonardo Boff.


MST – Via Campesina – MTE (*)
Arquivo

No último dia 5 de dezembro se produziu um acontecimento sem precedentes. Nós, das organizações populares, pudemos fazer ouvir nossa voz no Vaticano, pontualmente na Pontifícia Academia de Ciências, no marco de um colóquio intitulado “A Emergência dos Excluídos” (1). A atividade foi coordenada pelo chanceler da Academia, Monsenhor Marcelo Sánchez Sorondo, a pedido do próprio Francisco.
Depois da abertura do colóquio, a cargo do Cardeal Peter Turkson, o companheiro Juan Grabois (Movimento de Trabalhadores Excluídos – Confederação de Trabalhadores da Economia Popular), co-organizador do evento, abriu a discussão com sua palestra “Capitalismo de Exclusão, periferias e movimentos populares” (2). Durante sua intervenção, Grabois denunciou a existência de um modelo econômico de exclusão, baseado na busca irresponsável de lucro, a primazia do capital financeiro especulativo, a cultura consumista do desperdício, a usurpação da natureza e a claudicação dos estados nacionais frente ao capital mundial.

Nesse marco, afirmou, se desenvolveram os fenômenos de injustiça social contemporâneos como a dos 1,5 bilhões de companheiros vivendo em condições inumanas em favelas ou a degradação do trabalho que joga mais da metade da classe trabalhadora global em situações de total informalidade e extrema precariedade.
Por sua parte, o companheiro João Pedro Stédile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST – Via Campesina), afirmou a importância de compreender as causas da multiplicação dos excluídos no mundo e não deter-se exclusivamente nas consequências. Entre elas, indicou, algumas características do capitalismo contemporâneo como a ofensiva do capital sobre a natureza, onde se pretende privatizar todos os bens comuns da humanidade: a terra, a água, o subsolo e inclusive o ar. Também chamou a atenção para a insuficiência da democracia formal para permitir a participação de todas as pessoas, especialmente dos trabalhadores e os humildes e exigiu formas participativas de democracia.

Finalmente, denunciou a existência de monopólios midiáticos que pretendem controlar a imprensa e a cultura mundial a serviço do modelo consumista e das estruturas de poder hegemônicas.

Outros panelistas, entre os que se encontravam Romano Prodi – ex-Presidente da Itália, de orientação socialdemocrata – e Jeffry Sachs – economista de orientação neoliberal durante a década de noventa que deu uma guinada à posições de maior sensibilidade social -, com independência de sua filiação ideológica, coincidiram na gravidade do problema e reafirmaram diversos aspectos do mesmo, como a impotência dos partidos políticos frente ao poder econômico, o escândalo da evasão impositiva dos ricos e a impossibilidade de arrecadar os fundos para os programas sociais da ONU pela mesquinharia das grandes potências.

De especial interesse foi a exposição de Veerabhadran Ramanathan, um dos principais especialistas do mundo em mudança climática, que afirmou com contundência a responsabilidade das grandes empresas e dos países desenvolvidos nesta situação que, paradoxalmente, afetam principalmente os mais humildes pela vulnerabilidade econômica e habitacional que padecem. Indicou que, de não realizar-se as mudanças necessárias, a temperatura se elevará irremediavelmente 40 C nos próximos 50 anos com consequências catastróficas para toda a humanidade.

O colóquio se encerrou com uma discussão geral na qual não faltaram contrapontos entre os presentes, sempre em um marco de respeito e diálogo.

Todos os participantes fizeram reiteradas referências à Exortação Apostólica Evangelii Gaudium(3) que contém categóricos e esclarecedores conceitos sobre a situação dos excluídos e a matriz excludente da economia global.

De nossa parte, como representantes de movimentos populares, afirmamos que devemos primeiro analisar as causas da multiplicação dos excluídos no mundo, para depois buscar as verdadeiras saídas e, entre as causas enumeramos:

a) Há uma ofensiva mundial do capital financeiro e transnacional para privatizar e apoderar-se de todos os bens da natureza: minas, terra, biodiversidade, água, ventos e até o ar, com os títulos de crédito de carbono. Isso vai contra toda a lógica de desenvolvimento da humanidade de que os bens da natureza pertencem a todos/as e devem cumprir uma função social de gerar bem-estar para todos/as. Privatizar a natureza e transformar os alimentos apenas em mercadorias, onde só pode ascender quem tem dinheiro, é colocar em risco a vida humana.

b) A concentração econômica. O mundo econômico é refém de não mais de 300 empresas transnacionais que controlam 58% do PIB mundial, e dão trabalho a apenas 8% da população economicamente ativa. Eles são os que controlam a economia e os governos. Por isso os governos se reúnem, mas não decidem nada.

c) A democracia formal ou burguesa falhou. As formas de representação estão em crise e não respondem aos interesses dos povos. Porque em todos os países há mecanismos de financiamento das campanhas eleitorais pelas grandes empresas de controle da opinião pública, que foi distanciando os poderes judiciário, legislativo e executivo da vontade real dos povos. Há necessidade urgente de desenvolver novas formas de participação popular nos três poderes e novas formas de representação política, em todo o mundo. Uma democracia que, além de formal, seja real.

d) Há uma revolução tecnológica em curso, com a informática e a Internet, que ampliou o acesso à informação. Mas isso não levou à democratização do acesso à educação formal para todos os jovens. Os níveis de acesso, se ficam no ensino primário e secundário, na maioria dos países, os jovens não entram nas universidades, e temos milhões de trabalhadores adultos não alfabetizados, à margem da modernidade. O pobre analfabeto, não é cidadão enquanto não conheça as letras!
e) Há um controle das ideias, dos desejos e da opinião pública pela concentração do poder midiático em todos os países do mundo. A construção de uma democracia necessita democratizar, em primeiro lugar, os meios de comunicação

Finalizada a jornada, Stédile e Grabois mantiveram uma prolongada reunião com o Cardeal Turkson, presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz, na qual intercambiaram opiniões sobre diferentes questões sociais e discutiram alternativas para dar continuidade ao diálogo entre Igreja e movimentos populares.
No dia seguinte, no marco de uma audiência privada com o sumo pontífice, Grabois entregou ao Papa Francisco dois obséquios: um quadro de sementes elaborado por uma camponesa do MST e um barco de papelão reciclado realizado pelos papeleiros do MTE. Francisco filmou uma mensagem para os camponeses (4) e outra para os papeleiros (5) no qual expressa sua solidariedade com ambos os setores e seu respaldo a sua luta pelo trabalho, a terra, a vida comunitária e o ambiente.

Por sua parte, Stédile participou de uma série de reuniões com organizações camponesas e sociais italianas, como o Comitê de Apoio ao MST e o espaço de autogestão STRIKE, onde se reúnem jovens em condições precárias. Também brindou uma extensa entrevista coletiva no Teatro Ocupado Valle, frente grande quantidade de militantes sociais italianos.

Tanto Stédile como Grabois expressaram que voltavam a seus respectivos países com renovada sensação de que os trabalhadores, os excluídos, os pobres da terra, e suas organizações têm um importante apoio em sua luta pela Justiça Social e que se abre uma nova etapa na unidade global do campo popular.

(*) Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) – Via Campesina – Movimento de Trabalhadores Excluídos (MTE) na Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) 

Notas:

(1) http://www.casinapioiv.va/content/dan/accademia/booklet/booklet_excluded.pdf
(2) http://www.casinapioiv.va/content/dan/accad emia/pdf/sv123/sv123-grabois.pdf
(3) http://www.aciprensa.com/Docum/evangeliigaudium.pdf
(4) O Papa Francisco, em sua mensagem  aos camponeses disse: “Uma saudação aos que estão participando da assembleia da Via Campesina, que expressa de alguma maneira o amor à terra, que há uma relação entre quem cuida da terra e quem cultiva a terra…e que a terra responde dando sua riqueza e seus frutos, cuidar da terra, não abusar dela, trabalhar a terra, mas ao mesmo tempo, trabalhar em comunidade, trabalhar como irmãos, essa relação entre a criação que Deus nos deu, entre a irmandade que Deus quer conosco, vai fazer bem a todos, não maltratar a terra, não maltratar-nos entre nós , e continuar adiante, que Deus os bendiga…” (https://docs.google.com/file/d/0B_yUztFLNxbfYkJMeEs5QWJnNzg/edit?pli=1)

(5) http://www.youtube.com/watch?v=Bkm88broxUE&feature=youtu.be

O texto se encontra no Boletim Carta Maior de 8 de janeiro de 2014.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Jesus, o Maior Revolucionário de Todos os Tempos



texto de

Carlos Antonio Fragoso Guimarães


   Por ter sido considerado um perigo ao império romano e ao status quo elitista judeu, Jesus de Nazaré foi condenado à uma morte vergonhosa e dolorosa em público. Apesar disto, este homem só pregou o amor, a fraternidade, a igualdade, justiça social.... Por pregar exatamente estas coisas, nunca cobrando dízimos ou fazendo distinções de classe, credo ou nível social, foi condenado ontem e tem hoje seu exemplo e palavras deturpadas pelas atuais elites e líderes religiosos farisaicos, especialmente os midiáticos, que se auto-intitulam enfatuadamente de "Cristãos". Até mesmo seu Natal foi transformado em uma festa comercial, em grande parte por pessoas que se julgam "salvas", embora ele mesmo tenha dito que não são as que dizem "Senhor, Senhor" que entrarão no Reino de Deus, mas as que, de fato, fizeram boas obras ao próximo (Mt. 25: 41-45) e não as que, gritando hoje "Senhor, Senhor" dedicam grande parte de suas vidas ao deus do capitalismo.

  Abaixo, segue os dizeres do pessoal da Occupy Wall Street sobre o Maior Revolucionário de todos os tempos:

"JESUS FOI UM REVOLUCIONÁRIO RADICAL NÃO-VIOLENTO, que andava com prostitutas, leprosos e bandidos. Não era estadunidense, nunca falou inglês, foi anti-riqueza, avesso à pena de morte, e contra orar em público, mas nunca foi anti-gay, jamais mencionou aborto nem controle de natalidade. Nunca chamou o pobre de preguiçoso, não defendeu a tortura, não lutou por reduzir impostos dos nazarenos mais ricos, nunca cobrou para atender leprosos. Foi um judeu de cabelos longos, pele morena, sem teto, um organizador comunitário que se opunha ao apedrejamento de prostitutas.
FELIZ ANIVERSÁRIO PRA ESSE GRANDE CARA!! E um triste festejo cheio de consumismo para os fiéis que não entenderam nada."

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O fracasso das promessas de felicidade da tecnociência, a desumanização das relações humanas, a atualidade da mensagem de Cristo e uma nova luz no fim do túnel


Mais uma reflexão de Leonardo Boff sobre as ilusões do mecanicismo e a resistência e força da vida, da mensagem de espiritualidade resistindo  às armadilhas de alienação do neoliberalismo capitalista direitista e "coisificador":

Há saída para o desamparo atual e alegria para o coração?




Leonardo Boff



Inegavelmente vivemos tempos sombrios nos quais as estrelas-guias desapareceram e com elas a alegria de viver e a esperança de uma humanidade mais humana e de uma Terra mais cuidada. As promessas do projeto da tecno-ciência com seu sonho de um progresso ilimitado e da economia neoliberal de mercado oferecendo um consumo generalizado produziram decepção e fracasso. Excluíram milhões e milhões de pessoas. Bem diz o Papa Francisco: "a sociedade técnica multiplicou as possibilidades de prazer mas tem  grandes dificuldades de engendrar alegria”(Exortação,n.7). Prazer é coisa dos sentidos. Alegria é coisa do coração. E nosso modo de ser é sem coração.

Eis que no meio deste mal-estar mundial irrompeu uma figura que nos devolveu esperança, alegria e gosto pela beleza: o Papa Francisco. Seu primeiro texto oficial leva como título Exortação Pontifícia Alegria do Evangelho. Todo texto vem perpassado pela alegria, pelas categorias  do encontro, da proximidade, da misericórdia, da centralidade dos pobres, da beleza, de “revolução da ternura” e da “mística do viver juntos”.

Essa alegria não é de bobos alegres que o são sem saber porquê. Ela brota de um encontro com uma Pessoa concreta que lhe suscitou entusiasmo, lhe produziu elevo e simplesmente o fascinou. É a figura de Jesus de Nazaré. Não se trata daquele Cristo, coberto de títulos de pompa e glória que a teologia posterior lhe conferiu. Mas é o Jesus do povo simples e pobre, das estradas poeirentas da Palestina que trazia palavras de frescor e de fascínio. O Papa Francisco testemunha o reencontro com essa Pessoa.  Foi tão arrebatador que mudou sua vida e lhe criou uma fonte inesgotável de alegria e de beleza. Para ele evangelizar é refazer esta experiência e a missão da Igreja é resgatar o frescor e o fascínio pela figura de Jesus. Evita a palavra já feita oficial de “nova evangelização”. Prefere “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, fascínio, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia.

Que diferença com os seus predecessores de séculos. Apresentavam um Cristianismo como doutrina, dogma e norma moral. Exigia-se adesão irrestrita e sem qualquer laivo de dúvidas pois  gozava das características da infalibilidade.

O Papa Francisco entende o Cristinianismo em outra chave. Não é uma doutrina. É um encontro pessoal com uma Pessoa, com sua causa, com sua luta, com sua capacidade de enfrentar as dificuldades sem fugir delas.    Agradam-se sobremaneira as palavras contidas na Epístola aos Hebreus onde se diz que Jesus “passou pelas mesmas provações que nós… que foi cercado de fraqueza… que entre clamores e lágrimas suplicou àquele que o  podia salvar da morte e que não foi atendido em sua angústia”, consoante os estudos de dois grandes sábios nas Escrituras A. Harnack e R. Bultmann que dão essa versão no lugar daquela que está na Epístola”e foi atendido em sua piedade”(eusebeia em grego pode significar alem de piedade, também angústia)…”que teve que aprender a obedecer mediante o sofrimento”(Hebreus 4,15; 5,2.7-8).

Na evangelização tradicional tudo passava pela inteligência intelectual (intellectus fidei) expresssa pelo credo e pelo catecismo. Na Exortação, o Papa Francisco chega a dizer que “aprisionamos Cristo em esquemas enfadonhos…e assim privamos o cristianismo de sua criatividade”(n.11). Em sua versão, a evangelização passa pela inteligência cordial (intellectus cordis) porque aí tem sua sede o amor, a misericórdia, a ternura e o frescor da Pessoa de Jesus. Ela se expressa pela proximidade, pelo encontro, pelo diálogo e pelo amor. É um cristianismo-casa-aberta para todos, “sem fiscais de doutrina” e não uma fortaleza fechada e intimidada.

Pois é esse cristianismo que precisamos, capaz de produzir alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro gera alegria que ninguém pode tirar. É como a alegria dos sulafricanos no sepultamento de Mandela: nascia do fundo do coração e movia todo o corpo.

Falta-nos em nossa cultura mediática e internética esse espaço do encontro, do olho  no olho, de cara a cara, da pele a pele. Para isso temos que realizar “saídas”, palavra sempre repetida pelo Papa. “Saída” de nós mesmos para o outro, “saída” para as periferias existenciais (as solidões e os abandonos) “saída” para o universo dos pobres. Essa “saída” é um verdadeiro “Exodo” que trouxe alegria aos hebreu livres do jugo do faraó.

Nada melhor que lembrar o testemunho de F. Dostoievsky ao “sair” da Casa dos Mortos na Sibéria:”Às vezes, Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais humano, de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade”.

O Papa Francisco faria suas estas palavras de Dostoievsky. Não é uma verdade abstrata que preenche a vida, mas o encontro vivo com uma Pessoa, com Jesus, o Nazareno. É a partir dele que a verdade se faz verdade. Se 2014 nos trouxer um pouco desse encontro (chamem-no de Cristo, de o Profundo, o Mistério em nós, de o Sagrado de todo o ser) então teremos cavado uma fonte donde jorra alegria que é infinitamente melhor que qualquer prazer induzido pelo consumo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A formação do Cristianismo depois de Jesus



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Quando, hoje, buscamos referências sobre o início do Cristianismo, muito freqüentemente nos debruçamos nos documentos canônicos que constituem o chamado Novo Testamento, ou seja, os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, o texto intitulado Atos dos Apóstulos, as Epístolas de Paulo, de Pedro, de João e de Tiago, e o Apocalipse de João. Subsidiariamente, podemos consultar, com cautela, os escritos do judeu romanizado Flávio Josefo, em especial sua obra Guerras Judáicas, e alguns parcos comentários sobre o nascente movimento dos cristãos feitos por escritores romanos muito depois da morte de Cristo. 

  É pouco lembrado, porém, que os textos oficiais do Novo Testamento foram estabelecidos como tais em uma época bastante posterior aos acontecimentos que envolveram a vida de Jesus e o trabalho desempenhado por seus discípulos diretos, pois o cânone oficial só veio a ser estabelecido em 397 d.C. durante o chamado Concílio de Cartago, onde as diretrizes do que seria a Teologia Romana - paradoxalmente extremamente ligada aos processos políticos e administrativos do mesmo Império que havia perseguido tão duramente os cristãos - foram cristalizadas, num desdobramento político que veio se fazendo desde que Constantino oficializou o cristianismo como a Religião do Império - sem que tivesse, contudo, postergado diretamente a religião pagã anterior. 

Por esta época estavam sendo erguidos os estatutos da instituição chamada Igreja - na verdade, mais especificamente os da Igreja Romana, incentivada pelo imperador Constantino, e que, por isso, deveria ser a hegemônica por estar ligada diretamente à sede do Império, pois várias eram as tradições cristãs vigentes, como as da Igreja Grega, a Igreja de Alexandria, a Igreja de Antioquia, a Igreja de Éfeso, a Igreja Copta, a Igreja Gnóstica e outras tradições, nem uma delas mais poderosa que as demais, com excessão, talvez, da Igreja de Alexandria, cujas profundidades ou idéias eram divergentes das de Roma e que seriam vistas e condenadas como ameaças ao poder do núcleo romano, sendo, pois, consideradas heresias. Parte destas igrejas orientais permaneceram críticas da teologia construída por Roma, com especial ênfase na primazia quase supra-humana do bispo de Roma, o Papa, o que levou, no século XI, ao cisma definitivo entre a Igreja Romana e as do Oriente, hoje conhecidas como Igrejas Católicas Ortodoxas. 

  Os textos que se tornaram a base da Bíblia Cristã oficial foram escolhidos, como hoje sabemos, entre vários outros que circulavam sobre a vida de Cristo à época - alguns extremamente fantasiosos, mas outros com aprofundadas informações sobre Jesus e o pensamento dos cristãos da época - e que, a partir de então, em especial com São Jerônimo, foram editados e copiados em um processo que, atualmente sabe-se, não escapou de ser cheio de manipulações e adaptações aos interesses da nascente instituição religiosa, em especial na construção e edição de um texto dirigido a leitores romanos, orgulhosos de sua nacionalidade e da história de seu Império, o que levou a expedientes como o recheio dos textos com enxertos de frases, supressões ou adendos interpretativos que procuravam dar uma visão de mundo que fosse concorde com os interesses da Igreja que se estabelecia como instituição. Um dos exemplos deste tipo de manipulação é o esforço para se minimizar a participação dos romanos na execução de Jesus, jogando a responsabilidade quase que completamente em cima dos judeus (a esta altura já dispersos pelo Império depois da destruição de Jerusalém por Tito no ano 70), esquecendo-se que o Galileu foi vítima de dois processos: um político-religioso, da parte dos judeus, e outro político, por parte dos romanos. Esta temática será desenvolvida mais adiante. 


Os atuais estudiosos das Origens do Cristianismo, porém, às custas de um esforço hercúleo ainda pouco reconhecido, relativamente livres, em sua maior parte, da pressão política e teológica das Igrejas estabelecidas (sejam Católicas - do Ocidente e/ou do Oriente - ou Protestantes), conseguiram, a partir dos dados de novas descobertas arqueológicas, como os achados vários documentos arqueológicos da época de Cristo (Manuscritos do Mar Morto; inscrições) ou próxima a ela (Evangelho de Tomé), estudos interpretativos e análise de textos, delinear um quadro mais aceitável da história da formação do Cristianismo do que a que se tinha até o início do século, e que era ainda a dada pela teologia oficial. 


Após a morte de Jesus que, ao que tudo indica as mais recentes pesquisas (c.f. Bibliografia ao final do texto), teria ocorrido no ano 30 d. C. ( tendo Jesus nascido entre os anos - 8 a - 4 a. C. estando, portanto, nosso calendário errado em ao menos quatro anos ), o incipiente movimento por Ele liderado só não se dissolveu diante da crua realidade da execução do mestre e da forte oposição teológica, policial e política do Sinédrio -- preocupado em manter a ordem pública e evitar a ira de Roma, conseguindo, através de manobras, envolver o movimento galileu num falso halo de conspiração política que despertou a atenção da Administração Romana, o que levou Jesus à morte sob o peso de duas acusações: uma religiosa (blasfêmia) e outra política (Jesus como pretendente ao trono de Davi), sendo a primeira, crime capital pelas leis judáicas; a segunda, crime capital pelas leis de Roma -- por conta das chamadas aparições póstumas - casos assim, de mortos que aparecem, são relatados em todos os tempos e culturas - do próprio Cristo diante de seus abatidos discípulos, o que lhes estimularam e fortaleceram em seus ideais e lhes deram confiança e coragem para levar adiante o movimento de renovação espiritual, com consequências sociais notáveis, iniciado por Jesus


Convém notar, entretanto, que se tais aparições foram o impulso necessário ao maior sucesso religioso de todos os tempos, também causou, logo no princípio, uma mudança de ênfase, nos discípulos mais exaltados, do sentido da mensagem universalista do Nazareno, seu legado mais importante, para o da figura extraordinária do próprio Jesus, que passou a ser visto como muito mais que um iluminado profeta e homem que atingiu o pico mais alto de desenvolvimento humano para o de um Ser não humano, e, em especial com Paulo, levou-se paulatinamente à ideia de que Cristo era o próprio Deus. 


Não devemos nos espantar com o fato de que o movimento cristão primitivo se aglutinou ante os fenômenos que hoje chamamos de psíquicos, mediúnicos ou paranormais como, por exemplo, os das aparições póstumas de Jesus. Geddes MacGregor, em seu estudo dos vários movimentos cristãos paralelos que floresceram durante os primeiros quatro séculos de nossa era, é mesmo taxativo a este respeito ao dizer que "Toda a literatura do Novo Testamento, para não dizer a vasta literatura não canônica do cristianismo primitivo, foi escrita por e para pessoas que haviam desenvolvido considerável sensibilidade aos fenômenos psíquicos" (Cit. in Miranda, 1992, p. 29), e sobre os quais os vários relatos contidos nos Atos dos Apóstolos, em especial a Conversão de Paulo, por exemplo, são ricos exemplos. Mesmo que não se aceite o fenômeno, convém porém lembrar que foi a convicção dos discípulos nestas aparições que se tornaria o "Big Bang" do maior sucesso religioso de que se tem notícia na História ( sucesso no sentido de se expandir uma doutrina que teve orígem em Jesus, mas que não foi tão bem sucedida da conservação e transmissão da real mensagem original do Cristo, como nos mostram vários estudiosos ). 

Apesar das novas idéias e revigoração da ética humana trazidas por Jesus, o grupo galileu ainda era - e assim se via até a diáspora judáica do ano 70 - um movimento de renovação dentro do judaísmo, baseado na herança teológica deste povo, e que visava passar adiante uma mensagem mais espiritualizada e humana da relação entre Deus e os homens e, através desta, uma nova forma de relação ética entre estes, baseada na fraternidade que resulta do fato de todos sermos filhos do mesmo Deus (C.f. a home page Jesus e Sua Mensagem e os livros abaixo relacionados).

Na verdade, apesar da ignomínia e covardia que o Sinédrio havia cometido para com Jesus, ninguém no grupo dos nazarenos pensou em romper com o judaísmo, até mesmo porque, apesar das manipulações de Anás e Caifás, haviam simpatizantes do movimento de Jesus dentro mesmo do Templo e, como judeus que eram, com toda a tradição e história típicas da raça, não havia sequer a possibilidade de pensarem em ser outra coisa que não judeus que acreditavam ser mensageiros de uma atualização da Lei mosáica contida na Torá. Mas com a evolução dos acontecimentos, o que de início começara como um movimento de questionamento e de novas idéias sobre o judaísmo logo iria se transformar em algo mais: teria, aos olhos dos demais judeus, conotações de uma seita - ainda dentro do judaísmo - para, por fim, se delinear como um movimento plenamente independente, em especial a partir da dispersão dos judeus pelo Império - como conseqüências de duas sublevações nacionalistas contra Roma - e do ministério de Paulo pelos países adjacentes à Palestina até chegar em Roma.


De início ainda titubente, diante das forças do Sinédrio e de Roma, mas com a segurança que só a convicção mais absoluta logra obter, os discípulos de Jesus, após as suas últimas aparições e depois do Pentecostes, começaram a sair e se fazer cada vez mais presentes na comunidade judáica, de início em Jerusalém e, logo após, por toda a Palestina. O sucesso da mensagem do Cristo - ou ao menos da parte de sua mensagem que chegou até nós, ainda assim plena de acréscimos, cortes e manipulações, como o demonstram os estudos de experts vários em cristologia (veja a Bilbliografia sugerida abaixo) - se deve em grande medida à força da convicção destes homens e mulheres heróicos nas primeiras décadas da segunda metade do século I de nossa era, muito embora já a ênfase começasse a ser dada, devido ao impacto ocorrido com as aparições de Cristo, mais à figura do histórica de Jesus que ia se transformando em mito - pois para eles, Jesus era o "super-homem" que havia Ressuscitado (ou melhor, se dado a ver algumas vezes "estando as portas trancadas", como disse João em seu Evangelho) - que à sua mensagem propriamente dita, o que era o mais importante. 

Eles eram conhecidos, inicialmente, como os Nazarenos ou representantes de um movimento que se intitulava O Caminho e, a rigor, nos primeiros anos, só se diferenciavam de tantos outros braços e correntes do judaismo, como os Fariseus, Saduceus, Essênios, Zelotes e outros, pela sua impetuosidade, pela minoria nômica e pelas idéias - que poderíamos chamar, mantendo a devida diferenciação com a conotação da palavra nos dias de hoje, de socialistas - o que explica, como muito bem nos aponta Mircea Eliade, que de toda produção intelectual da cultura ocidental apenas o Cristianismo e o Marxismo tenham chamado realmente a atenção de outros povos e civilizações, como a Oriental ou a Africana, por exemplo, exatamente porque ambas têm como objetivo resgatar o homem enquanto homem das amarras negras que o prendem, seja por conta de uma visão de mundo ainda brutal, seja por conta de uma visão patriarcal e xenófoba, como no caos do judaísmo ao tempo do Cristo, seja por conta de um sistema econômico explorador, como no caso do Capitalismo, muito bem dissecado por Marx . Outro ponto em comum entre Cristo e Marx foi o fato de que seus seguidores acabavam por os interpretar à sua maneira, como veremos mais adiante, pois muito do que foi dito por Cristo foi recebido de acordo com o entendimento e maturidade espiritual de quem o ouvia, o que não deixou de trazer várias interferências na mensagem original de Jesus. 


Devido ao orgulho pátrio, à crença na superioridade do Povo Escolhido de Deus e na esperança da vinda de um Messias que restabeleceria a glória de Israel frente às demais nações, em especial à odiada Roma, por cujo jugo estavam submetidos, bem como a um não completo entendimento da missão espiritual do Mestre, paulatinamente os futuros cristãos mesclariam ainda mais o entendimento parcial da doutrina de Jesus às várias revelações apocalípticas vigentes então, que viam o domínio de Roma sobre Israel um sinal de decadência drástica ao qual só uma reforma radical do mundo, marcando um fim do mundo antigo e trazendo um vitorioso Reino de um Deus dos Exércitos, o Yhavé de Moisés, poderia fazer renascer uma nova humanidade. Daí o cunho escatológico tão freqüente na narração dos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas de Paulo, o que não deixou de se refletir especialmente na redação dos Evangelhos, cujos textos iniciais foram escritos bem depois de Jesus, mais ou menos na época da destruição do Templo no ano 70. 


Isso não significa, porém, que já na época de Cristo não houvesse algum ou alguns textos ou mais especificamente algumas anotações feitas por admiradores alfabetizados, contendo os principais pontos de sua doutrina e que tenham servido de base aos debates entre os discípulos e aos demais textos posteriores. Possivelmente estes existiam, se não diretamente contemporâneos a Cristo, ao menos esboçados pouco depois de sua morte. Hoje existe quase uma unanimidade em relação à existência de, ao menos, uma fonte primitiva escrita, que se perdeu. Este texto fonte primário (quelle em alemão) é conhecido entre os especialistas como o Evangelho Q (de quelle), cujos traços podemos ver nos demais evangelhos e que tem, provavelmente, sua expressão mais aproximada no chamado Evangelho de Tomé (ou de Tomás) que foi encontrado, aliás, redescoberto (pois já tínhamos conhecimento da existência deste evangelho nos primeiros quatro séculos de nossa era por meio de citações dos primeiros teólogos da Igreja) em 1945 no Egito, isso se não for quase todo ele, ou boa parte dele, o próprio Evangelho Q, como pensam alguns.  


A força da personalidade de Jesus (cujo nome em hebráico é Yoshua sendo Jesus a adaptação latina da forma grega Iesous), junto com a eletrizante notícia de suas aparições iria se amalgamar na imaginação dos novos discípulos que cada vez mais se juntavam aos primeiros para se fazer nascer a crença, com poucas exceções, de que Jesus seria realmente o Messias reformador esperado, tendo poderes supra-humanos no imaginários popular e que não apenas iria fazer surgir uma nova espiritualidade e uma ética social revolucionária decorrente desta - seu real objetivo -, mas que iria, de fato, estabelecer fisicamente um Reino de Deus na Terra em sua segunda vinda ao orbe - tema este que surgiu devido à exaltação dos discípulos e a uma má interpretação das palavras de Jesus, o que se justifica, em parte, pelo fato de que nos primeiros séculos, as várias comunidades cristãs eram formadas por grupetos de gente que estavam espalhadas em áreas díspares, especialmente depois da diáspora dos judeus na década de 70 do século I. Era difícil o contato entre estas comunidades, e muito do que se sabia sobre Cristo era esparso, fragmentário e transmitido oralmente. 


 Nestas comunidades, aos poucos, a ênfase recaia nos talentos de cura extraordinários de Jesus e em seu carisma pessoal, o que fortalecia ainda mais a esperança de ser ele o Messias político esperado, o que, infelizmente, eclipsou grande parte de sua mensagem, e fez nascer a imagem mítica de um ser sobrenatural, singular, cada vez mais distante da humanidade. A ênfase messiânica acabou por contaminar mesmo os escritos evangélicos em detrimento de uma melhor apresentação de sua mensagem e na distorção de certos fatos históricos. 


Com o constante crescimento dos simpatizantes da causa do Cristo entre os judeus - não nos esqueçamos que este movimento ainda era visto como um movimento de Reformas dentro do Judaísmo, pelos discípulos, muito embora a visão de Jesus fosse universalista - o Sinédrio se inquietou ainda mais, em ressonância com o crescente clima de rebelião que se fazia sentir em toda a Judéia ocupada. 


Se antes eles eram relativamente tolerados até mesmo dentro do Templo por demonstrarem seguir as normas das cerimônias ortodoxas, o aumento geométrico de simpatizantes trouxeram os mesmos receios na elite sacerdotal que provocara a morte de Jesus. Pedro e outros apóstolos foram detidos mas escaparam da morte com a ajuda dos aliados que tinham em meio aos sacerdotes - e que, infelizmente, devido às urdiduras de Caifás, não puderam comparecer em grande número ao julgamento de Jesus. A mesma sorte, porém, não tiveram outros discípulos, como por exemplo, Estevão, que foi morto a pedradas, não porque lhe faltassem defensores, mas por causa do ardor de seu posicionamento diante da Doutrina de Cristo, o que feriu muito as susceptibilidades dos Doutores da Lei. Entre os que estavam presentes, um dos mais irados foi Saul de Tarso, que se fizera um implacável combatente das idéias do Cristo (e dos seus discípulos). Ele foi o responsável direto pela prisão de inúmeros discípulos e simpatizantes do Cristo. 


Saul (ou Saulo) era exaltado e inteligente, de temperamento forte e com extremo espírito combativo, um futuro sacerdote exemplar do Templo. Mas seu posicionamento ante o cristianismo iria dar uma completa reviravolta. 


Em uma de suas viagens, Saul passou por uma experiência psíquica que lhe impactou tanto que de perseguidor passou a ser o maior defensor do cristianismo entre os judeus e, posteriormente, entre os não judeus, chamados por estes de gentios. Na estrada para Damasco, onde iria levar a cabo mais perseguições e prisões de cristãos, Saul teve ele mesmo uma experiência não usual ao ver o próprio Jesus diante de si (os que o acompanhavam presenciaram igualmente "alguma coisa" que não souberam definir). 

Ao mesmo tempo, os primeiros judeus helênicos e egípcios, junto com gentios destes mesmos países e que tinham entrado em contato com Jesus e sua doutrina, começaram a formar núcleos em Antioquia e em Alexandria, no que seria os primeiros passos reais do cristianismo pelo mundo.   

Após as primeiras perseguições, os ânimos do Sinédrio, em especial diante da atitude moderada de sacerdotes como Gamaliel, se acalmaram por um certo tempo, outros problemas políticos melindrosos com relação à Roma se tornaram mais importantes, mas o movimento Galileu não foi negligenciado totalmente, e por uma década os discípulos que haviam escapado dos primeiros embates diretos com o Sinédrio passaram a retomar à divulgação da Boa Nova com maior sucesso especialmente na Galiléia, região relativamente livre do domínio direto de Roma e mais distante do braço fiscalizador do Sinédrio. O núcleo de Jerusalém ficou sob o comando de um irmão de Jesus chamado Tiago, o Justo (assim chamado por ser fiel cumpridor de grande parte da ortodoxia judáica que não se chocava com as idéias do irmão).

Enquanto isso, Pedro iria ser um grande divulgador da mensagem de Cristo nas demais regiões (muito embora tenha sido ele a começar a fazer de Jesus mais que um Messias espiritual, desenhando-o cada vez mais como o Filho Unigênito de Deus e como o Messias militar que era esperado pelos judeus). Tiago, porém, iria ser morto ao redor do ano 62 por ordem dos sacerdotes do Templo. 

Esse foi o início de uma nova fase de perseguição aos cristãos na região da judéia, tendo muitos, por isso, procurado refúgio da Galiléia e em outras localidades, até mesmo em outras países, como foi o caso, por exemplo, de Tomé, que foi à Índia, ainda que pelo caminho tenha pregado a outros povos, como os Egipcios e os Persas. Foi Tomé o autor do evangelho que leva seu nome, e que se julgava perdido até que foi reencontrado, como já dissemos, junto com outros documentos, em 1945 no Egito, perto da cidade de Nag Hammadi, uma cópia copta deste evangelho, o que trouxe uma retumbante reviravolta nos estudos cristológicos e históricos, talvez potencialmente maior que a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, que foi feita em 1947. 

Estudiosos como Elaine Pagels, Helmut Koester, Hans Jonas e outros admitem que os aforismos contidos neste evangelho são os mais próximos das palavras autênticas de Jesus - o que serve como referência para se saber o que foi enxertado na mensagem dos Evangelhos sinóticos oficialmente reconhecidos pela Igreja, sem falar de outros pontos que só são encontrados neste evangelho, o que muito ajuda a esclarecer o real pensamento de Jesus, que é um tanto diferente de muitos pontos defendidos pelas igrejas cristãs oficiais. Para um estudo aprofundado sobre este tema, aconselhamos a leitura de "O Evangelho de Tomé - Texto e Contexto" de Hermínio C. Miranda, 1992, Editora Arte e Cultura, Niterói; e de "O Evangelho de Tomé" de Marvin Meyer, Editora Imago, Rio de Janeiro, 1993. 


Ao mesmo tempo, por esta época, a situação política na Judéia tinha chegado a um grau explosivo, com muitas subvleções contra o domínio romano, em especial diante da militância do movimento dos Zelotes, que possuiam vários líderes carismáticos que se supunham, um após outro, serem o próprio Messias. 


Em 66 d. C., a maior parte dos judeus se rebelaria contra Roma e seu jugo. A maior parte dos cristãos, que eram pacifistas, se mudaria para cidades neutras, quase nada sofrendo. A destruição definitiva do Templo por Tito e seus soldados fora entendida pelos cristãos como a concretização das palavras de Cristo de que não restaria pedra sobre pedra da esplêndida edificação, refeita há mais de setenta anos por Herodes, o Grande, e que era o coração mesmo da religião judáica. Os judeus que foram dispersos viram com despeito o fato de que os judeus cristãos estavam seguros em cidades ao redor do Jordão, na galiléia e em núcleos judeus no Egito e Síria, onde, aliás, haviam outras correntes do judaísmo com pontos em comum com o cristianismo, como os Essênios e os Terapeutas, e sabiam o que estes diziam a respeito da destruição do Templo. O ódio que começou a se alastrar entre os judeus dispersos e os cristãos acabariam por cindir definitivamente as duas correntes. 


Com a expulsão dos judeus de Jerusalém e da Judéia - a diáspora -, os apóstolos e seus discípulos passaram a ser mais atuantes entre os judeus mais abertos à mensagem de Jesus em vários centros cosmopolitas, indo de Damasco à Roma. Enquanto Felipe marcou profunda presença na Samaria e em Cesaréia, João seria o responsável pela fundação de um dos mais importantes núcleos cristãos em Éfeso e outras regiões da Ásia Menor. 


Pedro, ao lado de Paulo, era um dos mais infatigáveis divulgadores de Jesus como um ser muito mais divino que humano, esquecendo-se que o próprio Jesus fazia questão de estabelecer a irmandade de todos os filos de Deus, sendo ele o que conseguiu atingir o propósito da vida e se fazer UM com com os desígnios do Pai. Sua pregação se fez em especial pelas regiões adjacentes à Ásia Menor, Capadócia, Bitínia e Ponto, tendo ido várias vezes à própria Roma até ser finalmente crucificado na cidade imperial em 64 d. C. 


Foi por intermédio de Pedro e Paulo, exatamente pela presença de ambos em Roma, que se atraiu a atenção e a conversão não só de judeus, como de muitos gentios. Com Pedro, o cristianismo viria a adotar muitos dos elementos do judaísmo, em especial sua ênfase escatológica em um fim dos tempos que estaria próximo, e várias festas tradicionais judáicas, em especial a Páscoa. Com o tempo, a mescla de cerimônias judáicas seria visto pelos cristãos romanos como uma brecha para que outras cerimônias e vestimentas, dos antigos ritos pagãos, fossem igualmente mesclados ao cristianismo.


Como nos fala muito lucidamente Albert Paul Dahoui, "a diáspora facilitou o desenvolvimento do cristianismo, pois o movimento dos judeus de um lugar para outro, suas ligações com o Império, especialmente financeiro, ajudado pelo comércio, pelas estradas e pela paz romanas, acelerou a expansão do novo credo. No entanto, se em Jesus e em Pedro (especialmente neste último) o cristianismo era judeu, em Saul metamorfoseou-se em grego e no catolicismo tornou-se romano" (DAHOUI, 1999, volume VII, p. 301). 


A partir da década de 70 em diante, as primeiras edições dos textos que dariam orígem aos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) começaram a circular entre as comunidades cristãs, mas estas sementes estavam em meio a muitos outros textos que foram totalmente perdidos, ou que nos chegaram na forma de fragmentos ou como textos apócrifos, ou seja, não reconhecidos pela Igreja. 


Hoje sabemos, como já o dissemos, que os três sinóticos citados acima se basearam em uma fonte em comum que, antes, se pensou ser um texto primitivo do que seria o Evangelho de Marcos, mas hoje já se ventila a hipótese de que esta fonte (quelle em alemão), o famoso evangelho Q seria um conjunto de aforismas e anotações dos ditos de Jesus muito próximos do que se acha inscrito no Evangelho de Tomé, podendo ter algumas anotações biográficas em um outro texto que faria parte do Evangelho de Mateus. 


Já o Evangelho atribuído a João teve o início de sua redação no fim do século I e tem um linguajar bem diferente, especialmente diante do público alvo a que se dirigia, ou seja, aos gregos. É o mais gnóstico dos quatro evangelhos e o mais próximo, no seu espírito, ao evangelho de Tomé, mas é, igualmente, o que melhor permite ver que foi amplamente modificado em vários pontos, ou seja, que foi escrito por mais de uma mão. Mas, de qualquer forma, deve-se ter em mente que todos foram escritos tendo por objetivo divulgar uma imagem do Cristo, e muito do que foi narrado (e não foi adulterado posteriormente por copistas e editores) ainda assim deve ser visto com certo cuidado, pois se baseiam nas memórias de discípulos das ocorrências de quase quarenta anos antes. 


O ministério de Paulo foi, de longe, o mais atribulado do dos demais discípulos do Cristo, ainda que Paulo nunca tivesse tido contato com o próprio Jesus quando este vivia na Terra. Impetuoso, Paulo viajou por quase todo o Império onde haviam comunidades judáicas e teve sérios atritos com os demais discípulos. Tentou apresentar Cristo como um dos grandes Filósofos iniciados, em Atenas, mas teve um êxito desprezível neste primeiro momento. Suas viagens estão narradas nos Atos dos Apóstolos e em documentos vários, como suas Epístolas (ao menos, às que lhe são atribuídas e que não sofreram ainda maiores interferências posteriores que os Evangelhos, sem falar de outras que simplesmente desapareceram depois do século IV). Morreu em Roma, após anos de prisão. 


 Foi este o período em que Saul se transformou em Paulo, o apóstolo dos gentios, e que devido à distância com os demais colegas discípulos e aos anos em meio a várias outras culturas, teve tempo de formar a primeira Teologia sistemática cristã que é um tanto diferente da mensagem original de Cristo, em especial por conter uma forte ideologia patriarcal bem judáica, conter um halo mítico a existência de Cristo e que mais ênfase dá na figura de Jesus que em sua mensagem. Foi dele, embora inconscientemente - ou talvez nem tanto assim - a ideia que, mal interpretada, se insttituiu o dogma da Ressureição física - que por um erro de interpretação posterior, que passou por cima do que Paulo chamava de "Corpo Espiritual" do Cristo, para dar início a uma tradição que iria admitir a volta de Cristo à vida no próprio corpo físico, o que provocou interpolações nos sinóticos, como no caso de João, em que fizeram Tomé - talvez exatamente o mais lúcido dos discípulos - a tocar as chagas de um cadáver que teria retomado a vida, e não pela presença gloriosa de Cristo que se fez presente e visível através da materialização de seu espírito. 


Foi Paulo também que instituiu grande parte da idéia de que Cristo morreu para redenção do mundo, tirando parte da responsabilidade pessoal de cada um por seu próprio progresso espiritual, bastando qualquer pessoa se converter para ser salva, devido à fé, e a qualquer tempo durante a vida, e ganhar o paraíso. Esta idéia foi retomada com ardor pelos protestantes 15 séculos depois, e seria a principal marca das Igrejas Reformadas. 


Mas a teologia de Paulo foi realmente levada em conta quando as primeiras gerações de cristãos, as que conheceram Jesus ou seus apóstolos, já havia desaparecido. Com o desejo de Constantino de ter um Império com um só Imperador e uma só Igreja, as epistolas de Paulo (já devidamente "editadas" junto a outros documentos que lhe eram atribuídos) foram usados como fundamento para o sistema da teologia Católica-Romana.  


Nos fala Alberto Paul Dahoui que "foi através de Paulo que nasceu a teologia cistã, mas este fato não aconteceu de imediato. Um século depois de morto, Saul havia sido esquecido e somente quando as primeiras gerações de cristãos haviam passado, a tradição oral dos apóstolos desapareceu, e as heresias começaram a desorientar o espírito cristão, é que as epístolas de Paulo foram ressuscitadas. Passaram a servir de arcabouço para um sistema de fé que uniu as esparsas congregações em uma poderosa Igreja Central. 


"Saul havia criado um novo mistério, uma nova forma do drama da ressurreição, que iria sobreviver a todas as demais versões. Ele mesclou a ética utilitária dos judeus com a metafísica dos gregos e transformou o Jesus dos evangelhos no Cristo Invicto da teologia. Para Saul, Cristo morreu na cruz para a redenção do mundo, pois, com sua morte, ele retirou o pecado original do orbe e oferecia, com sua paixão na cruz, a salvação.

"Saul continuaria, entretanto, obscuro e esquecido até que a reforma protestante de Lutero levantou-o das cinzas do passado, e Calvino também encontrasse nele os textos na crença da predestinação. Os dois não entenderam que Saul havia preconizado que o homem justo será salvo pela fé, e não que todos seriam salvos pela fé (...). Com o desvirtuamente das palavras de Saul, qualquer um que aceitasse Jesus estaria imediatamente salvo.

"O protestantismo foi o triunfo de Saul sobre Pedro, e o fundamentalismo foi o involutário triunfo de Saul sobre Cristo e ambos só atestaram que a doutrina de Jesus foi parcialmente esquecida. Jesus, que queria que a maior prova do homem fosse a virtude, acabou sendo substituído pela [mais cômoda] fé preconizada por Saul. Para Jesus, o reino de Deus era uma nova atitude íntima perante a vida, que desembocaria numa sociedade mais justa e fraterna, e para os que usaram Saul de forma indevida, era apenas adesão" (Dahoui, 1999, volume VI, pp. 306-307).

Mais adiante, o mesmo autor arremata:

"O cristianismo não iria destruir o paganismo. Pelo contrário, o novo cristianismo [Romano, mais tarde cindido entre as duas Igrejas Católicas, a do Império Romano do Ocidente e do Império Romano do Oriente, conhecido como Igreja Católica Ortodoxa], que nada tinha a ver com Yeshua de Nazareth, iria adotar os ritos e idéias dos pagãos, assim como de outras religiões existentes na época. Substituiria a profusão de deuses subordinados a um distante Deus criador, por uma multidão de santos subalternos a Jesus Cristo. O espírito grego ressurgiu na teologia e na liturgia da igreja. A língua clássica grega foi usada durante séculos na liturgia, para depois ser substituída pelo latim, mas, mesmo assim, tornou-se o veículo da literatura e ritual cristãos".

Nesse sentido, convém notar que o estabelecimento do dia 25 de dezembro como sendo o dia de Natal do Senhor convinha ao Império por ser a data tradicional de celebração do solstício de inverno, onde se celebrava a volta do Sol Invictus, símbolo adotado por Constantino. O solstício de inverno era também comemorado em outras culturas pagãs e representava o ponto máximo do inverno, o ponto onde recomeçaria o ciclo da volta do sol. 


As consequências da oficialização e institucionalização do cristianismo pelo Império - ou melhor, a adaptação romana da mensagem original do Cristo - não tardou a dar estranhos frutos: exatamente na época da "conversão" de Constantino (entre aspas, pois o imperador manteve implicitamente a liberdade de culto às demais religiões e aos muitos ritos, tradições e costumes pagãos) em 325, sendo o bispo de Roma, à época, Silvestre I, houve a "promoção", pelo Imperador, por desejo pessoal, com base num jogo de táticas políticas, e sem levar em consideração o que pensasse o bispo (ou papa) de Roma, do Concilio de Nicéia - tendo expulso neste perto 1.700 participantes do conclave composto por 2.048 pessoas, exatamente os que se recusaram a aceitar a imposição do imperador - declarou-se, a partir de então, como meio de realçar ainda mais as ligações entre a religião e o Estado de um Único Poderoso Imperador, que Jesus não era tão só o filho de Deus, mas o próprio Deus, e, portanto, Imperador do Universo do qual Roma e seu Império deveriam ser espelhos. Desde então, passou-se a construção de uma Teologia Católico Romana, que se esforçou para eliminar qualquer traço de oposição ou crítica ao que passou a ser imposto como o cristianismo oficial, pleno de traços e ritos adaptados do paganismo, incluindo o uso de roupas sarcerdotais especiais, o uso do incenso, ritos, imagens, etc.  


Portanto, depois de vinte séculos, só agora o esforço devotado de inúmeros pesquisadores sérios em todo o mundo pôde levantar o mofo e a poeira de séculos de dogmas e doutrinas espúrias e fazer sobressair, aos poucos, e ainda em seus luminares mais brandos, parte da real mensagem que um meigo jovem da Galileia teve a genialidade e a coragem de lançar ao mundo e que, mesmo que truncada, maquiada e manipulada, teve força suficiente para modificar a história, se mostrando ainda mais linda e impressioanante em sua pureza original que a versão mítica e enviesada que as Igrejas impuseram às massas nestes quase dois mil anos.


 No máximo de deturpação da mensagem de Jesus, deu origem à aberrações sangrentas como as Cruzadas, a "Santa" Inquisição (que, ao contrário do que se pensa, ainda está ativa, embora de forma mais branda, no chamado Conselho para Defesa da Fé, no Vaticano, de que não escaparam de terem suas obras censuradas nem Pierre Teilhard de Chardin, nem Leonardo Boff), e movimentos extremistas como a TFP, por exemplo, no lado Católico e, no lado dos evangélicos, a Igreja Universal do Reino de Deus, entre outros históricos e tristes exemplos. Mas, aos poucos, a mensagem original está sendo regatada, quem sabe para fazer com que o Cristo realmente renasça em cada um e por cada um...

 

João Pessoa, Paraíba, 15 de janeiro de 2000

Bibliografia


Charlesworth, James H. Jesus Dentro do Judaísmo. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1992.

Crossan, Jean Dominic. O Jesus Histórico. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1994.

Dahoui, Albert Paul. Jesus, o Divino Mestre. Niterói, Editora Heresis, 1999.

Miranda, Hermínio C. O Evangelho de Tomé - Texto e Contexto. Niterói, Editora Arte e Cultura, 1992.

O'Grady, Joan. Heresia - O Jogo de Poder das seitas cristãs nos primeiros séculos do cristianismo. São Paulo, Editora Mercuryo, 1994.

Tricca, Maria Helena de Oliveira. - Apócrifos, Os Proscritos da Bíblia. São Paulo, editora Mercuryo, 1989.

Welburn, Andrew. As Origens do Cristianismo. São Paulo, Editora Best Seller, 1997.