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segunda-feira, 18 de março de 2019

Ibama está ameaçado de desmonte pelo governo Bolsonaro


Ibama passa por um processo de desestruturação de suas funções principais que inclui a perda de autonomia dos técnicos, bem como flexibilização da aplicação de multas por crimes ambientais no país


da Fundação Perseu Abramo

Ibama está ameaçado de desmonte pelo governo Bolsonaro

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) está sendo ameaçado por um processo de desestruturação de suas funções principais que inclui a perda de autonomia dos técnicos, bem como flexibilização da aplicação de multas por crimes ambientais no país.
Uma minuta de decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA) pretende criar um núcleo de conciliação que poderá mudar o valor ou até mesmo anular multas por crimes ambientais. O núcleo seria formado por três representantes do MMA e do Ibama e significaria um colapso para repressão aos crimes ambientais no país, uma vez que seria impossível esses poucos técnicos avaliarem um volume próximo a dezesseis mil atuações anuais.
O descaso com os crimes ambientais na gestão de Bolsonaro já mostra fortes indícios. O inicio de 2019, o Ibama aplicou a menor quantidade de multas desde 1995, obviamente as infrações contra o meio ambiente não foram reduzidas no período. No primeiro bimestre foram aplicadas 119 multas, enquanto que em 2018, 2017 e 2016 as multas foram correspondentes a 1.581, 1.630 e 1810, respectivamente.
O decreto também impede que os valores arrecadados com as multas sejam convertidos para financiar projetos estratégicos ambientais. Atualmente, os recursos das multas vão para um fundo gerido pelo Ibama que consegue planejar o financiamento de ações estratégicas para o meio ambiente de forma autônoma. No ano passado, os recursos das multas haviam sido utilizados para financiar projetos ambientais na bacia do rio São Francisco.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Do El País: Bolsonaro enfraquece Funai e joga sombra sobre futuro socioambiental do país


  A medida é a concretização de uma série de declarações feitas por Bolsonaro ao longo da campanha. O capitão já havia se comprometido a barrar a demarcação de novas terras. Segundo dados da Funai, atualmente existem 128 processos de demarcação em andamento envolvendo terras que abrigam mais de 120.000 indígenas de diversas etnias. Até então, cabia à entidade receber as demandas das etnias e realizar os estudos antropológicos e geográficos que fundamentam a identificação e a delimitação do território tradicional.

Do El País:

Bolsonaro enfraquece Funai e joga sombra sobre futuro socioambiental do país

Presidente transferiu para ministério comandado por ex-deputada ruralista a tarefa de demarcar novas terras indígenas


Governo Jair Bolsonaro
Fiscais do Ibama desativam garimpo ilegal em terra indígena na Amazônia.

Com uma canetada o presidente Jair Bolsonaro decretou o esvaziamento das funções da Fundação Nacional do Índio (Funai), e colocou na berlinda a demarcação de novas terras indígenas e a conservação do meio ambiente. O capitão assinou uma medida provisória que delega ao Ministério da Agricultura, chefiado por Tereza Cristina da Costa (DEM), até então líder da bancada do agronegócio na Câmara, a tarefa de identificar e demarcar terras indígenas no país. Esta era uma das principais atribuições da Funai nas últimas décadas. A alteração, publicada no Diário Oficial na noite de terça-feira horas após a cerimônia de posse de Bolsonaro, é um antigo desejo do agronegócio e da bancada ruralista do Congresso.
A medida é a concretização de uma série de declarações feitas por Bolsonaro ao longo da campanha. O capitão já havia se comprometido a barrar a demarcação de novas terras. Segundo dados da Funai, atualmente existem 128 processos de demarcação em andamento envolvendo terras que abrigam mais de 120.000 indígenas de diversas etnias. Até então, cabia à entidade receber as demandas das etnias e realizar os estudos antropológicos e geográficos que fundamentam a identificação e a delimitação do território tradicional. "Temos uma área mais que a região Sudeste demarcada como terra indígena. E qual a segurança para o campo? Um fazendeiro não pode acordar hoje e, de repente, tomar conhecimento, via portaria, que ele vai perder sua fazenda para uma nova terra indígena", afirmou o presidente eleito em dezembro.
A ex-candidata a vice na chapa do PSOL, a liderança indígena Sonia Guajajara usou o twitter para criticar a medida. "O desmanche já começou. A Funai não é mais responsável pela identificação, delimitação, demarcação e registro de Terras Indígenas. Saiu hoje no Diário oficial da União. Alguém ainda tem dúvidas das promessas de exclusão da campanha??", escreveu.
Além de cessar os processos de demarcação já em andamento, Bolsonaro ameaçou também rever algumas terras indígenas já demarcadas, como a Raposa Serra do Sol, em Roraima, que abriga cerca de 20.000 indígenas. A área foi homologada em 2005, e em 2009 o Supremo Tribunal Federal confirmou a decisão do então presidente Lula. No entanto a região conta com terras férteis e abriga reservas minerais estratégicas, como de nióbio e urânio, o que desperta o interesse do agronegócio e de mineradoras. “É a área mais rica do mundo. Você tem como explorar de forma racional, e no lado dos índios dando royalties e integrando o índio à sociedade”, disse Bolsonaro.
Para juristas, no entanto, a revisão proposta por Bolsonaro seria inconstitucional. “A decisão transitou em julgado. Foi uma decisão histórica. Para os índios, é direito adquirido. Depois que o Estado paga uma dívida histórica, civilizatória, ele não pode mais estornar o pagamento e voltar a ser devedor”, disse o ex-ministro do STF Ayres Britto ao jornal O Globo.
"Temos uma área mais que a região Sudeste demarcada como terra indígena. E qual a segurança para o campo? Um fazendeiro não pode acordar hoje e, de repente, tomar conhecimento vai perder sua fazenda para uma nova terra indígena"
Mas não são apenas os povos tradicionais que veem seus direitos ameaçados. Desde o início da campanha o discurso do capitão foi marcado por uma forte retórica de desregulamentação de áreas protegidas, criação de freios para agentes fiscalizadores e desburocratização da concessão de licenças ambientais. Estes acenos aos ruralistas já haviam começado a tomar forma com a indicação de ministros ligados ao agronegócio.
Os gestos de aproximação com deputados e senadores ligados ao negócio da soja e à agropecuária - justamente os dois maiores responsáveis pelo desmatamento no Brasil, em conjunto com as madeireiras - fica evidente na escolha do primeiro escalão do futuro Governo. A ministra da agricultura, Tereza Cristina da Costa (DEM), por exemplo ganhou o apelido de "musa do veneno" por ter comandado uma comissão parlamentar que aprovou regras que flexibilizam o registro e a utilização de agrotóxicos no país (a matéria ainda será votada no plenário). Segundo o relatório aprovado por ela, o uso de pesticidas deve ser liberado pelo Ministério da Agricultura mesmo que órgãos e agentes reguladores como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, por exemplo, não tenham dado seu parecer quanto à segurança dos químicos.
Outro ministério-chave para a preservação dos recursos naturais, o do Meio Ambiente, ficará sob a batuta de Ricardo de Aquino Salles, condenado em dezembro por improbidade administrativa. Segundo o Ministério Público, quando estava à frente da Secretaria do Meio Ambiente do Governo de Geraldo Alckmin(PSDB), em São Paulo, entre 2016 e 2017, ele teria alterado o plano de gestão de uma área de proteção ambiental de modo a favorecer empresas privadas. Salles nega qualquer irregularidade, e afirmou e nota que "não houve vantagem pessoal, nem dano ambiental e desenvolvimento econômico". Ainda cabe recurso da sentença.
Um dos principais órgãos de fiscalização ambiental, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), subordinado à pasta que será comandada por Salles, também não deve ter vida fácil no novo Governo. No início de dezembro Bolsonaro criticou uma suposta "indústria da multagem (sic)" por parte do Instituto. "Sou defensor do meio ambiente, mas dessa forma xiita, como acontece, não. Não vou admitir mais Ibama sair multando a torto e a direito por aí, bem como ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]", afirmou. "Essa festa vai acabar", concluiu o presidente eleito. Em tempo, ele afirmou ter sido ele mesmo alvo de uma multa no valor de 10.000 reais por algo que ocorreu "numa hora e dia onde eu tinha botado o dedo no painel de votação em Brasília".
O presidente eleito também faz reiteradas críticas a uma suposta burocracia ligada à concessão de licenças ambientais. “Quando se fala em licença ambiental, e [a pessoa] é obrigado a derrubar uma árvore que está ameaçando cair: é uma dificuldade para conseguir essa licença. E toma multa caso derrube essa árvore sem a devida autorização para tal”. Na visão do capitão isso “atrapalha quando um prefeito, governador, presidente, quer fazer uma obra de infraestrutura, uma estrada, por exemplo”. Por fim, Bolsonaro apontou onde esse “problema” costuma se manifestar: “Isso acontece muito na região amazônica”.

Ameaça ao comércio com União Europeia

A postura de Bolsonaro com relação às questões ambientais provocou reações mais duras por parte de líderes da comunidade internacional. Em setembro, ainda durante a campanha, ele anunciou que caso eleito iria retirar o país do Acordo de Paris, que inclui uma série de medidas para minimizar os impactos do aquecimento global. O Acordo foi firmado em 2015, e tem o Brasil como signatário. Em outubro ele voltou atrás, mas não bastou para acalmar o presidente francês Emmanuel Macron, que afirmou que "a França não apoiará acordo com quem não respeita o Acordo de Paris”, sinalizando que as já letárgicas negociações entre a União Europeia e o Mercosul podem desandar caso o capitão não se comprometa com o texto assinado. Por sua vez, Bolsonaro disse que "sujeitar automaticamente nosso território, leis e soberania a colocações de outras nações é algo que está fora de cogitação".
O presidente francês e a chanceler alemã já entraram em atrito com Bolsonaro após ele dizer que o Brasil iria se retirar do Acordo de Paris
A chanceler alemã Angela Merkel fez coro às declarações de Macron: "O tempo está se esgotando para um o acordo entre União Europeia e Mercosul. Deveria acontecer bem rápido, caso contrário, com o novo governo do Brasil, seguramente, não vai ser fácil". A poeira da polêmica envolvendo os líderes europeus e o capitão ainda não havia assentado quando ele afirmou que o Brasil não sediará a conferência climática da Organização das Nações Unidas em 2019, a COP 25. Em sua conta no twitter o presidente eleito afirmou que a decisão teve como base o corte de custos: "Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU pois custaria mais de 500 milhões de reais ao Brasil e seria realizada em breve, o que poderia constranger o futuro Governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo".
A ameaça de retirar o Brasil do Acordo de Paris rendeu a Bolsonaro o Prêmio Fóssil do Dia, concedido por uma rede de ONGs que acompanham as negociações da conferência climática. A honraria irônica é oferecida para nações que se esforçam para travar ações em prol do meio ambiente. Por fim, diversas entidades conservacionistas com sede nos Estados Unidos, dentre elas a Amazon Watch, divulgaram uma carta aberta criticando as políticas de Bolsonaro para o meio ambiente. “Se implementadas, podem infligir danos de amplo alcance e duradouros a comunidades brasileiras e ao meio ambiente.”

“Não tem mais demarcação de terra indígena”

Soma-se às declarações de Bolsonaro sobre terras indígenas a indicação da pastora evangélica Damares Alves para comandar a pasta das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos, agora com novo redesenho ministerial. Com isso a Funai, – agora sem o poder de demarcar terras —, que antes ficava sob controle do Ministério da Justiça, ficará subordinado a Alves.
O ex-presidente da Funai no governo Temer, Antônio Costa afirmou ao repórter Ricardo Della Colleta em dezembro que a transferência do órgão federal para o novo ministério deve criar um grande vazio de direitos adquiridos pelos indígenas e inflamar ainda mais os conflitos no campo. Costa se demitiu por conta de pressões da bancada ruralista do Congresso quatro meses após assumir o cargo. "Os deputados ruralistas com quem conversei são sensíveis à sustentabilidade dos povos. O que falta é diálogo com os segmentos e parar de colocar os índios e as demarcações como entraves para o desenvolvimento", afirmou.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ano Novo, Vida Pior, por Wilson Ramos Filho


"Esse ano está difícil desejar “feliz ano novo” contra todas as evidências de que será o pior ano das vidas de mais de 100 milhões de pessoas que não vivenciaram a ditadura. Não há a menor possibilidade de que 2019 seja melhor que nenhum dos anos anteriores, a parir da redemocratização. Será um ano de ainda maiores retrocessos para as mulheres, para os negros, para os idosos, para os homossexuais, para os índios, para todos os coletivos vulneráveis, e para quem precisa vender sua força de trabalho para viver."

Uma convenção, nada mais? De fato a passagem do 31/12 ao 01/01 é arbitrária. Faria algum sentido se o ano começasse no solstício. Mas, tanto faz, né? Está combinado que 2018 termina hoje.
Uma data, como qualquer outra? Também não. É algo que nos convida a planejamento, desafia a promessas e induz balanços.
Esse ano está difícil desejar “feliz ano novo” contra todas as evidências de que será o pior ano das vidas de mais de 100 milhões de pessoas que não vivenciaram a ditadura. Não há a menor possibilidade de que 2019 seja melhor que nenhum dos anos anteriores, a parir da redemocratização. Será um ano de ainda maiores retrocessos para as mulheres, para os negros, para os idosos, para os homossexuais, para os índios, para todos os coletivos vulneráveis, e para quem precisa vender sua força de trabalho para viver.
Não se trata de “torcida contra”. É conclusão racional. Quem conseguir emprego ganhará este ano muito menos do que ganhou em cada um dos anos anteriores. Milhões perderão seus empregos, serão substituídos por outros trabalhadores pior remunerados. Com menos dinheiro na mão dos consumidores o comércio e o setor de serviços encolherá. Com menos vendas no comércio o patronato demitirá em massa sob a justificativa de “salvar os negócios”. Todos perderão renda. O Brasil se tornará um lugar horrível para se viver.
A inadimplência e a pobreza aumentarão e, com elas, a criminalidade e a violência praticada por pessoas desesperadas e pelas “pessoas de bem” contra os mais pobres atingirá níveis jamais vistos. O novo governo, com a qualidade do Ministério, com a capacidade dos eleitos e de seus apoiadores, se “der certo”, se fizer tudo o que dele esperam seus eleitores, tornará o Brasil em um inferno para quem compreende a realidade.
Sem uma grande dose de hipocrisia é impossível acreditar em um “feliz ano novo”. E desejar, pode? Claro que sim. Claro que pode. Mas os desejos não mudam a realidade. Salvo para os muito ricos, em 2019 será muito difícil ser feliz.
E o que desejar, então?
Sei lá. Quem souber me diga. Eu, mesmo sabendo que em 2019 será impossível sermos felizes, desejo aos meus amigos e amigas saúde e capacidade para resistir. Não há mal que sempre dure. A idade da pedra não acabou por falta de pedra, mas porque houve criatividade. A idade média não acabou por falta de trevas, mas porque as pessoas se deram conta da sua perversidade. A ditadura de 64 não acabou por falta de milicos ignorantes e autoritários e o governo que inicia amanhã não terminará por falta de imbecis, mas porque não basta fazer arminha com a mão e rezar a um deus vingativo para que a realidade social melhore. Saúde, capacidade de resistir e paciência. Muita paciência, para esperar que o desastre social que se antevê crie logo as condições objetivas para uma tomada de consciência por parte da maioria da população. E a felicidade? Fica adiada para quando houver condições objetivas e subjetivas para que concebamos, juntos, um novo futuro.
Wilson Ramos Filho, Xixo, é doutor em direito, professor universitário (UFPR/UFRJ) e presidente do Instituto Defesa da Classe Trabalhadora




segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A legitimação da cultura da violência pela pregação de Bolsonaro, por Leonardo Boff



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  "A campanha eleitoral de Jair Bolsonaro para a presidência de República se caracterizou pela pregação de muito ódio, exaltação da violência a ponto de ter como herói um dos mais perversos torturadores, Brilhante Ustra e admirar a figura de Hitler. Fez ameaças aos opositores que não teriam outra alternativa senão a prisão ou o exílio. Pregou ódio a homoafetivos, aos negros e negras e aos indígenas. O Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto seriam considerados terroristas e como tal tratados. Os quilombolas nem serviriam para reprodução. Foram ofensas sobre ofensas a vários grupos de pessoas e minorias políticas (...)."


Do Blog do teólogo, filósofo e ecologista Leonardo Boff:


A campanha eleitoral de Jair Bolsonaro para a presidência de República se caracterizou pela pregação de muito ódio, exaltação da violência a ponto de ter como herói um dos mais perversos torturadores, Brilhante Ustra e admirar a figura de Hitler. Fez ameaças aos opositores que não teriam outra alternativa senão a prisão ou o exílio. Pregou ódio a homoafetivos, aos negros e negras e aos indígenas. O Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto seriam considerados terroristas e como tal tratados. Os quilombolas nem serviriam para reprodução. Foram ofensas sobre ofensas a vários grupos de pessoas e minorias políticas. Talvez a maior desumanidade mostrou quando disse às mães chorosas que procuravam corpos e ossos de seus entes queridos desaparecidos pela repressão por parte dos órgãos de controle e repressão da ditadura militar: “quem procura ossos são os cães”, Bolsonaro disse.
Este foi o discurso da campanha. Outro está sendo o discurso como presidente eleito, dentro de um certo rito oficial. Mesmo assim continua com as distorções e com uma linguagem tosca fora da civilidade democrática. Tudo culminou com a saída de 8.500 médicos cubanos que atendiam as populações mais afastadas de nosso país. Era um protesto do governo cubano face às acusações de Bolsonaro à Cuba, pois é um obsessivo anti-comunista.
A atmosfera tóxica criada pela campanha eleitoral acabou por gestar uma cultura da violência nos seus seguidores, exaltando-o como “mito”. Vários do LGBT especialmente os homoafetivos, negros e indígenas sofreram já violência. Houve até mortes gratuitas aos gritos de “Viva Bolsonaro”.
Que quer sinalisar este fenômeno de violência? Bolsonaro mediante metáforas ponderosas como contra a corrução, o anti-Petismo, o comunismo, o tema da segurança pública e o da família e o lema fundamental “Brasil acima de tudo”(tomado do nazismo “Deutschland über alles”) e Deus acima de todos”, conseguiu desentranhar a dimensão perversa presente na “cordialidade do brasileiro”
Esta expressão “cordialidade do brasileiro”criada pelo escritor Ribeiro Couto e consagrada por Sérgio Buarque de Holanda (cf.V.capítulo de Raizes do Brasil de 1936) é bem explicada por ele e pode significar, por um lado, bondade e polidez e, por outro, também rancor e ódio. Ambas as dimensões provém do mesmo coração donde se deviva “cordialidade”. Sérgio Buarque exemplifica: “a inimizade bem pode ser cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Bolsonaro e seus mais próximos seguidores habilmente souberam tirar à tona este outro lado sombrio de nossa cordialidade. Recalcou o lado luminoso e deixou que o lado maligno inundasse a consciência de milhares de pessoas.
Esse lado nefasto estava escondido e reprimido na alma do brasileiro. Sempre houve ódio e maldade face aos antigos escravos negros cujos descententes são 55,4% de nossa população atual. Isso o mostrou brilhantemente Jessé Souza no seu livro já famoso “A elite do atraso: da escravidão ao Lava-Jato”(2018). Mas era de parte dos representantes antigos e atuais da Casa Grande. A maioria da imprensa empresarial e conservadora e particularmente as mídias sociais da internet universalizaram essa compreensão negativa.
Aconselho ao leitor/a que volte a reler meu artigo de 5/11/18:”A dimensão perversa da ‘cordialidade’ brasileira”. Ai, com mais recursos teóricos, procuro fazer entender esse lado sombrio de nossa tradição cultural.
Qual é o dado específico da atual hostilidade, o lado negativo de nossa cordialidade? É o fato de que ele, que sempre existia, agora se sente legitimado pela mais alta instância política do país, por Jair Bolsonaro. Ele despertou esse lado dia-bólico e reprimiu o lado sim-bólico em muitos de nosso povo que lhe deram a vitória eleitoral.
Não adianta o futuro presidente condenar os eventuais atos de violência, pois se desmoralizaria totalmente caso os tolerasse. Mas convenhamos: foi ele que criou as condições psico-sociais para que ela irrompesse. Ele está na origem e, historicamente, deve ser responsabilizado, por ter despertado esse ódio e violência. Ela prossegue nas midias sociais, nos twitters, blogs e facebooks.
Nenhuma sociedade se sustenta sobre essa dimensão desumana de nossa humanidade. Para conter esse impulso negativo que está em todos nós, existem a civilização, as religiões, os preceitos éticos, os contratos sociais, a constituição, as leis e o auto-controle. Existem também os órgãos que zelam pela ordem e pela contenção de formas criminosas de cordialidade.
Urgentemente precisamos de pessoas-sínteses, capazes de apaziguar os demônios e fazer prevalecer os anjos bons que nos protejam e nos apontem os caminhos da convivência pacífica. Não será Bolsonaro, a pessoa indicada. Mas as sombras existem porque há luz. E é esta que deve triunfar e fazer ditosa a nossa convivência nesse belo e imenso país.
Leonardo Boff escreveu: O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade,26.ed. Vozes,2015.

domingo, 21 de outubro de 2018

Glenn Greenwald: No novo Brasil do Bolsonaro, o império midiático do bilionário Edir Macedo é usado para investigar e tentar intimidar jornalistas – inclusive The Intercept



Billionaire Edir Macedo, owner and chairman of Rede Record de Televisao Angola Lda, is projected on a screen displayed outside a replica of Solomon's Temple during its inauguration ceremony in Sao Paulo, Brazil, on Thursday, July 31, 2014. Billionaire Edir Macedo's temple spans two city blocks and cost 680 million reais ($300 million) to erect. Macedo's net worth has grown to $1.5 billion since he bought the Record TV network in 1989 with a $45 million interest-free loan from the Universal Church of the Kingdom of God, which he founded, according to the Bloomberg Billionaires Index. Photographer: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images


Para criar um clima de intimidação, os vastos recursos do "Bispo" pró-Bolsonaro estão sendo usados para deter as investigações de Bolsonaro, visando jornalistas e suas famílias.

Reportagem do Prêmio Pulitzer Glenn Greenwald, no The Intercept


A PROVÁVEL ASCENSÃO ao poder do extremista de direita Jair Bolsonaro já está gerando um clima no qual jornalistas que criticam a ele, ou ao seu movimento, – incluindo jornalistas que reportam para o Intercept – estão sendo expostos a uma campanha agressiva de investigações pessoais, tentativas de intimidações e escrutínios perniciosas de membros de nossas famílias.
Esses ataques estão sendo orquestrados pelos meios de comunicação de propriedade do pastor evangélico bilionário e afogado em escândalos, Edir Macedo, que agora é um defensor explícito de Bolsonaro. O vasto império de mídia de Macedo – que inclui a segunda maior emissora de TV do país (Record), portais online (R7) e outras agências de notícias – está sendo usado para punir e retaliar jornalistas pelo crime de denunciar criticamente Jair Bolsonaro, seu movimento e as empresas de Macedo.
No sábado passado, o Intercept publicou uma denúncia sobre como jornalistas dentro do R7, um enorme portal on-line de propriedade de Macedo, são “reféns” de sua agenda, impedidos de publicar matérias negativas sobre Bolsonaro e completamente forçados a sacrificar sua integridade jornalística a serviço da agenda política extremista de Macedo. O artigo, escrito por Leandro Demori para o Intercept, baseado em relatos de jornalistas anônimos desesperados do R7, viralizou, tornando-se rapidamente um dos nossos artigos mais lidos esse ano. Na quinta-feira, após a reportagem, a chefe de redação de longa data do principal programa de notícias da TV Record, Luciana Barcellos, pediu demissão.
Ao longo de 2017 e 2018, o Intercept publicou algumas das reportagens críticas ao movimento Bolsonaro mais agressivas e mais lidas do país. O Intercept vem reportando criticamente sobre Bolsonaro há muito tempo. Em 2014, publicamos um artigo chamando-o de o “político eleito mais misógino e odioso do mundo democrático”. No final do ano passado, Bolsonaro, no Twitter, usou um epíteto para LGBTs para me atacar como uma bicha depois que eu o descrevi como um fascista.
Desde a publicação, por nós, da reportagem de sábado sobre o R7, os agentes de estimação do Macedo – aqueles que já foram um dia jornalistas, mas agora foram metamorfoseados à força em guerreiros pró-Bolsonaro – foram mobilizados para investigar não apenas os jornalistas do Intercept, mas também as famílias daqueles que fornecem ao Intercept o seu jornalismo. Em poucas horas, eles foram atrás da vida pessoal dos pais de Demori em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, alegando coisas que não têm qualquer relação com ele e com sua carreira, e que remontam a 1992, quando ele tinha apenas 11 anos de idade. Eles cavaram seu passado para encontrar fotografias dele aos 20 e poucos anos.
Eles enviaram e-mails ao Intercept com uma série de acusações implícitas, insinuações de escândalos fabricados e afirmações equivocadas sobre as finanças do meu marido – no e-mail que nos enviaram, eles usaram informações públicas sobre seu patrimônio e seus gastos eleitorais de modo a levantar dúvidas, ignorando outras informações igualmente públicas que poderiam ter sido acessadas nos mesmo lugares e que desmontavam sua versão maliciosa.
Menos de dois dias após a publicação de nossa denúncia sobre o uso de jornalistas do R7 para fazer propaganda pró-Bolsonaro, o portal publicou um ataque imprudente e cheio de falsidades sobre os jornalistas envolvidos nas reportagens publicadas pelo Intercept, bem como sobre mim e meu marido. Alegou, falsamente, que:
  • Eu sou o “dono” do site (não sou e nunca tive nenhuma participação societária e nem ninguém da minha família tem; aliás, eu nem sequer sou o editor do site);
  • Somos um veículo estrangeiro que existe para interferir na política brasileira, atacando Bolsonaro e promovendo os interesses do partido do meu marido, o PSOL (os artigos sobre o Brasil publicados no Intercept são apurados e escritos principalmente por jornalistas brasileiros, que também publicaram numerosos artigos criticando todos os partidos de esquerda – incluindo o de meu marido, que foi alvo de uma crítica mordaz em 2016, de minha autoria);
  • E não incluiu nenhum comentário do Intercept, que enviou uma longa resposta às perguntas na noite anterior à publicação do artigo (dois de seus comentários foram adicionados horas após a publicação).
A fragilidade desses ataques fez com que o tiro saísse pela culatra. Ainda que o artigo tenha sido compartilhado em massa pelos apoiadores do Bolsonaro, a recepção foi largamente negativa, com internautas destacando as afirmações falsas, as acusações incoerentes e a tentativa pueril de atirar lama com esperança de que algo emplacasse.
AGORA, PORÉM, OS esforços do império midiático do Bispo Macedo estão cada vez mais sérios, mais intimidadores e mais sinistros. Eles notificaram o Intercept sobre sua intenção de publicar o que eles consideram uma denúncia de grande importância sobre nós, a ser exibida num dos programas de mais audiência da grade da emissora, o Domingo Espetacular, uma espécie de genérico do Fantástico, da Rede Globo. Nessas notificações enviadas, ficou claro que recursos significativos foram empregados para investigar não só o passado dos jornalistas do Intercept, mas também de suas famílias.
Para substanciar a acusação absurda de que Demori é membro do mesmo partido que meu marido, o PSOL, os agentes do Bispo Macedo desenterraram uma foto de mais de 10 anos em que Demori posa com a Luciana Genro, quadro importante do partido. A foto foi tirada após uma entrevista que Genro concedeu a ele, algo que repórteres devem fazer por definição (eu, por exemplo, tirei fotos com todos os candidatos que entrevistei esse ano, bem como os ex-presidentes que entrevistei em 2016).
Editor-executivo do TIB, Leandro Demori, com Luciana Genro do PSOL, em 2008, após uma entrevista. (foto fornecida por Record)
Ironicamente, no mesmo ano, Demori entrevistou Onyx Lorenzoni, figurão conservador e um dos braços direitos de Bolsonaro, agora cotado para assumir um ministério num eventual governo do PSL. Após a entrevista, Demori e Lorenzoni tiraram uma foto juntos, o que, de acordo com a lógica utilizada pela Record, significa que Demori não passa de um bolsonarista de extrema-direita.
O motivo da Record de vingança retaliatória é óbvia também pelo seu bizarro e súbito interesse nas finanças do meu marido, apenas um membro da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, oito dias antes de uma eleição nacional em segundo turno em que ele não é candidato. Esta decisão de investigá-lo agora é particularmente reveladora dada aparente falta de interesse da Record em um grande escândalo implicando a campanha de Bolsonaro que atraiu a atenção internacional: alegações de que Bolsonaro se beneficiou de dinheiro corporativo ilegal gasto em uma campanha massiva de divulgação de notícias falsas via WhatsApp: uma história que o R7 enterrou.
Em contraste com o que a mídia internacional reportou de forma incisiva, o R7 e, ao que parece agora também a Record, mal estão tentando esconder o fato de que não estão fazendo jornalismo, mas sim uma missão de vingança por nossa reportagem crítica sobre Bolsonaro e seu apoiador bilionário. Como eles agora investigam o passado das famílias de jornalistas do Intercept, a primeira página do portal R7 no dia da reportagem da Folha de S. Paulo não mencionou este escândalo enorme do Bolsonaro:
Quando o R7 entrou em contato com o Intercept pela primeira vez solicitando comentários, foi enviada uma longa resposta às suas perguntas. Porém, quando vimos que eles publicaram um artigo recheado de falsidades – e que não incluía nem as respostas ou comentários que enviamos na sua versão original –, os editores do Intercept chegaram à única conclusão possível: o que eles estavam fazendo não era de forma alguma jornalismo, mas sim uma campanha de intimidação como punição pelas reportagens críticas a Bolsonaro e ao Bispo Macedo.
Como resultado, quando o programa de TV da Record solicitou uma entrevista para explorar questões muito mais abrangentes sobre tudo isso, a editora-chefe do Intercept, Betsy Reed, se recusou a fornecer mais respostas, explicando para Diego Costa, da Record:
Eu recebi sua solicitação para uma entrevista. Entretanto, ao invés de falar com vocês, nós forneceremos apenas essa declaração, já que o artigo cheio de erros publicado no portal R7 demonstrou claramente que vocês não são jornalistas e sim operadores partidários da extrema-direita, amarrados à agenda extremista de seu dono. Na resposta que Leandro Demori preparou para o Intercept, a qual vocês inescrupulosamente não incluíram no artigo publicado pelo R7 na segunda-feira, nós afirmamos que a matéria que vocês estão planejando é obviamente um tática mesquinha de retaliação contra a reportagem viral que publicamos recentemente, na qual documentamos as pressões exercidas por Edir Macedo sobre seus funcionários para que produzam propaganda pró-Bolsonaro de acordo com suas preferências políticas.
Betsy Reed, Editora-Chefe
Ao que tudo indica, incluindo aí novos e-mails repetindo as mesmas perguntas e acrescentando novas, a organização do Bispo Macedo continua em sua investigação sobre o Intercept, os jornalistas que ali trabalham, e suas famílias, e pretende veicular para milhões de pessoas essas acusações falsas e difamatórias em seu programa de domingo à noite.
Não espanta que com os novos tempos de um regime Bolsonaro que se aproxima, os métodos do jornalismo da Rede Record se assemelhem cada vez mais às intimidações da Igreja Universal de Edir Macedo. Em 2007, a repórter da Folha de S. Paulo, Elvira Lobato, precisou responder a 111 processos em várias cidades do Brasil, movidos por fiéis e pastores da Igreja Universal, porque publicou uma matéria mostrando como Edir Macedo tinha construído seu império. A estratégia de usar ovelhas para processar a jornalista foi tão maldosamente pensada que, num mesmo dia, Elvira chegou a ter audiências no Rio Grande do Sul, no Mato Grosso e no Piauí, na mesma hora.
Num domingo à noite, a emissora expôs o rosto de Elvira em rede nacional no mesmo programa Domingo Espetacular que pretende usar para nos atacar.”Eles incitavam as pessoas a entrar com ações contra mim. E comecei a entrar em pânico. Eu dizia: ‘Eu vou ser apedrejada na rua! Porque nós estamos falando de fiéis que vão achar assim: ‘Aquela mulher é um demônio! O que ela fez contra a minha fé? Porque é que ela humilhou a minha fé?’”.
NO FIM DE SETEMBRO, Macedo confirmou em público o que muitos já suspeitavam: ele apoiaria a candidatura de Bolsonaro à presidência (ele originalmente pareceu apoiar Alckmin, mas abandonou o barco após o fracasso total dessa candidatura). Desde sua declaração pública de apoio a Bolsonaro, os órgãos de imprensa do Bispo Macedo mal disfarçam sua nova função de produção de propaganda pró Bolsonaro.
Nos dias logo antes do primeiro turno das eleições, em 7 de outubro, Bolsonaro anunciou que não participaria do debate da TV Globo – tradicionalmente o momento mais importante dos ciclos eleitorais – alegando estar ainda cuidando dos ferimentos decorrentes do atentado à faca que sofreu. A Record anunciou, entretanto, que exibiria, simultaneamente ao debate da Globo, uma entrevista “exclusiva” com Bolsonaro, com perguntas tão chapa-branca e favoráveis a ele que surpreende que o entrevistador não as tenha feito de joelhos. O TSE assistiu a tudo passivamente.
Foi nesse contexto que o R7 e outros jornalistas da máquina do Bispo Macedo começaram a lamentar, sob proteção do anonimato, que foram transformados de jornalistas a reféns disseminadores de propaganda em favor de um candidato visto crivelmente por amplos setores como fascista. Foi nesse contexto que o Intercept pôde publicar uma reportagem sobre o funcionamento interno do R7 e as fortes pressões às quais seus jornalistas estão submetidos, sendo forçados a distorcer a verdade e produzir propaganda pró-Bolsonaro e antipetista.
Uma coisa é o bispo Macedo usar sua fortuna e seu império de mídia para eleger um extremista. É outra coisa completamente diferente que ele explore e abuse de seus veículos de mídia – sua TV é uma concessão pública – para intimidar, investigar e ameaçar jornalistas pelo crime de publicar reportagens críticas sobre ele e Bolsonaro. Isso representa uma ameaça séria à liberdade de imprensa: é virtualmente impossível praticar jornalismo sobre Bolsonaro se sabe-se que a imensa fortuna e os veículos midiáticos do bispo Macedo serão usados para caluniar e intimidar não somente os jornalistas responsáveis, mas também suas famílias.
Macedo e sua máquina podem gastar quanto dinheiro quiserem, empregar o quanto quiserem seus megafones para mentir, distorcer e difamar. Isso vai ocorrer, ao menos segundo dizem planejar fazer, na noite de domingo. O Intercept vai manter seu compromisso inabalável com o jornalismo independente e destemido, que certamente inclui, agora mais do que nunca, o escrutínio agressivo e crítico de Jair Bolsonaro e do bispo bilionário que pretende elegê-lo.