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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Lonardo Boff sobre a criação de um bode expiatório pelo discurso de violência e autoritarismo conservador: o anti-petismo





  "Por esse mecanismo do bode expiatório, a população é levada a descarregar a corrupção que está difusa e concentrada nos grandes corruptos e corruptores nas costas de um só, do PT, com a finalidade de esconder a própria corrupção. Com isso, toda a sociedade passa a esquecer os reais corruptos e a pensar que que ela está somente no PT no qual se despeja toda a raiva e o ódio. É feito bode expiatório já testemunhado na Biblia. Os hebreus punham em cima de um bode todos os pecados e malfeitos do povo e o enviavam para o deserto para lá expiar até morrer de fome. E assim quase todas as sociedades faziam algo semelhante."


Do site de Leonardo Boff:



A criação do bode expiatório: o anti-petismo

18/10/2018
René Girard (1923-2015), pensador e filósofo francês, o maior sábio que conheci na minha vida e esteve com teólogos da libertação no Brasil em 1990, dedicou grande parte de sua vasta obra a estudar a violência, especialmente a necessidade de uma sociedade, de criar um bode expiatório (ver O bode expiatório 1982).
Por esse mecanismo do bode expiatório, a população é levada a descarregar a corrupção que está difusa e concentrada nos grandes corruptos e corruptores nas costas de um só, do PT, com a finalidade de esconder a própria corrupção. Com isso, toda a sociedade passa a esquecer os reais corruptos e a pensar que que ela está somente no PT no qual se despeja toda a raiva e o ódio. É feito bode expiatório já testemunhado na Biblia. Os hebreus punham em cima de um bode todos os pecados e malfeitos do povo e o enviavam para o deserto para lá expiar até morrer de fome. E assim quase todas as sociedades faziam algo semelhante.
Entre nós houve um tempo em que o bode expiatório eram os subversivos, depois os comunistas (continua ainda hoje), em seguida os jovens negros das favelas, supostamente ligados ao crime e às drogas, os gays e os da LBGT. Sobre eles se transfere a violência implícita na sociedade. Neste momento o bode expiatório é o PT e Lula. Neles se põe toda a corrupção, embora quase todos os partidos, alguns mais que o PT, participaram da corrupção.
Com o apoio do aparelho repressivo do Estado, de boa parte do Ministério Público, não excluída parte do próprio STF, da classe media e especialmente da midia privada, fez-se essa seletividade quanto à corrupção. Ao PT se joga toda culpa pelos males atuais do Brasil, quando os principais causadores se escondem criando um bode expiatório.
Mas o que verdadeiramente está por trás do anti-petismo, sob pretexto de combate à corrupção é o ódio ao ex-presidente Lula, um operario que logrou chegar ao centro do poder. A classe dominante e as oligarquias tradicionais, herdeiras da mentalidade da Casa Grande, jamais aceitaram que alguém da Senzala chegasse ao Planalto. Cultivaram e cultivam ódio e desprezo aos pobres, antes jogado sobre os escravos. Como pode um pobre frequentar o mesmo espaço social que eles: na escola. na universidade, nos shoppings, nos aviões?
Estes eram espaços de exclusividade dos endinheirados que viveram sempre de privilégios, sem senso da igualdade de todos, base de qualquer democracia. Acresce ainda aqueles que nunca reconheceram humanidade e dignidade nos pobres e negros e negras sem falar dos indígenas e quilombolas.
Agora esse ódio, latente nas oligarquias e assumido, em parte, pela classe media assustada, contaminou, não sem ajuda das igrejas neo-pentecostais televisivas, parte da população pobre.
Aqui reside a raíz primeira do anti-petismo. Há ódio e raiva recalcados em pessoas que se dizem “de bem” e se confessam cristãs. É um cristianismo meramente cultural, de fachada, mas eticamente anti-cristão.
A mídia empresarial que nunca se deu bem com a democracia e que nutre um soberano desprezo pelo “povão” ou “povinho”, ou “ralé” na expressão técnico-provocativa de Jessé Souza, jogou um papel decisivo na difusão do anti-petismo e do ódio.
Para o anti-petismo valeram todos os meios. Basta ver os blogs. os twitters e os facebooks sem falar do incontrolável meio do WhatsApp que criou redes de difamação e fake news contra o PT e o candidato Haddad.
Agora sabemos que milhões de mensagens falsas, foram financiadas por empresas privadas que, segundo a nova legislação, é crime de caixa dois.
Mas esta é a lógica da política regida pelo conceito do bode expiatório, política de ódio e de agressão do outro. Assim como existe o bulling nas escolas, agora o bulling coletivo é contra PT. Mas há que resistir à essa ignomínia. A sociedade inteira deve fazer uma revisão de seus anti-valores, de sua corrupção cotidina.
O Sindicato dos Procuradores da Fazenda (SINPROFAZ) relata que até o dia 18/9/2018 cerca de 450 bilhões de reais foram sonegados, particularmente pelas grandes empresas. Nos últimos 10 anos elas deixaram de pagar 1,8 trilhões de reais. Essa não é a grande corrupção? Quem vai contra ela? Que faz o Ministério Público e o próprio STF?
Se parte desta dívida fosse cobrada, não se precisaria nenhuma reforma da Previdência É mais fácil e cômodo criar um bode expiatório, o PT, e destarte esconder a corrupção que grassa na sociedade, até no cotidiano do suborno a policiais de trânsito.
Rejeitamos esta lógica do bode expiatório por ser seletiva, injusta, desumana e profundamente anti-ética, como denunciava sempre René Girard.
Leonardo Boff, filosofo, teólogo e co-editor do livro René Girard com teólogos da libertação,Vozes 1991.





quinta-feira, 3 de março de 2016

Luis Fernando Veríssimo sobre o ponto de reconhecimento da ameaça fascista bárbara


   "Às vezes imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos vinte e trinta do século passado, pressentindo que alguma coisa que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê. Este judeu hipotético teria experimentado preconceito e discriminação na sua vida, mas não mais do que era comum na história dos judeus. Podia se sentir como um cidadão alemão, seguro dos seus direitos, e nem imaginar que em breve perderia seus direitos e eventualmente sua vida só por ser judeu. Em que ponto, para ele, o inimaginável se tornaria imaginável? E a pregação nacionalista e as primeiras manifestações fascistas deixariam de ser um distúrbio passageiro na paisagem política do que era, afinal, uma sociedade em crise mas com uma forte tradição liberal, e se tornaria uma ameaça real?"


Epa!


texto de Luis Fernando Verissimo


Publicado originalmente em O Globo e republicado no Jornal GGN, em julho de 2015


Às vezes imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos 20 e 30 do século passado, pressentindo que algo que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê

No filme “2001 — Uma odisseia no espaço”, do Stanley Kubrick, astronautas descobrem na Lua (ou era em Marte?) um misterioso monólito, de origem desconhecida. Depois fica-se sabendo que o monólito fora posto ali como uma espécie de alarme. Quando exploradores da Terra o descobrissem, seria o sinal de que nossa civilização tinha os meios para invadir o espaço e se tornava uma ameaça para as civilizações extraterrenas que nos estudavam de longe desde que o primeiro primata acertara a primeira cacetada na cabeça de outro, e sabiam do que nós éramos capazes. A descoberta do monólito era um aviso: atenção, a barbárie vem aí, disfarçada de conquista científica.

Às vezes imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos vinte e trinta do século passado, pressentindo que alguma coisa que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê. Este judeu hipotético teria experimentado preconceito e discriminação na sua vida, mas não mais do que era comum na história dos judeus. Podia se sentir como um cidadão alemão, seguro dos seus direitos, e nem imaginar que em breve perderia seus direitos e eventualmente sua vida só por ser judeu. Em que ponto, para ele, o inimaginável se tornaria imaginável? E a pregação nacionalista e as primeiras manifestações fascistas deixariam de ser um distúrbio passageiro na paisagem política do que era, afinal, uma sociedade em crise mas com uma forte tradição liberal, e se tornaria uma ameaça real? O ponto de reconhecimento da ameaça não era evidente como o monólito do Kubrick. Muitos não o reconheceram e morreram pela sua desatenção à barbárie que chegava.

A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo. Mas não algo difuso e ominoso se aproximando nos céus do Brasil, à espera que alguém se dê conta e diga “Epa” para detê-lo? Precisamos urgentemente de um “Epa” para acabar com esse clima. Pessoas trocando insultos nas redes sociais, autoridades e ex-autoridades sendo ofendidas em lugares públicos, uma pregação francamente golpista envolvendo gente que você nunca esperaria, uma discussão aberta dentro do sistema jurídico do país sobre limites constitucionais do poder dos juízes... Epa, pessoal.

Se está faltando um monólito para nos avisar quando chegamos ao ponto de reconhecimento irreversível, proponho um: o momento da posse do Eduardo Cunha na presidência da nação, depois do afastamento da Dilma e do Temer.
Luis Fernando Verissimo é escritor

sábado, 6 de fevereiro de 2016

As relações entre a Casa Grande, o fomento a uma constante "Crise Política", demolição do Estado, recessão emocional, anti-petismo e complexo de vira-latas


Paulo Nogueira Batista Jr.: política econômica para enxotar vira-latas

vira
Quer entender o que têm a ver a crise econômica com a ação política sistemática de demolição da ideia do Estado como ferramenta de desenvolvimento e bem-estar, que vai além da  destruição do governo petista mas passa, necessariamente, por ela?
Leia o professor Paulo Nogueira Batista Jr, um dos raros economistas brasileiros que não escreve em hieróglifos e com mais preocupação em ser entendido do que ser admirado como oráculo.
Talvez, por isso, os governos petistas sempre o tenham mantido numa espécie de exílio: primeiro no FMI, onde conduziu nossa afirmação como membro decisivo, em lugar de pedinte contumaz e, agora, no Banco dos Brics, onde é vice-presidente e já anuncia a entrada, progressiva, de investimentos em infraestrutura no país.
Seu artigo hoje, em O Globo, é a mais simples e melhor explicação sobre as mudanças de orientação da política econômica, tímidas, mas as possíveis a um governo que está fraco e sob implacável assédio não só das forças do “mercado” – leia-se aí a especulação financeira, nacional e internacional – como, sobretudo, pelas feitorias de pensamento, cuja dominação se dá como todo processo de dominação: pela destruição de nossa autoestima, pela renúncia à ideia de nossa capacidade e, portanto, pela criação de uma necessidade de entregarmos a outros a condução do nosso próprio destino.
Tomei a liberdade de sublinhar algumas frases, professor…

Recessão emocional

Estou passando algumas semanas no Brasil, leitor, e constato horrorizado: pior do que a recessão econômica, só a recessão emocional. O país, que há poucos anos era um sucesso internacional, parece ter perdido a autoconfiança definitivamente. Esquece seus pontos fortes e proclama aos quatro ventos seus pontos fracos. E, pior, demonstra satisfação masoquista em proclamá-los.
Em outras palavras, o complexo de vira-lata voltou com força total. Era de se esperar. Um complexo assim secular não se supera num passe de mágica, em poucos anos de sucesso. Mesmo nos nossos anos de prestígio internacional, o vira-lata estava ali, à espreita, pronto para voltar à cena. Afinal, como dizia Nelson Rodrigues, subdesenvolvimento não se improvisa — é obra de séculos.
A recessão emocional alimenta a econômica, e vice-versa. O colapso da confiança prejudica inevitavelmente o investimento e o consumo. A retração da demanda agregada doméstica derruba a produção e o emprego. E o aumento da capacidade ociosa e do desemprego deprime ainda mais o investimento e o consumo, jogando a economia numa espiral descendente.
Nesse ambiente, as políticas monetária e fiscal não podem continuar sendo pró-cíclicas, como foram em 2015. Não há dúvida de que o espaço monetário e fiscal é limitado. Mas é possível moderar a política de juros e espaçar o ajuste fiscal ao longo do tempo. É o que parece estar tentando a equipe econômica. Sob protestos da turma da bufunfa, o Banco Central interrompeu o ciclo de alta de juros. O Ministério da Fazenda anunciou medidas de ampliação do crédito, centradas na atuação dos bancos federais, e mudanças na política fiscal que tendem a torná-la mais sensível ao ciclo econômico. Foi apresentado ao mesmo tempo um programa de ajustamento estrutural das contas públicas.
A direção tem que ser essa mesmo. Ou alguém imagina que num quadro de queda acentuada do gasto privado o papel da política econômica possa continuar sendo o de aprofundar a recessão com juros ascendentes e uma política fiscal pró-cíclica? Mais do que nunca, o setor público deve desempenhar um papel compensatório.
A recessão emocional nos impede de ver os pontos positivos do quadro macroeconômico? Alguns são tão evidentes que nem o mais tenaz dos vira-latas é capaz de negá-los. Por exemplo: a dimensão e velocidade do ajuste das contas externas, consideradas surpreendentes por analistas da economia brasileira. A combinação de queda da demanda interna com acentuada depreciação do real produziu grande melhora da balança comercial e da conta corrente do balanço de pagamentos em 2015, que só não foi maior porque o quadro internacional foi adverso em termos de demanda externa e de troca.
Somado às elevadas reservas em moeda estrangeira, que o Brasil ainda não precisou utilizar, o fortalecimento do balanço de pagamentos nos dá condições de enfrentar as turbulências internacionais que devem ocorrer em 2016.
A desvalorização do real funciona, além disso, como estimulo à recuperação da atividade e do emprego. As exportações de bens e serviços já começaram a responder ao câmbio mais favorável. Ao mesmo tempo, a produção nacional se mostra capaz de substituir importações em vários setores. Ainda que o setor externo da economia seja relativamente pequeno, como costuma se verificar em países continentais, o impulso cambial ajudará a estabilizar os níveis de atividade e de emprego.
Portanto, deixo aqui o meu apelo veemente: sossega, vira-lata!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Como sempre, Chico Buarque nos deu uma boa lição... Por Paulo Moreira Leite




Entre humanos que relincham e outros capazes de zunir, num comportamento próprio de quadrúpedes morais, mais uma vez Chico Buarque de Holanda assegurou seu lugar na história do Brasil e dos brasileiros.

A cena vista e gravada num fim de noite no Rio de Janeiro é apenas a confirmação recente de que Chico é um artista que sabe qual é seu lugar em cada momento de nossa história.

Comporta-se dessa maneira há meio século, seja através da música, dos versos de gênio, de uma literatura cada vez mais apurada e espetacular. Age assim pela postura política de quem recusa o lugar de artista-mercadoria e sabe responder aos percalços e tragédias da conjuntura histórica com clareza, com valentia e uma auto ironia que o acompanha tanto nas horas agradáveis como nas mais difíceis, como se descobre pelo depoimento de um de seus amigos de “ Chico: um artista brasileiro”, documentário que é uma obra prima obrigatória para todo brasileiro preocupado em entender o seu país em 2015.

Mais do que um poeta, um grande escritor recém confirmado, Chico Buarque é uma das raras consciências da nação.   Ajudou e ajuda os brasileiros a entender o país em que vivem. Por qualquer meio utilizado, seus enredos convergem para a defesa das grandes maiorias, a solidariedade diante dos explorados e excluídos.

Sempre denunciou o regime militar, combateu a censura,  a brutalidade covarde da ditadura e o empobrecimento dos anos 1960 e 1970.  Antes e depois da democratização, atuou para defender a primazia dos direitos e interesses dos que não tem direito à palavra, o que explica a importância do pobre, do negro, do explorado, em sua música, na literatura, no engajamento político direto, num tratamento frequentemente solidário e até carinhoso em alguns momentos. Entendeu o ponto de vista mulher, muito antes que se tornasse moda. Defendeu -- como o filme mostra num depoimento surpreendente do início da carreira - os direitos de homossexuais quando palavras como veado e bicha eram parte do vocabulário familiar.

Acima de tudo recusou as clássicas tentativas de acomodação com os interesses do alto, o que se reflete num comportamento que rejeita as vulgaridades típicas que a sociedade contemporânea reservas aos artistas de sucesso – a começar pelo inevitável beija-mão dos ricos e poderosos, entre eles a TV Globo.

Mostrando que aquilo que parece inevitável pode ser evitado, Chico mostrou uma força moral surpreendente no país da dialética da malandragem. Tem compromissos claros. Nunca deixou de ter um lado e sabemos muito bem que lado é este – e é isso, mais do que qualquer outro fator, que explica vários momentos de sua carreira, inclusive a agressão de anteontem.

 Atacado, cercado, naqueles movimentos tensos que podem descambar para uma situação fora de controle, Chico soube enfrentar com sorrisos e ironias uma provocação tipicamente fascista. Ouviu expressões inaceitáveis de ódio (“você é um merda, quem apoia o PT é um merda”) e ressentimento (“para quem mora em Paris é fácil”).

 Manteve a postura adequada ao dizer que cada um tem direito a liberdade de sua opinião (“eu acho o PSDB bandido. E aí?”). No dia seguinte, ao postar a música " Vai trabalhar, vagabundo", lembrou a matriz moral de uma elite que jamais aceitou pegar no pesado. Três séculos e meio de escravidão nos contemplam. Seu nome é o desprezo pela democracia, a vontade indomável de recuperar privilégio, o desprezo pelos de baixo.

Meses depois da filósofa Marcia Tiburi escrever “Como conversar com um fascista”, Chico Buarque saiu da teoria para o terreno áspero da prática.

A experiência ensina que a bestialidade fascista costuma ser uma ação preparatória para atos de violência física, aberta e escancarada. É uma faísca a espera de uma chama capaz de produzir uma catarse.

Ao contrário de uma briga de rua, dos conflitos entre gangues adolescentes e mesmo guerras por ponto de tráfico, que se equivalem num mesmo universo entre interesses idênticos e apenas concorrentes, a violência fascista pretende assumir sempre um caráter político punitivo. É aí, pela pancadaria sem freios, até selvagem, que tenta produzir um espetáculo para sua ideia de superioridade com direito a prevalecer com base na força bruta.

Simula um discurso de redenção num universo que – de seu ponto de vista aloprado -- se tornou incapaz de aceitar indispensáveis remédios civilizatórios. Tenta acobertar a própria brutalidade, de caráter criminoso, a partir de um discurso que busca apontar supostas falhas morais, incorrigíveis, inaceitáveis e vergonhosas, no Outro. Seu discurso tem como destino a morte, numa agressão animalesca que quer fingir que não se trata de pura bestialidade doentia, tentando justificar-se pelas falhas e faltas do Outro. É pura barbárie mas pretende ser castigo. Quer dar uma lição.

Num flerte que nasceu pela ilusão suicida de que os movimentos fascistas podem ser úteis a um negócio que eu sempre imaginei que precisava da liberdade de expressão para sobreviver, nossos meios de comunicação fizeram um papel vergonhoso. Numa clássica banalização do mal, pois precisam das bestas-feras para alimentar um golpe de Estado disfarçado de impeachment, editaram um noticiário com verbos e palavras que invertem os papéis, transformando a vítima em agressor. É preocupante, quando se recorda a estatura cultural de Chico Buarque de Holanda. Nem ele precisa poupado, ensina-se. Vale-tudo -- essa foi a mensagem no dia seguinte.

Quem deu a boa lição foi Chico e isso não surpreende, para quem já assistiu “Chico: um artista brasileiro”. Não vou lembrar, aqui, as inúmeras passagens maravilhosas e diversas cenas pouco conhecidas da biografia de Chico Buarque. Só isso já vale o filme – mas o documentário tem mais. Tem ideias, reflexões.

Fico na principal, que tem a ver com o Brasil de hoje. Num depoimento sobre um país envolvido com um ambiente de desencanto e inconformismo com a economia, a política, a cultura, Chico Buarque formula uma visão indispensável.

Diz que a situação “piorou porque melhorou”.

Você entendeu: as mudanças e progressos ocorridos num período recente, quando as maiorias conquistaram direitos e garantias impensáveis em qualquer época, mudaram o país de alto abaixo. Mas essas mudanças trouxeram contrapartidas que, do ponto de vista de quem já se encontrava do outro lado da nossa imensa avenida social, nem sempre são confortáveis, muito menos bem vindas. Muitas podiam ser corretas, mas sequer ocorreram como se tinha imaginado. E agora? pergunta o filme.

Falando dos anos de sua juventude, em boas escolas, numa família com vida confortável, Chico responde. Lembra da bossa nova, dizendo que, para seu gosto pessoal, era uma música muito mais agradável do que a fase atual da música brasileira. Admite, contudo, que fala de um ponto de vista de uma determinada elite, com uma certa formação e hábitos próprios de quem habita determinados patamares da pirâmide social.

Deixa claro, com sinceridade, que prefere viver num país onde todos possam expressar a música a seu gosto e a seu estilo – mesmo que isso não seja o mais agradável a seus ouvidos. Essa é a opção.

Você sai do cinema convencido de que, como a maioria das pessoas, Chico tem muitas críticas ao que ocorre no país de hoje. Nem por isso, contudo, perdeu as referências de sua história nem os valores que nos ensinou a preservar – mesmo quando eram impronunciáveis e até malditos. Essa é sua força, seu lugar.

Recusa-se a negociar princípios democráticos em nome do gosto pessoal.

Essa é a lição que se deve aprender.

Fonte: Blog do Paulo Moreira Leite

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Marcelo Auler sobre a incoerência do playboy que tentou ofender Chico Buarque de Hollanda

Charge de Vítor Teixeira mostrando a diferença de estatura moral e intelectual entre Chico e os mimados coxinhas

A esta altura, na internet, já “viralizou” o vídeo que a Glamurama, de Joyce Pascowitch, postou com o bate-boce entre Chico Buarque e os jovens Alvaro Garnero Filho e Tulio Dek, em mais uma clara demonstração de intolerância política com quem pensa diferente. É óbvio, que nos dias atuais de radicalismo à flor da pele, haverá sempre quem defenda um ou outro. Dependerá da ideologia política de cada um. A questão, porém, passa por outra discussão comum nos dias atuais: a incoerência.

Ela veio de um dos jovens que cobraram do compositor, cantor e, escritor o fato dele “morar em Paris” com base, certamente, como disse o próprio Chico, na leitura deVeja.

Erraram, pois, é público que ele mora no Rio, onde anda diariamente pelas ruas e passa por centenas de pessoas sem ser importunado como ocorreu na noite de segunda-feira, na saída de um restaurante.

O importunaram e ainda filmaram a provocação, na expectativa de posarem de heróis — da direita xiita — por alguns momentos nas redes sociais.

Mas, enquanto Chico não faz de seu imóvel na cidade luz e de suas temporadas de recolhimento por lá um trampolim para as páginas de jornais e menos ainda colunas sociais, o mesmo não se pode falar de um dos rapazes que o provocaram com base em informação errada: “Para quem mora em Paris é fácil, não? Você mora em Paris”.

Álvaro Garnero Filho, assim como o pai, é figurinha fácil nas colunas de fofoca e futilidades. Basta googlar seu nome que logo aparecem fotos das quais deve ser orgulhar. Afinal, há gosto para tudo.

Não se sabe se os familiares de Alvarinho, forma como Lu Lacerda o trata em sua coluna social, possui imóveis no exterior. Certamente sim, pois seu bisavô era Joaquim Monteiro de Carvalho, que entre outros feitos trouxe para o Brasil empresas como a Volkswagen, a Peugeot e a Moët & Chandon. Já o avô, Mario Garnero, é o dono do Brasilinvest, um banco de negócios que em 1985 foi liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central.

Alvarinho pode até não dispor de imóveis da família em outros países, nem por isso, porém, deixa de desfrutar “.La Doce Vita”. E isto está mais registrado nas colunas de fofoca do que as visitas de Chico Buarque a Paris.

Alvarinho e Álvaro Garnero com o DJ Jach E em Saint-Tropez férias com o filho 29.07.2013
Alvarinho e Álvaro Garnero com o DJ
Jach E em Saint-Tropez férias com
o filho 29.07.2013

Em julho de 2013, por exemplo, a coluna de Lu Lacerda registrava o curioso ingresso do Alvaro Garnero pai no mundo político. Ele assinou a ficha de filiação ao Partido Republicano Brasileiro (PRB) do senador “Marcelo Crivella (RJ) que, na época, ocupava o Ministério da Pesca, por conta de seus conhecimentos em piscicultura.

Pois, enquanto o pai se filiou ao partido cujo político maior ocupou um ministério do governo Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores, o fiçlho e seus amigos classificam os petistas e seus apoiadores, como Chico Buarque de “merdas”.

A nota do anúncio da filiação tinha como ilustração uma foto de pai e filho. Não estavam em nenhum evento político. Muito menos em uma atividade produtiva. Mas ao lado do do DJ Jack-E em uma boite em Saint Tropez, uma pequena comuna francesa, localizada na região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, no departamento de Var, na definição da enciclopédia livre Wikipédia.

Um ano depois, Alvaro Garnero Filho voltou não apenas a uma, mas a algumas colunas sociais. Foi em agosto de 2014. Todas registravam, com louvor o grande feito do jovem, então com 18 anos, estava “pegando”, ops!, namorando a socialite, atriz, cantora, empresária, escritora, estilista de moda, modelo, compositora e produtora norte americana, Paris Hilton, quinze anos mais velha.

Na coluna de Brfuno Astuto, de Época, o registro da pegação de Alvarinho com Paris Hilton. Namoro aprovado pelo pai.
Na coluna de Brfuno Astuto, de Época,
o registro da pegação de Alvarinho com
Paris Hilton.Namoro aprovado pelo pai.
As fotos do casalzinho enamorado foram feitas em Ibiza, na Espanha, lugar frequentado pelos mais endinheirados e badalados. Aliás, vale aqui repetir o que o colunista da revista Época — ele não lê apenas Veja, viu Chico Buarque! — registrou na nota:

“O verão europeu, mais precisamente em Ibiza, na Espanha, é o palco de um novo casal jet setter que tem dado o que falar: a socialite Paris Hilton e o estudante brasileiro Álvaro Garnero, conhecido entre os endinheirados paulistas como Alvarinho, filho do empresário e apresentador homônimo, que mora em St Moritz, na Suíça. “Estive com a Paris em Mônaco e ela é supersimpática, engraçada e bonita”, diz Álvaro pai, que aprovou o novo affair do rebento, de apenas 18 anos. “Ele tem 1,98 m de altura, é bonito de doer, gente boa, esportista e onde passa a mulherada fica louca. Eles estão empolgados, mas ele mora na Europa e ela nos Estados Unidos. Só com o tempo para saber se vai dar certo”

Descobre-se então que Alvarinho mora (ou morou) na Europa. Quem diria, logo ele que foi questionar Chico Buarque por ter um apartamento em Paris, pelo menos em agosto do ano passado, morava em St Moritz, na Suíça.

Estava na Suíça, namorando a atriz famosa e posando para colunas sociais enquanto no Brasil se desenrolava a eleição mais disputadas para a presidência da República. Nela, seu pai que chegou a se inscrever como candidato a deputado federal por São Paulo, fazendo uma previsão de gasto de R$ 6 milhões, acabou renunciando à candidatura.

Já Chico Buarque, como todos sabem, participou da campanha eleitoral, coerentemente, apoiando partidos e políticos em que sempre confiou, por motivos que nunca escondeu.

Abaixo, reproduzimos o vídeo postado pela Glamurama, da discussão de Alvaro Garnero e Túlio Deck com Chico Buarque na noite de segunda-feira (21/12) no Leblon. Mesmo aqueles que já o assistiram, vale a pena ver de novo, sabendo destes pequenos detalhes sobre o jovem Alvarinho. Mas, por favor, não cobrem coerência dele.

Folha e Estadão reproduzem vídeo sem xingamento e “culpam” a vítima:



quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Diante da marcha do fascismo no Brasil, a atualidade brutal de Hannah Arendt





  "Por isso, mais do que nunca, é importante revisitarmos a história, para não repetirmos os erros do passado. A direita saiu do armário e perdeu completamente os pudores. A oposição não tem mais vergonha de estimular a violência contra petitas, ou qualquer outro que julguem ser contra suas ideias, sejam eles ciclistas, feministas, homossexuais etc." - Carlos Eduardo


A atualidade brutal de Hannah Arendt


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Por Carlos Eduardo, editor assistente do Cafezinho.
Os panfletos atirados nesta segunda-feira (5), durante velório do ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra, revelam o nível em que chegou o ódio político no país. Um nível preocupante. Quando nem mesmo a morte de um adversário político é mais respeitada por aqueles que fazem oposição, sinal de que a sociedade está doente.
Qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência. A escalada do fascismo no século XX ocorreu de modo semelhante. 
Por isso, mais do que nunca, é importante revisitarmos a história, para não repetirmos os erros do passado. A direita saiu do armário e perdeu completamente os pudores. A oposição não tem mais vergonha de estimular a violência contra petitas, ou qualquer outro que julguem ser contra suas ideias, sejam eles ciclistas, feministas, homossexuais etc.
O momento político atual é propício para assistir ao filme Hannah Arendt - Ideias que Chocaram o Mundo. Como ensinou a filósofa alemã, de origem judaica, e perseguida pelo nazismo, todas as sociedades fascistas têm algo em comum: a banalização do mal.
Abaixo segue artigo do professor Ladislau Dowbor sobre o filme de Hannah Arendt e como suas ideias permanecem atuais.
***
hannah-arendt

A atualidade brutal de Hannah Arendt

Por Ladislau Dowbor, no Justificando.
O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.
A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.
Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.
Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.
Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.
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Banalidade do mal: Panfleto atirado em frente ao velório do ex-senador José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte, pede a morte de petistas 
O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejam harsher,ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.
A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.
O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.
Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.
No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.
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Manifestantes protestam durante velório de ex-presidente do PT, em total desrespeito aos amigos e parentes
O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores. No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.
Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.
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“Qualquer momento é momento de mandar um bandido embora. Até no enterro da minha mãe eu faria isso”, disse o aposentado de 60 anos com o cartaz na mão
O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.
O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.
Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.
Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.
O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.
Ladislau Dowbor é professor de economia nas pós-graduações em economia e em administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e consultor de várias agências das Nações Unidas. Seus artigos estão disponíveis online em http://dowbor.org.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Luis Fernando Veríssimo sobre a longa indigestão da elite brasileira




      Quem estava vivo e consciente na época se lembra do quase pânico provocado pela perspectiva do Lula no poder. Oitocentos mil empresários fugiriam do país. Ninguém sabia ao certo o destino da sua prataria, nem de suas cabeças. A ideia de engolir um sapo, ainda mais um sapo com uma ameaçadora barba cubana, era revoltante. Mas, fazer o quê? Lula foi eleito legalmente, o sapo foi deglutido e empossado. E o pior não aconteceu. Poucos empresários emigraram e os que ficaram, principalmente do setor financeiro, não se arrependeram. 

 A longa indigestão 


texto de Luis Fernando Veríssimo publicado em O Globo

 Quantos na Paulista concordavam que uma ditadura militar é preferível ao PT no poder? Talvez nenhuma, talvez a maioria. Nunca se sabe o efeito da má digestão no organismo Quando o Brizola se convenceu de que não chegaria à Presidência da República, consolou-se com uma sentença: a elite brasileira teria que engolir um sapo barbudo em seu lugar. Quem estava vivo e consciente na época se lembra do quase pânico provocado pela perspectiva do Lula no poder. Oitocentos mil empresários fugiriam do país. Ninguém sabia ao certo o destino da sua prataria, nem de suas cabeças. A ideia de engolir um sapo, ainda mais um sapo com uma ameaçadora barba cubana, era revoltante. Mas, fazer o quê? Lula foi eleito legalmente, o sapo foi deglutido e empossado. E o pior não aconteceu. Poucos empresários emigraram e os que ficaram, principalmente do setor financeiro, não se arrependeram. E ninguém foi guilhotinado.

 É verdade que o PT tratou de tornar-se mais palatável para ser eleito. Prometeu seguir o modelo econômico vigente, com alguns ajustes na área social para honrar seu passado e seus compromissos de campanha, mas sem fazer loucuras. E o sapo barbudo desceu pela goela da nação com a suavidade possível. Já a sua digestão foi outra coisa. Não se muda de dieta tão radicalmente sem consequências ao menos gástricas. Pela primeira vez o Brasil tinha na presidência um ex-operário, vindo das lutas sindicais, que errava a concordância verbal mas mobilizava a massa. Com todas as suas precavidas concessões ao status historicamente quo, o PT não deixava de representar a “classe perigosa”, como a nobreza francesa chamava os pobres antes da Revolução, no poder, o que também não ajudava o metabolismo. A resistência do patriciado brasileiro ao PT tem várias causas: diferenças ideológicas, interesses contrariados, medo, a própria arrogância do partido no governo e suas quedas na corrupção, e — especialmente inadmissíveis — os seus sucessos: distribuição de renda, políticas sociais, desemprego baixo etc. Mas o ódio ao PT só se explica como má digestão.

 Doze anos de indigestão: é compreensível a irritação causada pela eleição de mais quatro anos de PT no governo e a continuação da praga do Brizola. Os que se manifestam contra uma suposta fraude no pleito apertado e pedem o impeachment dos vencedores estão exercendo o direito de todo perdedor, o de espernear. Só achei curioso ver, desfilando numa manifestação na Avenida Paulista, uma faixa que pedia a volta dos militares ao poder. Teoricamente, não é preciso mais de três pessoas para fazer e carregar uma faixa daquelas: uma para pintá-la e duas para segurá-la. Fiquei pensando em quantas pessoas no desfile além das três hipotéticas concordavam que outra ditadura militar é preferível ao PT no governo. Talvez ninguém, talvez a maioria. Nunca se sabe o efeito da má digestão num organismo.

 Luis Fernando Verissimo é escritor

 Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/a-longa-indigestao-1446179

domingo, 26 de julho de 2015

Fábio de Oliveira Ribeiro sobre as contradições do anti-petismo


   "É verdade que o PT foi envolvido em casos de corrupção. Mas também é verdade que os petistas não impediram as investigações e alguns deles se submeteram a punições bastante rigorosas para os padrões políticos brasileiros. Além disto, todos os outros partidos, inclusive o PSDB e o DEM, empregaram as mesmas práticas desonestas para obter recursos eleitorais. Contudo, os anti-petistas não atacam os outros partidos corruptos. Apenas a corrupção do PT os deixa raivosos. O anti-petismo é único. Os mesmos que fomentam o anti-petismo sequer cogitam a criação de um anti-tucanismo para combater as mazelas do PSDB. (...) O anti-petista escolhe o ódio porque o ódio é uma fé."


Sobre o anti-petismo e os anti-petistas, por Fábio de Oliveira Ribeiro


texto extraído do Luis Nassif Online


Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em razão de um juramento infantil, feito em razão da humana tendência de seguir a moda, me obriguei a conhecer fundo os anti-petistas e suas idéias. Ao tomar consciência da intensidade do ódio genocida que eles nutrem e espalham na internet, abjurei. Não sou e não quero ser adepto do anti-petismo:
A jornada dantesca ao submundo da irracionalidade política, me deixou profundamente prostrado. Passei o resto do dia procurando uma forma de falar sobre o anti-petismo.  Friedrich Nietzsche tinha razão quando disse que Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.” A tarefa de exorcizar de dentro de mim o abismo escuro que percorri me levou a produzir este texto. Espero que os leitores gostem.
Notei rapidamente que o anti-petismo é uma coisa que difere muito de um pensamento. É antes de tudo uma paixão. Pode certamente apresentar-se sob a forma de proposição teórica. O anti-petista moderado é um homem cortez que dirá suavemente: “De minha parte, eu não detesto os petistas. Julgo simplesmente preferível, por esta ou aquela razão, que tomem parte reduzida na atividade da nação.” Mas logo em seguida, se conquistarmos sua confiança, acrescentará com maior abandono: “Veja, deve haver algo nos petistas: eles me incomodam fisicamente.” Tal argumento, que vi algumas vezes nos websites anti-petistas, é digno de exame.
O referido incomodo só pode proceder ou procede da lógica passional. Pois, será possível imaginar alguém  que afirme seriamente: “Deve haver algo no tomate, pois sinto horror de come-lo?” Além disso, mostra-nos que o anti-petismo, sob suas formas mais temperadas, mais evoluídas, permanece uma totalidade sincrética que se expressa através de discursos de feição razoável, mas suscetível de levar até a modificações corporais.
Suponho que alguns destes machões anti-petistas sejam tomados de súbita impotencia se ficarem sabendo que a mulher com quem dormem é petista. Há em certa gente, o asco do filiado ao PT, assim como há o asco ao índio ou ao negro. E esta repugnancia não nasce do corpo, pois se pode amar perfeitamente uma petista, se se ignora sua opção política; tal repulsa chega ao corpo pelo espírito, é um compromisso da alma, mas tão profundo e tão completo que se estende ao fisiológico, como sucede na histeria.
Lula governou o Brasil com moderação e eficiência. Sob seu governo o país cresceu, o desemprego diminuiu, a renda do povo melhorou se refletindo numa ampliação do consumo que ativou o comércio e a indústria. Os grandes empresários tiveram anos de fartura em razão do aumento das exportações. A descoberta do Pré-Sal foi um bônus. A riqueza mineral no litoral é uma poupança que deve ser utilizada com sabedoria em benefício da educação. Novas universidades foram construídas, os estudantes mais pobres começaram a ter acesso às mesmas.
Dilma Rousseff seguiu as linhas mestras do governo anterior. Teve o mérito de criar o programa de bolsas estudantis no exterior, medida que beneficiou em muito principalmente a classe média e alta. As distorções econômicas estão sendo combatidas dentro da normalidade. 
Nem Lula, nem Dilma pediram dinheiro ao FMI. Muito pelo contrário. O Brasil não só se tornou credor daquele banco como criou um novo banco de fomento econômico (o Banco dos BRICS). Apesar as virtudes dos governos petistas, Lula viu nascer o anti-petismo e o mesmo aumentou e se tornou mais virulento sob o atual governo.
É verdade que o PT foi envolvido em casos de corrupção. Mas também é verdade que os petistas não impediram as investigações e alguns deles se submeteram a punições bastante rigorosas para os padrões políticos brasileiros. Além disto, todos os outros partidos, inclusive o PSDB e o DEM, empregaram as mesmas práticas desonestas para obter recursos eleitorais. Contudo, os anti-petistas não atacam os outros partidos corruptos. Apenas a corrupção do PT os deixa raivosos. O anti-petismo é único. Os mesmos que fomentam o anti-petismo sequer cogitam a criação de um anti-tucanismo para combater as mazelas do PSDB.
A idéia que os anti-petistas fazem de um petista, portanto, parece determinar a história recente do Brasil. Não é o dado histórico que engendra a idéia.
Ordinariamente, tal genero de afecção deveria agradar pouco a imprensa: quem deseja apaixonadamente uma mulher está apaixonado por causa da mulher e a despeito da paixão. Mas ocorre exatamente o oposto com os jornalistas brasileiros. Eles não só não questionam o anti-petismo como aderem alegremente ao mesmo. A imprensa se tornou incapaz de desconfiar dos raciocínios passionais que procuram demonstrar por todos os meios opiniões ditadas pelo amor, pelo ciúme ou pelo ódio. Os profissionais da comunicação deveriam desconfiar dos extravios passionais e daquilo que se chamou de monoideismo. Todavia, é justamente isto que os anti-petistas dentro e fora da imprensa escolheram em primeiro lugar.
A única explicação plausível para esta patologia intelectual e jornalística é a nostalgia da impermeabilidade. O homem sensato busca gemendo, sabe que seus raciocínios são apenas prováveis, que outras considerações hão de po-los em dúvida; nunca sabe muito bem onde vai; está “aberto”, pode passar por vacilante. Mas há pessoas que se sentem atraídas pela permanência da pedra. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar; aonde as conduziria a mudança? Trata-se de um temor de si próprio original e de um temor da verdade. E o que as amedronta, não é o conteúdo da verdade, que nem sequer suspeitam, porém a própria forma do verdadeiro, este objeto de  indefinida aproximação.
Os anti-petistas e seus duplos no jornalismo não desejam construir opiniões, querem-nas inatas; como tem medo do raciocínio, querem adotar um modo de vida em que o raciocínio e a busca exerçam tão somente um papel subordinado, em que jamais se procure exceto aquilo que já se encontrou, em que a gente só se torne aquilo que já era. E para tanto só há a paixão. Apenas uma forte prevenção sentimental pode dar uma certeza fulgurante, apenas ela pode manter o raciocínio à marte, apenas ela pode permanecer impermeável à experiência e subsistir durante toda uma vida.
O anti-petista escolhe o ódio porque o ódio é uma fé; escolheu originalmente desvalorizar as palavras e as razões. Como se sente a vontade, agora, como lhe parecem fúteis e levianas as discussões sobre os direitos do petista, ele se situou de pronto em outro terreno. Se concorda, por cortesia, em  defender por um instante seu ponto de vista, presta-se a isso, mas não se empenha; tenta simplesmente projetar sua certeza intuitiva sobre o plano do discurso.
É fato: o anti-petismo perdeu a eleição presidencial. Em razão disto, os anti-petistas se sentem sós. Todavia, o anti-petista é um homem que teme toda espécie de solidão, tanto a do gênio como a do assassino: é o homem das multidões; por diminuta que seja sua estatura, toma ainda o cuidado de abaixar-se, por medo de emergir do rebanho virtual e encontrar-se em face de si mesmo. Se ele se tornou anti-petista é porque não pode se-lo sozinho.
A frase “Odeio os petistas”, é das que se pronunciam em grupos nos bares e nas redes sociais. Ao proferi-la adere-se a uma tradição e a uma comunidade: a dos mediocres. Por isso convém lembrar que ninguém é necessariamente humilde ou até modesto porque consentiu na mediocridade. É bem ao contrário: há um orgulho apaixonado dos medíocres e o anti-petista constitui uma tentativa de valorizar a mediocridade como tal, de criar a elite dos mediocres. Para o anti-petista a inteligência no relacionamento com o eleitorado é petista; pode, por conseguinte, desprezá-la com a máxima tranquilidade, assim como todas as demais virtudes do filiado ao PT. O verdadeiro brasileiro, beneficiando-se de uma sabedoria capitalista ancestral, de séculos de tradição na lida com povos bárbaros, guiado por costumes comprovados que ajudaram a criar um Estado sem povo, não necessita ter a mesma qualidade que um petista.
O fundamento da virtude dos anti-petista não é e não pode ser a inteligência no trato com os eleitores. É antes a assimilação de qualidades depositadas pelo lavor de dezenas de gerações sobre os objetos que o circundam, é a propriedade. Mas trata-se evidentemente de propriedade herdada, não da que se compra.
O anti-petista concebe apenas um tipo de apropriação primitiva e territorial, baseada numa verdadeira relação mágica de posse, na qual o objeto possuído e o possuidor se acham mediante um laço de participação mística; é o poeta da propriedade fundiária. Transfigura a propriedade e a prove de sensibilidade particular e concreta; naturalmente esta sensibilidade não se dirige às verdades eternas, aos valores universais: o universal é petista, porquanto é objeto de inteligencia. Aquilo que este senso sutil apreende é, ao contrário, aquilo que a inteligencia não pode enxergar. Em outras palavras, o princípio do anti-petismo é que a posse de um objeto singular proporciona magicamente o sendo do objeto em questão. E este objeto é e só pode ser a nação.
Muitos anti-petistas - a maioria talvez - pertencem à pequena burguesia citadina; são funcionários públicos, empregados, pequenos comerciantes que nada possuem. Mas é justamente erguendo-se contra o petista que tomam súbita consciência de ser proprietários: ao representar o filiado ao PT como ladrão, colocam-se na invejável posição de pessoas que poderiam ser roubadas; já que o petista furtou-lhes o Brasil nas urnas, é o Brasil que lhes pertence. Por isto escolheram o anti-petismo como um meio de realizar sua qualidade de possuidores da nação.
A força dos anti-petistas reside justamente nesta mística da propriedade. Basta-lhes-á fomentar em si próprios uma cólera vingativa contra esses ladrões petistas e sentirão imediatamente a presença do país inteiro. Os verdadeiros brasileiros, os bons brasileiros são todos iguais, pois cada qual possui por si só, exclusivamente o Brasil indiviso. Dai porque, de bom grado, eu chamaria o anti-petismo de esnobismo do pobre. Parece, com efeito, que a maioria dos ricos utiliza esta paixão mais do que se lhes entrega: tem mais o que fazer. Propaga-se o anti-petismo pelas classes médias, precisamente porque não possuem terra, nem mansões, nem aviões, mas apenas dinheiro líquido e algumas ações no banco.
Há anti-petistas em todos os partidos, mas não me parece evidente que eles chegarão a constituir um partido. O anti-petista típico foge da responsabilidade como foge da própria consciência e, escolhendo para a sua pessoa a permanência mineral, escolhe para a sua moral uma escala de valores petrificados. Faça o que fizer, sabe que permanecerá no cimo da escala; faça o que fizer, o petista jamais galgará mais alto do que o primeiro degrau. Começamos a vislumbrar o sentido da escolha que  o anti-petisfa fez de si mesmo; escolhe o irremediável por medo da liberdade, a mediocridade por medo da solidão e, por orgulho, faz desta mediocridade irremediável uma aristocracia extratificada. Para efetuar estas diversas operações, a existência do petista lhe é absolutamente necessária: a quem, na sua falta, seria ele superior? Se por um milagre todos os petistas fossem exterminados, como almeja, reencontrar-se-ia o anti-petista como vigia de loja, advogado de periferia, médico que não gosta de trabalhar, artista em fim de carreira, policial ou militar aposentado numa sociedade capitalista fortemente hierarquizada, onde a qualidade de “verdadeiro brasileiro” estaria a preço vil, pois todo mundo a possuiria.
É evidente que a comunidade que o anti-petista invoca é a do tipo das multidões ou dessas sociedades momentaneas que nascem por ocasião dos linchamentos, ou dos escandalos. A igualdade nelas é fruto da indiferenciação das funções. O vínculo social é a cólera; a coletividade não apresenta outro fim exceto o de exercer sobre determinados indivíduos uma sanção repressiva difusa; em seu quadro, os impulsos e as representações coletivas impõe-se tanto mais fortemente aos particulares quanto nenhum deles é defendido por uma função especializada. Assim, as pessoas se afogam na multidão, e os modos de pensamento, as reações do grupo são do tipo primitivo puro.
Sem dúvida, tais coletividades não nascem tão somente do anti-petismo: um motim, um crime, uma injustiça podem suscitá-las inopinadamente. Mas constituem então simples formações fugazes que logo se desvanecem sem deixar vestígios. Como o anti-petismo deriva do anti-comunismo em voga nos anos 1930 e durante a ditadura militar pós 1964, ele foi capaz de sobreviver em estado latente durante o período em que o PT apenas disputava eleições presidenciais. Agora que o PT se mostrou uma alternativa duradoura de poder a comunidade primitiva reapareceu e começou a atingir a temperatura de fusão. O que se vê na internet é uma atmosfera de “pogrom” em que se invoca a “união de todos os brasileiros” contra o PT e contra os petistas.
Em vários websites os anti-petistas afirmam que querem um Estado forte? Na realidade, eles exigem isto apenas para os outros. Para si mesmos eles reclamam uma desordem sem responsabilidade. O anti-petista pretende colocar-se acima das leis, evandindo-se ao mesmo tempo, da consciencia de sua liberdade e de sua solidão. Recorre, portanto, a um subterfúgio: o petista participa de eleições, há petistas no governo, logo o poder legal está viciado pela base; ou melhor, não mais existe e é lídimo não levar em conta seus decretos; não se trata aliás de desobediência: não se desobedece ao que não existe. Assim haverá para o anti-petista um Brasil real com um governo real, mas difuso e sem órgãos especializados, e um Brasil abstrato, oficial, petistizado, contra o qual é mister erguer-se. Naturalmente, esta rebelião permanente é obra do grupo: o anti-petista não poderia em caso algum agir ou pensar sozinho. E o próprio grupo não poderia conceber-se sob o aspecto de um partido minoritário, pois um partido é obrigado a inventar seu programa, adotar uma linha política, o que implica iniciativa, responsabilidade, liberdade.
Isto explica porque os anti-petistas preferem representar-se como exprimindo, em toda sua pureza, em toda a passividade, o  sentimento do país real em sua indivisibilidade. Todo anti-petista é, portanto, numa medida variável, o inimigo dos poderes regulares; deseja ser membro disciplinado dentro de um grupo indisciplinado; adora a ordem, porém a ordem social. Poder-se-ia dizer que deseja provocar a desordem política a fim de restaurar a ordem social, e a ordem social se lhe apresenta sob traços de uma sociedade igualitária e primitiva de justaposição, a temperatura elevada, de onde os petistas seriam excluídos, expurgados, assassinados com a exibição dos seus corpos na Avenida Paulista (como afirmou um anti-petista na internet).
A autêntica liberdade assume as suas responsabilidades e o anti-petismo procede do fato de que ele se furta a todas as suas. Flutuando entre uma sociedade autoritária que ainda não existe e uma sociedade oficial e tolerante que ele desautoriza, o anti-petista pode tudo permitir-se sem temor de passar por anarquista, o que lhe causa horror. A profunda seriedade de seus objetivos, que nenhuma palavra, nenhum discurso, nenhum ato é capaz de exprimir, autoriza-o a praticar leviandade. Ele é moleque, comete travessuras, surra, purga, rouba: tudo pela boa causa. Se o governo é forte, o anti-petismo decresce, a menos que figure no programa do próprio governo. Mas neste caso, muda de natureza. Inimigo dos petistas, o anti-petista necessita dos petistas; anti-democrata, é um produto natural das democracias e só pode manifetar-se no quadro da República.
Os anti-petistas detestam a CF/88 muito embora a mesma lhes permita odiar. Eles querem destruir o regime constitucional que odeiam para ser livres. Mas de fato eles não são livres justamente porque se tornaram escravos de uma paixão primitiva que os desqualifica para o exercício do poder.
Espero que os leitores tenham gostado destas palavras. Mas sou obrigado a confessar aqui que elas não são minhas. Este texto é quase todo um plágio. Apenas os dois primeiros parágrafos foram originalmente escritos por mim. Os demais foram quase totalmente transcritos de um texto de Jean-Paul Sartre presente no livro “Reflexões sobre o Racismo”, Difel, São Paulo, 1968, páginas 6 a 19.
Como um bom plagiador, apenas condensei e reorganizei os parágrafos. Também adaptei alguns fragmentos às nossas particularidades culturais. Os vocábulos “anti-semita” e “anti-semitismo”, “França” e “franceses” presentes no original foram substituídos por “anti-petista”, “anti-petismo”, “Brasil” e “brasileiros”. Suprimi algumas passagens por serem inócuas para a finalidade pretendida. Os dados da realidade nacional foram por mim acrescentados ao texto Sartre para lhe conferir a necessária coerência.
Sim, eu agi mal. Mas sou um cínico sincero. Não deixei de confessar o malfeito. O anti-petismo é uma farsa eleitoral, uma doença jornalística e um plágio do anti-semitismo europeu. Portanto, resolvi ser farsante, plagiador e irônico. Encontrei no existencialista francês um duplo capaz de curar a doença espalhada no Brasil pelo ilustre morador da Avenue Foch.