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domingo, 12 de novembro de 2017

Os animais são portadores de direitos e devem ser respeitados, por Leonardo Boff



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A aceitação ou não da dignidade dos animais depende do paradigma (visão do mundo e valores) que cada um assume. Há dois paradigmas que vêm da mais alta antiguidade e que perduram até hoje.

O primeiro entende o ser humano como parte da natureza e ao pé dela, um convidado a mais a participar da imensa comunidade de vida que existe já há 3,8 bilhões de anos. Quando a Terra estava praticamente pronta com toda sua biodiversidade, irrompemos nós no cenário da evolução como um membro a mais da natureza. Seguramente dotados com uma singularidade, a de ter a capacidade reflexa de sentir, pensar, amar e cuidar. Isso não nos dá o direito de julgarmo-nos donos dessa realidade que nos antecedeu e que criou as condições para que surgíssemos.

A culminância da evolução se deu com o surgimento da vida e não com o ser humano. A vida humana é um sub-capítulo do capítulo maior da vida.

O segundo paradigma parte de que o ser humano é o ápice da evolução e todas as coisas estão à sua disposição para dominá-las e poder usá-las como bem lhe aprouver. Ele esquece que para surgir precisou de todos os fatores naturais, anteriores a ele. Ele juntou-se ao que já existia e não foi colocado acima.

As duas posições têm representantes em todos os séculos, com comportamentos muito diferentes entre si. A primeira posição encontra seus melhores representantes no Oriente, com o budismo e nas religiões da India. Entre nós além de Bentham, Schopenhauer e Schweitzer, seu maior fautor foi Francisco de Assis, dito pelo Papa Francisco em sua encíclica “Sobre o cuidado da Casa Comum” como alguém “que vivia uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo…exemplo de uma ecologia integral”(n.10). Mas não foi este comportamento terno e fraterno de fusão com natureza que prevaleceu.

O segundo paradigma, o ser humano “mestre e dono da natureza” no dizer de Descartes, ganhou a hegemonia. Vê a natureza de fora, não se sentindo parte dela mas seu senhor. Está na raiz no antrropocentrismo moderno que tantos males produziu com referência à natureza e aos demais seres. Pois o ser humano dominou a natureza, submeteu povos e explorou todos os recursos possíveis da Terra, a ponto de hoje ela alcançar uma situação crítica de falta de sustentabilidade.

Seus representantes são os pais fundadores do paradigma moderno como Newton, Francis Bacon e outros, bem como o industrialismo contemporâneo que trata a natureza como mero balcão de recursos, um baú inesgotável de bens e serviços, em vista do enriquecimento.

O primeira paradigma – o ser humano parte da natureza – vive uma relação fraterna e amigável com todos os seres. Deve-se alargar o princípio kantiano: não só o ser humano é um fim em si mesmo mas igualmente todos os seres, especialmente os viventes e por isso devem ser respeitados.

Há um dado científico que favorece esta posição. Ao descodificar-se o código genetico por Drick e Dawson nos anos 50 do século passado, verificou-se que todos os seres vivos, da ameba mais originária, passando pelas grandes florestas e pelos dinossauros e chegando até nós humanos, possuimos o mesmo código genetico de base: os 20 aminoácidos e as quatro bases fosfatadas. Isso levou a Carta da Terra, um dos principais documentos da UNESCO sobre a ecologia moderna, a afirmar que “temos um espírito de parentesco com toda a vida”(Preâmbulo). O Papa Francisco é mais enfático: “caminhamos juntos como irmãos e irmãs e um laço nos une com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92).

Nesta perspectiva, todos os seres, na medida que são nossos primos e irmãos/as e possuem seu nível de sensibilidade, sofrem e são portadores de certa inteligência, que lhes permite fazer conexões cerebrais e assim se orientarem no mundo. Por isso mesmo são portadores de dignidade e de direitos. Se a Mãe Terra goza de direitos, como afirmou a ONU, eles, como partes vivas da Terra, participam destes direitos.

O segundo paradigma – o ser humano senhor da natureza – tem uma relação de uso com os demais seres e os animais. Se conhecemos os procedimentos da matança de bovinos e de aves ficamos estarrecidos pelos sofrimentos a que são submetidos. Adverte-nos a Carta da Terra:”há que se proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado e evitável”(n.15b).

Ai nos recordamos das palavras sábias do cacique Seatle (1854):”Que é o homem sem os animais? Se todos os animais se acabassem, o homem morreria de solidão de espírito. Porque tudo o que acontecer aos animais, logo acontecerá também ao homem. Tudo está relacionado entre si”.

Se não nos convetermos ao primeiro paradigma, continuaremos com a barbárie contra nossos irmãos e irmãs da comunidade de vida: os animais. Na medida em que cresce a consciência ecológica mais e mais sentimos que somos parentes e assim nos devemos tratar, como São Francisco com o irmão lobo de Gubbio e com os mais simples seres da natureza.Estamos seguros de que chegará o dia em que este nível de consciência será um bem comum de todos os humanos e então, sim, nos comportaremos como uma grande família de seres vivos, diferentes mas unidos por laços de familiariedade e irmandade.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1999.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A era geológica do antropoceno versus a do ecoceno. Por Leonardo Boff



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O primeiro a elaborar uma ecologia da Terra como um todo, ainda nos anos 20 do século passado, foi o geoquímico russo Vladimir Ivanovich Vernadsky (1963-1945). Ele conferiu caráter científico à expressão “biosfera” criada em 1875 por um geólogo austríaco Eduard Suess. Nos anos 70, com James Lovelock e sua equipe se desenvolveu a teoria de Gaia, a Terra que se comporta como um sistema orgânico, portanto, um super-organismo vivo que sempre produz e reproduz vida. Gaia, nome grego para a Terra viva, não é tema da New Age mas o resultado de minuciosa observação científica.

A compreensão da Terra como Gaia oferece a base para políticas globais, como por exemplo, o controle do aquecimento da Terra. Se ultrapassar dois graus Celsius, (estamos próximos a isso) milhares de espécies vivas não terão capacidade de se adaptar e de minimizar os efeitos negativos de tal situação mudada. Desapareceriam. Se ocorrer, ainda neste século, um “aquecimento abrupto”(entre 4-6 graus Celsius) como preve a sociedade científica norte-americana, as formas de vida que conhecemos não subsistiriam e grande parte da Humanidade correria grave risco em sua sobrevivência.

Vários cientistas, especialmente o prêmio Nobel em química, o holandes Paul Creutzen, e o biólogo Eugene Stoemer se deram conta, no ano 2000, das mudanças profundas ocorridas na base físico-química da Terra e cunharam a expressão antropocenteno. A partir de 2011 a expressão já ocupava páginas nos jornais.

Com o antropoceno se quer sinalizar o fato de que o grande ameaçador da biosfera que é o habitat natural de todas as formas de vida, é a agressão sistemática dos seres humanos sobre todos os escossistemas que, juntos, formam o planeta Terra.

O antropoceno é uma espécie de bomba-relógio sendo montada, que explodindo, pode pôr em risco todo o sistema-vida, a vida humana e a nossa civilização. Coloca-se a pergunta: que fazemos coletivamente para desarmá-la? Aqui é importante identificar o que fizemos para que se constituisse esta nova era geológica? Alguns a atribuem à introdução da agricultura há 10 mil anos quando começamos a interferir nos solos e no ar. Outros acham que foi nos meados do século 18 quando iniciou o processo industrialista que implica muma sistemática intervenção nos ritmos da natureza, com a ejeção de poluentes nos solos, nas águas e no ar. Estoutros colocam a data de 1945 com a explosão de duas bombas atômicas sobre o Japão e os posteriores experimentos atômicos que espalharam radioatividade pela atmosfera. E nos últimos anos, as novas tecnologias tomaram conta da Terra, exaurindo seus bens e serviços naturais mas também causando o lançamento na atmosfera de toneladas de gazes de efeito estufa e bilhões e bilhões de litros de fertilizantes químicos nos solos que causam o aquecimento global e outros eventos extremos.

O imperativo categórico é que urge mudar a nossa relação para com a natureza e a Terra. Não dá mais para considerá-la um balcão de recursos que podemos dispor ao nosso bel-prazer, mormente, visando a acumulação privada de bens materiais. A Terra é pequena e seus bens e serviços limitados. Cumpre produzir tudo o que precisamos, não para um consumo desmedido mas com uma sobriedade compartida, respeitando os limites da Terra e pensando nas demandas dos que virão depois de nós. A Terra pertence a eles e a tomamos emprestado deles para devolve-la enriquecida.

Como se depreende, releva enfatizar que temos que inaugurar o contra-ponto à era do antropoceno que é a era do ecoceno. Quer dizer: a preocupação central da sociedade não sera mais o desenvolvimento/crescimento sustentável mas a ecologia, o ecoceno, que garantem a manutenção de toda a vida. A isso deve servir a economia e a política.

Para preservar a vida é importante a tecno-ciência mas igualmente, a razão cordial e sensível. Nela se encontra a sede da ética, da compaixão, da espiritualidade e do cuidado fervoroso pela vida. Esta ética do cuidado imbuída de uma espiritualidade da Terra nos comprometerá com a vida contra o antropoceno.

Portanto, faz-se mister construir uma nova ótica que nos abra para uma nova ética, colocar sobre nossos olhos uma nova lente para fazer nascer uma nova mente. Temos que reinventar o ser humano para que seja consciente dos riscos que corre, mas mais que tudo, que desenvolva uma relação amigável para com a Terra e se faça o cuidador da vida em todas as suas formas.

Há 65 milhões de anos caiu um meteoro de 9,6 km de extensão na Península de Yucatán no México. Seu impacto foi o equivalente a 2 milhões de vezes a força da uma ponderosa bomba nuclear. Três quartos das espécies vivas desapareceu e junto com elas todos os dinossauros depois de terem vivido por 133 milhões de anos sobre a face da Terra. O nosso ancestral, pequeno mamífero, sobreviveu.

Oxalá desta vez o meteoro rasante não sejamos nós, sem responsabilidade coletiva e sem o cuidado essencial que protege e salva a vida.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e esceveu um resumo da nova cosmologia: De onde vem? O universe, a Terra, a vida e o espírito, Mar de Ideias, Rio 2017.

sábado, 29 de outubro de 2016

A vida como imperativo cósmico, por Leonardo Boff






Durate séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas. O universo era representado como uma imensa máquina que funcionava sempre de forma estável. A vida e a consciência não tinham lugar nesse paradigma. Era assunto das religiões.

Mas tudo mudou quando a partir dos anos 20 século passado, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade mas a mudança. Ele começou a se expandir a partir da explosão de um ponto extremamente pequeno mas imensamente quente e repleto de virtualidades: o big bang. A partir daí formaram-se os quarks e os léptons, as partículas mais elementares que, uma vez, combinadas, deram origem aos prótons e nêutrons, base dos átomos.

Expansão, auto-organização, complexificação e emergência de ordens cada vez mais sofisticadas são características do Universo. E a vida?

Não sabemos como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança que é a vida. É frágil porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas, conseguiram extingui-la totalmente.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, vinda do caos,complexidade, oriunda de seres simples e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida. Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio,do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 elementos da escala periódica de Mendeleev.

Quando estes vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organIzação intrínseca do próprio universo. Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 animoácidos e 4 bases nitrogenadas.

Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que combinados permitem surgir a vida. Eles se compõem com quatro bases de nitrogênio que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento que unem os tijolinhos formando casas, as mais diversificadas. É a biodiversidade.

Temos, portanto, a mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos micro-organimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como o afirma o Papa em sua encíclica sobre a ecologia integral (n.92) porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as 4 bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).

Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano,o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.

Dadas estas pré-condições, eis que há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de um grande raio relampejante vindo do céu, irrompeu a vida.

Misteriosamente ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, num canto de nossa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida. Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um sub-capítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente,

Por fim, ouso dizer com o biólogo também prêmio Nobel Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme, que o Universo seria incompleto sem a vida. Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo.

Devemos superar a ideia comum que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e falsa. O universo parece estar cheio de vida e é para isso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da nossa.

Leonardo Boff escreveu com M.Hathaway O Tao da Libertação,  premiado em 2010 nos USA com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia.

Fonte: Leonardo Boff Wordpress

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Leonardo Boff sobre a espiritualidade e a unicidade do Universo


 Uma das buscas mais persistentes entre os cientistas que vem geralmente das ciências da Terra e da vida é pela da unidade do Todo. Dizem: “precisamos identificar aquela fórmula que tudo explica e assim captaremos a mente de Deus”. Esta busca vem sob o nome de “A Teoria da Grande Unificação” ou “A Teoria Quântica dos Campos” ou, pelo pomposo nome de “A Teoria de Tudo”. Por mais esforços que se tenham feito, todos acabam se frustrando ou como o grande matemático Stephan Hawking, abandonando, por impossível, esta pretensão. O universo é por demais complexo para ser apreendido por uma única fórmula.

         Entretanto, pesquisando as partículas sub-atômicas, mais de cem, e as enegias primordiais, chegou-se a perceber que todas elas remetem àquilo que se chamou de “vácuo quântico” que de vácuo não possui nada porque é a plenitude de todas as potencialiades. Desse Fundo sem fundo surgiram todos os seres e o inteiro universo. É representado como um vasto oceano sem margens, de energia e de virtualidades. Outros o chamam de “Fonte Originária dos Seres” ou o “Abismo alimentador de Tudo”.

         Curiosamente, cosmólogos como um dos maiores deles, Brian Swimme, denomina-o de o Inefável e o Misterioso (The Hidden Heart of the Cosmos, 1996) Ora, estas são carcaterísticas que as religiões atribuem à Última Realidade que vem chamada por mil nomes, Tao, Javé, Alá, Olorum, Deus. O Vácuo pregnante de Energia se não é Deus (Deus é sempre maior) é a sua melhor metáfora e representação.

         O fundamental não é a matéria mas esse vácuo pregnante. Ela é uma das emergências desta Fonte Originária. Thomas Berry, o grande ecólogo/cosmólogo norte-americano, escreveu: “Precisamos sentir que somos carregados pela mesma energia que fez surgir a Terra, as estrelas e as galaxias; essa mesma energia fez emergir todas as formas de vida e a consciência reflexa dos humanos; é ela que inspira os poetas, os pensadores e os artistas de todos os tempos; estamos imersos num oceano de energia que vai além da nossa compreensão. Mas essa energia, em última instância, nos pertence, não pela dominação mas pela invocação”(The Great Work,1999, 175), quer dizer, abrindo-nos a ela.

         Se assim é tudo o que existe é uma emergência desta energia fontal: as culturas, as religiões, o próprio cristianismo e mesmo as figuras como Jesus, Moisés, Buda e cada um de nós. Tudo vinha sendo gestado dentro do processo cosmogênico na medida em que surgiam ordens mais complexas, cada vez interiorizadas e interconectadas com todos os seres. Quando acontece determinado nível de acumulação dessa energia de fundo, então ocorre a emergência dos fatos históricos e de cada pessoa singular.

         Quem viu esta gestação de Cristo no cosmos foi o paleontólogo e místico Teilhard de Chardin(+1955), aquele que reconciliou a fé crista com a ideia da evolução ampliada e com a nova cosmologia. Ele distingue o “crístico” do “cristão”. O crístico comparece como um dado objetivo dentro do processo da evolução. Seria aquele elo que une tudo com tudo. Porque estava lá dentro pôde irromper, um dia na história, na figura de Jesus de Nazaré, aquele por quem todas as coisas têm sua existência e consistência, no dizer de São Paulo.

         Portanto, quando este crístico é reconhecido subjetivamente, se transforma em conteúdo da consciência de um grupo, ele se trasnforma em “cristão”. Então surge o cristianismo histórico, fundado em Jesus, o Cristo, encarnação do crístico. Daí se deriva que suas raízes derradeiras não se encontram na Palestina do primeiro século, mas dentro do processo da evolução cósmica.

         Santo Agostinho escrevendo a um filósofo pagão (Epistola 102) intuíu esta verdade: ”Aquela que agora recebe o nome de religião cristã sempre existia anteriormente e não esteve ausente na origem do gênero humano, até que Cristo veio na carne; foi então que a veradeira religião que já existia, começou a ser chamada de cristã.”

         No budismo se faz semelhante raciocínio. Existe a budeidade (a capaciade de iluminação) que vem se forjando ao longo do processo da evolução, até que ela irrompeu em Sidarta Gautama que virou Buda. Este só pôde se manifestar na pessoa de Gautama porque antes, a budeidade, estava lá no processo evolucionáro. Então virou o Buda, como Jesus virou o Cristo.

         Quando esta comprensão vem internalizada a ponto de transformar nossa percepção das coisas, da natureza, da Terra e no Universo, então abre-se o caminho para uma experiência espiritual cósmica, de comunhão com tudo e com todos. Realizamos por esta via espiritual o que os cientistas buscavam pela via da ciência: um elo que tudo unifica e atrái para frente.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu O Evangelho do Cristo cósmico, Record 2010.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Biologia, Psicologia e Espiritualidade em discussão sobre a Sincronicidade


   "O Biólogo britânico Dr. Rupert Sheldrake e o famoso psiquiatra suíço Dr. Carl Jung adotaram diferentes, mas complementares, abordagens para a sincronicidade. Sincronicidade refere-se a coincidências que aparecem entre o estado mental de alguém e os eventos que ocorrem no mundo externo em que se encontra esta pessoa."

Segue texto, traduzido, extraído do site Epoch Times:

Biologia, Psicologia e Misticismo Unidos na Discussão da Sincronicidade


Texto de  Tara McIsaac, Epoc Times, 1º de setembro de 2015

Tradução e notas de Carlos Antonio Fragoso Guimarães



À esquerda, Dr. Rupert Sheldrake, biólogo e bioquímico, que escreveu amplamente sobre a "mente extendida". À direita, o psiquiatra Carl Gustav Jung, que cunhou o termo "sincronicidade".


  O universo é cheio de mistérios que desafiam nosso conhecimento atual. Em "Beyond Science" Epoch Times recolhe histórias sobre esses fenômenos estranhos para estimular a imaginação e abrir inimagináveis ​​possibilidades. Elas são verdadeiras? Você decide.

  O Biólogo britânico Dr. Rupert Sheldrake e o famoso psiquiatra suíço Dr. Carl Jung adotaram diferentes - mas complementares - abordagens para a sincronicidade. Sincronicidade refere-se a coincidências que aparecem entre o estado mental de alguém e os eventos que ocorrem no mundo externo em que se encontra esta pessoa.

  Um exemplo simples, bem comum, é aquele que ocorre quando você pensa em alguém e seu telefone toca instantaneamente e é essa pessoa na linha. Mas muitas sincronicidades são mais bizarras e complexas.

 Jung cunhou o termo "sincronicidade" e abordou este fenômeno misterioso de uma perspectiva psicológica, formando uma base teórica para entendê-lo. Sheldrake - que conta entre as suas credenciais o fato de trabalhar em biologia do desenvolvimento na Universida de Cambridge - tem gasto décadas na coleta de evidências para sustentar a existência física de um campo psíquico que se estende além do corpo. Sua especialidade é a "mente estendida".

 Uma recém-gravada entrevista exclusiva com Sheldrake será incluída em um webinar (discussão via internet) a começar no dia 27 de setembro, intitulado "Jung e Sheldrake: Sincronicidade & Mente Estendida" O webinar vai abrir uma discussão sobre sincronicidade ante uma variedade de diferentes perspectivas. O anfitrião da discussão, Gary Bobroff, é um autor, palestrante e líder da oficina com um mestrado em psicologia; sua co-anfitriã, Cynthia Cavalli, tem um Ph.D. em Sistemas Humanos, uma MBA e uma especialização em Física.

   A Perspectiva do biólogo

  Começando com a pesquisa "mente estendida" de Sheldrake, Bobroff disse à Epoch Times sentir que pode fundamentar a discussão da sincronicidade na ciência física.

 Um exemplo da pesquisa de Sheldrake ao longo desta linha são seus estudos sobre a sensação de estar sendo observado. É do conhecimento comum entre investigadores, inspetores de drogas de aeroporto, detetives privados, atletas de artes marciais, entre outros, que as pessoas podem sentir quando outros estão olhando para elas, Sheldrake, disse em um vídeo gravado em 2014  intitulado Synchronicity: Simpósio Matéria & Psique.

  Os estagiários e treinandos para os serviços britânicos, disse ele, são orientados para não olhar as costas das pessoas quando as seguirem porque elas são susceptíveis de virarem-se.

  Bobroff disse que seu primo, um reservista das Forças Armadas do Canadá, também foi treinado recentemente para não olhar diretamente para alguém que ele esteja tentando investigar. Os desportistas marciais, por outro lado, treinam para aumentar a sua sensibilidade ao olhar dos outros para, assim, estarem mais propensos a sentir a aproximação de um adversário.

  Sheldrake citou um estudo no Museu da Ciência Amsterdam com dezenas de milhares de pessoas para ver se eles poderiam corretamente adivinhar se alguém estava olhando para eles.

  No estudo, a uma pessoa seria dito aleatoriamente para olhar para um sujeito ou desviar o olhar e pensar em outra coisa. O suejti-alvo teria de decidir dentro de 10 segundos se ele ou ela estava sendo olhado. As taxas de sucesso foram significativamente acima do acaso esperado. Crianças com menos de 9 anos de idade foram especialmente sensíveis.

  "Os professores usam o poder do olhar o tempo todo", disse Sheldrake.

  Ele também citou um estudo pelo Dra. Marilyn Schlitz, com sujeitos em que se registou uma resposta galvânica da pele quando eles estavam sendo observados através de um circuito fechado de TV.

  Nestes e em outros estudos que Sheldrake tem revisto ou conduzidos sugerem, diz ele, que a mente pode ter algum impacto físico além para do corpo. Em sincronia, tudo indica que a mente de uma pessoa e o mundo à sua volta parecem estar conectadas de uma maneira misteriosa.

 Como a Emoção está envolvida

  Bobroff observou que o trabalho de Sheldrake também destaca o papel da emoção na criação ou ecolosão da sincronicidade.

  Olhando para os estudos acadêmicos sobre Psi (fenômenos psíquicos, incluindo clarividência, precognição, telepatia, etc.) ao longo do século passado, Sheldrake destaca que as maiores taxas de sucesso destes eventos ocorrem entre os membros da família - e especialmente entre gêmeos. As piores taxas de sucesso foram encontrados entre aqueles que não acreditavam em psi. Essas pessoas ficaram abaixo da média. Eles mostraram um resultado estatisticamente significativo por estarem abaixo do acaso, sugerindo que descrença pode impactar negativamente psi - ironicamente, um evento que, por desviar-se da média de acertos esperada pelo acaso, acaba por apoiar a hipótese de que psi existe .

(Nota do Tradutor. - O Termo PSI é utilizado, atualmente, para denominar as capacidades metapsíquicas ou parapsicológicas, como, por exemplo, a precognição ou a telepatia).

 Estados e atitudes emocionais parecem afetar ( fortalecendo ou enfraquecendo ) a parte da "mente" que se estende para além do corpo.

 "Não há tal coisa como uma sincronicidade, sem que haja sentimento", disse Bobroff. "Existe uma maneira de um pai pode saber se um filho ou filha do outro lado do mundo está em perigo. Há uma indicação de que esses campos prolongados de consciência não são simplesmente apenas campos mentais, eles também são campos emocionais. " 

(Nota do Tradutor: O pesquisador francês Charles Richet (1850-1935), Prêmio Nobel de Medicina em 1913, cunhou o termo Criptestesia, ou seja, conhecimento oculto, para a capacidade - quase sempre espontânea e inesperada - de se obuter um conhecimento inabitual, fora do alcance dos sentidos. A Sincronicidade, por sua vez, parece envolver uma espécie de ressonância entre um estado mental-emocional e o meio físico ao redor. De fato, algum evento externo parece "estar ligado" a um momento psicológico especial do sujeito a quem ocorrem o fenômeno. Isso implica que um aspeco de nosso psiquismo se expressa para além do corpo, para além do cérebro, ainda que de modo inconsciente).

  A Perspectiva do Psicólogo

 Jung advertiu contra uma analise das sincronicidades de uma forma apenas baseada na razão ou expectativas do ego, ou, seja, da parte consciente da mente, explicou Bobroff. Por exemplo, uma coincidência relacionada com um relacionamento romântico pode não significar necessariamente que a relação está "destinada a existir." Não devemos expor sincronicidades para dizer o que queremos ou gostaríamos que elas signifiquem.

 Bobroff estava dirigindo em sua província natal de Saskatchewan, no Canadá, em direção ao oeste de Calgary, na província de Alberta. Ele parou para abastecer e ali encontrou-se com a sua namorada do colegial. Ela também estava indo para Calgary, Alberta. Perceberam, então, que fazia naquele dia exatamente há dez anos que eles tinham viajado juntos para Calgary, como namorados.

"Eu não acho que seja necessariamente a resposta do ego para "Devemos voltar a ficar juntos? '", Disse. Em vez disso, há simplesmente "algo em nosso mundo que honra conexões do coração."

  Ele também reflete sobre os antigos modos de pensamento chineses para entender a sincronicidade. "Eu sou sincero em minha ligação com o universo?", pergunta a si mesmo. Ele reflete que tipos de mudanças está sendo chamado a fazer pelo evento, daqui para frente. Jung também teve sincronicidades como sinais para olhar para dentro e refletir.

  Para Bobroff, sincronicidade reúne o espírito e a matéria. Ele traz mistério, magia, um espírito de volta em um momento em que "estamos tão alto em nós mesmos que até pensamos que fomos nós inventamos o mundo."

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Consciência, vida, biocentrismo, sobrevivência e reencaranção na ótica do cientista Robert Lanza


 "Agora, dentro do rígido mundo acadêmico e laboratorial, é o Dr. Robert Lanza, médico pesquisador especializado em medicina regenerativa à nível celular (histologia regenerativa) e, por força de suas pesquisas, um estudioso de áreas de ponta, como a física moderna,  quem afirma que o atual nível de avanço da ciência permite dirimir praticamente qualquer dúvida sobre esta questão. Para ele, o quadro atual da ciência possibilita afirmar que a vida continua para além da morte física e, mais que isso, essa vida consciente se aperfeiçoa com o tempo, voltando a viver em outros corpos (reencarnação), e atuando entre uma vida e outra em dimensões para além da nossa".

Texto de 

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Não foram apenas os esforços dos já falecidos pesquisadores contemporâneos Hemendra Nath Banerjee (1920-1985), da Universidade de Rajasthan, Índia, ou o norte-americano Ian Stevenson (1918-2007), psiquiatra-chefe do departamento de Estudos da Consciência, da Universidade de Virgínia, ou do pesquisador brasileiro Hernani Guimarães Andrade (1913-2003), fundador do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas, entre outros, que, através de pesquisa de campo metódica, incluindo entrevistas, coleta de documentos e análise de dados, conseguiram evidências favoráveis à tese vida após a morte e da reencarnação, apresentando casos de memória extra-cerebral em crianças que afirmavam, entre dois e sete anos, lembrar-se de vidas anteriores (Banerjee coletou 1200 casos bem documentados, Stevenson, mais de 2700 e Andrade, cerca de 80 no Brasil), além do estudo de outros fenomenos que apontam para a sobrevivência, como (casos Poltergeist, mediunidade, Experiências de Quase Morte, etc..(Andrade, Stevenson, Tizané, Raymond Moody, Elizabeth Kübler-Ross, Camille Flammario, Scott Rogo, Sam Parnia, entre outros) 

  Agora, um dos mais importantes cientistas da atualidade afirma, com todas as letras, que a possibilidade de vida após a morte e da reencarnação é uma ideia não apenas lógica, mas cientificamente plausível.

   
 O Dr. Robert Paul Lanza (foto), nascido em 1959, é considerado um dos maiores cientistas  da atualidade. 

 Médico pesquisador, é especializado em medicina regenerativa à nível celular (histologia regenerativa) e, por força de suas pesquisas, um estudioso de áreas de ponta, como a física moderna (quântico-relativista). Entre outras funções, ele é chefe de pesquisas do Advanced Cell Technology e professor do Institute for Regenerative Medicine, departamento do Wake Forest University Scholl of Medicine, todas situadas nos EUA. 

   Robert Lanza ficou famoso por suas pesquisas com células-tronco e clonagem de seres vivos, em especial como meio de preservação em favor de espécies ameaçadas de extinção (c.f. na wikipedia).

  Não bastasse seu currículo repleto de contribuições científicas de ponta, Dr. Lanza lançou, em 2008, um livro em que faz um levantamento do que a ciência atual entende sobre a vida e que é voltado para a instrução  e atualização do público geral com um nível médio de conhecimento científico, intitulado "O biocentrismo: Como a vida e a consciência são a chave para entender a natureza do Universo".  

 Como o próprio título sugere, para Lanza é a vida e, mais ainda, a consciência  - que se expressa por meio da vida -  que tem a primazia evolutiva e, com esta, estimula o desenvolvimento das manifestações físicas do Universo. É a consciênica e a vida, sua expressão que, para tanto, se utilizam da matéria tanto para animá-la quanto para se desenvolverem mutuamente (mente, vida e matéria) do que o oposto, ou seja, a matéria dando origem à vida e a consciência como mero fruto do acaso. Tal inversão lançaria nova e revolucionária luz sobre a ordem que vemos na natureza e seria o que determina a escala o aspecto geral do universo conhecido e o processo evolutivo que vemos, da matéria à consciência. Indo mais além, estabelece, como consequência, a existência da própria consciência como ente com uma realidade própria, inclusive sobrevivente à morte física. 

  Apesar de ainda polêmica, a ideia não é de modo algum nova. Desde os filósofos gregos antigos até os nomes mais reconhecidos da ciência moderna, como o do astrônomo Camille Flammarion (1842-1925) e Charles Richet (1850-1935), Prêmio Nobel de Medicina em 1913, passando por pesquisadores como os já citados Ian Stevenson e do brasileiro Hernani Guimarães Andrade, e, mais recentemente, com nomes como o do astrofísico escocês Archie Roy (1924-2012) e do  biológo britânico Rupert Sheldrake, que se teoriza, a partir de evidências, que a vida e, portanto, a consciência humana possam não apenas sobreviver ao corpo mas ainda determinar  o processo de sua embriogênese, atuando sobre o material genético, e a sua morfologia. Tudo isso sendo é discutido e amparado em uma série de evidências científicas (evidências, bem entendido, já que muita gente dentro do establishment científico, modelado no velho paradigma mecanicista-positivista, ainda resiste a considerá-las provas), como as atualmente apresentadas pelos médicos Sam Parnia, na Inglaterra, e van Lommel, na Holanda, sobre as experiências clínicas de pacientes que tiveram experiências de quase morte. 

  Agora, dentro do rígido mundo acadêmico e laboratorial, é o Dr. Robert Lanza quem afirma que o atual nível de avanço da ciência permite dirimir praticamente qualquer dúvida sobre esta questão. Para ele, o quadro atual da ciência possibilita afirmar que a vida continua para além da morte física e, mais que isso, essa vida consciente se aperfeiçoa com o tempo, voltando a viver em outros corpos (reencarnação), e atuando entre uma vida e outra em dimensões para além da nossa.

  Os estudos de Lanza - transdisciplinares ao estilo de Edgar Morin, James Lovelock, Ilya Prigogine, Dean Radin e Fritjof Capra -, unem ou estabelece pontes de comunicação que vai da Física Avançada para a Psicologia e Biologia de ponta e o levaram a formular sua teoria ou princípio do Biocentrismo. Nesta, é a consciência (ou algo bem parecido com a noção de um espírito consciente) que é o elemento mais fundamental no universo, ou seja, é a consciência o elemento que rege e estabelece a composição do universo, e não o inverso como o modelo mecanicista convencional costuma estabelecer.... Costuma estabelecer e reduzir, metafisicamente e a priori, de conformidade com o modelo mecanicista, interpretando a consciência como se esta fosse um mero epifenômeno secundário e sem muita importância da matéria (visão materialista-reducionista). 

  As afirmações de Lanza podem parecer polêmicas, ousadas ou até mesmo temerárias, mas estão longe de serem frutos de uma mente excêntrica que deseje polemizar para obter notoriedade. Ao contrário, são baseadas em evidências, portanto, fatos, bem estabelecidos e pesquisados que agora ele tenta explicar numa teoria coerente, denominada biocêntrica

 Vale lembrar que no curriculo do autor, anos atrás, ele pesquisou em áreas da Psicologia com ninguém menos que o pai do Behaviorismo radical, B. F. Skinner, e com grandes nomes da biologia, bioquímica e biofísica, tendo artigos publicados nas revistas mais difícies e conceituadas, como a Science. Portanto, suas colocações não são resultados de uma mente sonhadora ou ingênua e, apesar da resistência inevitável, com críticas pesadas mas nem sempre equilibradas dos colegas embebidos do paradigma mecanicista, obteve a simpatia ou mesmo o discreto apoio de outros lumiares da ciência contemporânea, como o do médico e Prêmio Nobel, Dr. Edward Donnal Thomas, que saiu em defesa de Lanza na revista Forbes em 2007, ou do físico Lawrence Krauss, que considera as ideias de Lanza cientificamente interessantes embora, para ele, dificies de serem testadas - mas se levarmos em conta as pesquisas de Banerjee, Stevenson, Dean Radin, Charles Tart e H. G. Andrade, entre outros, possíveis de serem feitas.

   Lanza, enfatizamos, se aproxima muito de autores e teóricos avançados da Física, Filosofia, Biologia e Psicologia como David Bohm, James Lovelock, Jan Smuts, Ludwig von Bertalanffy, Maturana, Varela, Carl Gustav Jung, Stanislav Grof, Leonardo Boff e Fritjof Capra ao afirmar que existe uma lógica inteligente para a estrutura do universo, onde as leis, forças e constantes variações parecem equilibradas para se afinarem com a vida, o que permite sua eclosão e manifestação em um histórico de complexificação crescente, manifestação e desenvolvimento, ou seja, há uma forte evidência de coesão e regência nas leis da natureza, o que implica que na ação de uma inteligência modeladora subjacente a este quadro (a matéria em si não demonstraria sinais de consciência). Esta mesma ideia já foi aventada por grandes nomes da física moderna, como Niels Bohr, Werner Heisenberg, Wolfgang Pauli, Erwin Schrödinger e, mais dubiamente, Albert Einstein (veja-se, sobre isso, os livros de Fritjof Capra, em especial O Tao da Física e O Ponto de Mutação), mas quase nunca foi devidamente considerada pelo establishment científico oficial. 

  Sem conhecer Hernani Guimarães Andrade, mas bem ciente das pesquisas de cientistas como Fred Alan Wolf e David Bohm, Lanza deles também se aproximam ao afirmar também que o espaço e o tempo não são objetos ou coisas existentes por si, mas sim ferramentas relativas, adaptadas ao nível de nosso entendimento animal, interpretação de nossa mente em determinado estado de consciência. Lanza vai mais além, afirmando que carregamos o espaço e o tempo em torno de nós “como tartarugas”, o que significa que quando a casca sai, espaço e tempo ainda existem. Neste ponto, a teoria de Lanza é bem próxima do modelo tetradimensional da psique, ou espírito, de Hernani Guimarães Andrade (c.f., deste autor, os livros Morte, Renascimento, Evolução e Psi Quântico) e se aproxima do pensamento teórico do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961).

 Robert Lanza, portanto, estabelece uma trama relacional abrangente unindo os fios da Biologia, da Física e da Psicologia. O quadro teórico resultante resgata as noções da Metapsíquica de Charles Richet, Gustave Geley e Frederic Myers. Afirma ele que o Biocentrismo dá sentido à ideia bastante ventilada nos últimos trinta anos, no complexo meio da Física teórica, de múltiplos universos, evocando a noção de que é possível a existência da consciência em “outros mundos” (o modelo tetradimensional da Psique de Andrade também afirma isso, o que também é validado pelas pesquisas de Stanislav Grof). 

  Neste quadro, como já intuiam, na Física, Bohr, Pauli, Schrodinger e Bohm, na Biologia, com Maturana, Varela, e na Psicologia, William James, Carl Jung e Stanislav Grof, a consciência desempenha um papel que a ciência dita exata começa a levar em consideração. Sendo assim, segundo Lanza, a morte seria uma mera ilusão criada pela mente restringida pelos sentidos, adaptados a um mundo material limitado e difícil de se lidar a três dimensões, mas que demonstra possuir uma capacidade criativa e intuitiva que ultrapassa estes limites pois, a vida, para Robert Lanza, transcende a linearidade banal aceita pelo modelo cartesiano-newtoniano da ciência clássica e ao qual estamos acostumados. Segundo ele, a noção aceita de morte é uma interpretação errônea, ou melhor, uma crença culturalmente compartilhada, baseada numa metafísica materialista que ainda desconsidera os achados da Psicologia e da Física de ponta. Capacidades aparentemente anômalas, como a percepção extra-sensorial, a precognição, etc., seriam indícios de que a mente superaria, em certos momentos e em condições ainda pouco compreendidas (Richet, Jung, Rhine, Readin, Tart, Grof, Andrade) os limites do universo físico ao qual estamos familiarizados.

 Lanza, em sua visão transdisciplinar (Morin, Capra) e transpessoal (Grof), também resgata as contribuições de pensadores como Pierre Teilheard de Chardin e Pietro Ubaldi, embora não se possa saber ao certo até onde o pesquisador estudou - se de fato estudou - tais autores. Seja como for, a mesma ideia geral, o chamado Princípio Antrópico Cosmológico tão presente no pensamento destes, também se expressa no Biocentrismo de Lanza, ou seja, de que a vida e a nossa existência humana são emergências esperadas, não o fruto do acaso, pelo contrário, sendo fenômenos inevitáveis. 

  A vida e a consciência, por sua vez, criariam a realidade biológica e esta transformaria o mundo (lembram-se da hipótese Gaia, de James Lovelock?), sem a noção linear, reducionista, simplificadora e limitante que adotamos nos últimos trezentos anos. A morte apenas existe como conceito cultural, ensinado pelas gerações a partir de uma visão limitadora da realidade, e, portanto, não pode “existir em qualquer sentido real”. 

 
Uma vida que cumpre seu ciclo é a manifestação temporal da consciência que continua a existir em outras realidade dimensionais, e mesmo podendo voltar a esta dimensão para um novo ciclo de desenvolvimento pessoal, ajudando, igualmente, no desenvolvimento coletivo. A vida física individual seria um mera emergência temporal, um fragmento na realidade restritiva a que estamos acostumados, mas que a supera e que, por sua vez, daria simplesmente um novo recomeçar quando morremos, para novas possibilidades. 

  O contrário de morrer não é, portanto, viver, mas nascer. A vida simplesmente é e se manifesta temporalmente, na matéria, dentro dos limites do nascer e do morrer e, portanto, transcende - como sentimos intuitivamente - o tempo cronológico. Não se trata de um tempo, passado, presente e futuro – aqui, sem a nossa consciência, espaço e tempo não tem valor algum, desta forma, quando morremos, a nossa mente não poderia deixar de existir, pois ela faria parte do universo, assim, ao menos uma parte fundamental da mente individual pode ser imortal, como, aliás, é dito por quase todas as tradições religiosas e filosóficos do mundo inteiro.

  
 Na teoria dos multi-versos, há uma possibilidade de um número indefinido de dimensões, ou de lugares ou de outros universos onde a nossa alma poderia migrar após a morte, de acordo com a teoria de neo biocentrismo, e ainda assim interagir e voltar à dimensão física.

 Mas será que o espírito/alma/consciência existe de modo independente? Outros cientistas reconhecidos formularam alguma teoria ou hipótese de trabalho que dê sustentação a isso? A resposta é afirmativa. 

  Embora polêmicas diante do domínio do paradigma mecanicista, existem teorias de trabalho consrtuídas por vários cientistas que dão suporte à ideia da vida consciente após a morte. Para o Dr. Stuart Hameroff, por exemplo, uma experiência de quase morte, EQM - aquela em que o paciente vê o próprio corpo e as tentativas da equipe médica de o ressuscitar -, acontece quando a informação quântica que habita o sistema nervoso deixa o corpo e se dirige ao espaço. Apesar de ser apenas um modelo, é um modelo que enfrenta o paradigma dominante já que, ao contrário do que defendem os materialistas, a teoria de Hameroff oferece uma explicação alternativa da consciência que pode, talvez, apelar para a mente científica racional e intuições pessoais sobre um fenômeno que já é reconhecido como ocorrente desde que o médico Dr. Raymond Mood publicou seu clássico livro sobre EQM, Vida depois da Vida, em 1975 (veja o vídeo ao final deste artigo). 

 A consciência interagiria ou se utilizaria, de acordo com o modelo teórico de Hameroff e do físico britânico Sir Roger Penrose, dos microtúbulos das células cerebrais,  que poderiam ser os sítios primários de processamento quântico da mente. Após a morte esta singularidade informacional, que é a consciência é liberada de seu corpo, o que significa que a mente e seu histórico vai com ele para algum outro lugar ou dimensão.

 A Consciência, ou pelo menos a proto consciência, é teorizada por quase todo os autores aqui citados como a propriedade fundamental do universo, possivelmente presente até mesmo no primeiro momento do universo durante o Big Bang. Nos dizeres de Lanza, baeado em Hameroff e Penrose,“em uma dessas experiências conscientes comprova-se que o proto esquema é uma propriedade básica da realidade física acessível a um processo quântico associado com atividade cerebral.” (veja-se o video abaixo, ao final deste texto, após a bibliografia sugerida).

 Esta interpretação quântica da consciência, que é melhor desenvolvida no modelo de Hernani Guimarães Andrade, é retrabalhada por Lanza e explica diversos fenômenos, como experiências de quase morte, projeção astral, experiências fora do corpo e até mesmo a reencarnação sem a necessidade de recorrer a qualquer ideologia religiosa. A energia de sua consciência potencialmente é reciclada de volta em um corpo diferente em algum momento e nesse meio tempo ela existe fora do corpo físico em algum outro nível de realidade e possivelmente, até mesmo outro universo.

  Por mais que pareçam aparentemente áridas, estas são explicações que dão uma explicação, talvez ainda a ser aprimorada, da ciência para a possibilidade de vida após a morte. Elas dizem que nossas consciências (ou espíritos) são consequencias da própria estrutura do universo e pode ter existido, em estágios diferenciados de desenvolvimento, já desde o início dos tempos. Nossos cérebros, assim, não produzem a consciência, servindo apenas, usando uma analogia aproximativa, ou metáfora, como meros receptores e amplificadores para a proto-consciência que é intrínseca ao tecido do espaço-tempo. Então, como parece indicar aspectos como tempo psicológico, PES, EQM, memória extra-cerebral de crianças que lebram espontaneamente de vidas anteriores, há realmente uma parte de sua consciência que é não material e vai viver após a morte de seu corpo físico.

   A possibilidade de que nossa consciência pessoal seja uma centelha diferenciada e em evolução de uma realidade em si mesmo, fundamentalmente consciencial e que dá origem às diferentes facetas da realidade e que nós mesmos, assim, somos imortais e que podemos reencarnar, é a consequencia lógica de alguns princípios estabelecidos pelo modelo biocêntrico de Rober Lanza. Estes princípios são:

1. O espaço e o tempo não são realidades absolutas independentes de consciências-observadoras, portanto, a realidade “externa” seria um processo de percepção (interpretação) e de criação da consciência.

2. As nossas percepções externas e internas estão ligadas, de forma profunda, não podendo se divorciar uma da outra.

3. O comportamento das partículas subatômicas está ligado com a presença de um observador consciente. Sem esta presença, as partículas existem, no melhor dos casos, em um estado indeterminado de probabilidade de onda.

4.  Sem consciência a matéria permanece em um estado indeterminado de probabilidade. A consciência precede o universo.

5. A vida cria o universo, e não o contrário, como estabelecido pela ciência tradicional.

6. O tempo não tem real existência fora da percepção humana.


7. O espaço, assim como o tempo, não é um objeto. O espaço é uma forma de compreensão e não existe por conta própria.

Bibliografia sugerida:

ANDRADE, Hernani Guimarães. Morte, Renascimento, Evolução. Editora Pensamento, São Paulo. Segunda edição: Editora Didier.

ANDRADE, Hernani Guimarães. Espírito, Perispírito e Alma - Ensaio sobre o Modelo Organizador Biológico. Editora Pensamento, São Paulo. Segunda edição: Editora Didier.

ANDRADE, Hernani Guimarães. Psi Quântico. Editora Pensamento, São Paulo. Segunda Edição: Editora Didier.

BANERJEE, Hemendra Nath. Vida Pretérita, Vida Futura. Editora Nórdica.

CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. Editora Cultrix. São Paulo.

CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. Editora Cultrix. São Paulo

GROF, Stanislav. Além do Cérebro. McGraw-Hill, São Paulo.

GUIMARÃES, Carlos Antonio Fragoso. Evidências da Sobrevivência. Editora Madras, São Paulo.

LANZA, Robert Paul &  BERMAN, Bob. Biocentrism: How life and consciousness are the keys to understanding the true nature of the universe. Benbella Books, 2009.

RADIN, Dean. Mentes Interligadas. Editora Aleph.

RICHET, Charles Robert. Tratado de Metapsíquica. Editora do Conhecimento.

STEVENSON, Ian. Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects. 2 Volumes. Prager Publishers.

STEVENSON, Ian. Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação. Editora Vida e Consciência.

STEVENSON, Ian. Casos Europeus de Reencarnação. Editora Vida e Consciência.

TART, Charles T. O Fim do Materialismo. Editora Cultrix, São Paulo.

Segue o documentário sobre a teoria de Hameroff e Penrose sobre a consciência quântica:




terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Pastor Silas Malafia desmentido pela ciência



Segue, abaixo, o vídeo do geneticista Eli Vieira Araújo Júnior, doutorando em genética pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, sobre as falácias, erros crassos e "cientificismos" do famoso Pastor Silas Malafaia....

Desmoralizando todas as afirmações preconceituosas e as invencionices "cientificistas" do citado pastor , a partir das colocações por este feitas na famosa entrevista (entrevista?) a Marília Gabriela, fica patente a verborragia vazia encobridora de preconceitos e posicionamentos puramente retrógrados do conhecido "religioso", representante da ignorância alienadora fundamentalista a imbecilizar, como praga, a sociedade...



Dirigindo-se, então, Jesus à multidão e aos seus discípulos,disse:
2.Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés.
3.Observai e fazei tudo o que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem.
4.Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo.
5.Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas nos seus mantos.
6.Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas.
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos.
16.Ai de vós, guias cegos! Vós dizeis: Se alguém jura pelo templo, isto não é nada; mas se jura pelo tesouro do templo, é obrigado pelo seu juramento.

Obs.: Alguns pretensiosos estão discutindo que o geneticista que contestou Malafia nas afirmações cientificistas apenas quis aparecer e que dsicutir a sexualidade ao nível de genética é um reducionismo. Usam Freud, a complicada linguistica lacaniana e outros para dizer que a sexualidade tem pouco a ver com o biológico. Como se o freudismo, o lacanismo e o szekismo também não fossem reducionistas (na pansexualidade, na questão da linguagem, no culturalismo sem corpos)... não só reducionistas como tantas vezes verborrágicos.
Esquecem eles a multidimensionalidade humana (e dos seres vivos) e de que no caso em questão, foi dito absurdos preconceituosos , de cunho fundamentalista, sob a maquiagem de verdades científicas, incluindo-se a área da genética.

 Não entenderam a simples reação - por sinal, necessária - de alguém de uma área científica (porque assim o é), de alguém que simplesmente estava respondendo à afirmações descabidas de um pretenso especialista que usou de pretensas pesquisas (ou falta de pesquisas) desta área, desta dimensão do complexo. Assim o fazendo, demonstrando os erros de Malafaia, o geneticista explicitou a tática usada de buscar engabelar, pela verborragia de um falastrão treinado em táticas de sugestão de massa, pessoas crédulas e com pouco senso crítico. O ato de crítica resposta poderia ter feito sociólogos, psiocólogos (e o Conselho Federal de Psicologia já repudiou formalmente Malafaia), filósofos, físicos e outro a se posicionarem ante o dito falastrão fundamentalista e seus falsos "informes" para justificar seus preconceitos, ódios e táticas de exploração.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Leonardo Boff: a base biológica da espiritualidade



Texto de Leonardo Boff


Esta profundidade espiritual, dizem pesquisas científicas, tem uma base biológica. Realizadas do final do século 20 e conduzidas pelos neuropsicólogos MichaelPersinger e Ramachandran, pelo neurologista Wolf Singer e pelo neurolinguista Terrence Deacon, outrossim por técnicos usando scanners modernos para fazer imagens cerebrais, detectaram o que eles chamaram de “o ponto de Deus no cérebro” (God spot ou God module).

Pessoas que em suas vidas deram espaço significativo ao profundo, ao espiritual, revelam nos lóbulos frontais do cérebro uma excitação detectável acima do normal. Estes lóbulos são ligados ao sistema límbico, o centro das emoções e valores. Aí se dá uma concentração naquilo que tais cientistas chamaram de “mente mística” (mystical mind). Tal estimulação do “ponto de Deus” não está ligada a uma ideia ou a algum pensamento objetivo. Ele é ativado sempre e quando a pessoa se sente emotivamente envolvida com os contextos globais que conferem sentido à vida ou quando, de forma autoimplicada, se referem ao Sagrado, a temas religiosos ou diretamente a Deus. Trata-se de emoções e não de ideações, de fatores ligados a experiências de grande sentido que implicam um percepção do Todo e de algo incondicional.

Estudos mais recentes apontam que pode haver de fato não apenas uma mas múltiplas regiões do cérebro estimuladas pela experiência de totalidade e de sacralidade. Isso indica que o “ponto de Deus” pode ser, na verdade, uma “rede de Deus” compreendendo regiões normalmente associadas a emoções profundas e carregadas de significação. Outros pesquisadores como Eugene D’Aquili e Andrew Newberg chamaram a esta realidade, como temos referido acima, a ”mente mística”.
Esta mente mística pertence ao processo mais geral, antropogênico-cosmogênico. Ela representa uma vantagem evolutiva da espécie homo. Como externamente somos dotado de sentidos pelos quais apreendemos a realidade através do ouvido, do olho, do tato e do olfato, assim seríamos internamente enriquecidos com um órgão pelo qual captamos o Mistério do Mundo, o que nos faz sensíveis àquela Energia poderosa e amorosa que perpassa de ponta a ponta todo o Universo e que subjaz à nossa existência. As tradições religiosas a chamaram de Deus.

Se ela está em nós e nós somos parte do Universo, significa então que esta inteligência espiritual constitui uma propriedade do próprio Universo. Só porque está no Universo pôde estar em nós. É por esta razão que a filósofa e física quântica Danah Zohar e o psiquiatra Ian Marshall afirmam que o ser humano não é apenas dotado de inteligência intelectual e emocional, mas também de inteligência espiritual. Esta é um dado de realidade com o mesmo direito de cidadania que a libido, a autoafirmação, a inteligência e o amor (QS: inteligência espiritual – Record, 2000).

Hoje faz-se urgente, mais que antes, dar realce à inteligência espiritual. Porque vivemos numa cultura entorpecida pelo materialismo e pelo consumismo induzido. O efeito deste modo de ser é bem relatado pela literatura contemporânea: sentimentos de náusea (Sartre), de estar-de-sobra (Marcel), de alienação (Marx), de “derelição-abandono”(Heidegger), de estrangeiros na própria pátria (Camus). Numa palavra, padecemos de graves doenças de sentido como denunciaram os psicanalistas Rollo May e Victor Frankl. Tudo isso porque embotamos a inteligência espiritual.

A espiritualidade nos ajuda a sair desta cultura doentia e agonizante. A integração da inteligência espiritual com as outras formas de inteligência — intelectual e emocional — nos abre para uma comunhão amorosa com todas as coisas e para uma atitude de respeito e de reverência face a todos os seres, muito mais ancestrais do que nós. Só assim, poderemos nos reintegrar no Todo, sentirmo-nos parte da comunidade de vida e acolhidos como companheiros na grande aventura cósmica e planetária.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O pensamento sistêmico na percepção da vida e do mundo


Fritjof Capra
 A concepção sistêmica (ecológica, interrelacional) vê o mundo em termos de relações e integração. Percebemos, na música, as relações entre notas, intensidade, ritmo e combinações entre estes elementos, não notas, batidas rítmicas ou sons fortes e fracos isolados, nem percebemos nas pessoas pedaços orgânicos isolados. Os sistemas são totalidades integradas cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, que destroem as características do todo, a abordagem sistêmica enfatiza princípios de organização. Os exemplos de sistemas são abundantes na natureza. Todo e qualquer organismo - desde a menor bactéria até os seres humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais - é uma totalidade integrara e, portanto, um sistema vivo (com características bem diferentes dos sistemas inorgânicos). As células são sistemas vivos, assim como os vários tecidos e órgãos do corpo, sendo o cérebro humano o exemplo mais complexo. 
 Mas os sistemas não estão limitados a organismos individuais e suas partes. Os mesmos aspectos de totalidade são exibidos por sistemas sociais -como o formigueiro, a colméia ou uma família humana - e por ecossistemas que consistem numa variedade de organismos e matéria inanimada (que vem sendo destruída pela especulação imobiliária e financeira) em interação mútua. O que se observa numa região selvagem não são árvores ou organismos individuais isolados, mas a teia complexa da relação entre eles.
 Todos esses sistemas naturais são totalidades cujas estruturas específicas resultam das interações e interdependência de suas partes. A atividade dos sistemas envolve um processo conhecido como permuta\transação - a interação simultânea e mutualmente interdependente entre componentes múltiplos. As propriedades sistêmicas são destruídas quando um sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, a natureza do todo é sempre diferente da mera soma de suas partes.
  Embora seja de uma natureza especializada e secundária, as operações do tipo mecânico (tão destacadas pela ciência moderna a partir de Descartes) ocorrem também em todo o mundo vivo. A descrição reducionista-mecanicista de organismos pode, portanto, ser útil e, em alguns casos, necessária. Ela só é perigosa quando interpretada como se fosse o modelo explicativo completo. Reducionismo conceitual e holismo, análise e síntese, são enfoques complementares que, usados em equilíbrio adequado, nos ajudam a chegar a um conhecimento mais profundo da vida.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Site "Para Além do Cérebro"

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http://www.geocities.ws/carlos.guimaraes/transpessoal.html

Este nosso site foi elaborado com base em escritos feitos entre dezembro de 1996 a abril de 2007. Possuia (e ainda possui) textos voltados para temas como holismo, mecanicismo, psicologia transpessoal, psicologia holística, entre outros.

Inicialmente, foi pensando e feito para o então livre e mundialmente aceito GeoCities, espaço de divulgação de HPs e textos de livre acesso. Este espaço foi comprado pelo Yahoo e mantido em operação até outubro de 2009. Infelizmente, a ganância mercantilista fez o Yahoo fechar o espaço, deixando milhões de usuários sem acesso para pesquisa ou divulgação de novos trabalhos, alguns dos quais de importância.

Em nosso caso, felizmente, muitas pessoas conseguiram repor alguns dos sites no ar, em suan totalidade (ou quase), entre os quais o nosso "Para Além do Cérebro". Assim, aos interessados, divulgamos a URL de um desses espaços recuperadores onde está nosso trabalho: http://www.geocities.ws/carlos.guimaraes/transpessoal.html

sábado, 14 de agosto de 2010



Holismo X Mecanicismo: O que é a vida?

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

17/03/1997



"Podemos afirmar definitivamente, com base em investigações estreitamente empíricas, que a pura e simples inversão de nossa ênfase analítica do universo, separando componetes constituintes como peças, para proceder de maneira inversa, unindo o que foi cortado em pedaços - seja na realidade ou tão só em nossa mente -, não pode explicar por si só o comportamento sequer do mais elementar sistema vivo".
Paul Weiss


Talvez a melhor maneira de se compreender as diferenças fundamentais entre as duas atuais visões de mundo - a do paradigma da ciência cartesiana (hoje dominante) e da concepção chamada holística, sistémica ou ecológica (em sua acepção profunda. O termo ecológico é mais abrangente, menos gasto, por isso talvez seja preferível à holismo), hoje emergente - possa ser adquirida através do estudo de como estas diferentes formas de entender e perceber, de se posicionar ante o que julgamos ser a realidade, explicam o porquê da existência - ou da origem e finalidade - de um dado fenômeno, ou a sua ocorrência. Assim, partindo deste princípio, resolvi tomar como ilustração das diferenças entre o Holismo - mais precisamente a Teoria Sistêmica da Vida - e o Reducionismo Mecanicista a maneira como cada uma destas difentes concepções teórico-filosóficas entendem, percebem e/ou explicam o que é a vida, quais suas características, objetivos e finalidade.

Como vemos a vida

Apesar do discurso ideológico, em grande parte calcada no sucesso tecnológico e no conseqüente poder político e econômico daí resultante, a ciência ocidental - muitíssimo bem sucedida em várias áreas de atuação - é uma espécie de saber especializado e aceito como válido por uma civilização mas, de modo bem mais amplo, constitui-se em uma modalidade de saber entre tantas outras tão válidas e coerentes quanto ela mesma, e que são próprias das atualmente violentadas e moribundas (situação esta causada pela dominante civilização ocidental) civilizações, culturas ou tradições não industriais...

Como bem esclarece o pofessor Renato Machado, "a ciência não é um objeto natural, um objeto dado; é uma produção cultural, um objeto construído, produzido. (...) A ciência é essencialmente discurso, um conjunto de proposições articuladas sistematicamente. Mas, além disso, é um tipo específico de discurso: é um discurso que tem a pretensão de verdade" (MACHADO, Ciência e Saber, A Trajetória Arqueológica de Foucault, p. 20, edições Graal, Rio de Janeiro, 1988). Um pouco mais além, o mesmo autor afirma que "a questão da verdade significa a dos critérios do conhecimento dito verdadeiro, que dependem da própria ciência enquanto processo de produção do conhecimento ou daquilo que Canguilhem chama veridicidade: 'A veridicidade ou o dizer-o-verdadeiro da ciência não consiste em uma reprodução fiel de alguma verdade inscrita desde sempre nas coisas ou no intelecto. O verdadeiro é o dito do dizer científico'. A ciência não reproduz uma verdade; cada ciência produz sua verdade. Não existem critérios universais ou exteriores para julgar da verdade de uma ciência"(MACHADO, op. cit., p. 21). Em um uma nota, o autor ainda cita Fraçois Jacob, que diz: "Como as outras ciências, a biologia perdeu hoje muitas de suas ilusões. Ela não procura mais a verdade. Ela constrói a sua".

A biologia moderna, como de resto todas as outras ciências, não escapou ao triunfo olímpico do modelo newtoniano de mundo e de sua Física. Mais que isso, ela abraçou ardorosamente a filosofia subjacente a tal modelo, elaborada por René Descartes e que estabelecia o universo e todos os seres vivos como sendo máquinas semelhantes em sua constituição às máquinas construídas pelos homens, cabendo, portanto, apenas desmontar estas e analisar suas peças e a forma como elas se relacionam na estrutura para entender seu funcionamento.

O físico Fritjof Capra, com bastante clareza, cita que:

"Empolgados pelos êxitos do método reducionista (analítico), com especial destaque, recentemente, no campo da engenharia genética, eles tendem a acreditar que este é o único enfoque válido, e organizaram a pesquisa biológica de acordo com ele. Os estudantes não são encorajados a desenvolver conceitos integrativos, relacionais, e as instituições de pesquisa dirigem suas verbas quase exclusivamente para a solução de problemas formulados no âmbito dos conceitos cartesianos. Os fenômenos biológicos que não podem ser explicados em termos reducionistas são considerados indignos de investigação científica. Por conseguinte, os biólogos desenvolveram métodos muito curiosos para lidar com os organismo vivos. Como sublinhou o eminente biólogo e ecologista René Dubos, eles usualmente sentem-se muito à vontade quando a coisa que estão estudando já não vive"
(CAPRA, 1986, p. 96).

Dentre os principais problemas não explicados pelo método analítico reducionista estão os mais encantadores fenômenos biológicos, em especial a regeneração celular de feridas, a integração mente/corpo, o desenvolvimento e diferenciação embrional, a integração harmônica do sistema nervoso e seu permamente contato integrativo interrelacional com o meio, que afinal sustenta o organismo. E só em nosso século a Ecologia começou a ser aceita - ainda que como inimiga para o sistema Industrial, em especial o que se calca na exploração e poluição do meio-ambiente. De qualquer modo, a biologia, adotando um determinado modelo mecanicista da vida, está dando retorno a um segmento social que a financia e espera, de qualquer modo, algo em troca, se possível algo que dê lucro. Desta forma, fazendo dos organismos vivos "máquinas", não é preciso ter uma ética "humanista" de pleno respeito a estes organismos, que podem ser plenamente explorados comercialmente. Da mesma forma, a indústria faramacêutica, visando mais o lucro que a ajuda humanitária, pouco se importa se quem pode comprar seus produtos constitua apenas um setor mínimo da população. A educação médica, sendo prioritariamente interventiva que preventiva, faz parte desta estrutura mercadológica, já que a industria não só contribui para a manutenção de cursos de medicina, como também está o tempo todo, às custas de uma extraordinária máquina de propaganda, impondo referenciais de tratamento aos médicos.

É interessante notar o modo como o discurso científico é um discurso cultural. Basta olha a história de uma ciência para perceber isso... Toda a forma de saber e toda a ciência, por ser uma aproximação e por ser uma construção, é coerente com o contexto político e econômico onde se situa e triunfa. Conceitos superados e conceitos sancionados estão mais ligadas à ideologia de uma sociedade do que se pensa, o que não significa que o que foi rejeitado num dia não possa ser ressuscitado, totalmente ou reformado, em outro. Canguilhem explicita isso em seu conceito de "ideologia cienífica", que é um discurso que, por ser aceito e apoiado por um conjunto de pessoas socialmente reconhecidas como especialistas, tem a presunção de verdade - mesmo que seja de uma verdade contextualmente temporária. Por ter a ambição de cientificidade, este discurso imita os procedimentos de ciências tecnologicamente e teoricamente mais bem sucedidas, em especial a Fìsica. Adotando critérios análogos, entra a perspectica de poder que é utilizada com ambição à totalidade explicativa. No caso, o modelo de máquina abarcaria todas as áreas da biologia.

Há pouco mais de cem anos, seguindo uma análise feita pelo físico Paul Davies em seu livro Deus a e Nova Física, com a publicação dos trabalhos de Darwin e Wallace, o tema da origem e da evolução dos sistemas vivos tornou-se o mais visível ponto de colisão e conflito entre entre a ciência e a religião, ou, mais precimanete, entre duas formas diferentes de se entender a natureza. Antes, era lugar comum que a vida era, ou pareceia ser, a manifestação mais óbvia da sabedoria e do poder da Divindade, sendo que a vida humana era considerada o ápice do plano universal de Deus. Todas as formas vivas pareciam fazer sentido como a resultante visível dos desígnios da Suprema Mente de um Grande Arquiteto, cabendo ao homem usufruir de uma localização privilegiada na hierarquia dos seres vivos. Hoje em dia, a vida continua a ser um fenômeno espantoso, mas a autoria de tal milagre foi transferida, pela ciência, de Deus para um complexo jogo de forças determinísticas e, em última análise, cegas, regidas pelo acaso, que, combinando elementos "casualmente" apropriados em ambientes igualmente propícios, teriam, de modo absolutamente aleatório e através dos milênios, possibilitado a eclosão da imensa e rica variedade de formas vivas que nos cercam e encantam. É interessante observar uma certa ingenuidade reducionista de tal concepção. Dificilmente uma enciclopéida seria feita a partir da explosão de um saco de jornais, mas é mais ou menos assim que a ciência diz que se formou o universo. As conseqüências de tal mudança de "crenças", é claro, resultaram em um profundo abalo na mentalidade humana: a ciência mudou a perspectiva que o homem tinha de si mesmo e do universo, e de sua relação para com este. Como tudo o mais no mundo, esta revolução de crenças trouxe coisas boas e outras nem tanto, e, de igual forma, mostrou um certo limite de aplicabilidade e de exatidão: embora, em linhas gerais, a evolução seja um fato inquestionável, o prédio especulativo mecanicista que se construiu ao redor e à pretexto dela tem demonstrado um lado negro e, em última instância, nocivo à própria sobrevivência da vida no planeta, como veremos adiante.

Para a ciência oficial, especialmente para as disciplinas científicas mais atreladas ao modelo científico advindo da Física Clássica, as duas facetas básicas que distinguem e caracterizam os sistemas vivos dos não-vivos são a Organização e a Complexidade (Davies). Ora, mesmo um "primitivo" organismo unicelular, como uma ameba, por exemplo, por mais simples que seja apresenta uma intrincada estrutura biológica (Complexidade) que nunca se encontrará em qualquer que seja o produto do engenho humano. Qualquer modificação sintética numa estrutura desse tipo sempre partirá da matéria prima básica que o homem irá utilizar, ou seja, o próprio organismo uniceluar já existente. Este mesmo organismo uniceluar, em seu funcionamento interno, apresenta-se como uma grande cidade muito bem organizada. Ela é formada por organelas muito especializadas que trabalham de forma altamente sincronizada para que o ser unicelular possa sobreviver, auto-renovar-se, locomover-se, alimentar-se, atacar, fugir e se reproduzir. As estruturas químicas que dirigem e controlam toda esta "cidade" minúscula encontram-se codificadas em moléculas localizadas no interior do núcleo da célula: o DNA.

O mais incrível é que os componentes elementares básicos de um sistema biológico qualquer é formado por átomos perfeitamente comuns, encontrados em toda a parte. Qualquer que seja o átomo que se encontre dentro da célula viva - quer seja um átomo de carbono, de hidrogênio ou de qualquer outro elemento - não apresentará ele diferença alguma de qualquer dos átomos do mesmo elemento que se encontrem no meio inanimado externo. Aliás, há uma corrente ininterrupta de trocas de componentes internos da célula com o meio externo e, apesar disso, a célula continua a ser e a se desenvolver como um organismo independente, de onde se deduz que a vida não pode ser reduzida a uma propriedade de mera junção ou união das suas partes constituintes. Estas partes constituintes estão em constante transformação. Seus átomos estão sempre sendo trocados, mas o padrão do conjunto se mantém. É este padrão, não a estrutura, que é responsável pela existência do conjunto. A vida não é um fenômeno cumulativo. Se o fosse, um biólogo poderia muito bem formar uma célula viva a partir da junção de todos os seus componentes. O máximo que ele conseguirá é um saquinho gelatinoso muito parecido com uma célula morta.

Na biologia acadêmica, de modo geral, a concepção mecanicista dos organismos vivos como máquinas, consituídas de partes definidas e, fundamentalmente, passívies de separação e análise - como peças de um relógio -, ainda é a base conceitual dominante. Empolgados e estimulados pelo êxitos inquestionáveis do método analítico, cartesiano, ou científico, eles tendem a conceber que esse método é o que possibilita o único enfoque válido para a compreensão dos fenômenos biológicos, e organizam todas as pesquisas de acordo com ele. Os fenômenos biológicos que não podem ser coerentemente explicados dentro dos termos reducionistas, como, por exemplo, o processo de cura de ferimentos, a concentração da atenção, são considerados indignos de investigação científica, ou como fatos sujeitos à explicação futura, dentro dos moldes reducionistas.

Muito embora o conceito simplista de seres vivos como máquinas próximas a de um relógio fosse, na prática, superado na biologia, a essência conceitual da idéia, porém, permaneceu, já que a obsessão na pesquisa está em se reduzir todos os aspectos ao processo de reação de constituintes moleculares nas células. Quanto à parte da fisiologia e da anatomia, a aproximação ao ideal mecanicista cartesiano ainda é dominante. O tratado de La Mettrie, escrito no século XVIII e intitulado "O Homem-Máquina" deu o ponta pé inicial de toda a abordagem mecanicista em fisiologia por mais de dois séculos:

"Será preciso mais (...) para provar que o Homem nada mais é que um Animal, ou uma montagem de molas que se engatam umas nas outras de tal modo que não é possível dizer em que ponto do círculo humano a Natureza começou?... Na verdade. não estou equivocado; o corpo humano é um relógio, mas imenso e construído com tanto engenho e habilidade que, se a roda denteada, cuja função é marcar os segundos, pára, a dos minutos continua girando em seu curso" (cit. in CAPRA, 1986, p. 101).


Muitos importantes biólogos ainda defendiam esta forma de "entendimento" da vida em pleno século XX.

Ora, o interessante é que a ênfase na pesquisa científica, em geral, e, muito particularmente, em biologia está em se isolar e classificar sempre mais e mais os chamados constituíntes fundamentais dos sitemas vivos, ou seja, em se decobrir quais as moléculas - e sua composição - respoonsáveis pela manutenção e/ou ação dos processos biológicos. Pretende-se com isso ter uma visão compreensiva e mais aprofundada do que seja a vida. No final das contas, o que descobrimos é que enquanto aprofundamos mais e mais o conhecimento das estruturas microscópicas que constituem a base biofísica e bioquímica das células, perdemos a visão de relação ou a visão do conjunto da vida em si em em suas manifestações dinâmicas. Cria-se, assim, a ilusão de que a superespecialização linear aumenta o conjunto geral do conhecimento. Na verdade, aumenta-se o conjunto de conhecimento sobre os detalhes de um determinado aspecto da vida. Pouco se faz para se ter uma idéia de relação funcional das partes com o todo. O erro fundamental reside no fato de a ciência não levar realmente em conta que um conjunto pode muito bem apresentar propriedades que não se encontram nos seus componentes individuais. Um exemplo clássico para demonstrar tal fato é o da fotografia de jornal que é constituída por inúmeros pontinhos. Ora, nenhum desses pontinhos, quando isolados, revela o que quer que seja sobre a figura que o conjunto representa. Só quando nos afastamos do nível dos componentes individuais e ascendemos ao todo, é que temos idéia da informação, da mensagem, da figura que surge da fotografia de jornal. Ou seja, a figura não é a resultante das propriedas dos pontinhos, mas sim a resultante do padrão do todo formado tanto pelos pontinhos, quanto pelo espaço entre eles.

Da mesma forma, o erro básico do paradigma científico atual subjacente ao modelo biomédico reside na fato de que se confunde a vida com os seus elementos contituintes. Não é nos átomos, enquanto conetúdo, que reside o segredo da vida ou suas moléculas constituintes per si, mas no padrão, na informação que emerge de sua associação. É a informação contida no DNA que possibilita que alguém tenha olhos claros ou escuros, e não que uma coleção de um átomo específico possa estabeler que a pessoa tenha olhos dessa ou daquela cor. É a informação, expressa na síntese protéica, que utilizará os mesmos átomos presentes em todos os seres vivos para estabelecer características fenotípicas diversas.

Pela lúcida análise de Capra, percebemos que no conturbado e tecnicista século XX, a genética tornou-se a área mais ativa, mais sedutora e mais poderosa na pesquisa biológica, médica e farmacêutica. Os sucessos na descrição e entendimento da estrutra do DNA proporcionou um forte reforço à abordagem mecanicista dos organimos vivos. Ao ficar claro que o material hereditário estava contido nos cromossomos, em posicões especiais ao longo dos filamentos que os constituem, os geneticistas acreditavam ter fixados os "átomos da hereditariedade", e passaram a explicar as características biológicas em termos de suas "unidades elementares": os genes, sendo, de início, considerado que cada gene corresponderia a um traço hereditário específico, em causação lienar. Porém, logo se descobriu que esta linearidade não era perfeita pois pesquisas mostraram que um único gene pode afetar vários traços e que, inversamente, muitos genes separados combinam-se frequentemente para produzir um só traço. Obviamente, o estudo da cooperação e da atividade integrativa, holística, dos genes separados se apresentou como sendo de profunda importância, mas a estrutura conceitual cartesiana-mecanicista tornou difícil lidar com estas questões. Como diz Fritijof Capra, "quando os cientistas reduzem um todo a seus constituintes fundamentais - sejam eles células, genes ou partículas elementares - e tentam explicar todos os fenômmmenos em função desses elementos, eles perdem a capacidade de entender as atividades coordenadoras do sistema como um todo" (Capra, 1986, pág. 107).

Ainda segundo Capra, "uma outra falácia da abordagem reducionistas em genética é a crença de que os traços de caráter de um organismo são determinados unicamente por sua composição genética ( ou são mais profundamente determinados por eles). Esse 'determinismo genético' é uma conseqüência direta do fato de se considerar os organismos vivos como máquinas controladas por cadeias lineares de causa e efeito. Ele ignora o fato de que os organismos são sistemas de múltiplos níveis, estando os genes implatados nos cromossomos, estes funcionando dentro dos núcleos de suas células, estas embutidas nos tecidos, e assim por diante. Todos esses níveis estão envolvidos em interações mútuas que influenciam o desenvolvimento do organismo e resultam em amplas variações da 'cópia genética' ".

Ainda mais recentemente, o fascínio do determinismo genético deu origem a uma teoria que reabilitaria o próprio Joseph Mengele frente à comunidade científica: a sociobiologia, na qual todo o comportamento social é entendido como predeterminado, ou mesmo totalmente determinado pela estrutura genética. Vários críticos apontaram para o perigo que esta teoria representa, inclusive por dar uma base pseudo-científica para o racismo. Esta teoria também é conhecida como o neodarwinismo social.

Duas visões de mundo

A distinção fundamental entre uma perspectiva reducionista e uma outra de conjunto, ou sistêmica, é representada por duas abordagens paradigmáticas amplamente distintas: a abordagem mecanicista (reducionista) e a abordagem holísitca (do grego holos, totalidade). A ênfase básica e característica da ciência acadêmica oficial, nos últimos três séculos e meio, tem sido mecanicista-reducionista. Na verdade, o tão caro vocábulo científico análise bem ilustra o hábito, ou melhor, a crença, de que o único processo válido de pesquisa científica é o da dissecação de um problema, separando seus componentes, para o resolver. Só que, hoje em dia, a análise leva sempre a mais análise, e, frequentemente, o problema original fica sem solução. Se pegarmos o exemplo do quebra-cabeças, poderemos chegar à conclusão de que existem problemas que só se solucionam quando temos uma visão de conjunto, casos esses em que o todo possui característcas bem mais específicas que as suas partes constituintes.

O aspecto mecanicista-reducionista que se apresenta na ciência atual se consolidou definitivamente com os extraordinários sucessos da física clássica dos séculos XVIII e XIX, e ficou ainda mais forte com o desenvolvimento da teoria atômica da matéria. Com o exemplo dado pela física, e o grande reconhecimento que esta ciência obteve nos meios intelectuais, não é de se surpreender que a biologia e, ainda mais, a medicina tenham enveredado pelo mesmo caminho, obtendo sucessos estrondosos em deslindar as bases moleculares da vida, tendo como um dos pontos altos a descoberta dos componentes e da estrutura, por exemplo, do DNA. Todo esse sucesso condicionou a pesquisa e a escolha de tópicos de estudo que se retroalimentaram, exigindo novos experimentos a análises reducionistas e encorajando, ad infinitum, a replicação do processo e a adoção do mesmo sistema em quase todas as outras áreas da investigação humana resultando em verdadeiras enxurradas de trabalhos cientificistas, em chuvas de aberrações de explicações causais para todo tipo de fenômeno, incluindo os psicológicos e sociais.

Tanto exagero na crença de que o método reducionista é o único válido acabou por provocar reações enérgicas de muitos críticos inteligentes, mas que foram ridicularizadas, minimizadas ou abafadas pelo status quo da ciência normal padrão. Só que o próprio procedimento científico começou a se mostrar impotente para solucionar inúmeros problemas importantes, o que abriu um espaço para que estas críticas pudessem, finalmente, ser ouvidas e aceitas. Arthur Koestler, por exemplo, deixou muito claro uma das principais mazelas desta abordagem: "Ao se negar um lugar para os valores, um sentido e um objetivo para a tão decantada interação casual de forças cegas, a atitude reducionista acabou por lançar a sombra de sua influência para além dos confins da ciência, afetando todo o nosso clima cultural e político". Ou seja, as tentativas para explicar a nossa existência e a de todos os organismos vivos como se nada mais se tratassem a não ser de aglomerados atômicos casualmente formados levou a um processo de desvalorização moral e de uma supervalorização mercantil, egoísta e hedonista da vida, linearizando a própria existência como uma coisa fútil, acidental e sem sentido.

O neurobiofisiologista britânico Donald MacKey chama esta atitude reducionista em biologia de "nada mais que". Ele tenta exemplificar o atual estado de coisas na abordagem biomédica usando como exemplo um letreiro luminoso. Neste instrumento, um conjunto de lâmpadas acendem e apagam alternadamente com o propósito de transmitir uma mensagem. Qualquer engenheiro elétrico poderia descrever exatamente o modo como funciona o letreiro em termos da teoria dos circuitos elétricos. Mas ele seria ridículo se afirmasse que a função desta máquina é apenas o de acender e pagar lâmpadas devido a pulsações elétricas num circuito elétrico complexo. A função do letreiro é o de passar mensagens. E estas se utilizam do substrato eletro- físico para expressar estas mensagens. Na verdade, a descrição do engenheiro está correta, mas muito incompleta, pois não mencionou o fundamental: a mensagem. O conceito de mensagem, de informação, está além do referencial teórico do engenheiro, assim como o de psique está frequentemente fora do referencial teórico de um neurologista. Estas limitações, porém, só se tornam evidentes quando a operação de exibição como um todo é levado em consideração: a mensagem que o letreiro expressa está num nível acima do nível dos circuitos elétricos: ela está num nível holístico.

Outra crítica profunda feita à concepção mecanicista da vida deve-se ao Prêmio Nobel de Química, 1977, Ilya Prigine. Ele demonstrou que a ciência normal teima em retratar a vida em consonância com a ideologia cultural dominante na ciência, ou seja, como um acidental processo linear, ocorrido ao acaso. Um acidente especial que, a partir de então, se encontra numa fútil luta quixotesca contra a imperioso segunda lei da termodinâmica, que impele os sistemas químico-físicos a bsucarem um equilíbrio térmico, o que, em termos orgânicos, teria como resultado o esgotamento funcional do sistema vivo. Mas Prigogine demonstrou que isso não ocorre em sistemas complexos. Certas reações químicas têm a especial capacidade de manterem o grau de entropia baixo, como ocorre nos seres vivos. Através do estudo das chamadas Estruturas Dissipativas, Prigogine chegou ao entendimento da ordem através da flutuação, ou seja, em condições dinâmicas de troca de informações e matéria com o meio, um equilíbrio dinâmico, longe do que ocorre em estrutras fechadas, como as máquinas. Esse princípio não se limita a processos químicos complexos, mas se estendem aos domínios dos átomos, células, pessoas e galáxias.

Prigogine demonstrou, juntamente com outros biólogos sistêmicos, que um organismo biológico é um sistema aberto, cuja saga evolutiva os tornam aptos a assegurar a vida em regimes dinâmicos de trocas com o meio. Eles são sistemas autotranscendentes e auto-organizadores, coisa que falta às máquinas convencionais, que são sistemas fechados. Esta tendência do organismo de se auto-atualizar e de se autorealizar também tem uma importância fundamental para a Psicologia, notadamente a Psicologia Humanista, como a de Carl Rogers, a Psicologia Holística, como a de Kurt Goldstein, e a Psicologia Transpessoal.
Como muito bem nos fala o físico Paul Davies em seu livro Deus e a Nova Física, ninguém pode negar que um organismo é uma coleção de átomos, moléculas, tecidos, etc. O erro está exatamente em se supor que ele é nada mais que isso. Semelhante pretensão, logicamente, é tão ou mais ridícula quanto dizer que a Nona Sinfonia de Beethoven nada mais é que uma coleção de notas, ou que um poema de Augusto dos Anjos é apenas um conjunto de palavras, embora seja exatamene isso que muitos cientistas dizem quando falam dos processos biológicos e até mesmo psicológicos. A vida, o tema de uma sinfonia ou o enredo de um romance são qualidades que emergem do nível mais basico de seu substrato físico, e não podem ser percebidas a nível de seus componentes.

O fato de um conceito ser abstrato em vez de concreto ou substancial não o torna, por isso, irreal ou ilusório. O pensamento de uma pessoa não pode ser pesado ou medido, e nem ocupa nenhum lugar no espaço e, contudo, ele é parte integrante do que ela é. Conceitos como sonhos, entropia, informação não envolvem objetos ou corpos defindos, mas relações e condições entre objetos, ou entre idéias, e se destacam deles. Muitos dos antigos problemas do entendimento da vida desaparecem quando se considera que conceitos "abstratos" e de alto nível - como o de software - podem ser tão reais como as estruturas concretas e de baixo nível que as suportam - o hardware. O nosso mundo está cheio de coisas que não são nem misteriosas nem fantasmagóricas, mas que tampouco são constituídos de tijolinhos atômicos. Pena que as pessoas não pensem muito nisso, pois as conclusões e conseqüências disso tudo seriam consideráveis. "Essas coisas não são objetos físicos com massa ou composição química definidas, mas tampouco são objetos puramente fantasiosos, como o valor do número grego Pi, que é imutável e não pode ser localizado no espaço ou no tempo. Estas coisas têm um lugar de nascimento e uma história. Podem mudar e é possível que lhes aconteça algo. Podem mover-se tanto quanto uma espécie, uma doença ou uma epidemia. Não devemos supor que a ciência atual nos ensina que tudo o que se pretende estudar seriamente se pode identificar como um conjunto de partículas movendo-se no espaço e no tempo. Poder-se-á talvez pensar que é senso comum - ou até muito bom pensamento científico - supor que cada um de nós não passa de um ser particular, um organismo físico montado de forma compreensível - um montão de átomos em movimento - mas, na realidade, esta idéia revela uma falta de imaginação científica, não uma sofosticação fora do vulgar. Não é necessário acreditar em fantasmas para que se acredite no Eu, que tem uma identidade que transcende qualquer corpo vivo em particular" - D. R. Hosfstadter. (Davies, s/d, pág. 93).

O fato muito pouco percebido é o de que a visão de mundo que a ciência normal nos dá é condicionado por um paradigma, uma ideologia culturalmente determinada que estabelece, a priori, o modo como o mundo deve se comportar para que faça sentido dentro dos pressupostos básicos do paradigma adotado pela comunidade científica. Nossa percepção de mundo é condicionada pelos conceitos que nos foram passados pela nossa formação e educação intelectual. Conceitos clássicos de matéria e energia, tempo e espaço, causalidade linear, entre outros, contribuiram de modo definitivo para o estabelecimento de valores e expectativas "lógicas" que determinam a explicação e o entendimento de fenômenos, bem como na formulação de teorias compatíveis como o background perceputal adotado. Este peso cultural, que é inconsciente, representa um risco. Em face de uma ciência oficial - sustentada nos moldes de uma estrutura econômica e de relações de poder cristalizadas - que se associa a um complexo de noções como causalidade, determinismo, mecanicismo, racionalismo, surgiu um conjunto de temas humanos que são estranhos a este corpo de concepções, como o de vida, liberdade, etc. Não reconhecendo qualquer lugar para estas concepções dentro de sua estrutura, a ciência clássica viu esses temas se tornarem pontos de fixação que serviram de base para o seu questionamento valorativo. A partir de então, ficou claro que tinhamos montado anteriormente uma ciência que procurava obter o máximo controle sobre a natureza, e, para isso, era muito bom que buscássemos ve-la como uma máquina. Ficou claro, assim, que os problemas que marcam uma cultura têm uma grande influência no conteúdo e no desenvolvimento das teorias científicas.

É necessário que prestemos atenção ao fato de que nossa visão de mundo condiciona nossa percepção das coisas. Devemos resgatar a importância da distinção de níveis para não cairmos na presunção de que nossa "especialidade" pode ser generalizada para tudo. Por exemplo, todos os jovens que gostam de computação sabem muito bem distinguir, no funcionamento do computador, dois níveis diferentes de realidades que, juntas, explicam como a máquina funciona. Temos o nível físico denomindo hardware e o nível lógico, denominado software. Ambos os níveis explicam muito bem determinado aspecto do funcionamento do computador, mas nenhum dos dois se mantêm para explicar o desempenho total da máquina. Eles decrevem muito bem coisas que se encontram em níveis conceptuais inteiramente diferentes. Tudo depende do que se pretende saber, mas a visão que emerge das duas abordagens é a mais próxima da realidade, pois nenhuma das duas, isoladas, pode ser a única correta.

Todos os programadores, técnicos, operadores e pessoas que mexem com computadores sabem que não existe incompatibilidade entre conexões causais a nível de hardware e software. Da mesma forma, pegando a deixa e fazendo uma comparação, o cérebro humano consiste em bilhões de neurônios, zumbindo interminavelmente, cada um deles ignorando o plano do conjunto cérebro (como provavelmente uma formiga desconhece o sistema formigueiro em toda a sua complexidade). Este mundo primário dos neurônios em si é o mundo físico, ou bio-físico e bio-químico, que forma um hardware. Por outro lado, temos pensamentos, sentimentos e emoções. Este outro nível superior, e mais abstrato, totalizante e mental, ignora o funcionamento das células cerebrais; podemos pensar alegremente ignorando totalmente a ajuda que os neurônios nos prestam. Mas o fato de que o nível do hardware ser regulado pela lógica da bioquímica não entra em contradição com o fato de o nível do software ser ilógico ou emocional, regido por leis psicológicas mais complexas, do mesmo modo que um romance bem escrito, rigidamente fiel às regras da gramática, não impede que seus personagens possam se comportar de maneira totalmente irracional. Exigir que a vida se comporte do modo que pensamos ser o mais racionalmente correto é querer confundir a realidade com nossos desejos do que qeremos que ela seja. Implica em confundir os níveis de percepção. Parece não existir qualquer razão para que a mente não possa evoluir no tempo, embora não possa localizar-se no espaço (Davies). Desta forma, disciplinas psicológicas que se fundamentam em teorias como o behaviorismo e a psicanálise clássica precisam ser revistas, por se basearem na concepção clássica mecanicista de reação à forças mais ou menos independentes do indivíduo.

Uma área em que as limitações da abordagem reducionista fica muito evidente é o da neurobiologia. O sistema nervoso é um sistema integrativo, holísitco por excelência. Questões como as que envolvem a percepção, a memória e a inteligência não podem ser compreendidas apenas no âmbito de uma estrutura reducionista. Como disse Paul Weiss, eminente biólogo e ecologista, "não existe nenhum fenômeno em um sistema vivo que não seja molecular, mas tampouco existe um que seja unicamente molecular". Francis Crick, por sua vez, nos diz que "todo o trabalho biológico genético e molecular dos últimos sessenta anos pode ser considerado um longo interlúdio. (...) Agora que esse programa foi completado, temos de voltar ao princípio - de voltar aos problemas deixados para trás sem solução. Como um organismo ferido se regenera? Como é que o zigoto forma o organismo?".

Como muito bem expressou Sidney Brenner, "nos próximos 25 anos teremos de ensinar aos biólogos uma outra linguagem. (...) O que se almeja, penso eu, é resolver o problema fundamental da teoria de sistemas elaborados. (...) E aí nos deparamos com um grave problema de níveis: talvez seja um erro acreditar que toda a lógica está no nível molecular. Talvez seja preciso ir além dos mecanismos de relógio".(Capra, 1986, p.115)

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