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segunda-feira, 18 de março de 2019

Pastor (sic) favorável à posse de armas é criticado por defender o que Jesus Cristo rejeitaria, por Joaquim de Carvalho

Nos comentários contrários a Feliciano, que viralizam na internet, se lembra de um versículo bíblico (Mateus 5,9) que contém uma frase atribuída a Cristo, em que diz:


“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.


Feliciano se apresenta como o oposto do sentido desse frase, um dos pilares do Cristianismo, e seus discursos são um estímulo à violência.

Do DCM:

Marco Feliciano e o cristo dele
Na semana em que se lembrou um ano da morte de Marielle Franco, voltou a circular com força na internet a foto do pastor Marcos Feliciano em que aparece fazendo o gesto com arma na mão.

Feliciano, logo depois da morte de Marielle, deu uma declaração à rádio Jovem Pan em que, como pai de família, lamentava o assassinato da vereadora, mas dizia que ela não era líder de nada.

No mesmo programa, ele disse que esquerdista demora a morrer porque a bala de uma arma não encontra o cérebro da vítima, que é do “tamanho de uma ervilha”.

Nos comentários contrários a Feliciano, que viralizam na internet, se lembra de um versículo bíblico (Mateus 5,9) que contém uma frase atribuída a Cristo, em que diz:

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Feliciano se apresenta como o oposto do sentido desse frase, um dos pilares do Cristianismo, e seus discursos são um estímulo à violência.

Aliado da bancada da bala, ele declarou que é favorável ao porte de armas.

Um repórter do programa Morning Show (Jovem Pan), Cláudio Tognolli, perguntou a ele o que achava da medida proposta por Bolsonaro, “sendo o senhor um religioso, e o Cristianismo propugna a paz antes de mais nada”.

O pastor riu — hahahahahah — e começa a discorrer:

“O cidadão portar armas na rua, eu sou totalmente contrário. Mas um homem ter uma arma em casa, para poder defender a sua família, eu sou aberto a apoiar. E explico. O senhor citou há pouco aqui o massacre dos judeus. Como é que a pessoa consegue matar 6 milhões de pessoas? Tudo começou com o desarmamento.”

É o mesmo argumento de Olavo de Carvalho e de Jair Bolsonaro, lembrou o repórter.

“É a história”, respondeu o pastor. “Stálin fez isso, Hitler fez isso. É história”, acrescentou. E passou a atacar o jornalista:

“Quando eu te chamo de pseudo intelectual, é só por isso. Você não tem argumento. É história.”

É uma meia-verdade o que o pastor diz.

Hitler era absolutamente favorável ao porte de armas, mas desde que este fosse exclusivo daqueles que pensavam como ele, ou seja, a extrema direita alemã.

Na União Soviética sob Stálin, o acesso a armas era restrito.

Mas é uma tremenda ingenuidade imaginar que, se houvesse armas em poder dos cidadãos comuns, estes teriam condições de enfrentar o Exército Vermelho.

O argumento usado por Feliciano saiu da forja dos fabricantes de armas nos Estados Unidos, incorporado pela bancada da bala no Brasil, em que se faz presente a turma da Bíblia.

Feliciano serve a um senhor, o senhor das armas.

Joaquim de Carvalho
No DCM

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

The Intercept: ‘Nada é mais valioso no crime do que um tiozinho moscando com uma arma dentro de casa’


"Não importa o lado da lei que o sujeito está. Seja quem utiliza a arma para se defender ou para roubar, o peso do aço não é só físico. Ele te marca, de alguma forma, para a vida toda porque foi fabricada para uma única e exclusiva função: matar. Todo policial conhece a regra, evite sacar a arma. Nunca a saque, se possível for. Mas se sacou, é para matar."


TRABALHEI POR SETE anos como investigador da Polícia Civil de São Paulo. Quando ingressei, eu fazia o primeiro ano da faculdade de Direito, quer dizer, tentava, pois estava prestes a trancar o curso por absoluta falta de dinheiro. Não faltava comida porque tinha uma bolsa alimentação que me permitia comer no restaurante universitário duas vezes ao dia. Mas não tinha teto: morava de favor na república de amigos, dormia no chão, sobre um edredom. Logo que fui aprovado, minha renda subiu para R$ 1,1 mil e virei patrão – passei a comer quatro vezes ao dia e ter uma cama. Daí vem minha primeira gratidão à Polícia.
Os medos de alguém que anda desarmado não são nada perto daqueles de quem anda armado.
Da pessoa que eu era antes de andar armado e autorizado pelo Estado a invadir a vida do cidadão comum, quase nada sobrou. Essa transformação é a segunda bênção que recebi da corporação. Hoje, com o distanciamento necessário, percebo como os medos de alguém que anda desarmado não são nada perto daqueles de quem anda armado.
Não importa o lado da lei que o sujeito está. Seja quem utiliza a arma para se defender ou para roubar, o peso do aço não é só físico. Ele te marca, de alguma forma, para a vida toda porque foi fabricada para uma única e exclusiva função: matar. Todo policial conhece a regra, evite sacar a arma. Nunca a saque, se possível for. Mas se sacou, é para matar.

É sinal de inocência acreditar que o criminoso vá refugar ao se ver diante da boca do cano. Normalmente quem está no crime não tem nada a perder, nem mesmo a vida, que já lhe foi subtraída pela miséria. Nas ruas, o policial experiente sabe que, naquele átimo de tempo que antecede o disparo, o clique no gatilho não pode esperar pela misericórdia. Se não o fizer, acreditando que a simples presença de sua arma em punho convencerá o sujeito a desistir, ele próprio estará no destino de outro projétil.
O resultado do ato não é tão breve como essa decisão. Entre ser investigado em um inquérito, processado e julgado pelos sete do tribunal do júri, talvez o pior seja carregar a marca de “assassino” pelo resto da vida na folha de antecedentes. Indelével. O peso da arma sempre vai te lembrar o peso do cadáver que você fez nascer. Quando perceber, estará rodeado de mortos na lembrança. Não importa que sua responsabilidade seja somente sobre aquele primeiro. Todos os cadáveres são leais com seus pares.

Dois cidadãos de bem e suas armas

Enquanto eu estava na polícia, a atual Lei do Desarmamento ainda não estava em vigor. Posse e porte sem autorização legal eram tratados como sinônimos pelo Estado, sem distinção das gravidades das condutas. Embora já não fosse mera contravenção, na virada no milênio ela se tornou um delito de menor potencial ofensivo, cuja pena, em regra, não ultrapassava o pagamento de uma cesta básica. Era mais fácil comprar um trinta e oito cano curto do que um Chevette.
Os ocupantes de toda sorte de ofícios pretensamente “arriscados” estavam autorizados a comprá-las. Em um caso da época, um gerente de banco estava sendo investigado por disparos de arma de fogo. Segundo o histórico do boletim de ocorrência, irritado com a balbúrdia de crianças que jogavam bola em frente a sua casa, ele as ofendeu e as ameaçou.
O pai de uma delas não gostou da reprimenda. Ao ir tirar satisfações no portão da residência, o averiguado, dessa vez já armado, apareceu no quintal e efetuou de três a cinco tiros para o alto. A arma nunca foi encontrada, e o inquérito foi arquivado por ausência de provas. Segundo relatou durante o interrogatório, ela tinha sido furtada de dentro de sua casa há muito tempo.
O dono do animal morto não quis registro formal, por medo de que o próximo disparo fosse contra alguém da família.
Um senhor, que em seus tempos de glória havia sido fiscal de quarteirão, matou o cachorro do vizinho com apenas um tiro de 9mm. Ao atender pessoalmente a ocorrência, encontrei o bichinho com uma perfuração certeira entre os olhos e outra na barriga (esta última talvez tenha sido por onde o projétil saiu).
O dono do animal não quis nenhum registro formal, por medo de que o próximo disparo fosse contra alguém da família. Só nos acionou para garantir que não houvesse mais atentados naquela madrugada. Preferiu mudar-se de endereço com esposa e filhos.
Mesmo assim eu ousei abrir o boletim de ocorrência, mas a família negou a causa mortis do animal. Eu tentei convencer o delegado a me deixar solicitar uma mandado de busca para ser cumprido na casa do velho (por lei é ele quem está autorizado a entrar com o pedido no Judiciário; na prática, quem elabora o pedido é a pessoa que investiga, e não quem assina), mas virei chacota do DP quando sugeri a exumação do cadáver para comprovar o tipo do ferimento.
Por terem esses dois casos relativas repercussões no bairro, em São Paulo, ambas as casas foram alvo de ladrões. E, como o destino sempre me foi inclinado a sofisticadas reviravoltas, fui escalado para atendê-los. O gerente do banco listou o roubo de um televisor de 29 polegadas, máquina de escrever, alguns dólares e outros objetos que não me recordo.
Perguntei sobre a arma, ele desconversou, repetindo para mim que ela já havia sido roubada há alguns anos, mas não quis registrar o crime por falta de tempo. Como eu já não era mais um recrutinha, menti desonestamente:
— Fique tranquilo com os objetos. Nós já sabemos quem é o ladrão (disse aqui um apelido aterrorizante). E eu tenho uma pessoal desavença com esse vagabundo. Só vou terminar esse BO para ir até o barraco dele e prendê-lo. Aí ele vai nos dizer tudo o que levou do senhor, para quem vendeu, e estejam onde estiverem, eu vou recuperá-los (não houve mesóclises e todas as conjugações no plural, mas quero me lembrar assim).
Pude ver o estado de choque do homem e todo o raciocínio que criou: se ele continuasse com aquela historinha ou, se resolvesse me contar a verdade e no futuro o ladrão viesse a me dizer que tinha encontrado a arma naquela casa e naquele dia, ficaria provado que ele havia mentido para o Ministério Público e Judiciário, no processo anterior.
Já o velho, como não tinha nada registrado contra ele, foi objetivo: “levaram minha arma”. Apenas a arma, uma querida 765. Seu relato era tenro, descrevia as características da pistola com nítida saudade.
Viúvo, não via os filhos há anos. Arrombaram a janela da cozinha e com a mesma objetividade que agora me contava, ordenaram que entregasse o ferro. Só foi convencido após algumas coronhadas na boca, provadas com a parte superior da dentadura que trazia em pedaços em uma das mãos.

O homicídio é um crime democrático

Ainda tenho contato com mortes provocadas pelas armas dos cidadãos de bem. Como atualmente trabalho no Tribunal do Júri de São Paulo, vejo milhares de inquéritos que versam sobre homicídios ocorridos no trânsito. Nestes, são raros são os casos em que se descobre o autor dos disparos.
Mais comum ainda são as mortes ocorridas na intimidade dos lares. O homicídio é um crime democrático, qualquer um pode cometer. O pai de família cumpridor de seus deveres com a pátria, a criança curiosa, a tiazinha do Rivotril. Basta um momento de extremo estresse e ter o azar de encontrar uma arma de fogo ao alcance. Não precisa nem fazer mira. Basta apontar e… pou! O destino cumprirá sua promessa.
Permita-se discutir, brigar, ao lado de um revólver, e a desgraçada sorte de uma tragédia estará composta.
O calibre é sempre o mesmo, qualquer um do rol permitido pela legislação. Já o matador, quando é preso, segue uma regra: é um amador. Gostaria de vivenciar a realidade dos grandes criminosos sanguinários, assassinos por profissão, porém, esses se matam entre si, em uma legislação que se apresenta mais eficaz do que a do Estado, e a despeito dela. Mas, infelizmente, o acaso é uma triste realidade na vida do homem. Permita-se discutir, brigar, ao lado de um revólver, e a desgraçada sorte de uma tragédia estará composta.
Eu não prendi o ladrão das casas que lhes contei. Foi outro colega. Como ele conhecia a piada que corria a meu respeito, me chamou para conhecer o rapaz. Jovem, não mais velho do que eu. Perguntei onde estavam as armas, ele não quis dizer. Essa informação seria arrancada pela equipe que o investigou, e a ética policial me fez aprender que não era da minha conta o método que usariam. Só perguntei por falta de assunto. E a máquina de escrever?
— Não tinha máquina de escrever não, senhor. Eu só queria as armas. Nada é mais valioso no mundo do crime do que um tiozinho moscando com uma arma dentro de casa.




quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Promessa de campanha coisa nenhuma, decreto das armas é agrado para a indústria bélica. Por Marcos Sacramento


"Juntas, a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) doaram aos comitês do Democratas, PP, PMDB, PSC, PTB e Solidariedade. Entre os políticos ajudados estava Onyx Lorenzoni, atual chefe da Casa Civil."

Do DCM:

Promessa de campanha coisa nenhuma, decreto das armas é agrado para a indústria bélica. Por Sacramento

 


Bolsonaro e Salesio Nuhs (Foto: Reprodução/Facebook)

Por mais que os entusiastas de revólveres, pistolas e carabinas comemorem a assinatura do decreto de Bolsonaro que facilita a posse de armas de fogo, não foi por eles que o presidente agiu. Em vez de promessa de campanha, a medida foi um acerto de contas com aqueles que ajudaram a financiar sua escalada rumo ao Palácio do Planalto.
Nas eleições estaduais e federais de 2014, última com doações de empresas para campanhas políticas, as duas principais indústrias de armas leves do país doaram cerca de R$ 1,9 milhão a candidatos e partidos.
Juntas, a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) doaram aos comitês do Democratas, PP, PMDB, PSC, PTB e Solidariedade. Entre os políticos ajudados estava Onyx Lorenzoni, atual chefe da Casa Civil.
Em 2014, quando disputou para deputado federal, Onyx recebeu R$ 50 mil de cada uma das empresas.
Nas prestações de contas de Jair Bolsonaro e dos filhos Eduardo e Flávio, que no pleito disputaram os cargos de deputado federal e estadual, não há doações diretas vindas da Taurus ou da CBC.
Porém, os partidos em que estavam na época, PP e PSC, receberam dinheiro das duas empresas. Como parte das doações para as campanhas desses candidatos vieram dos diretórios dos partidos, é possível que eles também tenham recebido uma parcela dos quase R$ 2 milhões doados pela dupla Taurus/CBC.
O valor parece uma espoleta quando comparado às doações bombásticas declaradas pela JBS, que ultrapassaram R$ 360 milhões. Isso faz das doações da Taurus/CBC um investimento formidável, porque além do fato de que a cruzada dos Bolsonaros em defesa das armas é uma publicidade gratuita, o atual decreto abre excelentes flancos de negócios.
Uma matéria da Deutsche Welle publicada em novembro do ano passado dá noção da euforia do mercado de armas leves diante da expectativa de facilitação da posse de armas prometida por Bolsonaro.
De acordo com o diretor de um clube de tiro citado na matéria, a procura por inscrições acompanhou o crescimento do então candidato no cenário político. Ele informou à DW que havia mais de 300 fichas pendentes de aspirantes a sócios.
Mais sócios representam mais armas no mercado, que levam a despesas com projéteis e aumentam os lucros da Taurus e da CBC, respectivamente as líderes na fabricação e comercialização de armas e munições no Brasil.
A matéria destaca um levantamento da ONG Small Arms Survey que revela o número de armas por habitantes no país e mostra o potencial de crescimento do mercado por aqui. Enquanto no Brasil são 8,8 armas para cada 100 habitantes, nos Estados Unidos são 123 armas para o mesmo grupo de civis.
Estes números representam um mercado fascinante para a Taurus, cujos principais clientes estão no mercado externo – o Brasil representa menos de 20% do faturamento da empresa, segundo a DW.
Não por acaso, as ações da Taurus se valorizaram mais de 800% nos últimos 12 meses, conforme reportagem do Estadão publicada um dia antes da assinatura do decreto.
Também não dá para acreditar que foi apenas a afinidade ideológica que levou Salesio Nuhs, vice- presidente da CBC, que vem a ser a principal acionista da Taurus, à cerimônia de posse de Bolsonaro.
Embora muitos “cidadãos de bem” festejem a possibilidade de ter uma pistola no criado mudo para ficarem seguros enquanto dormem, os donos da festa são os fabricantes de armas, que têm no decreto a oportunidade concreta de ganhar muito dinheiro.

sábado, 7 de julho de 2018

Bob Fernandes: Dallagnol ofende Supremo, bancada da Bancada da Bíblia, do Boi e da Bala proibide alimentos orgânicos em favor dos envenenados por agrotóxiicos e as contpinuas imbeclidades de um certo candidato de extrema-dr eita....



Apoio das bancadas do boi -ruralistas-, da bala e da bíblia e outra comissão aprovou: uso de mais agrotóxicos nos alimentos. De pesticidas proibidos mundo afora.

E Bolsonaro quer mais 10 ministros no Supremo. São 11, seriam 21. Bolsonaro diz que indicaria "10 isentos". Vindo de quem vem, o desejo revela intenção perigosa.

O mesmo Bolsonaro já disse ser a favor de dar um "golpe". De uma "guerra civil" e de se "matar uns 30 mil, a começar por Fernando Henrique".

Do Canal do Jornal da TV Gazeta:


Procurador ofende Supremo. Comida Envenenada por desejo dos ruralistas e das bancadas da Bala e da Bíblia e Bolsonaro... Como chegamaos a isso?


Comissão na Câmara aprovou: proibido vender alimentos orgânicos em supermercados ou varejo. Salvo se vencida burocracia estabelecida pela bancada do boi. . Apoio das bancadas do boi -ruralistas-, da bala e da bíblia e outra comissão aprovou: uso de mais agrotóxicos nos alimentos. De pesticidas proibidos mundo afora. . E Bolsonaro quer mais 10 ministros no Supremo. São 11, seriam 21. Bolsonaro diz que indicaria "10 isentos". Vindo de quem vem, o desejo revela intenção perigosa. . O mesmo Bolsonaro já disse ser a favor de dar um "golpe". De uma "guerra civil" e de se "matar uns 30 mil, a começar por Fernando Henrique". . Em Natal, Bolsonaro disse: "A Amazônia não é nossa, aquilo é vital para o mundo. (...) É com muita tristeza que digo isso, mas é uma realidade". . Deltan Dallgnol acusa: "Toffoli cancela cautelares do seu ex-chefe". Referência a uma medida cautelar relacionada a José Dirceu. . Dallagnol disse isso no Twitter... . ...Como se Toffoli não fosse ministro do Supremo. E como se ele, Dallagnol, fosse um boçal de rede social e não um procurador da República. . Monique Cheker, procuradora, tuitou: "Os caras ganham por fora com companheiros que beneficiam". E Monica Bergamo publicou na Folha: . -Procuradora (Monique) será investigada a pedido de Toffoli e Gilmar Mendes. . Depois da repercussão a procuradora disse não ter insinuado que ministros do Supremo "ganham por fora". . Como chegamos a esse estágio de decomposição? . Por 11 anos o Brasil debateu corrupção. Mas derrubaram uma presidente acusando-a de "pedaladas", não de ser corrupta. . Quem derrubou? Bandos chefiados por Eduardo Cunha e seus "milhões de Cunhas". Chefiados por Geddéis e Chefes mais graduados. . Presidente da República considerado ruim se tira nas urnas, não com manchetes, helicópteros e numa Farsa. . Que a Farsa não termine em Tragédia. Que não se entregue o país a fascistas carregados de ressentimento e ódio... . ...E, antes de tudo, portadores de ignorância interminável, estratosférica. Exibida diariamente, com grande orgulho.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Bob Fernandes comenta: Enquanto a seleção vence, os ruralistas pró-temer enfiam veneno na sua comida


"...Numa comissão da Câmara a bancada ruralista aprovou o que chama "modernização" na lei de agrotóxicos.
Aprovou mesmo foi o uso de pesticidas proibidos nos Estados Unidos e Europa. Mais veneno cancerígeno na comida que chega à sua mesa.
Quando se fala em bancada ruralista, ou do boi, inevitável a companhia: bancadas da bala e da bíblia. Atacam em leque, como o Brasil na Copa.
É imprescindível radiografa-las. O que pensam, querem, fazem as bancadas BBB? "

Do canal do Jornal da TV Gazeta



Bob Fernandes: Enquanto a seleção vence, ruralistas enfiam veneno na sua comida


O Brasil passou pelo México, 2 a 0. Nas quartas de final vai enfrentar a Bélgica. Enquanto isso...
...Numa comissão da Câmara a bancada ruralista aprovou o que chama "modernização" na lei de agrotóxicos.
Aprovou mesmo foi o uso de pesticidas proibidos nos Estados Unidos e Europa. Mais veneno cancerígeno na comida que chega à sua mesa.
Quando se fala em bancada ruralista, ou do boi, inevitável a companhia: bancadas da bala e da bíblia. Atacam em leque, como o Brasil na Copa.
É imprescindível radiografa-las. O que pensam, querem, fazem as bancadas BBB?
Fato: naquela grotesca noitada do impeachment estavam juntas, coesas. Estavam, estão com o desmoralizado Temer. E cobram a conta.
Só entre emendas e renúncias já levaram mais de R$ 32 bilhões para manter Temer no cargo. E, mantido, vender pedaços do Brasil nesse clima de vale-tudo.
A ponto do ministro Lewandowski intervir com exótica liminar no Supremo: para vender o contrôle de estatais o congresso terá que autorizar antes.
Eletrobras, Caixa, nacos da Petrobras são pechinchas da vez. Mas as bancadas BBB e aliados querem mais. Têm candidatos à presidência e ideologia preferenciais.
Não por acaso, um fascista o mais destacado dos seus candidatos.
Que pode até não ganhar, mas o arrastar mais 20% de assemelhados para o Congresso significa mais veneno, mais bala, mais obscurantismo.
Candidatos desse campo falam em "armar o Brasil". Como se o problema do país fosse falta e não sobra de armas. E de assassinatos, mais de 60 mil/ ano.
O que querem mesmo é armar grupos já poderosos. Que já praticam violência e pregam mais violência.
Quando BBBs falam em "escola sem partido" escancaram o que buscam: rebaixar Educação e educadores ao seu nível, rasteiro. Impor limites à liberdade de pensar, debater.
Já ocupam vastíssimos espaços nas TVs, rádios. E querem ampliar o obscurantismo, igualar todos aos seus.
Basta ver quem são, o que pensam, como votam e o que fazem os BBBs.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

GATOS e MONSTROS, de Milton Hatoum


Resultado de imagem para hipocrisia golpista


Às cinco e vinte da manhã, acendi a luz e comecei a limpar o banheiro dos dois irmãos. O mais magro é bagunceiro e leva jeito de destemido, mas se assusta até com uma sombra; Temis, a irmã dele, é mais quieta e, em certos momentos, se entrega à reflexão. Ambos mantêm uma postura elegante, altiva, sem falar na conduta ética, de fazer inveja nestes tempos...

Antes de jogar os dejetos nas folhas de um jornal de junho, dei uma olhada nas fotografias e manchetes. E o que vejo, ainda em jejum? Uma imagem de rostos monstruosos: um grupo de machos governamentais, jovens e velhos, uns oito ou nove velhacos, indiciados ou investigados. Ao lado desses homúnculos, uma chamada na capa: O presidente sancionou uma Medida Provisória que reduz em quase 40% a área da Floresta Nacional do Jamanxim (PA). São os grandes grileiros, em conluio com certos políticos do Pará, do Mato Grosso...

Quando dizem que vão fiscalizar uma área florestal liberada para extração de minérios ou plantação de soja, só um ingênuo é capaz de acreditar nessa mentira deslavada. Não fiscalizam nem mesmo o Parque Nacional, ali perto de Sobradinho, nas barbas do Planalto...

Por que somos tão passivos diante de tantos crimes? Onde estão as panelas de antanho?

Perguntas que faço a Temis, enquanto junto com uma pá a areia suja e cubro a imagem dos machos meliantes, todos eles mais empedernidos que os dejetos dos felinos, e mais rapaces que hienas, com a devida vênia a esses devoradores de cadáveres.

Embrulho tudo e escuto um miado melodioso: é um pedido para que eu abra a janela, pois está amanhecendo, e minha felina de pelagem cinza é crepuscular. Sei que essa bela palavra é batida, mas não encontro outra para expressar a atração de Temis pela primeira luz da manhã e a última da tarde, quando ela contempla com olhar parcimonioso, e não raramente sonhador, o mundo lá fora.
Ali embaixo se reúnem os primeiros operários que trabalham numa torre de concreto, alguns se benzem ao passar diante da igreja, ainda fechada. À direita, quase na esquina, um rapaz abre a banca de revistas e jornais e pendura as manchetes das iniquidades do Brasil: “país de caminhos fechados”, como escreveu o poeta.

Temis vê a faxineira do prédio na calçada, olha para mim e pisca: é o afeto felino, tão puro e espontâneo, que rima com cristalino. Nas raras andanças pelo térreo, a gata conversa com a faxineira sobre a vida, sempre mais dura e perigosa para milhares de mulheres que acordam às cinco da matina, rezam para não ser assaltadas e atravessam a cidade para ganhar o pão de cada dia.

No fim da tarde, a felina gosta de escutar o Magnificat e ver os noivos radiantes sob uma chuva de arroz na porta da igreja, antes de rumarem à primeira ou milésima noite. Ela não sai da janela, pois sabe que ainda ouvirá um réquiem na missa à memória de uma pessoa que passou para o outro lado do espelho.

Amanhã, bem cedinho, vou acender a luz e despejar os dejetos nos rostos dos farsantes monstruosos. Depois, no crepúsculo do dia e da noite, vou acompanhar o olhar da felina, que salta do mundo real ao imaginário, vai da tristeza à alegria, da esperança ao desencanto, numa onda de emoções que também me comove.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Sem Marx nós não entendemos o mundo em que vivemos

Para Marcelo Braz, professor da UFRJ, o golpe no Brasil é uma lição didática sobre os limites da democracia burguesa e da sociedade capitalista


Recolocar o Brasil na rota de influência e dominação dos Estados Unidos e criar condições para acelerar medidas no campo econômico que possibilitem novas formas de ampliação da extração de valor. Estes são os principais objetivos da atual agenda política manejada pelo governo interino de Michel Temer (PMDB), de acordo com o professor da UFRJ Marcelo Braz. “É preciso construir unidade no plano tático entre os setores progressistas para conter o processo feroz de contrarreformas profundas que estão sendo colocadas em pauta”, comenta.

Marcelo Braz é pós-doutor em Economia pela Universidade de Lisboa, doutor em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor e vice-diretor da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ. É membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atua em parceria com movimentos populares, como o MST, sendo professor e colaborador da Escola Nacional Florestan Fernandes.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Jornalistas Livres e ao Hemisferio Izquierdo, Braz fala do golpe em curso no país, a partir da análise da estrutura política do capitalismo brasileiro, condensado no Estado e em suas instituições, e de elementos históricos marcados pelo interesse das classes dominantes. “Sempre que os níveis de emancipação social avançam, a burguesia trata de fazê-los recuar”, avalia.

Autor e coautor de diversas publicações, Braz se destaca em temas relacionados à economia política, questão social, capitalismo contemporâneo, socialismo e marxismo. Em relação aos métodos de análise do mundo contemporâneo, afirma: “Só Marx não dá conta da complexidade do mundo em que vivemos, mas sem Marx nós não entendemos o mundo em que vivemos”.

Confira a entrevista.

 O senhor publicou recentemente um artigo intitulado “Um golpe nas ilusões democráticas”, analisando a atual conjuntura política no Brasil a partir de elementos históricos e estruturais. Gostaríamos que retomasse as ideias centrais desse texto, sinalizando principalmente aquilo que entende por “ilusões democráticas”.

Marcelo Braz  —  O ponto de partida desta análise foi o desfecho — que ainda não se completou — que destituiu a presidente eleita Dilma Rousseff e teve seu ápice, do ponto de vista institucional, na votação da Câmara dos Deputados no dia 17 de abril de 2016. Digo do ponto de vista institucional, porque do ponto de vista das classes que construíram as condições para o golpe isso vai além das instituições. Mas a efeméride do dia 17 de abril foi um momento que apresentou ao Brasil e ao mundo o apodrecimento do sistema representativo brasileiro e o nível da indigência moral e intelectual dos parlamentares reunidos naquele show de horrores. Só que desta vez o show foi televisionado. E, lamentavelmente, esta data que marca o Massacre de Eldorado dos Carajás, em que dezenove companheiros sem-terra foram assassinados [no Pará, em 1996], entrará novamente para a história.

“Bancada BBBBB”

Aqueles parlamentares, que representam interesses de classe muito concretos, nada representam o interesse do povo brasileiro. Isso não é forçar a análise, pois sabemos que existem muitas formas parlamentares que podem representar algumas demandas dos trabalhadores. Mas aquela votação serviu, didaticamente, para mostrar que o sistema político condensado no Congresso Nacional — não apenas na Câmara dos Deputados, mas também no Senado Federal — envelheceu completamente. Os parlamentares que lá estão não representam os interesses de Deus e da família — como disseram durante a votação —, e nem os interesses da cidadezinha do interior, por mais que eles possam representar algumas demandas locais. O domínio da Câmara dos Deputados, como já dizem há algum tempo, é o domínio da ‘bancada BBB’, do boi, da bala e da bíblia. E eu diria que é a ‘bancada BBBBB’, porque é a bancada ruralista, é a bancada da indústria de armas, é a bancada dos evangélicos conservadores — porque nem todos são conservadores —, é a bancada dos bancos e instituições financeiras e a bancada da cartolagem do futebol ou a bancada da bola, que inclusive conspirou recentemente contra a CPI do futebol.

Elementos estruturais e históricos

De forma mais precisa, o dia 17 de abril de 2016 entra para a história como um momento em que se deu o desfecho principal do desencadeamento dos fatos conjunturais que guardam as suas ligações com elementos estruturais e com os elementos históricos da nossa realidade. Portanto, aquilo não foi ‘um raio que caiu de um céu sereno’ [referência à obra Napoleón le petit, de Vitor Hugo, sobre o golpe de Estado de Luis Bonaparte, na França, em 1851]. Por um lado, o que nós vimos naquele momento representa, num plano imediato conjuntural, a falência da democracia brasileira. Do ponto de vista estrutural representa até onde vão os interesses das classes dominantes e como elas podem manipular um sistema político apodrecido, mas que lhes é muito útil. O que se apresenta é um comportamento das classes dominantes brasileiras profundamente antidemocrático, que sempre colocou profundos óbices a qualquer conquista democrática mais significativa. Nem digo sobre conquistas que pudessem levar à socialização do poder político, porque isso nós sabemos que só é possível com o derrube do Estado. Mas sempre que os níveis de emancipação social avançam, a burguesia trata de fazê-los recuar.

Recuos democráticos

Se pensarmos a democracia nas camadas política, social e econômica — esta última jamais alcançada no âmbito da sociedade capitalista — veremos que a sociedade capitalista pode comportar alguns níveis de democracia política e de democracia social. Mas todas as vezes em que a sociedade brasileira- evidentemente que eu estou falando da luta dos trabalhadores- fez avançar algumas formas de democracia política e de democracia social, as respostas das classes dominantes e das outras classes à ela associada, foram golpes, instauração de processos abertamente ditatoriais- e até mesmo fascistas- ou a introdução de profundos recuos democráticos.

Mas não podemos comparar o recuo democrático da nossa pobre democracia, que se empobrece mais ainda com o que estamos vivendo hoje, com o recuo democrático mais profundo que configurou o golpe de 1964. Em 1964, no período pré-golpe, o movimento ia ao sentido de reformas de fato estruturais, de reformas de base, como a reforma agrária, a reforma urbana e a reforma financeira. A esquerda estava se batendo por reformas de base de caráter estrutural. O que nós assistimos agora, mais do que em 1964 — sabemos que a história não é evolutiva nem linear — é uma estrutura política do capitalismo brasileiro, condensada no Estado e nas suas diversas instituições burguesas, muito pouco permeável às demandas sociais dos trabalhadores. Ela se mostra hoje mais resistente a atender algumas demandas no nível da democracia política e da democracia social dos trabalhadores. Isso do ponto de vista de algumas conquistas que os trabalhadores podem ter nos limites da ordem burguesa. O que significa dizer que nós precisamos fazer um balanço profundo do significado do que aí está exposto para ver que tipos de ações no plano imediato devem ser colocadas e que tipo de ações em médio prazo podem ser pensadas.

Tirar Dilma e colocar Temer é colocar um governo ‘puro sangue’ da burguesia, isto é, que representa por inteiro os interesses da burguesia nos seus seguimentos mais avançados, incluindo não só, mas principalmente, o capital financeiro. Porque um dos significados desse golpe- do qual nós somos, lamentavelmente, contemporâneos- é destravar os obstáculos que impedem a implementação de uma agenda profundamente regressiva.

Quais seriam os objetivos mais concretos dessa “agenda profundamente regressiva”?

A agenda do golpe atende três objetivos principais. O primeiro é recolocar o Brasil na rota da influência e da dominação preferencial dos Estados Unidos. Isso não significa que os Estados Unidos tenha deixado de exercer o seu imperialismo entre nós. Mas sabemos que os últimos dez ou quinze anos, por conta de governos com colorações ideológicas muito distintas, colocaram obstáculos para a manutenção da zona de influência preferencial dominada pelos Estados Unidos na América. Esses governos apresentaram desde uma inclinação fortemente anti-imperialista, como o de Hugo Chavez, na Venezuela, até um reformismo fraco como o do PT, no Brasil. Passando dessas extremidades, também tivemos os governos dos Kirchner, na Argentina, de Rafael Correa, no Equador e de Evo Morales, na Bolívia.

O segundo plano é criar condições para acelerar medidas no campo econômico que aumentem as possibilidades de novas formas de extração de mais valia, seja ela absoluta ou relativa. Evidentemente que isso significa, do ponto de vista da mais valia relativa, aumentar a produtividade média do trabalho, elevar os investimentos tecnológicos. Se quiserem saber mais, basta ler o que Delfim Neto — este que é o último signatário vivo do AI5 — tem dito com muita frequência em suas colunas. Ele diz que é muito baixa a produtividade média do trabalho no Brasil e que é preciso um incremento dessa produtividade. Isso coloca o terceiro objetivo da agenda regressiva — que se casa com o segundo, porque auxilia nas condições de se criar novas formas de mais valia absoluta — que é promover um desmonte do máximo que as forças conservadoras soldadas nesse governo conseguirem. Significa promover um desmonte no pouco do edifício dos direitos sociais e trabalhistas que foram conquistados no Brasil.

 Do ponto de vista da extração de mais valia, quais são as formas de efetivar esse objetivo?

 Uma das formas é realizando tarefas em atraso. São as tarefas que Fernando Henrique Cardoso anunciou lá atrás, mas que o vigor da luta em oposição ao neoliberalismo dos anos 1990 — por meio de atores que encabeçaram essa luta, inclusive e fundamentalmente o PT, naquela época, entre outros, como o movimento sindical, CUT etc. — conseguiu conter. Como ele [Fernando Henrique] mesmo disse no discurso de posse, ‘um dos objetivos do meu governo é superar a Era Vargas’. Trocando em miúdos, o que ele quis dizer com ‘superar a Era Vargas’ não era superar o Estado burguês que Vargas construiu, mas desmontar os direitos trabalhistas condensados na CLT. E não apenas os direitos trabalhistas, mas também os direitos sociais, que avançaram o tanto quanto foi possível no ordenamento constitucional de 1988. Mas os setores burgueses diversos acham que a conta está muito cara. Nesse sentido, até o Bolsa Família está sendo atacado pelo novo Ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra. Ele está dizendo que o programa precisa ser mais focal, que deve atingir apenas cinco por cento dos mais pobres entre os mais pobres. Isso significa, no dizer desse cidadão, beneficiar apenas dez milhões de brasileiros contra os sessenta milhões que hoje o Bolsa Família alcança. Não preciso dizer o que a contribuição do Bolsa Família significa em termos monetários…

Ataque a direitos constitucionais

Mas não é o Bolsa Família o objetivo principal, e sim o ataque à previdência, que não é distributiva, é contributiva, mas que arrecada e constitui o fundo público dos trabalhadores. No sentido não só de privatizar parte dela, criando um mercado de previdência privada, mas no sentido de um avanço para esse fundo público maior do que aquele que se faz hoje. E não é só a previdência, é também a assistência social. Veremos o avanço contra alguns direitos constitucionais como o Benefício de Prestação Continuada e, sobretudo, o avanço contra a saúde, este sim, um direito universal constituído no SUS, que é um sistema extremamente avançado, modelar, um dos mais avançados do mundo e que, evidentemente, não pode funcionar, pois tem um subfinanciamento crônico. A meu ver, é necessário construir, no plano imediato e tático, uma ampla frente dos segmentos mais progressistas que resistam a esses recuos democráticos, porque o golpe do dia 17 de abril foi um recuo democrático, que significa um atalho para mais recuos democráticos.

 Nesse sentido, quais os desafios da esquerda?

 Eu diria que, no plano imediato, se a interrupção do mandato da presidente Dilma se confirmar entre agosto e setembro, é preciso construir alguma unidade no plano tático entre os setores progressistas, entre os setores variados da esquerda brasileira, entre os diversos movimentos sociais, entre os diversos partidos que levantam a bandeira dos trabalhadores brasileiros em suas diversas franjas, para conter o processo feroz de contrarreformas profundas que esse governo já está colocando em pauta.

No meu texto [Um golpe nas ilusões democráticas] eu atento para o ‘discurso de posse’ — entre aspas, porque não é posse e sim um governo interino —, em que Michel Temer diz com todas as palavras tudo aquilo que está posto no documento do PMDB, ‘Uma ponte para o Futuro’. Na realidade, é uma ponte para a barbárie, sabemos. As duas linhas desse governo, diz Michel Temer, serão ‘ordem e progresso, que estão na nossa bandeira’ e ‘privatizar tudo o que for possível’. Nós sabemos que ‘ordem’ significa porrada nos trabalhadores e ‘progresso’ significa liberdade ao capital. Então, a meu ver essa unidade de resistência é mais do que necessária.

Campanha contra a esquerda

Foi realizada uma campanha difamatória contra a esquerda, não apenas no Congresso Nacional, mas organizada pelo maior partido organizado da classe dominante brasileira, que é o partido da mídia, no sentido de descredibilizar inteiramente não só a esquerda brasileira, mas a atividade política como um todo. O ataque preferencial é ao PT e a tentativa de derrotar o PT — que antes de qualquer coisa é uma derrota da estratégia do PT — respinga em toda a esquerda. Portanto, hipoteca toda a esquerda e traz problemas para todos.

A unidade no plano tático é necessária não apenas para resistir ao rolo compressor que vem por aí e que está se consolidando e ao linchamento moral do PT, mas ao ataque efetivo que já se constitui contra o MST, com perseguições, encarceramento e investigações que certamente estão sendo feitas nos sistemas de inteligência militar do governo. Agora o governo interino recria o Gabinete de Segurança Institucional e coloca ali um ex-general que foi serviçal da ditadura [Sérgio Etchegoyen], filho de um general que serviu a ditadura. Então, é para resistir aos ataques à classe trabalhadora, às nossas organizações, é para fazer denúncias políticas, é para poder fazer campanhas e denunciar as prisões e pressionar pela libertação de companheiros como José Valdir, Luiz Batista [do MST], é para resistir aos ataques aos direitos sociais e democráticos e para resistir contra as privatizações que estão sendo anunciadas.

 Diversas organizações, que apresentam estratégias distintas em médio e longo prazo, têm constituído, no plano tático, frentes de resistência ao golpe. Como o senhor vê isso?

 Não quero entrar na análise específica das frentes, mas acredito que possa existir algo que dê liga a uma ‘frente das frentes’, a uma frente ampla, democrática e unida. Não estou sugerindo este nome — foi só algo que me veio à cabeça —, porque inclusive o nome teria que ser muito amplo para comportar todas essas frentes. A meu ver essa construção só pode ter futuro se caminhar na linha da resistência no plano tático contra os recuos democráticos que esse governo certamente implementará. Ele conta com o apoio da mídia, e, no Congresso Nacional com uma hegemonia muito forte, de maneira que o que está em questão não é apenas destravar os obstáculos para poder criar condições para acelerar os recuos democráticos, implementar contrarreformas que atacam os trabalhadores e os direitos, mas também está em jogo a própria organizações dos trabalhadores.

Não sei se o ‘Fora Temer’ unifica. Como palavra de ordem já vimos que unifica, mas é preciso dar conteúdo maior a isso. Pois até mesmo o ‘Fora Temer’ interfere mais no horizonte estratégico do que nas táticas mais de resistência que são necessárias agora. Então, eu creio que, sem baluartismos, com a humildade necessária da autocrítica, o que pode ser feito é a construção de uma frente ampla e unida que lute contra os recuos democráticos que vem por aí. Isso não significa um rebaixamento do horizonte estratégico de nenhuma organização. Esta é uma opinião puramente pessoal.

 O senhor é um pesquisador de autores clássicos, como Marx, e defende a atualização de suas teorias. Aproveitando o gancho da análise, poderia citar três elementos da obra de Marx que nos ajudem a compreender o mundo contemporâneo?

 Os três elementos, seguramente, são o método histórico dialético, a teoria do valor — trabalho e a teoria da revolução. Sendo fiéis à obra de Marx, a partir da compreensão de que é preciso estudar o tempo todo o método histórico dialético, a tarefa que se coloca para nós é realizar uma análise teórica que atualize Marx como já há diversas análises teóricas que analisaram Marx durante o século XX. Essa tarefa é dificílima, mas urgente, necessária e permanente. No que diz respeito a esses três pilares, a teoria do valor é o aspecto que mais requer e exige análises teóricas contemporâneas, porque as análises teóricas equivocadas nesse aspecto vão trazer problemas e vão turvar exatamente a teoria da revolução. Teremos, por exemplo, dificuldade de identificar o sujeito da revolução se não tivermos uma análise contemporânea do capitalismo e das novas formas de extração do valor. Por último, é claro que precisamos atualizar a teoria da revolução, mas com base numa atualização da teoria do valor. E essa atualização não é nenhuma revisão de Marx, mas é enxergar a vitalidade das categorias marxianas. É ver como elas sobrevivem ao tempo histórico, como podem iluminar nossa realidade atual e como podem nos ajudar a entender as formas novas de extração de valor. Que fique claro, isso não é uma revisão. E para finalizar, aquilo que eu sempre digo, é que temos que nos convencer de que só Marx não dá conta da complexidade do mundo em que vivemos, mas sem Marx nós não entendemos o mundo em que vivemos.

Camilla Hoshinodo Brasil de Fato, Leandro Taquesdos Jornalistas Livres e Christian Quinterodo Hemisferio Izquierdo