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domingo, 12 de janeiro de 2014

O Fim do Materialismo e a emergência do espiritual e do psíquico

O novo livro do Pesquisador Psi e escritor Charles T. Tart demonstra os avanços sutis na área das pesquisas psíquicas dos últimos anos e o quão infantil é a visão de mundo mecanicista ainda imperante.


Charles T. Tart, nascido em 1937, é um reconhecido psicólogo e engenheiro norte-americano que, por suas pesquisas, tornou-se a maior autoridade viva sobre a questão da consciência humana e sobre o alcance da Parapsicologia. Seus artigos e livros são considerados alguns dos melhores em ambas as áreas e seu trabalho ajudou a desenvolver a chamada Psicologia Transpessoal. Dois de seus livros tornaram-se textos clássicos: Altered States of Consciousness, de 1969,  e  Transpersonal Psychologies, de 1975.

                Ao lado de Lawrence LeShan, Stanislav Grof, D. Scott Rogo e Sam Parnia, Tart (foto) constitui em um dos autores indispensáveis e mais sérias no controvertido e ainda pouco conhecido, como se deve, universo da Parapsicologia. 
De fato, sua autoridade é tão grande que pretensos parapsicólogos de gabinete, à exemplo do folclórico Pe. Quevedo, o citam constantemente, muito embora Tart tenha desmentido as alegações de Quevedo sobre supostas afirmações nunca feitas pelo pesquisador americano sobre os experimentos de Rhine na universidade de Duke (e que, segundo a fantasia de Quevedo, teriam provocados distúrbios mentais em voluntários). O desmentido foi feito em carta ao pesquisador brasileiro Wellington Zangari que a publicou por meio de site da PUCSP (clique aqui para ler), aproveitando a mesma para por abaixo as pretensões quevedianas a um auto-reconhecimento internacional que não existe.

                O novo livro deste pesquisador, O Fim do Materialismo, constitui-se em um compêndio de pesquisas efetuadas nas últimas cinco décadas sobre a realidade dos fenômenos de PES (Percepção Extra-Sensorial) e outros, incluindo casos de comunicação com mortos, que apontam para, ao menos, as limitações canhestras da visão de mundo mecanicista ainda atuante e ao cientificismo puramente reducionista adotado por parte da comunidade cinetífica e leiga.  Tart, em seu livro, discorre sobre pesquisas discretas, mas muito bem feitas, ocorridas em dezenas de universidades dos Estados Unidos e em outros países, demonstrando que há no homem algo mais que um feixe de impulsos de natureza estritamente auto-conservativa, de natureza sexual e/ou agressiva. 

               O texto faz uma defesa convincente das limitações paradigmáticas, propondo a união possível da ciência com o estudo psi, e mesmo da espiritualidade, sem cair no ridículo do misticismo ou do teísmo convencional, as numa forma racional e vivencial de expansão dos limites paradigmáticos que, de resto, é corolário próprio da Psicologia Transpessoal. Portanto, a leitura de “O Fim do Materialismo” é algo que se torna obrigatório às mentes inteligentes e curiosas que não se deixam acomodar nem pela proposta materialista e muito menos se sente confortável diante da ingenuidade do pensamento religioso ainda existente.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Lançado no Brasil, completo, o Tratado de Metapsíquica, de Charles Richet





Charles Robert Richet (1850-1935), foi um cientista, pesquisador e filósofo francês, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1913 por sua descoberta da mecânica das reações alérgicas (choque anafilático). Também foi um dos descobridores da soroterapia e do mecanismo da homeostase térmica dos mamíferos. Mas também foi um dos mais sérios pesquisadores dos chamados fenômenos psíquicos (hoje chamados, apesar do desgaste do termo por uma mídia superficial, de paranormais).

Sobre esta área, Richet dedicou mais de cinquenta anos de estudos exaustivos.  Usou o quanto pode o mais rígido método de controle científico e, apesar de sua tendência a um pensamento mecanicista, foi suficientemente sincero para defender a realidade dos fenômenos de telepatia, psicocinesia (atuação à distância da mente sobre a matéria) e da ectoplasmia (termo cunhado por ele para denominar a substância que certos médiuns exsudavam apara dar formas a fantasmas).

Um levantamento de suas pesquisas e comprovações veio à lume nos anos 1920 com a publicação de seu Traité de Metapsychique (Tratado de Metapsíquica). Sua proficiência e seriedade na ciência e nas pesquisas psíquicas pode ser avaliada não só pelo Prêmio Nobel conquistado, mas por anos no ensino de Fisiologia e da Medicina na Sorbonne, em Paris, e por ter sido presidente do Instituto Metapsíquico Internacional, em Paris, e da Society for Psychical Research, de Londres.

  Agora, o Tratado de Metapsíquica é lançado integralmente no Brasil, em dois volumes, pela Editora do Conhecimento. Anteriormente, a editora Lake havia publicado apenas dois terços do texto da obra de Richet, recentemente fazendo o mesmo em uma nova edição. O público estudioso brasileiro, agora, pode ter em mãos integralmente este clássico indispensável ao estudo das faculdades da alma humana. Obra de um conteúdo extraordinário, cobre e discute os testes e experimentos da época áurea das pesquisas psíquicas.
  Este livro, um clássico, deve ser lido junto com As Forças Naturais Desconhecidas (Ed. do Conhecimento) A Morte e Seu Mistério, de Camille Flammarion (3 volumes, editora da Feb), bem como com Pesquisas sobre a Mediunidade, de Gabriel Delanne (Editora do Conhecimento),  não ficando em nada a dever aos estudos atuais de um Charles T. Tart, cujo livro O Fim do Materialismo (editora Cultrix) também se faz um complemento, recente, ao estudo da questão das faculdades psíquicas e da sobrevivência, ou das análises epistêmicas de um Dean Radin no livro Mentes Interligadas (Editora Aleph), sobre a resistência dos cientistas tradicionais à realidade dos fenômenos Psi.

Está, portanto, de parabéns a Editora do Conhecimento por trazer ao Brasil esta obra tão esperada e tão importante, de um dos gênios da ciência.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

domingo, 21 de abril de 2013

Um Deus existente há de ser superior aos humanos





        Se existe algum tipo de Ser superior, como Deus, esse Ser deve ser superior a mim. Não sou suficientemente desprezível e perverso para condenar alguém ao castigo eterno, sabendo como é difícil as coisas certas nesta vida, e eu não esperaria isso de Deus.

        Não suporto as pessoas cujas concepção de Deus é tão mesquinha que o transformam em uma versão ampliada de um tirano inseguro e egoísta que governa pela força e precisa ser louvado o tempo todo para atenuar sua insegurança.  Quanto  sofrimento psicológico inútil foi criado por essas ideias! Tudo bem, já houve muitos reis e déspotas que foram assim e, infelizmente, tantos pais que também foram assim, mas não vamos confundi-los com a ideia de um Ser verdadeiramente superior.

 
         Charles T. Tart, psicólogo norte americano

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Curas Psíquicas, Mediúnicas ou Espirituais


Pesquisas Científicas e Casos Registrados

Carlos Antonio Fragoso Guimarães




Em 1965, o Dr. Bernard Grad, da McGill University, Quebec, Canadá, publicava seus estudos pioneiros sobre a questão polêmica das capacidades de influenciação biológica através da chamada cura psíquica, mediúnica ou paranormal.

                Estudioso sobre a questão da oncologia, seu trabalho sobre o câncer o levou a se interessar pelo trabalho de, inicialmente, médicos e enfermeiros que pareciam ser mais potencialmente benéficos a seus pacientes e, a partir destes, sobre o trabalho de pessoas que pareciam ter alguma capacidade de fazer regredir doenças por meio de preces, passes ou unicamente pela vontade de ajudar doentes, em especial a partir do seu contato com Oskar Estabany, que tinha essa aparente capacidade, descoberta ainda na Primeira Guerra Mundial, quando de inicio parecia que seus cuidados com cavalos, utilizados na Guerra, que eram feridos pareciam se recuperar extraordinariamente rápido. Logo se descobriu que sua presença, em especial sua técnica de imposição de mãos, também parecia funcionar extraordinariamente com os soldados feridos.

                Para evitar o problema da autossugestão e do efeito placebo, onde o doente, por estar confiante no progresso do tratamento, consegue melhorar mesmo quando os remédios ministrados são inócuos, o Dr. Grad buscou avaliar os supostos dons de Estabany sobre elementos vivos que não fossem sugestionáveis. Para isso, ele elaborou duas séries de experimentos, uma envolvendo ratos de laboratório e outra, sementes de cevada.

                Os ratos, divididos em um grupo experimental e dois de controle, eram feridos através do corte de uma dobra de pele, onde a área das feridas eram medidas. Um total de 48 ratos foram assim feridos e acompanhados, sendo que uma parte deles era tratada por Estabany, que os tocavam (estando cada rato tratado dentro de um saco de pano, evitando um contato direto com o curador. Os ratos de controle também o eram postos em sacos, mas não tinham contato com o médium, no mesmo momento em que os ratos experimentais recebiam o tratamento, pelo mesmo intervalos de tempo de vinte minutos duas vezes ao dia).

 Na figura abaixo, temos uma amostra dos tamanhos dos ferimentos dos ratos antes da cura paranormal. A primeira série apresenta os ferimentos do grupo de controle, o segundo dos ratos que seriam tratados pelo curador e o terceiro, o do segundo grupo de controle, que seriam submetidos a um tratamento térmico com a temperatura do corpo humano (simulando a temperatura das mãos de Estabany).


                Duas semanas após a fase de tratamento, o Dr. Grad fez uma avaliação do processo de cicatrização dos ratos. Tanto a análise visual quanto a estatística do processo de remissão das áreas das feridas foram significativos. Veja-se a figura 2, abaixo, que o grupo tratado pelo curador vieram a ter uma evolução positiva de recuperação muito superior ao dos dois grupos de controle:




               
                Outro experimento, com as sementes de cevada, que eram parcialmente queimadas, teve um resultado análogo. As sementes era postas em um forno por um tempo limitado. Algumas morriam e outras ficavam danificadas em grau de relativa gravidade. DForam divididas em grupos de tratamento e de controle, como ocorreu com os ratos, mas desta vez o curador não as tocava ou sequer ficava próximo a elas. Ao invés disso, ele recebia uma garrava com soro, onde impunha as mãos. Depois, a garrafa era deixada em repouso para que a temperatura ficasse idêntica a do ambiente e só depois era aspergida sobre as sementes. As sementes de controle recebiam o mesmo soro, com a única diferença de que ele não passara pelas mãos de Estabany. As demais condições de luminosidade, temperatura e de envasamento e tratamento eram idênticas nos dois grupos.  

                Novamente, uma análise estatística demonstrou que as sementes tratadas com o soro que havia sido “energizado” por Estabany tinham brotado de modo mais saudável e desenvolvido que as sementes tratados com o soro comum. Na foto, os dois grupos de brotos da pesquisa do Dr. Grad. Notar que o grupo X, exatamente o que recebeu o soro "energizado" por Estabany, apresenta-se mais desenvolvido e forte que o grupo de controle Y.


                Estudos semelhantes, evolvendo médiuns e curadores, foram feitos esporadicamente ao logo dos anos, após o trabalho pioneiro do Dr. Grad. Atualmente, o Dr. Larry Dorsey, chefe da equipe do Hospital Municipal de Dallas, Texas, é um dos mais conhecidos pesquisadores sobre a questão do processo de cura paranormal.
               


               Vejamos uma consideração do Dr. Charles Tart, da Universidade da Califórnia, sobre os curadores espirituais, que surgem independentemente das tradições ou vertentes culturais e religiosas, embora algumas possam dar um suporte que permita o desenvolvimento destas capacidades psíquicas mais que outras:


     “Observe-se que os bons paranormais de cura provêm de todas as tradições, o que significa que a cura espiritual pode ser real, ainda que não comprove a veracidade de nenhuma religião em particular em comparação com as outras (...)” (TART, Charles. O Fim do Materialismo, Editora Cultrix, São Paulo, 2012, p. 200)

No Brasil, houveram conhecidos médiuns de cura. Atualmente, o mais conhecido internacionalmente (na verdade, mais conhecido fora que dentro do próprio Brasil) é João de Deus, da cidade de Abadiânia, Goias, constamente visitado por pesquisadores e jornalistas de todo o mundo. Sobre este médium, veja-se os seguintes vídeos:






segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O problema da natureza e localização da Mente/Consciência e sua relação com o cérebro




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

          Em qualquer área de conhecimento, todo problema parte de condições específicas de cada saber e, assim, as perguntas devem ser feitas de acordo com as características próprias do objeto que se quer apreender. Não se discute o sabor de um raio de luz ou qual a fórmula química de um poema pois cada uma destas coisas possuem estrutura e características bem diversas que impedem que sejam reduzidas a outras modalidades de conhecimento (no caso, a biologia e a química no caso da luz ou da poesia). Desta forma, o que está presente quando perguntamos “o que é a mente?” “O que é a consciência?” Quais as ideais ou referenciais implícitos em tais questões? Por que é tão difícil se falar, nos meios acadêmicos, tão atrelados a uma visão atualmente dominante de mundo que é basicamente mecanicista e reducionista?

Na questão “o que é a consciência” está implícita certo pressuposto: a consciência é alguma coisa semelhante a alguma outra coisa. Se é coisa, deve ser, pressupõe-se, passível de alguma manifestação física e, assim, é de esperar-se que possua rastros que devam ocupar algum volume no espaço. Ou seja, a própria questão, como formulada, leva em si a suposição de que a consciência humana deve ser semelhante a outros “objetos” que nos são familiares e, assim, se enquadrar na imagem mecânica de mundo dominante ainda hoje. O problema é que pouco se leva em conta as prováveis limitações deste conjunto implícito de suposições.

Lawrence LeShan em seu livro De Newton à Percepção Extra-sensorial discorre sobre o assunto a partir da reflexão sobre a possibilidade ou não de aplicação de conceitos característicos de um domínio da realidade em outro. Enquanto a questão do “volume” faz sentido a partir e quando aplicada a objetos tridimensionais, ela deixa de fazer qualquer sentido na geometria plana. Utilizar-se dos axiomas fundamentais da geometria plana em objetos tridimensionais causam paradoxos. Portanto, diferentes dimensões ou domínios da realidade possuem características próprias que levam a elaboração de os conceitos novos ou reformulação de conceitos antigos. As características próprias de uma dimensão trazem problemas quando ampliadas a uma outra dimensão, reino, domínio da realidade ou referencial teórico.

Por exemplo, o espaço das mesodimensões, tão característico do uso bem sucedido da física newtoniana,  é algo bem diferente do espaço-tempo da física relativística aplicada a grandes dimensões e grandes velocidades e, de tão diferentes, não significam a mesma coisa.  Do mesmo modo, ambas as físicas se tornam problemáticas no universo microdimensional da física das partículas subatômicas. Ao sair de um domínio ou reino para outro, ainda que adjacente e a este ligado, surgem novas características inexistentes e paradoxais no domínio anterior. Ninguém pensa em explicar as excentricidades do personagem Dom Quixote a partir da escrita gramaticalmente rebuscada mas correta de Miguel de Cervantes, ou da composição do papel ou da sintaxe da língua espanhola.

Não nos preocupamos como surgem ou emergem estas características em um novo patamar da realidade (por exemplo, o volume no espaço, a ingenuidade de Dom Quixote), mas como podemos estuda-las e compreende-las, uma ao nível do pragmatismo empírico e outra ao nível do significado psicológico, o que acaba por estruturar uma ciência voltada para as características daquele domínio, com os fatores observáveis em seus próprios termos. 

Foi muito doloroso aos cientistas aceitarem que os paradoxos dos átomos só eram paradoxos enquanto se tentasse compreendê-los com os conceitos familiares que aplicamos à realidade física mesodimensional. No caso, o domínio das dimensões médias constitui um “reino” diferente do das macro e microdimensões e cada qual possui suas próprias características, assim como o reino da vida possui características próprias diferentes do reino físico, mas esteja com este ligado e relacionado.

Cada domínio, portanto, necessita de um diferente modelo de realidade, com conceitos que possuem acepções e características próprias que não podem ser aplicados a domínios adjacentes ou diferentes. Quando isso ocorre, tem-se paradoxos e confusões epistemológicas.

A ciência muitas vezes não se preocupa diretamente com a “natureza de algo”, ou seja, em descrever o que seja algo, do que sejam constituídas coisas de um reino ou domínio. Ela não diz o que é a gravidade, ou a eletricidade, mas apenas como elas se manifestam através daquilo que é observável.  Assim, a gravidade é reconhecida como uma força (mas não se diz o que seja essa força) que atua na atração de massas em relação à distância entre elas, ou o que seja a energia elétrica, mas  que nesta existem fluxo de elétrons que trazem consequências físicas tais como calor, atração/repulsão, efeitos fisiológicos, etc.

Se não faz muito sentido se dizer “o que é”, mas sim “o como atua ou se relacionam” os objetivos observáveis de um domínio, o que permite inferir algo atuando sobre estes, também não faz muito sentido se perguntar o que é a consciência, porque esta pergunta parece defini-la como um objeto e, assim, ela possuiria deveria possuir características que a inferissem enquanto tal, quando na prática suas reais características que não permitem entende-la como algo definido, restrito ou estático. Na verdade, ela parece ser algo sutil como o é a vida e a gravidade, mas ainda se tenta explica-la não enquanto algo com características próprias (e que assim deve ser estudada), mas enquanto subproduto de outra coisa.

Ela, a consciência, é sumamente qualitativa e dinâmica, processual e não parece confinada a um espaço definido e, ainda mais, ela é justamente aquele elemento não passível de mensuração e manipulação que, contudo, possibilitou a reflexão de tudo o que constitui a ciência produzida pelo homem. É sumamente perceptual, faz parte do reino da realidade onde se percebe uma atividade interior e que possui a característica única de ser reflexiva. Deste modo, são estas características, que não se mostram distanciadas em espaço e em que a questão do tempo também parece se desfazer, que constituem o Domínio da Consciência.

O que observamos no Domínio da Consciência? Processos, intensidades (emoções, ideais), senso de identidade, clareza ou confusão, estado de ânimo, presença ou ausência de informações. Como se relacionam estes observáveis? De modo bem diferente de como se relacionam os objetos do mundo sensorial pelo simples motivos de que eles não são “objetos” no sentido corriqueiro do termo. Você pode sentir e pensar várias coisas, consciente e conscientemente, concomitantemente, sem que haja um conflito de “corpos ocupando um lugar no espaço”.

LeShan cita William James: “Todas as pessoas acreditam, sem hesitar, que elas se sentem pensando e que distinguem o estado mental, como qualquer atividade ou paixão interior, de todos os objetos com os quais tal estado pode lidar cognitivamente”.

“Precisamos enfatizar”, afirma LeShan,  “que a ciência, na os atualidade, não pergunta o que uma coisa é, mas como ela se relaciona com outros fatores nos mesmos domínios e talvez nos domínios adjacentes. Até mesmo a definição formal de volume – o comprimento, a largura e a altura multiplicados e expressos através de unidades cúbicas – é uma constatação de relacionamentos e não aquilo que é.” (p. 95).

A consciência é inferida por uma série de coisas das quais temos experiência direta e subjetiva: ela tem ciência dos sentimentos, das ideias, das reflexões, até mesmo das intuições que são seus elementos observáveis mais comuns, mas não se reduz a estes. Indagações do tipo “o que é” quando apenas conseguimos inferir observáveis podem induzir a um círculo-vicioso, em especial quando se quer entender suas características próprias com conceitos próprios de um outro nível ou dimensão da realidade. Explicar “o que é a energia” geralmente deixa os físicos em maus lençóis e até hoje não se conseguiu criar-se uma fórmula ou conceito convincente do que é que é a vida e tudo o que se diz a respeito sempre se resumirá a expor descrições de relações de coisas e ações, nunca sobre o que é aquilo que promove tais relações.

Se a ciência, reflete LeShan, não indaga, na prática, o que é energia, o que é a vida, por que perguntamos constantemente “o que é a consciência” ou “O que é a paranormalidade”? Isso ocorre porque, intuitivamente, sabemos que ambas apontam para algo bem diferente daquilo que constitui o mundo dito objetivo, o que relativiza nossas certezas.  Mas isso não implica abandonar os métodos da ciência, mas perceber quais os apropriados ou não para auxiliar na compreensão destas realidades. Contudo, estamos tão encharcados de um modelo, transferido pela educação em geral e pela cultura pragmática da sociedade industrial, que “aceitamos” a falsa ideia de que tudo o que existe segue as mesmas linhas do modelo reducionista que transforma o mundo em uma grande máquina semelhante às feitas pelo próprio homem. E mais: esta grande máquina do mundo é fruto totalmente do acaso, sem setido, sem objetivo, apenas seguindo as regras das leis da física e da química, o que inclui, em seu percurso acidental, a vida e a consciência.

Nas palavras críticas do psicólogo, engenheiro e pesquisador Psi, Dr. Charles T. Tart:

“Em um período relativamente breve, comparado com a história do nosso uni verso –centenas de milhões de anos, como os materialistas gostam de enfatizar - , ocorreram eventos físicos e químicos específicos ao qual nos referimos como vida e biologia. Os materialistas rejeitam a ideia de que haja algo de especial na vida, alguma coisa tão real quanto a matéria, mas de natureza distinta, uma “força vital” ou vitalismo. Por ser um tipo de dualismo, o vitalismo não pode” – dentro do escopo filosófico mecanicista – “estar correto; não existe nada além da realidade material. A vida significa apenas que, obtidas as combinações físico-químicas certas, os resultados serão as ações autossustentáveis  e autorreprodutivas que constituem a vida do modo como a conhecemos.

“Por fim, essa reação eletroquímica vital torna-se complexa a ponto de permitir que falemos sobre cérebros e, em seguida, sobre o cérebro humano. Ainda é basicamente controlada e limitada pelas leis da matéria, e há inúmeras influências diretas sobre seu funcionamento (...).  Curiosamente – e esse é um enigma para os materialistas, embora eles costumem ignorá-lo -, esse cérebro humano desenvolve a consciência, uma mente ou uma capacidade de discriminação perceptiva para as quais ele não se restringe às dimensões materiais da vida. Acredita-se que a consciência seja uma consequência exclusiva das propriedades sistêmicas do cérebro. Embora o materialismo acredita cegamente que algum dia a ciência descubra exatamente como a consciência surge da estrutura e do funcionamento físicos do cérebro – o que a explicaria de modo ‘definitivo’ -, até o momento não temos nenhuma teoria científica que sequer se aproxime de tal proeza. Esse é o motivo pelo qual o surgimento da consciência a partir de processos cerebrais exclusivamente físicos é conhecido como problema difícil entre os pesquisadores contemporâneos.  Quando não há nada de concreto a dizer, a crença na solução futura desse problema costuma ser expressa pela afirmação de que sabemos que o cérebro é responsável pela consciência. Em ternos de ciência pura, sem dúvida sabemos que o cérebro tem uma participação importante na consciência, da maneira como ela se manifesta em nosso dia a dia, mas isso é bem diferente de saber se o cérebro cria a consciência.” (Charles T. Tart, O Fim do Materialismo, ed. Cultrix, pp. 90-91).

Pouca gente, hoje, sabendo da íntima relação entre o aparelho físico de televisão e sua imagem, iria dizer que é este aparelho quem cria a imagem....

Onde se localiza a consciência? Em relação a esta questão, a ciência convencional parece iludir-se. É quase aceito por um consenso um tanto frouxo que a biologia e fisiologia  teriam chegado à conclusão (que não é unânime) de que a consciência se localiza no cérebro. No entanto, ao presumir tal fato, implicitamente está presente a ideia de que a consciência existe no espaço, é quase um objeto, e que se encontra no mesmo tipo de espaço que o crânio. Só que hoje é sabido que conceitos de espaço, tempo, causalidade e mesmo objeto são dramaticamente transformados, possuindo significados muito diferentes, em diferentes domínios ou dimensões da realidade. O que tem um sentido X em um determinado campo ou não faz sentido ou terá um sentido bem diferente em outro campo da realidade.

Outra idéia comum dentro da visão atualmente dominante é a de que a consciência é um subproduto das funções cerebrais mas, neste caso, como este subproduto consegue apresentar características que escapam à matéria, incluindo a capacidade de possuir consciência e, algumas vezes, transcender espaço e tempo?

As entidades físicas acessíveis aos sentidos (e percebidas pela mente) existem no meso-espaço do domínio sensorial e, quando separadas nesse espaço, constituem aparentemente entidades separadas. É assim que percebemos qualidades geométricas no espaço das dimensões médias. A consciência, no entanto, não existe no espaço físico. Ela não tem qualidades materiais. O espaço no qual a consciência existe tem qualidades completamente diferentes da do espaço físico.

Quando falamos de mente “localizada” o fazemos por analogia aos objetos físicos e pensamos que a consciência também tem tamanho, forma, contornos, limites e ocupa um espaço. Esses não são aspectos daquilo que conseguimos sentir existir na consciência. Ideia tem forma? Desejo possui um contorno? Falar de centímetros cúbicos de consciência é o mesmo que dizer que dizer que o número sete tem uma cor dourada o que um conceito coletivamente aceito pesa uma tonelada.

“Ninguém tem o direito de atribuir posições, tamanhos, formatos ou cores a coisas que, devido à sua própria natureza, não podem sustentar tais qualidades.  Seria o mesmo que atribuir um cheiro a um facho de luz.” H. Margenau.

Os fatores observáveis nos elementos da consciência, como amor, reflexão, alegria, não ocupam espaço pois nenhum deles possuem comprimento, largura ou altura. Não estão a centímetros um do outro ou formam ângulos restos. Mas podem ter intensidade. O espaço geométrico da realidade sensorial não se aplica. Os modelos mecanicistas sobre a mente não tiveram muito sucesso, e os atuais são cada vez mais sistêmicos que mecânicos. Vários pesquisadores (Wilder Penfield, David Bohm, Carl Jung) não pensam que a mente/consciência seja redutível ao sistema nervoso, embora este seja um instrumento de ligação entre aqueles e a realidade sensorial que vivenciamos enquanto seres-no-mundo.

Para ler:

Lawrence LeShan: De Newton à Percepção Extra-Sensorial, Summus Editorial, São Paulo, 1996.

Charles T. Tart: O Fim do Materialismo. Editora Cultrix, São Paulo, 2012.

sábado, 1 de setembro de 2012

Charles Tart e o problema da ciência e do cientificismo


Charles Tart: Ciência e cientificismo, Ceticismo Real e Pseudoceticismo (falso ou pretenso ceticismo) e a Parapsicologia

 

Passagens extraídas e adaptadas do livro O Fim do Materialismo, de Charles T. Tart, Editora Cultrix, São Paulo, 2012.


Existe a ciência pura e honesta e existe o cientificismo. Tendo em vista que a ciência praticada por seres humanos, seres que, como todos nós são falíveis, existem mecanismos de defesa patológicos que constituem os modos de não sabe – modos em que a ciência pura se cristaliza em forma de cientificismo, ou seja, um rígido sistema de crenças no qual o ceticismo autêntico, que é uma busca honesta de verdades maiores, se transforma em pseudoceticismo ou deboche. Como tenho observado ao longo de minha carreira, e como acredito que o psicólogo Abraham Maslow concordaria comigo, a prática científica pode ser tanto um sistema de desenvolvimento pessoa ilimitado quanto um dos mecanismos de defesa mais eficientes, renomados e neuróticos dentre os disponíveis (p. 31).

 

                Como diz Maslow, com grande beleza: “A ciência, portanto pode ser uma defesa. Basicamente, ela pode ser uma filosofia de segurança, um sistema de proteção, um modo complexo de evitar a ansiedade e os problemas que nos afligem (especialmente se ligadas a questões éticas). Levada a extremos, pode ser uma maneira de evitar a vida, uma espécie de enclausuramento intencional. Nas mãos de certas pessoas, pode tornar-se, na melhor das hipóteses, uma instituição social com funções basicamente defensivas e conservadoras, muito mais voltada para a regulamentação e estabilização que para a descoberta e renovação” (p. 74).

                Patologias da cognição e percepção, próprias do cientificista:

 

Necessidade compulsiva de ter “certeza”: caracteriza-se peça incapacidade de tolerar ou apreciar os paradoxos e ambiguidades dos fatos.

Generalização prematura: Buscar-se enquadrar o incomum em critérios familiares ainda que estes não dêem conta das características do fenômeno. É consequência da necessidade compulsiva de ter certeza.

Apego compulsivo à generalização: Despreza as informações que contradizem a visão de mundo e as crenças aos quais o pseudocético se apega.

Negação dos limites intelectuais ou da própria ignorância: caracteriza-se pela incapacidade  de admitir que “não sei” ou “eu estava errado”.

Negação da dúvida: Recusa em admitir a perplexidade, a dúvida ou a confusão (Thomas Kuhn discorre sobre isto, sobre a reação dos defensores de paradigmas antigos frente a novos desafios conceituais em seu célebre livro A Estrutura das Revoluções Científicas).

Necessidade patológica de se mostrar inflexível, duro, intransigente, poderoso: utiliza-se de mecanismos pretensamente intelectuais para encobrir inseguranças, ou seja, se utiliza de táticas baseadas no poder que são contrafóbicas.

Comportamento dominador e autoritário: impede o debate de ideias que se mostrem opostas às suas.

Racionalização disfarçada  de razão: ocorre no caso típico da antipatia “não gosto deste sujeito e vou inventar uma bom motivo para justificar minha aversão”;

Intolerância à ambiguidade: Fatos ou ocorrências que não se enquadram no sistema de crenças ou visão de mundo do pseudocético são descartadas como má pesquisa, fraude ou erro de interpretação.

Necessidade de aprovação: desejo obsessivo de parecer pertencer ao grupo dominante.

Arrogância: defesa contra a insegurança de seus defeitos.

Racionalidade compulsiva: incapacidade de correr riscos, de arriscar.

Intelectualização: evita-se os aspectos não racionais da realidade.

Medo da verdade: ansiedade diante de fatos que podem questionar boa parte da visão de mundo adotada pelo pseudocético.

Sistematização, categorização e estereotipia inadequados: táticas que justificam evitar o aprofundamento da percepção e da reflexão.

Enquanto o ceticismo normal é útil e saudável, ele se mostra nocivo quando confundido com o posicionamento pseudocético. Estes são adeptos e defensores de algum outro sistema de crença que, na opinião deles, já tem toda a verdade necessária. Esses Pseudocéticos chamam  a si próprios de céticos em razão do grande prestígio desta palavra, em vez de se rotularem mais propriamente, digamos, de “crentes no Sistema M”, que não apreciam os fatos ou as ideais sobre os quais você está falando e querem desacreditá-lo em defesa do Sistema M. São mistificadores, pretensos cientistas, missionários, advogados. Porém, como a palavra crente não desfruta do mesmo prestígio nos meios intelectuais, eles preferem chamar-se de céticos (p. 85).

O pseudocético típico: costuma afirmar que o resultado de pesquisas em Parapsicologia real são impossíveis. Você deve estar errado, suas observações devem resultar de um experimento descuidado, de interpretações baseadas nos próprios desejos, e não em fatos ou de são frutos da mera desonestidade de seus objetos de pesquisa, ou mesma da sua desonestidade, uma vez que suas afirmações, para ele, são cientificamente impossíveis. Assim, o pseudocético coloca-se não apenas como um buscador da verdade, mas também como um especialista nas disciplinas científicas importantes para avaliação do trabalho alheio.

                Observação de Henri Sidgwick: Um dos primeiros pesquisadores dos fenômenos paranormais, o renomado filósofo inglês  Henry Sidgwick (1838-1900), fez a seguinte observação: “Teremos feito tudo o que foi possível quando o crítico não tiver mais nada a alegar, a não ser que o pesquisador está trapaceando. Porém, quando ele não tiver mais nada a alegar, será essa a sua alegação. Charles Tart complementa dizendo os pseudocríticos fazem isso há muito tempo e que se considera elogiado quando eles impreterivelmente põe em dúvida a sua competência ou a qualidade de seus projetos de pesquisas (mais de quarenta e cinco anos de experiência nos estudos em psicologia experimental, engenharia e parapsicologia, com artigos em diversos periódicos sérios), ou mesmo quando afiram que ele ou os participantes de suas pesquisas não passam de embusteiros.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O importante novo livro de Charles T. Tart, O Fim do Materialismo


O novo livro do Pesquisador Psi e escritor Charles T. Tart demonstra os avanços sutis na área das pesquisas psíquicas dos últimos anos e demonstra o quão infantil é a visão de mundo mecanicista ainda imperante.


Charles T. Tart, nascido em 1937, é um reconhecido psicólogo e engenheiro norte-americano que, por suas pesquisas, tornou-se a maior autoridade viva sobre a questão da consciência humana e sobre o alcance da Parapsicologia. Seus artigos e livros são considerados alguns dos melhores em ambas as áreas e seu trabalho ajudou a desenvolver a chamada Psicologia Transpessoal. Dois de seus livros tornaram-se textos clássicos: Altered States of Consciousness, de 1969,  e  Transpersonal Psychologies, de 1975.

                Ao lado de Lawrence LeShan, Stanislav Grof, D. Scott Rogo e Sam Parnia, Tart (foto) constitui em um dos autores indispensáveis e mais sérias no controvertido e ainda pouco conhecido, como se deve, universo da Parapsicologia. 

De fato, sua autoridade é tão grande que pretensos parapsicólogos de gabinete, à exemplo do folclórico Pe. Quevedo, o citam constantemente, muito embora Tart tenha desmentido as alegações de Quevedo sobre supostas afirmações nunca feitas pelo pesquisador americano sobre os experimentos de Rhine na universidade de Duke (e que, segundo a fantasia de Quevedo, teriam provocados distúrbios mentais em voluntários). O desmentido foi feito em carta ao pesquisador brasileiro Wellington Zangari que a publicou por meio de site da PUCSP (clique aqui para ler), aproveitando a mesma para por abaixo as pretensões quevedianas a um auto-reconhecimento internacional que não existe.

                O novo livro deste pesquisador, O Fim do Materialismo, constitui-se em um compêndio de pesquisas efetuadas nas últimas cinco décadas sobre a realidade dos fenômenos de PES (Percepção Extra-Sensorial) e outros, incluindo casos de comunicação com mortos, que apontam para, ao menos, as limitações canhestras da visão de mundo mecanicista ainda atuante e ao cientificismo puramente reducionista adotado por parte da comunidade cinetífica e leiga.  Tart, em seu livro, discorre sobre pesquisas discretas, mas muito bem feitas, ocorridas em dezenas de universidades dos Estados Unidos e em outros países, demonstrando que há no homem algo mais que um feixe de impulsos de natureza estritamente auto-conservativa, de natureza sexual e/ou agressiva. 

               O texto faz uma defesa convincente das limitações paradigmáticas, propondo a união possível da ciência com o estudo psi, e mesmo da espiritualidade, sem cair no ridículo do misticismo ou do teísmo convencional, as numa forma racional e vivencial de expansão dos limites paradigmáticos que, de resto, é corolário próprio da Psicologia Transpessoal. Portanto, a leitura de “O Fim do Materialismo” é algo que se torna obrigatório às mentes inteligentes e curiosas que não se deixam acomodar nem pela proposta materialista e muito menos se sente confortável diante da ingenuidade do pensamento religioso ainda existente.

Carlos Antonio Fragoso Guimarães