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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Bolsonaro, o troglodita da Direita extremista, demonstra explicitamente a mentalidade das elites reacionárias




Esse ai encima, na tribuna do Congresso, é o Deputado Jair Bolsonaro, saudosista da Ditadura, que se diz a favor da Tortura, e que afirma que História conhecida do Golpe Militar e de todo o horror ainda não totalmente conhecido desta época negra, mas cujos documentos e evidências internacionalmente conhecidas são marcantes, é uma mentira fabricada por "comunistas".....

O Deputado que grita, como mostra os dois vídeos ao final do texto, com a jornalista por esta questionar as afirmações de Bolsonaro sobre a Ditadura. O representante da do pior da sociedade agride verbalmente a jornalista e ainda diz que ela está "Censurada". Bolsonaro é conhecido, além do seu desequilíbrio, truculência e ignorância,  pela da defesa do indefensável e por suas afirmações racistas, homofóbicas de cunho fascistóide ou de extrema-direita (clique aqui para ver algumas das frases polêmicas de Jair Bolsonaro, em site da UOL).

É esta a mentalidade da direita golpista, do representante de uma nova vertente reacionária, estimulada pela mídia tendenciosa, dos coxinhas, dos alienados da "Marcha da Família", dos seguidores do astrólogo Olavo de Carvalho, dos proto-fascistas que só falam de democracia se, e apenas SE, esta estiver subordinada aos seus interesses e que apelam para os "militares" se tiverem suas ambições frustradas, especialmente no voto, e que se consideram melhor e maior que os demais;  que acreditam na distinção qualitativa entre entre elite e povo, onde este é "burro" e só serve para ser explorado; elite que controla a grande mídia por a possuir ou patrocinar e que APOIAM CADA VEZ MAIS EXPLICITAMENTE (veja-se os "colunistas" da Veja, como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino) posicionamentos como as deste "deputado".

No primeiro vídeo, o ataque do denfensor da Ditadura à, ao ser questionado pela reóprter se ele realmente achava que era mentira o que dizem os livros, os documentos e os testemunhos sobre as truculências do Regime Militar (lembrar que isso ocorreu após os presentes no Congresso terem dado as costas a Bolsonaro, que pretendia fazer uma ode à Ditadura):



No segundo vídeo, a continuação da reação do reaça da direita mais sórdida, ao ouvir da Repórter que ele deveria responder ao questionamento da repórter e esta avisar que iria processá-lo pela forma como ela a tratou:






quarta-feira, 2 de abril de 2014

A grande Midia Golpista em 1964.... Alguma semelhança com a de hoje?



Os donos dos jornais: nós que amávamos tanto a “revolução”

As palavras sobram para falar sobre o apoio da imprensa brasileira ao golpe militar em 1964: os fac-símiles dos editoriais da época dizem tudo. Foi acachapante. Todos saudaram a “democrática” atuação dos homens de farda para derrubar João Goulart, ainda que ele fosse querido pelo povo. Os “defensores da Pátria” não estavam –como estão hoje– nem aí para a vontade popular. O Jornal do Brasil (acima) saudou os militares no poder como “a verdadeira legalidade” e os que apoiaram a quartelada de “verdadeiros brasileiros”. Afinal, quem melhor que a imprensa para apontar onde está a “verdade”, não é mesmo?
O Globo (acima), que este ano pediu desculpas pelo apoio à ditadura, chamou o golpe de “volta da democracia” e comparou os militares a anjos: “o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina”. O império Globo cresceu à sombra da ditadura militar e foi durante anos o principal porta-voz e propagandista do governo fardado. Beneficiado com concessões em todo o País, a Globo só se tornou o que é hoje por causa da ditadura. Em vez de pedir desculpas, deveria dizer “muito obrigado”. Acho até ingratidão.

Aqui, o documentário Muito Além do Cidadão Kane, que explora a proximidade da Rede Globo com a ditadura militar. A emissora conseguiu proibir a exibição do filme durante anos no Brasil. Até hoje não é possível transmiti-lo na TV aberta.
O Estado de S.Paulo também apoiou o golpe e conspirou em favor dos militares desde o primeiro momento, mas, depois, se tornaria “vítima” da censura. O que, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988não impediu o jornal de continuar a colaborar com a ditadura, assim como fizeram todos. “Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo”, explicou Kushnir a CartaCapital (leia mais aqui). “Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande imprensa”. A Globo, diz Beatriz no livro, chegou a contratar censores para atuar como funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.
Folha de S.Paulo saudou os militares que derrubaram Jango como “exemplos de patriotismo e desprendimento”. Em 2011, o jornal reconheceu que apoiou a ditadura de forma deslavada, sem nenhuma crítica. “A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares”, afirmou o jornal, confirmando que a redação da FT estava entregue “a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais)”. O grupo admitiu, inclusive, ser possível que automóveis do grupo tenham sido utilizados por agentes do DOPS para espionar a esquerda (leia mais aqui). Nos anos 1980, o jornal ganharia leitores ao encampar o apoio às eleições diretas. Estratégia editorial? É possível, porque nos anos recentes assistimos uma nova guinada da Folha à direita, chegando a alcunhar a ditadura de “ditabranda”.
Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango foi a Última Hora, de Samuel Wainer. E, obviamente, foi empastelado pelos ditadores, enquanto os outros floresciam. Não é à toa que, aos 50 anos do golpe militar, a imprensa brasileira tenta justificar o injustificável em editoriais forçados onde enxerga “lados positivos” nos anos de chumbo. Claro, não se abandona um líder ferido na beira da estrada…
Assista aqui a um documentário sobre o papel da imprensa paulista no golpe. Veja mais manchetes dos jornais brasileiros apoiando o golpe militar aqui.
Publicado em 30 de março de 2014

terça-feira, 1 de abril de 2014

Leonardo Boff escreve sobre a ação dos grupos empresariais capitalistas, civis, elitistas, reacionários, e os militares golpistas de 1964



1964: o uso dos militares pelos grupos civis reacionários


LEONARDO BOFF



Os 50 anos do golpe militar, pela violência que implicou, agora devidamente tirada a limpo pela Comissão Nacional da Verdade, não pode deixar nenhum cidadão honesto indiferente. Importa assinalar claramente que o assalto ao poder foi um crime contra a constituição e uma usurpação da soberania popular, fonte do direito num Estado democrático.
 O primeiro Ato Institucional de 9/4/1964 alijou esste princípio da soberania popular ao declarar que “a revolução vitoriosa como Poder Constituinte se legitima por si mesma”. Nenhum poder se legitima por si mesmo; só o fazem ditadores que pisoteiam qualquer direito. 
O golpe militar configurou uma ocupação violenta de todos os aparelhos de Estado para, a partir deles, montar uma ordem regida por atos institucionais, pela repressão e pelo Estado de terror.
Bastava a suspeita de alguém ser subversivo para ser tratado como tal. Mesmo detidos e sequestrados por engano como inocentes camponeses, para logo serem seviciados e torturados. Muitos não resistiram e sua morte equivale a um assassinato. Não devemos deixar passar ao largo, os esquecidos dos esquecidos que foram os 246 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964-1979. E agora está sendo descoberta a eliminação de muitos indígenas, tidos como empecilho ao crescimento econômico. Sobre alguns deles foram lançadas até bombas de napalm.
O que os militares cometeram foi um crime lesa-pátria. Alegam que se tratava de um estado de guerra, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democrática. Esta alegação não se sustenta. O comunismo nunca representou entre nós uma ameaça real pois qualquer manifestação neste sentido foi brutalamente reprimida, não sem o apoio da CIA dos EUA. Na histeria do tempo da guerra-fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos – as grandes maiorias operárias e camponesas – eram logo taxados de comunistas e de marxistas, mesmo que fossem bispos como o insuspeito Dom Helder Câmara.
Contra eles não cabia apenas a vigilância, mas para muitos a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados “suicídios” camuflavam apenas o puro e simples assassinato. Em nome do combate ao perigo comunista, se assumiu a prática comunista-estalinista da brutalização dos detidos. Em alguns casos se incorporou o método nazista de incinerar cadáveres como admitiu o ex-agente do Dops de São Paulo, Cláudio Guerra. Causa espanto e constitui até um problema filosófico a falta de remorsos que o coronel reformado Paulo Magalhães recentemente manifestou à Comissão Nacional da Verdade de ter atuado na Casa da Morte de Petrópolis, de ter torturado, assassinado, mutilado cadáveres e ter ocultado o corpo do deputado Rubens Paiva. 
Rudof Höss, comandante do campo de extermínio nazista em Auschwitz que segundo seus próprios cálculos em sua autobiografia mandou para as câmaras de gás cerca de um milhão de judeus, também não mostrava nenhum arrependimento. Divertia-se atirando ao leu sobre os prisioneiros e chorava com uma criança ao chegar em casa ao saber que seu passarinho preferido havia morrido. É o mistério da iniquidade.
O Estado ditatorial militar, por mais obras que tenha realizado ( “o milagre econômico” foi apropriado apenas por 10% da população, pelos mais ricos, no quadro de um espantoso arrocho salarial), fez regredir política e culturalmente o Brasil. Expulsou ou obrigou ao exílio nossas mais brilhantes inteligências e nossos artistas mais criativos. Afogou lideranças políticas e ensejou o surgimento de súcubos que, oportunistas e destituídos de ética e de brasilidade, se venderam ao poder ditatorial em troca benesses que vão de estações de rádio a canais de televisão. E muitos deles estão ai, politicamente ativos e ocupando altos cargos da administração do Estado democrático.
Os que deram o golpe de Estado devem ser responsabilizados moralmente por esse crime coletivo contra o povo brasileiro, como vários juristas o estão pedindo. Os militares se imaginam que foram eles os principais protagonistas desta façanha nada gloriosa. Na sua indigência analítica, mal suspeitam que foram, de fato, usados por forças muito maiores que as deles. Disse-o recentemente Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, numa entrevita ao Boletim Carta Maior (30/3/2014): “O poder não foi apropriado diretamente pelos militares para eles próprios. Foi um projeto político dos setores mais conservadores e reacionários (burguesia nacional e os latifundiários) que tiveram nas forças armadas um apoio e um protagonismo muito grande”.
René Armand Dreifuss escreveu em 1980 sua tese de doutorado na Universidade de Glasgow com o título: 1964: A conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe (Vozes 1981). Trata-se de um livro com 814 páginas das quais 326 são cópias de documentos originais. Por estes documentos fica demonstrado: o que houve no Brasil não foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da força militar.
A partir dos anos 60 do século passado, se formou o complexo IPES/IBAD/GLC. Explico: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC). Compunham uma rede nacional que disseminava idéias golpistas, composta por grandes empresários multinacionais, nacionais, alguns generais, banqueiros, órgãos de imprensa, jornalistas, intelectuais, a maioria listados no livro de Dreifuss. O que os unificava, diz o autor “eram suas relações econômicas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambição de readequar e reformular o Estado”(p.163) para que fosse funcional a seus interesses corporativos. O inspirador deste grupo foi o maquiavélico General Golbery de Couto e Silva que já em “em 1962 preparava um trabalho estratégico sobre o assalto ao poder”(p.186).
A conspiração pois estava em marcha, há bastante tempo. Aproveitando-se da confusão política criada ao redor da renúncia do Presidente Jânio Quadros e da obstinada oposição ao Presidente João Goulart, que propunha reformas de base e principalmente a reforma agrária, e por isso, tido como o portador do projeto comunista, este grupo viu a ocasião apropriada para realizar seu projeto. Chamou os militares para darem o golpe e tomarem de assalto o Estado. Foi, portanto, um golpe da classe dominante, nacional e multinacional, usando o poder militar.
Conclui Dreifuss: “O ocorrido em 31 de março de 1964 não foi um mero golpe militar; foi um movimento civil-militar; o complexo IPES/IBAD e oficiais da ESG (Escola Superior de Guerra) organizaram a tomada do poder do aparelho de Estado”(p. 397).
Especificamente afirma: ”A história do bloco de poder multinacional e associados começou a 1º de abril de 1964, quando os novos interesses realmente tornaram-se interesses do Estado, readequando o regime e o sistema político e reformulando a economia a serviço de seus objetivos”(p.489).  Todo o aparato de controle e repressão era acionado em nome da Segurança Nacional que, na verdade, significava a Segurança do Capital.
Os militares inteligentes e nacionalistas de hoje deveriam dar-se conta de como foram  perfidamente usados por aquelas elites oligárquicas e anti-populares que não buscavam realizar os interesses gerais do Brasil mas sim, alimentar sua voracidade particular de acumulação, sob a proteção do regime autoritário dos militares.
A Comissão Nacional da Verdade prestaria esclarecedor serviço ao país se trouxesse à luz toda esta trama. Ela simplesmente cumpriria sua missão de ser Comissão da Verdade completa. Não apenas da verdade de fatos individualizados de violência aos direitos humanos, mas da verdade do fato maior da dominação de uma classe poderosa, (anti)nacional, associada à multinacional, para, sob a égide do poder discricionário dos militares, tranquilamente, realizar seus objetivos corporativos e excludentes. Isso nos custou 21 anos de humilhação, de privação da liberdade, perpretou assassinatos e desaparecimentos e impôs um oneroso padecimento coletivo.
Por fim, cabe ouvir as palavras da advogada Rosa Cardoso, advogada e defensora da prisioneira política Dilma Rousseff e hoje integrante da Comisão Nacional da Verdade numa entrevista ao Boletim Carta Maior de 20/02/2014: ”Primeiro quero dizer que até hoje as Forças Armadas devem um pedido de perdão à sociedade brasileira, com o que estariam assumindo uma posição civilizada e democrática, que é, afinal de contas, o que se espera dos militares no século 21. Lamentavelmente, até agora, não recebemos nenhum sinal, nenhuma mensagem, que nos indique que haja algum desejo, por parte dos militares, de pedir desculpas e de fazer uma autocrítica política sobre seu comportamento”. Esta dívida eles a tem para com todo o povo brasileiro. E deverão um dia saldá-la.
O dia de hoje, primeiro de abril de 2014, 50 anos do golpe civil-militar, é um dia de pranto pelas vítimas da repressão mas também dia de ânimo porque a truculência não pode sufocar o sentimento de dignidade nem abater os ideais democráticos que triunfaram e estão se firmando mais e mais em nossa consciência nacional.
Dedico este artigo ao meu colega de seminário Arno Preis, cheio de fome de justiça, morto em Paraiso do Norte- GO no dia 15/2/1972; Leonardo Boff é teólogo, filósofo, presidente honorário do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis.

Roda Viva, da TV Cultura, com uma testemunha de primeiro plano do Golpe Militar de 64: Almino Afonso,ex- ministro do Trabalho e Previdência Social do Presidente João Goulart


Roda Viva especial, com Almino Afonso, um dos ministros do governo de João Goulart, derrubado pelos militares com incentivo e apoio dos Estados Unidos, em 1964. Logo após o vídeo, um texto com o lúcido comentário de Nirlando Beirão:




Cultura

Bravo!

Daqui a 50 anos...

A tevê no Brasil se diz democrática. Grande parte dos telejornais mente, democraticamente. Mente, e manipula, e distorce, ao sabor de seus interesses políticos
por Nirlando Beirão — publicado 06/04/2014 05:11
Extraído da Carta Capital

A ditadura passou na tevê esta semana. Em um tom bem diferente do entusiasmo elegíaco com que o golpe foi saudado, meio século atrás, pelas oligarquias da mídia, à frente a TV Tupi e afiliadas, propriedade de Assis Chateaubriand, um coronel assumidamente autocrático (a TV Globo só em 1965 iria se juntar ao coro dos áulicos e ao cordão das vivandeiras).
Hoje, a tevê no Brasil se diz democrática. Grande parte dos telejornais mente, democraticamente. Mente, e manipula, e distorce, ao sabor de seus interesses políticos. Mente como, em 1964, mentia. Daqui a 50 anos, os que estiverem por aqui ouvirão talvez um estrepitoso – e hipócrita – mea-culpa.
Roda Viva, da TV Cultura – cujo apresentador daria apoio, fácil, fácil, a uma quartelada que apeasse do poder a atual governante legitimada pelo voto –, levou constrangidamente ao ar o depoimento de Almino Afonso, ex-ministro do Trabalho de Jango.
Almino demole a versão – propagada pelos golpistas e pelo goverrno americano, obediente à lógica da Guerra Fria – de que a esquerda, Goulart incluído, preparava o golpe. O golpe dos gorilas teria sido, diziam, preventivo ao golpe dos comunas. Em respeito à semana evocativa, o Roda Viva teve de engolir, com Almino, a verdade histórica.
Filmes, documentários, entrevistas reverberaram, na tevê aberta e na por assinatura, os eventos da ditadura. Em meio a toda a memorabilia visual e sonora, um momento de terna coragem na figura de João Vicente Goulart, filho de Jango, entrevistado por Antonio Abujamra no seu Provocações(também da TV Cultura). João Vicente rememorou a decisão patriótica de Jango de não resistir aos militares sublevados. E se emocionou ao lembrar que, apesar de tudo, os terroristas de farda só sossegaram quando mataram o desafeto – por envenamento.


domingo, 30 de março de 2014

Para conhecer a História: A Operação Condor, na América Latina de ontem, se espalhou pelo mundo, hoje




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

A "Operação Condor" constituiu-se em uma união político-militar de governos ditatoriais de direita, na América Latina, com o incentivo dos Estados Unidos durante a era Lyndon Johnson, Richard Nixon e Gerald Ford. Objetivava reprimir violentamente quaisquer ação de resistência ou questionamento dos seus desmandos. Funcionou explicitamente nas décadas de 70 até meados dos anos 80, mas ainda está atuante, como veremos, de modo menos visível, mas muito mais insidioso.

As pesquisa indicam que cerca de 30.000 pessoas foram vítimas diretas da Operação Condor, sem contar os inúmeros desaparecidos políticos e famílias inteiras desestruturadas no período. Várias foram as vítimas de renome da Operação Condor, do vice-presidente cassado do Chile a, tudo indica, os ex presidentes Jango e Juscilino Kubitschek (veja-se o documentário Paulo Henrique Fontenelle, Dossiê Jango e os filmes Estado de Sítio e Missing, o Desaparecido, ambos do cineasta franco-helênico Costa Gravas). Existe mesmo um documentário (pouco divulgado, devido à resistência das forças reacionárias que ainda dominam a mídia brasileira), chamado Condor, de Roberto Mader, e que pode ser visto no Youtube:

Condor



Vejamos agora, os indícios de que a Operação Condor foi bem retrabalhada pela potencia militar atual e é ainda utilizada, de forma adaptada, para desestruturar governos pelo mundo inteiro:


EUA operam hoje nos moldes da Operação Condor, diz jornalista norte-americano

A afirmação é do jornalista investigativo John Dinges, uma referência internacional sobre as atividades da Operação Condor na América Latina.


Fonte: Carta Maior

Arquivo

O jornalista investigativo John Dinges, uma referência internacional sobre a Operação Condor, assunto sobre o qual escreveu para o Washington Post e para a revista Time, afirma que, após os atentados de 11 de setembro, as operações clandestinas ordenadas ou consentidas pelos presidentes George Walker Bush e por Barack Obama repetiram o mesmo formato do terrorismo de Estado exercido na década de 1970 pelo grupo do qual Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia faziam parte.
 “Quando leio as notícias sobre sequestros de suspeitos em qualquer lugar do mundo que são levados a centros de detenção clandestinos no Egito, na Polônia ou em algum país da Ásia, onde são torturados por especialistas que chegam dos Estados Unidos, parece que estou vendo a Operação Condor outra vez em uma escala maior, com mais recursos do que há 40 anos”, compara Dinges durante uma entrevista exclusiva concedida à Carta Maior.
Em 1975, o chefe da polícia secreta chilena, Manuel Contreras, voltando de uma viagem aos Estados Unidos, coordenou a primeira reunião da Condor em Santiago de Chile, onde participaram dois enviados brasileiros com aval do ditador Ernesto Geisel e do então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), João Baptista Figueireido (ver abaixo: Reprodução/documento disponível no Centro de Documentação e Arquivo para os Direitos Humanos - Paraguai)
“A ideia que o Contreras tinha era criar uma Interpol contra as organizações guerrilheiras, contando com o mesmo tipo de coordenação usadas pelas policias para atuar rapidamente. Isto supunha sequestrar, torturar e, se fosse o caso, matar, mas com uma diferença em relação à Interpol: tudo feito sem ordem judicial e fora do Estado de Direito e contra o Estado de Direito. Ao fim e ao cabo, é o mesmo que está acontecendo atualmente com as operações secretas na Guerra ao Terror, que viola o Estado de Direito nos países onde opera. Quando leio notícias de como a NSA (Agência Nacional de Segurança) interceptava comunicações da presidenta Dilma Rousseff, isto repete a maneira de operar nos anos da Condor, quando a CIA entregava aparelhos de Télex e uma rede de rádios FM aos agentes dos países sul-americanos e assim podia espiar seus próprios sócios.
Sempre aqueles que dominam tecnologicamente as comunicações jogam com vantagem. Isso acontecia nos anos 70 e se repetiu agora, claro que a NSA não organizou sabotagens terroristas contra Dilma. Essa diferença é importante ressaltar”.
Dinges observa que, ao completarem 50 anos do golpe contra o presidente João Goulart, a revisão histórica dos fatos constata a influência norte-americana no Brasil, desde a queda de 31 de março de 1964 até a cumplicidade com a ditadura de Médici e a desestabilização das democracias que continuavam de pé, como a uruguaia e a chilena, vistas com receio por Washington e por Brasília.

“Eu acredito que a participação do Brasil na queda de Salvador Allende, talvez, não estou em condições de afirmar algo definitivamente, foi até maior do que a dos Estados Unidos, apesar de tudo o que Richard Nixon e Henry Kissinger fizeram a favor do golpe de Pinochet”.
Goulart pode mudar a história
Dinges respeita escrupulosamente as regras do jornalismo investigativo: “nosso trabalho se baseia fundamentalmente em documentos, as entrevistas têm sua importância, a interpretação é necessária, mas o essencial é contar com documentos”.
No mês passado, a Justiça argentina, por meio do procurador Miguel Angel Osorio, abriu um processo sobre a morte suspeita do presidente João “Jango” Goulart em sua estada na província de Corrientes em 6 de dezembro de 1976, a que seus familiares atribuem um possível envenenamento por parte de agentes dela Condor.
A Procuradoria argentina resolveu iniciar sua investigação depois de ser informada sobre uma mensagem secreta, do III Corpo do Exército brasileiro, com representação na fronteira com Argentina, em que se solicitava seguir o “subversivo” Goulart e outros brasileiros refugiados no país vizinho, vários dos quais ainda estão desaparecidos.
“Não li esse documento do III Corpo do Exército, se você puder me enviar, eu agradeceria, aparentemente é um papel realmente importante porque motivou a Procuradoria de Buenos Aires a iniciar um processo. Sinceramente eu não concordo com a hipótese de que Goulart tenha sido envenenado, não conheço nenhuma evidência sólida”, afirma Dinges.
Autor de um livro referência, “Os anos do Condor, uma década de terrorismo internacional no Cone Sul” Dinges comenta que o Brasil, único país da região que proíbe que a Justiça abra processos contra criminosos de Estado, ainda é um “capítulo aberto da Condor que me desperta muita curiosidade. Eu suspeito que possam surgir elementos muito importantes dos arquivos já abertos, ainda que os militares escondam o mais importante para eles, e que também pode haver informações que sejam obtidas pela Comissão da Verdade”.
"Se pudéssemos provar documentalmente que Goulart foi assassinado, ou se pudéssemos obter provas de que havia um plano para assassiná-lo, teríamos elementos de peso para revisar nossa perspectiva geral sobre o Plano Condor”, argumenta.
Dinges marca uma fronteira entre interpretação e dados: “não podemos confundir nossa perspectiva dos acontecimentos, do que realmente aconteceu”. Então, ele desenvolve uma teoria provisória em que liga as mortes do ex-ministro do governo de Salvador Allende, Orlando Letelier, assassinado em Washington em 1976 e do ex-senador uruguaio Zelmar Michellini, ambas ocorridas naquele mesmo ano em Buenos Aires.
“O Plano Condor tinha um inimigo bem claro, que era a coordenação de organizações guerrilheiras, entre as quais estavam o ERP argentino, os Tupamaros do Uruguai, o ELN da Bolívia e o MIR do Chile. Sabemos que Orlando Leteilier era um homem moderado, mas matinha boa relação com o MIR e que Zelmar Milechillini também conversava com os Tupamaros, ainda que ele não participasse da luta armada”.
“O segundo inimigo, que também era importante para a Condor, ainda que se saiba menos sobre isso, eram os dirigentes moderados, como Michellini, como Letelier, porque eles causavam muito  desgaste com suas denúncias internacionais, graças a seus contatos diplomáticos e com setores progressistas da Europa e dos Estados Unidos. Eu suponha que nesta mesma lista de dirigentes moderados pudessem estar o ex-presidente Goulart, o ex- presidente Juscelino Kubistcheck,  e também o ex-presidente chileno  Eduardo Frei, que era um homem de centro-direita, democrata-cristão, mas que incomodava Pinochet e por isso mandou matá-lo”.
“É muito prematuro dar como certo que Goulart e Kubitscheck foram assassinadoa. Eu não tenho em minha posse nenhum documento que sequer insinue isso, o que também não me impede de estar interessado em saber mais. É importante se aprofundar nesses casos, já me falaram deles. Se algo fosse descoberto sobre Goulart, que faleceu fora do Brasil, aí sim seria uma revelação explosiva que modificaria algumas ideias que temos até agora sobre a Condor”.
A pista uruguaia 
Seis anos atrás João Vicente Goulart declarou a este repórter que, segundo informações não confirmadas, em 1976, o repressor Paranhos Fleury viajou a Montevidéu onde se encontrou com o chefe do escritório da CIA, Frederick Latrash, e eles conversaram sobre Jango, que morreria poucos meses depois em circunstâncias não esclarecidas.
“Eu conheço muito bem a história de Latrash, antes de ir para o escritório da CIA no Uruguai, tinha trabalhado no Chile, nesses anos, a CIA fazia os trabalhos mais sujos. Lembro do assassinato do general Scheineider, em Santiago. Eles estavam envolvidos diretamente, foi uma operação desastrosa do ponto de vista técnico, porque permitiram que armas chegassem a grupos radicais de direita que agiam selvagemente”, lembra.
“Eu sei muito bem o que a CIA fez no Chile, e conheço alguma coisa que fizeram no Cone Sul, ainda que nunca tivesse conhecimento de uma ligação de Latrash com um possível plano contra Goulart. Isto me parece muito pouco provável. Porque depois da desastrosa operação contra Schneider no Chile, a CIA tirou uma lição, a de não se envolver diretamente nos crimes. E eu não acredito que seja realista que a CIA participasse de uma ação para matar Goulart, se é que esta ação existiu. Agora, a CIA recebia muita informação de tudo o que acontecia na Condor, e os relatórios chegavam rapidamente. Isto significa que não se pode descartar que Latrash tenha se reunido com gente dos serviços brasileiros para conversar sobre vários assuntos no escritório de Montevidéu. O que descarto ou acredito ser impossível é que a CIA tenha atuado diretamente contra Goulart. Isso me parece impossível”, conclui Dinges.
Tradução: Daniella Cambaúva 



Créditos da foto: Arquivotar para o Índice






sexta-feira, 28 de março de 2014

Documentários históricos sobre o Golpe Militar de 1964: para manter a Memória Viva e evitar a alienação Fascista e um Novo Golpe com o apoio de uma Mídia Comprometida



       Seguem alguns videos (documentários, reportagens e filmes completos, incluindo os do célebre diretor franco-helênico Costa Gravas) sobre o Golpe de 1964, a Ditadura Militar entre 64 e 85, a prática da tortura criminosa, desempenhada por agentes do Estado de Exceção ocorrida na época, e  o envolvimento dos Estados Unidos nos Golpes ocorridos na América Latina:

       1) Sobre a derrubada de um governos democrático e aceito pela população, assistam:

Jango - de Sílvio Tender (filme completo):




             O documentário Jango, que se tornou a maior bilheteria do gênero no Brasil, narra o governo de João Goulart enquanto presidente do Brasil(1961-1964). Lançado em março de 1984, o filme teve seu roteiro escrito por Maurício Dias e Sílvio Tendler, que também o dirigiu, enquanto a trilha-sonorafoi desenvolvida por Milton Nascimento e Wagner Tiso. A narração é de José Wilker. Link no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=1O4SZQZ-ikk

            2 ) Sobre o golpe a a muito possível eliminação de Jango por assassinato dentro das ações da chamada "Operação Condor", onde as ditaduras militares de extrema direita da América Latina estimulava a elminação dos líderes que podiam por em risco as atrocidades dos Regimes de Exceção:

Dossiê Jango - de Paulo Henrique Fontenelle (filme Completo)



        João Goulart morreu no exílio de causas naturais ou foi assassinado? Em torno desta questão mal resolvida (assim como ocorreu com a morte de Juscelino Kubtschek e a de Carlos Lacerda) e do mal que foi o golpe militar de 64, patrocinado e icentivado pelos EUA, para o desenvolvimento do Brasil é que é construido o documentário Dossier Jango, de Paulo Henrique Fontenelle, estreado em 2013 julho.Link para Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=K6a6fjZKjkw.

         3 ) Sobre o planejamento do Golpe Militar pelos Estados Unidos, o envolvimento do embaixador Lincoln Gordon, da CIA e de adidos militares norte-americanos moldando e patrocinando o golpe com os militares brasileiros:

O Dia que Durou 21 Anos - de Camilo Galli Tavaares (Documentário em 3 partes)





        O documentário O Dia que Durou 21 Anos apresenta documentos oficiais americanos e entrevista historiadosres, brasilianistas e sociólogos norte-americanos e brasileiros, mosntrando o envolvimento do governo Kennedy e Lindon Johnson no golpe de 64Link para o Yotube: https://www.youtube.com/watch?v=Y1RQgu31scM

          4) Sobre as atrocidades das ditaduras militares na América Latina e sua implantação com o envolvimento e incentivo norte-americano:

Estado de Sitio - de Costa Gravas


  


                      5) Sobre a prática de tortura no Brasil e na América Latina pelos agentes das ditaduras militares:

Brasil: Nunca Mais




Portal Brasil Nunca mais Disponibiliza processos de torturados:




Raro documentário, com participação de Dom Paulo Evaristo Arns sobre os anos de chumbo e o legado de atraso maldito dos militares e a composição do livro "Brasil: Nunca Mais"


Depoimentos para o Projeto Brasil Nunca Mais


6 ) Sobre os ASSASSINATOS efetuados por agentes da Repressão Dittorial:


Filme Batismo de Sangue, baseado no livro de Frei Betto:




Zuzu Angel, a história da Mãe que enfrentou os Militares e pagou com a própria vida:



Visão Panorâmica da Repressão durante a Ditadura Militar (1064-1985):



7) Sobre a resistência, especialmente de estudantes e intelectuais, às arbitrariedades da Ditadura Militar

Tempo de Resistência, de André Ristum, baseado no livro de Leopoldo Paulino





Sobre a sórdida Operação Condor, a aliança político-militar entre as ditaduras da América Latina para eliminar violentamente a resistência a seus regimes, veja o documentário Condor, de Roberto Mader (no Youtube em https://www.youtube.com/watch?v=HhTjM1dj4e8):



Missing - O Desaparecido - sobre a tortuna e ação da Operação Condor no Chile. Filme de Costa Gravas (completo, em espanhol)






domingo, 23 de março de 2014

Os 50 anos do Golpe, das perseguições, das feridas ainda não curadas e do fascismo de direita



Golpes, perseguições, feridas e cicatrizes

Os camponeses que viviam ali, naquele sertão da Bahia, jamais haviam testemunhado tamanha barbárie. O que se passou dentro de casa foi um suplício familiar
por Thaís Barreto — publicado 23/03/2014 07:40

Preso político? O que é isso? Eu nasci em 1984 e devia ter uns 6 anos de idade quando escutei essa denominação em uma estranha conversa dos meus pais. Meu pai teve o cuidado de me convencer que eu não entenderia naquele momento. Guardei aquele dia como se fosse hoje e, aos poucos, a expressão ganhou contornos. Lembro de ter acompanhado diversos jornalistas indo entrevistá-lo lá naquele sertão, em Brotas de Macaúbas, na Bahia. Por que tantas entrevistas? Carlos Lamarca, José Campos Barreto (Zequinha), Iara Iavelberg, Otoniel Barreto, Luiz Antônio Santa Bárbara, quem eram essas pessoas?
A grande oportunidade para entender melhor veio quando eu tinha 9 anos, pois foi lançado o filme Lamarca dirigido por Sérgio Rezende com base no livro Lamarca: O Capitão da Guerrilha escrito pelos jornalistas Emiliano José e Oldack Miranda. Nas cenas do filme vizualizei um cenário de guerra no entorno e dentro da casa dos meus avós no povoado de Buriti Cristalino. Aqueles torturadores assassinos buscavam Lamarca e Zequinha. Um era capitão do Exército que recusou servir à ditadura saindo em 1969 e o segundo era um operário que esteve sob tortura do Dops de São Paulo por estar à frente da greve da Cobrasma, em 1968. Os dois passaram a viver na clandestinidade e suas vidas se cruzaram decisivamente.
Foram cassados como bichos para serem exterminados, e para isso o Exército brasileiro e toda sua estrutura civil-empresarial de colaboração armou a famigerada Operação Pajussara, liderada pelo então major Nilton Cerqueira e pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Primeiro mataram Iara Iavelberg que havia fugido com Lamarca mas estava em Salvador no dia 20 de agosto de 1971. Outra equipe seguiu para localizar o paradeiro de Lamarca e Zequinha. Cercaram a casa no povoado de Buriti Cristalino fazendo todos que estavam dentro reféns no dia 28 de agosto de 1971. Jamais esquecerei a descrição que ouvi do meu pai, Olderico Campos Barreto, sobre a tortura que viveu. Arrancaram todas as suas unhas enquanto indagavam sobre o paradeiro de Lamarca e Zequinha. Ele não entregou nem essa nem nenhuma outra informação. Esse local foi um campo de concentração da ditadura brasileira que marcou a violência contra camponeses no Brasil. Há um documentário recente intitulado Do Buriti à Pintada: Zequinha e Lamarca na Bahia, que contém importantes depoimentos das vítimas da época inclusive das cidades vizinhas. A família Barreto abrigou o capitão em sua pequena propriedade pois este foi um dos homens respeitáveis do Exército que resolveu lutar ao lado de quem era alvo do plano de opressão e exclusão.
Os camponeses que ali viviam jamais haviam testemunhado tamanha barbárie. O que se passou dentro da casa foi um suplício familiar. Santa Bárbara que também estava escondido tombou com um tiro na cabeça dentro da casa. Meu avô, José de Araújo Barreto, de tanta tortura gritava. Otoniel, seu filho de 19 anos, ficou desesperado e chegou a atirar em um soldado (mas não acertou) para tentar encerrar aquela dor provocada no seu pai. Saiu correndo e foi alvejado. Caiu morto. Sérgio Paranhos Fleury disputou com os outros soldados a autoria da morte. Olderico foi torturado na frente de toda população. Levou tiros, teve seus ferimentos como ponto de tortura onde jogaram produtos químicos e o costuraram sem nenhuma anestesia. Ao menos no seu rosto e na sua mão posso tocar as cicatrizes. No dia 17 de setembro de 1971 Lamarca e Zequinha foram assassinados no povoado de Pintada que pertence ao município de Ipupiara. No local foi construído o Memorial dos Mártires onde se deseja sepultar os filhos da terra mortos pela ditadura. Se for desejo da família, os restos mortais de Lamarca também podem ser transferidos.
A ditadura fez vítimas e ela sempre renegará. Na Bahia, o coronelismo já configurava suficientemente um regime opressor, e 1964 veio apenas para intensificar as dificuldades de vida das populações isoladas ou esquecidas país afora. Adelaide Campos Barreto, conhecida como dona Nair, minha avó, para mim também foi vítima. Ela recebeu como um golpe a informação contida em um telegrama em julho de 1968 o qual dizia que Zequinha estava preso e sofrendo por participar da greve. A ferida resultou em um câncer de mama, e dona Nair faleceu em 1970. Soube depois pelo bispo dom Luiz Flávio Cappio que meu avô relatou que chegou a se ajoelhar no chão agradecendo a Deus por ela não ter presenciado tamanha violência naquela casa em 1971. Me perguntei: que dor é essa que foi provocada capaz de suplantar a dor que o próprio já carregava por ter se despedido tão cedo da sua esposa a quem tanto amou?
Neste ano de 2014 completarão 50 anos do golpe e há quem diga que tudo isso que passou com a minha família e tantas milhares de outras não merece sequer ser lembrado. Enquanto isso, aquelas cicatrizes que toco no rosto e na mão do meu pai simbolizam uma ferida que inevitavelmente se abriu em mim. Nunca consegui visitar o túmulo dos meus tios durante as idas no cemitério do Campo Santo em Salvador, onde foram enterrados, pois não há nenhuma identificação e os registros antigos não estavam lá. Os assassinos privaram a família de ter por perto os restos mortais dos entes queridos e os levaram. Meu pai estava preso e não lhe foi permitido acompanhar o enterro. Espero que a existência da Comissão Nacional da Verdade possa proporcionar a exumação dos corpos de Zequinha e Otoniel e os devolva para a família ao menos cultuar a lembrança desses exemplares brasileiros.
Na foto, Zequinha Barreto e Lamarca mortos (Crédito: Arquivo Nacional)