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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Aporofobia: o ódio elitista aos pobres em tempos sombrios, por Carlos Eduardo Araújo



   Aporofobia é um neologismo inventado pela filósofa Adela Cortina, professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência. A palavra nos parece estranha, seja ortográfica, seja foneticamente, mas tem a proeza de nomear uma realidade nefasta e ignóbil. Foi escolhida a palavra do ano de 2017, pela Fundação Espanhola Urgente.


Do site Justificando:

 Aporofobia: o ódio aos pobres em tempos sombrios

 Aporofobia: o ódio aos pobres em tempos sombrios

 

Imagem: Agência Brasil

Por Carlos Eduardo Araújo

Aporofobia é um neologismo inventado pela filósofa Adela Cortina, professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência. A palavra nos parece estranha, seja ortográfica, seja foneticamente, mas tem a proeza de nomear uma realidade nefasta e ignóbil. Foi escolhida a palavra do ano de 2017, pela Fundação Espanhola Urgente.


O vocábulo, cunhada pela professora Adela e usado em diversos artigos, livros, entrevistas e palestras, é composto pela junção de dois diferentes termos, emprestados da língua grega, e se propõe a identificar uma fobia, um medo, uma patologia social que se manifesta na aversão a alguém que é percebido como portador de determinado atributo, origem, comportamento, aspecto ou traço, como são exemplos a homofobia, a islamofobia, a xenofobia. “Aporofobia”, do grego á-poros, sem recursos, indigente, pobre; e fobos, medo; refere-se ao medo, rejeição, hostilidade e repulsa às pessoas pobres e à pobreza.

A palavra, recentemente incorporada ao léxico da língua espanhola e que já ganha foros globais, vem em um momento propício para nos ajudar a nominar e compreender o fenômeno que se depreende da fala do Ministro Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas. Falando para empresários, a elite econômica do país, sobre a alta do dólar, disse que seria algo positivo uma vez que o câmbio baixo, o que se deu durante os governos petistas, possibilitava até empregadas domésticas irem à Disneylândia, o que seria, diz em tom jocoso e de repreensão, uma festa. Essa fala denuncia, às escâncaras e sem peias, um enorme e indisfarçável ódio, intangível mais real, aos pobres ou às classes sociais que se situam na base da pirâmide social. É um preconceito de classe, no qual se identifica um colossal desprezo, repulsa, aversão ou nojo pelos pobres, ao mesmo tempo que visa os colocar “em seu devido lugar”.

Houve um tempo em que os preconceitos, como um carma social atávico, eram objeto de interdições, de um prudente pudor, de uma pátina de civilização. As pessoas se sentiam constrangidas de os ostentar em público, eram fulminados quando expostos à luz do dia, sensíveis a ela como Drácula ao sol. Todavia, nestes tempos esdrúxulos em que vivemos, com a extrema direita no poder, foi aberta da caixa de Pandora, da qual escaparam, entre outros males, o despudor, a ofensa, a indiferença, a insensibilidade, a incivilidade. As virtudes foram subvertidas ou viradas de ponta cabeça. Aqueles preconceitos que até então eram sufocados, em proveito do convívio e de uma ética social, porque era feio, vil e indigno os alardear publicamente, passaram a ser vocalizados, exibidos e legitimados na nova ordem moral impudica, corrompida e iníqua que se instaurou entre nós, hodiernamente, e que ganhou assento no poder.

Todavia, os preconceitos ou ódios de classe não são uma invenção da onda bolsonarista, que ora usurpa o poder. Fazem parte de nossa história, gestados no seio de uma sociedade escravocrata, cujo racismo é um componente estrutural e permanente. Entretanto, não podemos deixar de reconhecer que o atual mandatário do executivo federal e seu séquito os estimulam, legitimam e difundem, por meio de falas, gestos e atitudes.

As camadas médias e altas da sociedade brasileira têm dado provas reiteradas de seu ódio de classe, de seu desprezo, de sua repulsa, de seu nojo aos pobres. Assim, qualquer mínimo progresso material que, virtualmente, as classes populares venham a auferir incomoda e gera uma desmedida aversão, principalmente da classe média, que se sente ameaçada e insegura com essa aproximação, que a obriga a coexistir em determinados espaços públicos, com pessoas egressas ou pertencentes às classe populares. 

Maria Luiza Martins de Mendonça e Janaína Vieira de Paula Jordão, estudando o nojo que as classes médias e altas devotam aos pobres aventam que: “Parece possível supor que a reação de indivíduos das camadas médias e altas frente à “invasão” dos espaços sociais por “seres inferiores” se funda também no temor da contaminação pelo Outro inferior, que se caracteriza pela falta: de capital cultural, de (bom) gosto, de maneiras adequadas de se portar e vestir (no sentido que Bourdieu lhes dá). Talvez sejam essas expressões de nojo parte de uma identidade de classe que se constrói e se mantém em oposição à classe trabalhadora e aos excluídos, uma vez que estes não possuem as condições materiais e culturais de conviver em espaços elitizados”.[1]

Um exemplo eloquente do ódio e do nojo pelos pobres pode ser extraído de um vídeo, que circula há anos no YouTube, retratando a “invasão” das praias da zona sul carioca, nos idos dos anos 80, do século passado, por um grupo de pessoas, moradoras dos subúrbios do Rio de Janeiro, que chegam em ônibus apinhados, para usufruírem de um dia de sol e mar.[2]


No mencionado vídeo desfilam falas de extremo preconceito, repulsa e nojo aos pobres. Uma jovem carioca se sentiu ultrajada pela “invasão” de sua praia: “uns ônibus horrorosos, com pessoas completamente horríveis que saem de dentro dos ônibus e vão lá sujar a praia … É uma gente sem educação mesmo, não pode tirar o pessoal do Meier e do Mangue e levar para ir a Copacabana … Eu não posso conviver com pessoas que não têm o mínimo de educação … É uma gente suja, você olhar para a cara dessas pessoas dá vontade de fugir … Eu tenho horror de olhar para estas pessoas e saber que estão no meu país, um horror, não são brasileiros não, são uma sub-raça”. Outras pessoas ouvidas acham que deveria haver uma demarcação nas praias, impedindo a entrada dos indesejáveis pobres. Outra opina que deveria ser cobrado ingresso dessas pessoas, impedindo-as, assim, de terem acesso à praia, tornando, assim, privativo de “uma elite” aquilo que se situa na esfera pública. Outro diz que está ali na praia para estar com os seus e não para conviver com essa gente mal-educada. Outra sugeri que sejam criados espaços de lazer próximos às comunidades pobres, impedindo, desta forma, que venham invadir sua praia.[3] Portanto, o preconceito de classe e o nojo por outro grupo social, promove uma hierarquização, na qual um dos grupos, no caso o dos pobres, é visto como algo fora do lugar e dotado de inferioridade. 

Com base nos estudos de Willian Ian Miller (The anatomy of disgust), Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão depreendem que “o nojo também é considerado algo mais forte do que o sentimento, uma emoção, dado o seu enraizamento no contexto social e cultural, que lhe dá sentido e um intenso significado político, por possibilitar criar e manter hierarquias na ordem política e, inclusive, demonstrar superioridade. Ou seja, o nojo tem relação com o posicionamento superior/ inferior de coisas e pessoas. O inferior pode tornar-se, aos olhos do superior, um risco, um perigo de contágio que demonstra uma vulnerabilidade do superior em relação ao inferior provocada pelo medo de contágio, que impõe distanciamento. A experiência de uma presença indesejada, uma proximidade compulsória, pode provocar sentimentos de repulsa, medo de contaminação que podem ser percebidos por meio de expressões faciais”. [4] As expressões faciais de asco, desprezo e nojo, de representantes da classe média carioca, ficam evidenciadas no vídeo que retrata o passeio à praia de pessoas pertencentes às classes populares. 

A mídia tem sua parcela considerável de contribuição, por meio de suas novelas e “programas de humor”, na difusão de uma visão depreciativa e grotesca do pobre. Geralmente os personagens pobres são figuras estereotipadas: falam alto e com estardalhaço, mastigam de boca aberta e se vestem de maneira extravagante. 

Um programa de “humor” que caricaturava as pessoas das classes populares, com um viés de horror e nojo, era o “Sai de baixo”, produzido e transmitido pela TV Globo. 

Um personagem específico, Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabella, frequentemente tinha falas cujos finais eram: “Eu tenho horror a pobre.” 

Seguem algumas:

 – “Palco de pobre é terreiro de umbanda. Eu tenho horror a pobre.”

– [Falando sobre bingo] “Senta as véia pobre e abre, tem um sanduíche de mortadela dentro. Aí elas come enquanto o homem tá cantando as pedra e aí dá uns peidinho assim de lado. Olha pra minha cara!”

– “Pobre é uma coisa triste. Pobre, quando quer falar bem, ficar pernóstico, coloca mais letra que o necessário […]. E termina com aquela frase que caracteriza, é praticamente um crachá de pobre: ‘Desculpe qualquer coisa.’ Eu tenho horror a pobre!”

– “Um pobre espirrou em cima de mim. Espirro de pobre adora uma aglomeração. Aquilo ali, quando ele espirra em cima de você, vem uma van lotada de bactéria. E são umas bactéria pobre, que fala tudo errado: ‘Vou causar um pobrema naquela criatura.’

– “Isto vai ser uma visão do inferno: um ônibus atochado de bicha pobre. Aquelas bicha com a metade do cabelo descolorido, oxigenado, roendo a unha e aquele futum de deocolônia. Eu tenho horror a bicha pobre.” [5]

Como denunciam Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão: “O personagem critica modos, cheiros, espirros, associando a escatologia à pobreza, em relação a qual ele sente nojo e horror. O curioso é que, apesar de desqualificar também a linguagem popular, assumindo o lado da linguagem culta, normalmente não utiliza corretamente as normas gramaticais cultas, o que pode representar uma vigilância maior aos “modos” das classes populares e à sua falta de capital cultural”. [6]

Outro evento que escancarou o ódio, a repulsa e o nojo aos pobres foram os “rolezinhos” que ocorreram, entre os anos de 2013/2014, em alguns Shoppings da Capital paulista. Uma figura execrável da extrema direita, Rodrigo Constantino, à época jornalista da revista Veja, deu uma inolvidável contribuição para o incremento do preconceito e ódio de classe. Afirmou que os rolezinhos são um movimento de pessoas invejosas, que: “Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização”.[7]

Como constatam Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão: “Talvez um dos aspectos mais importantes do fenômeno acompanhado das reações, que são dirigidas a partir das representações sociais, seja “a confissão de que a sociedade brasileira existe sob a base da divisão de classes”. Talvez podemos, no fundo, estar observando não só um passeio de jovens de classes desprivilegiadas em um shopping. Podem ser os reflexos de um enrijecimento de fronteiras entre diferentes classes, cujos aspectos que nos parecem mais expressivos são o estranhamento, o nojo, a distância e a distinção”.[8]

O desprezo, o desrespeito e o desdém das classes médias em face das classes trabalhadoras e populares, ou seja o povo, foi personificado, recentemente, por uma palestra do jornalista Alexandre Garcia, na qual disse o seguinte: “Digamos que seja possível a gente trocar de população com o Japão, que a gente transferisse 210 milhões de brasileiros para o arquipélago japonês e trouxéssemos os 153 milhões de japoneses para o continente brasileiro. E esperássemos 10 anos para ver o que acontecia aqui – lá eu não quero pensar (…). Alguém teria dúvida de que os japoneses transformariam isso aqui em 1ª potência do mundo em 10 anos?” [9] É o que o sociólogo Jessé Souza vem denominando, inspirado em Nelson Rodrigues, de complexo de vira-lata e poderíamos denominar de demofobia. 

Jessé Souza, em um detido e instigante estudo sobre a classe média, nos diz que “O que está em jogo nessas relações é uma luta de classes muito singular: entre uma que tem tudo e outra que não tem nada. O que está em jogo, na verdade, é uma covarde opressão de classe que tende a se eternizar”. [10]

Dostoiévski denunciou, em sua extensa e extraordinária obra, situações de opressão e exploração social. Já em seu romance de estreia, “Gente Pobre”, publicado em 1846, a problemática da exclusão social está presente. O romance descreve a história, por meio de cartas trocadas, de dois personagens, um modesto escrevente de meia idade, Makar Dievúchkin, que trabalha numa grande repartição pública em São Petersburgo e uma jovem órfã recém saída da adolescência, Várvara Dobrossiélova. Eram parentes distantes e Dievúchkin tenta protegê-la de uma trama, urdida pela vizinha cafetina da jovem, que a “vende” a um jovem ricaço libertino. No decorrer do enredo percebe-se que Makar está timidamente apaixonado por sua protegida, ajudando-a economicamente, o que vai, gradativamente, o levar a penúria e a quase miséria. É um romance que retrata a injustiça social que acomete as pessoas pobres, naquela Rússia pré-revolucionária. A correspondência entre os dois se estende do dia 08 de abril ao dia 30 de setembro, de um ano que não é declinado.


Em uma carta datada de 1º de agosto há um registro digno de ser reproduzido, no qual Makar, já vitimado pela pobreza, diz a Várvara: “E todo mundo sabe, Várienka, que uma pessoa pobre é pior que um trapo e não é digna de nenhum respeito da parte de ninguém, seja lá o que for que escrevam! eles mesmos, esses escrevinhadores, podem escrever o que for! — para o pobre vai ficar tudo como sempre foi. E por que vai ficar na mesma? Porque num homem pobre, na opinião deles, tudo deve estar virado do avesso; porque ele não deve ter nada de secreto, nenhuma vaidade que seja, de jeito nenhum!” [11] Este romance social de Dostoiévski, logo aclamado pelo público, denuncia e ilustra a luta de classes e todo ódio e desprezo reservados aos pobres nesta contenda. 

Merece transcrição e reflexão o trecho da percuciente análise que Joseph Frank faz sobre o enredo do romance “Gente Pobre”. Frank é o autor da mais ampla e detalhada biografia de Dostoiévski publicada entre nós. No Brasil, foi publicada pela EDUSP, em cinco alentados volumes. Acompanhemos sua digressão sobre uma tocante passagem do romance: “No ponto mais crítico da miséria – acossado pela senhoria, humilhado pelos empregados da pensão e atormentado por seu aspecto maltrapilho – Dievúchkin, completamente abatido, se entrega à bebida. Nunca havia se sentido tão degradado e inútil, e é neste momento que uma centelha de revolta se acende em seu coração, naturalmente tão dócil e tão submisso. Caminhando por uma das ruas elegantes de São Petersburgo, cheias de lojas de luxo e de gente vestida com apuro, ele se espanta com a diferença entre esse ambiente e as multidões soturnas e infelizes de seu bairro miserável. E, de súbito, Dievúchkin começa a se perguntar por que razão Várvara e ele estão condenados à pobreza enquanto outros nascem em berço de ouro”.[12] Percebam que o romance foi publicado dois antes do famoso Manifesto Comunista, de Marx e Engels. 

Essa indagação de Dievúchkin me remete ao livro de contos de Rubem Fonseca, “O Cobrador”, no qual o personagem que dá título ao conto e ao livro, é um amálgama de bandido, poeta e revolucionário, o Cobrador seria uma espécie de vingador não apenas da divisão de classes, mas também da violência simbólica a que era submetido, cotidianamente. A certa altura diz: “A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo”. [13]

Como, ao se perceberem em uma situação de absoluta iniquidade, exploração e humilhação, a que são rotineiramente submetidas, as classes proletárias e pobres não se revoltam? Jessé Souza oferece-nos uma hipótese: “Os donos do dinheiro e do poder não podem simplesmente dizer ao restante da sociedade: “Nosso intuito é deixar todos vocês, otários, sem propriedade e sem poder, apenas com a roupa do corpo, trabalhando nas condições mais favoráveis para mim.” Não é assim que acontece. Caso contrário, teríamos revolta e revolução. Não há dominação de poucos sobre muitos sem o recurso à mentira e ao engano. Em consequência, a opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem”. [14]

O escritor inglês George Orwell escreveu, além dos romances clássicos que o fizeram mundialmente conhecido, a exemplo de “A Revolução dos bichos” e “1984”, também textos de uma contundente crítica social. Investido de uma visão anticolonialista, denunciou à exploração imperialista inglesa em vários países asiáticos, deixando, também, importantíssimas e graves acusações sobre a situação de pobreza que provocaram. 

O livro “O Caminho para Wigan Pier”, um misto de reportagem realista e manifesto político, publicado originalmente em 1937, retrata de maneira direta e virulenta, as condições miseráveis de vida dos trabalhadores do norte da Inglaterra à beira da Segunda Guerra mundial. A pobreza e o sofrimento pungentes dos mineiros são retratados de forma brutal, desde as condições iníquas de moradia, ao medo das frequentes ondas de desemprego que assolavam a região, colocando em risco extremo a sobrevivência física dos trabalhadores e de suas famílias. Orwell já havia mergulhado a fundo na experiência da pobreza quase absoluta, nos dois anos que viveu perambulando como mendigo e trabalhador desqualificado pela França e pela própria Inglaterra – experiência narrada em seu primeiro livro, Na pior em Paris e Londres.

Neste livro-denúncia Orwell expõe, com crueza e azedume, todo o ódio e desprezo da classe média inglesa à classe operária. Tantas décadas nos separam das contundentes palavras do autor e de seu libelo social, enunciados para outra época e outra sociedade e,  infelizmente, tão atuais: “Toda pessoa de classe média tem um preconceito de classe adormecido que só precisa de qualquer coisinha para despertar; e, se tiver mais de quarenta anos, provavelmente tem a firme convicção de que sua classe social foi sacrificada em prol da classe mais abaixo. Tente sugerir a um homem bem-nascido, do tipo que não pensa muito, e que luta para manter as aparências com quatrocentas ou quinhentas libras por ano, que ele pertence a uma classe de parasitas exploradores — ele vai achar que você está louco. Com perfeita sinceridade, vai apontar uma dúzia de aspectos em que ele está pior de vida do que um operário. Aos seus olhos, os operários não são uma raça submersa de escravos; são uma maré sinistra, isso sim, que vai subindo sorrateiramente até engolir a todos — a ele mesmo, seus amigos e sua família — e varrer do mapa toda cultura e toda a decência. Daí vem essa estranha ansiedade, esse temor de que a classe operária se torne muito próspera. Em uma edição da Punch logo depois da guerra, quando o carvão ainda conseguia altos preços, há um desenho mostrando quatro ou cinco mineiros de cara feia e sinistra, andando em um carro barato. Um amigo que os vê na rua os chama e pergunta onde conseguiram aquele carro emprestado. Eles respondem: “A gente comprou este troço!”. E isso, veja, é suficiente para a Punch; pois que mineiros comprem um carro, mesmo que sejam quatro ou cinco em um carrinho, é uma monstruosidade, uma espécie de crime”.[15]

Episódios eivados de preconceitos de classe, como aquele envolvendo a fala de Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas, demonstram como é incômoda para as classes médias e altas da sociedade a presença de pessoas da classe trabalhadora, a coexistir no mesmo espaço físico que elas, gozando de iguais direitos, porque vistas como inferiores. Não é que as classes trabalhadoras não possam frequentar os mesmos espaços destinados às elites: podem, mas dependem de consentimento, de autorização, ou seja, na condição de empregados, balconistas, faxineiros etc., não como iguais. Tudo a escancarar a brutal desigualdade e exploração social a que estão submetidos os pobres e que nos constitui, enquanto uma sociedade, marcada indelevelmente pela escravidão. 

Mais uma vez é Jessé Souza que, com sua contundência crítica, nos diz: “… ao aspecto econômico se soma o sadismo, presente no cerne de toda sociedade fundada no trabalho escravo. Ninguém escraviza o outro sem, ao mesmo tempo, negar-lhe a humanidade. […] É preciso mostrar que o outro é inferior e está ali apenas para servir. […] A classe média brasileira herda o abuso e o sadismo de seus avós, e um dos motivos para isso é que nossa inteligência cooptada e colonizada nem sequer percebe a escravidão como a nossa semente social mais importante. […] Nossa classe média não apenas explora economicamente as classes abaixo dela, ela humilha covardemente os mais frágeis, os esquecidos e abandonados tanto por ela, classe média, quanto pela “elite do atraso”. [16]


Carlos Eduardo Araújo é Mestre em Teoria do Direito (PUC -MG)


Notas:

[1] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[2] Documento Especial – Pobres vão à praia (Melhores Momentos). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QShr9GpMOEc. Acesso em 17 fev. de 2020.
[3] Documento Especial – Pobres vão à praia (Melhores Momentos). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QShr9GpMOEc. Acesso em 17 fev. de 2020.
[4] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[5] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[6] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, 
[7] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[8] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[9] Site Brasil 247 – Redação. Bolsonaro divulga vídeo de Alexandre Garcia menosprezando brasileiros. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonaro-divulga-video-de-alexandre-garcia-menosprezando-brasileiros. Acesso em 18 de fev. de 2020.
 [10] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.
[11] Dostoiévski, Fiódor. Gente Pobre. Editora 34, 2009. 
[12] FRANK, Joseph. Dostoiévski: As Sementes da revolta (1821 a 1849). EDUSP, 1999.
[13] FONSECA, Rubem. O Cobrador. Agir, 2010.
[14] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.
[15] George Orwell. O caminho para Wigan. Companhia das Letras, 2010. 
[16] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Bolsonaro, o twitteiro, foi a escolha ideal das classes médias e ricas, que se sentem escandalizadas agora com ele.... Por Janio de Freitas


"Má conduta tuiteira tem a ver com o Ministério da Justiça, embora também com a área da comunicação. O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever." - Janio de Freitas


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O autor da cafajestada tuiteira que escandaliza as classes média e rica tem todo o direito de estar, ele sim, com o mais sincero e legítimo espanto. Tudo o que levou a fazê-lo presidente veio de iniciativas dessas classes. Não por acaso, as mais informadas sobre o tenentinho desordeiro, depois sobre o político estadual defensor da ditadura e das milícias, e logo o deputado federal que enriqueceu as características precedentes com duas demonstrações: a ignorância sem brechas e uma variedade insuperável de atos qualificáveis, desde sempre, como molecagens, cafajestices, falta de decoro e de educação, e daí para pior. Não cabe falar em deselegância, em falta de sensibilidade.

Foram três décadas de exibição, bem exposta ao país pela comunicação em geral, até que esse personagem anômalo se revelasse o ideal, político e de governante, das classes média e rica para o Brasil. O direitismo de Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles foi desprezado como insignificância diante do "mito".

O Jair Bolsonaro com título de presidente é o Jair Bolsonaro que todos, mesmo se dotados só de informações mínimas da política, puderam saber quem era, como era e do que se mostrava capaz. E quem, em 30 anos, não teve sequer esse resíduo de informação, na campanha recebeu do candidato uma síntese bastante fiel da sua sedução pela violência, pela morte alheia, pelas palavras e atos moldados no primarismo feroz.

Não há eleitor ingênuo nesse drama brasileiro, se não for tragédia. Não há, portanto, eleitor inocente nos que produziram a vitória nas urnas. Nem mesmo o grande contingente dos evangélicos. Do qual não se sabe se mais usou ou foi usado pela classe rica, na busca de um poder que só compartilham na aparência, enquanto afiam as lâminas.

Nas responsabilidades da classe média estão as dos militares, em particular a da oficialidade do Exército, ativa e reformada. É imaginável que seu pudor profissional, já com muitos hematomas, esteja agora envolto em sentimentos misturados que a perplexidade silencia. Aos olhos da paisanada, a formação do militar do Exército está sob muitas interrogações. Não só pela figura central, mas também pelo endosso que lhe foi dado e pela associação que, noticiou o "Estado de S. Paulo", já conta com mais de uma centena de militares em postos do governo.

Aos militares do núcleo de poder há que reconhecer o respeito demonstrado por suas funções, na relação com os cidadãos. Nada de arroubos, nem de exibicionismo. Apesar de daí decorrer, também, o desconhecimento geral do que pensam esses militares, mesmo que só como definições de políticas públicas. E isso inquieta, porque é quase unânime a percepção do péssimo estado do país. E do que alguns ministros já começaram para piorá-lo.

Má conduta tuiteira tem a ver com o Ministério da Justiça, embora também com a área da comunicação. O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever.

Na casa de Sergio Moro, a vitória de Jair Bolsonaro teve comemoração, levada por sua mulher às redes sociais. Prova de identificação que elimina as hipóteses de encontro com o inesperado, por parte de quem renegou a toga para estar ao lado de quem hoje escandaliza. Moro leva a muitas afirmações de surpresa, entre seus admiradores, mas não pode se surpreender com "o mito".

Jair Bolsonaro encerrou sua mensagem suja com este pedido: "Comentem e tirem suas conslusões" (sic). No que me cabe, pedido atendido.

Janio de Freitas

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

domingo, 23 de dezembro de 2018

Dois Natais e um país no meio, por Jânio de Freitas



O Natal dói. Não são todos a sentir essa dor. Depende do que a memória diz, e como diz. Das perdas e dos ganhos. Do tempo, talvez. É uma dor vadia. Uma dor sem lugar de doer. Está aqui, está aí, simplesmente.

O Natal que chega me trouxe mais do que essa sensação. Há dias, para mim tudo tem se parecido muito com o final do primeiro ano que vivi como jornalista profissional, excitado com as descobertas naquele 1954. O país agora dividido, dizem, desde a eleição presidencial de 2014, naquele ano era reconhecido como dividido e irreconciliável.

Quatro meses antes, Getúlio se matara, e os defensores de uma política de desenvolvimento industrial e exploração própria de petróleo, contra a política americana de retenção da América Latina, estavam apreensivos e desnorteados. Os conservadores ocupavam outra vez o poder, e as conquistas do governo de Getúlio ficavam ameaçadas. Não é difícil encontrar paralelos entre aquela e a atual fase.

O que mais aproxima os dois momentos, porém, a meu ver é o estado de ânimo dos opostos. Os abatidos na Lava Jato e destituídos do poder reproduzem hoje os sentimentos dos golpeados com Getúlio e retirados do poder. Situações políticas e anímicas equivalentes. Mas a direita de 54 não desfrutou do otimismo que a vitória, por si, podia lhes dar. A situação febril continuou. O ano entrante era esperado com inquietação pelos conservadores, tanto mais que seria ano de eleições e o seu recente controle do poder estaria sob risco.

A euforia dos apoiadores populares de Bolsonaro — da qual não está claro se feita mais de direitismo ou de mera reação aos políticos — não é correspondida no segmento de fato e de direito representativo do conservadorismo. Por mais que evitada a sua exposição, a insegurança sobre o próximo governo é o senso comum no empresariado e na classe média, de sua camada central para cima. As muitas incógnitas do plano e do próprio Paulo Guedes, os já iniciados problemas de comércio exterior decorrentes de política externa, e a reforma tributária produzem um quadro de tensões que dá equanimidade aos conservadores de 54 e de hoje.

Os Natais se sucedem. O Brasil se repete.

A cada leitor, ameno ou raivoso, o desejo de que viva um Natal de levezas e sorrisos.

Leituras

Ainda há tempo. "A fogueira das vaidades" (reedição natalina da Rocco), romance do jornalista Tom Wolfe que é quase uma grande reportagem da modernidade. Leonardo Padura, o do best-seller "O homem que amava cachorros", está de volta com "A transparência do tempo" (Boitempo). Quem não os leu, merece ganhá-los.

Janio de Freitas

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

As incertezas da educação em tempos de avanço do retrocesso, por Clarissa Peixoto


 "No livro O ano de 1993, José Saramago nos remete a um futuro hipotético, em que homens e mulheres habitam um mundo devastado por forças ocultas que disseminam a violência. "


Ilustração do livro "O ano de 1993", de Graça Morais



No livro O ano de 1993, José Saramago nos remete a um futuro hipotético, em que homens e mulheres habitam um mundo devastado por forças ocultas que disseminam a violência. Hordas humanas perambulam por campos e desertos, aterrorizadas por animais mecanicamente modificados. Em uma das passagens do livro, ele narra que o comandante das tropas de ocupação tem um feiticeiro no seu estado-maior. A ele cabe diminuir a cidade evocando seus poderes, assistir ao comandante chicotear a cidade até se cansar para depois trazê-la ao seu tamanho normal novamente. Assim, após uma noite inteira de açoite, os habitantes se perguntam sobre as marcas de chicotadas que têm no rosto, mas com a certeza de que nada lhes acontecera.
O ano de 1993 foi escrito em 1975. É uma crítica ao regime salazarista, ciclo fascista que consumiu Portugal durante 41 anos, encerrado com a Revolução dos Cravos. A cena proposta por Saramago é constituída pela mitificação religiosa, a fragmentação da organização coletiva e o uso da força do aparato de coerção. A barbárie é a consequência.
Recupero a narrativa porque ela traz elementos para alguma reflexão sobre o novo ciclo que se apresenta após as eleições de 2018, sobretudo, se tomarmos como ponto de partida a educação. No ensino básico, intenções como criar a modalidade de ensino à distância foram defendidas pelo presidente eleito. A medida já faz parte das novas Diretrizes Curriculares Nacionais, homologadas pelo atual governo, que prevê, a critério de cada estado, a opção de oferecer a modalidade no ensino médio. O caráter da proposta tem como fundo a desconstrução de uma perspectiva de coletividade, enfraquecendo a escola como espaço formador de consciência e de diálogo.
Outro aspecto que assolapa a educação brasileira segue em torno do polêmico projeto que busca implementar o Programa Escola sem Partido. Ele impõe uma série de restrições à prática profissional de professores e à livre manifestação do pensamento. A proposta carrega o espectro ideológico do totalitarismo, impedindo que visões de mundo possam ser apresentadas ao conjunto de estudantes. Diversas versões da lei tramitam em Assembleias Legislativas e Câmara Municipais brasileiras.
Recentemente, a deputada estadual eleita em Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo (PSL), incitou estudantes a filmar e denunciar professores, abrindo um canal informal de denúncias, após o segundo turno das eleições. A atitude gerou uma ação civil do Ministério Público do Estado de Santa Catarina, ajuizada contra a deputada eleita. O Escola sem Partido é correlato às críticas que seus entusiastas propagam sobre o que chamam de ideologia de gênero e sua exclusão do plano educacional, o que encontra sustentação em visões religiosas fundamentalistas.
Os cortes nos orçamentos das universidades federais refletem a onda contra os espaços de produção do conhecimento. De acordo com a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o orçamento para obras, compra de equipamentos e manutenção para 2019 corresponde a 20% do que era investido em 2014, colocando a universidade pública em situação de alerta. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), os recursos para investimentos têm diminuído drasticamente nos últimos anos. Para 2019, a aplicação de recursos será de R$ R$ 4,5 milhões. Em 2016, quando as receitas começaram a cair, o orçamento era de R$25 milhões. Recentemente, o reitor da UFSC afirmou que haverá corte em diversas áreas.
A recente indicação de Ricardo Vélez Rodríguez para o Ministério da Educação vem completar o conjunto de incertezas que pairam sobre a educação brasileira. Vélez Rodríguez é  professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Entusiasta da privatização e do Programa Escola sem Partido, apresentou em texto intitulado Um roteiro para o MEC, crítica a “uma política estatizante criada por Vargas” e se comprometeu a desmontar aquilo que chama de “doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista, travestida de ‘revolução cultural gramsciana’, com toda a corte de invenções deletérias em matéria pedagógica como a educação de gênero”. Na posição de Vélez Rodríguez fica evidente a sua ideologia autoritária, rechaçando formas de pensar diferentes das que regem o novo governo. Fica a dúvida sobre o futuro da produção do conhecimento, diante de uma possível perda da liberdade e autonomia universitária para fazê-la.
O cenário parece regido por uma lógica composta pela desmobilização das ações coletivas, esvaziando espaços de convivência a partir do conhecimento; pelo medo diante da força de coerção, explicitada pela ampla participação dos militares no próximo governo e a mistificação religiosa fundamentalista, como no apocalíptico mundo de O ano de 1993. No entanto, Saramago inspira a resistência sobre as contradições. O autor sempre acende uma centelha de esperança sobre a barbárie. Basta lembrar que O ano de 1993 é varrido por um grande vento, e houve quem chorasse e quem cantasse naquele dia que amanheceu em uma terra livre.

Referências:
O ano de 1993, José Saramago. Companhia das Letras, 2007.
Clarissa Peixoto - Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS
Fonte do texto: ObjETHOS

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A dimensão perversa da “cordialidade” brasileira, por Leonardo Boff




Em 31/10/2014 publiquei no JB on line um artigo sobre o que significa o brasileiro como “homem cordial”. Republico-o, modificado, por sua alta atualidade. 
Nos últimos dois anos temos conhecido uma onda de ódio e discriminação sem precedentes em nossa história. Particularmente durante a campanha eleitoral para presidente. Houve injúrias, calúnias, milhões de fake news e todo tipo de palavrões. Ai se mostrou o lado perverso do assim chamado povo brasileiro como “cordial”.
Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade”como bondade e a polidez. Mas “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107).
Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Eu diria que ele é um sentimental mais que cordial, o que me parece mais adequado.
Escrevo tudo isso para tentar entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2018. Houve por uma parte declarações de entusiasmo até ao fanatismo e por outra, de de fascismo e de ódios profundos e expressões chula. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.
Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos programas partidários na TV.
Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a língua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo ou o servidor que pouco tem e se submete. Gerou-se também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça de importantes oligarcas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.
Outra tradição muito perversa foi a escravidão tão bem descrita por Jessé Souza em seu livro:”A elite do atraso:da escravidão à Lava-Jato”(2018). Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. São discriminados e postos nas periferias, humilhados a ponto de perderam a própria autoestima.
A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir, porque antes fazia tudo de graça e, imagina-se que deve continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Uma madame da alta classe disse certa vez:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.
As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo de nossas cidades históricas. O nordestino é ignorante, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.
Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres demasiadamente contraditórios.
Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade.
Esta situação não é um defeito da criação mas uma característica da condition humaine. Cada um tem que saber equilibrar estas duas forças e dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras e de sapiente sobre as de demente.
Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender como dizia Spinoza. Mas não é suficiente entender. Urge praticar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeitem as minorias e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos, num projeto por todos assumido. Só assim se gesta o que se chamou o Brasil como a “Terra da boa Esperança”(Ignacy Sachs).
Não será o presidente eleito a pessoa da reconciliação nacional, pois ele, por seu estilo, é fator de divisão e criador de uma atmosfera social de violência e discriminação.
Leonardo Boff escreveu “O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade”, Vozes, Petrópolis 1998.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

2016 até hoje, com Supremo, com tudo: um Golpe Estamental ligado aos interesses da Elite do Atraso.... Leia as reflexões de Jorge Alexandre Neves



"Portanto, no Brasil, esse estamento excepcionalmente poderoso se configura em uma elite que em certos momentos colabora e em certos momentos se contrapõe à plutocracia do mercado (classe economicamente dominante) ou a frações dela. Esse elemento estamental também nos ajuda a entender porque aqui nunca houve uma “classe média” que se mobilizasse na busca de direitos universais, como o saudoso Milton Santos tão bem denunciou em uma palestra disponível na internet, ao ressaltar que, no nosso país, a “classe média” sempre quis privilégios e não direitos universais."

Do Jornal GGN:



Um Golpe Estamental, por Jorge Alexandre Neves
Nas décadas de 1960 e 1970, houve no meio acadêmico um rico debate sobre o estado capitalista ou o estado nas sociedades capitalistas. Vários pensadores das diferentes disciplinas das ciências sociais e das humanidades participaram desse debate. Entre eles, destacaria três nomes: Nicos Poulantzas (grego radicado na França), Ralph Miliband (belga naturalizado inglês) e o americano Erik Wright. Esses pensadores terminaram desenvolvendo o que ficou conhecido como uma abordagem neomarxista do estado capitalista. De forma muito sintética, sua principal contribuição teórica foi a de perceber o estado capitalista como uma estrutura de relações sociais, como arena privilegiada do conflito de classes.
Esse debate teórico é muito útil para entendermos a dinâmica política brasileira. Todavia, ao buscar relacionar o estado à estrutura de estratificação das sociedades, esses pensadores não deram conta da complexidade desse conjunto de relações sociais. No mundo moderno, as estruturas de estratificação social são mais complexas do que qualquer grande abordagem teórica conseguiu vislumbrar. Talvez o sociólogo alemão Max Weber tenha sido aquele que, ao propor uma abordagem multidimensional da estratificação social, tenha conseguido uma melhor compreensão dessa realidade complexa. Da mesma forma, conseguiu identificar alguns importantes efeitos das relações entre os estratos sociais e o estado. Parte dessa contribuição de Weber foi incorporada pelos autores do debate citado, acima. Em particular, Erik Wright.
Em qualquer sociedade moderna convivem relações de dominação e de exploração que configuram estruturas de estratificação social não apenas de classe, mas também estamental. Importantes pesquisadores contemporâneos, como Yossi Shavit, têm encontrado evidências empíricas, em nível internacional, que demonstram que a desigualdade estamental é hoje tão ou mais importante do que a desigualdade de classes. Se observarmos a literatura internacional, vemos que o mundo vive numa dinâmica bimodal de desigualdade social. Para os percentis superiores da renda, o que interessa é, de fato, a riqueza e é ela que é transmitida intergeracionalmente para garantir a reprodução social da classe economicamente dominante. Para os demais, o principal ativo é a educação formal e o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou de “capital cultural”. Para a grande maioria das famílias, em qualquer sociedade moderna, o fator fundamental da reprodução intergeracional da desigualdade é a educação formal e o capital cultural.
Se os elementos estamentais dos sistemas de estratificação social são um fenômeno universal, eles são ainda mais centrais no Brasil, por razões históricas, que, inclusive, nos diferenciam dos demais países latino-americanos. O livro “A Construção da Ordem”, de José Murilo de Carvalho, traz os fundamentos historiográficos para entendermos a especificidade do caso brasileiro.
No seu livro, José Murilo de Carvalho mostra que, em Portugal, o estado absolutista se desenvolveu de forma precoce, já a partir do final do século XIV. Esse processo levou a um fortalecimento da coroa em detrimento da aristocracia, o que teria levado a um relativo empobrecimento desta última. Haveria, então, sobrado para a aristocracia lusitana o emprego público como uma importante fonte de renda e de prestígio. Teria sido formado, em Portugal, um estamento burocrático e profissional de origem aristocrática e que se encrustou na estrutura formal do estado. Uma evidência do peso dessa herança histórica em Portugal, ainda hoje, é o fato de que lá se encontra, de longe, a maior desigualdade educacional entre os países europeus. Gabriele Ballarino e Elena Meschi mostram que os Coeficientes de Gini dos anos de escolaridade de Portugal é de 0,332, enquanto que o segundo maior, o espanhol, é de 0,281, o italiano é 0,240 e o grego é 0,229. A reprodução estamental depende fortemente da capacidade de controle das oportunidades educacionais.
Em 1908, essa mesma estrutura terminou de ser transposta para o Brasil. Nas palavras de José Murilo de Carvalho: “Essa transposição de um grupo dirigente teria talvez maior importância que a transposição da própria Corte portuguesa e foi fenômeno único na América.”
Esse estamento burocrático e profissional, no Brasil, continuou sempre encrustado no estado ou gravitando em torno dele. Como demonstra Edmundo Campos Coelho, em seu livro “As Profissões Imperiais”, os profissionais ditos “liberais” – profissionais estes que, segundo João Cabral de Melo Neto, em seu poema “Morte e Vida Severina”, “não se libertaram jamais” – buscaram a proteção do estado desde o início da formação de suas corporações. Nas palavras do próprio Edmundo Campos Coelho, esses profissionais terminaram, assim, se caracterizando como “elites saturadas de valores excludentes, antidemocráticos, antipovo.”
Uma nova literatura internacional sobre neopatrimonialismo (entre outros, vale ressaltar os trabalhos do sociólogo e historiador Ivan Ermakoff) tem mostrado que este é um fenômeno internacional. Assim, embora eu discorde de Jessé Souza sobre a utilidade do conceito de neopatrimonialismo, concordo com ele que o conceito não serve para identificar uma especificidade do Brasil ou da América Latina. Como bem demonstra Ivan Ermakoff, relações sociais patrimonialistas podem se incorporar a qualquer organização burocrática, pública ou privada. Todavia, a existência, no caso brasileiro, de um estamento burocrático e profissional de tal forma encrustado no estado serve de catalizador para práticas patrimonialistas que envolvem não apenas o referido estamento, como também indivíduos oriundos de quaisquer estratos sociais, em particular da plutocracia empresarial. No Brasil, as práticas neopatrimonialistas e o estamento burocrático e profissional se alimentam mutuamente.
Portanto, no Brasil, esse estamento excepcionalmente poderoso se configura em uma elite que em certos momentos colabora e em certos momentos se contrapõe à plutocracia do mercado (classe economicamente dominante) ou a frações dela. Esse elemento estamental também nos ajuda a entender porque aqui nunca houve uma “classe média” que se mobilizasse na busca de direitos universais, como o saudoso Milton Santos tão bem denunciou em uma palestra disponível na internet, ao ressaltar que, no nosso país, a “classe média” sempre quis privilégios e não direitos universais.
A essa altura acredito que já deixei bastante claro que a reprodução intergeracional de um estamento burocrático e profissional depende, fundamentalmente, do monopólio das melhores oportunidades educacionais. Foi nesse ponto que os governos petistas começaram a incomodar profundamente o estamento burocrático e profissional. Entre todas as dimensões da desigualdade que foram, de alguma forma, reduzidas durante a era petista, a educação foi a mais fortemente atingida. Como também ocorreu nas socialdemocracias europeias, os governos petistas conseguiram atingir a desigualdade educacional de forma muito mais efetiva do que a desigualdade de riqueza ou de renda (como os estudos feitos a partir da metodologia de Thomas Piketty têm mostrado). Está aí a principal energia de ativação do golpe de 2016! Um típico caso de “conflito de status”, como definido por Randall Collins.
O golpe de 2016 foi iniciado pelo estrato social que se sentia mais incomodado com a nova realidade que se passava a construir no Brasil. A plutocracia empresarial e rentista veio a reboque. Assim como os próprios políticos. O marco fundamental do golpe foi o dia 16 de março de 2016, quando o “herói” estamental, Sérgio Moro, gravou ilegalmente conversas do Ex-Presidente Lula com a então Presidenta Dilma e liberou a gravação para a mídia. Não por acaso, um ato perpetrado por um ilustre representante do estamento.
Antes de concluir, vale lembrar que o PT, por muito tempo, investiu em uma relação política privilegiada com o estamento. O fato mais simbólico disso foi a introdução da lamentável prática de nomear o candidato mais votado para PGR. Espero que se tenha aprendido a lição!

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Histórica entrevista do pesquisador, doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Jessé Souza, fala sobre a mentalidade escravocrata e patrimonialista da Elite do Atraso oligarca em entrevista à TV Fespesp






O país vive um período de descrédito em suas instituições. O presidente Michel Temer encontra o juiz do STF em casa e, às escuras, os dois jantam com o chefe do Congresso. Tudo sem publicidade. O que eles combinam por trás das portas? Quem manda neste país? “Quem faz uma sociedade, no fundo, é a força de suas instituições. E a grande instituição que existia aqui desde 1532 é a escravidão”, diz Jessé Souza, pesquisador e ex-presidente do IPEA, uma fundação pública ligada ao Ministério do Planejamento. Jessé está lançando o livro “A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato” e é o convidado do próximo ‘Sala de Professores’, da TV Fepesp. Em entrevista a Celso Napolitano e Gilberto Maringoni, professor da UFABC, o pesquisador fala sobre como se dá a corrupção corporativa e como a reforma trabalhista ainda reforça práticas que remontam aos tempos da escravidão.

Sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC discorre sobre o esquema do fascismo, através do incentivo ao ódio canalizado pela mídia, como instrumento de manipulação política de parte da classe média.



Trechos de  entrevistas do sociólogo Jessé Souza a Luis Nassif, Paulo Henrique Amorim e em uma entrevista para a TV Fepesp. Do Canal Tattoo no Toco (no Youtube):


TV 247 entrevista o sociólogo e pesquisador Jessé Souza que fala sobre a Elite do Atraso



Da TV 247:





domingo, 5 de novembro de 2017

Le Monde Diplomatique sobre a hegemonia das ideias arcaicas e conservadoras: O problema do Brasil é o ódio ao pobre


Do Le Monde Diplomatique Brasil:

As noções de patrimonialismo e populismo são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média. Elas, afinal, são as guardiãs da “distância social” em relação aos pobres, que é a pedra de toque da aliança antipopular construída no Brasil para preservar o privilégio, acesso aos capitais econômico e cultural, de 20% contra os 80% de excluídos.

ODIO_AOS_POBRES

Este artigo é o resumo parcial de um fio condutor que percorre meu último livro, lançado em setembro pela editora Leya com o título A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Na publicação, busco enfrentar o desafio ambicioso de formular uma gênese histórica alternativa à narrativa hoje dominante, seja na direita, seja na esquerda do espectro político, da sociedade brasileira contemporânea. Como já defendi em outras obras,1 minha tese é a de que o liberalismo conservador é a narrativa oficial do Brasil moderno, inclusive para a esquerda colonizada intelectualmente pela direita. Os pais fundadores dessa leitura são Sérgio Buarque e Raymundo Faoro. A partir da entronização desses autores como referência universitária para a formação de todas as elites e, como consequência dessa consagração, também de tudo que a grande imprensa diz sobre o país, passa a existir um grande consenso inarticulado e pré-reflexivo que contamina praticamente tudo que se formule sobre o país no nível mais explícito dos argumentos.

É necessário quebrar a hegemonia dessas ideias arcaicas e conservadoras para que a teoria e a prática política brasileira possam mudar de modo efetivo. A histeria acerca da corrupção política, por exemplo, identificada pela população e pela imprensa como o maior problema nacional, advém do domínio dessas ideias. A identificação de uma suposta elite todo-poderosa no Estado, e não no mercado, suprema tolice que possibilita a virtual invisibilidade da ação predatória dos oligopólios e da intermediação financeira, também é fruto dessa hegemonia. De resto, toda a cantilena da corrupção como herança cultural portuguesa, do advento de um patrimonialismo pré-moderno cujo racismo implícito já critiquei,2 serve para que supostas “heranças culturais” pensadas como “heranças de sangue” fiquem no lugar de uma análise científica dos conflitos sociais e da gênese da desigualdade social. A tese dominante do patrimonialismo, como leitura hegemônica sobre a sociedade brasileira, foi a responsável por tomar a corrupção política como aspecto central e a desigualdade social como questão secundária. É essa inversão absurda de perspectiva e de prioridade que o livro pretende corrigir.

Essa tese do patrimonialismo ocupa o lugar da centralidade da escravidão entre nós e representa uma estratégia de tornar invisível a própria herança desta. Embora no livro eu reconstrua a escravidão e seus efeitos desde o Brasil Colônia, aqui a limitação de espaço me obriga a inquirir acerca de sua feição mais moderna. Como se constrói, no século XX, uma sociedade que reproduz todas as iniquidades do ódio, humilhação e desprezo contra os mais frágeis que caracterizam a escravidão?

Minha tese é que isso foi realizado como programa político conduzido conscientemente pela elite econômica, em primeiro lugar a elite paulistana, como forma de assegurar para si a condução ideológica da sociedade e limitar a ação política dos setores populares mesmo em um contexto de sufrágio universal. A astúcia da elite foi perceber, já no início do século XX, quando uma classe média começa a despontar de modo incipiente nas grandes cidades brasileiras, que, se os pobres poderiam ser oprimidos pelo cassetete e pelo fuzil dos policiais, a classe média exigia uma estratégia alternativa. Ao contrário da violência material, aplicada indiscriminadamente contra os pobres, contra a classe média a violência teria de ser “simbólica” para produzir cooptação e “convencimento”.

A perda do poder político para Getúlio Vargas vai ser o ponto de inflexão dessa estratégia. Nesse momento, a elite econômica paulistana vai procurar se utilizar de seu “poder material” para construir as bases do seu “poder simbólico”. A ideia-guia foi construir uma hegemonia ideológica como forma tanto de reconquistar o poder político como de limitar o poder dos eventuais inimigos de classe alçados ao controle do Estado.

A classe média não é uma classe necessariamente conservadora. Também não é uma classe homogênea. O Movimento Tenentista, conhecido como o primeiro movimento político comandado pelos “setores médios” no Brasil, revela bem essas características. Ainda que tenha sido protagonizado por oficiais militares de baixa e média patente (daí o nome “tenentismo”) a partir dos anos 1920, o movimento refletia já a nova sociedade mais urbana e moderna que se criava. A parte rebelde da instituição militar era uma expressão desses novos anseios.

A oposição ao pacto conservador da República Velha, com suas eleições fraudadas e restritas, era o ponto de união entre os tenentistas. Dentro do movimento, no entanto, conviviam desde as demandas liberais por voto secreto e por maior liberdade de imprensa até o desejo de um Estado forte como meio de se contrapor ao mandonismo rural. Parte do grupo se radicalizou politicamente na Coluna Prestes, cujo líder, Carlos Prestes, seria o fundador do partido comunista brasileiro. Parte do grupo se alinhou desde a Revolução de 1930 com Getúlio Vargas, enquanto outra parte exerceu ferrenha oposição a ele todo o tempo. O nosso primeiro movimento político com claro suporte e apoio da classe média já mostra a extraordinária multiplicidade de posições políticas que essa classe pode abrigar.

Quando Sérgio Buarque elegia o “patrimonialismo” das elites que habitam o Estado como o grande problema nacional, ele não estava dando vida, portanto, a nenhum sentimento novo. A “corrupção do Estado” era uma das bandeiras centrais do tenentismo. Poder-se-ia, por exemplo, perceber a corrupção do Estado como efeito da captura deste pela própria elite econômica que o usa para defender e aprofundar seus privilégios. Isso teria levado a uma conscientização coletiva dos desmandos de uma elite apenas interessada na perpetuação de seus privilégios.

Não foi essa a interpretação que prevaleceu. A elite do dinheiro paulista, que havia perdido o poder político, ainda que mantido o econômico, agiu de modo astucioso, calculado e planejado. Percebeu claramente os sinais do novo tempo. A truculência do “voto de cabresto” estava com os dias contados. No lugar da “violência física” deveria entrar a “violência simbólica” como meio de garantir a sobrevivência e a longevidade dos proprietários e seus privilégios.

Com o Estado na mão dos inimigos, a elite do dinheiro paulistana descobre a “esfera pública” como arma. Se não se controla mais a sociedade com a farsa eleitoral acompanhada da truculência e da violência física, a nova forma de controle oligárquico tem de assumir novas vestes para se preservar. O domínio da “opinião pública” parece ser a arma adequada contra inimigos também poderosos. O que estava em jogo aqui era a captura agora intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, formando a “aliança de classe dominante” que marcaria o Brasil daí em diante.

Como se construiu esse projeto no alvorecer do século XX?

A USP, a universidade do estado de São Paulo, foi criada por essa mesma elite desbancada do poder político e pensada como a base simbólica, uma espécie de think tank gigantesco do liberalismo brasileiro a partir de então, desse projeto bem urdido de contrapor a força das ideias generalizadas na sociedade contra o poder estatal, desde que este seja ocupado pelo inimigo político, à época representado por Getúlio Vargas

Sérgio Buarque é menos o criador e mais o sistematizador mais convincente do moralismo “vira-lata” que irá valer, a partir de então, como versão oficial pseudocrítica do país acerca de si mesmo. Como o “Estado corrupto” passa a ser identificado como o mal maior da nação, a elite do dinheiro ganha uma espécie de “carta na manga” que pode ser usada sempre que a “soberania popular” ponha no governo, inadvertidamente, alguém contrário aos interesses do poder econômico.

Com base nesse eixo intelectual eivado de prestígio, essa concepção se torna dominante no país inteiro. Toda a vida intelectual e letrada vai respirar os novos ares. Isso não significa obviamente dizer que a USP não tenha produzido coisa distinta do liberalismo conservador das elites. Florestan Fernandes e sua atenção aos conflitos sociais realmente fundamentais provam o contrário. Existe uma tradição nesse sentido também por lá. Mas essa tendência é menos poderosa que a versão dominante, posto que sem a network com as editoras, as agências de financiamento, a grande imprensa e seus mecanismos de consagração; além de ela própria ter assimilado aspectos importantes da tradição conservadora elitista como a aceitação implícita ou explícita da tese do patrimonialismo.

Desde essa época o “liberalismo conservador”, baseado no falso moralismo da “higiene moral” da nação, vai ser a pedra de toque da arregimentação da classe média. Isso não significa dizer que o moralismo não tenha eco também nas outras classes. Em alguma medida esse discurso nos toca a todos. Mas na classe média ele está em “casa”. É que as classes sociais estão sempre disputando não apenas bens materiais e salários, mas também prestígio e reconhecimento, ou em uma palavra: legitimação do próprio comportamento e da própria vida.

As classes superiores, que monopolizam capital econômico e cultural, têm de justificar, portanto, seus privilégios. O capital econômico se legitima com o “empreendedorismo” de quem “dá emprego” e ergue impérios, e com o suposto bom gosto inato de seu estilo de vida, como se a posse do dinheiro fosse mero detalhe sem importância.

A legitimação dos privilégios da classe média é distinta. Como seu privilégio é invisível pela reprodução da socialização familiar que esconde seu trabalho prévio de “formar vencedores”, ela é a classe por excelência da meritocracia e da superioridade moral. Estas servem para distingui-la e para justificar seus privilégios em relação tanto aos pobres como aos ricos. É que, se os pobres são desprezados, os ricos são invejados. Existe uma ambiguidade nesse sentimento, em relação aos ricos, que vincula admiração e ressentimento.

A suposta superioridade moral da classe média dá à sua clientela tudo aquilo que ela mais deseja: o sentimento de representar o melhor da sociedade. Não só é a classe que “merece” o que tem por esforço próprio, conforto que a falsa ideia da meritocracia propicia, mas também a classe que tem algo que ninguém tem, nem os ricos, que é a certeza de sua “perfeição moral”.

Como na imensa maioria dos casos não possui os meios para se envolver nas grandes negociatas que manipulam milhões, a classe média não tem sequer, na prática, o dilema moral de se deixar ou não corromper. Como justificação e legitimação da própria vida, o esquema moralista é, portanto, perfeito. Em relação aos poderosos, a classe média pode se ver sempre como “virgem imaculada” e moralmente perfeita.

A elite do dinheiro soube muito bem aproveitar as necessidades de justificação e de autojustificação dos setores médios. “Comprou” uma inteligência para formular uma “teoria liberal moralista” feita com precisão de alfaiate para as necessidades do público que queria arregimentar e controlar. Esse tipo de “compra” da elite intelectual pela elite do dinheiro não se dá apenas nem principalmente com dinheiro. São os “mecanismos de consagração” de um autor e de uma ideia seguindo, aparentemente, todas as regras específicas do campo científico.

Mas a quem pertencem os jornais, as editoras e os bancos e empresas que financiam os prêmios científicos? Desse modo, sem parecer “compra”, o expediente é muito mais bem-sucedido. Depois, usou sua posição de proprietária dos meios de produção material para se apropriar dos meios simbólicos de produção e reprodução da sociedade. É aqui que entra a relação que existe até hoje entre imprensa, universidade, editoras e capital econômico.

Todo o discurso elitista e conservador do liberalismo brasileiro está contido em duas noções que foram desenvolvidas na USP – a universidade criada pela elite antiestatal paulistana – e depois ganharam o Brasil: as ideias de “patrimonialismo” e de “populismo”.

Se o patrimonialismo torna invisível a base real do poder social ao estigmatizar o Estado e seus ocupantes sempre que as eleições ponham alguém não palatável pela elite da rapina econômica na disputa eleitoral, o populismo estigmatiza qualquer pretensão popular.

A noção de “populismo”, atrelada a qualquer política de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de qualquer sociedade democrática. Afinal, como os pobres, coitadinhos, não têm mesmo nenhuma consciência política, a soberania popular e sua validade podem ser sempre, em graus variados, postas em questão.

O “voto inconsciente” corromperia a validade do princípio democrático por dentro. A proliferação dessa ideia na “esfera pública” por meio da sua “respeitabilidade científica” e depois pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados, é impressionante. Os best-sellers da ciência política conservadora comprovam a eficácia dessa balela.3

As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua “tropa de choque” sempre que necessário. Elas, afinal, são as guardiãs da “distância social” em relação aos pobres, que é a pedra de toque da aliança antipopular construída no Brasil para preservar o privilégio, acesso aos capitais econômico e cultural, de 20% contra os 80% de excluídos em alguma medida significativa.

O segundo ponto da justificação da classe média para baixo, em relação às classes populares, é o ponto mais interessante e que a transforma definitivamente na marionete perfeita da elite do dinheiro. A classe média brasileira possui um ódio e um desprezo pelo “povo” cevados secularmente. Essa é talvez nossa maior herança intocada da escravidão, nunca verdadeiramente compreendida e criticada entre nós. Para que se possa odiar o pobre e humilhá-lo, tem-se de construí-lo como culpado de sua própria (falta de) sorte e ainda torná-lo perigoso e ameaçador. Se possível, deve-se humilhá-lo, enganá-lo, desumanizá-lo, maltratá-lo e matá-lo cotidianamente. Era isso que se fazia com o escravo e é exatamente a mesma coisa que se faz com a “ralé de novos escravos” hoje em dia. Transformava-se o trabalho manual e produtivo em vergonha suprema, como “coisa de preto”, e depois se espantava que o negro não enfrentasse o trabalho produtivo com a mesma naturalidade que os imigrantes estrangeiros, para quem o trabalho era símbolo de dignidade. Dificultava-se de todas as formas a formação da família escrava, e nos espantamos com as famílias desestruturadas dos nossos excluídos de hoje, mera continuidade de um ativismo perverso para desumanizar os escravos de ontem e de hoje.

Os escravos foram sistematicamente enganados, compravam a alforria nas minas e eram escravizados novamente e vendidos para outras regiões, eram brutalizados, assassinados covardemente. A matança continua também agora, com os novos escravos de todas as cores. O Brasil tem mais assassinatos – de pobres – que qualquer outro país do mundo. São 60 mil pobres assassinados por ano no Brasil. Existe uma guerra de classes hoje declarada e aberta. Construiu-se toda uma percepção negativa dos escravos e dos seus descendentes como feios, fedorentos, incapazes, perigosos e preguiçosos, isso tudo de forma irônica, povoando o cotidiano com ditos e piadas preconceituosas, e hoje muitos se comprazem em ver a profecia realizada. Não se entende a miséria permanente e secular dos nossos excluídos sociais sem esse ativismo social e político covarde e perverso de nossas classes “superiores”.

O ódio secular às classes populares parece-me a mais brasileira de todas as nossas singularidades sociais. Como os preconceitos são sociais, e não individuais, como somos inclinados a pensar, todas as classes superiores no Brasil partilham desse preconceito. Ainda que, mais uma vez, ele esteja verdadeiramente “em casa” na classe média. Ainda que a classe média seja muito heterogênea, toda ela, sem exceção, inclusive o autor que aqui escreve, é portadora em maior ou menor grau desse tipo de preconceito. De alguma maneira “nascemos” com ele, o introjetamos e o incorporamos, seja de modo inconsciente e pré-reflexivo, seja de modo refletido e consciente, como ódio aberto. Mesmo quem critica os preconceitos os têm dentro de si, como qualquer outra pessoa criada no mesmo ambiente social. O que nos diferencia é a vigilância em relação a eles e a tentativa de criticá-los de modo refletido em alguns, e não em outros. Mas todos nós somos suas vítimas.

*Jessé Souza é sociólogo e autor, entre outros livros, de A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato (Leya, 2017), lançado em setembro e do qual este artigo foi extraído.
[Publicado na edição 122 do Le Monde Diplomatique Brasil – setembro 2017]