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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Jeferson Miola: Para pavor dos Bolsonaro, imprensa sabe o que eles “fizeram no verão passado”





A estratégia do clã Bolsonaro no escândalo Queiroz é de um primitivismo rudimentar e até pueril. Eles se iludem que, fugindo e se escondendo da justiça, o escândalo pode desaparecer, cair no esquecimento ou deixar de existir. Pensamento mágico.

Considerando os detalhes escabrosos descobertos até aqui, é compreensível a dificuldade da família conseguir apresentar uma versão coerente e consistente, que consiga ficar em pé. Por isso eles precisam fugir.

O caso Queiroz é como a metáfora citada pelo falecido juiz do STF Teori Zavascki: “a gente puxa uma pena e vem uma galinha”. Ou seja, o “rolo” do Queiroz é apenas uma pequena ponta de um iceberg muito mais profundo, abrangente e antigo.

O R$ 1,2 milhão movimentado atipicamente por Queiroz mediante o desvio do salário de funcionários laranjas e fantasmas [inclusive filhas e esposa] é, presumivelmente, a falcatrua mais branda a que os Bolsonaro estão chamados a esclarecer.

As ilicitudes praticadas nos gabinetes parlamentares dos Bolsonaro não são “apenas” as conhecidas e condenáveis práticas de “caixinhas” que financiam atividades dos mandatos.

Existem fortes indícios de movimentação milionária de dinheiro. Em 3 anos, só pelas contas do Queiroz passaram R$ 7 milhões. Suspeita-se de associação criminosa e negócios imobiliários que encobrem ilícitos de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito.

E, mais grave que tudo isso, é a revelação de laços que supostamente vinculam o clã dos Bolsonaro ao submundo das milícias e da criminalidade do Rio de Janeiro.

No GGN, Luis Nassif mencionou a Operação Quarto Elemento [ler aqui], que investiga a participação de agentes da PM e paramilitares no assassinato da Marielle e do Anderson e cujos integrantes da organização criminosa atuaram como segurança de Flávio Bolsonaro e de atos de campanha do governador eleito, o bolsonarista Willson Witzel.

O jornalista Lauro Jardim, no O Globo, divulgou que Queiroz se escondeu na favela de Rio das Pedras, que “É a segunda maior favela da cidade e dominada da primeira à última rua pela milícia mais antiga do Rio de Janeiro” [ler aqui]. Como fugiu de depoimentos e se refugiou no aparelho das milícias, o gesto do Queiroz caracteriza clara afronta ao Estado de Direito.

Em resposta à nota que a defesa de Queiroz lhe enviou mentindo que o ex-motorista ficara na casa da filha no Itanhangá, Lauro Jardim fulminou: “Queiroz passou alguns dias, sim, na favela de Rio das Pedras (entre os dias 17 e 20 de dezembro)”.

A situação dos Bolsonaro se agravou sobremaneira. Eles estão vivendo, na vida real, a agonia representada no filme “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”.

No filme, adolescentes retornam à cidade onde no verão anterior haviam cometido e ocultado um assassinato, e são recepcionados com um bilhete dizendo “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”. A partir daí o enredo se estabelece, o inferno se instala e um a um dos jovens implicados no assassinato é justiçado.

A sobrevivência do Bolsonaro é incerta. A imprensa sabe muito daquilo que a família esconde. A imprensa sabe o que os Bolsonaro “fizeram no verão passado”. Os Bolsonaro pensam que estão driblando todo mundo, mas na realidade estão tropeçando nas próprias pernas.

Jeferson Miola - Fonte: Contexto Livre

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Do DCM: Para Sérgio Moro, as pesquisas que indicam um fator de crescimento da violência pelo maior número de armas são "controversas" que seu chefe entende do assunto



"Sergio Moro e o chefe são a mesma pessoa e isso vai ficando apenas mais explícito. A entrevista à GloboNews sobre o decreto de Bolsonaro facilitando a posse de armas é de um obscurantismo atroz." - Kiko Nogueira
Do DCM:

Para Moro, as pesquisas sobre armas são “controversas” e o chefe dele é que sabe. Talquei? Por Kiko Nogueira

 
Moro na GloboNews: as pesquisas estão erradas, ele e o chefe estão certos
Todo eleitor recalcitrante de Jair Bolsonaro, diante da debacle do governo idiocrata, se apoia numa espécie de reserva moral identificada em Sergio Moro.
Moro seria um Bolsonaro de banho tomado. Elio Gaspari traduz bem essa mentalidade.
“Moro era a imagem do poder nacional, encarnando algo bem-vindo e novo. Suas decisões eram festejadas, mesmo quando absolvia”, diz Elio em seu mundo encantado na Folha.
Sergio Moro e o chefe são a mesma pessoa e isso vai ficando apenas mais explícito. 
A entrevista à GloboNews sobre o decreto de Bolsonaro facilitando a posse de armas é de um obscurantismo atroz.
Em defesa do indefensável, Moro desfez das pesquisas que indicam que armar a população é uma medida ineficiente em termos de segurança pública.
“Essa questão de estatística, de causa de violência, sempre é um tema bastante controvertido. Claro que especialistas que trabalham com isso devem ser valorizados, até valorizamos isso reportando a estatística colhida por institutos, mas o fato é que isso é controverso”, falou.
“A política anterior não resultou numa diminuição significativa do número de homicídios no Brasil. Se a política de desarmamento fosse tão exitosa, o que teria se esperado era que o Brasil não batesse ano após ano o recorde em número de homicídios”.
Ora. Que tentasse justificar a palhaçada, mas honestamente.
Segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, de 1980 até 2003 as taxas de homicídios subiram em ritmo alarmante, com alta de aproximadamente 8% ao ano. 
Em 2003, o Estatuto do Desarmamento restringiu a posse e o acesso a armamentos e salvou mais de 160 mil vidas, de acordo com o Mapa da ViolênciaO crescimento estancou.
O Datafolha registrou que a maioria da população é contra a posse.
Ideia Big Data revelou que 70% dos brasileiros não pretendem comprar uma pistola ou algo do gênero.
Ninguém vai encontrar um levantamento a favor da canetada demagógica de Jair.
Até o estudo usado como referência para o decreto bolsonarista afirma que armas pioram o cenário de violência.
Mais fácil, portanto, desqualificar tudo o que se investigou sobre o tema. Fatos são discutíveis. Quem sabe é o Jair.
Não se espante se, em alguns dias, Moro passar a terminar sua parolagem com um “talquei”.
00:00/00:40Diário do Centro do Mundo
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Análise contrafactual, Moro e a taxa de homicídio, por Jorge Alexandre Neves


  "Logo após sua fala, a televisão mostrou um pesquisador afirmando que as evidências científicas têm demonstrado de forma consistente que o desarmamento tem um impacto significativo de redução das taxas de homicídio. Todavia, o Dr. Moro tentou desqualificar as pesquisas científicas sobre o assunto ao afirmar, segundo a Folha de São Paulo, que: “Essa questão de estatística, de causa de violência, sempre é um tema bastante controvertido”. Ele mostrou que não tem a menor ideia do que seja uma análise contrafactual."

Foto Agência Brasil

GGN. - Chama a atenção como no governo Bolsonaro até os quadros mais qualificados demonstram sérias limitações intelectuais. Assisti há pouco a reprise de parte de uma entrevista de Sérgio Moro na qual ele afirma que se o desarmamento tivesse tido algum efeito sobre a taxa de homicídio, o Brasil não teria uma taxa tão alta hoje. Logo após sua fala, a televisão mostrou um pesquisador afirmando que as evidências científicas têm demonstrado de forma consistente que o desarmamento tem um impacto significativo de redução das taxas de homicídio. Todavia, o Dr. Moro tentou desqualificar as pesquisas científicas sobre o assunto ao afirmar, segundo a Folha de São Paulo, que: “Essa questão de estatística, de causa de violência, sempre é um tema bastante controvertido” (1). Ele mostrou que não tem a menor ideia do que seja uma análise contrafactual (2).
Que um indivíduo como Onyx Lorenzoni fale bobagens como a de que um liquidificador é tão perigoso quanto uma arma (3), ainda vá lá. Mas, uma figura como Sérgio Moro, Professor Doutor de uma grande universidade federal, falando bobagens desse calibre é algo chocante. A análise contrafactual é algo básico, até instintivo, do método científico. Será que Sérgio Moro fez Bacharelado, Mestrado e Doutorado (além de um aperfeiçoamento em Harvard) e não conseguiu aprender nada do método científico? Como me dizia meu velho professor Heraldo Souto Maior, na UFPE: “há doutos que não são doutores e há doutores que não são doutos” (4). Definitivamente, credencialismo não é meritocracia.
Fernanda Mena, jornalista da Folha de São Paulo, parece entender mais do método científico (5). Em um artigo publicado na FSP em 09 de novembro último, ela mostra, usando um gráfico com base em dados puramente descritivo (a terceira figura do seu texto), uma análise contrafactual – simples, porém útil – que evidencia o impacto do Estatuto do Desarmamento sobre a taxa de homicídios, no Brasil. O gráfico dela é igual ao que apresento, abaixo (o leitor pode achar que o efeito visual da linha está mais suavizada no gráfico dela, mas isso se deve apenas ao fato de que o aplicativo de construção de gráfico que ela usou produz uma figura mais alargada do que o que utilizei).

O gráfico acima mostra que: a) a taxa de homicídio no Brasil despenca entre 2002 e 2004 e; b) a partir de 2005 ela retoma uma tendência de crescimento, porém a um ritmo menor do que antes. Lembrando que o Estatuto do Desarmamento é de 2003, o gráfico indica haver um efeito robusto deste sobre a taxa de homicídio. Para ter maior confiança de que o efeito é relevante, fiz uma análise econométrica básica conhecida como Teste de Chow (6). Este teste mostrou que: a) o valor esperado da queda da taxa de homicídio após o Estatuto do Desarmamento foi de 3,14 homicídios por 100 mil e; b) que a elevação esperada da taxa anual cai de 0,60 homicídio por 100 mil no período anterior ao Estatuto do Desarmamento para 0,35 homicídio por 100 mil no período posterior. O gráfico abaixo mostra de forma mais clara a diferença entre os valores esperados antes e depois do Estatuto do Desarmamento.

Observe-se que é possível identificar duas retas bem diferentes para o período de 1996 a 2003 e para os anos posteriores. Na linguagem técnica, dizemos que houve uma quebra estrutural da regressão (ou uma descontinuidade na regressão) a partir de 2004. Há tanto uma mudança no coeficiente linear (uma queda abrupta entre 2002 e 2004) quanto no coeficiente angular (a reta se torna menos inclinada a partir de 2004). O gráfico abaixo deixa ainda mais clara a mudança no coeficiente linear.

Pode-se ver que os dados posteriores a 2003 geram uma curva de regressão menos inclinada do que os dados do período anterior. Como era de se esperar, o coeficiente de determinação (R2) é menor para os dados do período mais recente.
Portanto, podemos concluir que a análise contrafactual apresentada acima deixa bastante claro que o Estatuto do Desarmamento teve, sim, um efeito bastante relevante de contenção das taxas de homicídio, no Brasil. Ou seja, as taxas de homicídio atualmente seriam bem maiores se o Estatuto do Desarmamento não tivesse existido. Sérgio Moro precisa melhorar muito sua capacidade de embromação para se tornar um político mais competente.
Jorge Alexandre Neves - Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.
(1) Talvez ele estivesse pensando no uso ridículo, absolutamente equivocado, da estatística bayesiana feita pelo procurador Deltan Dallagnol na denúncia que preparou contra o ex-presidente Lula no vexatório processo do tríplex.
(2) A contrafactual é a situação ou evento que não aconteceu, mas poderia ter acontecido. Os experimentos usam grupos selecionados aleatoriamente para conseguir a contrafactual de um grupo exposto a um tratamento, que seria, portanto, um grupo idêntico não exposto ao tratamento. No caso das taxas anuais de homicídio, a análise contrafactual tenta simular taxas de homicídio que teriam sido observadas se o Estatuto do Desarmamento não tivesse existido.
(3) Aliás, um dos ministros generais (não lembro qual, são tantos) falou algo semelhante, em uma entrevista na televisão. Porém, no lugar do liquidificador, usou o carro. Embora a escolha seja menos ridícula do que a do liquidificador – até porque o carro se tornou uma recorrente “arma” usada por terroristas – ele se esquece de um ponto fundamental: o carro é algo extremamente útil para o transporte, enquanto que armas de fogo só servem para ferir ou matar.
(4) Sérgio Moro está longe de ser o único doutor a formar o alto escalão do governo de Bolsonaro a demonstrar claras limitações intelectuais. Aliás, não sei onde conseguiram encontrar tantos doutores que não são doutos. Inclusive, formados em Chicago (o que não é nenhuma novidade, Joseph Stiglitz – prêmio Nobel de Economia, professor de Columbia, tendo antes lecionado em Princeton e Stanford – relatou que, quando foi economista chefe do Banco Mundial, viu que o mercado financeiro está repleto dos piores egressos dos melhores programas de Ph.D. do mundo). Habilidade intelectual significa capacidade analítica, o que parece ser algo bem escasso neste governo.
(5) Tive a curiosidade de buscar seu CV. Além de jornalista, é Mestre em Sociologia pela LSE-Universidade de Londres e está cursando o doutorado em RI na USP. Seus estudos parecem ter lhe dado mais capacidade analítica do que a alcançada pelo esforço de formação acadêmica de Sérgio Moro.
(6) Há análises bem mais complexas do que essa, mas que me tomariam muito mais tempo e só caberiam em um trabalho para publicação em um periódico científico. Para uma aplicação mais acadêmica do Teste de Chow, ver um capítulo, do qual fui um dos autores, de um livro organizado por Ernesto Amaral, hoje professor da Universidade do Texas-A&M (http://www.ernestoamaral.com/docs/books/avaliacao11.pdf).

Coronel da PM desmonta com bom senso a ideia estúpida de armar o ‘cidadão de bem’



O cidadão de bem e a bala perdida

Armar o cidadão de bem, como resposta à violência, é o argumento mais falacioso, mais inescrupuloso, que já ouvi a respeito do assunto. No ano passado, o Brasil registrou 59.103 mortes por crimes violentos letais e intencionais (CVLI). Na guerra da Síria, de 2017 a maio deste ano, portanto cinco meses a mais, morreram 43 mil pessoas. Estamos em guerra, estamos em guerra!

Daí, uma mente iluminada propõe como solução: mudar a legislação para armar o “cidadão de bem”. A primeira pergunta: quem é o cidadão de bem? Quem decide, ou escolhe, ou elege o “cidadão de bem”? Obviamente, interesses políticos e comerciais norteiam o engodo de que armar as pessoas diminuirá o número de mortes.

Quantos policiais têm perdido suas armas e, muitas vezes, suas vidas, pela ação de marginais? Ora, somente sendo muito estúpido para acreditar que o “cidadão de bem” estará preparado para esse enfrentamento. Armas matam, então, quanto mais armas mais mortes.

O discurso em defesa da “tese” é de que haverá treinamento, teste psicológico, para que as pessoas estejam aptas a andar armadas. Ora, se treinamento e teste psicológico garantissem o uso correto das armas, não teríamos policiais mortos e policiais presos, como temos.

Por falar em Policiais – uma categoria tão abandonada, tão desvalorizada, na qual deságuam os problemas que o poder público não deu solução, como se ela pudesse solucionar – vai ter seu trabalho multiplicado e dificultado. Além de mais gente armada, para fiscalizar, terá que possuir uma bola de cristal para distinguir, em segundos, o infrator do “cidadão de bem”. E, não se enganem, se errarem e confrontarem o “cidadão de bem”, adivinhem para que lado a “corda” vai arrebentar…

Arma é para a Polícia! Para os cidadãos, uma polícia bem formada, bem paga, bem fiscalizada para protegê-lo. QUANTO MENOS ARMA, MENOS VIOLÊNCIA!

O aspecto decisivo nesses embates cotidianos, envolvendo armas de fogo, é o fator surpresa. Esse é determinante! O infrator sempre busca o “alvo” mais fácil, distraído. Isso significa dizer que o “cidadão de bem” tem que estar atento o tempo todo, sem direito à distração, à diversão e à descontração. Assim é o dia-a-dia de um policial, nas ruas.

Por mais treinado que seja o profissional, isso gera tensão. Tensão essa, que pode levar a falhas, como o caso do policial que, recentemente, matou um trabalhador, porque confundiu um guarda-chuva com um fuzil. Imaginem o grau de estresse de um Policial, mal pago, morando em locais dominados pelo crime, não podendo sair de casa fardado, deixando sua mulher e filhos à mercê da sorte. Não! Não aumentem seus problemas. Os erros com armas de fogo, não são os mesmos cometidos nas provas de matemática, os erros com armas de fogo são fatais.

O outro discurso: “Vejam, não defendemos o porte de arma e sim, a posse, que é o direito de ter uma arma dentro de casa, não podendo transportá-la”. Muito bem, agora é diferente! Afinal, uma das qualidades do nosso povo é o cumprimento das leis. Comparemos, com uma arma legalizada e também letal, os veículos automotivos: quarenta e sete mil mortes por ano e quatrocentas mil pessoas com algum tipo de seqüela. Ops! Ultrapassamos a Síria, mais uma vez. Vivemos duas guerras! Alguém acredita, que pessoas que dirigem sem habilitação, com licenciamento vencido, embriagadas, vão deixar suas armas em casa, por não possuírem porte? Isso sem falar nos acidentes domésticos, na maioria das vezes, envolvendo crianças.

Hoje, o reduto de paz e segurança do “cidadão de bem”, são os condomínios fechados, murados, com vigilância eletrônica. Imaginemos cada casa com pelo menos uma arma. Lembremos da impaciência com som alto, animais soltos, veículos mal estacionados, que geram os pequenos conflitos nos espaços comuns. Juntemos à bebida do fim de semana e a alguns temperamentos mais violentos. Hum! Perigo à vista.

Daí, o cotidiano das favelas, que se tornou o trivial, o banal – uma mãe negra, com seu filho morto por bala perdida, nos braços (para alguns, menos um marginal no futuro) – transforma-se no extraordinário: a favela é um condomínio de luxo e a mãe, uma senhora de classe média alta. E o assassino? O “cidadão de bem”!

Que horror! Inacreditável! Que absurdo!

Pois é, “a felicidade não tem cor”, a tristeza, também não. Na tragédia, nos igualamos.

Então, cidadãos e cidadãs, refletir é de graça. Remediar tem preço. E, às vezes, não é possível remediar.

Armas matam! Bom senso, não!

Precisamos de menos armas, de menos mortes, de mais amor e tolerância!

VIVAM e DEIXEM VIVER!

Luís Fernando Silveira de Almeida – Coronel da Reserva da PM e Cidadão, apenas cidadão.

Além da gafe do liquidificador, Onyx usa argumentos insustentáveis para defender armas (e sua indústria)


  "No mesmo dia em que Jair Bolsonaro assinou o decreto que altera o Estatuto do Desarmamento para facilitar a posse de armas em todos os estados do País, Onyx Lorenzoni deu uma entrevista na GloboNews defendendo a medida. Para isso, despejou uma série de argumentos insustentáveis." - Jornal GGN

 Estamos na era "Pelo lucro, matai-vos uns aos outros"

Foto: Agência Brasil
 
Jornal GGN - No mesmo dia em que Jair Bolsonaro assinou o decreto que altera o Estatuto do Desarmamento para facilitar a posse de armas em todos os estados do País, Onyx Lorenzoni deu uma entrevista na GloboNews defendendo a medida. Para isso, despejou uma série de argumentos insustentáveis.
 
A entrevista e outras declarações de Onyx deixam claro que o governo Bolsonaro não se importa em manipular ou ignorar dados e estudos quando quer fazer valer seu ponto de vista.
 
O argumento mais fácil de ser desarmado é o de que o brasileiro quer a facilitação da posse de arma.
 
Segundo Onyx, em 2005, 64% da média nacional e 82% da população do Rio Grande do Sul votaram no referendo para "manter o direito à legítima defesa".
 
Mas isso nunca esteve em xeque naquele referendo. A pergunta no referendo foi: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”
 
A maioria respondeu que não, e a comercialização foi mantida de acordo com as regras estipuladas pelo Estatuto do Desarmamento, que estava em vigor desde 2003.
 
O Datafolha publicou no mesmo dia do decreto de Bolsonaro os resultados da pesquisa mais recente sobre o assunto. E 61% dos entrevistadores responderam que não concordam com a "facilitação da posse de armas", na contramão do que acredita o atual governo.
 
Outro dado lançado por Onyx foi o de que até 9 milhões de famílias brasileiras têm uma arma em situação irregular em casa. Segundo apuração da Agência Lupa, não existe estudo sobre isso. Em 2010, o Ministério da Justiça informou que 7,6 milhões de armas eram irregulares no Brasil. O número representava metade das armas no País. Mas não é possível dizer quantas famílias tinham a posse de pelo menos uma.
 
O Instituto Sou da Paz alertou também que o governo Bolsonaro usou dados de segurança pública apenas de 2016 para analisar quais estados seriam alcançados pelo decreto. O ano não foi escolhido à toa: naquele ano, todos os estados brasileiros atendiam ao critério de mais de 10 homicídios a cada 100 mil habitantes.
 
Outra ideia falsa propagada por Onyx é a de que mais armas erquivale a menos morte. Em 2013, quando o Estatuto do Desarmamento fez 10 anos, o Ipea divulgou um estudo que mostra o contrário: os locais que mais se livraram de armas são os que tem as maiores quedas nas taxas de homicídio.
 
Não suficiente, Onyx ainda disparou na GloboNews que a Declaração Universal dos Direitos Humanos garante a possibilidade de matar alguém para proteger uma vida. Confundiu, provavelmente, com o Código Penal brasileiro, que prevê que não há crime quando o homicídio se deu por auto-defesa. A Declaração da ONU não fala sobre isso.
 
LIQUIDIFICADOR
 
A cereja do bolo da argumentação capenga de Onyx foi a comparação entre uma arma de fogo e um liquidificador. Na visão do ministro, os dois artefatos expõem as crianças à risco - mas nem por isso alguém pensou em proibir liquidificador.
 
"A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não. É uma questão de educação, é uma questão de orientação."
 
Segundo Onyx, para proteger as crianças, o governo Bolsonaro colocou no decreto a exigência de cofre ou local com tranca em casa, para armazenar a arma.
 
Mas é com pudor zero que Onyx admitiu aos jornalistas que a Polícia Federal não vai fiscalizar a existência do cofre nem exigir comprovação. O governo se dispôs a acreditar na boa fé do requerente. Basta declarar que tem o cofre em casa, mesmo que não tenha.

A retórica ideológica e a invisibilidade do real, por Frederico Firmo




GGN.-  Bolsonaro não vai sair do palanque, pois ele só existe no palanque retórico e ideológico que montou.  O tempo inteiro somos obrigados a debater Olavo, Damares, Velez, Araujo e as frases virulentas de Bolsonaro. Isto serve apenas para continuar o  debate nas redes. Trabalhando para tudo isto, os jornais e a midia  escrevem páginas de crimes e violência  ou sobre índices da bolsa ou sobre algum clichê ideológico, criando uma ficção e escondendo a realidade..
A mídia esta semana requentou  o racismo de Watson, prêmio Nobel. Isto já havia sido  notícia anos atrás. Porém aproveitaram a a chance de requentar a notícia e excitar o racismo nas redes.  As manifestações que se seguiram   nas redes são tão abjetas que obrigam necessariamente  pessoas  de bem a responder.  E assim  enquanto se combate retoricamente, a realidade de nosso racismo continua e é estimulada.  A matéria está lá colocada para excitar os mais pobres instintos. Ela abre mais espaço para o exército do Whatsapp, enquanto  a destruição do país corre ao largo.
As idas e vindas do governo mostram que entre a retórica ideológica e a realidade existem contradições insolúveis, mas para a grande imprensa  isto não importa desde que os grandes  negócios e tal reforma das reformas  estejam sendo realizados.
Em artigo recente Aldo Fornazieri discute  a ofensiva ideológica e a resposta da  esquerda. Não apenas ela, mas parece que todos nós  estamos aprisionados neste  palco ideológico,   numa luta que só aparentemente é pelos corações e mentes . O palco como e quando foi criado é feito   apenas para estimular os corações e mentes já conquistados.  De forma paradoxal, tanto nós como eles sabemos   que esta retórica ideológica  não resiste à realidade  mas  a luta continua se descolando cada vez mais do real. Não sei como mudar isto, pois a sociedade brasileira parece estar paralisada.  Quando se fala em sindicatos, eu me pergunto onde estão? Na mídia eles não estão e nem nunca vão estar, pois a mídia trabalha com o objetivo de esconder . Se houver algum movimento ou embrião de organização, isto será escondido gerando sempre  esta sensação de vazio e paralisia.
Obviamente existe  um vazio real ,não apenas sindical e  nem apenas partidário. A paralisia e vazio alcança quase todas as áreas. Por exemplo, me pergunto onde estão os Educadores, deste pais que deveriam estar  colocando os problemas reais de nossa educação e o papel das políticas publicas de educação mas  se sentem obrigados a debater Escola sem Partido. Não acredito que estejam parados, mas com certeza estão invisíveis Onde estão os artistas para falar do papel das políticas publicas nas artes, mas são obrigados a responder  questionamentos sobre a lei Rouanet,  que é apenas  cortina de fumaça. Educadores, artistas estão invisíveis, pois mesmo que estejam ativos e se mobilizando, isto não aparece, é escondido pela grande imprensa. A realidade escolar, isto é os reais problemas da educação , está invisivel sob esta retórica sobre Escola sem Partido  e ou discussão sobre os escolhidos de Bolsonaro ou Velez.
Onde estão os cientistas deste país, que não conseguem colocar ao público, o status real e atual das pesquisas brasileiras que, apesar de tantos sucessos, continuam invisíveis para a Sociedade.  Embora eu saiba de suas movimentações em defesa da Ciência,  eles continuam invisíveis. Onde estão as Universidades, os Institutos Federais  que não se  mostram , não contrapõe  a sua  realidade ao discurso midiático. Contra a retórica governamental  basta mostrar  a realidade da  universidade publica, com seu ensino , pesquisa e extensão.  Precisam mostrar que hoje temos  uma maioria de classe B e C  nas universidades. É preciso mostrar o papel central da Universidade em todas as atividades do país. Mas isto está invisivel, e fica mais escondido ainda quando ataques à universidade pública, a reduzem a quase nada, e a colocam sob suspeição através  de ações de Forças Tarefas e operações da PF.  Qual a posição da Universidade frente a mudança do Ministério.  Porque  seus reitores e professores continuam invisiveis. Pouco ouvimos sobre a ANDIFES, ANDES etc...E esta invisibilidade e silêncio permite que  a retórica ideológica avance no  sucateamento, privatização e favorecimento dos grupos empresariais da educação.
Onde está a realidade do SUS que é bem maior do que apenas filas. Afinal é o único país da américa latina que possui saúde pública.  O SUS será o proximo objetivo, pois tudo que é publico será alcançado pela ofensiva ideológica. Mas onde estão as notícias sobre o que é de fato o SUS. Como sumiram as notícias sobre o  Mais Médicos, que só reapareceram com as saidas dos Cubanos, o que foi feito de novo apenas no palco ideológico. Onde estão as lideranças médicas neste país, caladas,  coniventes, ou entusiastas desta retórica governamental ? Onde estão as lideranças institucionais?
Onde e quando foi que começamos a esquecer a realidade e ficamos presos nos debates retóricos? Talvez tenha se iniciado com a lava-jato, que conseguiu esconder a Petrobrás. A empresa com sua tecnologia pesquisa e sucesso do pré-sal, sumiu naquele cenário de esgoto onde a  cortina era decorada com a cara de ladrões como Paulo Costa, Cerveró. E pasmem eles já estão  livres gastando o roubado. Mas não posso deixar de lembrar o silêncio ou a invisibilidade dos petroleiros e altos funcionários em todo este processo. O  silencio da própria Petrobrás, permitiu sua fragilização, e a preparação de seu retalhamento e possível privatização.  A retórica de que tudo é corrupção venceu. Assim com a retórica da inevitabilidade da venda da EMBRAER venceu , sem que saibamos de fato a real situação da EMBRAER.
O sistema S acaba de ser profundamente atacado e não vimos nenhuma argumentação contrária do próprio Sistema S. Não posso crer que estejam  de acordo. Mas se manifestações fizeram, e esclarecimentos deram, tudo ficou invisível.   Em todo este processo a população ficou sem saber o que é o sistema S.
Portanto não são apenas as lideranças de esquerda.  O país e as instituições vem sendo atacadas de há muito e a sociedade civil e suas lideranças institucionais estão invisíveis, esperando  as ordens ou estão caladas e com medo.
Estamos aprisionados no debate ideológico, mas contra a ofensiva ideológica do governo, dados da  realidade do país  são as melhores armas. Foi por esta razão que o candidato fugiu dos debates. Não sobreviveria se questionado sobre a realidade.  O discurso e a retórica não sobrevivem se contrastatados com a realidade, mas cada setor real  deste país precisa se manifestar e encontrar um antídoto para a invisibilidade.  O paradoxo entre o discurso retórico e a realidade se expressa nas indas e vindas vexatórias deste governo, que discursa para depois se inteirar do que se trata.  Mas ajudado pela  grande mídia  cria um fosso entre a realidade e continua pautando apenas o que é de interesse. Nas  redes a  ofensiva ideológica do governo tem maior sucesso, afinal mantém mobilizados  os seus exércitos de Whatsapp  e twitter especialistas na retórica virulenta, vazia mas de consequências trágicas.  Estes formam a cortina necessária para manter a realidade invisível.
Mas é urgente, trazer o debate para o mundo real,  pois este foco  ideológico  é a cortina para que nos bastidores  a caravana do golpe e do mercado continue sua marcha rumo a fortuna de alguns.