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domingo, 28 de agosto de 2016

A propósito da condenação de uma governanta inocente: corrupção e corrupções, por Leonardo Boff em artigo para o Jornal do Brasil

"A presidenta Dilma está sendo condenada mediante um tribunal de exceção por um Congresso Nacional no qual 60% dos membros enfrentam acusações criminais. O Senado que a julga não possui nenhuma moral pois mais da metade dele, 49 senadores, estão sob acusação de distintos crimes. Contra Dilma não se conseguiu provar nenhum crime. A condenação da Presidenta Dilma se inscreve nesta lógica da corrupção que tomou conta de grande parte da casta politica. O que faz contra ela é uma injustiça sem tamahno: condenar uma inocente e uma governante honesta."


A charge publicada no jornal americano The New York Times representa bem a farsa do impeachment de Dilma Rousseff, "uma reação conservadora, retrógrada que se exprime em tentativas autoritárias de impedir o avanço da sociedade ", de acordo com o economista Luiz Gonzaga Belluzo

   A propósito da condenação de uma governanta inocente: corrupção e corrupções
Leonardo BoffJornal do Brasil
    A presidenta Dilma está sendo condenada mediante um tribunal de exceção por um Congresso Nacional no qual 60% dos membros enfrentam acusações criminais. O Senado que a julga não possui nenhuma moral pois mais da metade dele, 49 senadores, estão sob acusação de distintos crimes. Contra Dilma não se conseguiu provar nenhum crime. Por isso inventam-se outras razões como pelo “conjunto da obra”, coisa que contradiz a matéria do processo vindo da Câmara: alguns atos governamentais somente do ano 2015.
  O economista Luiz Gonzaga Belluzzo bem resumiu a tônica geral deste processo perverso: ”Trata-se de uma reação conservadora, retrógrada que se exprime em tentativas autoritárias de impedir o avanço da sociedade. Somos uma sociedade profundamente antidemocrática, preconceituosa e mais que isso, culturalmente deformada. Estamos assistindo hoje uma degeneração do que já é degenerado. Aqui não prosperaram os ideais de democracia e o Estado de Direito. Tudo é feito com truculência, com arbitrariedade, mesmo aquilo que pretensamente é feito em nome da lei”(em Carta Maior 27/06/2016).
   Uma outra crítica contundente nos vem do sociólogo, ex-presidente do IPEA, que escreveu um instigante livro: A tolice da inteligência brasileira (Leya 2015): “O golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata. Desde então o Brasil é palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia”(Quem deu o golpe e contra quem, em FSP,04/2016).
   O que estamos assistindo é a retomada deste segundo projeto, socialmente perverso e negador de nossa soberania. Basta observar a truculência do ministro das relações exteriores que de diplomata não possui nada. É um agente das privatizações e do alinhamento do Brasil à lógica do neoliberalismo dos países centrais, rompendo com nossos aliados vizinhos, do Mercosul e traindo os ideais de uma diplomacia “ativa e altiva”em diálogo com todos os povos e tendências ideológicas.
   Há muitas formas de corrupção. Comecemos pela palavra corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia:corrupção é ter um coração (cor)rompido (ruptus) e pervertido. O filósofo Kant fazia a mesma constatação:“somos um lenho tão torto que dele não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há a força do Negativo em nós que nos incita ao desvio. A corrupção é uma das mais fortes.
   Antes de tudo, o capitalismo aqui e no mundo é corrupto em sua lógica, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista.
   Pensando no Brasil podemos dizer que a maior corrupção de nossa história é o fato de as oligarquias haverem mantido grande parte da população, durante quase 500 anos, na marginalidade e terem empreendido um processo de acumulação de riqueza dos mais altos do mundo, a ponto de 0,05% da população(71 mil pessoas) controlarem grande parte da renda nacional.
   Temos exemplos escandalosos de corrupção, denunciados ultimamente pelo “Petrolão”, pelo Zelotes e pelo Panamá Papers. Mas não nos enganemos. Há coisa pior. O Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, em seu “Sonegrômetro” denunciaram que em 2015 somente em cinco meses houve uma sonegação de 200 bilhões de reais (AntônioLassance, em Carta Maior 02/05/2015). Isso é muito mais do que o “Petrolão” e em apenas 5 meses. Aqui se escondem os grandes corruptores e corruptos que procuram sempre se esconder.
   Bem dizia Roberto Pompeu de Toledo em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”.
  A condenação da Presidenta Dilma se inscreve nesta lógica da corrupção que tomou conta de grande parte da casta politica. O que faz contra ela é uma injustiça sem tamahno: condenar uma inocente e uma governante honesta.
  A história não os perdoará. Carregam em suas biografias o estigma de golpistas merecedores de uma soberana repulsa dos que buscam caminhos transparentes e éticos para o nosso país.

  Leonardo Boff é professor emérito de Ética da UERJ e escritor.


quinta-feira, 21 de abril de 2016

Como Glenn Greenwald consolidou na mídia internacional a imagem de que é sim um golpe, por Paulo Nogueira

Você jamais vai ver Merval nesta tela
Não adianta gastar dinheiro público e enviar gente como o senador Aloysio Nunes para Washington numa tentativa de conquistar corações e mentes internacionais para o golpe.

Não adianta também jornalistas provincianos como os da Globo se esgoelarem a mando dos patrões para tentar negar o golpe perante a comunidade mundial.

É um jogo que está definido — e não apenas porque o golpe é golpe. Há um fator decisivo nisso: Glenn Greenwald.

Quem conhece o trabalho numa redação sabe como os jornalistas se movimentam em momentos turbulentos num país que não seja o seu.

Para se informar e começar a formar opinião, eles procuram, primeiro e acima de tudo, jornalistas locais que admirem e respeitem.

Greenwald, que decidiu há alguns anos morar no Brasil, preenche ambos os requisitos.

Ele é uma autoridade jornalística nos Estados Unidos, onde nasceu e se formou como repórter, e na Inglaterra, onde foi uma das mais respeitadas vozes do Guardian.

É ele que muitos jornalistas americanos e ingleses consultaram e consultam para saber mais sobre o Brasil.

Confiam em seu conhecimento, em seu discernimento, em sua integridade.

Não apenas lhe telefonam em busca de subsídios. Mas também o entrevistam, como fez há pouco a CNN.

Que jornalista ligado ao impeachment tem, entre os jornalistas estrangeiros, os atributos de Greenwald?

Merval? Azevedo? Noblat? Mainardi? Escosteguy? Míriam Leitão? Sardenberg? Waack? Bonner? Erick Bretas, fantasiado de Sérgio Moro? Ali Kamel, alavancado pela sua obra magna Não Somos Racistas?

Existe não apenas a barreira da língua, naqueles casos. Mas sobretudo a da respeitabilidade, a do prestígio, a da confiabilidade.

Já era uma questão real antes. E se tornou intransponível depois que Greenwald, num espasmo de sinceridade, afirmou na entrevista que fez com Lula estar chocado com a tendenciosidade e a militância política da imprensa brasileira.

É propaganda de direita o que a mídia nacional faz, não jornalismo.

Os jornalistas estrangeiros registraram, evidentemente, a avaliação de Greenwald sobre Globo, Veja etc.

Mais recentemente, Greenwald voltou a falar da imprensa brasileira. Mais especificamente, da Veja, que o atacou num artigo com o mesmo padrão do elogio a Marcela Temer por ser “bela, recatada e do lar”.

Ele afirmou tomar o ataque como um elogio, porque a Veja é uma “piada”. Disse que se mandassem a página emoldurada a penduraria na parede de sua casa.

A imagem da mídia nacional no exterior era inexistente. Agora, ela é o que Greenwald disse sobre ela.

Não é novidade nenhuma para os brasileiros, que sabem dos horrores pseudojornalísticos praticados pelas corporações de mídia dos Marinhos, Civitas, Frias.

Mas para as redações estrangeiras foi uma novidade. Uma péssima novidade.

O diagnóstico de golpe feito por Greenwald acabaria sendo reforçado, para jornalistas de fora, pelo espetáculo grotesco da sessão da Câmara em que corruptos diziam sim ao impeachment com argumentos que pareciam saídos do Sensacionalista.

O jogo da imagem perante o exterior está perdido para os golpistas, qualquer que seja o desfecho do golpe em si.

Para os cofres públicos, é melhor economizar dinheiro como o gasto para mandar Aloysio Nunes para Washington numa missão impossível: mostrar que o golpe não é golpe.

Paulo Nogueira
No DCM

terça-feira, 19 de abril de 2016

Imprensa européia chama votação de impeachment de insurreição de hipócritas

Jornal GGN – A imprensa européia cobriu com assombro a votação da admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. O comportamento dos deputados no púlpito foi o que chamou mais atenção.
O correspondente Jens Glüsing assinou matéria intitulada “A insurreição dos hipócritas” e disse que o Congresso brasileiro mostrou sua “verdadeira cara” e colocou o país em uma “robusta rota de direita”. "A maior parte dos deputados evocou Deus e a família na hora de dar o seu voto. Jair Bolsonaro até mesmo defendeu, com palavras ardentes, um dos piores torturadores da ditadura militar", relatou.
Da Deutsche Welle
Deputados aos berros, entoando canções e tirando selfies não estavam à altura da gravidade da situação, afirma a imprensa europeia, que destaca ainda que "inúmeros parlamentares são alvos de processos por corrupção".
A imprensa europeia destaca nesta segunda-feira (18/04) a derrota sofrida pela presidente Dilma Rousseff na votação do impeachment na Câmara dos Deputados, com especial atenção para o comportamento dos deputados federais no plenário.
Numa análise assinada pelo correspondente Jens Glüsing e intitulada "A insurreição dos hipócritas", o site da revista Der Spiegel afirma que o Congresso brasileiro mostrou sua "verdadeira cara" e, com o uso de meios "constitucionalmente questionáveis", colocou o "avariado navio Brasil" numa "robusta rota de direita".
"A maior parte dos deputados evocou Deus e a família na hora de dar o seu voto. Jair Bolsonaro até mesmo defendeu, com palavras ardentes, um dos piores torturadores da ditadura militar", escreve o jornalista, que lembra que tanto o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, como o vice-presidente Michel Temer são alvos de investigações por corrupção.
Segundo a revista, os deputados que votaram a favor do impeachment vão cobrar postos no governo de Temer, caso ele assuma a Presidência da República, e que muitos deles esperam que, com a vitória da oposição, as investigações da Operação Lava Jato desapareçam.
O site do semanário alemãoDie Zeit afirma que a votação na Câmara "mais parecia um carnaval" e que uma pessoa desavisada que visse a sessão não poderia ter ideia da gravidade da situação. "Nesse dia decisivo para o destino político da sétima maior economia do mundo, o que se viu foram horas de deputados aos berros, que se abraçavam, tiravam selfies e entoavam canções", relata o correspondente Thomas Fischermann.
"Nos discursos dos representantes do povo havia tudo o que se possa imaginar: lembranças aos netos, xingamentos contra a educação sexual nas escolas, paz em Jerusalém, elogio a um torturador do antigo governo militar, o jubileu de uma cidade e assim por diante", afirma o jornal.
Já o diário alemão Süddeutsche Zeitung destaca que "inúmeros parlamentares que impulsionaram o impeachment de Dilma são, eles próprios, alvos de processos por corrupção". O correspondente Benedikt Peters lembra que o processo contra Rousseff é controverso e é considerado político. "Contra Dilma nenhum ato de corrupção foi comprovado."
Segundo o jornal britânico The Guardian, um Congresso "hostil e manchado pela corrupção" votou pelo impedimento da presidente. "Uma derrota esmagadora", afirma o jornal, que também destaca a votação no plenário. "O ponto mais baixo foi quando Jair Bolsonaro, o deputado de extrema direita do Rio de Janeiro, dedicou seu voto a Carlos Brilhante Ustra, o coronel que comandou a tortura do DOI-Codi durante a era ditatorial", e levou "uma cusparada do deputado de esquerda Jean Wyllys".
Para o jornal, é "improvável" que Temer também perca suas funções se for provado que ele praticou as chamadas "pedaladas fiscais", já que tem "forte apoio" da maioria dos deputados.
O jornal espanhol El País diz que a aprovação do impeachment era mais do que esperada e que Dilma "está a um passo" de ser tirada do poder. "Dilma Rousseff recebeu um empurrão, talvez definitivo, para sair da presidência do Brasil pela porta de trás da história", diz o artigo. "Uma derrota completa para o governo e Rousseff."
O El País diz que a votação na Câmara foi marcada por tumulto e "cânticos um tanto ridículos às vezes" e destaca que a condução de Cunha, acusado de manter contas milionárias na Suíça com dinheiro da Petrobras, é "um sintoma da estrutura moral de boa parte do Congresso brasileiro".
De acordo com o jornal espanhol, o "capital político" da presidente "será completamente diluído" com o voto favorável do Senado, "coisa que agora parece muito provável", e o posterior afastamento dela do cargo por 180 dias, como prevê o rito do impeachment.
O francês Le Monde destaca a "descida ao inferno de Dilma Rousseff", dizendo que até as últimas horas "ela acreditou" no voto dos 54 milhões de brasileiros que a elegeram em 2014. O jornal diz que o marketing do governo sobre a prática de "golpe" contra a presidente não teve sucesso, apesar de boa parte dos deputados favoráveis ao impeachment também serem acusados de corrupção.
Segundo a publicação, Dilma paga por "erros econômicos, diplomáticos e políticos que ajudaram a fazer dela a chefe de Estado mais impopular da história da jovem democracia brasileira".