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quarta-feira, 6 de março de 2019

Chamados de ‘socialistas’, Ocasio-Cortez e Sanders são os verdadeiros centristas. Reportagem de Mehdi Hasan para o The Intercept



Deputada Alexandria Ocasio-Cortez chega para ouvir o presidente fazer seu discurso sobre o Estado da União em Capitol Hill, em Washington D.C., no dia 5 de fevereiro de 2019.



The Intercept:


6 de Março de 2019, 0h02


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VOCÊ SABE O que realmente me irrita na cobertura da mídia sobre a política americana e, principalmente, sobre o Partido Democrata?
Busque no Google as palavras “moderado” ou “centrista” e um pequeno grupo de nomes aparecerá instantaneamente: Michael Bloomberg, Amy Klobuchar, Joe Biden e, sim, Howard Schultz.
Bloomberg é considerado um “líder do pensamento centrista” (Vanity Fair). Klobuchar é a “pragmatista direta” (Time). Biden é o “o mais puro centrista” (CNN) e o “último grito de alegria para democratas moderados” (New York magazine). Schultz é talentoso com entrevistas de alto escalãopara assentar o seu tom de “centrista independente” aos eleitores.
Agora busque no Google a jovem democrata Alexandria Ocasio-Cortez. Ela tem sido apresentada como membro da “esquerda lunática” (Washington Post), uma “agitadora progressiva” (Reuters), e uma “lançadora de bombas liberal” (New York Times).
Entendeu? Biden, Schultz e companhia, conforme nos é dito, ocupam de forma inequívoca o centro da política americana; Ocasio-Cortez está longe, ocupando as beiradas.
Esta é uma distorção descarada da verdade, uma mentira visível e vergonhosa que é repetida dia após dia em editoriais de opinião em jornais e manchetes de canais de tv a cabo.
“É fácil chamar o que Ocasio-Cortez está fazendo de extrema-esquerda, mas nada poderia estar mais longe da verdade,” disse Nick Hanauer, capitalista de risco e ativista progressista, ao MSNBC, em janeiro. “Quando se defende políticas econômicas que beneficiam a grande maioria dos cidadãos, esse é o verdadeiro centrismo. O que Howard Schultz representa, o centrismo que ele representa, é apenas economia de gotejamento (teoria econômica segundo a qual, quando os ricos ganham mais dinheiro, os demais setores começam a se beneficiar também, inclusive os pobres)”.
“Ele não é o centrista”, continuou Hanauer. “Ocasio-Cortez é que é a centrista.”
Hanauer está certo. E Bernie Sanders também é um centrista – difamado como um “ideólogo” (The Economist) e como sendo “perigosamente da extrema-esquerda” (Chicago Tribune). Assim como Elizabeth Warren – descartada como uma “extremista radical” (Las Vegas Review-Journal) e uma “lutadora de classes” (Fox News).
A verdade inconveniente que nossas preguiçosas elites midiáticas tanto buscam ignorar é que Ocasio-Cortez, Sanders e Warren estão muito mais próximos em suas visões da vasta maioria dos americanos comuns do que os Bloombergs e os Bidens. Eles são os verdadeiros centristas, os moderados reais; eles representam o centro político de fato.
NÃO ACREDITA EM MIM? Veja a questão chave de Ocasio-Cortez: o New Deal verde. O antigo redator de discurso – e defensor da tortura – de George W. Bush, Marc Thiessen, afirma que o New Deal verde “tornará os democratas inelegíveis em 2020.” A The Economist concorda com ele: “O audacioso plano poderá tornar o partido impossível de eleger em estados com tendências conservadoras.” O New Deal verde “não passará no Senado e você pode repetir isso para quem quer que tenha te mandado aqui”, disse uma mal-humorada Diane Feinstein, senadora sênior e supostamente “moderada” do Partido Democrata da Califórnia, a um monte de crianças em um vídeo viral.
Mas aqui está a realidade: o New Deal verde é extremamente popular e tem um enorme apoio dos dois partidos. Uma recente pesquisa do Yale Program on Climate Change Communication e da Universidade George Mason descobriu que 81% dos eleitores disseram que ou “apoiariam fortemente” (40%) ou “apoiariam parcialmente” (41%) o New Deal verde, incluindo 64% de republicanos (e até mesmo 57% de republicanos conservadores).
O que mais Ocasio-Cortez, Warren e Sanders têm em comum entre si – e com os eleitores? Eles querem explorar os ricos. Ocasio-Cortez sugeriu uma alíquota da faixa superior de renda de 70% sobre rendimentos acima de 10 milhões de dólares – algo condenado pelo “centrista” Howard Schulz como “antiamericano” mas apoiado por uma maioria (51%) dos americanos. Warren propôs uma taxa de riqueza de 2% sobre bens acima de 50 milhões de dólares – tendo sua proposta criticada pelo “moderado” Bloomberg e definida como socialismo ao estilo venezuelano, mas apoiada por 61% dos eleitores, incluindo 51% dos republicanos. (Como meu colega Jon Schwarz já demonstrou, “jamais, na história recente, os americanos foram contra maiores impostos aos mais ricos.”)
E os serviços de saúde? A vasta maioria (70%) dos eleitores, incluindo uma maioria dos republicanos (52%), apoiam um sistema nacional de saúde pública, o chamado Medicare para Todos. Seis em dez dizem que é “responsabilidade do governo federal” assegurar que todos os americanos tenham acesso ao sistema de saúde.
Isenção de dívidas e universidades gratuitas? Uma clara maioria (60%) do público, incluindo uma significante minoria (41%) dos republicanos, apoiam ensino universitário gratuito “para todos que tiverem os níveis de renda compatíveis”.
Salário mínimo mais alto? Conforme o centro Pew, quase 6 em cada 10 (58%) americanos apoiam o aumento do salário mínimo nacional de 7,25 dólares/hora para (o valor recomendado por Sanders) 15 dólares/hora.
Controle de armas? Quase seis em cada 10 (61%) dos americanos apoiam leis mais restritas sobre o controle de armas, conforme a Gallup, “a percentagem mais alta a favor de leis mais rígidas sobre armas de fogo em duas ou mais décadas.” Quase todos os americanos (94%) apoiam a universalização da checagem de antecedentes criminais em todas as vendas de armas – incluindo quase três quartos dos membros da National Rifle Association.
Aborto? O apoio ao direito legal de realizar aborto, conforme uma pesquisa de junho de 2018 realizada pela NBC News e o Wall Street Journal, está em “número recorde”. Sete em cada 10 americanos dizem crer que o caso Roe contra Wade (caso judicial pelo qual a Suprema Corte dos Estados Unidos que reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez nos EUA) “não deve ser revertido”, incluindo a maioria (52%) dos republicanos.
Legalização da maconha? Dois em cada três americanos acham que a maconha deveria ser legalizada. De acordo com uma pesquisa da Gallup de outubro de 2018, isso marca “mais um aumento na tendência observada pela Gallup na última metade do século.” E aqui uma surpresa: a maioria (53%) dos republicanos também apoia a legalização da maconha!
Encarceramento em massa? Cerca de 9 em cada 10 (91%) americanos dizemque o sistema de justiça criminal “tem problemas que precisam ser resolvidos”. Cerca de 7 a cada 10 (71%) dizem que é importante “reduzir a população carcerária nos Estados Unidos”, incluindo a maioria (52%) dos eleitores de Trump.
Imigração? “Um recorde de 75% dos americanos”, incluindo 65% de republicanos e republicanos com tendências independentes, disseram à Gallup em 2018 que a imigração é uma “coisa boa para os EUA”. Seis em dez americanos se opõem à construção de um muro na fronteira sul do país enquanto massivos 81% apoiam a cidadania para imigrantes sem documentos vivendo nos Estados Unidos.
NO ENTANTO, quanto dessas pesquisas se reflete nas coberturas de notícias dos democratas, que buscam colocar ativistas “esquerdistas” contra eleitores “centristas” e “liberais” contra “moderados”?
Como rótulos como “centrista” e “moderado”, que o senso comum nos diz que deveriam refletir a visão da maioria dos americanos, acabaram por ser aplicados a aqueles que representam interesses e opiniões de uma minoria?
Quantos repórteres políticos estão dispostos a dizer a seus leitores ou telespectadores o que o cientista político David Broockman, da Universidade Stanford, disse ao jornalista Ezra Klein, do Vox, em 2014: “Quando dizemos ‘moderados’ o que realmente queremos dizer é ‘o que as corporações querem’. Dentro dos dois partidos há essa tensão entre o que os políticos que recebem mais dinheiro corporativo e tendem a fazer parte do sistema querem – e isso é o que geralmente chamamos de ‘moderado’ – versus o que o Tea Party e membros mais liberais querem”?
O caminho do meio – se é que ele existe – não pode ser encontrado em um mapa; ele não é uma localização geográfica fixa. Você não pode entrar no carro, digitar o endereço no GPS e então dirigir até lá.
Ele se move, se modifica, e reage a eventos. O centro de 2019 não é o mesmo centro de 1999 e nem sequer o de 2009. Você quer saber onde ele está agora? Você quer encontrar o centro moderado? Então ignore as invenções da direita, os sabe-tudo convencionais, a “classe das doações”. Busque conhecer as plataformas políticas de Alexandria Ocasio-Cortez, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.
Tradução: Maíra Santos
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Alexandria Ocasio-Cortez, socialista, mostrou que valores progressistas autênticos podem redefinir a política norte-americana. Artigo de Briahna Gray publicado no The Interceot de Gleen Greenwald


“Nós vamos virar aquele estado em nossa geração, posso dizer isso a vocês agora. Vamos virar o Texas. É só uma questão de tempo. Não devemos nunca ter medo. Nunca há qualquer luta que seja grande demais para ser lutada. Nós provamos isso este ano.” Ela continuou. “Quando defendemos as causas de nossos vizinhos e nossa dignidade econômica e apresentamos planos inovadores e ambiciosos para nosso futuro, não há estado além de nosso alcance e nenhuma comunidade além da vitória. Nós só precisamos continuar com isso.”


Alexandria Ocasio-Cortez abraça um apoiador durante a celebração da vitória na boate La Boom no Queens, em Nova York, em 6 de novembro.

Alexandria Ocasio-Cortez mostrou que valores progressistas autênticos podem redefinir a política

Briahna Gray — 7 de Novembro
“Nossa maior escassez não é a falta de recursos, mas a ausência de coragem política e imaginação moral”, disse Ocasio-Cortez após a vitória de ontem.











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MAIS OU MENOS na metade do discurso da vitória de Alexandria Ocasio-Cortez, na noite de terça-feira, a multidão começou a vaiar.
A energia na sala até aquele momento tinha sido de muita alegria. Ao contrário do que ocorreu nas primárias, quando a candidata então com 28 anos de idade soube de sua impressionante vitória sobre o veterano de 10 mandatos Joe Crowley, o evento esteve lotado desde o começo, com uma fila na porta. O grande espaço no bairro de Woodside, no Queens, em Nova York, estava cheio de jovens sorridentes vestindo as agora icônicas camisetas brancas e roxas de Ocasio-Cortez, complementadas com acessórios típicos da geração millennial: mangas enroladas, brincos enormes e, é claro, batom vermelho. Uma banda de flamenco ao vivo inspirou a dança. Mais tarde, integrantes da multidão acabaram formando pares ao som da música latina. A certa altura, enquanto eu conversava com a membro fundadora da Justice Democrats, Alexandra Rojas, a música mudou, e ela fez uma pausa, examinando o público. Sua mãe, comentou, provavelmente estava dançando em algum lugar. Aquela era uma música à qual ela não conseguia resistir.
Mas, na metade do discurso de vitória de Ocasio-Cortez, a política do mundo externo rompeu o fervilhante santuário do partido. A CNN havia anunciado a derrota de Beto O’Rourke para Ted Cruz, cujo rosto aparecia pendurado acima da sala em telas grandes, desviando temporariamente a atenção dos comentários de Ocasio-Cortez.
Demorou um pouco para Ocasio-Cortez perceber o que havia acontecido. Ela estava prestes a atingir um de seus pontos mais populares – destacando a lacuna entre a riqueza sem precedentes dos Estados Unidos e o apoio insignificante oferecido aos mais pobres da população – quando resmungos começaram a escapar da plateia.
“Neste momento, na nação mais rica da história do mundo, nossa maior escassez não é a falta de recursos…”, Ocasio-Cortez fez uma pausa e repetiu a fala antes de perceber que a multidão desanimada não estava reagindo às suas palavras, mas à tela acima de suas cabeças. “Ah, desculpe pessoal. Eu estava pensando tipo, ‘Nossa! O ambiente mudou rápido!’”
A multidão riu, aparentemente agradecida por um pouco leveza diante de uma derrota difícil. “Mas, sabem o quê?”, Ocasio-Cortez improvisou, sensível ao fato de que os presentes precisavam de consolo antes de continuar com o discurso que havia preparado. “O que precisamos fazer também é perceber que essas perdas de curto prazo não significam que perdemos a longo prazo. Não significam. Em 2018, deixamos o estado do Texas roxo. Foi o que fizemos este ano.”O público se animou novamente.
“Nós vamos virar aquele estado em nossa geração, posso dizer isso a vocês agora. Vamos virar o Texas. É só uma questão de tempo. Não devemos nunca ter medo. Nunca há qualquer luta que seja grande demais para ser lutada. Nós provamos isso este ano.” Ela continuou. “Quando defendemos as causas de nossos vizinhos e nossa dignidade econômica e apresentamos planos inovadores e ambiciosos para nosso futuro, não há estado além de nosso alcance e nenhuma comunidade além da vitória. Nós só precisamos continuar com isso.”
Depois disso, ela retornou ao discurso de vitória com mais facilidade do que políticos que têm feito discursos durante todo o tempo que Ocasio-Cortez tem de vida.
Apoiadores de Alexandria Ocasio-Cortez aplaudem enquanto ela fala no palco durante sua festa eleitoral no Queens, em Nova York, em 6 de novembro.
Apoiadores de Alexandria Ocasio-Cortez aplaudem enquanto ela fala no palco durante sua festa eleitoral no Queens, em Nova York, em 6 de novembro.
 
Foto: Don Emmert/AFP/Getty Images
O QUE PODERIA ser visto como uma platitude vazia ressoou, ao contrário, como uma perspectiva muito necessária. Em uma noite cheia de duras derrotas, incluindo três corridas de governadores de alto nível com candidatos negros convincentes, era fácil esquecer que chegar tão perto da vitória em partes do país, antes consideradas impossíveis, representava um progresso em si mesmo.
O que a noite passada revelou foi que as trincheiras vermelhas e azuis que definem o campo de batalha político dos Estados Unidos são escavados superficialmente. No meio-oeste industrial, o recém-criado interior de Trump, os democratas em exercício chegaram à vitória. Sharice Davids, uma nativa-americana lésbica que também é lutadora de MMA, destituiu um republicano no Kansas profundamente conservador. Ocasio-Cortez e o senador Bernie Sanders foram ridicularizados por visitar, alguns meses atrás, aquele mesmo estado, que agora tem uma governadora democrata. Eles não azularam, mas estados como o Texas, o Mississippi e a Georgia ficaram roxos. E, como Ocasio-Cortez apontou, isso não é pouca coisa.
Na verdade, com muita frequência, os políticos falam sobre estados vermelhos e estados azuis – o interior de Donald Trump e os subúrbios de Hillary Clinton – como se a política de pessoas dessas comunidades fosse tão fixa quanto os distritos manipulados em que vivem. Desafiando essa lógica, o eleitor Obama-para-Trump se torna uma quimera despachada com o truísmo de que “é possível ser racista e votar em Obama”, enquanto a verdade inversa – que os eleitores racistas do Trump poderiam ser convencidos a votar novamente nos democratas – é repudiada por grande parte da classe de especialistas como uma tentativa de ceder aos fanáticos. Enquanto isso, apesar das pesquisas mostrarem o contrário, democratas brancos são enquadrados como sendo além do racismo: votar por um democrata parece absolvição suficiente.
Os não-brancos são achatados ao ponto da caricatura. A diversidade de um distrito torna-se uma abreviatura de seu progressismo – como se mais de um terço dos texanos latinos não votasse em Cruz – e as necessidades dos eleitores minoritários são percebidas como profundas, mesmo quando causas universais como “Medicare para todos” beneficiam muito mais alguns de nós.
Essa compreensão da política carece de imaginação e percepção. E, o mais importante, não funcionou. O trabalho da política não é apenas realizar prognósticos com base em pesquisas ou deduzir o que devemos acreditar de quem somos e favorecer adequadamente. É o trabalho de comunicação, de persuasão, de ouvir as pessoas e elaborar uma agenda que atenda às suas necessidades – e depois de transmitir esse plano em um nível humano que suplante o partidarismo. Este é talvez o trabalho mais singular e importante de um político: relacionar uma compreensão empática das preocupações do povo; não apenas respondendo às pesquisas, mas provocando um movimento que mude completamente os resultados.
Ouvir Ocasio-Cortez ser bem-sucedida nessa tarefa política essencial deve nos lembrar de como são poucos os políticos que estão à altura da tarefa.
Como ela me disse em entrevista ontem à noite: “Eu acho que quando ouvimos verdadeiramente as comunidades em que estamos concorrendo, [quando] estamos realmente nos conectando com as pessoas comuns no local, precisamos de uma mensagem progressiva para animar um eleitorado descontente que historicamente não votava. E então, o que espero que aprendamos, e o que espero que adotemos no futuro, é não ter medo de nossos valores – não ter medo de nos diferenciarmos do Partido Republicano e realmente nos comprometermos com a nossa visão”.
NA RAIZ da mensagem de Ocasio-Cortez sempre esteve o entendimento de que o que temos em comum é mais significativo do que o que nos divide. Esta não é uma observação banal de escoteiros destinada a descrever diferenças reais que exijam soluções políticas reais, mas sim uma visão baseada na realidade de que, apesar de nossa política, os americanos entendem intuitivamente que a dignidade humana deve ser inalienável. Como Ocasio-Cortez observou, depois de suas observações improvisadas sobre a vitória de Cruz: “Neste momento, na nação mais rica da história do mundo, nossa maior escassez não é a falta de recursos, mas a ausência de coragem política e imaginação moral.”
É preciso coragem política para pedir a abolição da Agência de Imigração de Alfândega dos EUA [ICE, na sigla em inglês] em um momento em que a imigração é o tema explosivo mais perigoso do país. E é preciso que a imaginação moral use o inegável poder da dignidade humana para alavancar o apoio à saúde universal e a um salário digno.
Se Trump nos ensinou alguma coisa, é que a ousadia é recompensada e a convicção pode ser sua própria moeda. Ontem, a autenticidade esteve na votação com todos os candidatos que renunciaram ao dinheiro da ação política corporativa, desafiaram a ortodoxia partidária com posições políticas progressistas e ousaram articular uma visão do futuro enraizada em valores em vez de pesquisas. O dia de ontem demonstrou que autênticos valores progressistas podem ajudar a redefinir nossa realidade política. E se Ocasio-Cortez pode mudar o espírito da Câmara da maneira como levantou os espíritos em Queens na noite passada, talvez acabe ficando tudo bem.
Tradução: Cássia Zanon

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Briahna Graybriahna.gray@​theintercept.com@briebriejoy


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Quem são e o que buscam os Socialistas Democráticos, o fenômeno que empurra os EUA para a esquerda... Artigo da BBC News


Da BBC News Mundo:

Alexandria Ocasio-CortezDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA socialista democrática Alexandria Ocasio-Cortez, 28, pode ser a mulher mais jovem a se tornar deputada nos EUA
Eles são um dos fenômenos políticos do momento nos Estados Unidos. Os socialistas democráticos (DSA, na sigla em inglês para Socialistas Democráticos da América) passaram de 5.000 membros para 52.000 entre 2015 e 2018. E continuam crescendo.
Eles alcançaram esse feito sendo associados a um rótulo com a pior imagem na história política dos EUA: o socialismo.

Paradoxalmente, muito do seu crescimento se deve ao atual presidente republicano, Donald Trump.
"Temos visto picos no aumento das filiações: aumentaram quando Trump ganhou a eleição, quando assumiu o cargo e, praticamente, toda vez que o governo tomou uma decisão muito opressiva ou incomodou muita gente nos últimos dois anos", explica à BBC News Mundo Kristian Hernandez, copresidenta da DSA do norte do Texas.
Mas o socialismo democrático pregado pelo grupo não é a defesa de um Estado socialista. O que essa ala mais à esquerda do Partido Democrata propõe são medidas que regulem a economia americana de maneira democrática, fazendo, por exemplo, as grandes empresas agirem a favor dos interesses da população; eles também querem aumento real do salário mínimo e melhorar a igualdade social com o Estado oferecendo saúde e educação gratuitas.
Nas eleições legislativas de meio de mandato nesta terça, 6, os socialistas democráticos terão 64 candidatos, dos quais 5 tentarão uma cadeira no Congresso Federal, 1 disputará a vaga de governador e 25 concorrerão a cadeiras nos parlamentos estaduais.
Eles não foram nomeados, no entanto, sob a sigla DSA, mas como candidatos do Partido Democrata, em cujas eleições primárias participaram e triunfaram.
Donald TrumpDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionDesde a chegada de Donald Trump à Casa Branca aumentou o número de filiados à organização socialista
Algumas dessas vitórias causaram enorme surpresa.
É o caso, por exemplo, da latina Alexandria Ocasio-Cortez, uma "millenial" (como são chamados os que nasceram entre os anos 1980 e 1995) que conseguiu a candidatura por Nova York à Câmara de Representantes.
A jovem de 28 anos se impôs a Joe Crowley, que ocupa uma cadeira no parlamento desde 1999 e foi visto como um possível substituto de Nancy Pelosi como porta-voz dos democratas no Congresso.
Ocasio fez campanha sem aceitar contribuições de grandes empresas, com muito ativismo social e gastando menos de um quarto do orçamento de seu concorrente.
Se ela vencer as eleições, se tornará a mulher mais jovem a ocupar um assento na Câmara dos Representantes.

O fenômeno Sanders

A estratégia aplicada por Ocasio foi semelhante à do senador Bernie Sanders durante as primárias para a candidatura presidencial democrata em 2016.
Bernie SandersDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA participação de Bernie Sanders na eleição de 2016, na qual tentou uma vaga para disputar a Presidência, atraiu os americanos para o Socialistas Democráticos
Isso não aconteceu por acaso. Ocasio trabalhou como voluntária na campanha de Sanders, que sempre se apresentou como socialista democrático, embora nunca tenha pertencido formalmente à organização DSA.
"É impossível pensar que a DSA teria chegado aonde está hoje, se não fosse pela candidatura de Sanders para a nomeação presidencial", diz à BBC News Mundo Daniel Schlozman, professor associado de ciência política da Universidade John Hopkins.
Muitas das propostas do senador democrata, como a ideia de oferecer um sistema universal de saúde (o Medicare for all, ou Medicare para todos) ou de estabelecer uma educação universitária gratuita, foram fundamentais para atrair a atenção de jovens à sua campanha - e em alguns casos para a DSA.
"O crescimento do apoio à DSA entre os 'millennials' é o outro lado da queda da popularidade do capitalismo", diz Schlozman.
"Esta geração teve que passar por uma recessão muito severa causada por especulação, empréstimos bancários imprudentes e falta de regulamentação, o que causou um enorme crescimento das dívidas com educação universitária; e que a fez ver que seus padrão de vida não será automaticamente melhor do que o de seus pais; Portanto, havia uma abertura para algo que não é o capitalismo, já que este, em muitos casos, não os ajudou."

Visão positiva do socialismo

Uma pesquisa do instituto Gallup divulgada em agosto indica que, em média, 37% dos americanos têm uma imagem favorável do socialismo, em comparação com 56% que têm uma visão mais positiva do capitalismo.
No entanto, o estudo mostra que essa percepção muda de acordo com a faixa etária.
Entre os entrevistados que têm entre 18 e 29 anos, 51% têm uma visão favorável do socialismo e 45% do capitalismo, que sofreu neste grupo uma queda de 12 pontos desde 2010.
Já a avaliação do socialismo é pior entre os mais velhos, que cresceram e viveram durante a Guerra Fria.
Entre os maiores de 65 anos, apenas 28% têm uma imagem positiva do socialismo.
Pessoas protestam segurando cartazes contra o capitalismoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA crise financiera iniciada em 2008 afetou a visão da sociedade norte-americana sobre o capitalismo
Schlozman acredita que o que acontece no momento é mais a perda de atratividade da ordem estabelecida do que um claro apoio ao socialismo.
"Também deve ser notado que há muitas pessoas que votaram em Sanders, mas que não pertencem à DSA; são dois fenômenos separados, mas relacionados", diz ele.

O que é a DSA

Embora tenha se tornado um fenômeno político, a organização DSA tem uma longa história.
"É parte de uma longa tradição socialista na vida americana, eles são descendentes do Partido Socialista dos Estados Unidos, criado no início do século 20", diz Schlozman.
A DSA foi criada na década de 1980 como resultado da fusão de dois grupos de esquerda: o Comitê Organizador do Socialismo Democrático (que era o herdeiro do extinto Partido Socialista dos Estados Unidos) e o Novo Movimento Americano (uma aliança de intelectuais progressistas com ligações com os partidos esquerdistas clássicos).
Como se trata de uma organização política, seus candidatos geralmente não são nomeados sob suas próprias siglas.
Homem com camiseta da DSADireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO número de filiados à organização DSA, dos Socialistas Democráticos, saltou de 5.000 para 52.000 nos EUA
"Há algumas exceções que são postuladas pelo Partido Verde ou diretamente como democratas socialistas, mas, em geral, reconhecemos que o sistema bipartidário está tão arraigado que é muito mais fácil vencer concorrendo pelo Partido Democrata", ressalta Hernández.
"Eu acho que é uma ideia muito sábia para a DSA concorrer sob a legenda do Partido Democrata, que - por sua vez - recebe energia, ideias e talentos", diz ela.
Já Schlozman aponta as dificuldades em classificar a DSA. "Eles não são um grupo de pressão tradicional, nem um partido político, mas uma espécie de movimento social de base, eles são um pouco de tudo", acrescenta.

Saúde para todos e fim do capitalismo

Schlozman enfatiza que, do ponto de vista ideológico, a DSA é muito diversificada.
Pessoas seguram cartazes pedindo a criação do sistema de saúde universal Medicare for allDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionUma das principais propostas dos socialistas democráticos é a criação de um sistema de saúde universal gratuito nos EUA
"Por um lado, há pessoas que defendem um estado de bem-estar liberal que forneça programas públicos universais e, na outra extremidade, tem quem deseje grandes mudanças na ordem social que não representam qualquer reforma, mas sim o fim do capitalismo", diz ela.
O primeiro estaria mais confortável nas fileiras do Partido Democrata, enquanto o segundo, não.
Um elemento-chave para o crescimento acelerado da DSA tem sido a proposta de um sistema universal de saúde (o Medicare for all, em inglês), que se tornou popular durante a campanha de Bernie Sanders.
Hernandez ressalta que, no momento, essa é a principal questão da agenda nacional da DSA.
"Tem sido muito eficaz em mudar a forma como as pessoas falam sobre o sistema de saúde, como percebem que ele deve ser um direito humano e que não devemos escolher entre pagar o aluguel e comprar os remédios de que precisamos. E percebem que o sistema de saúde é feito para gerar lucro", fala. "Nós usamos isso como uma plataforma para falar sobre outros problemas que as pessoas normalmente não veriam."
Segundo ela, a questão da saúde pública tem atraído muita gente para a DSA, porque serve de exemplo das ideias que eles defendem.
"Antes da postulação de Sanders eu nunca tinha me considerado uma socialista", diz a jovem de 19 anos, nascida nos Estados Unidos e filha de imigrantes mexicanos.
Mas, além dos programas públicos universais propostos, que podem ter uma grande aceitação entre grande parte do eleitorado americano, a DSA questiona o funcionamento do próprio e fala sobre questões como a luta de classes e o "poder da classe trabalhadora".
Imagem positiva das ideologias nos Estados Unidos (em porcentagem de acordo com grupos etários)
Visão positiva do capitalismoVisão positiva do socialismo
Dos 18 aos 29 anos45%51%
Dos 30 aos 49 anos58%41%
Dos 50 aos 64 anos60%30%
Mais de 65 anos60%28%
Dados de 2018 (Fonte: Gallup)
"Para mim não há uma grande separação entre esses dois temas. Se você pensar, por exemplo, nas mudanças climáticas, você percebe que sua principal causa são as corporações. Quando você faz essa conexão, não demora muito para que perceba que o problema é o capitalismo. É esse enorme sistema que torna quase impossível conseguir as coisas que você precisa, habitação, água, saúde", diz Hernandez.
"Muitos de nós somos a favor dos trabalhadores serem donos dos meios de produção. E defendemos a democracia em todos os aspectos da vida. Nós não somos a favor de dar mais poder ao Estado ou para criar um Estado de bem-estar que depende do Estado, porque isso não seria uma verdadeira democracia. Os trabalhadores devem ter interferência direta em seu trabalho e na forma como as coisas são tratadas. Eu acho que é mais parecido com o que estaria vivendo sob o socialismo", acrescenta.
Schlozman, no entanto, considera essa nomenclatura inútil.
"Há uma grande lacuna entre a Dinamarca e a China de Mao. Chamar de socialismo a ambas não é muito útil. Obviamente, há uma grande disparidade dentro da DSA do que são políticas essencialmente reformistas daquilo que são políticas revolucionárias", diz o professor de ciências políticas.
"O que não está claro quando você olha para as pesquisas é quanto apoio há para o reformismo e quem apoia a revolução. Eu não acho que muitas pessoas têm pensado sobre o que isso significa, sobre as diferenças e aonde elas querem chegar. Eu não vi nenhuma evidência de que há amplo apoio popular à propriedade social dos meios de produção."