Mostrando postagens com marcador burrice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador burrice. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O projeto de Bolsonaro-Guedes-Olavo para as Universidades Públicas é a Destruição... Nada além disto... Por Luis Felipe Miguel


  "Uma das tragédias do Brasil é que nossas elites políticas e econômicas são tão tacanhas e estúpidas que não conseguem sequer assimilar o valor instrumental da educação. Os bolsonarianos investem contra ela sem pudor, para delírio de sua plateia de jeguificados. E seus parceiros de ocasião do conservadorismo tradicional mantêm um silêncio encabulado. Certamente fazem as contas e julgam que, se o preço a pagar pelas destruição dos direitos for a destruição também de todo o sistema educacional, vale a pena."

Resultado de imagem para Queima de livros fascismo
Nazi-fascistas queimando livros e atacando professores e intelectuais.... O mundo já viu essa História....


Já ficou evidente que o novo ministro da Educação é tão despreparado para o cargo quanto o anterior. Mas, diz a imprensa, Bolsonaro está satisfeito com ele. Claro: é mais belicoso e mais grosseiro.

Em menos de um mês no cargo, já demonstrou várias vezes seu desconhecimento do instituto da autonomia universitária e da Constituição em geral, seu desprezo pela educação, pela pesquisa e pelo conhecimento, seu racismo e seu autoritarismo. Informado de que sua retaliação contra algumas universidades era crime, resolveu a questão decidindo retaliar todas de uma vez. Está mandando o recado de que vai promover uma censura ideológica às bolsas de estudo. Hoje, agrediu os reitores pelo Twitter.

Uma das tragédias do Brasil é que nossas elites políticas e econômicas são tão tacanhas e estúpidas que não conseguem sequer assimilar o valor instrumental da educação. Os bolsonarianos investem contra ela sem pudor, para delírio de sua plateia de jeguificados. E seus parceiros de ocasião do conservadorismo tradicional mantêm um silêncio encabulado. Certamente fazem as contas e julgam que, se o preço a pagar pelas destruição dos direitos for a destruição também de todo o sistema educacional, vale a pena.

O projeto é a destruição - nada além disso.

Isso exige novas formas de resistência. Weintraub aposta no confronto total porque, ao contrário de ministros da Educação conservadores do passado, para ele não importa se o resultado for a paralisia completa do sistema.

Alguns colegas têm falado em greve. Penso que não é a melhor alternativa. Acho que é hora da universidade brasileira sair dos campi. Levar as aulas para as ruas, mostrar ao Brasil quem somos, o que fazemos, como impactamos no desenvolvimento nacional e na busca por uma sociedade menos injusta e menos violenta.

É à sociedade brasileira, que nos sustenta, que devemos servir, produzindo conhecimento, formando profissionais e dialogando com seus diversos segmentos. Vamos a ela.

sábado, 27 de abril de 2019

A Importância da sociologia e filosofia para a sociedade, por Válber Almeida




O que leva Bolsonaro e seu ministro da educação a cometer este crime contra a sociedade e a economia ao perseguir disciplinas que fazem pensar? Desconhecimento e despreparo


Sociologia e Filosofia não dão retorno social e econômico para a sociedade?
Por Válber Almeida 
GGN - Precisamos esclarecer que é exatamente o inverso. Sociologia e Filosofia foram as áreas que mais deram e dão retorno social para as sociedades.
Começa pelo fato de que os estudos sociológicos e filosóficos foram centrais na montagem dos arranjos institucionais jurídicos e políticos que garantiram a integração e a coesão social das sociedades modernas.
Tais arranjos deram uma face mais humana ao capitalismo, sem a qual tais sociedades teriam se desintegrado em lutas de classe.
Os estudos sociológicos e filosóficos estão na base do desenvolvimento dos direitos políticos, sociais e trabalhistas; nas políticas de redução das desigualdades sociais e educacionais, de distribuição de riqueza, bem-estar social, ampliação das oportunidades sociais e qualidade de vida nas sociedades capitalistas centrais.
Também embasaram tanto as lutas por direitos, cidadania, bem-estar e dignidade quanto os arranjos político-institucionais que daí resultaram, os quais constituíram fantásticas tecnologias de promoção civilizatória, de transformação do capitalismo numa força histórica civilizadora.
Sem a fundamentação científica e a crítica emancipatória do conhecimento filosófico e sociológico, o conhecimento e as tecnologias desenvolvidos em outras áreas continuariam como meras mercadorias raras, caras e seriam ainda mais inacessíveis às amplas parcelas precarizadas da sociedade.
O retorno social destas duas áreas de conhecimento, portanto, é fantástico. Mas o retorno econômico também.
Especificamente no caso da Sociologia, minha área, vou dar dois exemplos práticos… Na área da saúde, a Sociologia está presente numa disciplina que em algumas universidades é chamada Abordagem Socioantropológica da Saúde.
Este ramo especializado das Ciências Sociais é responsável pelos avanços mais importantes na área da higienização e epidemiologia, assim como pelos programas de saúde preventiva, formação de equipes multidisciplinares e interdisciplinares, e, ainda, pelo desenvolvimento dos sistemas públicos de saúde.
Parte do princípio de que a saúde e a doença se explicam não somente por fatores naturais, biológicos e físicos, mas por um arranjo sistemático de variáveis ambientais naturais, sociais, políticas, culturais e econômicas. No Brasil, consolidou-se na abordagem da Saúde Coletiva e resultou no SUS.
São bilhões que os governos e as sociedades economizam com estes programas e estes trabalhos em equipe. Além disso, eleva a eficiência da prevenção, do diagnóstico e do tratamento, o que também significa economia de tempo e recursos.
Outra, nas grandes empresas é cada vez mais requisitada a presença de Sociólogos, na medida em que os Investimentos Sociais Privados (ISPs) voltados para alcançar a Licença Social para Operar (LSO) são entendidos como uma ação preventiva, a qual antecipa e reduz perdas decorrentes de conflitos sociais.
Os casos de Brumadinho e Mariana são exemplares. A Vale S.A. está aprendendo a duras penas o custo econômico da negligência socioambiental e a importância de tratar estas áreas como fator de eficiência também econômica para a empresa.
Nos trens da empresa, cada paralisação decorrente de intervenções comunitárias em suas ferrovias pode gerar milhões de prejuízos por hora.
Portanto, tanto na esfera pública quanto empresarial, é imenso o retorno econômico da aplicação da Sociologia.
Então, o que leva Bolsonaro e seu ministro da educação a cometer este crime contra a sociedade e a economia? Desconhecimento? Sim! Despreparo? Sim!
Mas, é preciso entender também a tentativa de invisibilizar a concentração ainda maior da riqueza da nação na parte minoritária dos super ricos que suas medidas econômicas deverão produzir.
É, também, um passo a mais rumo a um governo de terror, o qual tem entre suas marcas históricas a perseguição ao pensamento social científico e emancipatório, que tem na Sociologia e na Filosofia seus quartéis generais.
Por fim, a busca de consolidar um governo que só se sustenta sobre a disseminação de mentiras e fantasias: proíbe-se a divulgação de dados sobre suas reformas, ao mesmo tempo em que proíbe o conhecimento crítico…
É a barbárie abrindo caminho, pedindo passagem, à galope!
Válber Almeida – Sociólogo; Doutor em Sociologia; Pós-Doutor em Socioeconomia e Sustentabilidade.

sexta-feira, 15 de março de 2019

Bolsonaro: regeneração ou destruição. Artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, com introdução de Leonardo Boff


Resultado de imagem para Jota Camelo charges


De fato, a sociedade e o Estado brasileiro têm características que necessitam ser enfrentadas.
A sociedade brasileira se caracteriza por extremas disparidades de renda e de riqueza; de gênero; étnicas; educacionais; culturais; entre as regiões; entre as periferias e as zonas ricas das cidades.
Essas disparidades, resultado histórico da escravidão, do latifúndio e do colonialismo, são responsáveis pelo fraco desenvolvimento da demanda e do mercado interno; pelo desequilíbrio regional do desenvolvimento; pela tensão social; e em parte pela violência.
O Estado brasileiro agrava mais as desigualdades devido à tributação regressiva; ao financiamento privilegiado de grandes empresas sem contrapartidas; à ineficiência dos serviços; à conivência com a sucção da economia pelo sistema financeiro e à parcialidade da Justiça do que as reduz por programas de transferência de renda para os mais pobres.
A sociedade e o Estado se caracterizam por vulnerabilidades externas, de natureza política, militar, econômica, tecnológica e ideológica.
Essas características são responsáveis pelo desenvolvimento insuficiente do potencial produtivo e distributivo do Brasil, de sua força de trabalho, de seu capital, de seus recursos naturais.
* * *
A estratégia para enfrentar tais desafios estruturais não pode se fundamentar em preconceitos e premissas simples, mas levar em conta a complexidade atingida pela sociedade, pela economia e pelo Estado brasileiro, desde 1930.
Em 1930:
a população brasileira era de 37 milhões de habitantes;
30% era urbana;
80% vivia ao longo da costa;
70% era analfabeta;
a principal atividade econômica era a produção e exportação de café;
a indústria era incipiente e o Brasil importava os produtos industriais que consumiam suas classes ricas e médias;
era exportador de produtos agrícolas, e o café respondia por mais de 90% das receitas de exportação;
o mercado de trabalho era semi-servil, pois não existia contrato de trabalho; salário mínimo; descanso semanal; férias; limite de horas de trabalho;
havia 100 km de rodovia asfaltada;
as mulheres não tinham direito de voto, o voto não era secreto e as eleições eram fraudadas em grande escala;
o Estado moderno não existia, havendo apenas sete Ministérios: Fazenda (1808), Guerra (1815), Exterior (1821), Marinha (1822), Justiça (1822), Transportes (1860) e Agricultura (1860).
Este quadro da sociedade e do Estado, arcaicos e frágeis, foram atingidos pela crise de 1929 que reduziu o preço da saca de café de 200 para 20 libras, desorganizando a economia brasileira, sua atividade interna e seu comércio, a que se juntariam os efeitos do protecionismo na economia mundial e da Segunda Guerra.
 De 1930 até hoje, graças à ação de estadistas, de empresários, de trabalhadores, do Estado e das Forças Armadas, o Brasil:
tem uma população de 210 milhões;
85% da população é urbana;
a percentagem de analfabetos é de 10%;
é grande exportador de produtos agrícolas, graças à Embrapa, empresa estatal, criada em 1972;
é um dos cinco maiores fabricantes de automóveis do mundo;
construiu a maior indústria aeronáutica de aviões regionais do mundo, graças ao ITA, ao CTA e à Embraer, criadas pela Aeronáutica;
dominou o ciclo industrial completo da tecnologia nuclear, graças à Marinha, e aos cientistas que mobilizou;
produz ultracentrifugas com tecnologia própria;
constrói navios e submarinos;
constrói helicópteros;
tem centros de pesquisa científica e tecnológica avançada;
construiu um dos maiores institutos de pesquisa em saúde do mundo, a Fiocruz;
exporta produtos manufaturados;
descobriu, com tecnologia própria, uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o pré-sal, graças à Petrobrás, criada em 1954 pelos esforços dos Centros de Estudos de Defesa do
Petróleo do Exército brasileiro, e por uma ampla campanha popular pela nacionalização do petróleo;
criou instituições estatais capazes de financiar investimentos privados, em grande escala e a largo prazo, como o Banco do Brasil (na agropecuária) a CEF (na habitação e saneamento) e
o BNDES (na indústria e todos os campos de atividade);
integrou seu território com o Programa de Metas de JK, a construção de Brasília, e o programa Calha Norte, na Amazônia;
tem 222 mil km de rodovias asfaltadas;
manteve elevado grau de coesão social e regional;
se tornou uma das dez maiores economias do mundo;
manteve relações pacíficas e de cooperação com todos os seus vizinhos.
Os países que podem melhor defender e promover seus interesses são aqueles que têm grande território; grande população; grande coesão social e convicção de destino.
O território extenso permite uma gama maior de recursos minerais, inclusive energéticos e uma agricultura diversificada.
A população grande e urbana permite o desenvolvimento de uma economia e um mercado interno amplo, capaz de produzir e absorver os bens das mais diversas linhas de produção industrial.
A maior coesão social é fator fundamental para o desenvolvimento e para a ação externa eficiente.
A convicção das classes hegemônicas, e das elites que dirigem o Estado em seu nome, de que um país que reúne as condições acima, tem a capacidade e o dever de realizar seu potencial de forma autônoma ocorre em sociedades e Estados como a China, a Rússia, os Estados Unidos e daí seu papel protagônico na política internacional.
No caso do Brasil, que reúne as condições acima, esta convicção existiu em diversos momentos de sua História, mas não ocorre no presente.
O Presidente Bolsonaro se apresenta como defensor radical das políticas do Mercado.
Bolsonaro tem como principal assessor econômico Paulo Guedes, economista ultra neoliberal, formado nos princípios da antiga escola de Chicago.
Jair Bolsonaro, Presidente, e Paulo Guedes, superministro da economia, declararam ser necessário prosseguir, acelerar e aprofundar medidas que são, em seu conjunto, o que se pode definir como um “projeto do Mercado” para o Brasil.
O Projeto do Mercado para o Brasil é o projeto dos muito ricos, dos megainvestidores, das empresas estrangeiras, dos rentistas, dos grandes ruralistas, dos proprietários dos meios de comunicação de massa, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, e de seus representantes na política, na mídia e na academia.
É o projeto de uma ínfima minoria do povo brasileiro, para uma pequena parte do povo brasileiro.
Segundo a Secretaria da Receita Federal, um total de 30 milhões de brasileiros apresentam declaração de renda em que revelam ter rendimento superior a dois salários mínimos, cerca de 500 dólares por mês. Portanto, dos 150 milhões de brasileiros adultos, que são eleitores, 120 milhões ganham menos de dois salários mínimos por mês e estão isentos de apresentar declaração de renda.
Na outra extremidade, seis mil brasileiros declaram voluntariamente ter rendimentos superiores a mais de 320 mil reais por mês. Todavia, pode-se dizer que os que “controlam” o Mercado seriam aqueles que declaram ter renda superior a 160 salários mínimos por mês, cerca de 20 mil indivíduo
O projeto econômico ultraneoliberal de Bolsonaro/Guedes se fundamenta em premissas simplistas:
(a) a iniciativa privada pode resolver, sozinha, todos os problemas brasileiros;
(b) a iniciativa privada estrangeira é sempre melhor do que a brasileira.
fonte:8 de Março de 2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

As manobras do colombiano extremista imposto ao MEC por Olavo de Carvalho e Bolsonaro


E são interessantes porque mostram que o oportunismo e o carreirismo falam mais alto do que as tão decantadas convicções ideológicas

As manobras de Vélez

por Luis Felipe Miguel, no GGN

Vélez Rodríguez começa a se livrar dos olavetes para ver se consegue se segurar no cargo de ministro. Uma jogada arriscada. Ele não tem prestígio, nem padrinhos, nem competência, nem habilidade política ou gerencial, nem conhecimento da área, nem qualquer outra qualidade que lhe credencie ao cargo. Está lá por obra e graça da indicação do guru de Richmond. Se o general Mourão de fato ganhar mais essa, certamente vai preferir dar o ministério a alguém menos caricato e trapalhão.
As manobras de Vélez são interessantes porque mostram que o oportunismo e o carreirismo falam mais alto do que as tão decantadas convicções ideológicas. Como bom discípulo de Olavo, ele deveria recusar-se a ficar em um governo que, sabe-se agora, está se mostrando perigosamente tolerante ao globalismo. Mas gosta mais do cargo.
Com a possível saída de Vélez, Stavros Xanthopoylos volta a se mexer para pegar o MEC. Conselheiro de Bolsonaro na campanha, representante do ensino privado, ele faz acenos à “agenda moral” – já se declarou favorável à volta das aulas de Educação Moral e Cívica e contra o combate às violências de gênero nas escolas – mas sua prioridade é a destruição das escolas públicas. Parece menos primário do que Vélez, o que não quer dizer muita coisa, mas o torna um adversário talvez mais perigoso.
A ver a reação do outro olavete do primeiro escalão, o chanceler Ernesto Araújo. Mas fica a indagação: por que Olavo decidiu romper com o governo?
Tenho três hipóteses, não necessariamente excludentes entre si. (1) Como charlatão, ele tem um nome a zelar e não quer ser associado a esse governo. (2) O poder lhe subiu à cabeça e ele realmente acha que vai derrubar o general Mourão com suas postagens no Facebook e vídeos no Youtube. (3) Está pressionando para ver se dá um jeito de descolar alguma graninha, agora que se confessou quebrado, mendigando ajuda para comprar seus charutos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Não há método na burrice. Texto de Marcelo Zero


Resultado de imagem para jota camelo charges bolsonaro

O grande Goethe já nos advertia que “não há nada mais terrível que uma ignorância ativa” (Es ist nichts schreklicher als eine tätige Unwissenheit).

Obviamente, Goethe não teve o prazer de conhecer Bolsonaro e sua preclara equipe de fundamentalistas cristãos e sumidades emergidas das redes sociais. Se tivesse, teria acrescentado que não há nada mais desastroso que a ignorância ativa que chega ao poder.

Com efeito, mal começou e o governo do capitão exibe a um mundo estarrecido um festival tragicômico de declarações brutais e estapafúrdias e de decisões beócias e cretinas, seguidas invariavelmente por apressados e canhestros desmentidos. Ornamenta esse festival de obtusidades as seguidas desautorizações dos zurros presidenciais.

Com o novo mandato, instaurou-se a mais completa anomia. Ninguém sabe direito que decisões serão concretizadas e quem, de fato, manda no governo, sé é que há alguém que manda. Há a incômoda sensação de se estar em num barco à deriva, que ruma impotente rumo ao Maelstrom, sob o olhar impassível do Jesus da Goiabeira, que não ora por nós.

Há alguns, no entanto, que veem essa algazarra trágica como um plano mefistofélico, destinado a distrair a opinião pública das “verdadeiras intenções” do governo fascistoide, que quer entregar os destinos da Nação a desinteressados agentes do capital internacional.

É possível. Afinal, nada mais funcional a esses interesses que um presidente que fez da ignorância e da boçalidade a sua raison d’être. Um presidente que não entende nada, não manda nada, e que está disposto a bater continência até para o Rin Tin Tin, pastor alemão que serve galhardamente ao Exército dos EUA.

Como diziam os antigos gregos, aqueles a quem os deuses querem destruir primeiro enlouquecem. Portanto, é possível que haja alguma funcionalidade oculta, bem oculta, nesse enredo giocoso de opera bufa. Alguma coisa cuja lógica seja acessível apenas aos deuses.

Suspeito, contudo, usando a Navalha de Occam, que a verdade seja, como soe acontecer, mais simples e mais brutal: o Brasil foi assaltado por uma legião de oligofrênicos que não têm a menor ideia de como governar o país.

Mesmo o insigne “Posto Ipiranga”, sumidade gestada na Escola de Chicago, que respirou os ares impolutos de Santiago de Chile, parece desconhecer fatos básicos sobre o Brasil, como, por exemplo, o de que o orçamento de um ano tem de ser aprovado no ano anterior, informação acessível até mesmo a mortais comuns medianamente letrados.

O Itamaraty, que já nos legou quadros extraordinários, à esquerda e à direita, agora nos brinda Ernesto Araújo, um diplomata, por assim dizer, intelectualmente muito original, até mesmo surpreendente. Suas animadas arengas demonstram, em vários idiomas, uma mente muito atrás de seu tempo.

Já o grande círculo militar do poder parece ter faltado a algumas aulas na Escola Superior de Guerra e não ter se empenhado muito na leitura das obras de Golbery. Isso explicaria as misteriosas referências à Terceira Guerra Mundial, provavelmente desencadeada contra o kit gay, aliado da mamadeira de piroca, bem como a total ausência de rigor geopolítico em suas soi disant “análises”.

Não creio que haja funcionalidade política nessa grotesca barafunda. Qualquer governo, mesmo aquele que não tem compromisso com os interesses do país e do seu povo, precisa de credibilidade e legitimidade para administrar.

No entanto, o desgoverno do capitão parece obstinadamente empenhado em queimar rapidamente todo o seu capital político, laboriosamente amealhado em anos de fake news e de ódio a tudo que cheire a progresso.

Muito provavelmente, a legião de acéfalos que se apossou do Estado achava que governar seria tão fácil quanto disseminar mentiras pelo Twitter e pelo Facebook, ou como operar “milagres” numa igreja neopentecostal.

Infelizmente, não é. Governar exige profundo conhecimento do país, do mundo e da máquina pública. É tarefa muito complexa e difícil, que deveria ser atribuída, segundo Platão, apenas a homens sábios. Sabedoria que não pode ser identificada com conhecimento acadêmico, mas que não pode dispensar visão racional do mundo, coisa que o capitão e sua voluntarista armada Bolsoleone evidentemente não têm.

No governo, fé não move montanhas. Competência, sim.

Assim sendo, não parece haver método na burrice e plano na improvisação.

Conta a história que Leon Trotsky, exasperado com as posições irrefletidas do escritor e político norte-americano Dwight Macdonald, teria afirmado: “Todo homem tem o direito de ser ocasionalmente estúpido, mas o companheiro Macdonald abusa desse privilégio”.

Como Goethe, Trotsky não conheceu Bolsonaro.

Marcelo Zero

domingo, 23 de dezembro de 2018

Da Deutsche Welle da Alemanha: na moda anti-intelectualismo de Bolsonaros, Olavos, Militares, Fundamentalistas, Globo e Fake News o Brasil tornou-se um País do Passado



No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.

Da Deutsche Welle:



Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.
No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.
Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.
No Brasil atual, não se grita "herege!", mas "comunismo!". É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!
Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais. 
Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos". 
Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, "alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento", segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.
A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como "Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT". Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.
Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a "musa do veneno" (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos). 
Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.
O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.
Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.
Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.
Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.
Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo "criminalizados". Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam. 
Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A "Escola Sem Partido" tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como "asneira sem tamanho".
A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão. 
Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.
É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.
E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou "convexa", e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.
Brasil, um país do passado. 
Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
______________
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 

LEIA MAIS

ÁUDIOS E VÍDEOS RELACIONADOS