Do Portal do José:
Textos de Filosofia e ensaios sobre temas atuais
Com base em duas informações - e no vício da repetição de notícias sem confirmação - formou-se o consenso.
Foto de Rosinei Coutinho - STF

O Ministro Alexandre de Moraes conspirou para que Jorge Messias não fosse aprovado pelo Congresso. Quem informou isso? Malu Gaspar, com base em 6 fontes. Aliás, a cada notícia nova, Gaspar aumenta o número de fontes. Mas, com base em 12 fontes, digo que a informação é incorreta (para ser elegante). Quem são minhas 12 fontes? Só digo quando a Malu revelar as suas, porque sigilo de fonte é sagrado.
Outros colunistas enveredaram pelo mesmo caminho, dentro do espírito de pool que contamina o colunismo de palpites. Bastam 2 repetições para o rumor tomar forma de verdade.
Os pontos que ajudaram a formar a convicção:
* Moraes encontrou-se com Davi Alcolumbre na noite anterior à votação.
* Moraes comentou que Messias seria derrotado por 8 votos. Como poderia saber? Só se estivesse articulado com Alcolumbre.
Com base em 2 informações – e no vício da repetição de notícias sem confirmação – formou-se o consenso.
Hoje, Mônica Bérgamo descreve o jantar oferecido por Moraes em sua casa.
O título é para não fugir do espírito de pool da mídia: “Moraes faz jantar com Alcolumbre na véspera de derrota de Messias e Lula desconfia”.
Mas o que diz a matéria: “Convidados afirmam que encontro, na verdade, homenageou Mário Sarrubbo, amigo de longa data do ministro, tinha apoiadores de Lula entre os presentes e que conversas giraram em torno de amenidades”.
Quem compareceu: “Além de promotores e procuradores, o magistrado convidou para o encontro pessoas que, amigas dele e de Sarrubo, são também próximas de Lula. Estiveram na casa dele o ministro do STF Cristiano Zanin, o superintendente da PF (Polícia Federal) Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski”.
Portanto, a mídia não mentiu quando disse que Moraes encontrou-se com Alcolumbre e soube que Messias seria derrotado por 8 votos. Não mentiu, mas não contou a verdade, Porque meia verdade é uma das formas de mentira.
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Do Jornal GGN:
Reprodução

São curiosos os movimentos da imprensa brasileira diante das duas Lava Jatos.
Na primeira, muitos jornalistas experientes mergulharam de cabeça — contaminados pelo moralismo da campanha, mas sobretudo pela visibilidade que o tema proporcionava. Afinal, “limpar o Brasil” era uma bandeira sedutora, mesmo para profissionais que, pela idade e pela experiência, deveriam conhecer de cor a saga dos inúmeros Catões que periodicamente invadem a política brasileira. A unanimidade construída em torno da Lava Jato sufocou todas as vozes dissonantes. Sei, por experiência própria, o preço que se pagou por defender a democracia e o devido processo legal naquele ambiente.
Para entender o que aconteceu, é preciso saber como funciona o modelo de negócios da mídia. A notícia é um produto estandardizado pela narrativa — pela capacidade do veículo de contar a sua versão dos fatos. Durante décadas, havia nos jornais dois grupos em tensão permanente: o comercial e a redação. Um dos orgulhos das grandes redações era exatamente a “muralha da China” que os separava. O jornal contratava jornalistas para construir um produto com audiência e credibilidade. E era a partir dessa credibilidade que se exercia o verdadeiro negócio da imprensa: a construção ou a destruição de reputações.
Nos veículos bem organizados, o poder dos donos se manifestava por indução, não por ordem direta. Os diretores de redação sinalizavam quais temas mereciam mais ou menos espaço, atendendo aos interesses comerciais da casa — sempre com sutileza suficiente para não comprometer a credibilidade do veículo. A própria Veja, durante certo período, obedecia a essas regras tácitas. O que não impediu a Editora Abril de receber da ditadura uma rede de hotéis Quatro Rodas e outras benesses.
A partir dos anos 2000, esse equilíbrio precário desmoronou. O fim da bonança do jornalismo impresso, a queda das barreiras contra grupos estrangeiros e o baque provocado pela desvalorização cambial — que apanhou os grandes conglomerados de mídia no contrapé, endividados em dólares — criaram uma crise sem precedentes. Diante da ameaça de invasão por grandes grupos internacionais, a fantasia foi rasgada. Roberto Civita importou o modelo Rupert Murdoch, cujos princípios eram brutais: aproximar-se da ultradireita para obter poder político; transformar o veículo na verdadeira oposição, capturando partidos; apelar ao discurso de ódio e às fake news de forma sistemática; e entrar em todo tipo de negócio, confiando no poder de fogo do grupo para resolver os problemas comerciais que surgissem.
Quando começou o jogo do impeachment — conduzido por um bando de alucinados, Serra e Aécio Neves à frente —, o único que enxergou os desdobramentos foi Fernando Henrique Cardoso, com sua frase premonitória: “A gente sabe como começa, não sabe como acaba”. Deu no que deu. A nova dinâmica contaminou irreversivelmente a opinião pública, abriu o campo para as redes sociais e seus algoritmos, colocou a democracia sob ameaça, varreu o PSDB do mapa político e pavimentou o caminho para o bolsonarismo.
Agora, um segundo ato.
A Lava Jato 2 confirma o mote de que a história, quando se repete, se repete como farsa. Desta vez, não há mais unanimidade. Na Globo, por exemplo, convivem os conservadores de sempre, os birutas de aeroporto que giram conforme o vento, os que sonham com a volta da influência que tinham na temporada anterior — e um núcleo duro de bons jornalistas que não embarcaram no jogo e fazem o contraponto. O controle da narrativa se dá agora pelos diretores de redação, responsáveis pelas primeiras páginas — especialmente O Globo — e pelos editoriais alucinados da Folha e do Estadão. A manipulação de títulos e intertítulos ainda causa impacto, sobretudo nas redes sociais. Mas o consenso fascista da primeira Lava Jato não se repetiu.
Ainda assim, a irracionalidade do antilulismo continua sendo a mola-mestra do apoio da grande mídia aos movimentos de ruptura democrática. Mudou o cenário, mudou o elenco, mudou a encenação — mas o roteiro, no essencial, é o mesmo.
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O problema Cérebro, Mente, Materialismo promissório e ambiente cientifico em vídeo do Prof. Dr. Alexander Moreira Almeida pla TV NUPES UFJF:
Da GloboNews e do Canal Fatos Da Política:
Neste vídeo, analisamos a reviravolta no caso do Banco Master. Até a grande mídia teve que admitir: o esquema é um ninho de bolsonaristas e do Centrão de Ibaneis Rocha e Cláudio Castro. Enquanto eles tentam atacar o governo com CPIs vazias, Lula prepara um contra-ataque de mestre. Flávia Oliveira soltou a letra: a indicação de Jorge Messias para o Ministério da Justiça pode ser o xeque-mate que Alcolumbre e o clã Bolsonaro não esperavam. O "Escorpiano" está pronto para o troco! 🦂 Assista, comente e compartilhe a verdade que a oposição tenta esconder!
Da TV 247:
O jornalista Leonardo Attuch entrevista o analista geopolítico Pepe Escobar para debater os grandes temas internacionais.
Inimigos da democracia e à favor do sistema e do bolsonarismo comemoram no Senado
"É a nata da extrema direita e do fisiologismo. Gente que transformou o Congresso em antro de discurso de ódio, agressões, mentiras, reacionarismo e medidas anti-povo. Tudo regado pelo despejo bilionário de emendas parlamentares para uso inconfessável, fruto da chantagem do Legislativo sobre o Executivo."
Do ICL:
Para quem estiver buscando referência para entender a dimensão da derrota do governo na noite desta quarta-feira (29), há um parâmetro simples a seguir. Basta observar quem são os políticos que comemoram com mais entusiasmo a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal.
É a nata da extrema direita e do fisiologismo. Gente que transformou o Congresso em antro de discurso de ódio, agressões, mentiras, reacionarismo e medidas anti-povo. Tudo regado pelo despejo bilionário de emendas parlamentares para uso inconfessável, fruto da chantagem do Legislativo sobre o Executivo.
Os integrantes dessa festa estranha de gente esquisita se enquadram perfeitamente na situação que Darcy Ribeiro, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, definiu um dia: “Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
Basta examinar alguns espécimes dessa fauna nefasta, que ontem sorria de orelha a orelha.
Figuras como Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), o braço direito de Silas Malafaia, ponta de lança em todas as propostas extremistas do bolsonarismo, que embala barbaridades em discurso de retórica evangélica. É o “moralista” na casa de quem a Polícia Federal encontrou R$ 430 mil em dinheiro vivo, que ele atribuiu de forma angelical a uma venda de imóveis (consumada somente 11 dias após a batida policial).
Outro que estava exultante era Gustavo Gayer, deputado do PL de Goiás indiciado pela PF pelos crimes de associação criminosa, falsidade ideológica, falsificação de documento particular e peculato. Os investigadores o consideram figura central em suposto esquema de desvio de verbas parlamentares, utilizando entidades inexistentes ou de fachada para ocultar os valores. Foi apontado pela CPI da Pandemia como um dos maiores disseminadores de mentiras durante o auge da covid-19. Teve condenação por violência política contra Gleisi Hoffmann, entre outras ocorrências.
Também festejou o resultado o senador Magno Malta, defensor do golpe de Estado bolsonarista, mais um que usa a retórica religiosa para tornar palatáveis os maiores absurdos. Foi processado por caluniar o ex-ministro do STF Luis Roberto Barroso, a quem acusou de agredir a mulher, entre outras ocorrências.
O time de extremistas em clima de festa é grande: Jorge Seif, Zé Trovão, Bia Kicis, Artur do Val, Sérgio Moro, Rogério Marinho…
São políticos desse naipe lamentável que se agruparam para rejeitar ou para trabalhar pela rejeição de Messias, não por critérios técnicos, mas para avançar ainda mais no processo que torna o Executivo brasileiro mero joguete nas mãos do Legislativo.
É um jogo de xadrez dificílimo que Lula e sua equipe terão que jogar agora para não ficarem completamente encurralados, ainda mais ameaçados pelo pior Congresso da história durante os últimos meses de mandato.
Que o presidente use toda a sua experiência de estrategista para reverter a situação, especialmente neste ano eleitoral.
Não é somente o governo que depende disso, mas o futuro da democracia brasileira.
Do ICL, retransmtido pelo canal Fatos da Política:
A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias.
Do ICL:
A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias. Não era militante da luta armada contra o regime e nem sequer se envolvia com política, mas acabou capturada ao lado de três guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi estuprada pelo menos duas vezes, uma na viatura do Exército, logo após a captura, e outra em um apartamento de Copacabana, usado como aparelho da ALN.
O estupro no imóvel, na Rua República do Peru 143, está descrito em informe sobre “Irregularidades na Seção de Operações”, de 12 de fevereiro de 1970, um dos mais importantes papéis encontrados no acervo pessoal do coronel Cyro Etchegoyen. O documento estava guardado dentro de uma pasta intitulada “Ordem dos gorilas” e com um desenho na capa.

A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte.
Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias. Em nota, o Instituto Fernando Santa Cruz disse que “teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos”. Além disso, o IFSC vai atuar pelo reconhecimento oficial de Marilene como vítima da ditadura militar brasileira.
No depoimento que prestou a Cyro, o então sargento Israel Sturne, indignado com a atitude dos colegas do CIE, denunciou não apenas a violência praticada contra Marilene, mas o roubo sistemático, por parte de agentes, de bens encontrados com os presos políticos. Na segunda-feira (27), o ICL Notícias publicará novos dados sobre essa denúncia na sequência da série de reportagens.

O documento interno descreve que as “irregularidades que estariam ocorrendo na seção de Operações (do CIE), a qual era acusada de praticar violências desnecessárias e excessivas durante os interrogatórios e de apropriação, para uso pessoal de seus integrantes, de objetos pessoais encontrados em aparelhos estourados”. Denominado “Resumo das declarações do sargento Sturne”, de 12 de fevereiro de 1970, o documento diz que, após ser presa na Tijuca, Marilene foi levada para outro local usado como aparelho pela ALN, em Copacabana, e foi estuprada.
Sturne descreveu a violência a Etchegoyen. “Consta que o sargento Iraci forçou a senhora Marilene a dormir com ele na frente dos demais”, relatou. Na sequência, ainda disse ter ficado absolutamente chocado com o episódio. “Sintetizando, disse que funcionalmente o fato que mais o chocou foi a limpeza no apartamento de Domingos e, do ponto de vista humano, chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene e com as torturas violentas observadas durante os interrogatórios”, completou Sturne. Segundo ele, o sargente Canaã também presenciou o crime. Sturne ainda definiu os colegas como “os piores sem sombra de dúvidas”.
O agressor descrito pelo colega é o sargento Iracy Pedro Interaminense Correa e Canaã é o sargento Jairo de Canãa Cony. Em 2014, em depoimento ao Grupo de Justiça de Transição do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, Iracy disse que serviu 15 anos no Exército e admitiu que trabalhou no CIE e que conheceu o coronel Cyro. Na ocasião, tanto Iracy como Canaã tinham sido apontados pelo tenente-coronel Paulo Malhães como os sargentos que atuaram com ele na operação para ocultar os restos mortais do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido desde janeiro de 1971.
Ao depor, Iracy negou a participação no crime. Questionado sobre seu trabalho, ele reconheceu que atuava junto com Canaã. “Esse Canaã ele era muito ligado na brigada. Então, era um companheiro meu da brigada. Ele era da minha equipe, mas eu não trabalhava quase com ele”, disse. “Eles iam sair, iam fazer a informação e eu ia cuidar da viatura e cuidar de rádio”, informou. Ambos também foram integrantes das equipes que atuaram nas torturas da “Casa da Morte”, de Petrópolis.
Inês Etienne Romeu, única sobrevivente a passar pelo local, também denunciou que foi estuprada ao longo dos três meses em que foi torturada no aparelho clandestino da ditadura. Ela acusou o soldado Antonio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, de tê-la violentado. Ele responde a um processo na Justiça Federal do Rio de Janeiro que aguarda apenas a sentença desde o ano passado. Camarão mora em Mogi das Cruzes, em São Paulo.
Canaã morreu em 1982 e Iracy em 2024.
Marilene morava com os filhos e a avó centenária em um sobrado na Rua Tenente Villas Boas 16, na Tijuca. Ela era enteada do ator Modesto de Souza, um velho militante do PCB, que atuou em filmes como “Terra em transe”. Depois que o padrasto morreu, em agosto de 1967, o sobrado passou a ser usado como “casa de passagem” para os militantes da ALN chegados do treinamento de guerrilha em Cuba. A mãe de Marilene, Laura Santos Mello, organizava a acolhida em comum acordo com Zilda Xavier Pereira, sua amiga e uma das mais importantes dirigentes da organização guerrilheira.
A rua, estreita e sem saída, parecia uma vila de casas e prédios baixos. Um bom esconderijo para quem tramava contra o regime militar. O clima insuspeito do local era reforçado pela vizinhança, formada por famílias tradicionais, moradores pacatos e muitos militares. O tenente médico Amilcar Lobo, que seria denunciado anos depois por atuar nas sessões de tortura no Destacamento de Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, era vizinho de porta. Nunca desconfiou da existência do aparelho.
O ex-deputado Carlos Marighella, o fundador da ALN que chegou a ser considerado o inimigo “número um” do regime, frequentava o aparelho da Tijuca para se reunir com os militantes da organização. O líder sindical Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que coordenou o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em setembro de 1969, esteve escondido no local. Ambos foram assassinados pelos militares naquele ano.
Hoje morando em Brasília, o ex-integrante da ALN Gilney Viana lembrou que passou alguns meses no local e conviveu com Marilene e os filhos. “Ela era, no máximo, uma simpatizante”, conta Viana, ao dizer que Marilene sabia que os hóspedes eram integrantes da oposição à ditadura. “Foi o aparelho que eu fiquei mais tempo. De final de maio até o dia 2 de novembro de 1969″, relembra. “O Marighella, veja bem, eles tinham confiança nesse aparelho porque é um aparelho que normalmente era de trânsito”, explica.
Tanto Viana como o agora advogado Aton Fon Filho, outro integrante da ALN, recordam de encontros com Marighella naquele local. Aton agora vive em São Paulo, mas recorda de cada detalhe daquele 19 de dezembro de 1969.
“Tinha regra na organização: se tiver algo estranho, uma pessoa diferente, foge. Eu descumpri a regra. Subi e entrei. Quando eu entro na casa, a Linda Tayah já havia sido presa e estava sendo torturada numa banheira no banheiro lá dessa casa. Eu sou preso também. Subindo a escada. Eu tomo uns pontapés. Rolo escada abaixo”, relembra. Depois, Aton foi levado para a mesma banheira onde estava a colega da ALN. “Eles molhavam a gente e puxaram o fio de lá de cima do chuveiro elétrico para aplicar choques elétricos na gente. Então, as torturas começaram ali mesmo, na casa”, revela. Aton depois foi levado pelo capitão Maurício Lima para São Paulo e ficou preso até novembro de 1979. Ele não chegou a ver o que ocorreu com Marilene naquele dia.
Quem soube o que Marilene sofreu foi o sargento do Exército Israel Sturne. Ele integrava a equipe que, no dia 19 de dezembro de 1969, estourou o aparelho da ANL na casa de Marilene. No local, foram presos três nomes importantes da organização na cidade: Aton Fon Filho, guerrilheiro treinado em Cuba, que morava no sobrado, Linda Tayar e Domingos Fernandes, primeiro chefe militar da ALN carioca. Marilene foi levada pelos militares para o endereço onde ficava o “aparelho” de Domingos, em Copacabana. Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano” ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene”.
Fon Filho era um quadro importante da ALN. Meses antes da prisão, em junho de 1969, ele participou da ação que detonou uma bomba-relógio no elevador da Câmara Americana de Comércio, nos arredores do viaduto do Chá. O objetivo do atentado era protestar contra a missão do então governador de Nova York, Nelson Rockefeller, enviado ao Brasil pelo presidente norte-americano, Richard Nixon.
Na memória de Augusto dos Santos Mello, 61 anos, existe uma lembrança viva daquele dia. Ele é um dos cinco filhos de Marilene e hoje mora no interior do Rio de Janeiro com a mulher. Ele diz que saiu com Marilene para fazer a feira naquele dia e ela reparou em carros cheios de armas no caminho. Por isso, parou e resolveu telefonar para sua mãe em casa. “Aí quando volta, é o terror, né? Eu e meus irmãos fomos levados para uma sala no centro da casa, toda fechada, a portas fechadas, janelas fechadas e ficamos lá. Ficamos lá até eles saírem da casa e nos jogarem no vizinho”.
No entanto, ao longo do tempo em que os militares torturavam Aton, Linda e Domingos, as crianças ouviram tudo. “Eles encheram a banheira. Nós tínhamos uma banheira de encher com água. E torturavam com fios. Estupraram ela e tudo mais e bateram nela. E foi isso lá que aconteceu. A gente escutou”, relembra. Depois, a mãe ficou desaparecida por cerca de três dias. “Quando nós voltamos para casa, a minha avó que foi tomar conta da gente”, explica. Augusto diz que a mãe retornou diferente. Calada, distante e por um bom tempo continuou assim. “Ela voltou meio afastada da gente”, revela.
Sobre o que aconteceu a ela no período em que desapareceu, Marilene guardou a dor por muito tempo. A única vez em que revelou parte da violência sofrida foi quando a família estava num carro e precisava passar por um túnel. “Ela só relatou depois de muito tempo, porque a gente tinha que ir visitar minha avó e tinha que passar pelo túnel. Ela não queria passar. Ela tinha trauma do túnel porque ela foi retirada de casa e foi estuprada dentro do túnel”, revela.
O militar Israel Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho, como diziam na época, e que lá era dividido em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.
Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai foi pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa aí para outra. Então, morei em Olaria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.
Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.
Segundo Reinaldo, esse foi o começo da retaliação contra o pai, que teve consequências para toda a família.
“Realmente ele se sentiu perseguido porque ele denunciou alguns colegas de farda. O pessoal estava ameaçando ele, praticamente. Tanto é que ele não tinha local fixo. Ele quase que não ficava com a gente. Passei minha infância todinha prejudicado porque não via meu pai. Ele não vinha pra casa para não expor a família dele a risco”, relembra.
Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.