terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Começam a surgir na grande mídia vídeos reais em que Tony Garcia delata abusos de Sergio Moro a Gabriela Hardt, da 13ª Vara de Curitiba e sua Lava Jato

 

Em 2023, o GGN mostrou que Hardt engavetou o depoimento por dois anos. Juiz Appio descobriu e enviou o caso ao STF...


Da Redação do Jornal GGN:


Começam a surgir na grande mídia vídeos em que Tony Garcia delata Sergio Moro a Gabriela Hardt




A jornalista Daniela Lima, do UOL, divulgou nesta segunda, 2 de fevereiro de 2026, um trecho do depoimento de Tony Garcia à juíza Gabriela Hardt, onde o ex-deputado federal relata que foi “espião” de Sergio Moro e do Ministério Público Federal do Paraná por vários anos, tendo à sua disposição agentes da Polícia Federal para grampear quem quisesse. A mídia independente divulgou o testemunho em primeira mão. Assista abaixo:

Em 2023, o GGN mostrou que esta oitiva de Tony Garcia ficou engavetada por cerca de dois anos. Quando descobriu o depoimento bombástico, o juiz federal Eduardo Appio, então titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, não pensou duas vezes: encaminhou o caso para o Supremo Tribunal Federal, já que, à época, tanto Moro quando Deltan Dallagnol já dispunham de foro privilegiado. Deltan, no entanto, acabou tendo o mandato cassado pela Câmara.

No depoimento a Hardt, Tony Garcia, que havia firmado uma acordo de cooperação com o MPF, disse que atuou como “agente infiltrado do Ministério Público”. “Eu trabalhei por dois anos e meio diuturnamente, por 24 horas, tendo um agente da inteligência da Polícia Federal ao meu dispor, para eu pedir segurança e interceptação telefônica”, disparou Garcia no trecho do vídeo revelado nesta segunda pelo UOL.

Ante Hardt, Tony Garcia afirmou que Moro o convocava para debater os passos da investigação após ter acessos aos grampos, e cobrava que o então delator abordasse potenciais investigados e os levasse a cooperar com a Justiça do Paraná. Segundo a coluna de Daniela Lima, Garcia tinha de ajudar Moro a apurar “um suposto esquema de venda de sentenças judiciais”.

Decidido a retirar os esqueletos do armário da chamada República de Curitiba, Appio entendeu que estava diante de uma potencial notícia-crime contra agentes lavajatistas, e remeteu cópias do processo de Tony Garcia ao Supremo em 2023. O caso, hoje, tramita nas mãos do ministro Dias Toffoli, que no final de 2025 autorizou a Polícia Federal a vasculhar o antigo gabinete de Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba. Foi lá que as fitas foram encontradas.

Procurado pelo UOL, Moro alegou que os fatos são de 20 anos atrás – ou seja, estariam prescritos. Também disse que, naquela época, a jurisprudência autorizava uso de grampos sem autorização judicial quando a iniciativa partia de um colaborador.

Ao enviar o caso ao STF, Appio sinalizou, com base no depoimento de Tony Garcia a Gabriela Hardt, que entre os alvos dos grampos sem autorização judicial estavam um governador de Estado e ministros do Superior Tribunal de Justiça, todos com foro privilegiado, o que significa que Moro usou de um “colaborador infiltrado sem qualquer formalidade ou observância das leis vigentes no país” para investigar figuras que estavam fora de sua alçada. Há algumas semanas, o UOL mostrou que um ministro do Tribunal de Contas da União estaria entre os grampeados.

Appio ainda transmitiu seu espanto com o fato de Hardt não ter tomado nenhuma providência ao tomar conhecimento das supostas ilegalidades praticadas por Moro e os procuradores de Curitiba. “Ainda que estando presentes em audiência, as autoridades do caso nada fizeram em face do relatado.”

Os autos foram encaminhados por prevenção ao ministro Ricardo Lewandowski, aposentado do STF. Em seu lugar na turma que julga casos da Lava Jato, entrou o ministro Dias Toffoli. Hardt ainda tentou desfazer a decisão de Appio assim que o magistrado foi afastado da 13ª Vara após decisão da Corregedoria do TRF-4. Na sequência, no entanto, Hardt virou alvo de uma ação de suspeição apresentada pela defesa de Tony Garcia, e acabou decidindo, por foro íntimo, se afastar do processo. 

Lançado em janeiro de 2026, o mais novo documentário inédito do GGN“A Caixa-Preta da Lava Jato”, mostra como Eduardo Appio procedeu diante de outros supostos crimes praticados por Sergio Moro. Assista:

Leia também:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sérgio Moro: Delator diz a Justiça ter usado telefone da 13ª Vara para contatar alvos | Daniela Lima no UOL

 

Do UOL:

Vídeos gravados pela Justiça Federal e obtidos pela coluna mostram um ex-colaborador da 13ª Vara Federal de Curitiba dizendo, diante de uma juíza, que ele atuava não como delator, mas como "informante" do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR), informa a colunista Daniela Lima. UOL News vai ao ar de segunda a sexta-feira em duas edições: às 10h e às 17h. Aos sábados, o UOL News é exibido às 11h e 16h, e aos domingos, às 16h. O programa é sempre ao vivo e traz as principais notícias do dia com entrevistas e análise de colunistas



Daniela Lima explica por que Moro é acusado de produzir grampos ilegais e monitorar autoridades no Podcast UOL Prime

 

Do UOL Prime:

A Polícia Federal descobriu, durante busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, a prova documental de que o ex-juiz Sergio Moro grampeou conversas de delatores com autoridades que só poderiam ser investigadas e julgadas por tribunais superiores.

A informação foi revelada pela repórter e colunista do UOL Daniela Lima, que teve acesso à íntegra do grampo feito em 2005 ao então presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), Heinz Herwig, e ao despacho judicial, que comprovam a ordem de monitoramento.

Neste episódio do podcast UOL Prime, Daniela Lima conta ao apresentador José Roberto de Toledo sobre o que há no material apreendido e investigado pela PF, como a transcrição de escutas e relatórios de inteligência escondidos por 20 anos nas gavetas da 13ª Vara Federal de Curitiba. Parte relevante desse material nunca foi juntada aos autos





DANI LIMA REVELA O “OVO DA SERPENTE” DA LAVA JATO NA 13ª VARA DE CURITIBA CHOCADA POR SÉRGIO MORO

 

Do Canal TCM:

Em apuração revelada por Dani Lima, documentos, vídeos e transcrições indicam que práticas adotadas na 13ª Vara Federal de Curitiba, ainda em 2005, extrapolaram os limites legais da atuação judicial. O material envolve o uso de um delator como agente infiltrado, com acesso a interceptações telefônicas e investigações fora da jurisdição da Justiça Federal de primeira instância. Segundo Dani Lima, os achados resultaram de uma operação de busca e apreensão determinada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, e hoje estão sob análise da Corte. O conteúdo levanta questionamentos sobre a atuação do então juiz Sérgio Moro e o papel de colaboradores nas investigações que antecederam a Lava Jato, em um momento de retomada dos trabalhos do Judiciário e do Congresso Nacional.




quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Globo e a arte de destruir reputações

 


A vítima agora é Ailton Aquino, diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro - uma minoria ainda no serviço público

Do Jornal GGN:



Não se imagine que esses períodos de linchamento, na mídia, visem apenas personagens conhecidos. Quando a carniça é jogada no picadeiro, há uma disputa que não poupa ninguém.

Ailton Aquino é diretor do Banco Central. Funcionário de carreira, negro – uma minoria ainda no serviço público – ascendeu ao cargo de Diretor de Fiscalização sem padrinhos.

Foi fuzilado pelo O Globo, na reportagem “Diretor do BC pediu a presidente do BRB que comprasse carteiras fraudadas do Master

A delação se baseia, obviamente, em perícias realizadas pela Polícia Federal no celular de Paulo Henrique Costa, presidente do BRB. Ele é acusado de ter pedido ao presidente que adquirisse os créditos para ajudar o Master a resolver seus problemas de liquidez.

Segundo a reportagem – de Malu Gaspar – as mensagens de Aquino foram apresentadas aos conselheiros do BRB em reunião do conselho, de 25 de março de 2025. A mesma que aprovou a oferta de compra de 58% das ações do Master por R$ 2 bilhões. E foi utilizada como instrumento de pressão para a aprovação da operação.

Segundo a matéria, “nos meses seguintes, a oferta do BRB seria reduzida a 22% do Master, mas mesmo assim o BC vetou a operação”. Mas como assim. Esse “mesmo assim” foi introduzido em uma frase colocada logo após a denúncias de que o diretor de Fiscalização estava pressionando o BRB a entrar no Master. Significa que “mesmo assim”, o BC não topou. E onde entyra Aquino nisso?

O BC soltou uma nota informando que coube ao próprio Aquino o encaminhamento de denúncias contra o Master ao Ministério Público Federal. Na nota, informa-se que ele abriu mão do seu sigilo bancário e dos registros das conversas que realizou com o ex-Presidente do BRB.

Pouco vai adiantar. Nos próximos meses, será olhado com desconfiança pelos vizinhos, pelos pais dos colegas de seus filhos na escola. Sempre que for a um restaurante, ou a qualquer local público, será apontado como a pessoa que agiu como cúmplice do Master.

Jamil Chade: Trump parece desejar guerra civil para se sustentar no poder

 

Chade alerta que republicano pode usar Lei da Insurreição para conter violência e suspender eleições no país


Do Jornal GGN:

Em um
a entrevista exclusiva ao jornalista Luís Nassif, na noite de terça (27), para o canal TV GGN no Youtube, o correspondente internacional Jamil Chade expressou profunda preocupação com a possibilidade de Donald Trump estar deliberadamente provocando uma guerra civil nos Estados Unidos, não como um “acidente”, mas como uma estratégia para se manter no poder.

Sob Trump, os Estados Unidos vivem um momento de tensão extrema e forte polarização, com eventos de violência política e manifestações nas ruas, e medo crescente entre parte da população de que o país esteja caminhando para uma guerra civil. Chade, que vive em Nova York com a família, avaliou que pode existir método nas decisões de Trump que têm feito esse clima escalar diariamente. Para o jornalista, Trump seria favorecido por uma guerra civil ou, pelo menos, tentaria se aproveitar dela ao lançar mão da Lei da Insurreição para conter violência doméstica e rebeliões.

“Eu tenho muito medo do que está acontecendo porque eu não vejo essa guerra civil como uma ameaça para Donald Trump. Temo que seja uma jogada justamente para esticar a corda a um ponto tão absurdo que só a Lei da Insurreição poderia dar algum tipo de, entre aspas, solução. É a solução que ele quer. Por exemplo, suspender a eleição [de meio mandato] que ele sabe que ele vai perder”, explicou Chade.

Chade ressaltou que a sociedade americana, acostumada a exportar um conceito de democracia forte, mas não possui a “tecnologia de resistência” interna para lidar com essa ameaça trumpista, o que torna a situação ainda mais perigosa. Nassif comparou a situação atual dos EUA ao declínio do Império Romano, com um esgarçamento da moral interna e a aceitação passiva de abusos, culminando em figuras como Trump. “É um momento muito dramático, sem dúvida nenhuma”, confirmou Chade.

Ainda na entrevista, Jamil Chade detalhou a “capoeira” da política externa brasileira para 2026, cujo objetivo primordial é blindar a eleição de 2026 e manter Donald Trump “contido”, evitando qualquer atrito que possa gerar problemas no pleito interno.

AMÉRICA LATINA – Além disso, Chade abordou a preocupação do Brasil com a ampliação da cooperação militar dos EUA com países vizinhos, especialmente a possibilidade de uma base militar americana no Paraguai, um ponto geopoliticamente estratégico. O Itamaraty busca fortalecer relações com esses países para evitar a formação de um “grupo de Lima” contra o Brasil e para que qualquer ofensiva contra o país seja prejudicial aos vizinhos.

EUROPA – A entrevista também abordou a crise existencial da Europa, que está descobrindo que não é imune a ameaças externas, e a fragilidade das instituições globais, como a ONU, que enfrenta cortes orçamentários significativos, impactando programas humanitários e resultando na morte de centenas de milhares de pessoas.

CONSELHO DA PAZ – O Brasil, segundo Chade, adotou uma estratégia “marota” ao propor algo que sabia ser inaceitável, mas que não permitiria que o outro lado acusasse o Brasil de absurdo, como a sugestão de um Conselho da Paz com mandato exclusivo para Gaza e a inclusão dos palestinos.

A entrevista completa foi transmitida ao vivo no canal TV GGN, no Youtube, na noite de terça-feira, 27 de janeiro. Assista ao corte abaixo:




Leia também:

LUIS NASSIF ALERTA: CAMPANHA DA MÍDIA NO CASO MASTER VISA TIRAR PODER DO STF

 

Do Canal da TV GGN:




Do Portal do Jospe: MALANDRAGEM! GLOBO QUER MASTER NO COLO DE LULA! DIREITA DETONA FLAVIO BOZO! ECONOMIA E FALA-BOMBA

 


Do Portal do José:

MUITA AGITAÇÃO HOJE! SEGUE A CAMPANHA CONTRA O STFMALÚGASPAR QUER COLOCAR ESCÂNDALO NO COLO DE LULA! O QUE ESTÁ POR TRÁS DA CAMPANHA CONTRA O STF?




A importância de Karl Marx hoje, por Wesley Sousa

 

A filosofia (e profundidade) de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara


Do Jornal GGN:

    Reprodução


A importância de Marx hoje, por Wesley Sousa

Não é demais afirmar que Marx foi, antes de tudo, um filósofo. Um filósofo que, certamente, é mais comentado do que lido ao longo dos tempos – sobretudo pelos seus “adversários” políticos e teóricos. Com a segmentação das ciências, todavia, cada ramo quer um Marx para chamar de “seu”: o Marx sociólogo, o Marx historiador, o Marx da ciência política e o Marx da economia.

A filosofia de Marx é maior que o estandarte comum de “comunismo”, “luta de classes” e tantos outros jargões que o senso comum propagara ao longo dos tempos. No que é mais central ao pensamento de Marx: a crítica da forma do capital em seu núcleo[2]. A mercadoria é o ponto de partida, a célula do funcionamento do capitalismo; mas, é o capitalismo, a sociedade cujo pressuposto se efetiva através da produção de valor (e o consequente mais-valia), engendrando alienações e estranhamentos específicos de sua base, o conjunto crítico mais profundo –, o que não coloca tais conceitos e temas outros como menores[3].

Em seu pensamento, há um nível profundo de compreensão da natureza da realidade e do Homem (sentido de humanidade). Uma das coisas que mais chama a atenção é como ele trata a autoconstituição humana. A modo como Marx fala da “atividade sensível”, entre subjetividade e objetividade, o entrelaçamento entre a matéria e o espírito; a discussão entre torno do materialismo do século XVIII (Diderot, Voltaire, ou mesmo Bentham[4]). Tudo isso fez de um jovem leitor de filosofia e literatura se interessar por aquilo de modo profundo. Era ali uma elevação filosófica que, vale lembrar, fundamentou uma tradição relevante até nossos dias – mais do que uma formação juvenil.

Marx escreve em “A Ideologia Alemã” algo como “As representações que seus indivíduos elaboram são representações a respeito de sua relação com a natureza, ou sobre suas mútuas relações […]. Os homens são produtores de suas representações, de suas ideias, etc. mas a consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real”.

A dinâmica capitalista explodiu a sua própria forma social e se coloca agora em processo ainda mais acelerado e incontrolável. A cultura de massas e as novas mídias parecem “aplainar” a “diferenciação” sistêmica: o que a crítica há mais de meio século denunciava, hoje é festejado como uma reintegração da arte à vida. A midiatização já vale nela mesma como certa emancipação das coerções da realidade capitalista.

Marx em O Capital escreve que “o modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual”. Marx não fundamenta a teoria da mais-valia para provar que o proletariado é explorado; ele a descobre no processo de produção da sociedade burguesa, a forma específica de exploração dessa classe particular, o proletariado. Ou seja, ele não rebaixa a ciência à política. O ponto é que o capitalismo, no decorrer de sua história (as categorias que engendram a maneira de expressar um conteúdo social), e como ele veio a ser, se colocou como diferente da maneira em que se expressa pela sua lógica, pelo seu funcionamento interno.

Assim, há quem interprete que sua lógica (do capital) refletiria como se desenvolveu na história, em identidade com seus desdobramentos lógicos, no qual um aspecto começa a ser pressuposto do desenvolvimento do outro, e que historicamente então só poderia ter se dado dessa forma. Caso contrário, a própria lógica do capital pareceria ficar “sem sentido”. Pois, como poderia o capitalismo e sua lógica ter vindo ao mundo e se autonomizado? Essa pergunta era desconcertante. Como o capitalismo funciona de tal forma como “funciona”?

Para Marx, o capital posto em marcha, em seu automovimento, exibe um funcionamento que não explica sua gênese. Suas categorias como resultados históricos viraram pressupostos (pela dependência de uma categoria se desdobrar na outra), então tudo se confunde[5].

“[…] Seria impraticável e falso, portanto, deixar as categorias econômicas sucederem-se umas às outras na sequência em que foram determinantes historicamente. A sua ordem é determinada, ao contrário, pela relação que têm entre si na moderna sociedade burguesa, e que é exatamente o inverso do que aparece como sua ordem natural ou da ordem que corresponde ao desenvolvimento histórico. Não se trata da relação que as relações econômicas assumem historicamente na sucessão de diferentes formas de sociedade. Muito menos de sua ordem “na ideia” ([como em] Proudhon) (uma representação obscura do movimento histórico). Trata-se, ao contrário, de sua estruturação no interior da moderna sociedade burguesa. […]” (Marx, Grundrisse, p. 87)[6]

Como escreveu Marx no terceiro livro do Capital, sobre o reino da necessidade (necessidade eterna de intercâmbio orgânico entre homem e natureza) se emerge o reino da liberdade (campo de escolha entre alternativas postas). O gérmen da sociedade futura brota das contradições insolúveis desta forma atual de sociabilidade. A superação – ou rompimento – não se trata de nenhum modelo a priori e idealizado, mas dos fundamentos da falsa universalidade burguesa.

A crítica de Marx é salutar porque “dá um nó” na forma convencional como pensamos as categorias filosóficas. Há realmente uma dificuldade muito genuína em romper com algumas interpretações possíveis e conseguir apreender a teoria, o abstrato sempre aparece no imediato (como a noção de “trabalho”). Acredito que, no caso, foi um acidente por vias tortas: por exemplo, um tipo “materialismo aleatório” (expressão de Louis Althusser), ou seja, uma apreensão do imediato que foi se complexificando, que eu tinha há muito tempo em mente, advindo daquele ateísmo crítico da religião de outrora (algo que falta hoje, para a crítica de mundo). Isso obviamente facilita perceber o caráter de uma sociedade regida amplamente por abstrações, tal qual seria dos deuses ou Deus; assim, descendo da crítica dos céus à terra, a crítica sem piedade de um mundo sem coração se faz valer, sem dúvidas, a importância de Marx. Em resumo, naquela crítica da religião anterior foi possível desdobrar a compreensão de mundo.

Fazendo uma paráfrase de Hegel: fazer valer as abstrações no mundo real significa destruir a realidade. Portanto, a importância de Marx hoje se justifica, pois o que chamamos de realidade ainda é a configuração destrutiva das categorias do capitalismo.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] Eu especularia que, o sentido de “crítica” (Kritik) em Marx, pode fazer alusão ao conceito de crítica de Kant: a delimitação e a circunscrição de uma ciência racional.

[3] Agradeço pela dica e interpelação do amigo Rodrigo Cruz (USP).

[4] O professor Rogério Picoli (UFSJ) havia, em certa ocasião, mencionado um certo Marx leitor de Bentham.

[5] Devo essa interpretação, entre outras sugestões, ao amigo e estudioso Gabriel Ahmad, pelo diálogo em tornar sucinta a exposição.

[6] Edição da Boitempo (São Paulo, 2011).

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A religião, a plebe e a praga: o estertor político evangélico, por Wesley Sousa

 

    "(...) o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família)."


Do Jornal GGN:


A religião, a plebe e a praga: o estertor político evangélico, por Wesley Sousa

A religião não é só algo simbólico, mas uma práxis social objetiva no conjunto cultural da vida.

    Agência Brasil

A explicação do mundo é uma necessidade dos Homens (humanidade) também de explicarem sua vida, encontrarem sentido na sua cotidianidade, ainda que seja feita por “explicações falsas” do mundo que, no entanto, permitem esta ou aquela reprodução. Um exemplo é dado pelo filósofo György Lukács[2], em sua obra póstuma intitulada Para uma ontologia do ser social [Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins]. Segundo ele, para explicar como o geocentrismo servia para a orientação no mar (rotas marítimas etc.), mesmo que não fosse um conhecimento verdadeiro, essa teoria justificava algo da realidade factual dos homens em suas vidas. 

Similarmente, a forma religiosa produz um mecanismo de explicação e de regulação social, exatamente porque aí está imbricado na conduta moral e na ética para o ser que faz dessas leis – religiosas – sua forma de vida. Desta maneira, a religião não é só algo simbólico, mas uma práxis social objetiva no conjunto cultural da vida.

Assim como as teorias e práticas decoloniais buscam um certo resgate ancestral, uma espécie de pátria transcendental, como visão de mundo rumo à certa emancipação dentro da caducidade do mundo liberal, o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família).

A crítica, portanto, está em torno daquilo que Marx, em meados da década de 1840, já deixava claro na VII Tese ad Feuerbach: “Feuerbach não vê que o próprio ‘espírito religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato, em que ele analisa, pertence na realidade a uma forma social determinada”[3]. Assim, Marx aponta que o homem produz a religião, e tal como produto dela, o fundamento de Deus não é quem cria a realidade, mas a realidade religiosa quem cria a representação de Deus.

No texto intitulado O livro de Apocalipse [The Book of Revelation] (originalmente publicado em 1883), Friedrich Engels afirma: “O cristianismo, como todo grande movimento revolucionário, foi feito pelas massas. Surgiu na Palestina, de uma maneira totalmente desconhecida para nós, em um tempo em que novas seitas, novas religiões, novos profetas surgiam aos montes”[4].

Sem adentrar em minúcias, no pequeno ensaio “Contribuições para a história do cristianismo primitivo” [Zur Geschichte des Urchristentums][5], publicado no periódico Die Neue Zeit [O novo tempo] (1894-95), Engels relembra também que o Cristianismo “era originalmente um movimento dos oprimidos, inicialmente parecia ser a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens sem direitos, dos povos subjugados e dispersos pelo Império Romano”[6].

É interessante aqui essa consideração de Engels. Embora não seja meu objetivo fazer uma análise histórico-filosófica do texto, a menção funciona para compreender como uma religiosidade menor foi transformada em religião oficial de Estado: uma ampliação cultural que nos diz muito para a problemática, em nosso tempo, na atualidade conjuntural brasileira.

De fato, pulverizam os “homens de fé”, junto às figuras políticas carimbadas que instrumentalizam o debate público em “nome de Deus”. Em seus interesses e projetos privados buscam convencer seus seguidores que há um destino e um mandamento que fala em “nome de Cristo” em face da desgraça social que eles mesmos sustentam.

A praga (a começar pela figura do ex-presidente J.B. e seus consortes), ao mesmo tempo em que trabalham como estelionatários da crença alheia, acusa aqueles que não aderem às ideias e movimentos (o verde-amarelismo contra a “ditadura do STF”, em favor da “anistia” para os recentes crimes políticos deles próprios etc.) de pecadores, traidores do evangelho e da igreja, ou mesmo de “comunistas” etc., fazendo a exposição caricatural de parcela significativa da comunidade civil que não partilham de tais práticas.

A plebe, cuja matriz se funda pela miséria espiritual, acaba de rebanho aderindo, por convicção ou ignorância, pela força real e simbólica, aos projetos políticos e “espirituais” de um mundo alienado; este conteúdo é um dos pilares do fenômeno da alienação no capitalismo. Os estertores políticos evangélicos se camuflam e revelam em passeatas, nas manifestações das redes sociais, bem como nas relações familiares e “afetivas” etc.

Nos últimos anos temos visto de modo vertiginoso o crescimento do evangelismo político, principalmente nos centros urbanos. (As mediações histórico-conceituais deixo para uma ocasião mais oportuna[7].) O sintoma político se revela na emergência do capitalismo em crise e de um horizonte social em retração. O imaginário real de grande parte da população é capturado pela doutrina neopentecostal que se fundou em objetivos políticos. A chamada “bancada evangélica”, uma de nossas pragas, ludibriam os interesses comuns, cuja tônica é dita como “opinião pública”. É essa gente quem determina os rumos institucionais de nosso país; essa gente quem delibera sobre corpos, mentes e corações de milhões e milhões de brasileiros todos os dias.

No entanto, vale lembrar que o protestantismo (vertente do catolicismo que se originou os evangélicos) surge da Reforma Protestante. O curioso é que a base do protestantismo tem como fundamento ideológico a ideia de que ninguém é representante oficial de Deus (embora as relações de poder e autoridade se reorganizaram dentro das igrejas reformadas). Seu pastor, líder, bispo etc., não tem autoridade para determinar em quem você deve ou não votar, qual ideário político seguir, e muito menos de definir quem é ou não um cristão; muito menos falar em “nome de Deus” referentes aos assuntos de interesse comum.

Além disso, como Marx apontava no núcleo, o problema é remetido inicialmente em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução [Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung] (1843-44): “O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu point d’honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua base geral de consolação e de justificação”[8].

Não se trata todavia de deslegitimar as crenças alheias, mas de submetê-las ao exame crítico de que a forma política não é isolada do fenômeno religioso (uma forma da consciência invertida). A plebe ergue a bandeira ideológica “em nome de Deus”, ou similar, reabre o assunto que, sem dúvidas, requer uma investida desmistificadora junto às ideias propagadas.

Em suma, diria que não é o ateísmo ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas. Porém, é nesse mundo que provém a consciência em que elas vivem, a sua “teoria geral”. Como escreveu Engels, “O cristianismo se apoderou das massas, exatamente como o socialismo moderno, sob a forma de uma variedade de seitas e mais ainda de visões individuais conflitantes – algumas mais claras, outras mais confusas, estas últimas a grande maioria –, mas todas opostas ao sistema dominante para ‘os poderes que existem’”[9]. Noutras palavras, assim como o cristianismo se alastrou na sociedade como consciência real, o socialismo trata-se de superar os males reais da sociedade em que o cristianismo se fundamentou.


[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.

[2] LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social II. 1° edição. Tradução Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2013

[3] MARX, Karl. Thesen über FeuerbachIn:___; ENGELS, Friedrich. Werke(MEGA). Berlim: Dietz, 1958. v. 3, p. 535.

[4] ENGELS, Friedrich. O Livro de Apocalipse. Tradução Lucas Parreira. Revisão Gabriel Perdigão. Notas Lucas Parreira e Gabriel Perdigão. Verinotio, Rio das Ostras-RJ, v. 26, n. 2, p. 299-304, 2020, p. 300.

[5] ENGELS, Friedrich. Contribuições para a história do comunismo primitivo. 1° edição. Prefácio Frei Betto. Expressão Popular/Perseu Abramo, 2023.

[6] ENGELS, 2023, p. 29.

[7] Entre outras recomendações possíveis, menciono aqui o livro de Iafet Leonardi Bricalli. Cf. BRICALLI, Iafet. O espírito neoliberal entre o diabo e o dinheiro: evangélicos, governamentalidades e lutas no Rio de Janeiro.São Paulo: Dialética, 2024.

[8] MARX, K. Introdução. In:__. Crítica da filosofia do direito de HegelTradução de Rubens Enderle

e Leonardo de Deus. 2ª edição. São Paulo, Boitempo, 2010, p. 145, grifos do autor.

[9] ENGELS, Friedrich, 2020, p. 300.