No pedido para obter materiais apreendidos em junho pela Polícia Civil de São Paulo em sete mandados de busca e apreensão relacionados à produtora de Dark Horse, a Polícia Federal fez uma solicitação específica ao ministro Flávio Dino, do Supremo, relator da 'perna' das investigações que apura a destinação supostamente ilegal de emendas parlamentares no projeto. A colunista Daniela Lima apurou o assunto em sua coluna no UOL.
O jornalista Luis Nassif recebe o professor Salem Nasser sobra a resistência do Irã na guerra dos Estados Unidos e a advogada Hevelin Agostinelli sobre a decisão do ministro Flávio Dino que promete dar celeridade à investigação do caso Dark Horse.
Daniela Lima revela novo capítulo da ‘Dark Horse’: decisão de Flávio Dino garante à PF acesso total às provas. O que pode vir à tona agora? Entenda os bastidores do caso!
O ano letivo de 2024 seguia seu curso normal quando Jadir Anchieta, professor de História, começou a ouvir comentários de estudantes que diziam ter saudades de Jair Bolsonaro. Era uma aula sobre o período entreguerras, ministrada a uma turma do 9º ano do Ensino Fundamental na Escola Estadual São Tarcísio, no município catarinense de São Bonifácio. O professor havia acabado de entrar na sala quando um grupo de alunos passou a fazer provocações sobre temas políticos. Foram poucos minutos, mas, para Jadir, a cena durou uma eternidade. A dinâmica parecia ensaiada. Cerca de quatro alunos o bombardearam com perguntas e cobraram um posicionamento sobre o tema. Ele sabia que aquele comportamento fugia ao perfil da turma e a direção da escola precisou mediar o conflito. O que o professor de História não sabia, contudo, era que a cena havia sido gravada pelos estudantes.
Em diferentes regiões do Brasil, o roteiro percorrido por Jadir Anchieta tem se repetido. Há um padrão em curso, segundo Rodrigo Timm, advogado do Observatório Nacional da Violência Contra Educadores (Onve). Primeiro, estabelece-se um clima de desconfiança em torno do ambiente escolar e de seus profissionais. Em seguida, os alunos são incentivados, muitas vezes pelos próprios pais, a gravar os professores em vídeo ou em áudio. Essas gravações são, então, retiradas de seu contexto original e repassadas a parlamentares da extrema-direita. O material ganha espaço nas redes e se transforma em um ativo político.
Um levantamento da Agência Pública identificou, desde as últimas eleições gerais, em 2022, até 2025, ao menos 18 parlamentares, a maioria do Partido Liberal (PL), que fizeram ataques a professores. Entre eles estão nomes como Júlia Zanatta (PL-SC), Jessé Lopes (PL-SC), Alex Brasil (PL-SC), Ana Campagnolo (PL-SC), Alan Lopes (PL-RJ) e Fernando Cordeiro (PL-SC), todos em busca de uma vaga nas eleições de outubro.
A estratégia de atacar professores é, ainda, uma maneira de ascender politicamente: é o caso do vereador Fernando Cordeiro (PL) de Chapecó, no oeste catarinense, que quase triplicou a votação no município após liderar ataques contra uma docente e agora se prepara para disputar o cargo de deputado federal por Santa Catarina. Cordeiro recebe apoio da deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), que, em seu mandato, ficou conhecida por denunciar “professores doutrinadores”, ganhando projeção política após processar sua orientadora de mestrado.
A gravação da aula de Jadir, por exemplo, foi parar nos perfis da deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina. O professor e a direção da escola foram surpreendidos pela exposição nas redes sociais. Dias depois, em uma nova publicação, Zanatta comemorou as providências imediatas tomadas pelo governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, também do PL. Tratava-se da abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), instaurado para apurar a conduta de Jadir por agir “de forma inadequada no exercício de suas funções”. A postagem que expôs o professor de História alcançou mais de 30 mil curtidas e foi compartilhada por outros nomes da extrema direita, como o vereador Fernando Cordeiro, do PL de Chapecó.
A repercussão do caso escalou até a Câmara dos Deputados, em Brasília. O deputado federal Gustavo Gayer, do PL de Goiás, apresentou uma moção de repúdio contra Jadir na Comissão de Educação, então presidida por Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, mas a proposta foi rejeitada por 20 votos a 13. Durante a sessão, outros parlamentares denunciaram a instrumentalização do episódio. O deputado Tarcísio Motta, (PSOL-RJ), afirmou que o caso era mais uma manifestação de uma parcela da extrema-direita, em busca de ganhos eleitorais por meio da perseguição a profissionais da educação.
Apesar da moção de repúdio ter sido barrada no Congresso Nacional, as consequências estaduais seguiram seu curso. Em decorrência do PAD aberto pela Secretaria de Educação de Santa Catarina, Jadir foi afastado de suas funções em março de 2024. O afastamento foi prorrogado duas vezes até que, em agosto do mesmo ano, ele foi demitido. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) anulou o PAD apenas em maio de 2025 e determinou a readmissão do professor. Na decisão, o desembargador responsável argumentou que a “sala de aula não é um campo de polícia ideológica” e que o docente não pode estar “submetido a censores discentes, tampouco à disposição de visões idiossincráticas de bedéis mascarados como pais”.
(Arte: Agência Pública)
Processos contra educadores aumentam nas eleições
No levantamento da Pública, também foram analisadas as características de 596 PADs abertos pela Secretaria de Educação de Santa Catarina e publicados no Diário Oficial entre janeiro de 2021 e 31 de dezembro de 2024. Os dados mostram que, em ambos os anos eleitorais, a abertura de processos contra educadores como Jadir foi maior. Fernando Penna, coordenador do Onve, observa que, em períodos de disputas políticas, o número de processos contra educadores aumenta, o que evidencia que as escolas se consolidaram como espaços de embate ideológico.
A análise dos PADs também identificou indícios de punições desproporcionais, espetacularização dos casos e prolongamento indevido dos trâmites. Cerca de um terço dos processos analisados pela reportagem no período foi arquivado, seja pela inocência do servidor, seja pela inexistência do fato. Para Penna, o índice revela que muitos PADs são abertos sem materialidade, desprovidos de testemunhos efetivos ou de evidências de infração. São instaurados de forma vazia, com o propósito de intimidar.
Para Jadir, o arquivamento do processo não apaga os impactos da exposição. O professor conta que ficou profundamente abalado pela violência sofrida. Precisou deixar São Bonifácio, foi alvo de ameaças e viu milhares de pessoas o xingarem na internet. Eram desconhecidos, e ele não sabia se representavam um perigo real. Quase dois anos após a abertura do PAD, Jadir avalia que a ação orquestrada serviu para “faturar cliques e votos”.
A situação de Jadir, contudo, não se encerrou com a decisão judicial. Em julho de 2025, mesmo sob a vigência da Lei Federal nº 15.100/2025, que proíbe o uso de celulares em sala de aula, o professor teve, mais uma vez, a aula gravada por alunos. O áudio foi, novamente, divulgado nas redes sociais. Entre os comentários, o deputado estadual Sargento Lima, do PL, que já havia discursado contra “professores doutrinadores” na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, afirmou que o episódio provava a importância da instalação de câmeras nas salas de aula.
Lima já havia se envolvido em outro episódio, em fevereiro de 2023, relacionado à orientadora educacional Juliana Andozio, que foi vítima de uma sindicância acusatória, suspensa e afastada, após permitir que uma aluna trans usasse o banheiro feminino da escola. De acordo com a educadora, seis famílias queriam saber “qual banheiro a aluna trans usava” e “queriam proibir as discussões sobre gênero, orientação sexual, diversidade, questões da mulher, da democracia e do grêmio estudantil na escola”.
Juliana sofreu ataques após as “denúncias” feitas pelo vereador Bericó (PL) nas redes sociais. Seu carro foi alvo de ovos, pedras e limões. “Jogavam coisas na escola, jogaram fogos de artifício em mim, jogaram lixo na minha casa. Eu tive que ir morar três meses na casa da minha mãe porque passavam motoqueiros na frente da minha casa me xingando de coisas horrorosas”, desabafa.
O caso chegou à tribuna da Alesc quando o deputado Sargento Lima (PL) ameaçou a educadora. “Fosse minha neta, uma das minhas enteadas, meu filho, uma dessa, um suplente estaria assumindo a minha vaga aqui porque eu estaria na cadeia. Simplesmente isso”, disse o parlamentar na sessão de 15 de março de 2023. O processo que acusava Juliana de “doutrinação político/partidária” foi anulado em janeiro de 2024.
O relatório “Um estudo quantitativo da perseguição a educadoras/es no Brasil”, publicado em 2025 pelo Onve, aponta que a violência contra professores começou a se intensificar a partir de 2010. Os picos ocorreram em 2016, 2018 e 2022, anos marcados pelo impeachment de Dilma Rousseff e por duas eleições presidenciais. A pesquisa, que ouviu mais de três mil educadores nas cinco regiões do país, indica que o Sul concentra o maior número de casos, seguido pelo Sudeste. Fernando Penna observa que o dado não surpreende, uma vez que Santa Catarina, estado com maior presença de políticos de extrema-direita, foi um dos que registraram o maior número de respondentes.
O coordenador do Onve projeta que, em 2026, a direita mobilizará todas as estratégias políticas que já deram retorno eleitoral para voltar ao poder. A perseguição a educadores e a incitação do pânico moral em torno da ideologia de gênero devem estar no centro dessa mobilização. A hipótese de Penna é que 2026 será um ano particularmente difícil para os profissionais da educação.
Todos os parlamentares citados foram procurados pela reportagem, mas não houve retorno até a publicação. Já a Secretaria de Educação de Santa Catarina afirmou “seu compromisso com a legalidade, a transparência e a proteção da comunidade escolar”.
Quando a perseguição é transformada em voto
A partir de uma denúncia feita pelo vereador Fernando Cordeiro, de Chapecó, a professora de Língua Portuguesa Ibriela Sevilla foi alvo de um PAD por trabalhar, em sala de aula, o livro Não Alimente a Escritora, da autora catarinense Telma Scherer. A atividade ocorreu em uma turma do primeiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Angela Lourdes Lago. Pais de alunos acionaram a direção da escola e pediram a demissão da professora, alegando que o livro continha linguagem inapropriada. A obra, que consiste em um poema de 94 páginas, já havia sido utilizada por Ibriela em 2023, na mesma escola, sem suscitar qualquer problema.
O PAD aberto contra Ibriela em 2024 foi arquivado quase um ano depois, quando a comissão responsável concluiu pela inocência da docente. Durante o trâmite do processo, a professora foi exposta nas redes sociais e nas câmaras legislativas municipais e estaduais. Desde o episódio, Ibriela tem acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
(Arte: Agência Pública)
O vereador Fernando Cordeiro, então em pré-campanha para a reeleição, publicou, em março de 2024, uma crítica à conduta da professora em suas redes sociais. Três dias depois, o caso chegou à deputada estadual Ana Campagnolo, do PL, que repercutiu o assunto na tribuna da Assembleia Legislativa.
Para Fernando Penna, a dinâmica indica uma atuação em rede entre os parlamentares. “Quando um vereador faz a denúncia e uma deputada estadual a divulga, há uma articulação clara. A deputada serve como plataforma, enviando a mensagem de que outros vereadores que fizerem o mesmo também ganharão projeção. Um parlamentar reforça o outro, construindo, assim, um empreendimento político”, diz.
Em 2020, Fernando Cordeiro foi eleito com 1.422 votos, a 14ª maior votação em Chapecó. Em 2024, ele quase triplicou seu eleitorado e tornou-se o vereador mais votado do município. Para o coordenador do Onve, o crescimento expressivo da votação após a perseguição a uma professora exemplifica como esse tipo de violência tem sido convertido em capital político.
(Arte: Agência Pública)
A própria deputada Ana Campagnolo, que auxiliou Cordeiro na exposição do caso, ganhou projeção política após um conflito com sua orientadora de mestrado, a historiadora Marlene de Fáveri, da Universidade do Estado de Santa Catarina. O episódio foi exposto publicamente durante a campanha eleitoral de 2018, quando Campagnolo foi eleita deputada estadual com mais de 34 mil votos. Até então, ela nunca havia concorrido a cargos políticos e atuava como professora de História em escolas de Chapecó. Após denunciar “professores doutrinadores” em seu primeiro mandato, Campagnolo reelegeu-se em 2022 como a deputada mais votada da história do parlamento catarinense, com 196.571 votos.
Procurado, Fernando Cordeiro alegou que “o objetivo foi representar os pais e alunos que me procuraram solicitando ajuda, representando-os nas instâncias legais e competentes, relatando material apresentado pela referida professora”.
Um padrão repetido pelo Brasil
Os casos de Jadir, Ibriela e Marlene não são exceção. O roteiro de perseguição e violência se repete esporadicamente em outras regiões do país. Em Magé, no Rio de Janeiro, a professora de Artes Daniela Abreu enfrentou uma situação semelhante. Ela trabalhava há 17 anos no Colégio Estadual Professor Alfredo Balthazar da Silveira e nunca tinha registrado problemas com os alunos. A escola sempre foi reconhecida por sua atuação combativa, com grande adesão do corpo docente ao sindicato. Em contrapartida, grupos locais pressionavam pela militarização da instituição.
Nesse contexto de tensão, em 2022, Daniela passou a ter conflitos com estudantes que faziam declarações racistas em sala de aula. No início do ano, um aluno a agrediu verbalmente e a ameaçou fisicamente. O estopim da violência, no entanto, ocorreu em setembro daquele ano, quando um casal de alunos abordou a professora na sala dos docentes e pediu materiais da campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. Daniela recusou o pedido, mas, diante da insistência dos estudantes, cedeu um adesivo e pediu que o aluno o guardasse. Ela não sabia que a interação estava sendo filmada.
Quinze minutos depois, policiais militares e fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) entraram na escola. Segundo relatos de funcionários, a abordagem ocorreu sem mandado. Vídeos da entrada dos policiais e da entrega do adesivo eleitoral circularam nas redes sociais. Daniela foi acusada de ser doutrinadora, e as imagens simulavam uma prisão que, de fato, nunca ocorreu.
A professora relata que passou por instantes de terror e se sentiu minúscula em meio à barbárie. Ao longo de 2022, ela havia sido gravada em outras aulas sem o seu conhecimento. Mais tarde, compreendeu a intencionalidade daquelas filmagens, que foram utilizadas na sindicância instaurada contra ela.
(Arte: Agência Pública)
A perseguição ganhou contornos institucionais em 2023, quando o deputado estadual Alan Lopes, do PL, passou a atacar publicamente a professora. Eleito presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em abril de 2023, o parlamentar foi ao colégio de Daniela para gravar um vídeo intitulado “Desmascaramos a ‘professora’ militante esquerdista”. Lopes reuniu filmagens clandestinas feitas nas aulas de Daniela e declarou que o período de denúncias engavetadas por doutrinação em sala de aula havia acabado no Rio.
Um levantamento publicado pelo Onve em 2024 revela que, em quatro anos, a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro abriu 1.320 sindicâncias contra professores. O número representa a média de uma sindicância por dia entre 2020 e 2024. O estudo aponta que agentes públicos têm manipulado o instrumento da sindicância para criminalizar, isolar e silenciar educadores. O pico de aberturas de sindicâncias ocorreu em 2022, ano eleitoral, com quase 500 procedimentos instaurados.
Após a publicação do vídeo pelo deputado Alan Lopes, Daniela foi alvo de uma sindicância e, quatro meses depois, de um PAD. Ela foi acusada de realizar campanha eleitoral na escola, fazer apologia às drogas e enaltecer a vereadora Marielle Franco, assassinada. Segundo o processo, a professora teria descumprido os deveres previstos no Estatuto dos Funcionários Públicos e os preceitos éticos do Código de Ética Profissional do Servidor.
Nesse período, Daniela ficou extremamente fragilizada. Ela conta que grupos organizavam reuniões e a chamavam de “Marielle de Magé”, não como um elogio, mas como um alvo. Diziam que não precisavam mais matá-la, pois já haviam conseguido quebrá-la por dentro.
Em setembro de 2025, o PAD foi arquivado. Assim como no caso de Jadir Anchieta, o arquivamento não apagou as violências sofridas. Daniela foi alvo de ameaças e precisou deixar a cidade para evitar uma tragédia. Desenvolveu crises de ansiedade, falta de ar e depressão. Pensou em abandonar a sala de aula e teve medo de morrer. Foi, segundo ela, o momento mais difícil de sua vida.
Os resultados dessa violência
Quase dois anos após a gravação que resultou na abertura de seu Processo Administrativo Disciplinar, Jadir Anchieta continua a ministrar aulas de História. Diante de novas turmas, ele continua abordando temas como o nazifascismo, as crises democráticas e os conflitos políticos do século 20. A diferença, agora, é que a sensação de estar sendo gravado nunca o abandona. Hoje, ele pensa duas ou três vezes antes de falar, o que torna a rotina exaustiva.
Para os pesquisadores do Onve, o método de alguns políticos da extrema-direita produz um efeito que vai além dos episódios individuais: cria um ambiente de insegurança e medo, levando os educadores à autocensura.
Em um contexto de polarização política e com a aproximação de novas eleições, especialistas alertam que o uso de estratégias de perseguição contra educadores tende a se intensificar. As explicações sobre crises democráticas, questões de gênero ou temáticas religiosas continuam no quadro negro. Mas agora, entre os cadernos e os livros, paira sempre a possibilidade de um celular gravando em silêncio.
João Cezar Castro Rocha e a equipe de jornalistas do ICL Notícias mergulham no caso de Fernando Cerimedo, figura central da extrema direita latino-americana e braço internacional da estratégia bolsonarista.
Analisamos a sua recente prisão na Bolívia após uma tentativa de feminicídio contra sua companheira grávida, Naddia Beller. O professor João Cezar de Castro Rocha traz revelações cruciais sobre como uma live de Cerimedo, em novembro de 2022, foi o combustível fundamental para os acampamentos golpistas que culminaram no 8 de janeiro.
Entenda a conexão de Cerimedo com a família Bolsonaro, Javier Milei e as graves denúncias de que ele atuaria em coordenação com agências de inteligência estrangeiras. O que o celular de Cerimedo pode revelar sobre o submundo do golpismo na América Latina?
A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.
Bolsonaro, Cerimedo e Honduras: os elos de uma operação para desestabilizar a eleição
Planalto teme ofensiva internacional de desinformação para interferir na disputa presidencial
Por Cleber Lourenço e Jamil Chade
A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.
Fernando Cerimedo, estrategista argentino que atuou para desacreditar as eleições brasileiras de 2022, trabalhou recentemente em Honduras com apoio de operadores ligados a Donald Trump e mantém relação próxima com Eduardo Bolsonaro.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi escolhido pelo ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli, como interlocutor para receber e divulgar no Brasil informações produzidas pelo governo israelense.
Para integrantes do alto escalão do governo brasileiro, as conexões entre esses atores e o papel das plataformas digitais estão hoje entre os principais riscos de uma eventual ação coordenada para favorecer Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.
As relações colocam Eduardo no centro de articulações que atravessam Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel. Parte desses mesmos países aparece no chamado Hondurasgate, caso baseado em 37 áudios atribuídos ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández sobre operações internacionais de influência política.
Fernando Cerimedo com Eduardo Bolsonaro na Argentina em outubro de 2022 – Foto: Reprodução
De Eduardo Bolsonaro à eleição de Honduras
Cerimedo ganhou projeção no Brasil depois da eleição presidencial de 2022, quando realizou a transmissão “Brasil fue robado”. Utilizando dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), levantou suspeitas sobre diferentes modelos de urnas e questionou o resultado da disputa vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.
A apresentação foi incorporada pelo bolsonarismo à ofensiva contra a confiabilidade do sistema eleitoral. A atuação do argentino acabou analisada nas investigações sobre a tentativa de golpe, embora a Procuradoria-Geral da República não tenha encontrado elementos suficientes para denunciá-lo por participação no plano de ruptura institucional.
Quatro anos depois, Cerimedo continua próximo da família Bolsonaro. Em evento realizado neste ano, Eduardo levou o argentino ao palco e defendeu sua atuação em 2022. Disse que Cerimedo teve “coragem” ao denunciar supostas irregularidades e afirmou que o trabalho havia sido produzido a partir de dados do próprio TSE.
Na mesma ocasião, Cerimedo contou detalhes de sua participação em outra campanha: a eleição de Honduras. O argentino afirmou ter trabalhado com Andy Rivas, apresentado como amigo e sócio, para o grupo político de Nasry “Tito” Asfura. Comemorou o resultado como uma vitória contra o grupo da família do ex-presidente Manuel Zelaya e relatou uma campanha marcada por forte tensão política.
Ao falar sobre sua atuação latino-americana, Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha digital de Trump. Segundo o argentino, Parscale forneceu tecnologia e equipe para suas operações políticas na região.
Cerimedo também participou dos esforços de aproximação entre Asfura e Trump. Nessa articulação aparece Dick Morris, consultor político americano que ganhou projeção como estrategista de Bill Clinton nos anos 1990 e depois rompeu com o Partido Democrata, tornando-se aliado de Trump e uma voz influente da direita americana.
Morris atuou como intermediário entre a campanha de Asfura e o entorno de Trump. Sua participação ajudou a aproximar o candidato hondurenho de operadores trumpistas nos Estados Unidos e a apresentar sua candidatura como parte de uma disputa regional contra a esquerda latino-americana.
A presença do consultor ajuda a dimensionar a rede formada em torno da campanha hondurenha: um operador com experiência na Casa Branca e trânsito na política americana atuando na conexão entre Asfura e o trumpismo.
O percurso também mostra a dimensão adquirida pela atuação de Cerimedo. Depois de participar da ofensiva para colocar sob suspeita as eleições brasileiras, o argentino passou por outra disputa eleitoral latino-americana conectado a operadores da direita americana.
O então presidente de Honduras, Juan Orlando Hernandez, discursando em conferência da ONU – Foto: Andy Buchanan/Pool via AP, Arquivo
Hondurasgate cita Argentina, EUA e Israel
É nesse cenário que aparece o chamado Hondurasgate. O caso envolve 37 gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Os áudios descrevem supostas operações de articulação política e comunicação envolvendo personagens de Honduras, Estados Unidos, Argentina e Israel.
Entre as alegações está a participação de atores ligados ao governo de Javier Milei. As gravações atribuem ao entorno argentino cerca de US$ 350 mil destinados a uma estrutura de comunicação instalada nos Estados Unidos, que teria entre seus alvos os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia.
Israel também aparece no material. Uma das alegações atribui ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu participação em articulações relacionadas ao benefício concedido por Trump a Juan Orlando Hernández.
Os áudios ainda dependem de autenticação independente, e Cerimedo não aparece comprovadamente como integrante da operação relatada nas gravações. O argentino rejeitou publicamente o Hondurasgate.
Sua presença na política hondurenha, porém, é conhecida, assim como suas relações com personagens da política argentina, com Eduardo Bolsonaro e com operadores americanos ligados a Trump.
Israel, por sua vez, também mantém uma conexão direta e documentada com o entorno bolsonarista no Brasil.
Ministro de Israel acionou Eduardo no Brasil
Em janeiro de 2025, o militar israelense Yuval Vagdani estava no Brasil quando a Fundação Hind Rajab (HRF) tentou responsabilizá-lo judicialmente por supostos crimes cometidos durante a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.
O episódio provocou reação do governo de Israel. Vagdani deixou o Brasil e, em 5 de janeiro, Eduardo Bolsonaro tornou público que havia conversado com Amichai Chikli, ministro de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo.
Eduardo disse ter recebido informações sobre a Fundação Hind Rajab. Poucas semanas depois, o próprio Chikli confirmou como a articulação havia ocorrido.
O ministro afirmou que Israel trabalhou com “amigos na oposição brasileira” e entregou informações sobre a fundação a Eduardo para que ele ajudasse a expor a organização no Brasil. O ex-deputado divulgou o material.
O ministério israelense buscava associar integrantes da fundação ao Hezbollah e ao Hamas. Chikli também atacou diretamente Lula e classificou o presidente brasileiro como “apoiador do Hamas”.
A operação foi além da proximidade política mantida há anos pela família Bolsonaro com o governo de Benjamin Netanyahu. Um ministro israelense procurou diretamente um integrante da oposição brasileira, forneceu informações produzidas no interesse de seu governo e pediu ajuda para colocá-las no debate público brasileiro.
O episódio ocorreu antes de Eduardo voltar a aparecer publicamente ao lado de Cerimedo, desta vez exaltando justamente o argentino que havia atuado no Brasil, passado por Honduras e construído relações com operadores da direita americana.
As conexões não surgem de uma única organização nem precisam ser apresentadas dessa maneira. Elas revelam um movimento mais amplo: personagens do bolsonarismo passaram a atuar como interlocutores brasileiros de uma rede internacional da direita que circula entre campanhas eleitorais, governos e operações de comunicação.
Nesse circuito, Eduardo Bolsonaro deixou de ser apenas um aliado político. Tornou-se um dos pontos de contato no Brasil.
O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli (Reprodução de vídeo)
Planalto teme ofensiva digital na reta final
Se o governo brasileiro considera que a ingerência internacional já é uma realidade na eleição desde 2025, integrantes do Planalto tentam agora antecipar por onde poderiam vir os próximos movimentos de uma eventual estratégia de desestabilização.
A principal preocupação é que o instrumento utilizado seja o impulsionamento de desinformação a partir do exterior, com a possibilidade de plataformas digitais atuarem de maneira pouco transparente para influenciar a opinião pública brasileira.
A operação poderia repetir elementos observados recentemente na eleição de Honduras, onde Cerimedo teve papel relevante. A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e uma operação de manipulação digital poderia movimentar votos suficientes para transformar a reta final da eleição em um dos momentos de maior tensão política do país nas últimas décadas.
Integrantes do governo ainda pretendem estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, marcadas, segundo essa avaliação, por intensa circulação de narrativas originadas fora desses países. Um dos fenômenos observados nesses pleitos foi a proliferação de conteúdos produzidos com inteligência artificial e deepfakes.
Uma das estratégias consideradas possíveis seria o impulsionamento de desinformação por meio de perfis falsos criados no exterior. A preocupação é que uma ofensiva concentrada nos últimos dias da campanha possa provocar mudanças abruptas na opinião pública quando já não houver tempo suficiente para identificar sua origem, investigar os responsáveis e neutralizar seus efeitos antes da votação.
O eventual envolvimento das plataformas também entra no cálculo do governo pelo impacto que uma reeleição de Lula poderia produzir sobre o setor. A avaliação no Planalto é de que as big techs estariam entre os atores mais afetados por um quarto mandato do petista, diante da possibilidade de o governo avançar na regulamentação das redes digitais.
Um possível retorno do ativismo político de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de intervenções no debate político de diferentes países às vésperas de eleições.
A preocupação central é justamente o tempo. Uma ofensiva realizada nos últimos dias antes da votação poderia alcançar milhões de eleitores e produzir efeitos políticos antes que autoridades brasileiras conseguissem determinar de onde partiu, quem a financiou e quais atores participaram de sua disseminação.
O caso Dark Horse completa cem dias nesta sexta-feira (21) em meio à investigação aberta pela Polícia Federal, novos elementos sobre a relação entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o entorno empresarial de Daniel Vorcaro, mas sem a divulgação dos contratos que o candidato à Presidência prometeu tornar públicos em maio.
O principal compromisso assumido pelo próprio Flávio quando o caso veio à tona também permanece pendente. O senador jurou abrir o contrato do financiamento, anunciou uma prestação de contas detalhada e chegou a estabelecer prazo de 30 dias para apresentá-la. Passado mais que o triplo do tempo estipulado, os documentos não foram divulgados integralmente e o candidato passou a tratar o episódio como “página virada”.
Os cem dias são contados desde 13 de maio, quando uma investigação do The Intercept Brasil revelou áudios, mensagens e documentos sobre a negociação de recursos entre Flávio e Vorcaro. O inquérito policial só foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de julho e completa 29 dias nesta sexta-feira.
A reportagem apurou que até o início desta semana a Polícia Federal não havia encaminhado ao gabinete de Mendonça pedidos de quebra de sigilo bancário ou telemático, busca e apreensão, prisão ou outras medidas invasivas relacionadas ao inquérito.
A investigação segue em andamento na PF. Em julho, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chegou a pedir à corporação quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do escritório ligado a Flávio, além de busca e apreensão, mas até o período consultado pela reportagem a PF não havia levado requerimentos desse tipo ao Supremo.
O estágio ainda inicial do inquérito, porém, não altera a cobrança sobre Flávio. A PF pode precisar de diligências, perícias e autorizações judiciais para descobrir por conta própria o caminho do dinheiro. Já o senador não precisa de nenhuma delas para apresentar aquilo que prometeu voluntariamente tornar público. Passados cem dias, continuam sem divulgação integral o contrato do financiamento e os documentos capazes de identificar a origem dos aportes e demonstrar, de forma verificável, a destinação dos recursos atribuídos a Vorcaro.
O ICL Notícias revelou também que a relação de Flávio com Vorcaro em torno do filme não fazia parte originalmente das investigações sobre o Banco Master. O caso entrou no radar das autoridades depois da reportagem do Intercept, que teve entre seus autores o jornalista Paulo Motoryn. A partir da publicação, representações começaram a chegar aos órgãos de investigação e controle.
Em 26 de maio, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou ao ICL Notícias que a corporação havia recebido uma representação parlamentar e que sua área técnica analisava o material. Foram 71 dias entre a primeira reportagem e a abertura do inquérito. Nesse intervalo e nas semanas seguintes, surgiram outros elementos sobre a relação entre Flávio e o entorno de Vorcaro, entre eles R$ 1,5 milhão em notas fiscais emitidas pelo escritório ligado ao senador para empresas associadas à estrutura empresarial do ex-controlador do Master.
Do financiamento milionário ao inquérito
A reportagem publicada em 13 de maio mostrou que Flávio havia participado diretamente da negociação para captar recursos de Vorcaro para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. As conversas indicavam um compromisso de até US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação daquele período. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025 para o Havengate Development FundLP, fundo sediado nos Estados Unidos e utilizado na estrutura financeira da produção.
Segundo os registros revelados, Flávio e Vorcaro tiveram contato a partir de dezembro de 2024. Nos meses seguintes, as conversas passaram a incluir acompanhamento e cobrança de pagamentos. Documentos que posteriormente chegaram ao STF reproduziram informações segundo as quais o senador solicitava recursos e acompanhava os repasses, inclusive diante de atrasos relacionados a compromissos da produção com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Ao ser procurado antes da publicação, Flávio inicialmente classificou a informação como “mentira”. Depois da divulgação dos áudios, confirmou ter buscado recursos com Vorcaro e afirmou que se tratava de financiamento privado para um filme privado. Negou ter recebido dinheiro ou comissão e afirmou não ter oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro.
Em 15 de maio, dois dias depois da revelação, Flávio disse estar “100% disposto” a tornar público o contrato de investimento. Quatro dias depois, anunciou ter solicitado uma prestação de contas completa da produção, com prazo de 30 dias. O contrato não foi divulgado e, posteriormente, a defesa da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, apresentou uma perícia privada que declarou custo de aproximadamente US$ 13,4 milhões, cerca de R$ 75 milhões, com US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.
O laudo não identificou nominalmente os financiadores finais do fundo, e Vorcaro não aparece como financiador no documento. Os valores conhecidos desde maio também variam: a negociação inicial chegava a US$ 24 milhões; Flávio afirmou posteriormente que Vorcaro havia investido pouco mais de US$ 12 milhões; as transferências reveladas somavam ao menos US$ 10,6 milhões; e a perícia apontou US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.
A Polícia Federal passou a analisar o material depois da publicação e posteriormente solicitou a abertura de um inquérito. O pedido recebeu manifestação favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e foi autorizado por Mendonça em 23 de julho. A investigação apura a origem, movimentação e destinação dos recursos vinculados ao filme, além de eventuais contrapartidas relacionadas aos repasses. Uma das linhas é verificar se parte do dinheiro teve finalidade diferente da produção, inclusive eventual utilização em atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam.
Notas fiscais ampliaram relação com entorno do Master
Depois da revelação de Dark Horse, vieram a público três notas fiscais, no valor total de R$ 1,5 milhão, emitidas pelo escritório ligado a Flávio para empresas associadas ao entorno empresarial de Vorcaro. Duas notas de R$ 500 mil foram emitidas em abril de 2025 para a Copenhagen Consultoria e Assessoria e canceladas no mesmo dia. Uma terceira, também de R$ 500 mil, foi destinada à Contábil Correa e não tinha registro de cancelamento na documentação analisada.
As empresas tinham ligação por meio de Rogério Lourenço Novo, diretor da Contábil Correa e sócio-administrador da Copenhagen. A Copenhagen havia sido criada em novembro de 2024 com capital social de R$ 40 e posteriormente apareceu em movimentações financeiras relacionadas ao Banco Master. Documentos encaminhados à PGR apontam que a companhia movimentou R$ 58 milhões oriundos do banco.
Flávio afirmou que as relações comerciais de seu escritório eram privadas e legais e negou ter prestado serviços à Copenhagen. A emissão das notas ocorreu quando o senador já mantinha contato com Vorcaro: Flávio afirma ter conhecido o banqueiro em dezembro de 2024, os repasses destinados ao filme começaram nos primeiros meses de 2025 e as notas foram emitidas em abril.
Emendas de Flávio alcançavam negócios ligados a Vorcaro
A atuação legislativa de Flávio também passou a integrar os fatos levantados depois da revelação do caso. Uma das iniciativas foi a Emenda 157 à Medida Provisória 1.308/2025, que retomava proteção semelhante à prevista no artigo 58 da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O dispositivo reduzia a exposição jurídica de instituições financeiras que financiassem empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental, limitando a responsabilidade posterior por eventuais danos. Flávio atuou em diferentes etapas sobre a regra: em maio de 2025, votou favoravelmente ao projeto que continha o artigo 58; depois do veto presidencial, apresentou a Emenda 157 para restabelecer proteção semelhante aos financiadores; e, em novembro, votou pela derrubada do veto.
Naquele período, o Banco Master tinha operações relevantes em setores diretamente afetados por regras ambientais. Uma delas era um financiamento de R$ 152,9 milhões à 3D Minerals, empresa relacionada a 116 áreas de minerais críticos. Metade das ações da companhia havia sido oferecida como garantia e, em julho de 2025, o crédito foi cedido ao BRB.
O entorno de Vorcaro também mantinha interesses em mineração e créditos de carbono. Na Serra do Curral, em Minas Gerais, a Victoria Falls apareceu em estruturas relacionadas à exploração mineral da região e teve o Banco Master como controlador. Vorcaro também manteve participação na mineradora Itaminas até 2025.
Outras duas emendas apresentadas por Flávio atingiam regras relevantes para esses setores. A Emenda 162 alterava dispositivos da Lei da Mata Atlântica relacionados à autorização e anuência para supressão de vegetação. Já a Emenda 163 buscava reforçar a licença expedida por um único órgão ambiental, limitando interferências posteriores de outras instâncias. As propostas poderiam reduzir entraves regulatórios para empreendimentos sujeitos a disputas ambientais, inclusive projetos de mineração.
A atuação do banqueiro sobre medidas legislativas de interesse do Master, já apareceu em outra frente das investigações: a PF identificou, por xemplo, interlocuções de Vorcaro relacionadas a uma proposta sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Cem dias depois
Cem dias depois, portanto, existem dois relógios diferentes correndo no caso Dark Horse.
O da Polícia Federal começou mais tarde. A investigação só foi formalmente aberta em 23 de julho e, até o início desta semana, ainda não havia produzido pedidos de medidas invasivas ao gabinete de André Mendonça.
O relógio de Flávio começou em maio.
Foi naquele momento que ele disse estar “100% disposto” a abrir o contrato. Foi ele quem anunciou uma prestação de contas. Foi ele quem estabeleceu prazo de 30 dias. E foi ele quem afirmou que os milhões atribuídos a Vorcaro haviam sido integralmente utilizados no filme.
Desde então, surgiram novas questões: as notas fiscais do escritório ligado ao senador para empresas do entorno do Master, as diferenças entre os valores apresentados para o financiamento e as iniciativas legislativas de Flávio que alcançavam setores nos quais o grupo de Vorcaro mantinha interesses econômicos.
Parte dessas questões caberá à Polícia Federal esclarecer.
Mas a principal cobrança destes cem dias não depende de inquérito.
Flávio pode apresentar o contrato que prometeu abrir, os documentos da prestação de contas e os comprovantes que sustentam sua afirmação de que os recursos foram integralmente utilizados na produção.
Nesta semana, o candidato disse que Dark Horse é “página virada”.
No entanto, a prestação de contas prometida por ele continua sem ser apresentada integralmente ao público.
Antes de virar a página, falta Flávio Bolsonaro mostrá-la.
A investigação chega até aqui com diferentes frentes ainda abertas. A PF apura o caminho dos recursos destinados ao Havengate, a origem dos valores atribuídos a Vorcaro e sua destinação. As notas fiscais emitidas pelo escritório ligado a Flávio e eventuais atos de ofício relacionados aos interesses do banqueiro também passaram a integrar o conjunto de fatos revelados desde maio.
Flávio afirma que o dinheiro de Vorcaro foi integralmente empregado na produção de Dark Horse, nega ter recebido vantagens e rejeita a existência de contrapartidas. Nesta quinta-feira (20), disse que a prestação de contas foi realizada, afirmou que estava “tudo certinho” e classificou o episódio como “página virada”.
O contrato que Flávio prometeu tornar público em maio não foi divulgado. A investigação da Polícia Federal permanece aberta e sem grandes avanços. O caso tem mais perguntas do que respostas.
Não existe um país chamado PCC (Primeiro Comando da Capital), assim como não existe outro, chamado CV (Comando Vermelho). Ambas facções criminosas operam dentro do território de um Estado soberano chamado Brasil. Então, qualquer bombardeio aéreo contra membros dessas facções será um bombardeio contra brasileiros, dentro do Brasil. Negar isso é se opor à lógica.