Do Canal CDM TV:
Segundo João Cezar de Castro Rocha Davi Alcolumbre sairá da presidência do Senado para a presidência de uma cela na Papuda. O Congresso Nacional aprovou uma lei que beneficia diretamente o crime organizado.
Textos de Filosofia e ensaios sobre temas atuais
Do Canal CDM TV:
Segundo João Cezar de Castro Rocha Davi Alcolumbre sairá da presidência do Senado para a presidência de uma cela na Papuda. O Congresso Nacional aprovou uma lei que beneficia diretamente o crime organizado.
Não estou a ver o povo brasileiro aplaudir os senadores que fazem votações de puro revanchismo político
Podemos criticar a motivação, mas não a legitimidade. Podemos apontar, e com justiça, as maléficas consequências institucionais da decisão. Mas não podemos pôr em causa a legalidade do ato. Ninguém é dono dos votos dos senadores, a não ser eles próprios — que respondem apenas perante o povo, não perante outra qualquer instituição. É a isso que chamamos soberania popular — a decisão foi política e o debate deve continuar na política. Para quem está viciado em apelos judiciários sempre que perde (como se perder e ganhar não fizesse parte do jogo democrático), faz sentido lembrar o dito espirituoso do ministro Barroso: perdeu, mané.
E quem perde, em democracia, tenta de novo. Talvez como nenhum outro político, o presidente Lula da Silva sabe exatamente do que estou a falar: perdeu três vezes e três vezes se levantou — para ganhar à quarta vez, em 2002. Foi este percurso (ao qual se somaram a prisão e a terceira vitória) que fez dele um protagonista político singular — só é derrotado quem desiste de lutar.
E para aqueles que veem nesta votação uma derrota presidencial, eu peço que não se precipitem. Não estou a ver o povo brasileiro aplaudir os senadores que fazem votações de puro revanchismo político, esquecendo os superiores interesses institucionais do país. No meu ponto de vista, o que aconteceu foi feio demais, mas, seja como for, tenha quem tiver razão, o problema é político e deve ser resolvido na arena da política, não nos tribunais. É ao povo que compete dizer quem andou bem e quem andou mal, e só saberemos a opinião do povo em breve, nas eleições. Portanto, muita calma nessa hora (ou, como dizem por aí com muita graça, muita hora nessa calma) — quanto a quem perde e a quem ganha, estamos ainda para ver.
Sem prejuízo de melhor análise, julgo que o presidente, como democrata que sempre foi, vai respeitar a decisão do Senado e fazer outra escolha que sujeitará, de novo, à aprovação do Senado. E aí se verá a verdadeira intenção dos senadores: avaliar o currículo do indicado ou retirar o poder constitucional do presidente de indicar os ministros do STF? Cumprir o rito constitucional ou “incendiar o botequim”? Na verdade, a mesma situação aconteceu nos Estados Unidos (com Obama em fim de mandato e o Congresso com maioria republicana) e teve consequências nocivas para os dois partidos — no final, ninguém ganhou, mas a democracia americana, que vive destes rituais, saiu a perder.
Não acredito que o presidente do Senado não agende nova sabatina com novo candidato — aí estaria a ultrapassar os seus poderes e a limitar os dos outros. Portanto, calma. Antecipar a campanha eleitoral com uma disputa de competências entre o presidente e o Senado não me parece ser um comportamento inteligente para os segundos, os senadores da oposição. Seria mau para a democracia brasileira, é certo, mas seria muito pior para a direita brasileira, que escolheria assim, abertamente, a política de terra queimada. Não conheço povo algum que aprecie comportamentos sectários — não deixar governar ninguém, nem eu nem ele, que ganhou limpamente as eleições para presidente da República. Portanto, calma. Muita calma. Ainda é cedo para dizer quem ganhou.
Do Instituto Conhecimento Libera - ICL:
No dia 8 de janeiro de 1973, o Centro de Informações do Exército (CIE) finalizou uma de suas ações mais brutais. Militares ligados ao principal órgão de repressão da ditadura militar invadiram um sítio em Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, e assassinaram cinco integrantes do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações da luta armada contra o regime.
A ação, conhecida como massacre da Chácara São Bento, foi a etapa final do plano da ditadura para exterminar a iniciativa da Vanguarda Popular Revolucionária de retomada de uma guerrilha e também uma resposta dos militares à descoberta do agente duplo José Anselmo dos Santos, o “cabo Anselmo”. Mas nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, aquele era o final da Operação Kymball, uma das dezenas de ações clandestinas conduzidas pelo órgão entre 1969 e 1974.
Os dados de uma caderneta empoeirada de 83 páginas, coordenada pelo coronel Cyro Etchegoyen, expõe os gastos com todo o planejamento desses cinco assassinatos. Além disso, o ICL Notícias fez um cruzamento de informações entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com as informações produzidas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos e encontrou pagamentos de ações militares que resultaram em, pelo menos, outras 29 mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O coronel Cyro registrou informações de despesas e receitas detalhadamente por 54 meses –de dezembro de 1969 a junho de 1974–, os gastos da equipe do órgão com o dia a dia da repressão política durante os governos Médici e Geisel. De acordo com essa contabilidade, o CIE gastou ao menos 615 salários mínimos em operações clandestinas. Em valores de hoje, isso equivale a um orçamento de aproximadamente R$ 1 milhão.
A caderneta faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte, em fevereiro deste ano, à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias, entre estes a caderneta.
Contabilidade da Barbárie
Registrada meticulosamente a mão pelo coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, a contabilidade aponta para a existência de pelo menos dois aparelhos clandestinos do CIE. Um deles é a “Casa da Morte”, em Petrópolis, mas um registro em agosto de 1971 indica pagamentos para a “manutenção de um aparelho em Raiz da Serra”, localidade próxima a Magé, no interior do Rio.
Nas minúcias dos custos, há também dados que apontam para, ao menos, 29 operações e ações sigilosas realizadas pelo CIE contra organizações de esquerda. Destacam-se entre as anotações os custos envolvidos na infiltração de agentes duplos em organizações de esquerda.
A primeira delas, segundo o próprio Cyro é a “Operação Morro Velho”, codinome dado a Victor Luiz Papandreu, que o militar descreve como um agente duplo. Papandreu era da VPR, tinha o codinome “Grego” e é registrado como desaparecido desde 1971. O tenente médico Amilcar Lobo contou em livro ter presenciado seu assassinato dentro da “Casa da Morte” quando os militares teriam avaliado que ele não tinha mais condições de dar informações. No entanto, não há comprovação de que ele, de fato, tenha morrido.
Em outro documento do arquivo de Cyro Etchegoyen, ele detalha que só nessa ação foram assassinados cinco integrantes de “comandos nacionais”, seis foram presos e um total de 25 opositores foram identificados. No livro, “Seu Amigo esteve aqui”, da jornalista Cristina Chacel, a autora detalha que os últimos contatos de Carlos Alberto Soares de Freitas e Antonio Joaquim Machado teriam sido com Papandreu.
Casa da Morte de Petrópolis
As anotações de Cyro Etchegoyen também dão pistas sobre a rotina da Casa da Morte de Petrópolis – aparelho clandestino onde mais de uma dezena pode ter sido assassinada. As vítimas depois tiveram seus corpos ocultados.
A única sobrevivente foi a militante Inês Etienne Romeu – a responsável por denunciar os crimes cometidos por militares no local e por identificar parte dos torturadores que atuavam na casa, inclusive, o “dr Bruno”, codinome de Cyro Etchegoyen. A dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária foi levada para o aparelho na Região Serrana do Rio em maio de 1971, onde foi presa e torturada por cerca de três meses.
Em julho daquele ano, a contabilidade registra “despesas com Inez”, no valor de 100 cruzeiros, quase meio salário mínimo na época. Os militares do CIE tinham o objetivo de transformar Inês em uma infiltrada, coisa que nunca aconteceu. Como parte do plano, a colocaram em liberdade em agosto de 1971. Inês, no entanto, chegou na casa de sua irmã Geralda e denunciou a família todo o que aconteceu durante sua prisão.
Naquele mês, a caderneta de Etchegoyen registra várias despesas relativas à ida de Inês –identificada com o codinome de Maristela pelos militares– para Minas Gerais.
Uma delas, confirma a tentativa frustrada de transformá-la em um agente duplo. O coronel Etchegoyen anota “Pago a Maristela, conforme contrato”, também no valor de 100 cruzeiros.
"Cabo Anselmo"
O caso mais famoso de agente duplo, porém, é o do “cabo Anselmo”. Na contabilidade de Cyro Etchegoyen, os custos relacionados à infiltração de Anselmo na VPR no Recife estão rotuladas como Operação Kymball — codinome dado pelos agentes do CIE a ele. Somente nessa ação, a reportagem identificou gastos que somaram mais de 172 salários mínimos –o equivalente a R$ 279,3 mil em valores de 2026.
A operação que resultou no massacre da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, consumiu boa parte desses R$ 279,3 mil. A ação foi desencadeada para resgatar Anselmo, que, segundo os arquivos de Cyro Etchegoyen, chegou a ser preso pelos militantes da VPR. A ação de resgate e assassinato dos militantes da VPR mobilizou um total de 18 homens, em cinco equipes do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma outra do DOI do IV Exército, do Recife.
Uma ação clandestina focada no Rio Grande do Sul, batizada de Operação Pampa, consumiu outros R$ 102,1 mil. Os registros da Operação Pampa mostram a participação direta de Etchegoyen em campo, bem longe do escritório do CIE, no Rio de Janeiro.
Há registros de gastos com duas viagens de “Dr Bruno” – codinome de Cyro Etchegoyen no aparato de repressão– para Porto Alegre durante o ano de 1972. As datas coincidem com viagens oficiais do coronel para a capital gaúcha, conforme anotações encontradas pela reportagem na ficha funcional do militar –nela há ainda uma terceira viagem ao Rio Grande do Sul não registrada na contabilidade em 1972.
Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.
Do Instituto Conhecimento Liberta - ICL:
Brinquedo de criança, canetas, poltronas, estantes, sapatos, dinheiro, armas e até um carro. Esses são alguns exemplos dos itens que militares do Exército brasileiro roubaram de casas e apartamentos nos quais efetuaram revistas, buscas e prisões de militantes da luta armada. Não importava a quem pertencesse. Agentes inconformados com os desvios dos colegas denunciaram que a pilhagem atingiu pessoas que não integravam grupos de oposição à ditadura. O esquema contava até com o uso de um apartamento na Rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, utilizado para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”
Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.
A denúncia desses crimes consta do depoimento de Israel Sturne, sargento do CIE, tomado em 17 de fevereiro de 1970 pelo coronel Cyro Etchegoyen no informe “Irregularidades na Seção de Operações”. Além dos assaltos, Sturne denunciou um estupro feito por um colega durante uma ação para prender integrantes da ALN em dezembro de 1969. O documento integra o arquivo secreto do oficial que é publicado pelo ICL Notícias no projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.
O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

No relato, Sturne diz que os paraquedistas que vieram servir no CIE eram os principais envolvidos nos crimes relatados. Ele estranhou o fato de os colegas serem voluntários para qualquer tipo de missão, especialmente estouro de aparelhos.“Em sua impressão todo o problema começou com a vinda dos referidos paraquedistas para o CIE, pois a partir de certo tempo verificou que quando se estourava um aparelho, este era cercado por eles e ninguém entrava no recinto sinão depois de certo tempo”, afirmou o sargento.
Logo adiante, Sturne completou: “Com o correr do tempo soube que os objetos retirados dos aparelhos eram, em sua maioria, levados para a rua Tenente Possolo, local utilizado pelo pessoal da Seção de Operações para encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino. Tal apartamento é de propriedade de um amigo do capitão Malhães que lhe cedeu particularmente”. O endereço completo do apartamento para os encontros com amantes não foi informado no documento.
Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano”, ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene” que alugava quartos para integrantes da Ação Libertadora Nacional e sequer era integrante do grupo. Além de estuprá-la, segundo Sturne, os agentes que atuaram na ação roubaram até um brinquedo de seu filho. “Que dona Marilene pediu-lhe para reaver um objeto (um carrinho de corda) que comprara para dar a seu filho no Natal e que deixara no quarto de Aton. Que informou na S-104 mas tal objeto não reapareceu”, contou.
Quem também lembra do episódio é Augusto dos Santos Mello, filho de Marilene. Ele tinha seis anos, na época, e o dia marcou sua memória para sempre: “Quando eles invadiram minha casa, eles rasgaram o colchão, brinquedo de palha, meu cavalinho todo, os brinquedos. Tudo foi destruído procurando dinheiro. Não ficou nada”.
No depoimento ao CIE, Sturne relatou ainda que, em outra ação, um móvel foi levado para o CIE. “O apartamento era muito bem montado e foi completamente desmontado; sabe que o móvel da sala (tipo estante) foi levado para o escritório do CIE na Avenida Presidente Vargas”, disse. Outro destino dos bens relatados pelo denunciante foi a garagem de um imóvel ocupado por uma mulher e duas crianças ligadas ao ao “tenente-coronel Caldeira” na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.

Na denúncia, o sargento identificou que esse comportamento não era só dos subordinados, mas também dos oficiais superiores, seus chefes de operações, e citou o caso do então Major Rubens Paim Sampaio. “Quanto ao Major Sampaio (Paraquedista), que soube apenas de uma troca de móveis, isto é, que o referido oficial ao saber que umas poltronas haviam sido enviadas a Jacarepaguá, foi buscá-las e as trocou por outras existentes em sua residência. Nessa ocasião, foi utilizado o caminhão do gabinete para a mudança”, revelou. Sampaio, já morto, também foi denunciado como um dos torturadores de Inês Etienne Romeu, na “Casa da Morte”, de Petrópolis, e é um dos acusados pelo assassinato do deputado federal cassado Rubens Paiva.
Além de Sampaio, algumas das ações que terminaram com assaltos tinham o comando do tenente-coronel Paulo Malhães, morto em 2014. “Quanto ao capitão Malhães, que sabe ser da teoria de que todas as coisas retiradas devem vir para o CIE, ou para o escritório do Presidente Vargas, ou, finalmente, para a Ten Possolo; que as coisas retiradas devem ser de utilização coletiva pelo pessoal da seção de operações”. Segundo Sturne, para Malhães, o ato de levar objetos das casas não seria ilegal na lei deles. Malhães “considera roubo retirar coisas para uso pessoal”.
"Loucos com prazeres sádicos"
Sturne foi mais duro com alguns. “Quanto ao sgt Canaã que lhe parece um louco cheio de prazeres sádicos; que é um irresponsável e que leva tudo o que pode para sua casa”
O sargento Iracy, apontado por Sturne como o estuprador de Marilene, admitiu a retirada de itens, mas negou a violência sexual. “Que apanhou para si alguns lápis, 3 canetas esferográficas, 1 par de sapatos usados, 1 grill”, afirmou. Ele disse ainda que “um monte de dinheiro apreendido pelo cap Mauricio da Operação Bandeirante na Ten Villas Villas Boas; não sabe a quantia nem destino”. O capitão Maurício Lima foi apontado pela ex-presidente Dilma Rousseff como um dos agentes que a torturou na Operação Bandeirante em São Paulo.
Após a denúncia de Sturne, um soldado identificado como “Gordo” prestou depoimento em 16 de fevereiro de 1970 e confirmou os assaltos. “Ouvido pelo chefe da Seção de Contra-Informações, o referido soldado confirmou que fez várias mudanças para o pessoal da Seção de Operações do CIE”, disse.
Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho que diziam na época e que lá era divididos em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.
Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai era pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa ai para outra. Então, morei em laria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.
Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.
Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.
Com base em duas informações - e no vício da repetição de notícias sem confirmação - formou-se o consenso.
Foto de Rosinei Coutinho - STF

O Ministro Alexandre de Moraes conspirou para que Jorge Messias não fosse aprovado pelo Congresso. Quem informou isso? Malu Gaspar, com base em 6 fontes. Aliás, a cada notícia nova, Gaspar aumenta o número de fontes. Mas, com base em 12 fontes, digo que a informação é incorreta (para ser elegante). Quem são minhas 12 fontes? Só digo quando a Malu revelar as suas, porque sigilo de fonte é sagrado.
Outros colunistas enveredaram pelo mesmo caminho, dentro do espírito de pool que contamina o colunismo de palpites. Bastam 2 repetições para o rumor tomar forma de verdade.
Os pontos que ajudaram a formar a convicção:
* Moraes encontrou-se com Davi Alcolumbre na noite anterior à votação.
* Moraes comentou que Messias seria derrotado por 8 votos. Como poderia saber? Só se estivesse articulado com Alcolumbre.
Com base em 2 informações – e no vício da repetição de notícias sem confirmação – formou-se o consenso.
Hoje, Mônica Bérgamo descreve o jantar oferecido por Moraes em sua casa.
O título é para não fugir do espírito de pool da mídia: “Moraes faz jantar com Alcolumbre na véspera de derrota de Messias e Lula desconfia”.
Mas o que diz a matéria: “Convidados afirmam que encontro, na verdade, homenageou Mário Sarrubbo, amigo de longa data do ministro, tinha apoiadores de Lula entre os presentes e que conversas giraram em torno de amenidades”.
Quem compareceu: “Além de promotores e procuradores, o magistrado convidou para o encontro pessoas que, amigas dele e de Sarrubo, são também próximas de Lula. Estiveram na casa dele o ministro do STF Cristiano Zanin, o superintendente da PF (Polícia Federal) Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski”.
Portanto, a mídia não mentiu quando disse que Moraes encontrou-se com Alcolumbre e soube que Messias seria derrotado por 8 votos. Não mentiu, mas não contou a verdade, Porque meia verdade é uma das formas de mentira.
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A irracionalidade do antilulismo continua sendo a mola-mestra do apoio da grande mídia aos movimentos de ruptura democrática.
Do Jornal GGN:
Reprodução

São curiosos os movimentos da imprensa brasileira diante das duas Lava Jatos.
Na primeira, muitos jornalistas experientes mergulharam de cabeça — contaminados pelo moralismo da campanha, mas sobretudo pela visibilidade que o tema proporcionava. Afinal, “limpar o Brasil” era uma bandeira sedutora, mesmo para profissionais que, pela idade e pela experiência, deveriam conhecer de cor a saga dos inúmeros Catões que periodicamente invadem a política brasileira. A unanimidade construída em torno da Lava Jato sufocou todas as vozes dissonantes. Sei, por experiência própria, o preço que se pagou por defender a democracia e o devido processo legal naquele ambiente.
Para entender o que aconteceu, é preciso saber como funciona o modelo de negócios da mídia. A notícia é um produto estandardizado pela narrativa — pela capacidade do veículo de contar a sua versão dos fatos. Durante décadas, havia nos jornais dois grupos em tensão permanente: o comercial e a redação. Um dos orgulhos das grandes redações era exatamente a “muralha da China” que os separava. O jornal contratava jornalistas para construir um produto com audiência e credibilidade. E era a partir dessa credibilidade que se exercia o verdadeiro negócio da imprensa: a construção ou a destruição de reputações.
Nos veículos bem organizados, o poder dos donos se manifestava por indução, não por ordem direta. Os diretores de redação sinalizavam quais temas mereciam mais ou menos espaço, atendendo aos interesses comerciais da casa — sempre com sutileza suficiente para não comprometer a credibilidade do veículo. A própria Veja, durante certo período, obedecia a essas regras tácitas. O que não impediu a Editora Abril de receber da ditadura uma rede de hotéis Quatro Rodas e outras benesses.
A partir dos anos 2000, esse equilíbrio precário desmoronou. O fim da bonança do jornalismo impresso, a queda das barreiras contra grupos estrangeiros e o baque provocado pela desvalorização cambial — que apanhou os grandes conglomerados de mídia no contrapé, endividados em dólares — criaram uma crise sem precedentes. Diante da ameaça de invasão por grandes grupos internacionais, a fantasia foi rasgada. Roberto Civita importou o modelo Rupert Murdoch, cujos princípios eram brutais: aproximar-se da ultradireita para obter poder político; transformar o veículo na verdadeira oposição, capturando partidos; apelar ao discurso de ódio e às fake news de forma sistemática; e entrar em todo tipo de negócio, confiando no poder de fogo do grupo para resolver os problemas comerciais que surgissem.
Quando começou o jogo do impeachment — conduzido por um bando de alucinados, Serra e Aécio Neves à frente —, o único que enxergou os desdobramentos foi Fernando Henrique Cardoso, com sua frase premonitória: “A gente sabe como começa, não sabe como acaba”. Deu no que deu. A nova dinâmica contaminou irreversivelmente a opinião pública, abriu o campo para as redes sociais e seus algoritmos, colocou a democracia sob ameaça, varreu o PSDB do mapa político e pavimentou o caminho para o bolsonarismo.
Agora, um segundo ato.
A Lava Jato 2 confirma o mote de que a história, quando se repete, se repete como farsa. Desta vez, não há mais unanimidade. Na Globo, por exemplo, convivem os conservadores de sempre, os birutas de aeroporto que giram conforme o vento, os que sonham com a volta da influência que tinham na temporada anterior — e um núcleo duro de bons jornalistas que não embarcaram no jogo e fazem o contraponto. O controle da narrativa se dá agora pelos diretores de redação, responsáveis pelas primeiras páginas — especialmente O Globo — e pelos editoriais alucinados da Folha e do Estadão. A manipulação de títulos e intertítulos ainda causa impacto, sobretudo nas redes sociais. Mas o consenso fascista da primeira Lava Jato não se repetiu.
Ainda assim, a irracionalidade do antilulismo continua sendo a mola-mestra do apoio da grande mídia aos movimentos de ruptura democrática. Mudou o cenário, mudou o elenco, mudou a encenação — mas o roteiro, no essencial, é o mesmo.
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