quarta-feira, 13 de maio de 2026

A bomba semiótica Ypê: dissonância cognitiva e psicologia reversa, por Wilson Ferreira

 

A estratégia bolsonarista aciona mecanismos de psicologia reversa e dissonância cognitiva para sequestrar o debate público.

Do CinegnoseJornal GGN:


A bomba semiótica Ypê: dissonância cognitiva e psicologia reversa




por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Enquanto a infraestrutura de São Paulo literalmente explode sob o peso de concessões privatizadas e falhas de segurança, a cúpula política da capital se ocupa com frascos de detergente. O recente vídeo do vice-prefeito Ricardo Mello Araújo (PL) em defesa da marca Ypê — alvo de um recall da Anvisa — não é apenas um apoio isolado, mas o pavio de uma bomba semiótica meticulosamente calculada. Entre o risco sanitário de uma bactéria e o risco real de explosões urbanas, a estratégia bolsonarista aciona mecanismos de psicologia reversa e dissonância cognitiva para sequestrar o debate público, transformando um fato administrativo em uma trincheira ideológica de conveniência.

Circulava nas redes um vídeo do vice-prefeito de São Paulo, coronel Ricardo Mello Araújo (PL), sugerindo utilização dos produtos da Ypê (com toda a conhecida retórica bolsonarista) depois que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) determinou o recolhimento de produtos lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca por risco sanitário. 

Enquanto isso, na Região Oeste da cidade em que ocupa a vice posição do Poder Municipal, uma explosão atingia 45 imóveis depois que uma obra da Sabesp atingir uma tubulação de gás. Um explosivo indício do limite da irresponsabilidade das concessões públicas terceirizadas e com redução de custos comprometendo os protocolos de segurança – como nas mortes, envolvendo a concessionária, em Mairiporã, Mauá e Litoral Norte, no último ano.   

É sintomática a desconexão entre o foco da agenda do vice alcaide e uma cidade que de repente está colocada sob risco de novas explosões em que a infraestrutura urbana privatizada se torna uma ameaça fatal.

Esse episódio de um vídeo de uma autoridade municipal que se juntou a toda sorte de vídeos bizarros de bolsonaristas enaltecendo, se untando e até bebendo produtos Ypê revela não só a deterioração do debate público por meio da polarização política.

Revela uma “inteligência semiótica”, isto é, um ardil para controle da verdadeira caixa de ressonância em que se tornaram as redes sociais. Com um timing calculado.

Vimos na última semana o início de uma tentativa de recriação da mesma agenda midiática virtuosa que encerrou o ano passado – a defesa da Democracia (com os julgamentos da “trama golpista” no STF e a defesa da Soberania (com a inesperada ajuda do tarifaço de Trump).

Depois da “tratorada” que Lula sofreu no Senado (a rejeição da indicação de Jorge Messias para o STF e a derrubada do veto da PL da Dosimetria), dois episódios fizeram girar a roleta eleitoral a favor do mandatário: o encontro midiaticamente positivo na Casa Branca entre Trump e o “dinâmico presidente” Lula; e a ação da PF contra o senador do PP Ciro Nogueira, jogando o escândalo do Banco Master para o colo do Centrão e do bolsonaristas.

Emendando com o lançamento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado e de anúncio de medidas voltadas à segurança pública. 

Continuamente a Anvisa publica atualização de alertas e recall (recolhimento) de produtos sempre que uma irregularidade é detectada – seja através de Painel de Consultas ou Seção de Notícias e Alertas.

Por isso, é curioso o timing da “inteligência semiótica” bolsonarista em descobrir o alerta e recall de produtos da marca Ypê. Isso em meio ao dia a dia burocrático da agência em analisar e publicar alertas de segurança sanitária de muitos marcas e produtos.

Quem será que estava tão atento aos alertas cotidianos da Anvisa? A ponto de descobrir o alerta de recolhimento de lotes dos produtos da marca Ypê, tão cara aos bolsonaristas – afinal, quatro integrantes da família Beira, dona da Ypê (fabricada pela Química Amparo), doaram um total de R$ 1,5 milhão para a campanha de Bolsonaro em 2022.

Ypê: a narrativa conveniente

HOW CONVEEEENIENT! Diria ironicamente a personagem Church Lady, do humorístico norte-americano “Saturday Night Live”. O caso entregou a narrativa perfeita para, em primeiro lugar, criar a estratégia diversionista perfeita – desvio de atenção da agenda virtuosa 2.0 de Lula e, em São Paulo, e explosiva privatização da infraestrutura urbana.

A narrativa bolsonarista acusando Lula de perseguição política, em ano eleitoral, contra uma empresa apoiadora da campanha da reeleição de Bolsonaro em 2022.

O ministro Alexandre Padilha, da Saúde, reagiu às acusações dizendo que responsável pela suspensão de parte dos produtos da marca Ypê (o diretor Daniel Meirelles) foi indicado durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Razão pela qual, o ministro Padilha argumenta ser infundada a acusação, só reforçando a imparcialidade do controle de qualidade da Agência – que encontrou risco de contaminação microbiológica.

  Porém, tamanha precisão do timing da estratégia semiótica alt-right nas redes sociais dá no que desconfiar: O ALERTA DIRETO AOS BOLSONARISTAS SÓ PODE MESMO TER VINDO DA PRÓPRIA ANVISA.

Como informação privilegiada, antecipada. Para dar tempo para a articulação do ataque semiótico.

Em outros termos: transcender a esfera da vigilância sanitária para se tornar um caso de estudo clássico sobre como a comunicação hiperpolarizada transforma fatos administrativos em bombas semióticas.

Como detonação de uma bomba semiótica, causar um curto-circuito na interpretação da realidade. O recall da Anvisa não foi lido como uma medida de segurança biológica, mas como um signo ideológico.

E oGatilho, aassociação prévia da marca com o apoio político à direita, transformando o detergente em um “corpo político”.

Quando a notícia do recall (fato) entra no ecossistema das redes, ela é despojada de seu conteúdo técnico (contaminação bacteriana) e revestida de uma narrativa de “perseguição estatal”. A bomba semiótica explode ao forçar o indivíduo a escolher um lado: ou você acredita na ciência do Estado (visto como inimigo por um grupo) ou na idoneidade da empresa (vista como aliada).

Dissonância Cognitiva

Temos aqui o primeiro aspecto dessa bomba semiótica: a dissonância cognitiva e a reescrita da realidade.

A dissonância cognitiva ocorre quando um indivíduo é confrontado com informações que contradizem suas crenças ou valores profundamente enraizados. No caso Ypê, o conflito é: “Eu apoio esta empresa, mas o órgão oficial diz que o produto dela pode me fazer mal”.

Para reduzir o desconforto psicológico dessa contradição, o cérebro recorre a mecanismos de defesa:

(a)    Negação ou Descrédito da Fonte: “A Anvisa está aparelhada e inventou a bactéria para prejudicar o empresário”.

(b)   Minimização do Risco: “Sempre usei e nunca morri; é só uma tática para favorecer a concorrência estrangeira”.

(c)    Busca por Informação Consonante: O indivíduo ignora os laudos técnicos e busca ativamente vídeos e posts de influenciadores que validam a teoria da perseguição política, reforçando a bolha informativa.

Psicologia Reversa

Mas talvez o elemento mais perverso dessa bomba semiótica seja a psicologia reversa. Ponto fraco do psiquismo humano desde a narrativa bíblica da mulher de Ló que desobedeceu a ordem expressa de Jeová (não deveria olhar para trás e ver a destruição de Sodoma e Gomorra): se virou, e se transformou numa estátua de sal. 

Psicologia reversa: o paradoxo segundo a qual se obtém um resultado positivo através de uma sugestão negativa e vice-e-versa. 

A psicologia reversa opera aqui através da reatância psicológica — a resposta emocional à percepção de que uma liberdade ou escolha está sendo ameaçada.

De início, cria o “Efeito Interditado”: quando um órgão regulador diz “não use este lote”, parte do público interpreta isso como uma tentativa de “cancelamento” institucional.

E, em seguida, o objetivo final: em vez de descarte, ocorre o fenômeno do “buy-cott” (o inverso do boicote). O consumidor compra o produto não pela sua função de limpeza, mas como um ato de desafio simbólico. O detergente torna-se um artefato de resistência contra o que se percebe como uma “ditadura burocrática”, transformando o risco sanitário em um sacrifício aceitável pela causa.

O fato de o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ter usado o argumento de que o próprio diretor da Anvisa ter sido nomeado no governo Bolsonaro demonstra duas coisas:

(a)    A ingenuidade semiótica do ministro – e de resto do próprio PT: tem o Governo, mas não o controle da máquina do Estado;

(b)   Sem querer, Padilha usou o nome do próprio suspeito como seu principal argumento de defesa!

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Reinaldo Azevedo - Anvisa, detergente Ypê, bolsonaristas e a reação fanática, fascistóide e burra contra Moraes: eis o retrato de uma era

 

Da Rádio BandNews FM:




domingo, 10 de maio de 2026

Portal do José: DOSIMETRIA DOS GOLPISTAS SERÁ ANULADA! REAÇÕES: MUNDO ACABOU PARA O BOLSONARISMO HISTÉRICO! SAIBA PORQUE A DERROTA

 

Do Portal do José:




Portal do José: A NOVA LAPADA! MORAES COMEÇA A SEPULTAR DOSIMETRIA! BOLSONARISMO SEM SAÍDA (DE NOVO)! O CONTATO!

 PL  da Dosemetria projeto sujo de bolsonaristas e golpistas envolvidos no escândalo do Banco Master

Do Portal do José:




Análise política: AGORA EXPLODIU! Decisão de Moraes deixa bolsonaristas FURIOSOS e provoca AVALANCHE de fake news

 

 Htórico do golpismo fascista de Bolsonaro e o conluio da extrema direita com políticos envolvidos no escândalo do Banco Master para soltar criminosos de direita condenados

Do Canal do Clayson:


Portal do José: O INCRÍVEL “AZAR” BOLSONARISTA! DOSIMETRIA NAS MÃOS DE MORAES! TARCÍSIO E O ROUBO DA ÁGUA

 

Do Portal do José:



LULA, O ENCANTADOR DE SERPENTES: O ENCONTRO DE MAIS DE TRÊS HORAS COM TRUMP. POR PEDRO COSTA JR

 

Do Canal TV GGN:




sábado, 9 de maio de 2026

Portal do José: SURPRESA! LULA RETORNA DOS EUA, "CHOCA" MÍDIA E DESNORTEIA BOLSONARISMO! CIRO NOGUEIRA: TORRADO

 

Do Portal do José




Canadá Diário: IMPRENSA INTERNACIONAL EXPÕE o homem de BOLSONARO envolvido em CORRUPÇÃO com o BANCO MASTER! Veja o vídeo!

 Do Canal Canadá Diário:



A Polícia Federal deflagrou a 5ª fase da Operação Compliance Zero e revelou um escândalo que atinge o coração do bolsonarismo. O senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e presidente nacional do PP, é acusado de receber uma mesada de propina de até 500 mil reais por mês do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do falido Banco Master. Segundo a investigação da PF, mensagens e documentos mostram como Ciro Nogueira instrumentalizou seu mandato parlamentar para redigir e apresentar emendas que beneficiavam diretamente os interesses do banco. A imprensa internacional classificou o caso como “escândalo explosivo”. A Reuters noticiou que a operação contra Nogueira marca uma escalada na esfera política da investigação. O InfoBae, da Argentina, destacou que o senador era o “destinatário central” das vantagens indevidas. O Valor International, principal veículo financeiro em inglês do Brasil, revelou que aliados do governo Lula apelidaram o esquema de “BolsoMaster” e cobram a investigação do elo com Flávio Bolsonaro. Este vídeo reúne e analisa todas as notícias publicadas entre os dias 7 e 8 de maio de 2026, mostrando como a fachada anticorrupção da extrema-direita brasileira esconde um balcão de negócios que vendia leis para banqueiros investigados por fraudes bilionárias. Entenda cada detalhe do caso e por que este é o escândalo que pode implodir a campanha eleitoral da direita em 2026.
Fontes citadas: Reuters, InfoBae (EFE), Valor International, BBC News Brasil, The Star (Malásia).

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Bandidos de Farda (6): Lista inédita de militares da inteligência do Exército aponta novos torturadores. Reportagem documental de Juliana Dal Piva, Igor Mello e Chico Otavio

  Os agentes brasileiros se concentraram em fazer visitas ao Estádio Nacional do Chile, que àquela altura –34 dias depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende – era usado como cárcere  para prender e torturar opositores perseguidos pela junta militar comandada pelo general Augusto Pinochet.

Do ICL:

Lista inédita de militares da inteligência do Exército aponta novos torturadores

POR JULIANA DAL PIVA, IGOR MELLO E CHICO OTAVIO


No dia 15 de outubro de 1973, um bimotor brasileiro pousou na pista do Aeroporto Los Cerrillos, em Santiago, capital do Chile. Nele, chegaram a terras chilenas cinco agentes de diferentes órgãos de repressão da ditadura militar brasileira. Faziam parte da comitiva o major Victor de Castro Gomes e o capitão Paulo Barreira. Os agentes brasileiros se concentraram em fazer visitas ao Estádio Nacional do Chile, que àquela altura –34 dias depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende – era usado como cárcere  para prender e torturar opositores perseguidos pela junta militar comandada pelo general Augusto Pinochet.WD13 ICL BANNERICL DESKTOP

A escolha de Victor de Castro Gomes e Paulo Barreira tinha um motivo: os dois oficiais integravam as fileiras do CIE (Centro de Informações do Exército) no Rio de Janeiro. O órgão teve papel central na eliminação de opositores políticos ao longo das década de 1960 e 1970, o auge da violência do regime no Brasil. Castro Gomes e Barreira fazem parte de uma lista inédita com os nomes, patentes – e em muitos casos os codinomes– de 73 oficiais e praças que integraram o CIE  do Rio em meados dos anos 1970.

A lista faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

 

Victor de Castro Gomes depois se tornaria coronel e, antes de ir ao Chile, atuou nas torturas e assassinatos da “Casa da Morte” de Petrópolis. O ICL Notícias descobriu que ele é o “Dr Pepe” apontado por Inês Etienne Romeu como um de seus torturadores. Ela morreu em 2015, mas desde que foi presa no cárcere clandestino, em 1971, denunciou uma série de militares, alguns constam da lista do coronel Cyro.

A identificação nominal dos agentes revela uma grande parte do efetivo do CIE no período em que o coronel Cyro chefiou a seção de contrainformações, entre 1969 e 1974. Até hoje, muitos ex-integrantes da repressão não foram identificados e não há dimensão do total do efetivo utilizado nas operações secretas de captura, assassinatos e tortura.

Apenas sete dos 73 militares na lista do coronel Cyro constam entre os 377 torturadores identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). Outros dois integrantes do CIE – os sargentos Carlos Quissak e Clodoaldo Paes Cabral aparecem no relatório da CNV em uma denúncia de tortura, mas não foram incluídos na relação dos torturadores.

Desses nove torturadores que constam no relatório da CNV, foi possível identificar que apenas um segue vivo: o sargento Jacy Ochsendorf e Souza, um dos réus pela tortura, assassinato e desaparecimento forçado do ex-deputado Rubens Paiva.

ICL Notícias cruzou diversas bases de dados para identificar cada um dos nomes apontados. Os 73 militares listados no documento guardado por décadas por Etchegoyen – com direito a anotações feitas a mão pelo coronel– tomaram parte de vários dos episódios de violência mais infames dos 21 anos do regime militar, como o sequestro e assassinato do ex-deputado federal Rubens Paiva, a perseguição ao líder guerrilheiro Carlos Lamarca e na Operação Condor.

Não é possível saber a data exata em que a planilha –uma espécie de controle de pessoal do CIE do Rio– foi elaborada. Contudo, há pistas. Entre as informações contidas no documento está a data da última promoção de cada um dos militares. Essa informação mostra que a relação foi elaborada depois de fevereiro de 1974, já durante o governo Geisel. Isto porque é a promoção mais recente, referente à mudança de patente do então 1º sargento Américo da Costa Magalhães.

Durante 50 anos, a memória sobre a ditadura militar brasileira convencionou tratar o aparato de repressão como algo marginal dentro do autoritarismo do regime. Essa narrativa foi condensada em uma expressão: os porões da ditadura. No entanto, os documentos inéditos obtidos com exclusividade pelo ICL Notícias contam uma versão diferente dessa história.

Das condecorações mais cobiçadas a compensações financeiras, a análise das carreiras dos 73 militares listados em um desses documentos mostra um grupo de profissionais altamente valorizado pelos generais que governavam o país.

Ao menos 28 dos oficiais e praças listados na planilha de Cyro Etchegoyen foram contemplados com a Medalha do Pacificador, uma dos mais importantes reconhecimentos oferecidos pelo Exército brasileiro.

A pesquisadora Maria Celina Araújo se dedica há alguns anos a sistematizar todas as pessoas que já receberam a medalha. Nem todos os homenageados ao longo dos anos estão envolvidos em crimes de direitos humanos, em especial, durante a ditadura. Mas, segundo ela e as demais pesquisas sobre os crimes da época, a grande parte dos militares que foram premiados naquele período foram reconhecidos por suas ações contra opositores políticos.

“Foram as pessoas (militares da ditadura) que mais se envolveram com repressão, que mais foram longe no sentido de às favas com os escrúpulos, né? As pessoas que tiveram mais iniciativa no sentido de prender, de torturar, de. Enfim, demonstrar serviço, né?”, explica Maria Celina.

A valorização pela cúpula do regime, no entanto, era bem mais do que simbólica. Mais da metade dos mencionados no documento recebeu durante vários anos uma gratificação financeira especial por estar lotada oficialmente no gabinete do ministro do Exército.

Essas bonificações financeiras deixaram rastros no Diário Oficial da União (DOU). A pesquisa no acervo mostra que, em vários casos, movimentações como a concessão e fim das gratificações, bem como transferências de local de serviço eram feitas em bloco. O fato aponta que os militares listados na planilha de Etchegoyen de fato trabalhavam em uma mesma equipe.

O caso mais emblemático diz respeito a uma publicação no DOU de 21 de dezembro de 1972. As duas portarias do general Orlando Geisel –ministro do Exército e irmão do futuro presidente Ernesto Geisel– transfere do estado da Guanabara para Brasília um grupo de 12 oficiais e 39 praças. Eles foram lotados, a partir de 1973, em Brasília.

O grupo viria a participar do planejamento e das ações operacionais que acabaram por desmantelar a Guerrilha do Araguaia, mantida pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Entre os transferidos estavam o coronel José Luiz Coelho Netto, subcomandante do Centro de Informações do Exército no Rio, e o próprio Etchegoyen. Também figuram na relação vários dos mais famosos torturadores da ditadura brasileira, todos lotados no CIE carioca: casos do capitão José Brandt Teixeira –um dos militares que atuou na “Casa da Morte” de Petrópolis e nos desaparecimentos da Guerrilha do Araguaia.

Brandt foi denunciado pelo MPF (Ministério Público Federal) no Pará pelo assassinato, decapitação e desaparecimento forçado do militante do PCdoB Arildo Valadão, em novembro de 1973. Também figuram na lista 15 dos 73 militares 

Coluna de Jamil Chade: Trump diz que reunião com Lula foi ‘muito produtiva’ e chama brasileiro de ‘dinâmico’

 

Encontro bilateral de 3 horas não teve cobertura da imprensa no Salão Oval, evitando emboscadas tradicionais de Trump. Americano destaca negociações sobre tarifas

Do ICL:


Reportagem do analista político internacional Jamil Chade

Quase três horas de um encontro e sem emboscadas públicas. Assim foi a reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Fontes que estiveram na Casa Branca contaram ao ICL Notícias de que o encontro foi marcado por um debate “franco” sobre temas espinhosos. Mas o Palácio do Planalto comemora um clima positivo, “sem pegadinhas” por parte de Trump e nem qualquer troca de farpas.

O encontro deveria durar apenas 45 minutos, nesta quinta-feira. Mas acabou sendo ampliada para mais de uma hora e 20 minutos no Salão Oval. A prorrogação da conversa elevou as expectativas entre os assessores do Palácio do Planalto sobre os resultados da viagem. Os dois líderes então seguiram para num almoço oferecido pelo americano, em seu próprio gabinete e em outro sinal considerado como positivo.

Não houve, porém, qualquer anúncio de acordos e nem o Itamaraty previa que isso seria possível. Nos principais temas bilaterais, não havia ainda um consenso suficiente para que tratados ou projetos fossem anunciados.

Ao final do encontro, Trump foi às redes sociais e deu um foco especial na questão comercial.

Ele declarou:

Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico Presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo Comércio e, especificamente, Tarifas. A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário. Presidente DONALD J. TRUMP

A viagem de Lula foi marcada por uma quebra de protocolos e da postura tradicional do republicano.

Ao sair do comboio, o brasileiro foi recebido pelo republicano em um tapete vermelho. Trump, ao contrário do que tem feito com dezenas de interlocutores para intimidá-los, não usou o aperto de mão para “puxar” o brasileiro. O gesto foi recebido com alívio por diplomatas, já que a marca registrada do republicano tem sido alvo de polêmicas em diferentes capitais pelo mundo. Já o brasileiro deu um tapinha no ombro do americano ao sauda-lo. “Como vai?”, disse Lula.

O brasileiro entrou na Casa Branca pela ala Sul, o mesmo local usado pelo rei Charles, na semana passada.

Lula evita emboscada de Trump

Outro sinal considerado como positivo foi a decisão da Casa Branca de aceitar não abrir o Salão Oval para a imprensa antes do início das reuniões e como é de costume. A expectativa era de que isso poderia significar que as delegações preferem dar maior atenção ao conteúdo do encontro para que, só depois, fariam anúncios concretos sobre o que foi debatido.

Mas, diante do avançado da hora, o pronunciamento conjunto no Salão Oval e local de várias emboscadas por parte de Trump foi cancelado.

Lula dará ainda nesta quinta-feira uma coletiva de imprensa na embaixada do Brasil em Washington.

O gesto de mudança de protocolo teria sido adotado depois de um pedido do governo brasileiro, o que foi atendido por Trump. No ano passado, na Malásia, Lula teria ficado irritado com a presença da imprensa americana antes do encontro, o que acabou reduzindo o tempo de discussão entre os dois líderes.

Os temas, porém, não são dos mais fáceis. Quando a reunião entre os dois presidentes foi confirmada, a ala bolsonarista passou a fazer pressão e subsidiar pessoas próximas ao presidente dos EUA com informações para prejudicar o encontro ou, pelo menos, minar os resultados da reunião.

Trump, porém, recebe Lula num momento complicado de seu governo. Sua popularidade está em seu nível mais baixo e sua campanha militar no Irã está sendo questionada até entre sua base mais radical.

No encontro, o lado americano estava sendo representado pelo vice presidente JD Vance, pelo secretário de Tesouro, Scott Bessent, o secretário de comércio, Howard Lutnick, além da chefe de gabinete do Trump, Susie Wiles e o Representante Comercial Jamieson Greer.

Marco Rubio, secretário de Estado e um aliado dos bolsonaristas, não estará presente. O chefe da diplomacia dos EUA está em Roma.

Além de Lula, a delegação contou com os ministros Mauro Vieira e Dário Durigan, além de Márcio Rosa, Alexandre Silveira e Wellington Silva.

Pauta na mesa

Lula pretendia propor ao americano uma cooperação para lutar contra o crime organizado, mas se recusa a falar na possibilidade de declarar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. O Brasil ainda tentaria explicar aos chefes da Casa Branca que não se justifica a adoção de novas tarifas contra produtos brasileiros.

Do lado americano, Trump esperava fazer propostas para uma aproximação ao país na exploração de terras raras. O Brasil, porém, rejeita a ideia de ser simplesmente um fornecedor de minérios e quer o processamento também no país.

De uma forma geral, porém, a missão de Lula é a de desenhar um pacto de não ingerência por parte de Donald Trump. Num ano eleitoral, a prioridade declarada da diplomacia brasileira é a de defender a democracia do país contra ataques externos.

A meta é a de manter aberto o canal entre os dois principais líderes no Hemisfério Ocidental e desmontar eventuais espaços para ataques contra a soberania brasileira.

Uma das linhas de atuação do Palácio do Planalto é a de fazer uma diferenciação entre o que são temas legítimos da relação entre Brasil e EUA e o que seria considerado como uma ingerência.

Lula irá levar a mensagem, por exemplo, de que classificar grupos criminosos brasileiros como “terroristas” não se justifica e rebater as investigações comerciais contra o país.

O governo diria com todas as letras: “não existem terroristas no Brasil”.

Durante o encontro, a delegação brasileira levaria dados do combate ao crime organizado e vai mostrar a diferença entre o narcotráfico e o terrorismo. Os membros do governo iriam insistir que o Brasil “não tem grupos terroristas”.

Tudo, porém, terá como pano de fundo a tentativa de construção de uma relação que dê garantias ao Brasil de sua capacidade de autonomia na região e a preservação do processo eleitoral sem a interferência do governo dos EUA.

A esperança é de que, com a visita, Lula consiga evitar que Trump se envolva diretamente numa tentativa deliberada de desestabilização do Brasil. O risco continua sendo alto mesmo com o republicano neutralizado. Para a diplomacia brasileira, essa ingerência pode ocorrer por meio das big techs, de grupos ultraconservadores da sociedade civil americana e por ações encobertas por parte de alas mais radicais do trumpismo.

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segunda-feira, 4 de maio de 2026