Os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã nas primeiras horas do dia 28 de fevereiro, em uma operação de mudança de regime que, segundo autoridades de Trump e de Israel, deve durar alguns dias. O Irã já retaliou de forma massiva, deixando várias bases americanas e o próprio território israelense sob intenso fogo. O correspondente de guerra Elijah Magnier participa do programa para analisar todos os detalhes.
Operação conjunta atinge alvos no Irã. Em retaliação, Teerã dispara mísseis contra países do Golfo que abrigam bases americanas
Foto: IRNA English
Estados Unidos e Israel realizam uma operação militar conjunta contra alvos estratégicos no Irã, desencadeando assim uma nova fase na extensa crise no Oriente Médio.
Horas depois, Teerã retaliou com o lançamento de mísseis contra países do Golfo que abrigam ativos militares americanos, ampliando o risco de um conflito regional de grandes proporções.
A sequência de ataques e contra-ataques provocou fechamento de espaços aéreos, alertas de segurança internacional e tensão nos mercados globais, especialmente no setor de energia.
O que aconteceu: ataque conjunto contra o Irã
De acordo com as informações divulgadas até o momento, forças americanas e israelenses coordenaram bombardeios contra instalações iranianas consideradas estratégicas. Explosões foram registradas na capital Teerã e em outras áreas sensíveis do país.
Autoridades israelenses classificaram a operação como preventiva, alegando neutralização de ameaças iminentes. Já o governo americano afirmou que a ação teve como objetivo conter capacidades militares consideradas desestabilizadoras na região.
O ataque ocorre em meio a tensões prolongadas envolvendo o programa nuclear iraniano e disputas indiretas entre Teerã e Tel Aviv.
Em resposta, Teerã lançou mísseis e drones contra territórios que hospedam infraestrutura militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Entre os países atingidos ou colocados em alerta estão:
Bahrain, onde está sediada a Quinta Frota dos EUA
Qatar
Kuwait
Emirados Árabes Unidos
Autoridades locais relataram interceptações de mísseis e explosões próximas a áreas estratégicas. Alguns países suspenderam voos comerciais como medida preventiva.
O governo iraniano declarou que a ofensiva representa “direito legítimo de defesa” diante do que chamou de agressão externa.
Risco de guerra regional no Oriente Médio
A escalada aumenta o risco de envolvimento de outros atores regionais. Analistas alertam que grupos aliados do Irã no Iraque, Líbano e Iêmen podem ampliar a pressão contra interesses americanos e israelenses.
Além do impacto militar, a crise tem potencial de pressionar os preços do petróleo, afetar rotas comerciais estratégicas, e intensificar a instabilidade diplomática no Conselho de Segurança da ONU
A Rússia condenou os ataques e pediu solução diplomática, enquanto governos europeus pediram contenção imediata.
O que pode acontecer agora?
Especialistas apontam três cenários principais:
Escalada militar controlada, com novos ataques limitados
Ampliação do conflito, com envolvimento indireto de aliados regionais
Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.
O caso Master marca a volta do jornalista-sela - que se deixa cavalgar pelas fontes selecionadas para os patrões. Repassam os releases sem nenhum filtro crítico.
Lava Jato 2: um país que não aprende com a própria história, por Luís Nassif
André Mendonça por Fellipe Sampaio/STF
Cansei de alertar sobre o óbvio: a campanha contra o Supremo Tribunal Federal, usando como alvos Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, era o caminho aberto para a Lava Jato 2.
Mas a ignorância, a incapacidade de não prever as consequências, não é atributo apenas da velha mídia. Pessoas que se jactam de analisar cenários foram incapazes de enxergar dois lances adiante.
O quadro está aí:
Dias Toffoli foi substituído por André Mendonça.
Afastaram os peritos da Polícia Federal que não faziam parte da patota da Lava Jato. Ficaram os mesmos responsáveis pelos primeiros vazamentos.
Delegados pediram – e André Mendonça concordou -, a quebra do sigilo bancário de Lulinha.
Aproveitando o embalo, a tal CPI do INSS, insuflada por Rosângela Moro, pede não menos do que a prisão de Lulinha.
Baseados em quê? Em uma suposta ligação com o tal careca do INSS. Em uma suposta viagem bancada pelo tal Careca.
Quem conhece Lulinha diz que ele tem apenas uma conta no Banco do Brasil, e um fundo de previdência onde pinga contribuições mensais de pequena monta. E daí? Assim como na Lava Jato 1, o que vai importar será a denúncia, não o fato objetivo.
Todo o enorme emaranhado do Master – que será maior quando começar a destrinchar a RAEG – ficará à disposição de quem tem acesso prioritário aos dados. Caberá a essas fontes selecionar os escândalos, os personagens, definir o ângulo a ser coberto, dar o encaminhamento à cobertura. Da mesma forma que fizeram com a Lava Jato.
Em plena Lava Jato, por exemplo, a Associação Brasileira do Jornalismo Investigativo (ABRAJI) oficializou o release, oferecendo seus associados como colaboradores da operação.
Quando apareceu a operação Spoofing, a mídia constatou o maior vexame jornalístico da história, como se tornou um mero apêndice da polícia, endossando as maiores barbaridades factuais.
Mas não houve a autocrítica, a justiça de transição. E o caso Master marca a volta do jornalista-sela – aquele que se deixa cavalgar pelas fontes. Repassam o que as fontes dizem, sem nenhum filtro crítico, para manter vivo o fluxo de vazamentos.
É bobagem esperar dos jornais qualquer movimento pela qualidade, qualquer filtro editorial, qualquer orientação editorial ou planejamento para uma cobertura madura.
O país continuará à mercê dos golpes midiáticos, com a mesma facilidade que marcou toda sua história.
Nos anos 1950, o compositor Aaron Copland foi convocado a depor diante de Joseph McCarthy, o senador símbolo da caça às bruxas anticomunista nos Estados Unidos. Décadas depois, o país volta a viver um ambiente de pressão e vigilância sobre os pensadores e a educação. Um relatório aponta uma escalada de censura, investigações e restrições contra as universidades, ampliando o controle do ultraconservador governo de Donald Trump sobre o ambiente acadêmico. Saiba mais no episódio desta semana do podcast "De Cabeça para Baixo", com Jamil Chade.
Crise detonada pelo caso Banco Master entra no tabuleiro eleitoral e reativa engrenagem que, em 2018, abriu caminho para a extrema-direita bolsonarista
A crise de imagem que atingiu o Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas deixou de ser um episódio interno do Judiciário para se tornar peça central do tabuleiro eleitoral de 2026. Reportagem de Daniela Lima, no UOL, mostra que publicitários e estrategistas já tratam o desgaste do tribunal como ativo político com potencial para impulsionar a oposição e alimentar narrativas antissistema.
Não se trata de mera percepção. Trata-se de método.
A mesma engrenagem que operou entre 2016 e 2018 — quando a erosão da confiança nas instituições abriu caminho para a prisão de Lula, sua exclusão da disputa e a vitória de Jair Bolsonaro — volta a girar. Em ano eleitoral, com pesquisas indicando disputa apertada e vantagem estreita de Lula sobre o segundo colocado, Flávio Bolsonaro, o ataque organizado ao STF ganha peso estratégico.
O tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe passa novamente a ser alvo de campanha de deslegitimação em larga escala. A crise atual não surge no vazio: ela é instrumentalizada e amplificada com precisão política.
Estamos diante de uma Lava Jato 2.
O caso Master e a captura eleitoral da crise
A reportagem de Daniela Lima aponta três elementos decisivos:
O desgaste do STF entrou no debate eleitoral e tende a fortalecer a oposição a Lula.
A investigação expôs Dias Toffoli e atingiu também Alexandre de Moraes, alimentando narrativas de conflito de interesses.
Marqueteiros avaliam que a sensação de “desequilíbrio institucional” pode se tornar tema dominante, superando inclusive segurança pública.
Tradução política: a crise institucional virou combustível eleitoral.
Isso não significa que ministros não devam explicações — devem, e com máxima transparência. O problema está em outro ponto: a transformação de questionamentos específicos em narrativa de colapso institucional total. Quando episódios são convertidos em prova de que “o sistema inteiro está corrompido”, o objetivo deixa de ser fiscalização e passa a ser deslegitimação.
O manual da ultradireita: cinco pontos de um método global
O que ocorre no Brasil segue roteiro testado internacionalmente. A extrema-direita opera com método e etapas claras.
1. Produção de escândalos com foco institucional
O alvo não é apenas o governo. São as instituições que mediam a democracia: Supremo, tribunais eleitorais, imprensa, agências reguladoras.
Desgastar essas estruturas é pré-condição para qualquer ruptura.
2. Deslegitimação sistemática
Ataques permanentes ao Judiciário e ao sistema eleitoral. Narrativa de que “tudo está aparelhado”. Amplificação em redes e canais de desinformação.
Objetivo: minar confiança pública e preparar terreno para contestar derrotas ou justificar intervenções.
Este é o ponto central do método.
3. Personalização e moralização
A instituição é atacada por meio de indivíduos. Casos específicos são ampliados até parecerem prova de corrupção estrutural generalizada. O foco deixa de ser o fato concreto e passa a ser a ideia de que nada funciona.
4. Conversão em ativo eleitoral
A crise vira narrativa de campanha. O discurso antissistema unifica direita tradicional e extrema-direita. Candidaturas locais e nacionais passam a explorar a ideia de “colapso institucional”.
5. Preparação para contestação eleitoral
O objetivo final não é apenas desgaste reputacional. É estrutural:
enfraquecer o tribunal que julgou o golpe;
questionar decisões futuras;
criar ambiente de instabilidade;
legitimar eventual contestação de resultados.
Lava Jato 1 e Lava Jato 2
Em 2018, Lula liderava as pesquisas. Foi preso. Permaneceu 580 dias encarcerado. Foi impedido de disputar, de dar entrevista, sequer de dizer quem era seu candidato.
Hoje, Lula volta a liderar — com vantagem estreita. O segundo colocado é o herdeiro político do bolsonarismo. E o tribunal que condenou a tentativa de golpe volta a ser colocado sob suspeita generalizada.
A coincidência não é casual.
A Lava Jato 1 operou via sistema judicial e mídia. A Lava Jato 2 também opera via desgaste institucional contínuo, campanhas digitais e amplificação política.
O mecanismo é o mesmo: criar clima de desconfiança estrutural para interferir no processo eleitoral.
Toffoli e a porteira escancarada
É impossível ignorar o papel de decisões passadas que contribuíram para o atual cenário. Toffoli escancarou a porteira em momentos críticos, permitindo que a boiada passasse sob o berrante do caos.
Isso não absolve campanhas de desinformação. Mas mostra como erros institucionais são capturados e transformados em arma política.
Ministros precisam se defender de acusações? Sem dúvida. Mas a instituição precisa ser protegida de campanhas que visam sua desmoralização total.
O risco eleitoral real
O ponto central é este: o ataque organizado às instituições pode ser decisivo na eleição de 2026.
Se a narrativa de colapso institucional se consolidar, três efeitos podem ocorrer:
fortalecimento do discurso antissistema;
questionamento prévio do resultado eleitoral;
deslocamento do debate para terreno de instabilidade permanente.
A eleição deixa de ser disputa de projetos e passa a ser disputa de legitimidade.
O problema do campo progressista
Há um erro estratégico recorrente: reagir apenas defensivamente.
A extrema-direita opera com método e coordenação. O campo progressista responde de forma fragmentada. Subestima a guerra informacional. Demora a construir narrativa unificada.
Esse déficit vem desde a Lava Jato 1 e permanece na Lava Jato 2.
Sem enfrentamento direto da campanha de deslegitimação, o terreno fica livre para a erosão institucional contínua.
O tribunal que julgou o golpe volta à mira
O STF precisa responder a questionamentos com transparência e rigor. Isso é obrigação.
Mas é igualmente necessário reconhecer que está em curso uma ofensiva política estruturada para deslegitimar o tribunal que julgou e condenou a tentativa de golpe.
A eleição de 2026 começa sob esse signo. Com disputa apertada. Com ataques coordenados. E com o risco de repetição de um roteiro já conhecido.
A história recente mostra o que acontece quando campanhas de deslegitimação institucional não são enfrentadas a tempo.
O método está em operação. A pergunta é se haverá resposta à altura antes que seus efeitos se consolidem no processo eleitoral.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
Pressão de Hugo Motta garante votação simbólica; Cide-Bets, que poderia arrecadar R$ 30 bilhões por ano, é retirada do texto final (dentre entre outras contaminações e deformações conta a segurança e a favor dos exploradores e criminosos podereosos).
O PL Antifacção foi aprovado simbolicamente pela Câmara dos Deputados nesta terça-feira (24) e agora segue para sanção presidencial. A votação ocorreu após reunião de líderes marcada por pressão política e disputa em torno de um dos pontos mais sensíveis da proposta: a taxação das casas de apostas online para financiar a segurança pública.
O texto aprovado excluiu a chamada Cide-Bets, contribuição de 15% sobre os valores transferidos por apostadores às plataformas digitais. O dispositivo havia sido incluído pelo Senado como mecanismo de financiamento permanente para ações de segurança pública e para o sistema prisional e poderia alcançar até R$ 30 bilhões em arrecadação, segundo o relator do texto no Senado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
Apesar da previsão de reforço orçamentário, o centrão insistiu na retirada da tributação das bets e solicitou que o trecho fosse votado separadamente. A movimentação irritou integrantes da base governista, que alegaram haver acordo prévio para manutenção do dispositivo no texto final.
Parlamentares relataram que, durante a reunião de líderes, o presidente da Câmara, Hugo Motta, foi incisivo para garantir que o texto fosse aprovado nos termos do entendimento construído. Segundo esses relatos, houve pressão direta sobre a base para evitar reabertura de discussão e assegurar a votação simbólica.
Os bastidores foram confirmados pelo líder do PSOL na Câmara, deputado Tarcísio Motta, que falou ao ICL Notícias após a reunião. De acordo com ele, houve “ameaça direta de que se não houver respeito ao ‘acordo’, vota (e aprova!) o texto original da Câmara”. A sinalização, segundo o parlamentar, funcionou como forma de enquadramento da base.
Descumprimento de acordo
Integrantes do governo interpretaram a retirada da Cide-Bets como descumprimento do acordo previamente firmado. Na avaliação desses parlamentares, a supressão do dispositivo enfraquece o discurso de endurecimento penal ao retirar uma fonte estruturada de financiamento para o enfrentamento às facções.
Durante a própria reunião, o relator na Câmara, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), apresentou um oitavo relatório da matéria. Uma nova versão foi levada à mesa poucas horas antes da votação simbólica, repetindo a dinâmica já vista em etapas anteriores da tramitação, com alterações sucessivas e dificuldade de consolidação de um texto estável.
O projeto cria um novo marco legal para o combate às facções criminosas, amplia tipos penais e endurece dispositivos relacionados à atuação de organizações criminosas. No entanto, a retirada do mecanismo de financiamento aprovado pelo Senado alterou de forma relevante a engenharia financeira originalmente desenhada para sustentar o reforço das políticas de segurança.
Com a aprovação simbólica, a Câmara evitou votação nominal e consolidou o texto final sem a taxação das apostas. O projeto agora aguarda sanção presidencial.
O Supremo também julga nesta terça Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro acusado de obstruir as investigações do caso
Chiquinho e Domingos Brazão e Marielle Franco (Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados | Reprodução/Marielle, o documentário | Mídia NINJA)
247 - A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar nesta terça-feira (24) os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, acusados de serem os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, executados a tiros em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. Na mesma sessão, os ministros analisam as acusações contra o delegado Rivaldo Barbosa, apontado como responsável por interferências nas investigações do caso.
Segundo denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), os irmãos teriam ordenado o crime por interesses relacionados à grilagem de terras e à tentativa de regularização de um condomínio em Jacarepaguá, na Zona Oeste da capital fluminense. A acusação sustenta que ambos atuavam em defesa de interesses de milícias “junto às instituições de Estado”. Eles foram apontados como mentores do atentado na delação premiada do ex-policial militar Ronnie Lessa, que confessou ter efetuado os disparos.
A trajetória dos irmãos Brazão
A influência política da família Brazão no Rio de Janeiro se consolidou ao longo de quase três décadas, período marcado por mandatos parlamentares e sucessivas controvérsias judiciais.
Chiquinho Brazão
Chiquinho Brazão, de 64 anos, iniciou a carreira como vereador do Rio em 2004, sendo reeleito por mais três mandatos consecutivos. Entre 2017 e 2018, atuou na Câmara Municipal ao mesmo tempo que Marielle Franco. No Legislativo carioca, presidiu a CPI dos Ônibus, criada para investigar supostas irregularidades no transporte público, mas a comissão terminou sem desdobramentos práticos.
Em 2018, foi eleito deputado federal, cargo para o qual foi reconduzido em 2022. O julgamento no STF ocorre porque ele exercia mandato parlamentar quando a denúncia foi apresentada. Em abril do ano passado, teve o mandato cassado pela Mesa Diretora da Câmara dos Deputados após acumular 72 faltas não justificadas, registradas depois de sua prisão preventiva.
Inicialmente detido no Presídio Federal de Campo Grande (MS), Chiquinho passou a cumprir prisão domiciliar por decisão do ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal. A medida foi concedida após a defesa apresentar laudos que apontavam “quadro de múltiplas comorbidades graves”.
Antes de ser preso, ocupou o cargo de secretário municipal de Ação Comunitária da Prefeitura do Rio, do qual pediu exoneração em fevereiro de 2024, em meio às primeiras suspeitas sobre seu envolvimento no crime.
Domingos Brazão
Domingos Brazão, de 60 anos, é considerado o principal articulador político do grupo familiar. Começou a trajetória pública como assessor parlamentar nos anos 1990. Em 1997, foi eleito vereador e, dois anos depois, assumiu mandato como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), onde permaneceu por 17 anos consecutivos.
Em 2017, foi indicado pela Alerj para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). No mesmo ano, acabou afastado após ser preso na Operação Quinto do Ouro, da Polícia Federal, que investigou um esquema de corrupção envolvendo integrantes da Corte.
Atualmente, Domingos está preso preventivamente no Presídio Federal de Porto Velho (RO). A defesa pediu transferência para o Rio de Janeiro, alegando que ele estaria submetido a “inúmeras e indevidas restrições”, com prejuízos à saúde física e mental.
Ao longo da carreira, enfrentou outras acusações. Em 2011, teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) por suposta compra de votos, mas conseguiu liminar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e permaneceu no cargo.
Em 2014, durante discussão com a então deputada estadual Cidinha Campos, declarou: "Matei, sim, uma pessoa. Mas isso tem mais de 30 anos, quando eu tinha 22 anos. Foi um marginal que tinha ido a minha rua, em minha casa, no dia do meu aniversário, afrontar a mim e a minha família. A Justiça me deu razão". Segundo ele, o caso foi reconhecido como legítima defesa.
Rivaldo Barbosa e a acusação de obstrução
Também julgado nesta terça-feira, o delegado Rivaldo Barbosa está preso desde março de 2024 e é acusado de interferir nas investigações do assassinato. As suspeitas ganharam força após a delação de Ronnie Lessa, que afirmou que o então chefe da Polícia Civil teria oferecido aos irmãos Brazão a “certeza da impunidade”.
Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior assumiu o comando da Polícia Civil do Rio em março de 2018, um dia antes da execução de Marielle e Anderson. O convite partiu dos generais Braga Netto, então interventor federal na segurança pública do estado durante o governo Michel Temer, e Richard Nunes, secretário de Segurança à época.
Antes de chefiar a corporação, ocupou cargos estratégicos, como subsecretário de Inteligência, titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e diretor da Divisão de Homicídios, setor responsável por coordenar investigações de assassinatos no estado. Ele permaneceu no comando da Polícia Civil entre março e dezembro de 2018.
Durante as primeiras fases da apuração, comunicou ao então titular da DHC, delegado Giniton Lages, que policiais federais teriam localizado uma testemunha do crime. Posteriormente, a Polícia Federal concluiu que a pista era falsa, no âmbito de uma apuração paralela que ficou conhecida como “investigação da investigação”.
Em outro episódio, determinou que Lages interrogasse o policial militar Rodrigo Ferreira, o Ferreirinha, que teria relatado conversa entre o miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica, e o então vereador Marcello Siciliano sobre um suposto plano para matar Marielle. Meses depois, a versão também foi descartada após novas conclusões da Polícia Federal.
Logo após o crime, Rivaldo reuniu-se com parlamentares do PSOL e familiares da vereadora e afirmou que o caso seria solucionado rapidamente. Em entrevista, declarou que a polícia estava “no caminho certo” para identificar os responsáveis.
Em fevereiro de 2026, o Ministério Público Federal apresentou nova denúncia contra o delegado no âmbito do Inquérito 4.954, que tramita no STF. Além de Barbosa, também foram denunciados Giniton Lages e o ex-comissário Marco Antonio Pinto Barros, conhecido como Marquinhos. Segundo o MPF, os três teriam integrado associação criminosa voltada à obstrução de investigações e à garantia de impunidade em crimes cometidos por organizações criminosas.
Rivaldo tornou-se réu no Supremo e segue preso no Presídio Federal de Mossoró (RN). Em depoimento à Polícia Federal, em junho de 2024, negou participação nos preparativos do assassinato e rejeitou ter atuado para proteger os supostos mandantes do duplo homicídio.
Uma das maiores manipulações econométricas brasileiras é praticada nas estatísticas sobre o mercado de trabalho. Passei a década de 90 ajudando a desmistificar essas jogadas.
Quando veio a abertura da economia, nos anos 90, o bordão preferencial dos economistas do trabalho era comparar o tempo de estudo do brasileiro com o do norte-americano e do japonês. E tirar a conclusão definitiva: o trabalhador brasileiro é ineficiente.
Não era isso o que me diziam os executivos estrangeiros com quem eu conversava. Perguntei ao presidente da Samsung, recém instalada em Manaus, sobre a maior surpresa com o país. E ele: a qualidade do trabalhador brasileiro. Fiz a mesma pergunta para o executivo da Nokia. Mesma resposta.
Indaguei do diretor de recursos humanos da Mercedes, o impacto da diferença de estudos em relação ao trabalhador alemão. E ele me contou que mudou uma área da Mercedes, de mecânica para digital. Depois de um mês de curso, os metalúrgicos, “nordestinos com curso primário” estavam mais habilidosos que seus colegas alemães.
A troca dos nove foi com Carlos Salles, presidente da Xerox brasileira, nos tempos em que a Xerox era símbolo mundial de inovação. Ele me disse de um concurso anual de qualidade, entre todas as Xerox do mundo. Havia cinco prêmios. Indaguei qual foi a premiação brasileira. 6 prêmios me disse. Mas não são 5 prêmios? O 6º era pelo fato de, pelo segundo ano seguido, a Xerox brasileira ter vencido os 5 outros prêmios. Perguntei se era uma característica da Xerox brasileira. E ele: de toda multinacional instalada no país. Qual a razão? O “jeitinho” brasileiro, a capacidade de encontrar soluções no dia-a-dia, a facilidade em se adaptar a toda sorte de método de trabalho.
Quando o inominável José Pastore – o mais preconceituoso dos especialistas em economia do trabalho – dá o exemplo dos bares para mostrar a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, não entende que maior ou menor produtividade depende do modelo de trabalho implantado, desde o bar até a grande empresa.
Hoje em dia, na maioria dos bares vê-se garçons de todas as idades manobrando com toda familiaridade celulares para anotar os pedidos e fechar as contas.
Os embustes estatísticos
Mesmo assim, os embustes estatísticos continuam frequentes.
Algumas décadas atrás, um pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) constatou que 55% dos lares brasileiro tinha ou um aposentado ou um pensionista como arrimo de família. E, nesses lares, era maior o tempo de escolaridade das crianças, menores os gastos com saúde, maior a blindagem contra a cooptação pelo crime organizado. Enfim, uma defesa fantástica dos efeitos do aumento do salário mínimo na Previdência.
O mercado entrou em pânico e contratou José Márcio Camargo para comprovar que o aumento do SM na Previdência aumentava a propensão dos jovens à “vagabundagem”, Para dar credibilidade do trabalho, Camargo trouxe como parceiro um pesquisador do IPEA. E só conseguiu emplacar a tese da “vagabundagem” no final, como uma hipótese, mas sem comprovação do estudo.
Mas a aventura mais extravagante foi do economista Cláudio Haddad. Ele estimou o custo do salário de um executivo. Depois, o atraso que os donos de carrocinhas provocam no trânsito. E cruzou o salário hora dos executivos com a perda de tempo por conta desses exploradores de executivos, as carrocinhas. A partir daí gerou um índice de desperdício e a bandeira para serem proibidas as carrocinhas, de pessoas que recolhem objetos pela cidade, para sobreviver.
O trabalho é do economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre, a partir de um novo banco de dados global de horas trabalhadas organizado pelos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA).
Vamos a algumas características desse estudo: as pesquisas de força de trabalho medem horas trabalhadas na semana anterior, normalmente perguntando “quantas horas você trabalhou?”, não “quanto tempo você dedicou ao trabalho incluindo deslocamento”. Ou seja, se um trabalhador trabalha 44 horas por semana, gasta 10 horas semanais no trajeto (ida e volta), o estudo registrará 44 horas, não 54.
Vamos incluir o tempo no trânsito com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Censo de 2022, Eurostat e United States Census Bureau.
A média aproximada diária de tempo no trânsito:
Brasil: 64 minutos.
União Europeia: 50 minutos
Estados Unidos: 53 minutos
Como no Brasil a semana é de 6 dias e na União Europeia e EUA é de 5 dias, a conta semanal, de tempo gasto no trânsito, fica assim:
Brasil: 384 minutos, ou 6,4 horas semanais.
União Europeia: 250 minutos, ou 4,2 horas semanais
Estados Unidos: 265 minutos ou 4,4 horas semanais.
Agora vamos acrescentar essas horas nas estatísticas apresentadas.
Média mundial: 42,7 horas
Media brasileira: 40,1 horas, ou 6% a menos.
Incluindo tempo de transporte:
Média mundial: 47,1
Média brasileira: 46,9
Medida
Brasil
União Europeia
EUA
Dias da semana
dias
6
5
5
Transporte/dia
minutos dia
64
50
53
minutos semana
384
250
265
horas semana
6,4
4,2
4,4
Horas trabalhadas
40,1
42,7
42,7
Diferença
0,00%
6,48%
6,48%
Horas trabalhadas
Mais translado
46,5
46,9
47,1
Diferença
0,00%
0,79%
1,33%
O economista Daniel Duque é definitivo:
“Sob qualquer desses critérios, o brasileiro trabalha menos do que seria esperado. Para Duque, o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural, uma preferência por maior quantidade de lazer”.
“Sob qualquer critério”! Peguei o mais básico dos critérios, o critério óbvio, de incluir o tempo gasto no transporte, e a média brasileira se iguala estatisticamente à internacional
Aí, o economista conclui que o brasileiro trabalha menos por “uma preferência por lazer”. E, magnânimo, concede que “não é necessariamente ruim”.
No final dos anos 40, um grupo de funcionários públicos sérios, trabalhando as ideias originais do conceito de previdência – e liderados pelo professor Luiz Palmério – defendia a semana de 5 dias e, mais que isso, a possibilidade do trabalhador escolher os dias de folga.
A ideia era que o comércio ficava aberto só durante a semana. Assim, as folgas em finais de semana não permitiam ao trabalhador o acesso aos bens de cultura, de lazer e de consumo.
Entre dr. Palmério e Daniel Duque não há apenas 75 anos: são 300 anos, período que separa a Idade Média do Iluminismo.