Segundo reportagem do Piauí, Daniel Vorcaro fazia festas como forma de estreitar laços, conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus interesses. Em 2023, escalou duas pessoas para organizar uma festa de Halloween. Ex-ministro de Jair Bolsonaro, Fábio Faria ficou responsável por convidar alguns poucos homens. Já o promoter Tiago Polo encarregou-se de convocar muitas mulheres. No fim, a festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres. Vorcaro tinha preferência por determinado tipo de mulheres para lotar a pista de dança: “Só menina nova.”
A dona da produtora Go UP, Karina Gama, que também é a presidente do Instituto Conhecer Brasil assinou em 2024 um contrato de R$ 12 milhões com Alex Leandro Bispo dos Santos, dono da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, até fevereiro deste ano. Santos foi apontado pelo ministro Flávio Dino, na Operação Make Up, como “integrante relevante do PCC” e responde por feminicídio.
MP: Empresa de produtora de Dark Horse ocultou de contrato nome de ‘integrante relevante do PCC’
Documento assinado por Karina Gama, produtora do filme sobre Bolsonaro, previa atuação no Wi-Fi Livre SP
Por Juliana Dal Piva e Cleber Lourenço
A dona da produtora Go UP, Karina Gama, que também é a presidente do Instituto Conhecer Brasil assinou em 2024 um contrato de R$ 12 milhões com Alex Leandro Bispo dos Santos, dono da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda, até fevereiro deste ano. Santos foi apontado pelo ministro Flávio Dino, na Operação Make Up, como “integrante relevante do PCC” e responde por feminicídio.
Nas investigações, o Ministério Público de São Paulo apontava que o contrato original entre Santos e Gama foi apresentado “com ausência de dados essenciais de qualificação do representante da empresa, identificado apenas como “Alex”, posteriormente apontado como Alex Leandro Bispo dos Santos”. Ele precisou ser refeito posteriormente para a contratação. O MP-SP ainda diz que, após a prisão de Santos, por feminicídio, a “empresa teria sido formalmente transferida a Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, residente no mesmo endereço do antigo sócio, sem alteração substancial na execução das atividades empresariais, havendo suspeita de blindagem patrimonial e ocultação de pessoas”. O contrato de Santos, porém, não tem relação direta com o filme Dark Horse.
O documento, identificado como CPS 0015/2024, é uma das peças centrais nas investigações que levaram à Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal na semana passada. No contrato, ao qual o ICL Notícias teve acesso, está descrito, em detalhes, que Karina Gama contratou a empresa de Santos para participar de um edital da prefeitura de São Paulo.
Contrato entre Karina Gama e Alex Santos
A Polícia Civil de SP já apurava os crimes de “frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas públicas”. Ao informar que Santos é “integrante relevante do PCC”, Dino apontou que a informação veio de órgãos de inteligência policial e pelo Ministério Público de São Paulo. Segundo a revista Fórum, ele seria o “Escorpião do PCC”.
A Polícia Federal apura, na Operação Make Up, suspeitas de desvio de recursos públicos, fraudes contratuais, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A operação atingiu também o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e a própria Karina Gama. Entre os 49 alvos da operação desta semana estão empresas que prestaram serviços ao ICB. Entre elas, a Urban Connect, novo nome da antiga Favela Conectada, a Ultra IP e a Complexsys.
Na representação enviada ao Supremo, a Polícia Federal inclui formalmente a Favela Conectada, atual Urban Connect, entre as pessoas jurídicas de interesse da investigação. A PF descreve a empresa como subcontratada pelo ICB no contrato com a Prefeitura de São Paulo e registra que ela recebeu recursos da organização. Em outro trecho, Alex Leandro Bispo dos Santos aparece entre as pessoas consideradas relevantes para a compreensão da estrutura investigada.
Karina Gama tem afirmado para pessoas próximas que contratou a empresa de Santos porque ele já era prestador de serviços do mesmo setor e apresentou a ela todas as certidões tributárias e fiscais e que a empresa estava regularizada. Ao saber do episódio de feminicidio, a empresa estava em período de renovação contratual e o mesmo não foi renovado. A dona da Go UP explicou que a escolha da Favela Conectada se deu porque como o serviço é comunitário, e as relações são dentro das comunidades, é sempre melhor contratar serviços com absoluta dominância local.
O que diz o contrato
O instrumento particular de prestação de serviços tem como objeto a implantação, operação e manutenção de rede de internet pública em 2 mil pontos de Wi-Fi nas zonas sul e oeste de São Paulo, no âmbito do Edital nº 01/SMIT/2024 — o programa Wi-Fi Livre SP, da Prefeitura de São Paulo. O valor global previsto para os 12 meses de vigência é de R$ 12 milhões, a serem pagos mensalmente mediante o envio de ordens de serviço.
Segundo a Revista Fórum, Alex foi o único sócio da Favela Conectada desde a fundação da empresa, em agosto de 2020, até transferir a totalidade das cotas à companheira, em janeiro deste ano. Ele é considerado foragido da Justiça desde o mês passado. Ele é réu pelo feminicídio Maria Katiane Gomes da Silva, que caiu do 10º andar do prédio onde os dois viviam, na Zona Sul de São Paulo. A polícia obteve imagens de câmeras de segurança que registraram agressões contra Maria Katiane antes da queda. Em 10 de agosto, a 5ª Vara do Tribunal do Júri da Barra Funda determinou o fim da prisão preventiva e impôs medidas cautelares, mas ele não foi mais visto.
A empresa foi criada como ALBS Consultoria Empresarial, mudou o nome para Favela Conectada em setembro de 2024 e, em agosto de 2025, tornou-se Urban Connect Serviços e Tecnologia. Em 27 de fevereiro de 2025, a empresa Favela Conectada pediu à instituição financeira aumento do limite para transferências via TED, solicitando um limite diário de R$ 600 mil e de R$ 300 mil por operação. Como justificativa, informou que passaria a receber recursos de um contrato com o ICB relacionado ao Wi-Fi Livre SP. O negócio era de R$ 12 milhões.
A instituição encontrou inconsistências nos documentos apresentados. A primeira versão do contrato tinha assinatura simples, não apresentava data e não permitia verificar sua autenticidade.
Após questionamentos, a empresa entregou outra versão, com firmas reconhecidas e assinaturas das partes. Ainda assim, segundo a investigação, não estava claro como havia sido calculado o valor contratado.
No dia seguinte ao pedido de aumento do limite, em 28 de fevereiro de 2025, a empresa recebeu R$ 611.111 do ICB. Em 16 de abril, entraram outros R$ 666.666,67. Nove dias depois, em 25 de abril, a Urban Connect transferiu R$ 250 mil para a Ultra IP Tecnologia e Serviços, outra empresa que aparece entre as principais destinatárias de recursos identificadas pela PF.
Recursos vieram principalmente da Prefeitura de São Paulo
O ICB mantinha contrato com a Prefeitura de São Paulo para implantação e manutenção de pontos gratuitos de internet em regiões periféricas. O projeto tinha valor inicialmente estimado em R$ 108 milhões e foi posteriormente ampliado por aditivos.
A análise financeira citada na decisão aponta que os recursos recebidos pelo instituto eram predominantemente oriundos da Prefeitura e depois distribuídos a um grupo de empresas. Em uma das comunicações financeiras analisadas pela PF, referente ao período entre maio de 2025 e maio de 2026, a Prefeitura de São Paulo aparece como a principal remetente de recursos ao ICB, com R$ 47,34 milhões enviados em 14 lançamentos.
Em um dos conjuntos de movimentações, o ICB aparece recebendo R$ 24,59 milhões. A Make One Tecnologia Digital recebeu R$ 16,97 milhões; a Complexsys, R$ 7,8 milhões; a Fastfuture, R$ 5,55 milhões; e a Ultra IP, R$ 4,4 milhões. A Favela Conectada, atual Urban Connect, aparece entre as destinatárias desses recursos. Segundo o relatório, a empresa recebeu R$ 7.874.943,40. A própria PF relaciona esses pagamentos à condição da empresa como uma das contratadas pelo ICB no âmbito dos contratos firmados com o Município de São Paulo.
A investigação sobre esses contratos municipais foi conectada à apuração de emendas parlamentares destinadas ao ICB e à Academia Nacional de Cultura (ANC), ambas presididas por Karina Gama. Ao analisar o conjunto das movimentações, a PF afirma que o ICB aparece como o “principal captador de recursos da rede investigada”. Segundo os investigadores, os valores eram “predominantemente oriundos da Prefeitura de São Paulo” e depois distribuídos a um grupo relativamente restrito de empresas, entre elas Urban Connect, Complexsys, Fastfuture e Ultra IP.
A investigação também passou a analisar a circulação de recursos envolvendo a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse e empresa de Karina Gama. Na representação, a PF afirma que a produtora foi identificada como destinatária de recursos provenientes de pessoas e empresas relacionadas ao núcleo investigado, o que, segundo os investigadores, revela uma “possível integração patrimonial e operacional” com as entidades beneficiárias das emendas parlamentares.
Nota da defesa de Karina Gama
“A defesa da Sra. Karina Gama recebe com absoluto respeito e considera positiva a decisão do Ministro Flávio Dino de levantar o sigilo sobre os elementos da investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado de São Paulo envolvendo o Instituto Conhecer Brasil e contrato celebrado com a Prefeitura de São Paulo.
A transparência interessa à Justiça, à sociedade e, sobretudo, à própria defesa.
Quem já apresentou voluntariamente mais de 20 mil páginas de documentação não teme transparência.
Desde o primeiro momento, a Sra. Karina Gama tem sustentado, de maneira firme e inequívoca, que não praticou qualquer ilícito.
A publicidade dos elementos da investigação permitirá que os fatos sejam conhecidos em sua integralidade e examinados objetivamente, para além de especulações ou juízos antecipados.
A defesa confia que a plena exposição dos fatos demonstrará que a Sra. Karina Gama não pode ser transformada em culpada pela intensa efervescência da vida nacional, em um momento de extraordinária agitação e movimentação política.
Investigar é legítimo. Esclarecer é do interesse de todos. Mas investigação não é acusação, muito menos, condenação e a repercussão política jamais poderá substituir o devido processo legal.
Por essa razão, a defesa nada tem a opor quanto à transparência e ao levantamento do sigilo.
Ao contrário, deseja que o Brasil tenha acesso à realidade integral dos acontecimentos e que cada documento, contrato, pagamento e circunstância seja examinado tecnicamente, dentro da legalidade e sem contaminação por disputas políticas ou narrativas previamente construídas.
A Sra. Karina Gama continuará colaborando com as autoridades competentes e exercendo, com serenidade, seu direito constitucional de defesa, convicta de que a verdade dos fatos prevalecerá.
A Constituição protege a investigação, mas também protege o investigado. E é justamente nos casos de maior repercussão pública que essa garantia precisa ser mais rigorosamente observada.
Empresa de capacetes da família Bolsonaro está registrada no mesmo lugar de empresas do operador financeiro do esquema que prejudicou aposentados e pensionistas brasileiros
EXCLUSIVO: Empresas de Flávio Bolsonaro e Careca do INSS dividem a mesma sala em Brasília
Por Alice Maciel
A empresa de capacetes Bravo Grafeno, cujo dono é o candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), divide o mesmo endereço em Brasília com pelo menos 16 firmas de Antonio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que já participou da sociedade, é o garoto-propaganda da marca.
Esta revelação conecta diretamente a família Bolsonaro ao Careca do INSS, personagem central das investigações sobre as fraudes bilionárias que lesaram mais de 4,3 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros. Os desvios ocorreram entre 2019 e 2024 e resultaram no prejuízo de R$ 2 bilhões aos cofres públicos.
O levantamento do Núcleo Investigativo do ICL Notícias indica que a empresa do candidato usou, além dos mesmos serviços de contabilidade, a mesma estrutura do investigado na Operação Sem Desconto, da Polícia Federal.
O Careca do INSS está preso preventivamente desde setembro de 2025, no Presídio da Papuda em Brasília. De acordo com as investigações, ele operava empresas de fachada para desviar as mensalidades recebidas irregularmente por associações de aposentados.
Em declarações anteriores, Flávio Bolsonaro negou envolvimento no escândalo do INSS. Procurado, o candidato a presidente ainda não se pronunciou. A reportagem também procurou a defesa do Careca do INSS, mas não houve retorno até o fechamento da edição. O espaço segue aberto para manifestação.
Mesmo endereço e contador em Brasília
O endereço compartilhado é a sala de número 2601 bloco D, do Edifício Connect Towers, em Águas Claras, região administrativa do Distrito Federal.
A reportagem esteve no local nesta sexta-feira (dia 11), por volta das 10h30. Logo na portaria do prédio, uma funcionária informou que a sala 2601 é ocupada pela Voga Serviços Contábeis, empresa que pertence ao sócio do Careca do INSS, Alexandre Caetano dos Reis, que também está preso.
Alexandre Caetano dos Reis é o primeiro elo conhecido entre Flávio Bolsonaro e o Careca do INSS. Ele é responsável também pela contabilidade do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro.
A Voga ocupa quatro salas no 26º andar do prédio. A recepção da empresa fica na de número 2603, onde o ICL Notícias foi recebido pelo advogado Thalles Setúbal. Ele confirmou que a Voga presta serviços à empresa de Flávio Bolsonaro, mas negou que a sala 2601, onde estão registradas as empresas do senador e do Careca do INSS, pertencesse à contabilidade, apesar de os funcionários que circulavam pelo corredor, terem confirmado à reportagem que o local também é ocupado pela Voga.
Inclusive, em duas ocasiões, ao bater na 2601 que estava fechada, fui abordada por funcionários que me orientaram que me dirigisse à recepção da Voga, ou seja, a sala vizinha, 2603.
Thalles afirmou que na 2601 funcionava um coworking e pertencia à outra empresa, com donos diferentes da Voga. Questionado sobre a relação da empresa de contabilidade com o senador Flávio Bolsonaro e as investigações da PF, Thalles respondeu: “A gente se posiciona nos autos, não com imprensa”.
A Bravo Grafeno foi aberta pela família Bolsonaro em junho de 2024 e conta com capital social de R$ 100 mil. A loja online vende dois modelos de capacete por R$ 598,90 e viseiras branca e preta, por R$ 54.
“Com capacete Bravo de grafeno, você garante sua liberdade e segurança. Assim como eu, esse é 100% brasileiro”, anuncia o ex-presidente em vídeo divulgado no site da empresa. O domínio do site foi registrado em julho de 2024 em nome de Flávio Bolsonaro.
Jair Bolsonaro lançou o capacete para motos, no dia 11 de março de 2025, no Salão das Motopeças, realizado em São Paulo. O tricampeão mundial de Fórmula 1, Nelson Piquet, também divulgou a marca durante uma live em 2025.
Conexão entre Flávio Bolsonaro e Careca do INSS, contador está preso
Preso desde dezembro de 2025, Alexandre Caetano dos Reis foi sócio do Careca do INSS, em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal no Caribe.
O e-mail da Voga consta nas notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro, evidência da prestação de serviços contábeis ao senador revelada pelo Metrópoles.
Como mostra a investigação da Polícia Federal, Alexandre atuou como contador de diferentes empresas vinculadas ao Careca do INSS e tinha acesso a planilhas internas, documentos estratégicos e operações financeiras consideradas sensíveis pelos investigadores.
Outra conexão de Flávio Bolsonaro com personagens investigados no escândalo do INSS se chama Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador. Ela é irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis.
Em entrevista à Agência Pública, em 30 junho de 2022, Letícia afirmou que chegou ao escritório de Flávio por indicação de Willer Tomaz, amigo do senador e advogado que também foi alvo da Operação Sem Desconto.
Willer Tomaz tem procuração nos autos da investigação sobre os desvios no INSS para defender Alexandre Caetano dos Reis.
Carlos Bolsonaro também é sócio da empresa de capacetes
Além de Flávio, o filho 01 de Jair, o ex-vereador Carlos Bolsonaro, o 02,também aparece na sociedade do negócio. Ele disputa uma vaga ao Senado pelo PL no estado de Santa Catarina.
Há outros três sócios na Bravo Grafeno. Entre eles, está o empresário Pedro Luiz Dias Leite, que foi sócio do ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro, Marcello de Oliveira Lopes, na empresa Bitts Tecnologia, Consultoria Empresarial e Comunicação, encerrada em agosto do ano passado.
Marcelão, como é conhecido nos bastidores de Brasília, enviou R$ 1 milhão à produtora Go UP, do filme Dark Horse, em dezembro de 2025, conforme inquérito da Polícia Federal. “Eu sou investidor do filme, é uma natureza totalmente empresarial. Tudo certinho, legal. Não houve repasse, houve investimento”, disse em resposta à coluna de Malu Gaspar, do jornal O Globo. O ICL Notícias tenta contato com ele.
No quadro societário da empresa de capacetes, surge também o nome do personal trainer Paulo Giordano Bernardi e o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que foi investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Procurados, os dois, assim como Carlos Bolsonaro, não retornaram às tentativas de contato.
As informações sobre sócios e endereço em que a Bravo Grafeno foi registrada constam em base de dados pública da Receita Federal.
A rede de empresas do Careca do INSS na Sala 2601
A concentração de empresas do Careca do INSS na Sala 2601 chama atenção também pela forma como elas foram criadas. Levantamento feito pela reportagem encontrou ao menos 16 empresas ligadas a Antonio Carlos Camilo Antunes registradas no mesmo endereço cadastral da Bravo Grafeno. Algumas foram baixadas após as investigações.
O grupo reunia empresas de consultoria, construção, incorporação, comércio, locação de veículos e até um call center.
A Sala 2601 também aparece como endereço de empresas diretamente relacionadas à movimentação do dinheiro investigado no escândalo do INSS.
É o caso da Prospect Consultoria Empresarial, uma das principais empresas de Antunes. Segundo o relatório final da CPMI, a Prospect recebeu R$ 204,2 milhões de nove entidades investigadas, incluindo R$ 115,9 milhões da Unaspub, R$ 27,1 milhões da Ambec e R$ 19,8 milhões da CBPA. Documentos da comissão registram como endereço da empresa justamente a QS 1, Rua 212, lotes 19, 21 e 23, Sala 2601.
Oito delas foram fundadas exatamente no mesmo dia: 5 de outubro de 2023 e uma, a RPLD Construtora e Incorporadora, apenas um mês depois do registro da Bravo.
O Careca do INSS atuava junto às entidades que tinham autorização para descontar mensalidades diretamente dos benefícios e, segundo a investigação, recebia milhões dessas associações por meio de sua rede de empresas. O dinheiro circulava entre diferentes CNPJs e era usado, entre outras finalidades investigadas, para aquisição de patrimônio e pagamentos a pessoas ligadas ao grupo. Ele também atuava nos bastidores do INSS em defesa dos interesses dessas entidades.
A jornalista Amanda Rossi explica como Karina Gama, dona da produtora de Dark Horse, exercia um 'papel central' na trama de desvio de emendas e lavagem de dinheiro.
Um organograma que aparece no inquérito de Dark Horse da Polícia Civil de São Paulo identifica uma pessoa chamada Mario como sócia da produtora do longa sobre Jair Bolsonaro (PL), a Go Up, nos Estados Unidos.
A investigação veio à tona agora, porque Mendonça levantou o sigilo de 15 procedimentos envolvendo o caso do Banco Master que estão sob sua relatoria, após solicitação feita pelo presidente da Corte, ministro Edson Fachin.
O caso Dark Horse continua sob sigilo, pois ainda está em caráter preparatório para eventuais diligências investigativas.
Por Cleber Lourenço, Juliana Dal Piva e Paulo Motoryn
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado pela Polícia Federal em um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação foi autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho, após pedido da PF e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A apuração mira a participação de Flávio na obtenção e cobrança de recursos junto a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A PF encontrou no celular do banqueiro mensagens, ligações e registros de encontros que, segundo os investigadores, mostram o senador atuando diretamente nas tratativas para financiar a produção.
O inquérito específico sobre “Dark Horse” corre sob sigilo. Sua existência e parte dos elementos que levaram à abertura da investigação vieram à tona após Mendonça retirar o sigilo de outros procedimentos relacionados ao caso Master.
A PF pediu formalmente a abertura da apuração em 8 de julho. No documento enviado ao STF, os investigadores afirmaram que pretendiam apurar a eventual prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento internacional do filme, com “possível participação” de Flávio.
Paulo Gonet deu aval ao pedido em 21 de julho. O procurador-geral afirmou haver “indícios consistentes” das condutas narradas e considerou necessário aprofundar hipóteses que envolvem potencialmente corrupção passiva, corrupção ativa, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
No dia seguinte, Mendonça autorizou a abertura do inquérito. A investigação foi formalmente aberta pela PF em 23 de julho.
O que a PF investiga
A suspeita de lavagem de dinheiro está relacionada ao possível uso de empresas e de um fundo no exterior para ocultar ou dissimular a origem, a movimentação ou o destino dos valores usados no financiamento.
A hipótese de evasão de divisas será investigada para saber se houve remessas internacionais com declaração falsa, uso de intermediários, falta de identificação adequada dos beneficiários finais ou finalidade econômica diferente daquela declarada.
No caso da corrupção, a questão central é outra: saber se os aportes foram solicitados, oferecidos, prometidos ou recebidos em razão da função pública exercida por algum dos envolvidos ou como forma de vantagem indevida. A PF também mencionou preliminarmente a possibilidade de organização criminosa e outros delitos que possam surgir durante a investigação.
Os enquadramentos são preliminares. A abertura do inquérito não significa que Flávio tenha cometido esses crimes, mas que a PF recebeu autorização do STF para aprofundar os indícios e verificar se as suspeitas se confirmam.
Flávio aparece como interlocutor direto de Vorcaro
A representação da PF dedica um capítulo inteiro aos “indícios de participação” de Flávio na viabilização e cobrança dos aportes para “Dark Horse”.
Os investigadores afirmam que dados extraídos do celular de Vorcaro mostram o senador participando de tratativas relacionadas ao financiamento.
Os contatos remontam a dezembro de 2024. Naquele mês, Thiago Miranda Silva procurou Vorcaro para marcar uma reunião com Flávio e informou que um dos assuntos seria o “filme do presidente”. O encontro foi agendado para 11 de dezembro. Mário Frias (PL-SP) também participaria da reunião por ser apontado como idealizador do projeto.
Em janeiro de 2025, aparecem cobranças pelo primeiro aporte. A partir de agosto, segundo a PF, a comunicação passa a ocorrer diretamente entre Flávio e Vorcaro.
Em 20 de agosto, mensagens indicam um provável encontro presencial. Vorcaro informou o horário e Flávio respondeu que estava “a caminho”.
Ligação coincide com remessa para fundo nos EUA
Em 8 de setembro de 2025, Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando pagamentos do filme. O senador demonstrou preocupação com o risco de a produção ficar inadimplente com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e afirmou que tentaria resolver a situação.
Uma semana depois, Thiago Miranda informou ao banqueiro que Flávio queria encontrá-lo pessoalmente para mostrar o que estava sendo gravado.
No dia seguinte, 16 de setembro, houve uma ligação entre Flávio e Vorcaro. A PF destaca que o contato coincidiu com a última remessa identificada da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos utilizado no financiamento de “Dark Horse”.
A coincidência temporal é apontada pelos investigadores como elemento relevante, mas não demonstra, isoladamente, que a conversa tenha provocado a transferência.
A PF identificou US$ 12,33 milhões enviados pela Entre Investimentos ao Havengate ao longo de 2025. Já o acordo de financiamento localizado nas comunicações de Vorcaro previa um investimento total de US$ 24 milhões. Os valores das parcelas estabelecidas no documento eram semelhantes aos encontrados nas remessas internacionais.
“Estou e estarei contigo sempre”
Os contatos entre Flávio e Vorcaro continuaram.
Em outubro, o senador voltou a cobrar os aportes e disse que a produção estava “no limite”. Flávio afirmou que, se Vorcaro não conseguisse fazer o pagamento, precisaria avisá-lo para que encontrasse outra saída com urgência. Também convidou o banqueiro para jantar com o ator principal e o diretor do filme.
Em 7 de novembro, Flávio enviou um vídeo a Vorcaro e afirmou, segundo a PF, que aquilo somente estaria acontecendo graças à ajuda dele.
O último contato destacado pelos investigadores ocorreu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro. Flávio tentou telefonar para o banqueiro e depois escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
Ao analisar esse episódio, Gonet afirmou que Vorcaro teria obtido uma possível “promessa de apoio ou interferências do próprio Senador”. O procurador-geral ponderou, porém, que ainda era necessário encontrar eventual ato praticado no exercício do mandato que pudesse estabelecer uma relação entre o financiamento e a atuação parlamentar de Flávio.
A PGR pediu, por isso, que fossem levantadas propostas legislativas apresentadas ou apoiadas pelo senador que pudessem ser de interesse do Banco Master, de empresas vinculadas à instituição ou de Vorcaro. Também sugeriu uma busca completa nos celulares e computadores já apreendidos pela PF no caso Master e em investigações relacionadas para localizar referências a Flávio. Os documentos conhecidos até agora não apontam um ato parlamentar específico praticado por Flávio em benefício de Vorcaro. Esse é um dos pontos que o inquérito pretende esclarecer.
Para a PF, porém, os elementos já reunidos mostram que Flávio não aparece apenas como alguém mencionado por terceiros. Os investigadores o classificam como “interlocutor direto” de Vorcaro nas tratativas sobre o financiamento, com cobranças de pagamentos, reuniões e acompanhamento das gravações. A investigação pretende esclarecer seu papel na estruturação, cobrança, execução e destinação dos aportes.
Flávio admite que procurou Vorcaro para obter recursos para “Dark Horse”, mas nega irregularidades. O senador afirma que buscava financiamento privado para uma produção privada sobre seu pai, que não houve dinheiro público e que não ofereceu vantagens ao banqueiro em troca dos aportes.