quinta-feira, 23 de abril de 2026

O que Tucker Carlson (ex-super apoiador midiático conservador do laranjão) revelou sobre Trump que a mídia está escondendo 😱 🇺🇸

    
    Tucker Carlson, a voz mais poderosa da mídia conservadora americana, fez uma confissão chocante em seu podcast que pode representar o início do fim do trumpismo. Ele disse que está "atormentado" por ter ajudado Trump a voltar à Casa Branca, pediu desculpas por ter "enganado as pessoas" e admitiu: "estamos implicados nisso, com certeza".

Do Canal Canadá Diário:




O MAIOR ALIADO DE TRUMP ACABOU DE PEDIR PERDÃO AO MUNDO. Tucker Carlson, a voz mais poderosa da mídia conservadora americana, fez uma confissão chocante em seu podcast que pode representar o início do fim do trumpismo. Ele disse que está "atormentado" por ter ajudado Trump a voltar à Casa Branca, pediu desculpas por ter "enganado as pessoas" e admitiu: "estamos implicados nisso, com certeza". Neste vídeo, eu vou mostrar tudo o que Tucker Carlson revelou sobre a guerra no Irã que Trump iniciou ao lado de Israel, as conexões sombrias com o caso Jeffrey Epstein que a administração Trump tentou esconder, e o momento exato em que Carlson percebeu que havia ajudado a colocar um homem moralmente falido no poder. O que motivou essa reviravolta histórica? Quais são as duas grandes traições que fizeram Carlson se voltar contra a própria criatura que ajudou a criar? E o mais importante: isso realmente significa o fim político de Donald Trump? Eu analiso as declarações completas de Tucker Carlson, as reações patéticas de Trump chamando o ex-aliado de "QI baixo", as revelações explosivas sobre o arsenal nuclear que Carlson pediu para os militares impedirem Trump de usar, e o que os especialistas da imprensa internacional estão dizendo sobre esse terremoto político. Prepare o pipoca porque a história que você vai ver agora é o maior escândalo de traição política dos últimos anos. O castelo de cartas de Trump está desmoronando por dentro, e a confissão veio da boca do maior aliado que ele já teve.

A síndrome da sociedade do reconhecimento facial, por Fábio Ribeiro

 

Atributo pessoal indistinguível, o rosto é objeto de proteção legal. Ninguém pode usar o rosto de outra pessoa para obter lucro.

Do Jornal GGN:

    Imagem gerada por IA

por Fábio de Oliveira Ribeiro

É natural das pessoas temerem a feiura, porque ela infelizmente é fonte de zombarias, discriminação social e em alguma casos isolamento forçado. A feiura algumas vezes é equiparada a um defeito moral ou mesmo indício lombrosiano de criminalidade inata. Outras vezes é a beleza que esconde e feiura moral e a criminosa. Mas mesmo quando uma pessoa feia é virtuosa, a situação dela não melhora porque no mundo fenomênico a aparência é a essência do ser.

O rosto cola à pessoa. Através das características dela a pessoa é conhecida pelas demais, exceto pelas pessoas que tem uma doença rara que as impede de distinguir as faces das pessoas para reconhecer cada uma delas.

Atributo pessoal indistinguível, o rosto é objeto de proteção legal. Ninguém pode usar o rosto de outra pessoa para obter lucro, muito embora as Big Techs façam isso diariamente com uma naturalidade imensa. O que permite essa exceção é a autorização que as próprias pessoas dão para as Big Techs ao compartilhar suas fotos pessoais.

Num passado distante essas fotos foram usadas para treinar sistemas de reconhecimento facial. A princípio isso parecia uma boa ideia. Depois as pessoas começaram a perceber que era perigoso permitir que empresas privadas e Estados utilizassem esses recursos tecnológicos. Mas a verdade é que o reconhecimento facial continuou a se espalhar por todas as grandes cidades e depois delas ele se propagou para as cidades pequenas. Essa tecnologia se tornou uma realidade onipresente e em algum momento ninguém mais conseguia ficar em casa ou sair na rua sem ser “visto” por diversos sistemas de vigilância privados e públicos.

Em alguns países existir social e economicamente significava ser facialmente reconhecível. Ser designado como “não reconhecível” pelo sistema, uma punição administrativa comum algumas vezes imposta para delitos civis e crimes leves, outras vezes uma consequência automática da falta de dinheiro no banco ou cancelamento do crédito bancário, significava ser rebaixado à condição de não pessoa. Isso porque a pessoa não podia fazer nada, nem mesmo comprar passagem de trem ou de avião ou mesmo pagar pelo almoço num restaurante barato.

Num mundo em que o rosto diz quem você é, em tese não faria diferença ser feio ou bonito. O sistema de reconhecimento facial não faz valorações estéticas, ele apenas liga uma pessoa particular ao conjunto de dados que a representa num data center privado ou no data center estatal.

Os primeiros lugares imaginados dessa forma foram o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, da Divina Comédia de Dante, porque o Deus que vê tudo em todos os lugares e em todos os momentos distribui punições e recompensas de acordo com os vícios e as virtudes. Ele não precisa ponderar cada decisão porque o sistema da vida após a morte foi, de certa forma, programado, como dizemos hoje, para funcionar corretamente, reconhecendo cada indivíduo e enviando-o ao lugar que lhe cabe. Na Comédia de Dante, o reconhecimento é total, ontológico, não apenas facial. O inferno de um sistema político real baseado em reconhecimento facial é o rosto que é computado erroneamente por algum motivo, o rosto que foi modificado e não pode ser computado e, claro, a adulteração não autorizada do banco de dados.

Nesse contexto, era natural que os cirurgiões plásticos fossem rigorosamente monitorados. Afinal, em razão de suas habilidades eles podiam interferir no funcionamento do sistema fazendo-o reconhecer como a pessoa A pobre como outra pessoa, a pessoa B rica por exemplo. Eles eram obrigados a documentar fotograficamente todas as pessoas que atendiam antes e depois da cirurgia. Tudo era depois agregado ao banco de dados oficial, para que a pessoa operada A com novo rosto fosse reconhecido como a pessoa A em qualquer lugar. As modificações feitas no sistema público de reconhecimento facial eram imediatamente repassadas aos sistemas privados, para que a pessoas não sofresse algum tipo de constrangimento.

Todavia, sempre que um sistema político ou econômico, ou mesmo tecnológico, coloca nas mãos de alguém um poder excepcional as possibilidades de fraude criminosa se tornaram uma realidade. Cirurgiões plásticos gananciosos começaram a trabalhar para quadrilhas de modificação de personalidade e dando origem à criação do Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes.

Esses caras eram especialistas na arte do disfarce, da infiltração, do hackeamento de computadores e é claro monitoravam todas as clínicas de cirurgia plástica com bugs. Os cirurgiões plásticos sabiam da existência do Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes então eles não cometiam crimes nos seus locais de trabalho. Aqueles que prestavam serviços às quadrilhas trabalhavam em consultórios improvisados, geralmente instalados em favelas miseráveis.

Para ser honesto, é preciso lembrar que nem sempre o trabalho desses cirurgiões visava lucro. Alguns deles cometiam crimes por razões políticas, porque existiam lutadores da liberdade que lutavam pelo fim da opressão facial. Mas nas sociedades dominadas de cima a baixo pelo reconhecimento facial a resistência política significava imediato banimento do sistema, um tipo de exclusão que se tornava permanente e lembrado em qualquer lugar a qualquer momento sempre que o rosto do dissidente fosse visto por uma câmera.

Pessoas desesperadas as vezes mutilavam seus rostos simulando acidentes apenas para não serem reconhecidos. Esses casos não eram tratados pelo Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Crimes Faciais, mas pela polícia comum. Sempre que o sistema identificava uma face desfigurada por cicatrizes recentes que não podia ser atribuída a alguém o sistema gerava um alerta. E, então os policiais comuns iam palmilhar onde aquele rosto mutilado havia sido marcado como “irreconhecível, mas sem dados computáveis”. A pessoa era então apreendida, identificada por outros meios e o novo rosto dela era acrescentado ao banco de dados. Os casos de reincidência eram sempre dramáticos, os de tatuagens feitos no rosto despertavam grande suspeita.

Assim como os cirurgiões, os tatuadores também eram vigiados de perto Esquadrão Policial Especial de Prevenção e Repressão dos Face Crimes. Tatuar rostos era estritamente proibido, exceto se a pessoa conseguisse uma autorização judicial prévia. Caso em que o procedimento todo no consultório do tatuador era semelhante ao dos cirurgiões plásticos. O sistema tecnológico-político, econômico e social tinha horror à apenas duas coisas: os casos de “erros de reconhecimento facial por falsificação causada mediante cirurgia plástica” e os casos de “irreconhecível, mas sem dados computáveis”.

O Código Penal de uma sociedade inevitavelmente refletirá as necessidades impostas pela tecnologia que predomina e permite a validação de todos os atos públicos e privados. Mutilação do próprio rosto ou do rosto de outrem será crime grave: 10 anos de prisão. Apropriar-se da identidade facial de alguém por meio de cirurgia plástica não autorizada será crime gravíssimo: 20 anos de prisão. Operar o rosto de alguém ou tatuá-lo sem autorização: 10 anos de prisão, cassação da licença profissional e, em última instância, indenização equivalente ao dano causado. Alterar maliciosamente bancos de dados faciais: 15 anos de prisão e amputação de dedos. Danificar ou destruir câmeras instaladas em locais públicos ou abertos ao público: 2 a 3 anos de prisão, dependendo da importância estratégica do local para a polícia, além da perda dos dados faciais computáveis ​​pelo dobro da pena. O uso de máscaras é proibido: multa de US$ 10.000. Usar máscara com o rosto de outra pessoa: 4 anos de prisão. Lembre-se, cidadão: seu rosto não lhe pertence, ele pertence ao sistema.

Usar máscaras era proibido, pena de multa de 10 mil dólares. Usar máscaras com o rosto de outra pessoa podia causar prisão por 10 anos. Em situações excepcionais (baile de máscara, carnaval), poderia haver dispensa da obrigação de não usar máscara. Mas nesses casos todas as pessoas eram reconhecidas facialmente antes e depois do evento e qualquer discrepância nos dados era imediatamente resolvida, sendo que a pena nesses casos era em dobro porque havia ocorrido má-fé para com a generosidade do estado que permitiu o uso recreativo de máscaras em ambientes livres de reconhecimento facial por tempo determinado.

Ser dono da própria face era motivo de orgulho no passado. Não ser dono dela por algum tempo no presente se tornou uma necessidade psicológica, então esses eventos (bailes de máscara e carnaval) se tornaram muito importantes. Talvez até mais importantes do que havia sido.

Nas sociedades do reconhecimento facial, os espiões eram agentes estatais com dispensa parcial ou total de reconhecimento facial. Assim eles podiam não ser vistos onde deveriam estar. E raramente eles eram reconhecidos pelas outras pessoas, porque de fato as habilidades naturais de reconhecimento facial haviam declinado desde que essa atividade passou a ser ostensivamente realizada por câmeras conectadas de alguma maneira aos data centes oficiais e privados.

O espião era um criminoso com liberdade para matar seu próprio rosto no sistema. Ele poderia até matar o rosto de alguém temporariamente, desde que isso se tornasse indispensável ao que ele havia designado para fazer. Esse grande poder não vinha sem um fardo: o espião que usasse mal seu acesso ao sistema de reconhecimento facial não perdia apenas o emprego. Ele geralmente perdia a vida também. Não, ele não era fuzilado. Ele apenas passava a ser reconhecido como alguém eternamente indesejável pelo sistema.

Nesse ponto o leitor deve estar se perguntando quando a história vai começar e quem são os personagens dela. Todavia, a história chegou ao fim porque o personagem dela foi delineado de maneira consistente.

Em um sistema de vigilância total, onde o reconhecimento facial é a regra e há câmeras por toda parte, ninguém consegue escapar de ser visto pelo sistema o tempo todo, pois o acesso ou a negação de acesso a produtos e serviços depende disso. Rebeldes e revolucionários nessa sociedade são hackers ou simplesmente candidatos a punições automatizadas.

Ninguém escapa de ser visto, mas alguém vestindo uma fantasia tipo Homem-Aranha, de corpo inteiro, incluindo a cabeça, feita de tecido espelhado, seria um “rosto não computável”. Algo que se assemelhe a um ser humano com um “rosto não computável” pode disparar alarmes no sistema, mas se um hacker alterasse a rotina para que o “rosto não computável” detectado fosse considerado irrelevante e descartável, o revolucionário vestido dessa forma seria o homem invisível. Ele seria visto por outras pessoas, mas o sistema não o veria.

Esse criminoso perigoso pode fazer qualquer coisa sem ser identificado, processado, condenado e preso. Vestindo sua fantasia de corpo inteiro feita de tecido espelhado, ele será algo que existe muito além da capacidade do sistema de identificá-lo. Ele está vivo, mas é um fantasma computacional. Ele não é invisível, mas não pode ser visto pelas câmeras. O status ontológico do “rosto não computável” é distinto de qualquer coisa já concebida ou imaginada por qualquer escritor. Ele sem dúvida terá uma vida dupla, mas uma de suas vidas será paradoxalmente notável justamente porque ele não tem rosto.

O deus de Dante vê tudo e todos o tempo todo, em todos os lugares, mas um poderoso sistema de reconhecimento facial não é Deus. Ele é cegado pelo terrível homem invisível com um “rosto não computável”.

Dinanzi a me no fuor cose create
se non eterne, e io eterna Duro.
Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate
Nell’inferno del riconoscimento facciale,
solo chi non può mai essere visto è al sicuro.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Flávio Bolsonaro: o herdeiro do caos, por Lindener Pareto Jr.

 

E Flávio Bolsonaro, o filho mais velho, supostamente mais "sério" e menos falastrão que os demais - agora repaginado como presidenciável - esteve ao lado do pai em cada passo dessa jornada

Do ICL:


Por Lindener Pareto Jr.

Como nos lembra Chico Alves – em coluna neste portal – há algo de profundamente assombroso na paisagem política brasileira quando nos deparamos com a imagem de Flávio Bolsonaro despontando como pré-candidato à Presidência da República em 2026. A cena evoca um teatro do absurdo, onde o ator principal, sorridente e empertigado, parece ter apagado de seu roteiro pessoal todas as nódoas de um passado recente e traumático. A candidatura do “01”, ungida pelas mãos de um pai inelegível, não é apenas um movimento político, é um ensaio sobre a amnésia coletiva que a extrema-direita – e seus amigos “isentões” do centrão – tenta impor ao país.

Flávio apresenta-se ao eleitorado como uma tábula rasa, uma figura limpa e desvencilhada dos escombros deixados pelo governo de Jair Bolsonaro. Faz vídeos sobre o amor que tem pela família, pelas filhas, pela esposa dedicada, chora, faz jogo de cena, é patriota e cidadão de bem. Contudo, a memória nacional não pode ser tratada como um arquivo corrompido que se apaga com um simples comando. A trajetória do senador fluminense está umbilicalmente ligada às páginas mais sombrias da crônica policial e política do Brasil contemporâneo. Como esquecer o escândalo das “rachadinhas”, aquele esquema paroquial de desvio de salários de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj)? A figura de Fabrício Queiroz, o ex-assessor e faz-tudo que movimentou quantias incompatíveis com seus rendimentos, permanece como um espectro insepulto a assombrar a narrativa de probidade do clã.

O caso Queiroz não foi um mero desvio de conduta administrativa, foi a porta de entrada para o submundo das relações perigosas da família Bolsonaro. A investigação revelou que a mãe e a esposa do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe do grupo de extermínio “Escritório do Crime”, estiveram lotadas no gabinete de Flávio na Alerj. A intimidade com as milícias do Rio de Janeiro, grupos paramilitares que aterrorizam comunidades sob o pretexto de oferecer segurança, é uma mancha indelével na biografia do candidato. A prisão de Queiroz na casa do advogado da família, Frederick Wassef, coroou um enredo de compadrio e proteção mútua que desafia qualquer pretensão republicana.

A blindagem jurídica que salvou o Flávio Bolsonaro das garras da Justiça, através de decisões controversas de tribunais superiores que anularam provas cruciais, não apaga os fatos políticos. Apenas ilustra as fraturas do sistema de responsabilização brasileiro, onde o poder e a influência frequentemente superam as evidências. É munido dessa impunidade que Flávio ousa alçar voos mais altos, não ignorando o legado desastroso de seu pai, pelo contrário, surfando no próprio desastre, mas desta feita sem leite condensado e comendo com garfo e faca. Como lembrou a própria esposa, Fernanda, o “01” é o Bolsonaro vacinado. E é aí que mora o perigo. O Senador Flávio Bolsonaro sabe jogar o jogo e sabe cumprir os ritos do cargo. Vale dizer, ele é a “menina dos olhos” de um centrão e de uma extrema-direita que não vê a hora de entregar de vez o Brasil para a gringa, diga-se, para a sanha atroz do império americano de Donald Trump. E fará tudo isso com o devido tom de solenidade, como se fosse um grande nacionalista e libertador do Brasil.

Lembremos. O governo de Jair Bolsonaro foi um experimento de destruição institucional em larga escala. A gestão da pandemia de Covid-19, marcada pelo negacionismo científico e pela sabotagem de medidas de contenção, resultou em uma tragédia humanitária sem precedentes na história do país. O meio ambiente foi tratado como um estorvo, com o desmonte de órgãos de fiscalização e o avanço predatório sobre a Amazônia e os povos indígenas. A diplomacia brasileira, outrora respeitada, foi reduzida a um alinhamento ideológico tacanho e isolacionista, com Ernesto Araújo abraçado ao pútrido cadáver das ideias de Olavo de Carvalho.

Mas a obra máxima do bolsonarismo foi o ataque sistemático e metódico à nossa quase sempre mambembe democracia. Durante quatro anos, o país foi submetido a uma retórica golpista diária, com ameaças veladas e explícitas às instituições, em especial ao Supremo Tribunal Federal e ao sistema eleitoral. O ápice dessa razão autoritária materializou-se no dia 8 de janeiro de 2023, quando hordas de extremistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. A intentona golpista, alimentada pela recusa em aceitar o resultado das urnas, foi o epílogo previsível de um projeto de poder que sempre flertou com a ruptura.

E Flávio Bolsonaro, o filho mais velho, supostamente mais “sério” e menos falastrão que os demais – agora repaginado como presidenciável – esteve ao lado do pai em cada passo dessa jornada de destruição. Sua candidatura é a continuidade do caos, é manter viva a bílis cruenta de um movimento que se nutre do ressentimento, da desinformação, da política da morte e do enfraquecimento do Estado de Direito. Aceitar a normalidade dessa postulação é condescender com o apagamento da História e validar a impunidade como método político. Não há desculpas que bastem. Com Flávio Bolsonaro no poder, adeus universidades, adeus imprensa “livre”, adeus toda forma aberta e democrática de manifestação. Mais do que o pai, Flávio sabe corroer as instituições democráticas com a mesma desfaçatez e “pantomima” de um Collor, mas sem o compromisso de negociar com as elites quatrocentonas de sempre. Uma vez no poder, algo muito pior e sombrio tomará de assalto a nossa tantas vezes triste e achincalhada nação.

ICL: Plano econômico de Flávio Bolsonaro repete o de Milei e mira aposentadorias, enfraquecendo a proteção social para agradar a Faria Lima e os EUA

 

Do ICL:

Para agradar a Faria Lima, propostas do filho de Bolsonaro ameaçam direitos dos trabalhadores


As primeiras sinalizações da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para a área econômica já demonstram que a população mais vulnerável terá que pagar a conta para que a Faria Lima fique satisfeita. Embora ainda não haja um plano formal apresentado, declarações de aliados e integrantes da equipe indicam que o caminho pretendido pode envolver cortes relevantes em gastos sociais e mudanças estruturais que afetam diretamente aposentados, trabalhadores e serviços públicos.

O coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), afirmou recentemente que o modelo atual “está estourando” e defendeu a necessidade de revisitar tanto a Previdência quanto a legislação trabalhista. A fala, no entanto, deixa clara a intenção da retomada de reformas que podem reduzir direitos, especialmente em um contexto de alta vulnerabilidade social.

Nos bastidores, a equipe econômica trabalha com um ajuste fiscal inicial de cerca de 2% do PIB. Embora apresentado como um “recado ao mercado”, economistas apontam que esse tipo de estratégia costuma vir acompanhado de medidas que recaem de forma desproporcional sobre a população de menor renda.

Entre as propostas em discussão estão:

  • Desvinculação de gastos com saúde e educação dos pisos constitucionais, o que, na prática, pode limitar o crescimento real de investimentos nessas áreas essenciais;
  • Mudanças na política do salário mínimo, separando os reajustes reais dos benefícios previdenciários e assistenciais;
  • Revisão das regras da Previdência, incluindo possíveis alterações na forma como os benefícios são corrigidos.

Na prática, essas medidas abririam espaço para que aposentadorias e benefícios sociais fossem reajustados apenas pela inflação — sem ganhos reais — o que pode significar perda gradual de poder de compra ao longo do tempo.

Plano de Flávio Bolsonaro traz risco para aposentados e serviços públicos

Os impactos potenciais são significativos. Hoje, cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem até um salário mínimo. Qualquer mudança na regra de reajuste pode afetar diretamente milhões de brasileiros que dependem desses recursos para despesas básicas.

Especialistas também destacam que a política de valorização do salário mínimo, adotada pelo governo Lula, teve papel importante na redução da pobreza e na dinamização da economia. Alterar essa lógica pode ter efeitos negativos tanto no consumo quanto na distribuição de renda.

Além disso, a proposta de desvincular investimentos mínimos em saúde e educação levanta preocupações sobre o sucateamento progressivo desses serviços, especialmente em um país marcado por desigualdades regionais e sociais.

Hoje, despesas com saúde estão condicionadas a um mínimo constitucional de 15% da receita corrente líquida (RCL); o mesmo na educação em relação aos atuais 18% da receita líquida de impostos (RLI).

Discurso de austeridade de Flávio Bolsonaro não inclui taxação de super-ricos

Outro ponto que chama atenção é a forma como o debate fiscal tem sido conduzido. Enquanto se discutem cortes em despesas sociais, o partido de Flávio Bolsonaro atuou contra propostas de aumento de arrecadação, como a tributação mínima sobre rendas mais altas — medida que atingiria uma parcela muito pequena da população de maior renda.

Essa postura evidencia uma assimetria nas prioridades, em que o ajuste das contas públicas recai mais sobre o corte de gastos do que sobre a ampliação de receitas de quem pode pagar mais.

As sinalizações feitas até agora são vistas como um aceno ao mercado financeiro, que há anos pressiona por contenção de gastos obrigatórios. Ao mesmo tempo, a campanha evita detalhar publicamente as propostas, em uma estratégia para reduzir desgaste político em meio à disputa eleitoral.

A cautela não é à toa: medidas que envolvem cortes em benefícios, mudanças na Previdência e redução de investimentos sociais costumam enfrentar forte resistência da população.

Com série de ações na Justiça, Flávio Bolsonaro (o dito "democrático" à favor da total liberdade de expressão) tenta intimidar críticos das redes sociais

 

No meio jurídico, iniciativa é interpretada como possível prática de assédio judicial

Do ICL:


Por Gabriel Gomes

O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem movido, nos últimos meses, uma série de ações judiciais com pedidos de indenização elevados contra internautas que publicam críticas a seu respeito nas redes sociais.

No meio jurídico, a iniciativa é interpretada como possível prática de assédio judicial, estratégia caracterizada pelo uso reiterado do sistema de Justiça para constranger, intimidar e impor custos financeiros a críticos, com o objetivo de gerar efeito inibidor e desestimular novas manifestações.

“Acredito que seja uma tentativa de intimidar críticas. Os valores pedidos são muito desproporcionais, mesmo quando se trata de pessoas que não têm grande alcance, que não são figuras públicas. Principalmente pelo valor elevado e pela repetição desse padrão nos processos, parece sim uma estratégia de intimidação para desencorajar críticas”, explica o advogado Marcelo Lopes, que atua na defesa de uma das pessoas processadas por Flávio Bolsonaro.

Ações de Flávio Bolsonaro contra críticos na Justiça

Desde fevereiro, o pré-candidato já moveu cinco processos nesse sentido apenas na Justiça de Brasília. Um dos alvos é o aposentado William Andrade, de Niterói, no Rio de Janeiro. Em fevereiro deste ano, William compartilhou, na rede social X, uma matéria da revista Fórum que noticiava denúncia do deputado Rogerio Correia (PT-MG) de que Flávio Bolsonaro teria oferecido R$ 5 milhões para um depoente ir contra o presidente Lula (PT) na CPMI do INSS.

No post, William se refere a Flávio como “lavador de dinheiro, miliciano e ladrão”. “5 milhões não é nada para esse criminoso”, escreveu. Flávio, então, processou o aposentado por violação moral e dano moral praticado na internet, com pedido de indenização de R$ 61 mil e a remoção do post.

“O que me surpreendeu é que esse tipo de comentário é muito comum nas redes sociais. Basta abrir qualquer postagem dele que você vê várias pessoas falando coisas semelhantes. E, mesmo assim, o processo veio contra mim”, diz William.

“A impressão que eu tenho é que o objetivo é intimidar, calar militantes e eleitores. E, de certa forma, isso funciona. Eu mesmo passei a ter mais cuidado com o que posto para não prejudicar minha defesa. Mas não deixei de me posicionar”, completou.

A liminar de Flávio pedindo a remoção da publicação foi negada em primeira e em segunda instâncias na Justiça de Brasília, que ainda não julgou o mérito da ação.

Flávio também processou três usuários da rede social X que compartilharam uma imagem gerada por Inteligência Artificial do senador ao lado de Daniel Vorcaro, do Banco Master, e Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. Um deles chamou o senador de “Flávio Rachadinha Bolsonaro”.

Xico Sá

“Gente phyna”

O jornalista Xico Sá, do ICL Notícias, também foi processado por escrever: ” A inesquecível festa de inauguração do Master. Só gente phyna, elegante e sincera”. Nesse caso, Flávio repete o pedido de indenização de R$ 61 mil a cada um dos alvos da ação.

“O motivo da ação foi que repostei [da conta do deputado Rogerio Correia] uma charge/cartum sobre o rolo do Master. Um conteúdo mais de humor que jornalístico”, explicou Xico Sá. “Pura tentativa de intimidação feita pela turma que se diz radicalmente a favor da liberdade de expressão”, reagiu.

Três páginas nas redes sociais Instagram, Threads e X também foram alvos de processos pela publicação de uma capa de revista falsa, gerada por Inteligência Artificial, do “InfoMoney”, em que Flávio teria afirmado que acabaria com o salário mínimo.

Um outro perfil foi processado por compartilhar a imagem de Flávio Bolsonaro com a suástica, símbolo associado ao nazismo.

Flávio também processou o deputado Rogerio Correia (PT-MG) por uma publicação com referências ao envolvimento de Flávio em uma disputa judicial sobre uma mansão de R$ 10 milhões na Ilha Comprida, Angra dos Reis, comprada pela empresa do jogador Richarlisson. O senador foi arrolado como testemunha no caso envolvendo seu amigo, o advogado Willer Tomaz.

“É incrível, grilagem de mansão, bem ao estilo milícia”, escreveu Rogerio Correia, que agora é alvo de Flávio na Justiça. O senador também pede indenização de R$ 61 mil.

O advogado Marcelo Lopes avalia que há uma contradição entre o discurso de liberdade de expressão propagado pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro e a prática de tentativa de intimidação de críticos com ações na Justiça.

“Ele frequentemente se coloca como defensor da liberdade de expressão, mas, na prática, aciona judicialmente pessoas que o criticam. Isso indica uma aplicação seletiva desse princípio, defendendo a liberdade de expressão em tese, mas restringindo quando as críticas são direcionadas a ele”, conclui.

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sábado, 18 de abril de 2026

Como a dita "grande mídia" empresarial hegemônica manipula a opinião pública sobre e contra a economia do governo Lula

 

Pesquisadora revela como veículos omitem e/ou distorcem resultados de políticas públicas para forçar cenário de crise no país visando influenciar os votos contra Lula e as esquerdas nas Eleições

Do Jornal GGN:

Como a mídia hegemônica manipula a opinião pública sobre a economia do governo Lula



    Foto: Ricardo Stuckert / PR


As estratégias midiáticas de manipulação da percepção econômica durante o governo Lula foi tema do programa Desinformação & Política, apresentado pela jornalista, pesquisadora e especialista em análise de discurso, Eliara Santana, na noite de sexta (18). A analista criticou o papel da grande imprensa na construção de narrativas que ignoram indicadores positivos do governo atual em favor de discursos sobre crise e inflação. Essa manipulação tem refletido em pesquisas de opinião com vistas às eleições de 2026, colocando Lula, pela primeira vez, numa disputa apertada no segundo turno, sendo ultrapassado numericamente por Flávio Bolsonaro, faltando seis meses para o pleito.

Na análise de Eliara Santana, o papel da mídia na construção da percepção econômica atual é o de uma construção estratégica da realidade, que muitas vezes não corresponde aos indicadores estatísticos reais. Essa percepção não é algo dado, mas sim “costurada” pelos meios de comunicação para influenciar a opinião pública.

Os principais mecanismos utilizados pela mídia são:

  • Atribuição de resultados à “sorte”: Quando os indicadores econômicos são positivos — como a queda sistemática do dólar, o aumento da renda ou o fato de o PIB brasileiro voltar à 10ª posição mundial — a mídia tende a atribuir esses avanços à sorte, e não às políticas públicas do governo Lula. Isso impede que a população estabeleça um “fio” de ligação entre as ações governamentais e a melhora em sua qualidade de vida.
  • Criação de “repertórios de crise”: A mídia utiliza subtemas específicos para ilustrar uma ideia constante de crise econômica. Um exemplo citado é a “inflação de alimentos”, tema usado para marcar a percepção de que os preços estão fora de controle, mesmo quando a inflação geral está dentro ou abaixo da meta.
  • Foco no negativo e omissão do positivo: O jornalismo destaca apenas aspectos negativos, como o endividamento das famílias, enquanto ignora ou minimiza medidas como a isenção de imposto de renda ou programas de refinanciamento de dívidas.
  • Manipulação da percepção para fins políticos: O que orienta o voto é a percepção da melhora de vida, e não o indicador econômico em si. Ao construir uma narrativa onde “2 + 2 = 5” (analogia ao livro 1984), a mídia consegue fazer com que 43% da população sinta que a economia piorou, apesar de indicadores que mostram o contrário.

Historicamente, diz Eliara Santana, esse comportamento da mídia hegemônica remete ao período que antecedeu o impeachment de 2016. Naquela época, mesmo com desemprego em queda e aeroportos lotados, a mídia teria construído um “repertório de crise econômica” e corrupção para manipular a opinião pública e legitimar a retirada do governo do poder. Atualmente, o mesmo movimento de “passar pano” para o bolsonarismo e atacar a gestão econômica atual persiste como uma forma de manter os interesses das elites.

O programa Desinformação & Política é transmitido no canal TV GGN, no Youtube, toda sexta-feira, às 18h. Neste episódio, Eliara Santana também abordou os impactos políticos e sociais no Brasil dez anos após o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff, estabelecendo uma conexão direta entre a deposição da ex-presidente, classificada como um golpe, e a ascensão do bolsonarismo, resultando no que a autora define como um retrocesso civilizatório. Além disso, a fonte denuncia a precarização do trabalho jornalístico e o descaso com a infraestrutura das estradas mineiras após um acidente fatal envolvendo dois profissionais da Band.

Assista abaixo:


Do Canadá Diário: LULA vira DESTAQUE em jornais ALEMÃES e ESPANHÓIS: 'TRUMP não foi eleito imperador do mundo' 😱 🇧🇷 🇺🇸

 

Do Canal Canadá Diário:

A imprensa internacional está em choque. A revista alemã Der Spiegel, um dos jornais mais influentes do mundo, destacou que o presidente Lula enfrentou o líder da maior economia global, Donald Trump, e saiu maior. O presidente brasileiro deu uma entrevista arrasadora publicada em 16 de abril de 2026, onde soltou a frase que já está correndo o mundo: "Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países com guerra o tempo todo." No dia seguinte, 17 de abril de 2026, o jornal espanhol El País publicou um editorial inteiro dedicado a Lula, intitulado "El ejemplo de Lula", chamando o presidente brasileiro de um dos líderes democráticos mais experientes do mundo e repetindo sua frase de efeito: "Trump não tem direito de se levantar pela manhã e ameaçar um país." Enquanto isso, Lula desembarcou em Barcelona para liderar a Global Progressive Mobilisation, a maior reunião da esquerda mundial, ao lado do primeiro ministro espanhol Pedro Sánchez. O evento reúne mais de 100 partidos progressistas de todo o planeta e mais de 3 mil pessoas para debater exatamente o tema principal: como enfrentar o avanço da extrema direita representada por Trump.



sexta-feira, 17 de abril de 2026

O casamento fracassado entre democracia e capitalismo, por Luis Felipe Miguel

 

A “crise da democracia”, hoje cantada em verso e prosa, não vem de hoje: vem de sempre.


Cinquenta anos de crise: o casamento fracassado entre democracia e capitalismo

por Luis Felipe Miguel - Jornal GGN

A revista Lua Nova acabou de publicar meu artigo “Cinquenta anos de crise: o casamento fracassado entre democracia e capitalismo”. Apresento aqui um resumo de partes dele, com o aparato acadêmico em grande medida limado.

Para a Ciência Política, o início da “crise da democracia” tem data e hora certas: 9 de novembro de 2016, às três da madrugada (no horário da Costa Leste dos Estados Unidos). Foi quando a contagem dos votos garantiu a Donald Trump a maioria de delegados no Colégio Eleitoral para se tornar o próximo presidente da maior potência mundial. Tratado como piada de mau gosto quando lançou sua candidatura às primárias do Partido Republicano, ao vencer ele mostrou que algo estava funcionando mal naquela que era considerada a democracia mais sólida do mundo. No mesmo momento, a ideia de que as democracias liberais estavam ameaçadas se tornou um tema dominante para jornalistas e cientistas políticos. Usando mais que uma pitada de ironia, Adam Przeworski escreveu, no início de seu livro intitulado precisamente Crise da democracia: “Se Trump tivesse perdido, muitas pessoas que estão agora correndo para escrever livros semelhantes a este, eu mesmo incluído, estariam ocupadas em outras atividades”.

Colocado dessa maneira, parece que a crise foi um acontecimento mais ou menos súbito, que colocou sob ameaça um regime que estava trabalhando a contento. No entanto, a percepção que as democracias liberais se tornavam disfuncionais é constante desde a década de 1970, retornando desde então em diferentes ondas. A “crise” parece ser, assim, o modo de operação normal das democracias ocidentais, um efeito necessário da acomodação entre um ordenamento político nominalmente democrático e uma estrutura econômica capitalista. A excepcionalidade a ser explicada é o breve período de bonança, quando, em alguma medida, em alguns lugares de mundo, o sistema parecia funcionar com reduzidas tensões – as três décadas chamadas, com exagero, de les trente glorieuses (os trinta gloriosos).

O ordenamento político que hoje é correntemente aceito como “democrático” foi o fruto de uma longa evolução, pela qual princípios liberais (como um governo aberto à competição e responsivo ao público) cederam às pressões por inclusão política de grupos dominados (a classe trabalhadora, as mulheres, as minorias étnico-raciais). Concretamente, ela evoluiu como um pacto interclassista em que os direitos políticos formais e as eleições competitivas permitiram à classe trabalhadora ter sua voz ouvida nos processos decisórios, mas a burguesia manteve um poder de veto, respeitado por todos ainda que apenas tácito, em relação a possíveis políticas anticapitalistas.

After the Marriage (1874) by Firs Sergeevich Zhuravlev, a dramatic realist painting portraying a young bride in a white wedding gown leaning despondently against a piece of ornate furniture. Her expression is anguished, with one hand covering her forehead and the other loosely holding a sprig of flowers. Her veil and gown are still on, suggesting the ceremony has just ended. An older man, possibly her new husband, stands in the doorway behind her, partially in shadow, watching her with a stern or resigned expression. The somber, richly decorated interior underscores the emotional weight and tension of the moment.
Firs Sergeenvich Zhuravlev, Depois do casamento (1874)

Fica claro que o sistema não depende de um consenso abstrato quanto às “regras do jogo”, como diz a Ciência Política convencional, mas da correlação de forças na sociedade. Precisa de uma classe trabalhadora com capacidade de pressão e de uma burguesia que entende que é necessário comprar a pacificação da sociedade para perpetuar sua própria dominação. Uma economia em expansão facilita a composição dos diversos interesses e, portanto, a estabilidade do arranjo.

Por isso, as três décadas de relativa estabilidade e prosperidade após o fim da Segunda Guerra Mundial são vistas como a época de ouro da democracia liberal. Altos índices de crescimento econômico combinavam-se com progressiva integração da classe trabalhadora à sociedade do consumo e aparente consenso sobre as estruturas básicas da sociedade. O capitalismo parecia capaz de regular a si mesmo e de minimizar algumas de suas principais contradições. Havia estabilidade política, com a disputa ocorrendo de forma relativamente tranquila, entre partidos que, não importa quais fossem os seus rótulos, compartilhavam desse compromisso básico.

O relato é esquemático e, claro, se refere à situação dos países capitalistas avançados. Na periferia do mundo capitalista, estes 30 anos pouco têm de gloriosos. Foram um período de ditaduras sangrentas, apoiadas pelas potências imperialistas, e de profunda concentração da riqueza.

Mesmo nos países centrais, a realidade correspondeu plenamente ao relato edulcorado dos “trinta gloriosos”. Formas de perseguição política ostensiva manchavam a democracia liberal onde ela existia, como as leis alemãs que vetavam a presença de pessoas de esquerda em cargos no sistema educacional. Nos Estados Unidos, além do macarthismo, nos anos 1950, havia a segregação racial e a violência sistemática perpetrada contra a população negra no Sul.

Ainda assim, a percepção dominante já na época é que se havia encontrado um modelo acertado e sustentável de organização política. A Ciência Política anglófona desenvolveu o tema por diferentes aspectos, mas sempre entendendo que a perda de dramaticidade das escolhas eleitorais, uma vez que as opções tinham compromisso com a manutenção do arranjo existente e diferiam apenas no acessório, era um ganho civilizatório a ser festejado.

As agitações de maio de 1968 serviram de alerta de que nem tudo funcionava tão bem. À rebelião juvenil juntaram-se setores importantes da classe trabalhadora e os movimentos feminista e negro, numa onda de protestos que tomou conta da Europa Ocidental e chegou não só aos Estados Unidos, mas também a países do bloco soviético, ao Japão, ao Brasil da ditadura empresarial-militar. Um sentimento comum era a ausência de autonomia, a ideia de que não se podia participar da definição do próprio destino. Por trás da acomodação e da apatia louvadas pela literatura que advogava uma democracia não participativa parecia se esconder uma sensação opressiva de impotência e de frustração.

A situação foi consideravelmente agravada pelas crises do capitalismo mundial no início dos anos 1970 – o fim do sistema de Bretton Woods em 1971, quando os Estados Unidos decidiram unilateralmente pelo fim da convertibilidade do dólar em ouro, e o primeiro choque do petróleo, em 1973, que quadruplicou o preço do barril. A era de ouro da democracia liberal estava chegando a seu fim.

Feitas as contas, essa época áurea durou apenas um punhado de anos, existiu em um punhado de países capitalistas desenvolvidos e, mesmo neles, nunca correspondeu perfeitamente à descrição de suas características. Ainda assim, a Ciência Política tende a apresentar o funcionamento “normal” da democracia liberal como aquele das três décadas de relativa estabilidade e prosperidade que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Todo o resto é crise, equívoco, desacerto.

A obra que inaugurou definitivamente a era da crise foi o relatório elaborado por Samuel Huntington e seus colegas para a Comissão Trilateral (espécie de think thank multinacional, fundado por David Rockefeller e unindo grandes corporações da América do Norte, da Europa Ocidental e do Japão). Embora os problemas econômicos servissem de pano de fundo, a tese ali desenvolvida vê a democracia dos países centrais ameaçada por mecanismos que são internos à sua própria operação. A possibilidade de participação popular pelo voto, mesmo que limitada, como que inevitavelmente leva à sobrecarga do sistema. Incapaz de atender às demandas crescentes de diferentes grupos da população, o Estado se tornaria também incapaz de cumprir sua função básica de garantir a dominação política: estava decretada a ingovernabilidade das democracias.

O relatório identifica dois problemas principais, relacionados entre si. O primeiro é a responsividade dos governantes ao eleitorado – uma decorrência necessária do fato de que a permanência no poder depende da anuência dos governados. Com isso, cada grupo social é estimulado a fazer exigências cada vez maiores (de direitos, de políticas sociais, de prerrogativas e privilégios, de proteções).. O excesso de pressões empurra o Estado para aumento de gastos, hipertrofia, crescimento da carga tributária.

O segundo problema é o entranhamento da ideia de igualdade, que desliza do acesso ao direito de voto e da formalidade jurídica (o “todos são iguais perante a lei”) para a materialidade da vida social. Isso alimenta as demandas apresentadas ao Estado, que deveria agir para combater as desigualdades, e também, uma vez mais, ameaça a reprodução do capitalismo, que tem a ampliação da desigualdade material tanto como resultado inevitável quanto como incentivo necessário.

A solução encontrada para a ingovernabilidade da democracia foi o neoliberalismo. Ele reduziu a capacidade de ação do Estado, que, sendo um regulador ostensivo, hierarquizado e comandado por pessoas identificáveis, é suscetível a reivindicações. Em seu lugar, foi entronizado o mercado, um regulador oculto, impessoal e impermeável ao controle democrático. A solução, portanto, foi a retração do espaço da democracia.

Isso produziu um declínio generalizado da confiança nas instituições da democracia liberal. Os objetivos de redução da responsividade e desmobilização foram alcançados em grande medida, com os Estados agindo de forma cada vez mais indisfarçada em favor dos já privilegiados. O preço foi que os cidadãos passaram a entender que o sistema era insensível às suas pressões. Estava aberta a “crise da representação”: o sentimento de que não se estava representado nas instituições representativas.

Os sinais de que havia uma crise da representação política em democracias que, no entanto, se definiam como “representativas” eram abundantes desde os anos 1980. Taxas declinantes de comparecimento eleitoral, padrões reduzidos de identificação partidária e respostas a surveys convergiam para o mesmo cenário. Por mais que certo civismo convencional lesse a desconfiança como um déficit de cidadãos inadaptados à ordem democrática, ela era bem sustentada pela vivência em regimes que se mostravam cada vez mais inacessíveis e invulneráveis às pessoas comuns.

O que a Ciência Política identificou, a partir sobretudo de 2016, como a crise da democracia é, portanto, o fruto de um longo processo de erosão do pacto que permitiu o florescimento da ordem liberal competitiva nos países do Norte global. Na literatura acadêmica e no jornalismo, é frequente sua associação com o “populismo”, um termo pouco preciso que indica, em geral, um tipo de liderança política que evoca permanentemente o povo como sujeito real de suas decisões, apresentando-se como sua encarnação perfeita.

O populismo é uma manifestação da dificuldade crescente da compatibilização entre a fachada democrática do sistema e sua operação efetivamente censitária. Na leitura de Bourdieu, a solução passava pela abstenção, apatia e desinteresse de um eleitorado que introjetava sua própria impotência, lendo a impermeabilidade do campo político às demandas vindas de baixo como a demonstração de uma incapacidade pessoal. Mas agentes políticos souberam mobilizar essa situação em benefício próprio, sem desafiar – ou apenas fingindo que desafiavam – as assimetrias de fundo que limitam o alcance das democracias realmente existentes.

Fica claro que o casamento da democracia com o capitalismo está cada vez mais insustentável. O neoliberalismo, que leva à tomada de consciência sobre esta situação, é a resposta da classe dominante a uma mudança de condições que tanto estimulou quanto permitiu que dobrasse suas apostas, reduzindo espaço para as concessões aos dominados. A democracia política pode ser enumerada entre essas concessões e, ao mesmo tempo, ser vista como o mecanismo necessário para calibrar a extensão e profundidade delas. No novo cenário, ela se torna tanto inoperante quanto um estorvo.

A democracia dos “trinta anos gloriosos” nos países centrais, apresentada como modelo a ser recuperado, é melhor entendida como excepcionalidade histórica do que como padrão. As condições que permitiram seu florescimento – sempre parcial, como se viu – estão erodidas.

É necessário pensar em novas formas de organização democrática, entendendo que elas só têm como emergir com uma mudança da correlação de forças na sociedade, que permita frear, regular e, e idealmente, superar o capitalismo.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).


ÁUDIOS: Investigados na Carbono Oculto, que descobriu as ligações entre PCC, empresários, banqueiros da Faria Lima e políticos bolsonaristas, dizem que Ciro Nogueira é ‘amigo’ de Beto Louco

 

Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI).


Do ICL:

ÁUDIOS: Investigados na Carbono Oculto dizem que Ciro Nogueira é ‘amigo’ de Beto Louco 

Investigados dizem no Whatsapp que senador do Piauí iria facilitar negócios entre Beto Louco e o grupo.



Por Alice Maciel e Flávio VM Costa 

Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A relação também foi mencionada nos depoimentos prestados pelos investigados ao longo da apuração.

Beto Louco e seu sócio, Mohamed Mourad, o Primo, são acusados de liderar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de postos de combustíveis. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.

São eles também os donos da aeronave pilotada por Mauro Mattosinho, que revelou, em entrevista ao ICL Notícias em setembro do ano passado, ter transportado uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo. Segundo o piloto, o voo ocorreu dia 6 de agosto de 2024, mesma data em que Beto Louco comentou com outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira. Mattosinho também prestou depoimento à Polícia Federal (PF).

Antes da publicação da primeira matéria do ICL Notícias sobre o assunto, Ciro Nogueira negou ter “tido proximidade de qualquer espécie” com Beto Louco.

A Operação Carbono Oculto 86 (referência ao DDD do Piauí) é um desdobramento da operação homônima com foco principal em São Paulo. O inquérito foi trancado no último dia 2 de abril por decisão do juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos do Tribunal de Justiça do Piauí. O Ministério Público piauiense (MP-PI) recorreu da decisão. A promotoria havia denunciado os empresários Haran Sampaio, Danillo Coelho de Sousa e Victor Linhares de Paiva por adulteração de combustíveis, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e associação com Beto Louco e Primo.

Ciro Nogueira conversa em aeroporto com empresários investigados na Carbono Oculto 86
À esquerda, Danilo Coelho de Souza. Á direita, Haran Santhiago Girão Sampaio. Ciro Nogueira ao centro

Ciro Nogueira não é formalmente investigado no caso. No entanto, após a menção ao seu nome e ao do deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) ao longo da apuração, a Polícia Civil solicitou o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado dos parlamentares.

De acordo com os relatos reunidos no inquérito, a aproximação entre os empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa — antigos proprietários da rede de postos de combustíveis HD – e o grupo ligado a Beto Louco e Primo – donos das empresas Copape, produtora de gasolina, e Aster, uma distribuidora –  teve início em outubro de 2023. A dupla baseada em São Paulo já mantinha contato prévio com o senador Ciro Nogueira, mas buscava estreitar essa relação.

O movimento teria ocorrido em meio à disputa por espaço no mercado de combustível com o dono da Refit (antiga Refinaria Manguinhos), Ricardo Magro. Apontado como o maior sonegador do país, Magro é amigo de longa data de Ciro Nogueira, conforme mencionou em entrevista à Folha de S. Paulo.

Mensagens extraídas dos celulares de Haran Sampaio e Danillo de Sousa reforçam que o nome do senador – a quem se referiam como “Sena” – era recorrente nas tratativas. Em um dos áudios que estava nos celulares apreendidos, Danillo relata conversas envolvendo o grupo de Beto Louco e Primo e sugere o uso da proximidade com Ciro Nogueira como fator de influência para viabilizar os negócios.

“Se o ‘Sena’ desse uma ligada aí, Vitinho, pra esse Beto que é o que a gente vai encontrar amanhã, aí era top, viu. Porque ele disse que esse cara aí é muito amigo do Ciro, e é o cara que concorre com o Ricardo [Ricardo Magro]. O Ricardo é mais forte, pelo que eu entendi pela conversa, o Ricardo lá de Miami é mais forte que esse Beto, mas esse Beto era o cara que disputava com ele quem era mais forte, sabe?”, disse Danillo em mensagem de áudio enviada num grupo com Haran Sampaio e Victor Linhares, a quem chama de “Vitinho”.

Em outra mensagem, Haran contou para o sócio Daniel: “Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente”. No mesmo áudio, o empresário contou que havia incluído o senador Ciro Nogueira num grupo de Whatsapp. O grupo se chamava Ciro Vitor Haran Danilo, em referência ao nome dos integrantes.

Conforme revelou a Revista Piauí, o senador interagiu no grupo, inclusive convidando os empresários para um encontro em sua casa, em novembro de 2023. Semanas depois, em meio às negociações para a venda de parte da rede de postos HD ao grupo de Beto Louco e Primo, mensagens indicam que um aval de Ciro Nogueira foi dado — e o negócio acabou fechado ainda em dezembro daquele ano.

Negócio começou numa festa em Trancoso

A relação entre os empresários do setor de combustíveis do Piauí com o grupo de Beto Louco e Primo, segundo depoimentos dos investigados, teria começado em uma festa em um bar na beira da praia em Trancoso (BA), em outubro de 2023. Na ocasião, Haran, Danillo e Victor teriam sido apresentados a um intermediário ligado ao grupo paulista. De acordo com os relatos, o encontro teve clima informal. Em determinado momento, o interlocutor teria mencionado a proximidade com o senador Ciro Nogueira: “a gente é amigo do senador”. “É meu pai”, teria respondido Victor Linhares.

Homem de confiança de Ciro Nogueira, Victor Linhares trabalhou no gabinete do parlamentar entre abril de 2018 e março de 2019, e também na liderança do Partido Progressista (PP) no Senado em 2020. O político é padrinho de uma filha de Linhares, e há ainda diversas fotos publicadas em redes sociais que indicam a proximidade entre os dois.

O encontro em Trancoso foi mencionado em um áudio enviado por Danillo a Haran. Na mesma mensagem, Danillo menciona uma conversa que teve com o interlocutor da dupla baseada em São Paulo e volta a falar sobre a amizade entre Ciro Nogueira e Beto Louco.

“Era melhor vir aqui porque não adianta ser em Salvador, porque não vai estar a pessoa que deveria estar, que eu acho que é esse Beto, entendeu, que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né, que é o amigo do Ciro. Aí ele falou assim: ‘rapaz, eu até falei de vocês aqui pro meu sócio e ele ficou interessado’.

Na sequência, Danillo reforça a expectativa de que uma eventual aproximação política pudesse acelerar os negócios. “Já adiantei sobre vocês, ele se interessou, e tem amigos em comum… aí, pô, o Ciro… você já pulou 90% das etapas”, disse, referindo-se ao que teria ouvido do interlocutor. “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, falando que a gente se conheceu lá, falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, a gente já chega lá com as portas abertas. A gente pede pro Sena fazer essa ligação aí.”

Empresa de Ciro Nogueira e seu ex-assessor receberam dinheiro de empresários

Dois meses após o encontro narrado pelos empresários, em 20 de dezembro de 2023, Victor Linhares recebeu a quantia de R$ 230 mil de Haran Sampaio. O fato foi revelado pelo ICL Notícias, que teve acesso exclusivo a um documento que comprova a transação.

A movimentação financeira coincide com o período em que Haran Sampaio e Danilo de Sousa venderam os postos de combustíveis da rede HD para a Pima Energia Participações Ltda, aberta por Beto Louco e Primo apenas seis dias antes de fazer negócio com o grupo do Piauí.

A suspeita dos investigadores é a de que Victor Linhares Paiva recebeu a quantia por intermediar a negociação.

Reportagem do ICL Notícias também mostrou que o posto de combustível HD Petróleo Uruguai, de Haran e Danilo, já dividiu endereço com uma firma do irmão de Ciro Nogueira e recebeu recursos públicos da cota parlamentar do político.

Além disso, o ICL Notícias revelou que a empresa do senador, a Ciro Nogueira Agropecuária Imóveis, recebeu R$ 63,9 mil do Posto Pima Energia. Os repasses aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo o relatório, foram enviados R$ 47,9 mil em 2 de maio de 2025 e R$ 15,9 mil em 17 de abril do mesmo ano.

As transferências foram feitas por meio da conta do posto na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank. A instituição financeira foi apontada como peça-chave no esquema investigado pela Carbono Oculto em São Paulo. Ainda de acordo com o relatório do Coaf, a empresa de Ciro transferiu 25,1 mil reais para a HD Petróleo Uruguai.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Ciro Nogueira não respondeu aos questionamentos do ICL Notícias. Os advogados de Beto Louco e Primo não quiseram se manifestar.

Foragidos da Justiça brasileira desde a deflagração da Operação Carbono Oculto em agosto do ano passado e provavelmente escondidos na Líbia, Beto Louco e Primo tentam firmar um acordo de delação premiada. Uma proposta foi enviada ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo) nesta semana e aguarda parecer do procurador-geral de justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Juiz tranca investigação; MP-PI contesta

Os relatórios do Coaf foram usados pelas defesas dos investigados Haran Santiago e Danilo de Sousa para pedir o trancamento da investigação policial, sob a alegação de irregularidades no compartilhamento dos dados. A Justiça do Piauí acolheu os argumentos e determinou o trancamento do inquérito, além de anular as informações obtidas junto ao órgão. O trancamento do inquérito foi revelado pelo portal Uol. O ICL Notícias também teve acesso à decisão.

Na decisão, o juiz Valdemir Ferreira Santos entendeu que houve envio indevido de dados financeiros sem autorização judicial prévia e sem base investigativa suficiente. Também considerou que os relatórios teriam sido solicitados no início da apuração, sem indícios prévios que justificassem a medida.

Segundo a defesa, o inquérito foi instaurado em 10 de setembro do ano passado e, cinco dias depois, a polícia já havia solicitado relatórios de inteligência financeira (RIFs) ao Coaf. Para o magistrado, isso indica que a investigação “não se desenvolveu a partir de elementos previamente constituídos”.

O juiz também citou decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes que restringiu o compartilhamento de dados do Coaf com Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para embasar o trancamento.

Em nota publicada nesta quarta-feira (15), o Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) contestou a decisão. O órgão afirma que o juiz não tinha competência para determinar o trancamento naquele momento, já que haveria denúncia apresentada em procedimento relacionado, o que transferiria o caso para outra instância. Ou seja, para o STF.

A promotoria sustenta ainda que não houve ilegalidade na obtenção dos relatórios, que teriam sido utilizados de forma complementar a indícios já existentes, e afirma que a investigação se baseia em um conjunto consistente de provas independentes. O MP-PI já recorreu e pede a reversão da decisão. A expectativa é de que o caso siga para a Suprema Corte.

Além de Ciro Nogueira, a Polícia Civil encontrou nos celulares dos investigados mensagens que sugerem tratativas com o deputado federal Júlio Arcoverde, referente a emendas parlamentares, conforme também foi revelado pela Revista Piauí: “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de R$ 1 trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero”, disse Danillo em um dos áudios enviados a Haran.

Por meio de nota, o deputado federal Júlio Arcoverde informou desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado”. Ele acrescentou que não é investigado no âmbito da operação, “nem em qualquer outro inquérito”. “Ressalta-se, ainda, que o próprio Tribunal de Justiça do Piauí já determinou o arquivamento do desdobramento citado, afastando questionamentos relacionados ao caso. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com ações ilícitas”, acrescentou na nota.

Procurado por telefone, Danillo de Souza não respondeu. Já Haran Sampaio afirmou desconhecer a existência dos áudios revelados nesta reportagem e enviou uma nota assinada pelos seus advogados em que reiteram os argumentos usados no pedido de trancamento da investigação.