segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Máfia da Extrema direita: FERNANDO CERIMEDO, FAMÍLIA BOLSONARO E O 8 DE JANEIRO: REVELAÇÕES BOMBÁSTICAS DO PROF. JOÃO CEZAR CASTRO ROCHA

 

Do ICL Notícias e da Voz Trabalhadora:

João Cezar Castro Rocha e a equipe de jornalistas do ICL Notícias mergulham no caso de Fernando Cerimedo, figura central da extrema direita latino-americana e braço internacional da estratégia bolsonarista. Analisamos a sua recente prisão na Bolívia após uma tentativa de feminicídio contra sua companheira grávida, Naddia Beller. O professor João Cezar de Castro Rocha traz revelações cruciais sobre como uma live de Cerimedo, em novembro de 2022, foi o combustível fundamental para os acampamentos golpistas que culminaram no 8 de janeiro. Entenda a conexão de Cerimedo com a família Bolsonaro, Javier Milei e as graves denúncias de que ele atuaria em coordenação com agências de inteligência estrangeiras. O que o celular de Cerimedo pode revelar sobre o submundo do golpismo na América Latina?





Reinald Azevedo: É absurdo achar normal que Mendonça decida eleição numa ressurreição da Lava Jato com a Globo e a grande mídia empresarial familiar.

 

Da Rádio BandNews FM:


Reinaldo Azevedo – É absurdo achar normal que Mendonça decida eleição. E nem acho que assim será



Jamil Chade sobre a máfia internacional da extrema-direita: Bolsonaro, Cerimedo e Honduras como os elos de uma operação para desestabilizar a eleição no Brasil

 

A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.


Do ICL Notícias:


Bolsonaro, Cerimedo e Honduras: os elos de uma operação para desestabilizar a eleição

Planalto teme ofensiva internacional de desinformação para interferir na disputa presidencial




Por Cleber Lourenço e Jamil Chade

A existência de uma rede internacional de extrema direita com atuação em diferentes eleições acendeu um alerta no Palácio do Planalto sobre o risco de uma ofensiva de desinformação se tornar um dos principais instrumentos de ingerência externa na eleição brasileira de outubro.

Fernando Cerimedo, estrategista argentino que atuou para desacreditar as eleições brasileiras de 2022, trabalhou recentemente em Honduras com apoio de operadores ligados a Donald Trump e mantém relação próxima com Eduardo Bolsonaro.

O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro também foi escolhido pelo ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli, como interlocutor para receber e divulgar no Brasil informações produzidas pelo governo israelense.

Para integrantes do alto escalão do governo brasileiro, as conexões entre esses atores e o papel das plataformas digitais estão hoje entre os principais riscos de uma eventual ação coordenada para favorecer Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

As relações colocam Eduardo no centro de articulações que atravessam Brasil, Argentina, Honduras, Estados Unidos e Israel. Parte desses mesmos países aparece no chamado Hondurasgate, caso baseado em 37 áudios atribuídos ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández sobre operações internacionais de influência política.

Fernando Cerimedo (segundo da esquerda) com Eduardo Bolsonaro, durante sua visita à Argentina em outubro de 2022
Fernando Cerimedo com Eduardo Bolsonaro na Argentina em outubro de 2022 – Foto: Reprodução

De Eduardo Bolsonaro à eleição de Honduras

Cerimedo ganhou projeção no Brasil depois da eleição presidencial de 2022, quando realizou a transmissão “Brasil fue robado”. Utilizando dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), levantou suspeitas sobre diferentes modelos de urnas e questionou o resultado da disputa vencida por Luiz Inácio Lula da Silva.

A apresentação foi incorporada pelo bolsonarismo à ofensiva contra a confiabilidade do sistema eleitoral. A atuação do argentino acabou analisada nas investigações sobre a tentativa de golpe, embora a Procuradoria-Geral da República não tenha encontrado elementos suficientes para denunciá-lo por participação no plano de ruptura institucional.

Quatro anos depois, Cerimedo continua próximo da família Bolsonaro. Em evento realizado neste ano, Eduardo levou o argentino ao palco e defendeu sua atuação em 2022. Disse que Cerimedo teve “coragem” ao denunciar supostas irregularidades e afirmou que o trabalho havia sido produzido a partir de dados do próprio TSE.

Na mesma ocasião, Cerimedo contou detalhes de sua participação em outra campanha: a eleição de Honduras. O argentino afirmou ter trabalhado com Andy Rivas, apresentado como amigo e sócio, para o grupo político de Nasry “Tito” Asfura. Comemorou o resultado como uma vitória contra o grupo da família do ex-presidente Manuel Zelaya e relatou uma campanha marcada por forte tensão política.

Ao falar sobre sua atuação latino-americana, Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha digital de Trump. Segundo o argentino, Parscale forneceu tecnologia e equipe para suas operações políticas na região.

Cerimedo também participou dos esforços de aproximação entre Asfura e Trump. Nessa articulação aparece Dick Morris, consultor político americano que ganhou projeção como estrategista de Bill Clinton nos anos 1990 e depois rompeu com o Partido Democrata, tornando-se aliado de Trump e uma voz influente da direita americana.

Morris atuou como intermediário entre a campanha de Asfura e o entorno de Trump. Sua participação ajudou a aproximar o candidato hondurenho de operadores trumpistas nos Estados Unidos e a apresentar sua candidatura como parte de uma disputa regional contra a esquerda latino-americana.

A presença do consultor ajuda a dimensionar a rede formada em torno da campanha hondurenha: um operador com experiência na Casa Branca e trânsito na política americana atuando na conexão entre Asfura e o trumpismo.

O percurso também mostra a dimensão adquirida pela atuação de Cerimedo. Depois de participar da ofensiva para colocar sob suspeita as eleições brasileiras, o argentino passou por outra disputa eleitoral latino-americana conectado a operadores da direita americana.

O então presidente de Honduras, Juan Orlando Hernandez, discursando em conferência da ONU – Foto: Andy Buchanan/Pool via AP, Arquivo

Hondurasgate cita Argentina, EUA e Israel

É nesse cenário que aparece o chamado Hondurasgate. O caso envolve 37 gravações atribuídas ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández. Os áudios descrevem supostas operações de articulação política e comunicação envolvendo personagens de Honduras, Estados Unidos, Argentina e Israel.

Entre as alegações está a participação de atores ligados ao governo de Javier Milei. As gravações atribuem ao entorno argentino cerca de US$ 350 mil destinados a uma estrutura de comunicação instalada nos Estados Unidos, que teria entre seus alvos os governos de Claudia Sheinbaum, no México, e Gustavo Petro, na Colômbia.

Israel também aparece no material. Uma das alegações atribui ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu participação em articulações relacionadas ao benefício concedido por Trump a Juan Orlando Hernández.

Os áudios ainda dependem de autenticação independente, e Cerimedo não aparece comprovadamente como integrante da operação relatada nas gravações. O argentino rejeitou publicamente o Hondurasgate.

Sua presença na política hondurenha, porém, é conhecida, assim como suas relações com personagens da política argentina, com Eduardo Bolsonaro e com operadores americanos ligados a Trump.

Israel, por sua vez, também mantém uma conexão direta e documentada com o entorno bolsonarista no Brasil.

Ministro de Israel acionou Eduardo no Brasil

Em janeiro de 2025, o militar israelense Yuval Vagdani estava no Brasil quando a Fundação Hind Rajab (HRF) tentou responsabilizá-lo judicialmente por supostos crimes cometidos durante a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.

O episódio provocou reação do governo de Israel. Vagdani deixou o Brasil e, em 5 de janeiro, Eduardo Bolsonaro tornou público que havia conversado com Amichai Chikli, ministro de Assuntos da Diáspora e Combate ao Antissemitismo.

Eduardo disse ter recebido informações sobre a Fundação Hind Rajab. Poucas semanas depois, o próprio Chikli confirmou como a articulação havia ocorrido.

O ministro afirmou que Israel trabalhou com “amigos na oposição brasileira” e entregou informações sobre a fundação a Eduardo para que ele ajudasse a expor a organização no Brasil. O ex-deputado divulgou o material.

O ministério israelense buscava associar integrantes da fundação ao Hezbollah e ao Hamas. Chikli também atacou diretamente Lula e classificou o presidente brasileiro como “apoiador do Hamas”.

A operação foi além da proximidade política mantida há anos pela família Bolsonaro com o governo de Benjamin Netanyahu. Um ministro israelense procurou diretamente um integrante da oposição brasileira, forneceu informações produzidas no interesse de seu governo e pediu ajuda para colocá-las no debate público brasileiro.

O episódio ocorreu antes de Eduardo voltar a aparecer publicamente ao lado de Cerimedo, desta vez exaltando justamente o argentino que havia atuado no Brasil, passado por Honduras e construído relações com operadores da direita americana.

As conexões não surgem de uma única organização nem precisam ser apresentadas dessa maneira. Elas revelam um movimento mais amplo: personagens do bolsonarismo passaram a atuar como interlocutores brasileiros de uma rede internacional da direita que circula entre campanhas eleitorais, governos e operações de comunicação.

Nesse circuito, Eduardo Bolsonaro deixou de ser apenas um aliado político. Tornou-se um dos pontos de contato no Brasil.

O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli,
O Ministro de Assuntos da Diáspora de Israel, Amichai Chikli (Reprodução de vídeo)

Planalto teme ofensiva digital na reta final

Se o governo brasileiro considera que a ingerência internacional já é uma realidade na eleição desde 2025, integrantes do Planalto tentam agora antecipar por onde poderiam vir os próximos movimentos de uma eventual estratégia de desestabilização.

A principal preocupação é que o instrumento utilizado seja o impulsionamento de desinformação a partir do exterior, com a possibilidade de plataformas digitais atuarem de maneira pouco transparente para influenciar a opinião pública brasileira.

A operação poderia repetir elementos observados recentemente na eleição de Honduras, onde Cerimedo teve papel relevante. A avaliação no Palácio do Planalto é de que, apesar da liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião, o pleito continua acirrado e uma operação de manipulação digital poderia movimentar votos suficientes para transformar a reta final da eleição em um dos momentos de maior tensão política do país nas últimas décadas.

Integrantes do governo ainda pretendem estudar os casos das vitórias de aliados de Trump em Honduras e na Colômbia, marcadas, segundo essa avaliação, por intensa circulação de narrativas originadas fora desses países. Um dos fenômenos observados nesses pleitos foi a proliferação de conteúdos produzidos com inteligência artificial e deepfakes.

Uma das estratégias consideradas possíveis seria o impulsionamento de desinformação por meio de perfis falsos criados no exterior. A preocupação é que uma ofensiva concentrada nos últimos dias da campanha possa provocar mudanças abruptas na opinião pública quando já não houver tempo suficiente para identificar sua origem, investigar os responsáveis e neutralizar seus efeitos antes da votação.

O eventual envolvimento das plataformas também entra no cálculo do governo pelo impacto que uma reeleição de Lula poderia produzir sobre o setor. A avaliação no Planalto é de que as big techs estariam entre os atores mais afetados por um quarto mandato do petista, diante da possibilidade de o governo avançar na regulamentação das redes digitais.

Um possível retorno do ativismo político de Elon Musk também é monitorado, principalmente diante de seu histórico de intervenções no debate político de diferentes países às vésperas de eleições.

A preocupação central é justamente o tempo. Uma ofensiva realizada nos últimos dias antes da votação poderia alcançar milhões de eleitores e produzir efeitos políticos antes que autoridades brasileiras conseguissem determinar de onde partiu, quem a financiou e quais atores participaram de sua disseminação.



sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: Dark Horse chega a 100 dias sem explicações ou respostas

 

Flávio não esclareceu transação com banqueiro

Do ICL Notícias:



Por Cleber Lourenço

O caso Dark Horse completa cem dias nesta sexta-feira (21) em meio à investigação aberta pela Polícia Federal, novos elementos sobre a relação entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o entorno empresarial de Daniel Vorcaro, mas sem a divulgação dos contratos que o candidato à Presidência prometeu tornar públicos em maio.

O principal compromisso assumido pelo próprio Flávio quando o caso veio à tona também permanece pendente. O senador jurou abrir o contrato do financiamento, anunciou uma prestação de contas detalhada e chegou a estabelecer prazo de 30 dias para apresentá-la. Passado mais que o triplo do tempo estipulado, os documentos não foram divulgados integralmente e o candidato passou a tratar o episódio como “página virada”.

Os cem dias são contados desde 13 de maio, quando uma investigação do The Intercept Brasil revelou áudios, mensagens e documentos sobre a negociação de recursos entre Flávio e Vorcaro. O inquérito policial só foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 23 de julho e completa 29 dias nesta sexta-feira.

A reportagem apurou que até o início desta semana a Polícia Federal não havia encaminhado ao gabinete de Mendonça pedidos de quebra de sigilo bancário ou telemático, busca e apreensão, prisão ou outras medidas invasivas relacionadas ao inquérito.

A investigação segue em andamento na PF. Em julho, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chegou a pedir à corporação quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático do escritório ligado a Flávio, além de busca e apreensão, mas até o período consultado pela reportagem a PF não havia levado requerimentos desse tipo ao Supremo.

O estágio ainda inicial do inquérito, porém, não altera a cobrança sobre Flávio. A PF pode precisar de diligências, perícias e autorizações judiciais para descobrir por conta própria o caminho do dinheiro. Já o senador não precisa de nenhuma delas para apresentar aquilo que prometeu voluntariamente tornar público. Passados cem dias, continuam sem divulgação integral o contrato do financiamento e os documentos capazes de identificar a origem dos aportes e demonstrar, de forma verificável, a destinação dos recursos atribuídos a Vorcaro.

O ICL Notícias revelou também que a relação de Flávio com Vorcaro em torno do filme não fazia parte originalmente das investigações sobre o Banco Master. O caso entrou no radar das autoridades depois da reportagem do Intercept, que teve entre seus autores o jornalista Paulo Motoryn. A partir da publicação, representações começaram a chegar aos órgãos de investigação e controle.

Em 26 de maio, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou ao ICL Notícias que a corporação havia recebido uma representação parlamentar e que sua área técnica analisava o material. Foram 71 dias entre a primeira reportagem e a abertura do inquérito. Nesse intervalo e nas semanas seguintes, surgiram outros elementos sobre a relação entre Flávio e o entorno de Vorcaro, entre eles R$ 1,5 milhão em notas fiscais emitidas pelo escritório ligado ao senador para empresas associadas à estrutura empresarial do ex-controlador do Master.

Do financiamento milionário ao inquérito

A reportagem publicada em 13 de maio mostrou que Flávio havia participado diretamente da negociação para captar recursos de Vorcaro para Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. As conversas indicavam um compromisso de até US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação daquele período. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025 para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos e utilizado na estrutura financeira da produção.

Segundo os registros revelados, Flávio e Vorcaro tiveram contato a partir de dezembro de 2024. Nos meses seguintes, as conversas passaram a incluir acompanhamento e cobrança de pagamentos. Documentos que posteriormente chegaram ao STF reproduziram informações segundo as quais o senador solicitava recursos e acompanhava os repasses, inclusive diante de atrasos relacionados a compromissos da produção com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Ao ser procurado antes da publicação, Flávio inicialmente classificou a informação como “mentira”. Depois da divulgação dos áudios, confirmou ter buscado recursos com Vorcaro e afirmou que se tratava de financiamento privado para um filme privado. Negou ter recebido dinheiro ou comissão e afirmou não ter oferecido qualquer contrapartida ao banqueiro.

Em 15 de maio, dois dias depois da revelação, Flávio disse estar “100% disposto” a tornar público o contrato de investimento. Quatro dias depois, anunciou ter solicitado uma prestação de contas completa da produção, com prazo de 30 dias. O contrato não foi divulgado e, posteriormente, a defesa da Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, apresentou uma perícia privada que declarou custo de aproximadamente US$ 13,4 milhões, cerca de R$ 75 milhões, com US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.

O laudo não identificou nominalmente os financiadores finais do fundo, e Vorcaro não aparece como financiador no documento. Os valores conhecidos desde maio também variam: a negociação inicial chegava a US$ 24 milhões; Flávio afirmou posteriormente que Vorcaro havia investido pouco mais de US$ 12 milhões; as transferências reveladas somavam ao menos US$ 10,6 milhões; e a perícia apontou US$ 13,3 milhões em aportes do Havengate.

A Polícia Federal passou a analisar o material depois da publicação e posteriormente solicitou a abertura de um inquérito. O pedido recebeu manifestação favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e foi autorizado por Mendonça em 23 de julho. A investigação apura a origem, movimentação e destinação dos recursos vinculados ao filme, além de eventuais contrapartidas relacionadas aos repasses. Uma das linhas é verificar se parte do dinheiro teve finalidade diferente da produção, inclusive eventual utilização em atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Flávio e Eduardo negam.

Notas fiscais ampliaram relação com entorno do Master

Depois da revelação de Dark Horse, vieram a público três notas fiscais, no valor total de R$ 1,5 milhão, emitidas pelo escritório ligado a Flávio para empresas associadas ao entorno empresarial de Vorcaro. Duas notas de R$ 500 mil foram emitidas em abril de 2025 para a Copenhagen Consultoria e Assessoria e canceladas no mesmo dia. Uma terceira, também de R$ 500 mil, foi destinada à Contábil Correa e não tinha registro de cancelamento na documentação analisada.

As empresas tinham ligação por meio de Rogério Lourenço Novo, diretor da Contábil Correa e sócio-administrador da Copenhagen. A Copenhagen havia sido criada em novembro de 2024 com capital social de R$ 40 e posteriormente apareceu em movimentações financeiras relacionadas ao Banco Master. Documentos encaminhados à PGR apontam que a companhia movimentou R$ 58 milhões oriundos do banco.

Flávio afirmou que as relações comerciais de seu escritório eram privadas e legais e negou ter prestado serviços à Copenhagen. A emissão das notas ocorreu quando o senador já mantinha contato com Vorcaro: Flávio afirma ter conhecido o banqueiro em dezembro de 2024, os repasses destinados ao filme começaram nos primeiros meses de 2025 e as notas foram emitidas em abril.

Emendas de Flávio alcançavam negócios ligados a Vorcaro

A atuação legislativa de Flávio também passou a integrar os fatos levantados depois da revelação do caso. Uma das iniciativas foi a Emenda 157 à Medida Provisória 1.308/2025, que retomava proteção semelhante à prevista no artigo 58 da Lei Geral do Licenciamento Ambiental, vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O dispositivo reduzia a exposição jurídica de instituições financeiras que financiassem empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental, limitando a responsabilidade posterior por eventuais danos. Flávio atuou em diferentes etapas sobre a regra: em maio de 2025, votou favoravelmente ao projeto que continha o artigo 58; depois do veto presidencial, apresentou a Emenda 157 para restabelecer proteção semelhante aos financiadores; e, em novembro, votou pela derrubada do veto.

Naquele período, o Banco Master tinha operações relevantes em setores diretamente afetados por regras ambientais. Uma delas era um financiamento de R$ 152,9 milhões à 3D Minerals, empresa relacionada a 116 áreas de minerais críticos. Metade das ações da companhia havia sido oferecida como garantia e, em julho de 2025, o crédito foi cedido ao BRB.

O entorno de Vorcaro também mantinha interesses em mineração e créditos de carbono. Na Serra do Curral, em Minas Gerais, a Victoria Falls apareceu em estruturas relacionadas à exploração mineral da região e teve o Banco Master como controlador. Vorcaro também manteve participação na mineradora Itaminas até 2025.

Outras duas emendas apresentadas por Flávio atingiam regras relevantes para esses setores. A Emenda 162 alterava dispositivos da Lei da Mata Atlântica relacionados à autorização e anuência para supressão de vegetação. Já a Emenda 163 buscava reforçar a licença expedida por um único órgão ambiental, limitando interferências posteriores de outras instâncias. As propostas poderiam reduzir entraves regulatórios para empreendimentos sujeitos a disputas ambientais, inclusive projetos de mineração.

A atuação do banqueiro sobre medidas legislativas de interesse do Master, já apareceu em outra frente das investigações: a PF identificou, por xemplo, interlocuções de Vorcaro relacionadas a uma proposta sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), envolvendo o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Cem dias depois

Cem dias depois, portanto, existem dois relógios diferentes correndo no caso Dark Horse.

O da Polícia Federal começou mais tarde. A investigação só foi formalmente aberta em 23 de julho e, até o início desta semana, ainda não havia produzido pedidos de medidas invasivas ao gabinete de André Mendonça.

O relógio de Flávio começou em maio.

Foi naquele momento que ele disse estar “100% disposto” a abrir o contrato. Foi ele quem anunciou uma prestação de contas. Foi ele quem estabeleceu prazo de 30 dias. E foi ele quem afirmou que os milhões atribuídos a Vorcaro haviam sido integralmente utilizados no filme.

Desde então, surgiram novas questões: as notas fiscais do escritório ligado ao senador para empresas do entorno do Master, as diferenças entre os valores apresentados para o financiamento e as iniciativas legislativas de Flávio que alcançavam setores nos quais o grupo de Vorcaro mantinha interesses econômicos.

Parte dessas questões caberá à Polícia Federal esclarecer.

Mas a principal cobrança destes cem dias não depende de inquérito.

Flávio pode apresentar o contrato que prometeu abrir, os documentos da prestação de contas e os comprovantes que sustentam sua afirmação de que os recursos foram integralmente utilizados na produção.

Nesta semana, o candidato disse que Dark Horse é “página virada”.

No entanto, a prestação de contas prometida por ele continua sem ser apresentada integralmente ao público.

Antes de virar a página, falta Flávio Bolsonaro mostrá-la.

A investigação chega até aqui com diferentes frentes ainda abertas. A PF apura o caminho dos recursos destinados ao Havengate, a origem dos valores atribuídos a Vorcaro e sua destinação. As notas fiscais emitidas pelo escritório ligado a Flávio e eventuais atos de ofício relacionados aos interesses do banqueiro também passaram a integrar o conjunto de fatos revelados desde maio.

Flávio afirma que o dinheiro de Vorcaro foi integralmente empregado na produção de Dark Horse, nega ter recebido vantagens e rejeita a existência de contrapartidas. Nesta quinta-feira (20), disse que a prestação de contas foi realizada, afirmou que estava “tudo certinho” e classificou o episódio como “página virada”.

O contrato que Flávio prometeu tornar público em maio não foi divulgado. A investigação da Polícia Federal permanece aberta e sem grandes avanços. O caso tem mais perguntas do que respostas.


Reinaldo Azevedo – Vaiado Flávio mente; diz ter explicado tudo sobre Dark Horse; abra tudo, Mendonça

 

Da Radio BandNews FM:




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Luis Nassif: Por que o caso Flávio Bolsonaro -Vorcaro é minimizado? - Cortes TV GGN

 

Da TV GGN:




DANIELA LIMA E LEONARDO SAKAMOTO SE REVOLTAM AO VIVO, NO UOL, APÓS ATAQUE COVARDE DE UM BOLSONARISTA CONTRA MARINA SILVA E FAZEM ALERTA GRAVE!

 

Da TV Afiada -  UOL:




Luis Costa Pinto: André Mendonça, o "terrivelmentre evangélico" indicado por Bolsonaro, abriu a porta do STF para ala golpista e lavajatista da PF e do MPF

 

Ministro compromete Corte silenciando sobre vazamentos com alvo certeiro no caso que envolve Fábio Luís da Silva, Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana

Do ICL Notícias:


Mendonça abriu a porta do STF para ala golpista e lavajatista da PF e do MPF




Usada com abuso e à larga durante a vigência da Lava Jato e a existência da breve e devastadora “República de Curitiba”, a estrutura de produção de falsos indícios de provas, manipulação de dados e vazamentos orquestrados para veículos de comunicação com histórico de hostilidades para com o PT e os governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff está de volta ao noticiário nacional no caso do “Triângulo do Lobby”. Há evidente interesse eleitoreiro nisso tudo. A agenda de divulgação dos mais recentes prints e diálogos manipulados do caso obedecem a uma agenda e ao calendário da campanha eleitoral presidencial. Essas advertências foram feitas ao longo da última segunda-feira, 17 de agosto, dentro do Supremo Tribunal Federal.

O ministro André Mendonça assumiu a relatoria das investigações contra Fábio Luís Lula da Silva por meio de uma combinação de prevenção processual originária e sorteio eletrônico do STF. Inicialmente, ele se tornou relator do inquérito principal que apura fraudes bilionárias em descontos de aposentados e pensionistas no INSS (Operação Sem Desconto). Como o nome de Fábio Luís surgiu no escopo dessa investigação — sob a suspeita de ser sócio oculto de um dos operadores do esquema, Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS” —, o ministro passou a conduzir as ações e medidas cautelares envolvendo Lulinha de forma automática por prevenção legal.

Em julho de 2026, a Polícia Federal (PF) solicitou a abertura de novas linhas de investigação contra o filho do presidente para apurar supostos crimes de tráfico de influência e corrupção nos Ministérios da Saúde (envolvendo a comercialização de cannabis medicinal) e na Dataprev. Ao encaminhar os pedidos ao STF, a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR) defenderam que as novas suspeitas tratavam de fatos autônomos e sem relação direta com as fraudes previdenciárias. A intenção técnico-processual era evitar a distribuição automática (prevenção) para o gabinete de Mendonça, permitindo que os processos fossem distribuídos livremente na Corte.

Durante o recesso do Judiciário, o ministro Alexandre de Moraes, no plantão da presidência, acolheu o parecer da PGR e determinou que os novos casos fossem para a livre distribuição por sorteio. No entanto, o sistema eletrônico de sorteio do STF acabou selecionando o próprio André Mendonça como relator de dois desses novos inquéritos. Mesmo com o entendimento de que os fatos eram distintos, o sorteio randômico do tribunal manteve a centralização das principais frentes de investigação sobre o filho do presidente sob a condução do ministro.

O QUE PESA CONTRA O GABINETE DE MENDONÇA

Embora os ministros evitem contestações públicas, o acúmulo de casos sensíveis no gabinete de André Mendonça — que além das fraudes no INSS e dos inquéritos de Fábio Luís e Roberta Luchsinger, também herdou a relatoria do caso Banco Master (após o colega Dias Toffoli deixar o caso) — causou forte desconforto na Corte por duas razões centrais:

·         Desgaste institucional: Alguns dos demais ministros da Corte avaliaram que as decisões rígidas de Mendonça (exigir que a PF entregue dados brutos das investigações diretamente ao seu gabinete e proibir a troca de investigadores sem aviso prévio) criaram uma queda de braço desnecessária com a PF, desgastando a imagem do Supremo.

·         Preocupação com nulidades: Parte do tribunal alertou, nos bastidores, que o tensionamento excessivo com os órgãos de investigação abre brechas jurídicas para que as defesas dos acusados aleguem interferência indevida, o que poderia anular as provas no futuro.

Levantada pela defesa dos citados no inquérito – Fábio Luís Lula da Silva e Roberta Luchsinger, que sequer sabem ainda do que exatamente são acusados e se podem se considerar investigados formalmente, ou não – a preocupação com as nulidades encheu o ministro André Mendonça, nomeado para o tribunal por Jair Bolsonaro por ser “terrivelmente evangélico”, mexeu com os brios do ministro e o fez dobrar a aposta nos despachos diretos com policiais federais que atuam nas ações. A direção-geral da Polícia Federal começou a ser escanteada em todo o processo, bem como procuradores e subprocuradores da República de alas mais legalistas e não lavajatistas do Ministério Público Federal.

A partir da criação desse núcleo processual paralelo no caso das ações que apuram a existência, ou não, do tal “Triângulo do Lobby”, André Mendonça perdeu o controle e a curadoria dos fatos. Pautas prontas para a publicação, com calendário de divulgação casando com o processo eleitoral, começaram a pulular em redações que tangenciam a adesão ao bolsonaristas ou a aderência a alguns dos temas da extrema-direita. O sistema de vazamento de informações manipuladas obedece ao mesmo regime utilizado pela Lava Jato a partir de Curitiba, na força-tarefa comandada pelo ex-procurador Deltan Dallagnol que seguia as coordenadas do ex-juiz Sérgio Moro e tinha anuência do gabinete da Procuradoria Geral da República chefiado pelo ex-PGR Rodrigo Janot e seu valete José Pelela.

DINÂMICA IDÊNTICA AO LAVAJATISMO

A dinâmica da engrenagem que moeu reputações na Lava Jato e criou a atmosfera de “caos denuncista” no país é a mesma dos tempos da nefasta República de Curitiba. Além dos veículos claramente identificados com a extrema-direita como a revista Oeste, o jornal virtual Gazeta do Povo e perfis extremistas mantidos por políticos satélites do bolsonarismo, portais e sites do espectro de oposição ao governo Lula como “Metrópoles”, “Poder360” e outros veículos virtuais vêm sendo utilizados na tática de turvar o ambiente eleitoral com os vazamentos manipulados a partir de indícios que deveriam estar sob investigação.

A partir do vazamento orquestrado para o Metrópoles da última colagem de diálogos e prints de telas de celulares que tinham por objetivo construir um enredo artificialmente desconfortável para o ex-chefe de gabinete da Presidência da República, Marco Aurélio Santana, ocorrido na segunda-feira 17 de agosto, o ministro André Mendonça começou a perder suas linhas de defesa dentro do STF. Três ministros do Supremo passaram a tentar arrebatar a opinião ao menos mais dois deles para que o grupo peça ao presidente da Corte, Luiz Edson Fachin, a remoção das relatorias dos casos que envolvem Fábio Luís Lula da Silva do gabinete de Mendonça. O ambiente no STF voltou a ficar muito tenso.


Começou a grande batalha pela democracia e pela soberania contra o entgreguismo e o neofascismo, por Luís Nassif

 

 

Há de se reconhecer contribuição de Lula para a democracia brasileira, jogando dentro das regras do jogo e aprofundando a democracia social.

Do Jornal GGN:


Começou a grande batalha pela democracia e pela soberania, por Luís Nassif



    Lula - Lançamento campanha - Vila Euclides - Foto de Ricardo Stuckert


Para Lula, o tiro de partida da campanha não poderia ser melhor. Começou com o mega comício na Vila Euclides e a recuperação das raízes do lulismo, mostrando Lula como a síntese maior de um momento histórico, de inclusão social, de recuperação dos valores populares e da figura dos fundadores do PT. No palco, os sinais de um Brasil plural: na capoeira, nas lideranças negras e indígenas, e na lembrança essencial de dona Lindu. Nas redes sociais, jovens e velhos guerreiros espalhando reels e depoimentos. O tema da soberania alçou voo no Hino Nacional, cantado por Fafá de Belém, na bandeira hasteada e na percepção cada vez mais concreta sobre o risco de uma intervenção norte-americana no país, inspirando até editoriais na grande mídia.

O sentido de urgência estava presente em todos os cantos: o receio de o país cair na grande noite do bolsonarismo ou a insegurança com as novas ameaças que surgem com a digitalização, as redes sociais e as operações militares a serviço de um Império conduzido por um imperador louco.

Houve um sinal, apenas um sinal, por enquanto, da possibilidade de um futuro pacto em torno da figura de Lula.

Ontem, segundo contou a ex-juíza Luciana Bauer, a principal livraria de Nova York exibia uma biografia de Lula com uma chamada reconhecendo seu papel como uma das grandes personalidades da democracia mundial.

O futuro reconhecerá a vida extraordinária de Lula — de como escapou da fome para se tornar presidente e de como, em 2022, deixou a prisão para salvar o país de uma reeleição de Jair Bolsonaro, que certamente marcaria o fim da nação brasileira.

Há de se reconhecer sua contribuição para a democracia brasileira, jogando dentro das regras do jogo e aprofundando a democracia social. Certamente também se entenderão as limitações para um projeto mais consistente de Brasil, em um processo de desgaste político que começou com o Mensalão e culminou no impeachment de Dilma Rousseff.

Em caso de vitória de Lula, o próximo governo será o mais desafiador de todos. De um lado, há as enormes possibilidades abertas pelas terras raras, pela energia verde e pela bioeconomia da Amazônia, entre outras frentes. Mesmo com todos os problemas orçamentários, consolidou-se no país uma estrutura de universidades públicas e institutos de pesquisa. Além disso, o Brasil dispõe de uma extraordinária tradição de associativismo, presente no cooperativismo, nos arranjos produtivos, no Sistema S, no MST e nas associações comerciais.

De outro lado, há a herança trágica do apodrecimento do modelo político — uma tragédia que teve início quando imprensa, Judiciário, Legislativo e partidos políticos saíram do jogo democrático e tentaram ganhar no tapetão, processo facilitado pela maneira imprudente com que Lula recorreu ao presidencialismo de coalizão.

De qualquer modo, a sorte está lançada, e o país democrático parece ter acordado da grande noite, entendendo que é hora de enfrentar a grande batalha pela reinstitucionalização do país e pela construção de um desenho consistente de futuro.


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Tradição golpista regada a dinheiro público: Deputados questionam uso de recursos das Forças Armadas por clubes militares que divulgam sempre notras golpistas contra a Democracia

 

Requerimento cobra da Defesa dados sobre imóveis, pessoal e recursos destinados às entidades; canais das Forças Armadas já foram usados para divulgar atividades dos clubes

Doi ICL Notícias:



Por Cleber Lourenço

Deputados querem que o Ministério da Defesa informe quais estruturas e recursos das Forças Armadas são colocados à disposição do Clube Militar, Clube Naval e Clube de Aeronáutica, associações privadas que divulgaram, na semana passada, uma nota conjunta com críticas ao governo, ao Judiciário e às instituições. O requerimento pede informações sobre imóveis, militares, servidores, veículos, serviços e outros recursos públicos utilizados pelas entidades desde janeiro de 2023.

Levantamento do ICL Notícias mostra que os clubes mantêm diferentes relações com as Forças Armadas. A Marinha, por exemplo, mantém serviços dentro de instalações do Clube Naval, já abriu uma unidade de formação para dirigentes apresentarem benefícios da entidade a futuros oficiais e hospeda a revista do clube em uma plataforma institucional. Canais oficiais do Exército e da Aeronáutica também já foram usados para divulgar atividades de seus respectivos clubes.

É justamente a dimensão dessa relação que os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) querem conhecer. No requerimento apresentado à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, eles pedem informações sobre o apoio material e humano eventualmente destinado às três entidades desde janeiro de 2023.

É essa relação entre as associações privadas e a estrutura pública que os deputados Padre João (PT-MG) e Pedro Uczai (PT-SC) querem detalhar. No requerimento apresentado à Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara, eles pedem documentos e informações que permitam identificar quais recursos das Forças Armadas são destinados aos clubes e quais custos recaem sobre a União.

Os parlamentares querem saber quais imóveis da União são utilizados pelas entidades, quantos militares da ativa ou da reserva e servidores atuam nos clubes e se há prestadores de tarefa por tempo certo (PTTCs) vinculados às associações. O pedido inclui ainda informações sobre veículos, combustível, segurança, tecnologia, manutenção, cerimonial e serviços administrativos.

Os deputados também questionam o sistema de desconto em folha das mensalidades dos clubes. Eles querem saber quanto é movimentado por meio dessas operações e se a União tem custos para realizar os descontos.

O requerimento ainda precisa ser aprovado pela comissão antes de ser encaminhado formalmente ao Ministério da Defesa.

Nota golpista levou relação à mira da Câmara

O requerimento foi apresentado uma semana após Clube Naval, Clube Militar e Clube de Aeronáutica divulgarem conjuntamente a nota “Os riscos à Nação”, assinada pelos presidentes das três associações.

Publicado em 3 de agosto, o documento afirma que o país vive uma “grave deterioração política, institucional e econômica”, critica governo, Judiciário, política externa e setores da imprensa. Também acusa uma tentativa de “desmoralização das Forças Armadas” e relaciona esse processo às investigações e condenações decorrentes da tentativa de golpe após as eleições de 2022.

A nota não convoca explicitamente à violência ou a uma ruptura institucional e termina defendendo diálogo e consenso, mas reproduz ataques às instituições e elementos do discurso que cercou a ofensiva contra o resultado eleitoral de 2022.

O requerimento não afirma que recursos públicos tenham financiado a manifestação. O questionamento é sobre qual estrutura estatal está à disposição das associações privadas que a assinaram.

Marinha mantém serviços e abre portas ao Clube Naval

Parte dessa relação aparece nos próprios canais oficiais das Forças. O Serviço de Veteranos e Pensionistas da Marinha mantém postos de atendimento em instalações do Clube Naval. A relação divulgada pela Força identifica determinados atendimentos nesses locais como destinados “somente [a] sócios”.

O Clube Naval também já teve acesso direto a oficiais em formação. Em maio de 2025, dirigentes da entidade foram recebidos no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW) e apresentaram a todos os 194 alunos do Curso de Formação de Oficiais os benefícios oferecidos aos associados e dependentes.

Há precedente. Em 2018, o presidente do clube esteve no mesmo centro de instrução. Segundo a própria Marinha, a apresentação incluiu informações sobre a estrutura da entidade e “orientações sobre os procedimentos para admissão de novos sócios”.

A relação alcança ainda a comunicação. A Revista do Clube Naval é hospedada no Portal de Periódicos da Marinha, plataforma institucional que oferece gerenciamento, manutenção, treinamento, indexação e suporte técnico às publicações nela instaladas.

A revista já foi usada para manifestações políticas. No fim de 2022, o então presidente do clube, Luiz Fernando Palmer Fonseca, classificou a recuperação dos direitos políticos de Lula como uma “absurda descondenação”, atacou setores da imprensa, criticou o Judiciário e alertou para a volta da esquerda ao poder. O conteúdo continua disponível na infraestrutura digital da Marinha.

A publicação ressalva que opiniões assinadas não representam necessariamente a posição da Força. A questão é a utilização de infraestrutura estatal por uma publicação produzida por associação privada.

Exército e FAB também abriram canais aos clubes

No Exército, canais institucionais como o Informex, utilizado para transmitir informações aos militares, já foram usados para divulgar agendas, eventos, avisos e comunicados relacionados ao Clube Militar.

A relação também envolve questões administrativas. Em 2020, foi publicado contrato entre o Comando do Exército e o Clube Militar para o processamento de descontos autorizados de mensalidades de militares vinculados à Força — justamente uma das modalidades agora questionadas pelos deputados.

Na Aeronáutica, o portal oficial da FAB também divulga atividades do Clube da Aeronáutica. Em abril deste ano, publicou reportagem institucional sobre o lançamento de um livro comemorativo dos 50 anos do clube em Brasília. O material foi produzido pelo próprio Centro de Comunicação Social da Aeronáutica (Cecomsaer), com texto e imagens de militares.

Há exemplos ainda mais diretos. Em 2017, o site da FAB divulgou uma regata organizada pelo Clube da Aeronáutica de Brasília e informou que as inscrições estavam abertas. No ano anterior, também havia divulgado prazo de inscrição em atividade da entidade.

Deputados querem documentos e valores

O requerimento tenta transformar esses registros dispersos em um levantamento completo. Padre João e Pedro Uczai pedem, além dos dados sobre imóveis, pessoal e serviços, cópias de convênios, termos de cessão, pareceres jurídicos e outros instrumentos que autorizem as relações entre Estado e clubes.

Também querem conhecer os valores movimentados por descontos em folha e o eventual custo administrativo dessas operações para a União.

Os clubes militares são associações privadas, mas mantêm relações históricas com as Forças que passam por instalações, serviços e comunicação institucional. Depois da manifestação política conjunta das entidades, os deputados querem saber qual é hoje a dimensão dessa estrutura, quanto ela custa e sob quais regras é mantida.




Pelos frutos se conhece a qualidade da árvore: Exército estimou 241 vezes mais móveis do que comprou para permitir ‘carona’ em ata

 

TCU aponta que 4.585 móveis foram previstos para a 11ª Brigada, mas apenas 19 foram adquiridos pela unidade; ata foi usada por outros órgãos

Do ICL Notícias:


Exército estimou 241 vezes mais móveis do que comprou para permitir ‘carona’ em ata





Por Cleber Lourenço

O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou irregularidade em um pregão da 11ª Brigada de Infantaria Leve do Exército, em Campinas (SP), que previa 4.585 unidades de mobiliário para a própria unidade militar, mas resultou na compra de apenas 19 itens. A diferença significa que a quantidade estimada era 241 vezes maior que a efetivamente adquirida e, segundo a Corte, permitia que a ata de registro de preços fosse utilizada por outros órgãos públicos para comprar os mesmos produtos.

A irregularidade foi reconhecida no Pregão Eletrônico 26/2019, destinado à compra de mobiliário. O TCU considerou procedente a representação especificamente quanto à “superestimativa de itens para fins de comercialização da ata de registro de preços”.

Na prática, o mecanismo funciona assim: um órgão realiza uma licitação e registra os preços e as quantidades que pretende adquirir. Outros órgãos podem, dentro das regras aplicáveis, aderir posteriormente à mesma ata, sem realizar uma nova licitação. O problema apontado no caso da 11ª Brigada está na dimensão das quantidades originalmente registradas.

Documentos analisados pelo TCU ajudam a dimensionar a diferença. As compras registradas inicialmente para a unidade militar somaram apenas 0,41% do total previsto.

A diferença também aparece nos valores. Segundo registros do processo no TCU, foram empenhados R$ 16,5 mil para a própria Brigada, diante de uma estimativa de aproximadamente R$ 5,3 milhões.

O pregão era destinado à compra de mobiliário e tinha valor estimado total de aproximadamente R$ 64,6 milhões. Os dois grupos da licitação foram adjudicados por cerca de R$ 52,6 milhões.

Uma das atas, assinada pelo então coronel João Marcelo Faiad e Silva como ordenador de despesas, previa até R$ 29,34 milhões em mobiliário fornecido pela Forma Office.

O ponto central da nova decisão do TCU não é a possibilidade de outros órgãos aderirem a uma ata — procedimento previsto nas compras públicas —, mas a criação de quantidades acima da necessidade do órgão responsável pela licitação com a finalidade de permitir a utilização daquela ata por terceiros.

No julgamento, o TCU rejeitou as justificativas apresentadas por Gustavo Godoy Ribeiro da Silva e pelas empresas Forma Office e Forma Style. Gustavo Gabriel Aquino Santos e João Marcelo Faiad e Silva foram considerados revéis, situação processual em que o responsável não apresenta defesa no prazo estabelecido pela Corte.

O tribunal determinou ainda que a decisão seja comunicada ao Centro de Controle Interno do Exército, ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério Público Militar (MPM).

Outros órgãos compraram pela ata

Documentos públicos mostram que a ata do Exército acabou efetivamente utilizada por órgãos que não participaram originalmente da licitação.

O então Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, por exemplo, aderiu à ata da Forma Style e contratou R$ 740,3 mil em cadeiras, poltronas e sofás. O próprio contrato identifica expressamente a aquisição como uma adesão à ata resultante do Pregão 26/2019 da 11ª Brigada.

O Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) também aderiu a uma das atas. O tribunal contratou R$ 47,4 mil em produtos fornecidos pela Forma Office.

As adesões, conhecidas no setor público como “caronas”, já haviam chamado a atenção do TCU durante a análise do caso. Em decisão anterior, de 2021, a Corte chegou a determinar que não fossem autorizadas novas adesões nem realizadas novas contratações derivadas das atas questionadas.

O Ministério Público Federal já descreveu esse tipo de prática, quando acompanhado de quantidades sem correspondência com a necessidade real do órgão gerenciador, como uma espécie de “barriga de aluguel”: uma repartição pública cria uma ata suficientemente grande para que o fornecedor possa posteriormente utilizá-la para realizar negócios com outros órgãos.

A existência de adesões, isoladamente, não significa que os órgãos que compraram pela ata tenham cometido irregularidades.

MPF arquivou investigação antes da nova decisão

O caso tem outro componente. Antes de o TCU concluir o novo julgamento, uma investigação civil aberta pelo MPF em Campinas para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao pregão havia sido arquivada.

A investigação apurava, entre outros pontos, suspeitas relacionadas à definição das quantidades previstas no pregão e a uma eventual participação de servidores para beneficiar as empresas envolvidas.

Em junho, a 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF homologou por unanimidade o arquivamento.

Segundo a decisão do Ministério Público, as diligências realizadas e uma sindicância não encontraram elementos suficientes para caracterizar “fraude, conluio, direcionamento ou lesão ao erário”, nem atos de improbidade administrativa.

A conclusão do MPF não elimina a irregularidade administrativa reconhecida pelo TCU. São esferas de responsabilização diferentes: enquanto a Corte de Contas analisou a regularidade da contratação e a atuação dos responsáveis, o inquérito civil buscava elementos que permitissem avançar sobre suspeitas de atos ilícitos.

O arquivamento, porém, ocorreu antes da decisão de 29 de julho na qual o TCU considerou procedente a representação sobre a criação de quantidades superestimadas para permitir a utilização da ata por outros órgãos.

Ao concluir o julgamento, o próprio TCU determinou que o novo acórdão fosse encaminhado novamente ao MPF.

O ICL Notícias questionou o Ministério Público Federal sobre se a nova decisão do TCU poderá provocar uma reavaliação do arquivamento do inquérito civil.

Caso também está na esfera militar

Apesar do arquivamento na esfera civil, documentos do MPF registram a existência de uma apuração criminal conduzida pelo Ministério Público Militar relacionada aos fatos.

O envio do novo acórdão ao MPM determinado pelo TCU acrescenta, portanto, uma nova peça a uma investigação cuja situação atual ainda não é pública.

O ICL Notícias questionou o Ministério Público Militar sobre o estágio da apuração, eventuais diligências realizadas e se o Acórdão 2010/2026 já foi incorporado ao procedimento.

O Exército também foi procurado para informar qual era a demanda real da 11ª Brigada quando o pregão foi elaborado, explicar a diferença entre as quantidades estimadas e efetivamente adquiridas pela unidade e detalhar quantos órgãos aderiram às atas e quanto foi contratado por meio delas.

A reportagem perguntou ainda sobre a situação funcional atual de João Marcelo Faiad e Silva, Gustavo Gabriel Aquino Santos e Gustavo Godoy Ribeiro da Silva e sobre eventuais procedimentos administrativos instaurados pela Força.

TCU já havia aplicado punições

O Pregão 26/2019 já havia provocado sanções meses antes do novo julgamento.

Em março, no Acórdão 657/2026, o TCU aplicou multas que, somadas, chegam a R$ 180 mil aos três agentes públicos envolvidos. Gustavo Godoy Ribeiro da Silva recebeu multa de R$ 60 mil; João Marcelo Faiad e Silva, de R$ 90 mil; e Gustavo Gabriel Aquino Santos, de R$ 30 mil.

Godoy também foi declarado inabilitado por cinco anos para exercer cargo em comissão ou função de confiança na administração pública. A Forma Office e a Forma Style foram declaradas inidôneas pelo mesmo período, nos termos estabelecidos pelo tribunal.

Godoy tentou posteriormente reverter a decisão, mas o TCU não conheceu do pedido de reexame apresentado por ele, por considerar o recurso intempestivo e sem fatos novos capazes de justificar sua análise.

No julgamento mais recente, o tribunal decidiu não aplicar novas sanções pela questão das quantidades superestimadas justamente porque os envolvidos já haviam sido punidos no processo pelas demais irregularidades identificadas no mesmo pregão.

A nova decisão, entretanto, encerra uma questão que ainda permanecia pendente no processo: para o TCU, houve irregularidade na definição das quantidades do Pregão 26/2019 com a finalidade de ampliar a utilização da ata por outros órgãos públicos.