Do Canal Mídia Ninja:
Textos de Filosofia e ensaios sobre temas atuais
As democracias morrem quando sua suposta elite econômica, jurídica e midiática não consegue enxergar além da primeira curva da esquina.
Do Jornal GGN:
Imagem gerada por ChatGPT

Um dos principais responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff — o episódio que desorganizou definitivamente as instituições —, o jurista Miguel Reale Jr. anuncia voto em Lula para garantir a democracia.
Na época do impeachment, outro jurista, Oscar Vilhena, defendia o golpe sob o argumento de que só o impeachment restauraria as condições de governabilidade. Segundo ele, o impeachment cumpre três funções no presidencialismo: desincentiva o abuso de poder, desincentiva golpes porque oferece saída constitucional, e qualifica o debate público. E como encararia o fato de o impeachment tirar o poder de uma presidenta inequivocamente honesta para entregá-lo a Eduardo Cunha, Michel Temer e outros políticos que se enlamearam na corrupção?
“O fato de que parte dos políticos responsáveis por tomar a decisão foi flagrada no mesmo escândalo que conspurca o Executivo. PT e PMDB, agora em litígio, são sócios nesse projeto de poder. Os custos de conviver com uma ou outra decisão serão enormes, mas imperativos”.
Dois anos depois, caía a ficha:
“Depois de uma eleição vencida com enorme irresponsabilidade fiscal, um impeachment liderado por Cunha, a ascensão ao poder do velho ‘centrão’, mestre das trapaças, a condenação de um importante líder e a erosão da autoridade do Supremo, é impossível negar que nossa democracia esteja conspurcada. O fato, porém, é que temos a oportunidade nas eleições de 2018 de depurá-la”.
Agora, escreve na Folha que a última oportunidade para a democracia brasileira são as eleições de 2026. E aponta Lula como a última esperança.
Um liberal autêntico, sem pecado, sem culpa, que ajudou na erosão da democracia em nome de interpretações falsas para o impeachment.
Fora do linguajar supostamente civilizado do jurisdiquês, a imagem corriqueira era a de que Cunha e Temer eram os canos pelos quais escorreria o esgoto do PT.
O auge da hipocrisia jurídica ocorreu em um evento da Associação dos Advogados de São Paulo, na qual Vilhena expôs essa joia do parecer sob encomenda. Na época, escrevi no Jornal GGN, explicando seu malabarismo jurídico:
”Não é a oposição que não se conforma em ter perdido as eleições de 2014 e não tem paciência para aguardar 2018; é o governo (que ganhou as eleições de 2014) que não tem a grandeza de tirar o time de campo, sabendo que poderá voltar em 2018. Em vez disso, tenta cooptar aliados com práticas clientelistas.”
Ou seja, apresenta como premissa do modelo brasileiro a fragilização do poder do Executivo. E, depois, afirma que o esforço do Executivo para garantir a governabilidade denota falta de desprendimento.
As democracias morrem quando sua suposta elite econômica, jurídica e midiática não consegue enxergar além da primeira curva da esquina. Ignorantes, por trás de sua falsa erudição, não se dão conta de que um organismo político aviltado jamais voltará ao normal, mesmo que passe a turbulência.
Mesmo Lava Jato, impeachment, tragédia da eleição de Bolsonaro, as lições foram aprendidas.
Não houve reação quando teve início a Lava Jato 2, movimento nitidamente desenhado atrtavés da CPI do INSS e dos inquéritos do INSS e caso Master. Pelo contrário, os jornalões, puxados por O Globo, seguidos pelo Estadão e pela Folha, foram os arautos da grande manipulação.
O maior estrategista da ultradireita, Steve Bannon, defendia duas técnicas de influenciar a opinião pública: a microsegmentação e a saturação. E apenas uma resistência: o papel da imprensa corporativa.
Os princípios que se extraem de Bannon:
Havia só uma adaptação ao Brasil. Bannon via a imprensa como adversária porque ela focava objetivamente nos fatos. No Brasil, nem isso houve; o grande lixão foi justamente a imprensa corporativa. Coube a ela o trabalho deletério – e fundamental – de abarrotar o noticiário com falsas ênfases no caso Fábio Luiz, nos ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal, escondendo os pecados óbvios de Flávio Bolsonaro. Um ou outro editorial crítico a Flávio não compensava e enxurrada de denúncias falsas sobre Fábio Luiz.
Agora, estamos a poucos dias do dia mais importante da vida nacional. E os grandes vendilhões do templo voltarão à sua pregação libertária inútil, que só serve para lustrar sua vaidade.
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Flávio é acusado de liderar uma “organização criminosa” que desviava parte dos salários de servidores da Alerj, e depois lavava os recursos.
Do Jornal GGN:

São 290 páginas de pura dinamite. A investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro reconstitui, em detalhes, o esquema de desvio de salários e lavagem de dinheiro que, segundo a acusação, funcionou no gabinete de Flávio Bolsonaro antes de sua chegada ao Senado.
A denúncia, formulada em 19 de outubro de 2020, quando Jair Bolsonaro já ocupava a Presidência da República, descreve uma estrutura que teria operado de 2007 a 2018. Flávio é acusado de liderar uma “organização criminosa” que desviava parte dos salários de servidores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), por meio da chamada “rachadinha”, e depois lavava os recursos.
O mecanismo descrito é conhecido: assessores eram nomeados, muitos deles apontados como funcionários fantasmas, e devolviam parte da remuneração. Os repasses, segundo o MP, ocorriam por transferências bancárias, saques, depósitos em espécie e entregas de dinheiro em mãos.
A acusação divide a estrutura em três núcleos:
A denúncia também situa Adriano da Nóbrega no núcleo executivo e atribui a ele a inserção da esposa e da mãe como assessoras no gabinete. Ex-capitão do Bope, Adriano havia sido denunciado pelo MP em 2019, na Operação Intocáveis, como integrante do chamado Escritório do Crime.
Adriano morreu em 9 de fevereiro de 2020, durante uma operação das forças de segurança na Bahia.
O documento recorda duas homenagens concedidas por Flávio a Adriano: uma moção de louvor, em 2003, e a Medalha Tiradentes, em 2005, quando o homenageado já estava preso, acusado de homicídio.
Segundo a denúncia, Queiroz e Adriano se conheceram em 2003, quando integravam a mesma guarnição do 18º Batalhão da Polícia Militar. Os dois também aparecem em um inquérito sobre o homicídio de Anderson Rosa de Souza, na Cidade de Deus.
Nas páginas 13 a 19, o MP apresenta os seguintes valores:
A acusação descreve três caminhos pelos quais os recursos teriam sido incorporados ao patrimônio da família: depósitos em espécie, pagamentos de despesas com dinheiro vivo e operações de compra e venda de imóveis.
Dois apartamentos foram comprados em 27 de novembro de 2012, pelos valores declarados de R$ 140 mil, na Prado Júnior, e R$ 170 mil, na Barata Ribeiro. Segundo o MP, outros R$ 638 mil teriam sido pagos “por fora”, em espécie, a Glenn Dillard, procurador dos vendedores.
A acusação aponta que os preços declarados estavam cerca de 30% abaixo dos valores das compras anteriores, apesar da valorização do bairro. Nas revendas, os ganhos declarados teriam alcançado 293% e 237%. O documento registra ainda que a advogada do investidor americano estranhou os preços baixos e cita um e-mail em inglês sobre o “fechamento no HSBC” como elemento de apoio à tese acusatória.
O valor declarado foi de R$ 2,55 milhões, com financiamento de R$ 1.074.750 pelo Itaú. O vendedor afirmou que Flávio também depositou R$ 30 mil em espécie, de forma fracionada, para pagar por móveis, sem contrato.
O preço inicial do apartamento era de R$ 1.753.140 e chegou a R$ 2,26 milhões após a correção. Houve um acordo para conceder desconto de R$ 320 mil em razão do atraso da obra.
O MP aponta o pagamento de R$ 33.969,20 de ITBI referente às salas do Barra Prime, em 2010, sem identificar saque que desse lastro à despesa. Calcula também pelo menos R$ 18.845,14 de IPTU pagos em espécie em 2016 e 2017.
A denúncia organiza a acusação em 16 conjuntos de fatos. Entre eles estão:
Nos depósitos, o MP identifica 83 ocorrências na conta de Flávio, entre 2014 e 2018, e cinco na conta de sua esposa, Fernanda Bolsonaro, em abril de 2014. Registra ainda dez depósitos na conta de David Macedo Neto, em outubro e novembro de 2014.
Entre as despesas que teriam sido pagas com dinheiro desviado, estão 49 boletos da escola Ecran e 114 do plano de saúde Unimed Rio.
Já no caso dos apartamentos de Copacabana, comprados pelos valores declarados de R$ 140 mil e R$ 170 mil e revendidos por R$ 550 mil e R$ 573 mil, a tese do MP é que o pagamento da diferença “por fora”, por intermédio de Glenn Dillard, permitiu simular um ganho de capital de cerca de R$ 800 mil.
O encadeamento da acusação é esse: o desvio de salários alimentaria a circulação de dinheiro em espécie, que, por sua vez, seria usado para pagar despesas e adquirir patrimônio. É essa ligação entre a origem dos recursos e sua destinação que dá unidade aos fatos descritos pelo Ministério Público.
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Do Canal Revelando:
O que um general que foi ministro de Jair Bolsonaro tem a dizer sobre Flávio Bolsonaro querer entregar as riquezas do Brasil para Donald Trump? No episódio Revelando: Pátria Submissa, com Wagner Moura, conversamos com o General Santos Cruz, sobre o perigo que estamos enfrentando neste momento com o futuro da soberania brasileira. Segundo Santos Cruz, nossas riquezas minerais são estratégicas e não podem ser entregues de bandeja aos Estados Unidos, como Flávio Bolsonaro quer fazer enquanto presidente. Nas palavras do general, isso não é ser de direita, é vigarice. Não é patriotismo, é submissão voluntária.
Em entrevista à TV GGN, deputada afirma que grupos criminosos intimidam moradores e dificultam campanhas e debates em áreas sob seu domínio
Do Jornal GGN:
Jandira Feghali (PCdoB), deputada federal reeleita. Foto: Reprodução TV GGNA influência do crime organizado na política do Rio de Janeiro foi um dos temas abordados pela TV GGN 20 horas nesta sexta-feira (16/10), quando se discutiu a prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella (PL), aliado do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).
Na ocasião, a deputada federal reeleita Jandira Feghali (PcdoB) lembrou que milícias podem interferir na participação eleitoral por meio da intimidação e do controle territorial – tanto que existem regiões onde que o domínio de grupos criminosos dificulta a entrada de candidatos e a realização de debates públicos.
A parlamentar descreveu a população dessas áreas como submetida à pressão tanto de organizações criminosas quanto de setores da própria estrutura policial, ao mesmo tempo em que lembrou a expansão das atividades econômicas das milícias para além do tráfico de drogas, citando serviços como internet, fornecimento de gás, transporte e construção civil.
Na avaliação dela, combater essas organizações exige atingir suas fontes de financiamento e recuperar a capacidade de atuação do poder público.
As declarações sobre vínculos entre agentes políticos e grupos criminosos precisam ser examinadas à luz de investigações e documentos específicos. A deputada, durante a conversa, mencionou a proximidade pública entre Flávio Bolsonaro e Canella e criticou o campo político ao qual ambos estão associados.
A deputada federal também lamentou o desfecho da disputa pelo governo do Rio de Janeiro, que, em sua avaliação, representou a perda de uma oportunidade de alterar a política de segurança e ampliar investimentos em saúde, educação e desenvolvimento.
Ao comentar as manifestações realizadas em diferentes cidades, Jandira avaliou que a presença de estudantes, trabalhadores e famílias nas ruas poderia ampliar o engajamento político e estimular a participação eleitoral. Segundo ela, a campanha vinha promovendo atividades descentralizadas, incluindo conversas com moradores, distribuição de materiais e ações em regiões com histórico de abstenção.
A deputada também chamou a atenção para os eleitores com mais de 70 anos, cujo voto é facultativo, e defendeu que sejam esclarecidas as condições para participação no segundo turno. Durante a entrevista, afirmou que o comparecimento às urnas poderia substituir a necessidade de realizar a prova de vida para determinados beneficiários.
Esse ponto exige uma ressalva: as regras da prova de vida dependem da situação do beneficiário e dos procedimentos do órgão responsável. A afirmação não deve ser generalizada sem confirmação junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e à Justiça Eleitoral.
Jandira relacionou a mobilização eleitoral à defesa de direitos sociais e trabalhistas. No início da entrevista, destacou a participação do presidente Lula na solenidade de promulgação do fim da escala 6×1, realizada naquele dia, e contrastou a posição do governo com a atuação política de seus adversários.
A deputada também alertou para possíveis cortes de gastos e mudanças nas regras previdenciárias que, segundo ela, poderiam prejudicar trabalhadores e aposentados. As consequências dessas propostas dependem do conteúdo efetivo dos programas e das medidas que venham a ser apresentadas.
Ao longo da conversa, Jandira sustentou que a disputa eleitoral envolve não apenas projetos de governo, mas também o funcionamento das instituições, o poder das empresas de tecnologia e as condições para a participação política da população.
Veja mais a respeito do tema na íntegra da entrevista concedida pela deputada Jandira Feghali ao programa TV GGN 20 horas desta última sexta-feira.
Do UOL:
Mais de 100 organizações e especialistas de 25 países divulgaram uma carta aberta em que acusam grandes empresas de tecnologia de violar regras eleitorais brasileiras. O documento pede que autoridades nacionais e organismos internacionais fiscalizem a atuação das plataformas a nove dias do segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para 25 de outubro.
Do UOL:
A Meta admitiu hoje que sua ferramenta de inteligência artificial bloqueou a geração de material de campanha em favor de Lula (PT) e liberou a mesma tecnologia para Flávio Bolsonaro (PL). Saiba mais com a colunista Thais Bilenky.
The Intercept Brasil:
Elytron ofereceu operação clandestina para mapear eleitores, criar contas falsas, espalhar mentiras e desacreditar rivais, indicam documentos revelados por ex-consultor. Campanha de Flávio nega contratação de qualquer serviço ilegal
O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PL, pagou R$ 600 mil à Elytron, empresa de cibersegurança que tentou vender fora do Brasil um sistema que usa inteligência artificial para manipulação política em eleições de forma clandestina. O PL também declarou ter pago R$ 131,9 mil à mesma companhia.
Documentos obtidos pelo Intercept Brasil detalham a oferta feita nos Estados Unidos de uma operação que incluía fazer uma coleta imensa de dados e identificar grupos de eleitores para, de acordo com o perfil de cada um, executar atividades como disseminar boatos e desinformação, criar contas falsas nas redes sociais e utilizar “técnicas de guerra psicológica” e métodos de infiltração para desacreditar adversários.
São essas ações, chamadas de “comportamentos inautênticos”, que diferenciam uma operação de influência ilegal e clandestina de uma mera estratégia de marketing político, comum em campanhas eleitorais.
Os registros da operação foram entregues à reportagem pelo empreendedor e tecnologista estadunidense Vincent Edward Reed, que foi consultor da Elytron entre 2024 e 2025 e atuou como intermediário para que o sistema fosse apresentado a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos em 2024 – a tecnologia foi demonstrada aos republicanos, mas não há confirmação de contratação.
Reed disse que rompeu com a Elytron por avaliar que o sistema viola preceitos éticos e legais. “Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, afirmou.
Ele denunciou a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos EUA, mas as apurações não avançaram. Os pagamentos da campanha de Flávio Bolsonaro à Elytron fizeram Reed procurar o Intercept para contar o que sabe. Não há evidências que comprovem que o sistema de manipulação política denunciado por Reed tenha sido usado por Flávio ou pelo PL nas eleições de 2026.
A operação de um sistema de manipulação política nesses moldes violaria as leis que regulamentam as eleições no Brasil porque compromete a integridade do processo eleitoral. O uso de uma ferramenta com este fim também iria contra políticas e regras de uso das próprias plataformas de redes sociais.
O total pago à Elytron pela campanha de Flávio soma R$ 600 mil, de acordo com o DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral em que os candidatos informam suas despesas. Lá há três notas fiscais emitidas pela empresa. Duas delas, de R$ 500 mil cada, são de 16 de setembro de 2026 – uma, entretanto, consta como cancelada. A terceira nota é de 2 de outubro e totaliza R$ 100 mil.


Todas descrevem o serviço prestado como “consultoria em tecnologia da informação” e citam referências genéricas a quatro atividades: “apoio forense”, “investigação Pishing” — possível referência a um tipo de ataque cibernético, embora a grafia esteja errada —, “teste de seguranca” e “monitoramento de infraestrutura”.
Embora no sistema da Justiça Eleitoral a soma de pagamentos feitos para a Elytron totalize R$ 600 mil, a campanha de Flávio Bolsonaro declarou uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa na prestação de contas parcial entregue à Justiça Eleitoral no final de setembro.
O PL, partido de Flávio, também informou um pagamento de R$ 131,9 mil à Elytron. A despesa foi registrada em 20 de julho deste ano e menciona apenas a prestação de “serviços técnico-profissionais”.
A Elytron mobiliza uma rede de atores políticos internacionais, executivos do setor de tecnologia e nomes da extrema direita brasileira, como o lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie. Além do lado brasileiro, que tem como clientes grandes empresas e até órgãos de governo, encontramos conexões que mostram que a empresa tem um braço em Portugal e é ligada a autoridades dos Emirados Árabes Unidos, como o xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, chamado pelo Wall Street Journal de “xeque espião”.
No Brasil, dirigentes da Elytron mantêm ligações com o entorno do empresário e influenciador Pablo Marçal – cuja candidatura à Presidência da República foi proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, por ele estar inelegível. Marçal integra a equipe de campanha de Flávio desde o fim de setembro.
A denúncia feita por Reed envolvendo Elytron é um novo elemento nas preocupações envolvendo manipulação política via redes sociais e uma possível interferência nas eleições do Brasil. O tema vem ganhando força desde o ano passado diante da proximidade da família Bolsonaro com Trump e a adoção de medidas pelo governo dos EUA contra o Brasil – e até resultou na condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação, após ter sido acusado de articular retaliações contra o país e ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF.
Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro disse que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral” e classificou como grave e com “claro viés político eleitoreiro” a “tentativa de associar a contratação de um serviço exclusivo de segurança da informação para proteger os sistemas de comunicações contra ataques cibernéticos com práticas de manipulação política”. A assessoria frisou ainda que a contratação seguiu procedimentos regulares. Leia a resposta na íntegra.
Nós procuramos a Elytron por meio de sua assessoria de imprensa, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. Também procuramos João Brasio, CEO da empresa no Brasil.
Após a publicação, a Elytron respondeu os questionamentos enviados pelo Intercept. Disse que “repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”.
Também pontou que “a empresa atua no segmento de segurança cibernética e da informação, com serviços de natureza exclusivamente defensiva, e não oferece, não executa nem autoriza esse tipo de prática para nenhum cliente, nacional ou internacional, incluindo a campanha do senador Flávio Bolsonaro”.
A Elytron ainda informou que não prestou serviços para a campanha de Trump e que não autorizou a “realização de apresentações comerciais em seu nome para oferecer operações de influência política”. A empresa afirmou que apurará os fatos e eventuais responsabilidades relacionadas ao uso indevido de seu nome.
Quanto aos serviços prestados à campanha de Flávio e ao PL, a Elytron destacou que “possuem finalidade técnica e preventiva, voltada à proteção cibernética, à segurança das comunicações, à preservação da confidencialidade de informações e à proteção da infraestrutura tecnológica dos contratantes”.
A empresa ainda confirmou que possui pessoa jurídica em Portugal para fins de “organização societária e tributária para eventuais operações comerciais no mercado europeu”, mas que isso não constitui uma filial da Elytron brasileira. Leia aqui a íntegra da resposta enviada pela Elytron.
Reed contou ao Intercept que, no período em que atuou como consultor da Elytron, apresentaram-lhe o sistema como uma ferramenta analítica de IA, o que não seria um problema. No entanto, ao acessá-lo e entender do que se tratava, ele disse que ficou preocupado. “O termo manipulação foi de fato usado. E qualquer vez que eu ouço a palavra manipulação humana, especialmente quando envolve IA, me preocupa”, completou.
Documentos indicam que o objetivo do sistema ia muito além de análise de dados. Um deles, de acordo com Reed, é a apresentação confidencial que foi feita a pessoas ligadas à campanha de Trump em 2024. “Nós desenvolvemos soluções de ponta que aparelham big data como nunca antes”, descreve o material da Elytron.
Segundo o documento, unir dados e inteligência artificial viabiliza campanhas massivas direcionadas, controle da presença digital e identificação de ameaças, rastreamento de robôs e fake news, além de mobilização de pessoas.
Para mobilizar essas bases, segundo a apresentação, a Elytron coleta e cruza dados sociais, políticos e econômicos. O sistema promete geodirecionamento, mapeamento de demandas regionais, criação de cenários de votação e testes de eficácia de campanhas de comunicação.

Outra frente do negócio oferece a publicação de reportagens na imprensa internacional valendo-se de “relacionamentos excepcionais”. A lista menciona veículos como The New York Times, Bloomberg, The Washington Post, Reuters e CNN.
O documento também expõe o uso de mapeamento avançado em redes sociais para manipular e segmentar públicos. “Essa capacidade de segmentação nos permite identificar, ampliar ou criar uma opinião dominante dentro de um segmento definido” ou “mover a evolução de uma opinião do segmento A para o segmento B, com o objetivo de tornar essa opinião prevalecente e aumentar sua influência”.
‘Essa capacidade de segmentação nos permite identificar, ampliar ou criar uma opinião dominante dentro de um segmento definido’
Monitorar redes sociais, identificar tendências, mapear detratores ou contas falsas são práticas rotineiras para fins políticos ou comerciais – não é ilegal e costuma ser feito por meio de ferramentas pagas como Meltwater e Brandwatch.
O diferencial mencionado pela Elytron na apresentação à qual Reed teve acesso é a operação ativa de comportamentos inautênticos: a empresa sugere a criação de contas falsas, plantar desinformação e rumores e operar avatares gerados por inteligência artificial.
Uma das táticas descritas é a “disseminação direcionada de uma opinião ou informação (rumores, mensagens-chave, ideias) em um grupo específico”.

“Por exemplo, se o objetivo estratégico for associar um oponente a uma determinada opinião, podemos introduzir essa opinião com precisão em vários grupos-alvo, influenciando, assim, a percepção coletiva”, descreve a empresa no documento. O cardápio de serviços menciona, ainda, descredibilização de adversários.
Um gráfico anexado na apresentação revela o fluxograma tático. O plano parte da definição de um objetivo político da operação para, então, traçar um alvo operacional. A partir daí, define-se o método: as opções vão desde operações psicológicas, com a infiltração em redes adversárias, a operações especiais, com a criação e disseminação de desinformação e de descrédito, até chegar ao gerenciamento de opiniões.

Na etapa seguinte, de acordo com a apresentação, é definida a estratégia de transmissão. O plano abrange desde a criação de conteúdo – imagens, vídeos, memes, deepfakes – até a distribuição coordenada em blogs, redes sociais e na imprensa.
O Intercept submeteu o documento que detalha a operação à Beatriz Farrugia, pesquisadora da Lupa e analista sênior de desinformação e FIMI (o acrônimo em inglês para manipulação de informação e interferência estrangeira) do Debunk, uma ONG baseada na Lituânia.
Farrugia também é especialista em operações de influência, que são esforços deliberados e planejados que empregam técnicas ilegítimas para moldar opiniões e percepções das pessoas.
“Essa tela [do plano, foto acima] é exatamente a definição de A a Z de operação de influência”, diz a especialista, pontuando que estratégia vai muito além de apenas postar desinformação ou deepfakes nas redes sociais.
Reed detalhou ao Intercept a mecânica comercial da Elytron, que mapeia as metas do cliente. “Assim que uma campanha assina um contrato, representantes dela teriam acesso a uma equipe que ficaria encarregada de entender os objetivos. Essa campanha quer difamar o adversário? Eles querem colocar uma campanha de comunicação massiva? E também passam a pensar qual o desfecho que a campanha busca. Quer manipular eleitores? Influenciar opiniões?”, pontuou.
‘Como usa tecnologia de fontes abertas e tem acesso ao X e às plataformas da Meta, o sistema pode mirar usuários individuais com base em demografia’
Com o alvo traçado, o sistema entra em ação. “Como usa tecnologia de fontes abertas e tem acesso ao X e às plataformas da Meta, o sistema pode mirar usuários individuais com base em demografia”, explicou Reed. As apresentações indicam que uma ampla variedade de outros bancos de dados também pode ser integrada para fortalecer essas capacidades de segmentação.
Ele disse que a demonstração à qual teve acesso deixou claro que o sistema não era apenas uma ferramenta analítica, mas uma tecnologia de manipulação eleitoral focada em campanhas e eleitores.
A Elytron se apresenta como uma empresa de segurança da informação com atuação internacional. Além do endereço comercial em São Paulo divulgado em seu site, a firma possui registro em Portugal desde 2021.
O rosto público da empresa é João Lucas Melo Brasio, autointitulado “especialista em cibersegurança e hacker ético”. Em 2018, ele fundou o negócio com Felipe Garofalo. Naquele mesmo ano, ganhou notoriedade após declarar ter identificado uma vulnerabilidade no sistema de divulgação de candidaturas e contas eleitorais do TSE, o DivulgaCand.
Em entrevistas, Brasio afirma ter trabalhado para o Pentágono e outros órgãos de defesa, cujos logotipos também aparecem no site da empresa. Ele também é sócio de diversas outras empresas. Uma delas é a Katana, agência de comunicação focada em campanhas políticas. Em seu site, a companhia se apresenta como “resultado da sinergia entre a Nova Estratégia Comunicação Institucional Pública e Eleitoral e a Elytron Security”.
Em entrevista ao jornal português Observador, em 2022, Brasio disse que a Elytron tinha uma filial no Algarve com apenas dois funcionários e que já executava projetos em Portugal sob sigilo.
Em novembro de 2025, Daniel Tupinambá, chefe de segurança da informação da Elytron, publicou no LinkedIn uma foto na Assembleia Geral da Interpol ao lado de Jorge Remígio e Felipe Garofalo, co-fundador da empresa. “Elytron Cybersecurity Brasil e Portugal fechando o terceiro dia de muito aprendizado e compartilhamento legítimo contra o crime cibernético”, escreveu Tupinambá.
Reed, que nos procurou com os documentos sobre a operação da Elytron, atuou como consultor para o braço português da empresa. Em 2024, ele começou a trabalhar com pessoas que se apresentaram como ligadas à Elytron Security, empresa de cibersegurança e inteligência artificial que opera no Brasil e em Portugal, e também à Aleria, uma companhia dos Emirados Árabes que desenvolve soluções de inteligência artificial.
Em novembro de 2024, Reed assinou um contrato de consultoria com a Aleria que lhe garantia de 3% a 5% do lucro líquido de cada negócio que intermediasse. Na mesma data, ele teve acesso a um endereço de e-mail corporativo da Elytron.
Reed contou ao Intercept que mantinha contato principalmente com três executivos: Jorge Remígio, Ludgero de Sousa e Eric Leandri. No LinkedIn, Remígio se apresenta como CEO da Elytron para Europa, Oriente Médio e África. Ele detém 25% da filial portuguesa; os 75% restantes pertencem à sua esposa, a designer de bolos Ana Remígio.
Curiosamente, o português Ludgero Gaspar Sousa, radicado nos Emirados Árabes, também se apresenta com o mesmo cargo no LinkedIn e em entrevistas: CEO da Elytron para Europa, Oriente Médio e África.
No Instagram, onde ostenta um estilo de vida luxuoso, Sousa exibe com frequência uma figura-chave: o lutador de jiu-jitsu Renzo Gracie, aliado histórico da família Bolsonaro. Em 2022, foi Gracie quem abriu as portas para o então deputado federal Eduardo Bolsonaro junto a autoridades árabes, incluindo líderes dos Emirados Árabes Unidos, quando o parlamentar visitou a região.
Ludgero de Sousa também atuou na tentativa de venda do Banco Master para a Fictor e para a gestora de investimentos emiradense Royal Capital. Documentos revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo mostram o CPF de Sousa atrelado à assinatura de Khamis Buharoon, diretor-geral da Royal Capital. Segundo o periódico, a transação foi intermediada pela Lerco Consulting, empresa que tem Leandri, Ludgero e Gracie como sócios.
Além da Elytron, Sousa é diretor de negócios da Aleria. A empresa foi fundada e é presidida pelo francês Eric Leandri.
Antes, Leandri esteve à frente da Altrnativ, empresa de cibervigilância focada em inteligência de fontes abertas, OSINT. Em 2022, documentos internos revelados pelo site Politico mostraram que a firma monitorou e vigiou políticos, ativistas e lideranças sindicais na França. Em 2024, Leandri enviou especialistas à África do Sul para “tentar impulsionar” a campanha presidencial de Jacob Zuma.
Nos contatos com Reed, Leandri, Remígio e Sousa se apresentavam como ligados a ambas empresas: Aleria e Elytron. “Ao longo das minhas interações com o grupo, eles também se apresentaram como afiliados à Aleria Technology, uma subsidiária da International Holding Company, nos Emirados Árabes Unidos”, disse Reed. Segundo ele, os executivos se diziam conselheiros, sócios ou parceiros comerciais do xeque Tahnoon bin Zayed al-Nahyan.
Irmão do presidente dos Emirados Árabes e conselheiro de segurança nacional, al-Nahyan é peça-chave na corrida global pela inteligência artificial. Em 2025, a revista Time o listou entre as 100 pessoas mais influentes do setor. Em maio, após o xeque se reunir com o presidente Donald Trump, a Casa Branca anunciou que o governo emiradense investiria 1,4 trilhões de dólares em infraestrutura de IA, semicondutores, energia e manufatura nos Estados Unidos.
Mas al-Nahyan não é apenas um empreendedor de tecnologia. O jornal inglês The Guardian o definiu como “articulador, financiador e chefe de espionagem”. Como autoridade de segurança, ele transformou o país em uma referência em tecnologia de vigilância.
Foi sob sua gestão que floresceu o Projeto Raven, operação de espionagem ligada à estatal emiradense DarkMatter. Em 2019, uma investigação da Reuters revelou que a empresa contratou ex-agentes da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a NSA, para espionar dissidentes, ativistas e jornalistas a mando da monarquia dos Emirados Árabes.
Além de conselheiro do governo, al-Nahyan preside o conselho do International Holding Group, uma holding sediada nos Emirados Árabes Unidos avaliada em mais de 200 bilhões de dólares. Ela é a segunda corporação mais poderosa dos países do Golfo, atrás apenas da petroleira Saudi Aramco.
Em resposta aos questionamentos enviados pelo Intercept, Remígio e Sousa confirmaram o contato com Vincent Reed, mas negaram a existência de quaisquer reuniões com equipes ligadas à campanha de Trump. Eles também afirmaram que a empresa não oferece serviços de manipulação política ou deepfakes.
Sousa confirmou que é CEO da Elytron para Europa, Oriente Médio e África, mas que não têm cargo no Brasil. Remígio disse ser o co-CEO na Elytron para a mesma região, mas ressaltou que essa empresa é diferente da que existe no Brasil. Leia a resposta de Sousa e Remígio na íntegra.
Procurado pelo Intercept, Renzo Gracie disse que Leandri e Ludgero são seus sócios na empresa Lerco Consulting e amigos pessoais, mas que ele não possui relação com a Aleria ou com a Elytron. Leia sua resposta na íntegra.
Eric Leandri não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O espaço segue aberto.
Em resposta enviada ao Intercept após a publicação da reportagem, a Elytron informou que Remígio e Souza “são parceiros comerciais independentes, cuja relação com a Elytron brasileira se limita à prospecção e indicação de oportunidades de negócios, mediante remuneração por comissionamento”.
Atualização: 16 de outubro de 2026, 17h15
O texto foi atualizado para incluir o posicionamento da Elytron, enviado após a publicação da reportagem.