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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Xadrez do Brasil sob o perigo Flávio Bolsonaro: como terminaria a democracia, por Luís Nassif

 

Quem vencer em 2026 indicará três novos ministros ao STF. Se Flávio for eleito, a sequência é óbvia, seguindo o modelo [de aparelhamento e controle] de Orbán na Hungria.

Do Jornal GGN:


Xadrez do Brasil sob Flávio: como terminaria a democracia, por Luís Nassif

    Reprodução

Peça 1 — A hipótese: um Brasil governado por Flávio Bolsonaro

Imagine o Brasil a partir de 2027, sob um governo Flávio Bolsonaro, apoiado por maioria no Congresso e por uma nova composição no Supremo Tribunal Federal. E sob o controle da mesma família que assegurou que, para parar o Supremo, bastaria um cabo e um soldado.

(1) O mercado e o crime organizado

A flexibilização regulatória iniciada por Roberto Campos Neto (2019-2024) não será revertida — mas aprofundada. As fintechs que a Operação Carbono Oculto e as operações da Polícia Federal (Quasar, Tank, Fluxo Oculto) mostraram serem dutos de lavagem de dinheiro do PCC continuam operando sob supervisão frouxa. Sem reforço de capital mínimo e de fiscalização, o mesmo modelo que produziu o rombo do Banco Master e a infiltração de R$ 52 bilhões do crime organizado na Faria Lima seguirá de pé — e sem correção, tenderá a se repetir em escala maior.

(2) A perda de soberania

O veto à TerraBras, a aquisição da Serra Verde pela americana USA Rare Earth e o vácuo de controle sobre o capital estrangeiro no setor mineral (temas do PL 2780/2024) deixam de ser exceção para virar política de Estado. Um governo alinhado a Washington, no contexto de pressão coercitiva americana já em curso na região, tende a acelerar a entrega de reservas estratégicas de minerais críticos — moeda de troca disponível diante da escalada que já levou à intervenção na Venezuela. Petróleo na foz do Amazonas, reservas conhecidas e não conhecidas de terras raras, tudo ficará nas mãos de grupos norte-americanos ou grupos financeiros associados ao capital internacional. Acaba o sonho de Brasil nação. Flávio já prometeu a Marco Rubio a participação dos EUA nos planos de governo, o que significa acesso a todas as informações estratégicas nacionais.

(3) O fim da preservação ambiental

Sem meta climática no programa de governo (o plano registrado no TSE não menciona Acordo de Paris, desmatamento ou transição energética) e com o próprio candidato relativizando a existência do aquecimento global em sabatina pública, a política ambiental federal se resumirá à liberação já em curso no Congresso: redução de unidades de conservação (caso Flona do Jamanxim, -37%), Marco Temporal aprovado, mineração liberada em terra indígena.

E os grandes desastres climáticos irão se repetir por todo o país. Globalmente, será a falência do Acordo de Paris, trazendo riscos crescentes à vida no planeta.

(4) O desmonte das grandes estatais

Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal entram formalmente na mesa de negociação. Flávio já declarou que dará “continuidade ao que o Paulo Guedes começou”; aliados mais à direita do espectro bolsonarista (caso Sergio Moro) já defenderam abertamente privatizar Petrobras e todos os bancos públicos, sem a ressalva que o próprio Jair Bolsonaro mantinha para BB e Caixa.

(5) A mudança de regime democrático

Com ao menos 3 indicações ao STF garantidas por aposentadoria natural até 2030 (Fux, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes), somadas aos 2 ministros já indicados por Jair Bolsonaro, mais a possibilidade — com precedente formal na PEC Collor de 2013 — de ampliar o número de cadeiras da Corte para fechar maioria antes disso, o desenho institucional que sustenta o Estado de Direito passará a operar sob o controle de um único campo político. Como mostra a literatura sobre “autocratic legalism” (Hungria, Turquia), não haverá necessidade de um golpe tradicional: a mudança passará por PEC aprovada, indicação constitucional e decisão fundamentada, capturando, com o STF, também o TSE, que tem 3 de seus 7 assentos ocupados por ministros do Supremo.

Peça 2 — Explicando os grupos que apoiam Flávio

(1), (2) e (4) A Faria Lima: pela volta da flexibilização total — e pela escalada de pressão americana

A gestão de Campos Neto (2019-2024) abriu o sistema financeiro por meio da expansão das categorias de instituições de pagamento e fintechs (arcabouço da Lei 12.865/2013), com relaxamento de exigências de capital para entrantes menores. Foi nesse ambiente que o Banco Master, sob Daniel Vorcaro — que visitou o BC ao menos 24 vezes durante o período, segundo a Revista Fórum —, encontrou espaço para expansão meteórica com CDBs a até 150% do CDI.

A Operação Carbono Oculto (MPSP, ago/2025) revelou R$ 52 bilhões movimentados pelo PCC via 42 empresas da Faria Lima, com R$ 30 bilhões aplicados em 40 fundos. Simultaneamente, a Polícia Federal — em operações distintas e específicas, a Quasar e a Tank — cumpriu mandados na própria Avenida Faria Lima; a decisão judicial que autorizou a Quasar aponta a Reag Investimentos (R$ 299 bilhões sob gestão, maior gestora de patrimônio do país) como “principal responsável pela ocultação de valores sem origem”.

Dos 14 mandados de prisão expedidos, só 6 foram cumpridos — a PF abriu apuração interna sobre possível vazamento. Uma nova fase, a Fluxo Oculto (mai/2026), mostrou que o esquema seguiu ativo com seis novas fintechs e R$ 26 bilhões movimentados. Entre os nomes: Maurício Quadrado, ex-Bradesco e ex-sócio do Banco Master, sócio das administradoras Trustee e Banvox, ambas alvo da Quasar — o mesmo operador circulando entre o caso Master e o caso Faria Lima/PCC.

A grande questão é que essa flexibilização abre espaço para o crime organizado, mas também aumenta os lucros do mercado.

XP, BTG e Nubank foram as três maiores distribuidoras de CDBs do Master na liquidação (XP ≈ R$ 26 bi, BTG ≈ R$ 6,7 bi, Nubank ≈ R$ 2,9 bi, de um total de R$ 41 bi garantidos pelo FGC). O ganho documentado aqui é receita de distribuição — comissão sobre volume vendido a varejo —, não lucro direto com a fraude, que não está demonstrado.

No caso Americanas, bancos (Itaú, Bradesco, Santander, Safra, BTG) financiaram via risco sacado uma operação que mascarava R$ 25,3 bilhões de dívida; a CVM acusou formalmente 8 ex-executivos por venda de mais de R$ 200 milhões em ações antes da revelação da fraude (out/2024).  Ganharam comissões emprestando às Americanas e, depois, vendendo ações da empresa, em cima de balanços falsificados.

No plano da soberania, os EUA invadiram a Venezuela e capturaram Maduro (jan/2026); o Departamento de Estado classificou PCC e CV como ameaças regionais (mar/2026); essas facções podem ser designadas organizações terroristas — o que abriria caminho para sanções financeiras extraterritoriais sobre instituições que operem com elas, ainda que involuntariamente, via fintechs contaminadas. 

É esse parte do  interesse real e verificável da Faria Lima em relação ao cenário americano.

De um lado, sabe que um mercado financeiro que pode ser alvo de sanções americanas por sua própria exposição ao PCC tem interesse direto em um governo alinhado a Washington, capaz de negociar politicamente essa exposição em vez de enfrentá-la como adversário. Na verdade, a caracterização como organização terrorista visa unicamente abrir espaço para uma futura intervenção norte-americana no país, com intenção política clara. O mercado prefere a rendição ao enfrentamento. Por outro lado, as grandes tacadas norte-americanas sobre os ativos brasileiros sempre terão na ponta fundos de investimento associados a fundos nacionais.

Finalmente, o desmonte das estatais abre enormes possibilidades de negócios.

(3) Agro e mineração: pelo fim das restrições ambientais

Em agenda no Pará, Flávio defendeu pessoalmente a flexibilização do licenciamento ambiental para agronegócio e mineração, no mesmo momento em que estava no centro do escândalo do Master.

A Câmara aprovou, na “Semana do Agro”, o PL 2.486/2026 (reduz ~37% a Flona do Jamanxim) e outros textos que liberam desmatamento em vegetação nativa e dificultam a fiscalização — tramitação discreta, no mesmo período em que a atenção pública estava no Master.

O PL 490/07 (Marco Temporal) e o PL 191/2020 (mineração em terras indígenas) seguem como prioridade da bancada ruralista; aliados avaliam que a aprovação do Marco Temporal pode reduzir a rejeição eleitoral do campo bolsonarista.

Em 2022, coube ao próprio Flávio — “Zero Um” — articular a arrecadação de doadores do agronegócio para a campanha do pai: mais de R$ 9 milhões entre empresários do setor, dos quais R$ 10,7 milhões vieram de fazendeiros e executivos respondendo a acusações de crimes socioambientais (grilagem, desmatamento, sobreposição em terra indígena, trabalho escravo).

(1), (2) e (4) Grupos de mídia: pela subordinação ao mercado financeiro

Peça 3 — Como terminaria a democracia no Brasil

Quem vencer em 2026 indicará ao menos 3 novos ministros ao STF por aposentadoria natural: Fux (abr/2028), Cármen Lúcia (abr/2029), Gilmar Mendes (dez/2030) — somados aos 2 já indicados por Bolsonaro (Mendonça, Nunes Marques), chegando a 5 de 11 ao final do mandato, ainda sem maioria absoluta e só a partir de 2028.

Se Flávio for eleito, a sequência é absurdamente óbvia, seguindo o modelo de Orbán na Hungria..

Como a democracia terminou (ou quase) com Orbán e outros autocratas — passo a passo

Passo 1 — a maioria qualificada que a lei eleitoral amplificou. Em 2010, o Fidesz venceu as eleições com maioria simples de votos, mas a lei eleitoral então em vigor transformou isso em maioria de dois terços no Parlamento — o suficiente para alterar a Constituição sozinho, sem precisar de nenhum outro partido. Esse é o ponto de partida técnico de tudo o que veio depois: sem os 2/3, nada do resto seria possível pela via legal.

Passo 2 — velocidade e volume como estratégia. Nos cinco anos seguintes, o partido aprovou mais de mil leis, a maioria “depois de apenas algumas horas de debate” — a ponto de deputados do próprio Fidesz não saberem o que estavam votando. A velocidade tem uma função: satura a capacidade de reação da oposição, da imprensa e da sociedade civil.

Passo 3 — nova Constituição (2011-2012). Com os 2/3 garantidos, o Fidesz substituiu a Constituição por uma nova (o “Alaptörvény”), criticada pela UE e pela sociedade civil húngara — um eurodeputado a chamou de “cavalo de Troia” de um sistema autoritário.

Passo 4 — captura do Tribunal Constitucional. O tribunal foi colocado sob controle do partido: ampliação do número de juízes, todos indicados pela maioria parlamentar, e redução formal dos poderes da própria Corte.

Passo 5 — reforma eleitoral recorrente. A lei eleitoral e os distritos foram redesenhados várias vezes, sempre a favor do partido no poder — mudança de quocientes, remapeamento de distritos. O resultado: eleições continuaram sendo livres, mas deixaram de ser equitativas.

Passo 6 — captura da mídia. Concentração de veículos privados sob propriedade de aliados (via uma fundação, a KESMA, que reuniu centenas de outlets em 2018), asfixia de mídia independente por falta de publicidade estatal e pressão regulatória. No caso brasileiro, não haveria resistência da parte da mídia corporativa

Passo 7 — captura da autoridade eleitoral. O órgão que administra as eleições passou para controle de indicados do partido.

Passo 8 — perseguição a universidades e sociedade civil. Caso mais visível: a Universidade Centro-Europeia (fundada por George Soros) foi expulsa do país por lei específica; ONGs financiadas do exterior foram alvo de legislação restritiva.

Passo 9 — clientelismo institucionalizado. Entre € 3,2 e € 5,5 bilhões em fundos europeus foram direcionados a uma rede de empresas ligadas ao círculo de Orbán (destaque para o oligarca Lőrinc Mészáros) — a corrupção deixou de coexistir com o Estado de Direito degradado e passou a ser o próprio uso do Estado.

Passo 10 — o nome dado ao próprio regime. Em 2014, Orbán chamou publicamente seu projeto de “democracia iliberal” — um raro caso de autocrata descrevendo o próprio método sem eufemismo, antes de trocar o termo por “democracia cristã”.

Resultado, segundo a Freedom House: a Hungria virou o primeiro país da União Europeia classificado como apenas “parcialmente livre”.

domingo, 6 de setembro de 2026

A estratégia de André Mendonça e dos jornalões/mídias pró-golpistas, por Luís Nassif

 

A imprensa tratará de ocultar as suspeitas sobre Mendonça enquanto alimenta a fogueira contra Moraes, Gonet e Rodrigues.


Do Jornal GGN:


A estratégia de André Mendonça e dos jornalões, por Luís Nassif


    Reprodução Youtube


O criminalista Daniel Bialski já defendeu Michelle Bolsonaro, Cláudio Castro, Onyx Lorenzoni, Milton Ribeiro e Carla Zambelli. É o advogado preferido pelo bolsonarismo. Ele foi contratado por Vorcaro para reabrir as chances de uma delação premiada.

Em meados de agosto, Bialski realizou uma reunião oficial com o ministro André Mendonça. No mesmo horário em que Vorcaro tinha uma oitiva agendada com a Polícia Federal, a administração da Papudinha — o presídio onde ele se encontra — armou uma arapuca: informou falsamente à PF que o sistema de transmissão não estava funcionando. Simultaneamente, foi prestado depoimento a João Azambuja, juiz auxiliar do gabinete de Mendonça. Nessa oitiva, Vorcaro fez referências a viagens e despesas supostamente pagas em favor de Andrei Rodrigues, chefe da PF, sem apresentar provas.

Há duas estratégias que se completam.

Do lado de Vorcaro, a delação é a única saída. No instituto da delação premiada, só são aceitos acordos de quem aponta responsabilidades no andar de cima, isto é, de seus superiores. Como Vorcaro era o cabeça do esquema, quem seriam esses superiores? A saída encontrada foi implicar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro Alexandre de Moraes.

A segunda estratégia insere-se na guerra híbrida em curso, promovida com a interferência do Departamento de Estado norte-americano. A jogada de Mendonça ao exigir um relatório da PF sobre Alexandre de Moraes, atropelando os procedimentos praxe para jogar lama no ventilador, visou implodir todo o sistema de Justiça — a última trincheira institucional contra o golpismo. Não é por outro motivo que o acordo foi selado entre Mendonça e um advogado estreitamente ligado ao bolsonarismo – para surpresa dos demais advogados, do escritório Leonardo, banca respeitada em Belo Horizonte.

O papel dos jornalões

A análise da cobertura da imprensa reforça a ideia da subordinação dos grupos de mídia à pressão do Departamento de Estado.

Há dois temas em pauta. De um lado, as denúncias que expõem os encontros de André Mendonça com Daniel Vorcaro na sede do ITER e as suspeitas sobre contratos firmados com empresas do ex-banqueiro. De outro, os escândalos — ainda sem provas — armados por Vorcaro contra altas autoridades.

Tome-se a home dos três principais jornais no final da tarde de ontem

Pouco importa o desfecho desse imbróglio.

O Globo

Uma pequena nota na coluna à direita. Internamente menciona a reportagem de Paulo Motoryn no ICL.

Estadão

Nenhuma nota sobre o encontro,de Vorcaro e Mendonça.

Folha

Nenhuma nota a respeito do encontro.

Desfecho

Pouco importa a procedência das acusações; o objetivo é manter a fogueira acesa até as eleições. A imprensa tratará de ocultar as suspeitas sobre Mendonça enquanto alimenta a fogueira contra Moraes, Gonet e Rodrigues.

Repito o que escrevi ontem: se essas manobras derem a vitória a Flávio Bolsonaro, agosto de 2026 será o mês que entrará na história da imprensa brasileira, como o marco definitivo da traição final à democracia brasileira.


domingo, 3 de maio de 2026

Caso Alexandre de Moraes: a arte de mentir da mídia corporativa contando meia verdade, por Luís Nassif

 

Com base em duas informações - e no vício da repetição de notícias sem confirmação - formou-se o consenso.

Jornal GGN:

    Foto de Rosinei Coutinho - STF

O Ministro Alexandre de Moraes conspirou para que Jorge Messias não fosse aprovado pelo Congresso. Quem informou isso? Malu Gaspar, com base em 6 fontes. Aliás, a cada notícia nova, Gaspar aumenta o número de fontes. Mas, com base em 12 fontes, digo que a informação é incorreta (para ser elegante). Quem são minhas 12 fontes? Só digo quando a Malu revelar as suas, porque sigilo de fonte é sagrado.

Outros colunistas enveredaram pelo mesmo caminho, dentro do espírito de pool que contamina o colunismo de palpites. Bastam 2 repetições para o rumor tomar forma de verdade. 

Os pontos que ajudaram a formar a convicção:

* Moraes encontrou-se com Davi Alcolumbre na noite anterior à votação.

* Moraes comentou que Messias seria derrotado por 8 votos. Como poderia saber? Só se estivesse articulado com Alcolumbre.

Com base em 2 informações – e no vício da repetição de notícias sem confirmação – formou-se o consenso.

Hoje, Mônica Bérgamo descreve o jantar oferecido por Moraes em sua casa.

O título é para não fugir do espírito de pool da mídia: “Moraes faz jantar com Alcolumbre na véspera de derrota de Messias e Lula desconfia”. 

Mas o que diz a matéria: “Convidados afirmam que encontro, na verdade, homenageou Mário Sarrubbo, amigo de longa data do ministro, tinha apoiadores de Lula entre os presentes e que conversas giraram em torno de amenidades”.

Quem compareceu: “Além de promotores e procuradores, o magistrado convidou para o encontro pessoas que, amigas dele e de Sarrubo, são também próximas de Lula. Estiveram na casa dele o ministro do STF Cristiano Zanin, o superintendente da PF (Polícia Federal) Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski”.

Portanto, a mídia não mentiu quando disse que Moraes encontrou-se com Alcolumbre e soube que Messias seria derrotado por 8 votos. Não mentiu, mas não contou a verdade, Porque meia verdade é uma das formas de mentira.

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quinta-feira, 12 de março de 2026

Com a Lava Jato 2, junto ao terrivelmente evangélico bolsonarista, a volta também do criador das “pedaladas”fiscais. Leia o artigo de Luís Nassif

 

Volta o procurador de contas Júlio Marcelo de Oliveira, figura-chave no impeachment de Dilma, conduzido por Miriam Leitão, atacando Pochmann

Do Jornal GGN:

Com a Lava Jato 2, a volta do criador das “pedaladas”, por Luís Nassif


    Reprodução


É batata! A banda lavajatista da Polícia Federal deu o tiro de partida, municiando jornalistas bolsonaristas contra Ministros do Supremo Tribunal Federal. De repente, o foco do escândalo deixa de ser o Banco Master, com sua plêiade de governadores e políticos do Centrão, com a gestão Roberto Campos Neto, e passam a ser os contratos dos Ministros.

Agora, volta à cena política o procurador de contas Júlio Marcelo de Oliveira, figura-chave no impeachment de Dilma Rousseff, conduzido pelas penas de Miriam Leitão, que demorou um pouco para abandonar sua postura moderada, mas não resistiu aos velhos novos ventos. Segundo a matéria, “Procurador pede afastamento de Pochmann do IBGE e cita risco à credibilidade dos dados do PIB”.

Pochmann enfrentou conflitos internos no IBGE, por pretender transferir parte dos técnicos de um prédio alugado para um imóvel próprio, mas em região de transporte mais difícil. E também por pretender remodelar e modernizar o campo de pesquisas do órgão, algo que sempre incomoda técnicos acostumados por décadas com as mesmas tarefas. 

Segundo Míriam, “o procurador também salienta a importância dos dados do PIB no período eleitoral e a necessidade de evitar fraudes”. E continua: “Em um contexto de fragilidade institucional e volatilidade financeira, qualquer dúvida sobre a lisura dos principais indicadores nacionais pode desencadear efeitos sistêmicos graves, agravando a crise e ampliando os danos ao Tesouro Nacional”.

Depois disso, o dilúvio. Pochmann não foi ouvido, nem pelo procurador, menos ainda por Miriam. Não  analisaram as estruturas do órgão, a impossibilidade de qualquer manipulação e o que representa as tentativas de modernizar as estatísticas. Tudo virou suspeita de manipulação – campo em que Miriam deitou e rolou no período da Lava Jato, mas que parecia ter superado.

Júlio é um funcionário intrinsecamente político. No auge da campanha das “pedaladas” eu mesmo testemunhei um almoço dele com Marcos Lisboa, principal teórico do chamado “arco para o futuro”.

As tais “pedaladas” consistiam em empréstimos que governos centrais faziam de bancos públicos no decorrer do ano. E eram liquidados no final. Recorreram a essa prática Fernando Henrique Cardoso e Lula. Eram tratados como meros atrasos de pagamento entre Tesouro e bancos públicos, não configurando operação de crédito formal. 

Júlio passou a interpretar as operações como operações de crédito do banco para o governo, o que seria proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Em parceria com a mídia, “pedaladas fiscais” foram transformadas em algo tenebroso, quase uma loira no banheiro das questões fiscais. E foi essencial para o impeachment de Dilma Rousseff.

As mudanças no IBGE

Agora, volta a loira do banheiro.

Segundo Júlio, um  dos crimes de Pochamnn seria substituições de servidores de carreira em áreas técnicas estratégicas, como Contas Nacionais, “com a nomeação de servidores recém-ingressados e ainda em estágio probatório para funções de alta complexidade”.

Não é a primeira vez que Miriam Leitão acusa Pochmann de suspeita de provável futura manipulação de estatísticas, mostrando uma capacidade invejável de desenhar o futuro. Não foi capaz de entender a natureza das mudanças. Apegou-se ao discurso de um dos grupos da instituição, e o resto virou bandido. Simples assim.

Vamos tentar sofisticar minimamente a análise,

Há três grupos de atuação no IBGE.

1. Corpo técnico tradicional

É a corrente que dominou o instituto por décadas. São funcionários de carreira, com forte vínculo com redes internacionais de estatísticas, e defesa rígida da autonomia técnica das estatísticas nacionais. Tem forte presença nas áreas: Contas Nacionais, IPCA, PNAD e estatísticas estruturais. E incomodam-se, naturalmente, com mudanças, que tendem a mudar as relações hierárquicas do órgão.

2. Corrente ligada à presidência do IBGE

São técnicos com trajetória acadêmica ou administrativa externa, que defendem novos produtos estatísticos, maior diálogo com políticas públicas e criação da Fundação IBGE+, para permitir a intermediação de projetos de pesquisa, hoje soltos nas mãos de técnicos do instituto.

São técnicos da Unicamp, IPEA e centros de economia em desenvolvimento, quase todos funcionários de carreira do IBGE.

3. Corrente geotecnologia e de dados

São especialistas em: georreferenciamento,  big data,  satélites e registros administrativos

Essa corrente defende que o IBGE migre para modelos híbridos de estatística (survey + dados digital.

Com apoio de Pochmann, esse grupo pretende  a construção de um grande hub para análises preditivas, próprias para orientar políticas públicas. Análises preditivas são métodos estatísticos e computacionais usados para estimar o que provavelmente acontecerá no futuro, a partir de dados históricos e padrões observados.

O currículo dos técnicos

O que tem, como se observa, é uma tentativa de renovar os métodos do IBGE, que acaba tirando a tranquilidade dos técnicos mais antigos. Qualquer mudança passa, então, a ser tratada como tentativa de manipulação, dentro do processo de criminalização típico dos que Miriam Leitão praticou no período da Lava Jato e do impeachment.

Todos os técnicos que assumiram cargos no modelo tem carreira acadêmica respeitada e são funcionários de carreira do IBGE. E são especialistas em áreas até agora não tratadas pelo órgão.

O debate não é apenas sobre nomes — é sobre o modelo de estatística pública para as próximas décadas. 

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