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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Bandidos de Farda (2): Estupro, roubos, assassinatos - os crimes dos militares da ditadura escondidos por Cyro Etchegoyen. Reportagem 1 da série produzida pelo ICL com Juliana Dal Piva, Igor Mellor e Chico Otávio



2 - Crimes dos Bandidos de Farda

Do ICL:

Estupros, roubos assinatos: Os crimes da ditadura escondidos por Cyri Etchegoyn

POR JULIANA DAL PIVA, IGOR MELLO E CHICO OTAVIO

“Dr. Bruno – baixo, meio gordo, tipo sírio-libanês. Pareceu-me o oficial mais graduado do grupo (coronel). Defendeu tese na Escola Superior de Guerra, segundo me contou. É gaúcho”. Foi assim que a ex-presa política Inês Etienne Romeu descreveu o primeiro dos 20 homens que a violentaram por 91 dias na “Casa da Morte”, o maior cárcere clandestino da ditadura militar, localizado no morro Caxambu, em Petrópolis, região Serrana do Rio. Por mais de quatro décadas, o codinome “Dr Bruno” escondeu o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contra-Informações do gabinete do ministro do Exército no governo do ditador-presidente Emilio Garrastazu Médici. A atuação do coronel foi revelada por um antigo subordinado, o tenente-coronel Paulo Malhães, em 2014.  Só que, ao ser descoberto como um dos chefes do centro clandestino criado pelos militares para torturar e desaparecer com opositores, o coronel Cyro já tinha morrido. Ele morreu dois anos antes, em 2012, em decorrência de complicações de um AVC.


A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

 

O coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contrainformação do CIE na ditadura

Entre os documentos, obtidos com exclusividade, o coronel guardava, por exemplo, relatórios de monitoramento do presidente Lula, no fim dos anos 1970. Mas o documento mais perturbador é uma denúncia feita por um soldado do Centro de Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro, informando a existência de um estupro perpetrado, em 1969, por uma equipe de militares que atuava na área de operações e inteligência do CIE contra uma mulher que alugava quartos a integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). O crime aponta para a existência de uma nova vítima da ditadura, desconhecida quando o relatório da Comissão Nacional da Verdade foi finalizado em 2014. Na ocasião, foram reconhecidas 434 vítimas, das quais 210 desaparecidas.

No arquivo de Cyro Etchegoyen estava ainda uma apostila que detalha um curso de interrogatório feito por ele, em dezembro de 1970, na Inglaterra, a convite do próprio governo inglês. No documento, é possível verificar a indicação para a construção de locais isolados, nos quais os presos são levados vendados e após técnicas de desorientação.

Essas duas primeiras histórias você conhecerá neste domingo e as demais serão publicadas nos próximos dias até à estreia do documentário “Bandidos de farda”.

O coronel Cyro tinha relatórios que registravam metodicamente sistemáticos roubos de móveis, objetos e dinheiro feitos por militares nas casas e apartamentos em que prendiam pessoas. Segundo o soldado Israel Sturne, o produto do roubo era levado para os escritórios do CIE, um dentro do Palácio Duque de Caxias e outro que ficava em prédio da Avenida Presidente Vargas. Havia ainda um apartamento que, de acordo com o militar, era utilizado pelos agentes para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”.

O coronel Cyro Etchegoyen com o ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1967

O coronel tinha em seu poder um extenso relatório informando como foi o trabalho para o planejamento de operações que resultaram em prisões e assassinatos de diversos opositores políticos entre 1969 e 1974, período em que ele esteve no CIE. No documento, os militares nomeiam e dão detalhes inéditos da atuação de dois agentes infiltrados que a ditadura colocou dentro das organizações de luta armada. A documentação ainda aponta que o Exército teve, até 1974, ao menos 30 agentes infiltrados. Desses, pelo menos seis no exterior, entre Argentina, Chile e Uruguai. No documento, a maioria é apresentada por meio de codinomes. Não é possível saber se são militares treinados ou ex-integrantes dos grupos de resistência que trocaram de lado.

O coronel Cyro Etchegoyen no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul

O arquivo inédito também possui uma caderneta empoeirada de 83 páginas na qual o coronel expõe os gastos com todo o planejamento de várias operações que resultaram em assassinatos. Um cruzamento de informações feito pelo ICL Notícias entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com os dados produzidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos encontrou pagamentos no total de R$ 1 milhão para cerca de 30 ações militares que resultaram em mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O registro dos pagamentos, que inclui a indicação de um centro clandestino de tortura, desconhecido até aqui, também aponta para o controle e a prestação de contas que era feito dentro do gabinete do então ministro do Exército, Orlando Geisel. Os dados reforçam as informações existentes do controle da cúpula da ditadura sobre os crimes do período, conforme também ficou registrado em um memorando da CIA de 11 de abril de 1974. No documento do governo dos EUA, é descrita uma reunião em 30 de março daquele ano na qual os ex-ditadores-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo discutem com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do Exército (CIE), à época, a manutenção da política de assassinatos e desaparecimentos desenvolvida no governo Médici. Na ocasião, eles registravam 104 mortes de opositores.

O próprio coronel Cyro, ainda em 1994, tinha apontado para essa proximidade da cúpula em relação às decisões do gabinete. “Eu cansei de ver assuntos do CIE irem direto para o presidente da República. Não que não tenham ido ao SNI. Mas eram tão importantes que o general Orlando Geisel (ministro da Justiça) os levava direto ao gabinete do presidente, e lá se encontrava também com o chefe do SNI”, afirmou Cyro, em uma entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon Soares, publicada no livro “Os anos de chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. Cyro Etchegoyen não costumava receber jornalistas ou pesquisadores. Esse é o único registro de declarações públicas dele em vida.

E foi por meio de uma cópia dessa entrevista que o ICL Notícias também averiguou a veracidade desse arquivo. No meio dos documentos, há uma carta manuscrita da professora Maria Celina com a cópia da entrevista entregue por ela em 1993 para o coronel Cyro, pouco antes da publicação do livro. A pesquisadora reconheceu a cópia da carta e lembrou da entrevista. “Todos eram muito educados. Eu acho que é parte até da masculinidade e a parte do machismo, você ser educado com uma dama. Ele não me chamou a atenção, assim em termos de ser uma pessoa que tivesse vaidade de falar sobre seus feitos, do ponto de vista do que foi a repressão. Bem, porque ele negava. Ele negava que tivesse havido uma repressão nos moldes que os presos políticos falavam. Ele negava a tortura, por mais que a gente tentasse saber detalhes. Mas ele vai falar sempre de uma forma muito orgulhosa do trabalho deles. Isso era uma coisa que me impressionava. Era o orgulho que eles tinham de falar da contribuição que eles tinham dado para o golpe de 64, para a ditadura, para ter combatido o comunismo”, conta a pesquisadora. Sobre a apostila do estágio na Inglaterra, Maria Celina pontuou a importância da descoberta. “Quer dizer, obviamente que o governo inglês não faz um convite assim… ó, vem aqui. Ele faz um convite a partir de uma conjuntura. Deve ter havido negociações anteriores”, explica.

Cerca de um mês depois do retorno do coronel Cyro da Inglaterra, ele coordenou a criação da “Casa da Morte” em moldes semelhantes ao que descreveu ter aprendido no curso. “A tortura era uma política de Estado. A gente se diferencia dos países da América Latina, porque de fato a gente vai ter um grupo específico a frente dessas ações”, explica Samantha Quadrat, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. “Eles se beneficiavam economicamente, seja através das pilhagens (roubos) que eram feitas, mas também porque eles tinham boas gratificações nessa atuação. Eles recebem as melhores promoções. Eles tinham uma série de benesses para estar atuando ali e eram homens formados para aquilo. Havia uma ciência ao redor daquilo”, completa.

Há ainda uma lista com 73 nomes de integrantes do CIE, dos quais a metade recebeu a Medalha do Pacificador com Palma naquele período, revelando uma série de novos potenciais integrantes das ações da repressão da ditadura.

Cyro, o "dr. Bruno"

Cyro nasceu em 1929 e é filho de Alcides, o patriarca do Etchegoyen. Nasceu na fronteira entre o Brasil e o Uruguai a ponto de inspirar entre seus conhecidos uma certa lenda sobre se era brasileiro ou uruguaio. Torcia pelo Fluminense, não costumava beber, mas manteve até os últimos dias, em 2012, o hábito de fumar. Guardava consigo quatro armas: uma pistola .38, uma Beretta 22 e duas Magnum, uma .48 e outra .45.

Pertence a uma longa família de militares. O primeiro Etchegoyen militar é o pai: Alcides. Ele  aderiu à chamada Coluna Relâmpago, em 1926, e tentou um levante em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, contra a posse do presidente Washington Luís. Depois, apoiou o movimento que levou Getúlio Vargas ao poder e cresceu na carreira. Em 1942, substituiu Filinto Müller na chefia de Polícia Civil do Distrito Federal — o mesmo Müller que havia prendido e entregado à Gestapo de Hitler a judia alemã Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, então grávida, que foi executada na câmara de gás do campo de extermínio de Bernburg. Alcides foi promovido a coronel e passou a perseguir o jogo do bicho e a prostituição, além de dar continuidade à repressão dos opositores políticos do governo.

O general Sérgio Etchegoyen ( esquerda) e o patriarca Alcides (direita); e os irmãos Cyro e Leo Etchegoyen (Crédito: Arte/ ICL Notícias). Sérgio é filho de Leo e sobrinho de Cyro.

Nos anos 1950, Alcides se envolveu em novas conspirações. Em agosto de 1954, assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas  e acabou preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor o presidente interino Carlos Luz. Naquele mesmo ano, Alcides também se somou aos que tentaram barrar a posse de Juscelino Kubitschek. Um ano depois, morreu de infarto fulminante e não chegou a ver a ascensão militar dos filhos Cyro e Léo. Ambos seguiram a carreira militar e despontaram com a ascensão dos militares após o golpe de 1964.

Em março e abril de 1964, o envolvimento pessoal de Cyro foi decisivo. Ele estudava na Escola do Comando do Estado Maior e lá integrou as articulações do golpe. Quando as tropas do general Olímpio Mourão deixaram Juiz de Fora rumo ao Rio, Cyro ajudou a proteger o governador Carlos Lacerda, simpático à ideia dos militares derrubarem o presidente João Goulart. Nesse alinhamento de forças, encontrou o então tenente Freddie Perdigão Pereira, que guardava a entrada do Parque Guinle, no bairro de Laranjeiras, com cinco tanques M-41 inicialmente disponibilizados para proteger Goulart. Com o desenrolar dos acontecimentos, Perdigão foi convidado a trocar de lado. Hesitante, negociou com seus subordinados e, horas depois, saiu com quatro tanques em direção ao Palácio Guanabara. O major Cyro Guedes Etchegoyen liderou o comboio dirigindo um Volkswagen. Discursos e fotos se seguiram, com o governador Carlos Lacerda bradando sobre o que chamou de “salvação do Brasil e a de si próprio”.

Naquele mesmo ano, em junho de 1964, Leo, então chefe da polícia gaúcha em Porto Alegre, recebeu o policial norte-americano Dan Mitrione, especialista em torturas e responsável no Brasil do Office of Public Safety (OPS), braço da CIA que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Os dois posaram para fotos na escadaria do Palácio da Polícia. A primeira visita de Mitrione a Porto Alegre havia ocorrido entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro de 1964, com um curso de 30 horas intitulado “Supervisão e operações de patrulhamento”. Mitrione voltou no mesmo ano, dois meses após o golpe, para um curso de 25 horas sobre “Técnica de patrulhamento”, entre os dias 19 e 26 de junho.

Ao longo dos anos seguintes, Cyro subiu na hierarquia militar. Em 1967, foi adido militar no Paraguai e chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner, que comandou aquele país entre 1954 e 1989 e deixou mais de 3 mil pessoas assassinadas no período. Na sequência do crescimento, veio o convite ao CIE.

Sete anos após o golpe, era um dos chefes do órgão e foi chamado para dar início ao trabalho de contra-informação.  Sediado no 8º andar do Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro, onde ficava também o Quartel General do I Exército, o CIE centralizou algumas das principais ações para prender e assassinar lideranças dos grupos de oposição à ditadura. Junto com outros oficiais do gabinete do ministro do Exército, Cyro tornou-se expoente do trabalho de segurança, espionagem e repressão. Ele passou à reserva em 1983 e morreu em 2012.

O último dos Etchegoyen a ser conhecido publicamente é o sobrinho de Cyro, general Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Michel Temer, entre 2016 e 2018.

Nota Instituto Fernando Santa Cruz

Há histórias que o tempo tenta enterrar, guardadas em arquivos “reservados”, escritas com a frieza burocrática de quem transformou o terror em rotina, reduzidas a números em relatórios de “subversivos postos fora de circulação”. Há famílias que resistiram ao silêncio imposto pelo Estado, guardando memórias como brasas acesas. Há o heroísmo dos que disseram não, que escolheram a consciência em vez da ordem e desapareceram sem túmulo, sem despedida, sem fim. Foi Juliana Del Piva e a equipe do ICL quem foram até essas famílias, quem os ouviu, quem reconstituiu os fatos com a coragem de quem sabe que a verdade, quando finalmente encontrada, dói e liberta ao mesmo tempo. Este trabalho não é apenas uma séri de reportagens. É um ato de resistência, de reparação e de memória viva.

​O Instituto Fernando Santa Cruz – IFSC apoia de forma incondicional este trabalho e estende esse apoio a cada família que abriu suas portas e suas feridas para que ele existisse. O IFSC leva o nome de Fernando Santa Cruz, estudante, militante, pai, desaparecido político desde 1974, cujo corpo o Estado jamais devolveu à sua família. Levamos seu nome não como símbolo de dor, mas de luta: pela memória, pela verdade e pela justiça que ainda está por vir. O IFSC teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos. Cada família encontrada confirma que a história não pertence aos que tentaram apagá-la, ela pertence aos que sobreviveram para contá-la. Acreditamos, com toda a força de nossa missão, que um país que não enfrenta o seu passado não apenas o repete, mas o legitima. Nunca mais!

Instituto Fernando Santa Cruz-IFSC
Memória, Verdade e Justiça

Bandidos de Farda (1): Reportagem de Juliana Dal Piva, Igor Mellor e Chico Otávio, do ICL, sobre ss Crimes dos Militares e a Sanha Golpista dos fardados nos arquivos de Etchegoyen

 



1 -  Bandidos de Farda

do ICL:

Britânicos ensinaram à ditadura brasileira técnicas e estratégia para montar a ‘Casa da Morte’

POR JULIANA DAL PIVA, IGOR MELLO E CHICO OTAVIO

Cerca de um mês depois de retornar de um “estágio de informações” na Inglaterra, em dezembro de 1970, o então chefe da seção de contrainformações do gabinete do ministro do Exército durante a ditadura militar, coronel Cyro Guedes Etchegoyen, liderou a criação de um centro clandestino de tortura e assassinatos na região Serrana do Rio que ficou conhecido como “Casa da Morte de Petrópolis”.  Documentos inéditos produzidos por ele e outros três militares contam que o estágio foi feito após um “convite do governo inglês” e mostram detalhes de como os quatro aprenderam com britânicos do MI-5 técnicas e estratégias para criar um “centro de interrogatório próprio, em lugar afastado e isolado”, onde o preso chegaria de capuz e ficaria “incomunicável, isolado do mundo”, para quebrar a resistência da vítima.

Além disso, Etchegoyen e os colegas que fizeram o curso registraram que os militares britânicos “demonstravam compreensão, não crítica” em relação aos casos de tortura denunciados no Brasil durante a ditadura. Os ingleses ensinaram Etchegoyen que o melhor para um interrogatório é que ele seja longo e extenuante. “Em princípio, o preso não dorme ou lhe é permitido cochilar (sempre levado à cela) por cerca de dez minutos (o melhor processo) e depois volta a ser interrogado. Um exemplo de resistência é um interrogatório que durou 58 horas seguidas, sem nenhum intervalo”, registraram os militares brasileiros no relatório.

De acordo com os papéis, de 14 a 19 de dezembro de 1970, estiveram no Reino Unido o coronel Milton Machado Martins, do SNI, e o tenente-coronel Cyro Etchegoyen, do CIE. De 15 a 26 de fevereiro de 1971, foi a vez dos tenentes-coronéis Moacyr Coelho, do SNI; e Milton Masselli Duarte, do CIE. “A visita foi exclusiva para oficiais brasileiros, os quais foram considerados hóspedes oficiais do governo inglês”, informaram os militares no relatório.

O “Relatório do Estágio de Informações na Inglaterra” faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte dos documentos do coronel Cyro foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Trechos do relatório feito pelos militares sobre o estágio de interrogatório realizado na Inglaterra em dezembro de 1970

A Casa da Morte foi um aparelho clandestino mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro do Exército, na época. O local foi criado entre janeiro e fevereiro de 1971, durante o governo do presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici, período mais violento do regime. O centro funcionava em uma casa cedida por um alemão, aliado dos militares, no morro Caxambu, ponto isolado de Petrópolis, na região serrana.

Inês Etienne Romeu, militante da VPR, na 3ª Auditoria do Exército, em agosto de 1972.
Inês Etienne Romeu, militante da VPR, na 3ª Auditoria do Exército, em agosto de 1972 (Crédito: Arquivo pessoal cedido ao Arquivo do Estado de São Paulo)

Não há dados precisos sobre o número total de presos levados para o local, mas a ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu, ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), é considerada a única vítima a sair viva de lá, em agosto de 1971. Ao sair do local, ela relatou informações sobre as execuções de sete pessoas que foram reconhecidas pelo estado brasileiro como desaparecidos políticos porque seus corpos nunca foram encontrados e ainda mencionou dados sobre outros quatro opositores do regime que foram assassinados. Inês morreu, em 2015, aos 72 anos.

 Desaparecidos citados no depoimento de Inês sobre a Casa da Morte

 

A cientista política Maria Celina D’Araújo, professora da PUC-Rio, entrevistou o coronel Cyro entre 1992 e 1993, junto com o pesquisador Gláucio Ary Dillon Soares. O material foi publicado no livro “Os anos de chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. A entrevista de Etchegoyen  é o único registro de declarações públicas dele. Mas, na ocasião, ele não relatou sua experiência no curso.

Quem mencionou o envio de militares à Inglaterra, sem mencionar que Cyro foi um dos alunos, foi o coronel Adyr Fiúza de Castro. Ele foi um dos criadores do CIE, em 1967, mas deixou o órgão dois anos depois para assumir uma das posições de chefia do I Exército, no Rio de Janeiro, acumulando esse cargo a partir de 1972 com o comando do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI). “Nós cedemos umas dependências na Barão de Mesquita ao CIE para eles fazerem uma espécie de “cela preta” que aprenderam nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas o ClE tinha autonomia para trabalhar em qualquer lugar do Brasil. Eles tinham aparelhos especiais, não oficiais, fora das unidades do I Exército, para interrogatórios”, contou Fiúza, para os pesquisadores.

Ao verificar a apostila, a pesquisadora Maria Celina D’Araujo recordou a surpresa com que recebeu dos militares a informação dos cursos na Inglaterra, no início dos anos 1990, e avaliou o manual  produzido por Cyro como um novo instrumento importante de pesquisa sobre a colaboração dos ingleses com o governo ditatorial brasileiro. “Obviamente que o governo inglês não faz um convite assim…ó vem aqui. Ele faz um convite a partir de uma conjuntura. Devem ter havido negociações anteriores. E depois você convida alguém”, aponta.

Autor de “Segredos de Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil”, o cientista político João Roberto Martins Filho apontou o inédito manual escrito pelo coronel Cyro como a prova mais importante surgida até agora sobre a colaboração britânica com a ditadura brasileira.  O relatório “Estágio de Informações da Inglaterra”, com 165 páginas, descreve o programa cumprido por quatro oficiais brasileiros em unidades militares ingleses.

O objetivo foi o de receber “uma apresentação geral do Serviço de Informações Britânico (Bis) e do Serviço de Segurança Interna (Sv Seg Int ou MI-5), a fim de possibilitar a seleção de assuntos de interesse dos órgãos de informações brasileiros”. “Os britânicos, que sempre tiveram muito cuidado em esconder essa colaboração com o Brasil, vão ficar muito irritados ao descobrir que os brasileiros deixaram tudo escrito, detalhe por detalhe”, disse o professor Martins Filho.

"O capuz é o melhor processo"

As coincidências entre as técnicas de interrogatório, um dos capítulos do documento, e os fatos relacionados à Casa da Morte são amplas. Os ingleses ensinaram aos brasileiros que a localização do “centro” deveria ser um “segredo de estado”. Somente as chefias e as equipes deveriam conhecer a sua localização. O documento preconiza ainda que “só tem acesso livre ao centro os interrogadores e a guarda”, que os “interrogadores podem trabalhar à paisana” e que “não há arquivo e nem registro do centro”.

Um dos oficiais que fizeram o “estágio”, o coronel Cyro Etchegoyen, ocupava no período a chefia do Serviço de Contrainformações do CIE, e, segundo Inês Etienne Romeu e alguns de seus ex-subordinados, assumiu a gestão da “Casa da Morte” de Petrópolis. Era Etchegoyen quem definia os presos a serem conduzidos ao local e avaliava o resultado dos interrogatórios, por exemplo.

As condições espartanas das celas, com apenas um vaso sanitário e maca, “nada mais”, condizem com os relatos de Inês Etienne sobre os três meses passados na Casa da Morte. Além disso, os britânicos ressaltaram a necessidade de os deslocamentos do preso deveriam sempre obedecer às seguintes regras: andar algemado (com as mãos pra trás) e olhos vendados. Segundo Etchegoyen descreveu, a orientação foi de que “o capuz é o melhor processo”. Para completar as dificuldades, o deslocamento deveria ser feito em círculos para “perder a noção de tempo, distância e orientação”.

As condições descritas por Inês sobre seu deslocamento para a casa em Petrópolis foram bastante semelhantes. “Retiraram-me à força do hospital e jogaram-me numa caminhonete C-14 que estava estacionada no pátio do hospital. Deitada e com os olhos vendados, fui conduzida para uma casa que, com o decorrer do tempo, descobri situar-se em Petrópolis”, contou Inês.

O objetivo, ao deixar o preso incomunicável, isolado do mundo, em condições degradantes, era quebrar a resistência e a vontade para torná-lo um agente duplo, como foi tentado com a sobrevivente do aparelho do CIE. Pressões como deixar a vítima sempre alerta e com a  inatividade forçada, pouca alimentação, dominada por um sentimento de fracasso e de desconfiança dos companheiros, além da falta de notícias, estão entre os aspectos prescritos pelos britânicos no tratamento dos presos no centro. Etchegoyen descreveu que a orientação dos britânicos foi para que o preso não tivesse o básico. “Inicialmente, a alimentação (após a autorização do interrogador) deve ser péssima e água ruim”.

Carlos Alberto Soares de Freitas, o “Breno”, militante da VAR-Palmares, foi um dos primeiros presos políticos levados para a Casa da Morte. Ele desapareceu no Rio de Janeiro em 15 de fevereiro de 1971, no mesmo período em que os oficiais do CIE e do SNI recebiam as instruções sobre interrogatórios. O “estágio” recomendava a seleção de presos a serem conduzidos ao centro secreto, priorizando os que tinham informações relevantes a fornecer. O coronel Paulo Malhães, ex-CIE, que se dizia responsável pela organização da casa, revelou que a prioridade era escolher comandantes e chefes dos “grupos de fogo” das organizações da esquerda armada, como Breno e Inês.

Tortura como "geladeira", aprendida na Inglaterra

Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, João Roberto  Martins Filho disse que a técnica de tortura com o uso da “geladeira” foi outro ensinamento dos britânicos. Na “geladeira”, explicou, os presos eram expostos a mudanças bruscas de temperatura, a ponto de sentir frio extremo depois de períodos de forte calor. Esse tipo de sala foi citado por pelo menos 52 ex-presos políticos, a maioria torturada no Destacamento de Operações de Informações do Exército no Rio de Janeiro (DOI-I), na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, zona norte do Rio.

A introdução da geladeira é um dos temas abordados no livro “Segredos de estado: o governo britânico e a tortura no Brasil (1969-1976)”, no qual João Roberto Martins Filho investiga documentos britânicos que detalham o conhecimento e a colaboração do Reino Unido com a ditadura brasileira em relação a métodos de tortura. Na obra, o autor cita o depoimento do ex-preso político Álvaro Caldas, que escreveu “Tirando o capuz”. Caldas disse que ficou preso na geladeira do DOI por uma semana, “sujeito a mudanças de temperaturas e ruídos fortes”, só saindo de capuz para o banheiro.

O relatório produzido pelos militares brasileiros sobre o estágio na Inglaterra menciona salas com silêncio quase absoluto e, depois de certo tempo, a introdução de um pequeno silvo, constante e contínuo, que não permitia definir pulsações ou ritmo. “Aumenta-se ou diminui-se a temperatura do ambiente (de acordo com o clima) e coloca-se o elemento na posição mais incômoda possível. Normalmente, o interrogatório fica facilitado depois disso, mas já houve casos de necessidade de repetir todo o processo preparatório algumas vezes”, descreve o documento.

“O relatório é um dos documentos mais importantes já encontrados sobre as áreas de sombra do aparelho repressivo. É um raríssimo caso de relatório secreto sobre laços entre o aparelho repressivo brasileiro e aparelhos de outros países. Foi tão secreto que o sistema de espionagem americano não captou. Os americanos não conseguiram saber a origem de mudanças nos métodos de interrogatório. Muito menos as vítimas. Foi uma coisa ultrassecreta, que se concretizou na vinda de pessoas do Exército britânico para cá e a construção do que ficou conhecido como a geladeira”, afirmou Martins Filho.

Parte dos ensinamentos britânicos foi desenvolvida na violenta repressão às ações do Exército Republicano Irlandês (IRA), organização paramilitar que, no início dos anos 1970 lutava pela independência da Irlanda do Norte. Em agosto de 1971, segundo o professor Martins Filho, 16 “militantes do IRA” foram capturados, levadas encapuzadas para uma base secreta inglesa ao norte de Belfast (capital do país), sendo submetidas no local ao que se pareceu com “o experimento de um método terrível de tortura”, que acabaria denunciado mais tarde em um livro chamado “As cobaias”, de John McGuffin.

“Como no episódio, tudo indica que os britânicos queriam fazer antes um teste das instalações em algum lugar”, avalia o professor.

Dividido em 17 capítulos, o relatório leva o carimbo de “secreto” em todas as páginas. A “técnica de interrogatório” está no 11º capítulo. O documento também descreve detalhes sobre o sistema de segurança do Reino Unidos à época, conceitos de contra-informação e de contra-espionagem, sabotagem e seleção e adestramento de pessoal.

Na conclusão, os oficiais brasileiros relataram que os britânicos ensinaram estratégias para o enfrentamento das denúncias de tortura no Brasil levadas aos países desenvolvidos e demonstraram certo desconforto sobre a atuação das agências americanas. Etchegoyen escreveu que o interesse dos britânicos para o convite tinha, entre outras razões, uma “compreensão para com a campanha da tortura” e ainda uma “preocupação voltada específicamente para a Rússia, e agora também para Chile, Colômbia, Venezuela e Guianas”.

O relatório informa que, no estágio nas unidades secretas britânicas, eram proibidas anotações, “exceção aberta” para os quatro oficiais brasileiros”, fato que explica os dados detalhados que preenchem as páginas do relatório secreto.