Mostrando postagens com marcador crítica aos evangélicos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica aos evangélicos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de março de 2015

Teste de conhecimentos: Marx ou Jesus disse isso?



Você é bom em filosofia? Então, responda rápido cada questão do teste abaixo

Leonardo Sakamoto


Você consegue identificar qual dos dois personagens históricos disse isso?
marxjesus
Assinale a alternativa correta:
1) Não pensem que vim trazer paz. Vim trazer a espada. Vim causar a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra. Criar inimigos dentro da própria casa
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx
2) No final das contas, será muito difícil salvar um rico.
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx
3) Venda tudo o que tem e dê aos pobres. 
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx
4) Não importa o quanto você tem. Importa quem você é.
( ) Jesus de Nazaré
( ) Karl Marx
Respostas: 1) Jesus (Mateus 10: 34-39); 2) Jesus (Lucas 18:18-30); 3) Jesus (Mateus 19:21); 4) Jesus (Mateus 6: 19-21)
Resultados: Se você acertou todas, meus pêsames. Estes últimos tempos de intolerância e falta de diálogo devem estar bem pesados pra você, né?
Extraído do Blog de Leonardo Sakamato

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O fim do Estado Laico e os fundamentalistas do VINACC e "Consciência Cristã"




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Em nosso tempo instrumental de tecnologia avançada, mas de anulação do humano, do cooperativo em prol do competitivo, do consumismo em detrimento do construtivo e da dessacralização das relações humanas e da natureza, a reação fanática e fundamentalista surge como mais um sintoma de patologia social em que o atual capitalismo condiciona a muitos pois retira a possibilidade de maturação emocional e intelectual na luta pela sobrevivência em um mundo de crescente agressividade interpessoal.

 Pela falta de meios de formação emocional e mental apropriadas, muitas pessoas não conseguem amadurecer o suficiente para construir uma relação pessoal equilibrada com o ideal da divindade e esperam, diante das dores do mundo moderno, uma panaceia que venham tanto a lhes aliviar a dor quanto a valorizá-los, mesmo que simbolicamente, frente aos demais. Renunciando por vezes - pela falta de oportunidade de desenvolver-se plenamente enquanto ser pensante e autônomo - a própria liberdade, o fanático fundamentalista se sente ou se faz um "instrumento" ou acredita se tornar um instrumento nas mãos daquele a quem ele percebe como autoridade, ainda que seja um suposto líder de comunidade religiosa que contorce os dizeres de suas escrituras no modo mais politicamente conveniente aos seus interesses. Busca o "missionário", ao entregar o pensamento crítico ao líder, um apoio e uma "verdade" por vezes espetaculosamente apresentada e que lhe sirva de muleta psicológica, em ponto de segurança que esconda suas dúvidas íntimas, incertezas e inseguranças, as quais busca calar especialmente ao personalizá-las nos outros.

 O fundamentalista, pois, é um escravo que assim se faz pela renúncia do pensar autônomo em troca do que ele acha ser ganhos, imediatos (riquezas, sucesso, salvação) ou secundários (sentir-se aceito ou amado por iguais, etc.), ao mesmo tempo passa a ser intolerante a todo o pensamento diverso do seu e de sua comunidade por este ser um contraponto perigoso às suas crenças e verdades e assim o fanático se vê como soldado e guerreiro de uma "guerra santa" contra as diferenças que podem questionar suas verdades. Que Deus Pai acharia bom ter filhos que não soubessem discernir o certo do errado, dando a líderes e doutrinas a responsabilidade de decidirem por eles, muitas vezes criando contextos e situações de conflitos com seus outros filhos?

 Achando ter o poder e a missão de exorcizar pessoas e mesmo coisas que ele não aceita por não seguirem sua familiar e muitas vezes reducionista visão de mundo, o fundamentalista está sempre pronto a atacar os outros, acusando-os de serem possuidos pelo "demônio", não percebendo que este demônio muitas vezes habita primariamente em si mesmo e se faz visível nos outros por um fenômeno psicológico chamado de projeção do inconsciente...

  E não existe exemplo mais gritante deste fenômeno de projeção e consequente perseguição, coletivamente visto, do que no surrel Encontro para a Consciência Cristã, um evento evangélico que compete agressivamente com um outro mais equilibrado e antigo, chamado Encontro da Nova Consciência, que, ao contrário do dos evangélicos, se caracterizou exatamente pelo encontro ecumênico e diálogo entre correntes de pensamento diferentes, em uma atmosfera de fraternidade e equilíbrio, teólogos, filósofos e representantes de diversas correntes espirituais podiam dialogar fraternalmente com ateus, agnósticos, cientistas e pessoas dos mais diferentes misteres. Pois bem, para a grande maioria dos evangélicos do tal Encontro para a Consciência "Cristã" (na sua maior parte, constituída de pentecostais e neo-pentecostais, havendo, como se sabe, evangélicos melhor esclarecidos, amadurecidos e críticos dos exageros daqueles), todos os participantes do Encontro para a Nova Consciência são dominados pelo diabo e este encontro, então, tem de ser exterminado pelos missionários e esclarecidos evangélicos. Não há diálogo, não há fala, há discursos de perseguição.

  Vejamos um exemplo disto neste trecho de "artigo" do Pastor Ridalvo Alves da Silva no site do movimento-seita Consciência "Cristã":

É verdade que o evento emerge dentro do contexto do Nordeste do Brasil, especificamente na cidade de Campina Grande, no momento em que se realizava o VIII Encontro Esotérico intitulado Encontro para a Nova Consciência - Uma Cultura Emergente, como os organizadores a denominaram. Houve nesta conjuntura uma grande preocupação relacionada ao destino da Igreja Cristã Evangélica, pois ninguém havia se levantado até aquele momento para refutar e comparar em nível de reflexão teológica e apologética cristã os ensinos perniciosos que submergia a comunidade campinense como um todo atingindo já naquela época 48 eventos paralelos.

A perplexidade e angústia já haviam chegado ao coração de muitas pessoas reivindicando da Igreja Evangélica de Campina Grande uma tomada de posição firme quanto à invasão esotérica em nossa cidade. A princípio não se sabia como fazer para criar uma estratégia eficaz, não somente para combater os ensinos distorcidos da Nova Era, como também trazer diretrizes seguras para a comunidade quanto aos ensinos de uma Teologia Cristã sadia. Aconteceu somente em fevereiro de 1999 o I Encontro Para
a Consciência Cristã quando os alunos do Instituto Teológico Superior de Missões - ITESMI, sob a nossa direção, que dirigíamos pela orientação e urgência do Espírito Santo de Deus, aceitaram o desafio de enfrentar não somente as dificuldades de recursos financeiros, mas também de recursos humanos.

No início houve crítica, falta de compreensão e de ajuda por parte de muitos, porém, não era hora de olhar para as circunstâncias e sim exercer a fé em Deus que opera nas coisas impossíveis. Aí entra a disponibilidade do homem. Por isso, quero destacar a pessoa do pastor Euder Faber Guedes Ferreira, que nos instantes decisivos, acreditou plenamente na visão de Deus, que estava brotando, e largou seu emprego secular para se dedicar integralmente à grande causa prioritária do Reino de Deus. Quero trazer à memória de nossos caros leitores que foi muito difícil para implantarmos o I Encontro Para a Consciência Cristã, no entanto, o milagre aconteceu.

Não obstante, a razão do Encontro Para a Consciência Cristã não somente abrange a cidade de Campina Grande em seu contexto esotérico de evento anual, mas prepara a igreja contra os falsos ensinos que se alastram em nosso território nacional e também em outras regiões do mundo ocidental e oriental. O pluralismo religioso será certamente o maior desafio da Igreja Cristã neste novo milênio. Não temos dúvidas que por trás de tudo isto está o Império da religião ecumênica liderada pelo seu grande mentor, o Anticristo.

 Vê-se, pois, o quanto salta aos olhos a construção lógica e o grau de civilidade e de maturidade intelectual dos mentores do tal Encontro da Consciência "Cristã", não apenas na falta de adesão ao mandamento de Cristo de "Amar ao próximo", como na total falta de respeito com quem não partilha de suas idéias, em uma quase paranóia que abarca a proteção de um "mercado religioso" altamente lucrativo, baseado na cobrança de dízimos. Estranho ainda é essa expliticidade em se auto-denomiar de cristãos reais e agirem como egoístas mesquinhos com a "missão" de criticar e mesmo perseguir os demais. Por isso reflete o filósofo, teólogo e sociólogo Frei Betto, sobre os atuais fundamentalistas midiáticos:
"Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles! Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se considera revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes."
  Fanáticos intolerantes que se acham no direito de agredir o diferente e que se sentem ofendidos, "perseguidos" se aqueles a quem agridem ousarem criticar seu posicionamento hipócrita. Este comportamento farisáico foi bem discutido pelo psicanalista  e professor universitário da UEM, Dr. Raymundo de Lima, quando, eu seu artigo "O Fanatismo Religioso entre outros", destaca alguns de seus sintomas:


O fanático não fala, faz discursos; é portador de discursos prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso ou a inculcação política de idéias que poderá vir a se tornar ato agressivo ou violento, tomado sempre como revelação da "ira de Deus" ou "a inevitável marcha da história" ou, ainda, a suposta "superioridade de uns sobre os demais". Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da dialética, do discernimento da verdade, os discursos - especialmente odiscurso fanático - fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objetos de um desejo divinizado; servir ao desejo divino e à produção da repetição de algo já pronto, onde o retorno do recalcado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa ser destruído para reinar o Bem.
Os textos sagrados, tomados literalmente, fornecem a sustentação "teórica" do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não se dá ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda, contextualizá-lo, etc. O fanático tem certezae isso lhe basta. Creio porque é absurdo, já dizia Tertuliano. Certeza para ele é igual a verdade. (Segundo Popper, no campo científico, a certeza nada vale porque é "raramente objetiva: geralmente não passa de um forte sentimento de confiança, ou convicção, embora baseada em conhecimento insuficiente", já a verdade tem estatuto de objetividade, na medida em que "consiste na correspondência aos factos", na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. (Popper, 1988, p. 48).
 O problema da religião não é a paixão "fé", mas a inquestionalidade de seu método. O método de qualquer religião traz uma certezadivulgada em forma de monólogo, jamais de diálogo ou debate de idéias. O pastor, padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que "vale tudo" para difundir a "verdade única" que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que jamais se voltam para escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir a verdade - não a "certeza".
Psicopatologia do fanatismo
Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade.  A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afetada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência  tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a civilização. O terrorismo, por exemplo, que atua com a única meta de destruir inimigos aleatórios é realizado por indivíduos fanáticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade. No terrorismo é uma das expressões do fanatismo combinado com uma inteligência tecnológico, mas totalmente incapaz de exercitá-la por meios mais racionais, políticos e legais. Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível e a construção de um novo projeto político-econômico, não está em questão, porque a realidade no seu todo é forcluída. 
O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de "ter sido escolhido por Deus" para uma missão "x", já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. Mas, seguindo o raciocínio de Freud, vemos que "aquilo que o psicótico paranóico vivencia na própria pele, o parafrênico experiência na pele do outro", ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranóia. Hitler, antes considerado um paranóico, hoje é mais aceito enquanto parafrênico, pois seus atos indicam sua idéia fixa pela supremacia da raça ariana e a eliminação dos "impuros"; mais ainda, o gozo psíquico do parafrênico não se limita "ser olhado" ou "ser perseguido", tal como acontece com paranóicos, mas sim se desenvolve "uma ação inteligente de perseguição e extermínio de milhares de seres humanos", donde extrai um quantum de gozo sádico. Portanto, deve existir membros de um grupo de fanáticos paranóicos, mas certamente o pior fanático é o determinado pela parafrenia, pois visa de fato destruir em atos calculados "os impuros", "os infiéis", enfim, todos os que não concordam com ele.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Paulo de Tarso, que determinou as linhas gerais da teologia atual, deturpou a mensagem original de Jesus





Carlos Antonio Fragoso Guimarães

                Embora quase sempre desconhecido do grande público – em parte devido à resistência dos chamados “líderes religiosos”, especialmente os mais conservadores, que buscam fundamentar sua autoridade em uma aura de verdade absoluta em cima dos chamados textos sagrados -, o estudo crítico, histórico e acadêmico da Bíblia e, em especial, do Novo Testamento, desde o século XIX vêm trazendo à luz novas perspectivas de entendimento das chamadas escrituras sagradas. Entre as mais importantes descobertas existe a crescente percepção da contradição entre as mensagens de Jesus, ética e de cunho fraterno tal como encontrada nos evangelhos, especialmente em Mateus e Lucas, e o cristianismo de mera adesão proposto por Paulo de Tarso, o real fundador do cristianismo como sendo uma religião independente e um seguidor posterior que não conviveu com Jesus e, em vários pontos, contradiz a mensagem conhecida do nazareno.

                Pela análise do estilo literário e das colocações sociais de cada texto -  que é uma das formas de se estudar o material que dispomos, já que não existem originais do século I, sendo as mais antigas cópias disponíveis, já datadas, do século II -, percebe-se que as chamadas “cartas paulinas” constituem o conjunto de textos cristãos mais antigos, as atribuídas como autênticas, redigidas provavelmente cerca dos anos 50 da era comum. Os evangelhos propriamente ditos são, contudo, historicamente, em determinados pontos, mais precisos que as observações de Paulo. Constituem eles  compilações de fontes orais e de, possivelmente, registros escritos perdidos (como, por exemplo, a fonte Q, tão citada pelos estudiosos acadêmicos e que pode ser, em parte, reconstituída, pelo material dos chamados evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas), compostas  entre os anos 65-70 (data provável da composição do evangelho de Marcos) a até aproximadamente 95 ou 100 da era cristã (quando provavelmente foi escrito o evangelho atribuído a João, mas que de fato é uma compilação de interpretações posteriores de uma comunidade de cristãos tardios, provavelmente baseadas muito levemente em tradições orais que remontam a algum discípulo de João, e que, em grande parte, é uma teologia Paulina em forma narrativa).

              Apesar de serem 13 o número de epistolas atribuídas a Paulo na maioria das Bíblias ocidentais, hoje a maior parte dos pesquisadores considera que apenas seis destas epístolas tenham sido formuladas pelo próprio, pois apresentam o mesmo estilo e pontos de semelhança, sendo as demais meras composições posteriores de discípulos que queriam validar sua importância como documentos atribuindo-os a Paulo. O pesquisador Pedro Vasconcelos, da PUC, afirma que "Elas (as cartas não-paulinas) são muito diferentes em estilo literário e conteúdo". Para o conservadorismo das igrejas mais ligadas a uma concepção tradicional da Bíblia, no entanto, toas as cartas encontradas nas edições correntes da mesma são consideradas autênticas. As epístolas consideradas realmente originais pela maior parte dos experts são: aos Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses, a primeira à Tessalônica e a endereçada a Filêmon.

          Por sua ação missionária em meios não judeus, a figura de Paulo de Tarso teve uma importância indiscutível na constituição do cristianismo (especialmente do cristianismo “paulino”) em sua ansiedade em construir uma teologia sobre a figura Cristo (e não da mensagem de Cristo), o que causou impacto na formulação da teologia ortodoxa posterior - inicialmente no Império mas, bem depois, mais especialmente na teologia protestante. O problema, contudo, surge quando comparamos os dizeres e visões teológicas de Paulo com os que são atribuídos ao próprio Jesus, pelos evangelhos, especialmente o de Mateus.

          Igualmente digno de nota é de que certamente Paulo não pensava que suas cartas acabariam por ir parar na Bíblia (ao menos naquilo que se transformaria Bíblia cristã, dois séculos depois). Elas eram produtos do interesse de Paulo em esclarecer problemas e situações das comunidades que ele tinha ajudado a criar, e não súmulas teológicas indiscutíveis a serem tomadas como regra. Existe, numa leitura atenta destas cartas, um esforço de Paulo para se apresentar como "apóstolo", titulo que não lhe foi dado por nenhum dos reais discípulos de Jesus, nem mesmo Lucas, que não o chama assim nos Atos, embora Lucas seja um discípulo de Paulo e os Atos, uma forma de engrandecer Paulo. Só muito mais tarde alguém com alguma influência política as julgariam apropriadas para formarem parte do cânone do Novo Testamento.

         Paulo, como todos sabem, foi um aspirante a doutor da Lei (sacerdote graduado). Um judeu do século I, contemporâneo de Cristo, mas que nunca o vira pessoalmente durante seu ministério, e que, profundamente zeloso da ortodoxia judaica, de início foi perseguidor implacável dos primeiros cristãos. Contudo, esta atitude agressiva iria mudar radicalmente após Paulo (na época, Saulo) ter uma visão do Cristo pós-morte. Isso o abalou o suficiente para que passasse por uma crise religiosa, se convertendo ao cristianismo e se transformando de perseguidor a divulgador. 

          Contudo, apesar do que diz supostamente Lucas nos Atos dos Apóstolos (escrito muitos anos após a morte de Paulo, provavelmente em torno do ano 75), Paulo não procurou nas fontes apropriadas, ou seja, nos discípulos diretos de Jesus, a base da sua própria mensagem. Ao invés disto, após um contato muito superficial com alguns discípulos menores – e não com os apóstolos, o que só se daria após três anos -, Paulo se afastou para pensar sobre sua experiência da visão que teve do ente que antes perseguira. Com estas reflexões ele também questionou sua herança formal judaica, para voltar três anos depois com toda uma visão pessoal já sedimentado do seria ou deveria ser o cristianismo, moldada com elementos judaicos e gregos (Paulo era cosmopolita). Só então, depois, teve contato (por várias vezes tenso) com alguns dos apóstolos diretos de Jesus e, nas suas palavras, destes mais precisamente apenas Pedro e Tiago, “irmão do Senhor”, sem que este contato tivesse qualquer  grande impacto na sua já cristalizada visão do cristianismo. Assim, lemos pela pena do próprio Paulo em Gálatas 1:16-20:

     “Não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim, mas fui à Arábia e voltei novamente a Damasco. Em seguida, após três anos, é que subi a Jerusalém para avistar-me com Pedro e fiquei com ele por 15 dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão do Senhor. Isso vos escrevo e asseguro diante de Deus que não minto.”
           E mesmo depois que Paulo encontrou os discípulos direto de Jesus, o relacionamento dele com estes não pareceu muito bom. Apesar de toda tentativa de o autor dos Atos dos Apóstolos (que deveria ser chamado Atos pretendidos de Paulo, já que os demais Apóstolos são citadas apenas na medida em que preparam a aparição de Paulo) em fazer da relação do antigo fariseu com os discípulos de Jesus algo positivo, não é isso que sei infere da leitura das cartas de Paulo, ao contrário.

         "Paulo tem especial desprezo pelo triunvirato Tiago, Pedro e João, com sede em Jerusalém" (antes da revolta judaica de 66 d. C. e da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.), "ele os ridiculariza como 'os chamados pilares da Igreja' (Gálatas 2:9). 'Seja o que forem, não faz diferença para mim', escreve. 'Os líderes não contribuíram em nada para mim' (Gálatas 2:6). Os apóstolos podem até ter andado e falado com o Jesus o vivo.  (ou, como Paulo desdenhosamente o chama, 'Jesus em carne e osso). (...) Os apóstolos podem  ter sido escolhidos à dedo por Jesus (...). Mas Jesus escolheu Paulo antes dele nascer: ele foi, segundo diz aos Gálatas, chamado por Jesus para o apostolado quando ainda estava no ventre de sua mãe (Gálatas 1:15). O que Paulo está sugerindo é que ele não é o décimo terceiro apóstolo. É o primeiro apóstolo", escreve muito à propósito o erudito Reza Aslan, especialista em Novo Testamento, em seu livro Zelota (Jorge Zahar editor, 2013, p. 203).

         O estudo crítico das epístolas junto com os novos textos descobertos no século XX, daquela época, mostra que ante o que pareciam ser elementos próprios de Paulo em muitas de suas cartas, as descobertas de textos antigos, como os famosos Manuscritos do Mar Morto (que, ao contrário do que muitos pensam, nada têm de cristãos) mostrou serem elementos de discussão comum entre a classe judaica mais instruída na época, especialmente as interpretações apocalípticas dadas ao que se esperava do “messias” e que foi adaptada à singularidade da vida e obra de Jesus (o apocalipsismo era uma mentalidade constante entre os judeus oprimidos da época). Porém, muito mais sério do que isso, uma parte da visão “cristã” de Paulo parece chocar de frente com os próprios ensinamentos de Jesus. Isso fica mais grandemente visível no núcleo do pensamento paulino de que a simples justificação pela fé em Jesus, especialmente nos fatos de seu sacrifício e ressurreição, serem os únicos elementos que justificariam a salvação de um crente, doutrina arduamente abraçada pela maioria das igrejas e seitas evangélicas, mas que bate frontalmente com o que Jesus diz em Mateus em 25:31-45:

«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. 32Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os bodes.
34O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 35Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’
 37Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?38Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? 39E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ 40E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’
41Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o mal e para os seus anjos!42Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, 43era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ 44Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ 45Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’”

            O conhecido especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman reflete que esta passagem de Mateus “sugere que a salvação não é apenas uma questão de crença, mas também de ação, uma idéia absolutamente ausente do raciocínio de Paulo”. Poderíamos dizer ausente não apenas de Paulo, mas de toda a tradição que se moldou a partir das igrejas “paulinas”, especialmente as atuais igrejas televangélicas, de cunho paulino-fundamentalista.  Na passagem de Mateus acima transcrita se percebe mesmo que os escolhidos (as “ovelhas”) podem sequer ter tomado conhecimento da vida de Jesus (“Senhor, quando foi que te vimos...”). Nos dizeres de Bart D. Ehrman,

            “As ‘ovelhas’ ficam perplexas (de terem sido escolhidas como herdeiras do Reino). Elas não se lembram sequer de ter encontrado Jesus, o Filho do Homem, quanto mais de fazer essas coisas por ele. Mas ele diz a elas: ‘Cada vez que fizeste a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’. Em outras palavras, é cuidando dos que têm fome, sede, estão nus, doentes e encarcerados que é possível herdar o Reino de Deus.
           “Como essas palavras se coadunam com Paulo? Não muito bem. Paulo acreditava que a Cidade eterna era dada àqueles que acreditavam na morte e ressurreição de Jesus. No relato de Mateus sobre as ovelhas e os bodes, a salvação é dada a quem nunca havia falar de Jesus. É dada a quem trata os outros de forma humana e carinhosa no momento de maior necessidade. É uma visão  da salvação inteiramente diferente” (Bart D. Ehrman, “Quem foi Jesus? Quem Jesus não foi”, Ed. Ediouro, 2010).

             Esta mesma ideia, em Jesus, de que são os atos de amor, compreensão e solidariedade que justificam o ser humano também está bem clara na Parábola do Bom Samaritano onde é um "herege", um samaritano (os samaritanos romperam com os sacerdotes oficiais do judaísmo, controladores do Templo de Jerusalém - que é exaltado por Jesus e não o sacerdote e o levita, considerados "homens de Deus".

          Portanto, segundo alguns pesquisadores – e até mesmo alguns teólogos mais esclarecidos – ,existe material suficiente para suspeitar que Paulo  divulgou uma doutrina “paulina” em franco contraste com a mensagem de Jesus. Paulo ajudou a cristalizar uma religião sobre Cristo e não de Cristo. Edgar Jones, autor do livro Paulo: O Estranho, diz que "Jesus de Nazaré deve ser cuidadosamente diferenciado do Jesus de Paulo. Gerações e séculos passaram até que a corrente paulina com seu forte apelo em favor do Império Romano ganhasse ascendência sobre a corrente apostólica".

          O fato é que, até o século 4, existiam várias correntes de cristianismo, cada uma com uma forma de interpretar a mensagem original de Jesus e, em linhas gerais. eram divididas entre as que eram lideradas pelos discípulos de Paulo e outras atreladas, pelos seguidores, à tradição mais ligada aos apóstolos de Cristo. Uma que dava ênfase à transformação pessoal calcada na preocupação ética com o próximo a partir das mensagens éticas do evangelho e outra mais voltada para a conversão ideológica à própria figura de Jesus. Sobre essa divisão veja-se, por exemplo, a ênfase que está na epístola atribuída ao apóstolo Tiago, o irmão do Senhor – e que portanto, se for dele mesmo conheceu e conviveu com Jesus. Ainda que provavelmente a epístola não seja do Tiago apóstolote pessoalmen, parece ser de alguém que conhecia melhor os ensinos de Jesus que Paulo e muitos pesquisadores a consideram autêntico documento cristão da comunidade de Jerusalém, presidida por Tiago. Esta epístola dá a grande ênfase à caridade e às obras humanistas, criticando quem acha que apenas a fé o ajudará a purificar a alma e atingir o nível do Reino dos Céus, o que está concorde com o trecho de Mateus que já vimos. Na epístola a Tiago atribuída, que não se encontra em algumas bíblias protestantes, lê-se o seguinte:


“14 Que aproveitará, irmãos meus, a alguém que tem fé, se não tiver obras? Acaso podê-lo-á salvá-lo a fé? 15 Se um irmão, porém, ou uma irmã estiverem nus e lhes faltar o alimento diário, 16 e lhes disser algum de vós: Vá em paz, aquentai-vos e farte-se, e não lhes deres o que é preciso para o corpo, de que lhes aproveitará estas palavras? 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”.

“18 Poderá logo alguém dizer: Tu tens a fé e eu tenho as obras. Mostrai-me tu a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. 19 Tu crês que há um só Deus, fazes muito bem, mas também os demônios o crêem e tremem. 20 Queres tu, pois, saber, oh homem vão, que a fé sem obras é morta? (...) 24 Não vedes como é que é pelas obras que um homem é justificado e não somente pela fé? (...) 26 Porque bem como um corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.”

          Este é igualmente o diferencial que muitos dos acadêmicos têm sobre o diferencial da corrente paulina e da corrente apostólica (veja-se que nos Atos dos Apóstolos Paulo não é chamado de Apóstolo, embora ele mesmo o faça em suas epístolas). O professor Bart Ehrman, resumindo o pensamento da maioria dos pesquisadores e do que é mesmo ensina na maior parte dos centros de formação teológica de grandes universidades, chega mesmo a enfatizar que, de acordo com os indícios das palavras ou, ao menos do pensamento, do Jesus histórico:

         “ As ‘ovelhas’ recebem sua recompensa celestial e eterna por todas as coisas boas que fizeram: alimentar os que tinha fome, vestir os despidos, cuidar dos doentes; os ‘bodes’ são punidos por não terem feitos boas ações. Um cristão posterior inventaria tal tradição? Após a morte de Jesus, seus seguidores alegaram que a pessoa se tornava justa perante Deus e receberia sua recompensa eterna ao [simplesmente] acreditar na morte e na ressurreição de Jesus, não fazendo boas ações. Portanto, essa hsitória (encontrada em Mateus 25) rema contra a corrente desse ensinamento, ao indicar que a pessoa será recompensada por suas boas ações. Logo: isso tem de remontar a Jesus.
         “Em síntese, Jesus ensinou (...) que as pessoas (...) deveriam mudar seu comportamento e viverem como Deus esperava que vivessem. Isso envolvia o amor desinteressado pelos outros. Assim, Jesus teria cidade as Escrituras: ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’ (Mateus 22:39, citando Levítico 19:118). Sua formulação da idéia é a Regra de Ouro: Tudo aquilo, portanto, que querei que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mateus 7:12). É difícil afirmar, de forma mais concisa, as exigências éticas da lei de Deus” (EHRMAN, 2010, “Quem foi Jesus, Quem Jesus não foi?”, PP. 177-178).

         Quando o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, especialmente com Teodósio, a corrente paulina saiu-se vitoriosa, especialmente porque uma das cartas (Romanos) de Paulo diz textualmente que os cristãos deveriam se submeter às autoridades constituidas, no caso, Roma.  "As idéias de Paulo, afáveis aos dominadores, foram definitivamente incorporadas à doutrina cristã", diz Fernando Travi, teólogo evangélico. Ora, essa submissão passiva ás autoridades políticas soa estranha a um seguidor de um revolucionário morto por estas mesmas autoridades, com o aval das autoridades religiosos locais, por seu potencial perigo político. O teólogo franciscano Jacir de Freitas Faria, mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico (PIB), de Roma, comunga da mesma opinião: "Paulo é uma figura basilar do cristianismo, mas não podemos deixar de ser críticos a ele nessa relação com o Império Romano".

      Outro ponto de controvérsia clássico sobre Paulo é a sua clara (ou a ele associada) e nem sempre sutil opinião sobre as mulheres. Na carta, provavelmente espúria, endereçada à comunidade cristã de Colosso, encontramos a seguinte passagem machista:

"Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia. (...) Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem".

domingo, 21 de abril de 2013

Um Deus existente há de ser superior aos humanos





        Se existe algum tipo de Ser superior, como Deus, esse Ser deve ser superior a mim. Não sou suficientemente desprezível e perverso para condenar alguém ao castigo eterno, sabendo como é difícil as coisas certas nesta vida, e eu não esperaria isso de Deus.

        Não suporto as pessoas cujas concepção de Deus é tão mesquinha que o transformam em uma versão ampliada de um tirano inseguro e egoísta que governa pela força e precisa ser louvado o tempo todo para atenuar sua insegurança.  Quanto  sofrimento psicológico inútil foi criado por essas ideias! Tudo bem, já houve muitos reis e déspotas que foram assim e, infelizmente, tantos pais que também foram assim, mas não vamos confundi-los com a ideia de um Ser verdadeiramente superior.

 
         Charles T. Tart, psicólogo norte americano

sábado, 17 de março de 2012

Contradições e paradoxos das chamadas Igrejas Cristãs





  Na verdade, as igrejas deveriam estimular, seguindo o exemplo do seu Mestre, o amor, a humildade, a maturidade, a responsabilidade pessoal, a liberdade, a reflexão e a tolerância.... É isso o que, atualmente, vemos? O cuidado para com as viúvas, os órfãos e os excluídos? Ou vemos espetáculos, estímulo ao materialismo, à vaidade, ao dogmatismo, à intolerância e ao exclusivismo?

Onde está entre estas, de fato, o Cristo? Onde foi que Ele exigiu dízimos, jatinhos, bibliolatria, arrogância, exclusivismo ou luta política pelo poder e vendas de todo o tipo de quinquilharias?



Carlos Antonio Fragoso Guimarães



domingo, 29 de janeiro de 2012

Os fundamentalistas anti-democráticos do VINACC e "Consciência Cristã"



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Em nosso tempo instrumental de tecnologia avançada, mas de anulação do humano, do cooperativo em prol do competitivo, do consumismo em detrimento do construtivo e da dessacralização das relações humanas e da natureza, a reação fanática e fundamentalista surge como mais um sintoma de patologia social em que o atual capitalismo condiciona a muitos pois retira a possibilidade de maturação emocional e intelectual na luta pela sobrevivência em um mundo de crescente agressividade interpessoal.

 Pela falta de meios de formação emocional e mental apropriadas, muitas pessoas não conseguem amadurecer o suficiente para construir uma relação pessoal equilibrada com o ideal da divindade e esperam, diante das dores do mundo moderno, uma panaceia que venham tanto a lhes aliviar a dor quanto a valorizá-los, mesmo que simbolicamente, frente aos demais. Renunciando por vezes - pela falta de oportunidade de desenvolver-se plenamente enquanto ser pensante e autônomo - a própria liberdade, o fanático fundamentalista se sente ou se faz um "instrumento" ou acredita se tornar um instrumento nas mãos daquele a quem ele percebe como autoridade, ainda que seja um suposto líder de comunidade religiosa que contorce os dizeres de suas escrituras no modo mais politicamente conveniente aos seus interesses. Busca o "missionário", ao entregar o pensamento crítico ao líder, um apoio e uma "verdade" por vezes espetaculosamente apresentada e que lhe sirva de muleta psicológica, em ponto de segurança que esconda suas dúvidas íntimas, incertezas e inseguranças, as quais busca calar especialmente ao personalizá-las nos outros.

 O fundamentalista, pois, é um escravo que assim se faz pela renúncia do pensar autônomo em troca do que ele acha ser ganhos, imediatos (riquezas, sucesso, salvação) ou secundários (sentir-se aceito ou amado por iguais, etc.), ao mesmo tempo passa a ser intolerante a todo o pensamento diverso do seu e de sua comunidade por este ser um contraponto perigoso às suas crenças e verdades e assim o fanático se vê como soldado e guerreiro de uma "guerra santa" contra as diferenças que podem questionar suas verdades. Que Deus Pai acharia bom ter filhos que não soubessem discernir o certo do errado, dando a líderes e doutrinas a responsabilidade de decidirem por eles, muitas vezes criando contextos e situações de conflitos com seus outros filhos?

 Achando ter o poder e a missão de exorcizar pessoas e mesmo coisas que ele não aceita por não seguirem sua familiar e muitas vezes reducionista visão de mundo, o fundamentalista está sempre pronto a atacar os outros, acusando-os de serem possuidos pelo "demônio", não percebendo que este demônio muitas vezes habita primariamente em si mesmo e se faz visível nos outros por um fenômeno psicológico chamado de projeção do inconsciente...

  E não existe exemplo mais gritante deste fenômeno de projeção e consequente perseguição, coletivamente visto, do que no surrel Encontro para a Consciência Cristã, um evento evangélico que compete agressivamente com um outro mais equilibrado e antigo, chamado Encontro da Nova Consciência, que, ao contrário do dos evangélicos, se caracterizou exatamente pelo encontro ecumênico e diálogo entre correntes de pensamento diferentes, em uma atmosfera de fraternidade e equilíbrio, teólogos, filósofos e representantes de diversas correntes espirituais podiam dialogar fraternalmente com ateus, agnósticos, cientistas e pessoas dos mais diferentes misteres. Pois bem, para a grande maioria dos evangélicos do tal Encontro para a Consciência "Cristã" (na sua maior parte, constituída de pentecostais e neo-pentecostais, havendo, como se sabe, evangélicos melhor esclarecidos, amadurecidos e críticos dos exageros daqueles), todos os participantes do Encontro para a Nova Consciência são dominados pelo diabo e este encontro, então, tem de ser exterminado pelos missionários e esclarecidos evangélicos. Não há diálogo, não há fala, há discursos de perseguição.

  Vejamos um exemplo disto neste trecho de "artigo" do Pastor Ridalvo Alves da Silva no site do movimento-seita Consciência "Cristã":

É verdade que o evento emerge dentro do contexto do Nordeste do Brasil, especificamente na cidade de Campina Grande, no momento em que se realizava o VIII Encontro Esotérico intitulado Encontro para a Nova Consciência - Uma Cultura Emergente, como os organizadores a denominaram. Houve nesta conjuntura uma grande preocupação relacionada ao destino da Igreja Cristã Evangélica, pois ninguém havia se levantado até aquele momento para refutar e comparar em nível de reflexão teológica e apologética cristã os ensinos perniciosos que submergia a comunidade campinense como um todo atingindo já naquela época 48 eventos paralelos.

A perplexidade e angústia já haviam chegado ao coração de muitas pessoas reivindicando da Igreja Evangélica de Campina Grande uma tomada de posição firme quanto à invasão esotérica em nossa cidade. A princípio não se sabia como fazer para criar uma estratégia eficaz, não somente para combater os ensinos distorcidos da Nova Era, como também trazer diretrizes seguras para a comunidade quanto aos ensinos de uma Teologia Cristã sadia. Aconteceu somente em fevereiro de 1999 o I Encontro Para
a Consciência Cristã quando os alunos do Instituto Teológico Superior de Missões - ITESMI, sob a nossa direção, que dirigíamos pela orientação e urgência do Espírito Santo de Deus, aceitaram o desafio de enfrentar não somente as dificuldades de recursos financeiros, mas também de recursos humanos.

No início houve crítica, falta de compreensão e de ajuda por parte de muitos, porém, não era hora de olhar para as circunstâncias e sim exercer a fé em Deus que opera nas coisas impossíveis. Aí entra a disponibilidade do homem. Por isso, quero destacar a pessoa do pastor Euder Faber Guedes Ferreira, que nos instantes decisivos, acreditou plenamente na visão de Deus, que estava brotando, e largou seu emprego secular para se dedicar integralmente à grande causa prioritária do Reino de Deus. Quero trazer à memória de nossos caros leitores que foi muito difícil para implantarmos o I Encontro Para a Consciência Cristã, no entanto, o milagre aconteceu.

Não obstante, a razão do Encontro Para a Consciência Cristã não somente abrange a cidade de Campina Grande em seu contexto esotérico de evento anual, mas prepara a igreja contra os falsos ensinos que se alastram em nosso território nacional e também em outras regiões do mundo ocidental e oriental. O pluralismo religioso será certamente o maior desafio da Igreja Cristã neste novo milênio. Não temos dúvidas que por trás de tudo isto está o Império da religião ecumênica liderada pelo seu grande mentor, o Anticristo.

 Vê-se, pois, o quanto salta aos olhos a construção lógica e o grau de civilidade e de maturidade intelectual dos mentores do tal Encontro da Consciência "Cristã", não apenas na falta de adesão ao mandamento de Cristo de "Amar ao próximo", como na total falta de respeito com quem não partilha de suas idéias, em uma quase paranóia que abarca a proteção de um "mercado religioso" altamente lucrativo, baseado na cobrança de dízimos. Estranho ainda é essa expliticidade em se auto-denomiar de cristãos reais e agirem como egoístas mesquinhos com a "missão" de criticar e mesmo perseguir os demais. Por isso reflete o filósofo, teólogo e sociólogo Frei Betto, sobre os atuais fundamentalistas midiáticos:
"Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles! Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se considera revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes."
  Fanáticos intolerantes que se acham no direito de agredir o diferente e que se sentem ofendidos, "perseguidos" se aqueles a quem agridem ousarem criticar seu posicionamento hipócrita. Este comportamento farisáico foi bem discutido pelo psicanalista  e professor universitário da UEM, Dr. Raymundo de Lima, quando, eu seu artigo "O Fanatismo Religioso entre outros", destaca alguns de seus sintomas:


O fanático não fala, faz discursos; é portador de discursos prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso ou a inculcação política de idéias que poderá vir a se tornar ato agressivo ou violento, tomado sempre como revelação da "ira de Deus" ou "a inevitável marcha da história" ou, ainda, a suposta "superioridade de uns sobre os demais". Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da dialética, do discernimento da verdade, os discursos - especialmente odiscurso fanático - fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objetos de um desejo divinizado; servir ao desejo divino e à produção da repetição de algo já pronto, onde o retorno do recalcado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa ser destruído para reinar o Bem.
Os textos sagrados, tomados literalmente, fornecem a sustentação "teórica" do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não se dá ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda, contextualizá-lo, etc. O fanático tem certezae isso lhe basta. Creio porque é absurdo, já dizia Tertuliano. Certeza para ele é igual a verdade. (Segundo Popper, no campo científico, a certeza nada vale porque é "raramente objetiva: geralmente não passa de um forte sentimento de confiança, ou convicção, embora baseada em conhecimento insuficiente", já a verdade tem estatuto de objetividade, na medida em que "consiste na correspondência aos factos", na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. (Popper, 1988, p. 48).
 O problema da religião não é a paixão "fé", mas a inquestionalidade de seu método. O método de qualquer religião traz uma certezadivulgada em forma de monólogo, jamais de diálogo ou debate de idéias. O pastor, padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que "vale tudo" para difundir a "verdade única" que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que jamais se voltam para escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir a verdade - não a "certeza".
Psicopatologia do fanatismo
Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade.  A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afetada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência  tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a civilização. O terrorismo, por exemplo, que atua com a única meta de destruir inimigos aleatórios é realizado por indivíduos fanáticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade. No terrorismo é uma das expressões do fanatismo combinado com uma inteligência tecnológico, mas totalmente incapaz de exercitá-la por meios mais racionais, políticos e legais. Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível e a construção de um novo projeto político-econômico, não está em questão, porque a realidade no seu todo é forcluída. 
O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de "ter sido escolhido por Deus" para uma missão "x", já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. Mas, seguindo o raciocínio de Freud, vemos que "aquilo que o psicótico paranóico vivencia na própria pele, o parafrênico experiência na pele do outro", ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranóia. Hitler, antes considerado um paranóico, hoje é mais aceito enquanto parafrênico, pois seus atos indicam sua idéia fixa pela supremacia da raça ariana e a eliminação dos "impuros"; mais ainda, o gozo psíquico do parafrênico não se limita "ser olhado" ou "ser perseguido", tal como acontece com paranóicos, mas sim se desenvolve "uma ação inteligente de perseguição e extermínio de milhares de seres humanos", donde extrai um quantum de gozo sádico. Portanto, deve existir membros de um grupo de fanáticos paranóicos, mas certamente o pior fanático é o determinado pela parafrenia, pois visa de fato destruir em atos calculados "os impuros", "os infiéis", enfim, todos os que não concordam com ele.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Paulo de Tarso modificou a mensagem de tolerância de Jesus




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

                Embora quase sempre desconhecido do grande público – em parte devido à resistência dos chamados “líderes religiosos”, especialmente os mais conservadores, que buscam fundamentar sua autoridade em uma aura de verdade absoluta em cima dos chamados textos sagrados -, o estudo crítico, histórico e acadêmico da Bíblia e, em especial, do Novo Testamento, desde o século XIX vêm trazendo à luz novas perspectivas de entendimento das chamadas escrituras sagradas. Entre as mais importantes descobertas existe a crescente percepção da contradição entre as mensagens de Jesus, ética e de cunho fraterno tal como encontrada nos evangelhos, especialmente em Mateus e Lucas, e o cristianismo de mera adesão proposto por Paulo de Tarso, o real fundador do cristianismo como sendo uma religião independente e um seguidor posterior que não conviveu com Jesus.
                Pela análise do estilo literário e das colocações sociais de cada texto -  que é uma das formas de se estudar o material que dispomos, já que não existem originais do século I, sendo as mais antigas cópias disponíveis, já datadas, do século II -, percebe-se que as chamadas “cartas paulinas” constituem o conjunto de textos cristãos mais antigos, as atribuídas como autênticas, redigidas provavelmente cerca dos anos 50 da era comum. Os evangelhos propriamente ditos são, contudo, historicamente, em determinados pontos, mais precisos que as observações de Paulo. Constituem eles  compilações de fontes orais e de, possivelmente, registros escritos perdidos (como, por exemplo, a fonte Q, tão citada pelos estudiosos acadêmcios e que pode ser, em parte, reconstituída, pelo material dos chamados evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas), compostas  entre os anos 65-70 (data provável da composição do evangelho de Marcos) a até aproximadamente 95 ou 100 da era cristã (quando provavelmente foi escrito o evangelho atribuído a João, mas que de fato é uma compilação de interpretações posteriores de uma comunidade de cristãos tardios, provavelmente baseadas muito levemente em tradições orais que remontam a algum discípulo de João).

Apesar de serem 13 o número de epistolas atribuídas a Paulo na maioria das Bíblias ocidentais, hoje a maior parte dos pesquisadores considera que apenas seis destas epístloas tenham sido formuladas pelo próprio, pois apresentam o mesmo estilo e pontos de semelhança, sendo as demais meras composições posteriores de discípulos que queriam validar sua importância como documentos atribuindo-os a Paulo. O pesquisador Pedro Vasconcelos, da PUC, afirma que "Elas (as cartas não-paulinas) são muito diferentes em estilo literário e conteúdo". Para o conservadorismo das igrejas mais ligadas a uma concepção tradicional da Bíblia, no entanto, toas as cartas encontradas nas edições correntes da mesma são consideradas autênticas. As epístolas consideradas realmente originais pela maior parte dos experts são: aos Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses, a primeira à Tessalônica e a endereçada a Filêmon.
Por sua ação missionária em meios não judeus, a figura de Paulo de Tarso teve uma importância indiscutível na constituição do cristianismo (especialmente do cristianismo “paulino”) em sua ansiedade em construir uma teologia sobre a figura Cristo (e não da mensagem de Cristo), o que causou impacto na formulação da teologia ortodoxa posterior - inicialmente no Império mas, bem depois, mais especialmente na teologia protestante. O problema, contudo, surge quando comparamos os dizeres e visões teológicas de Paulo com os que são atribuídos ao próprio Jesus, pelos evangelhos, especialmente o de Mateus.
          Igualmente digno de nota é de que certamente Paulo não pensava que suas cartas acabariam por ir parar na Bíblia (ao menos naquilo que se transformaria Bíblia cristã). Elas eram produtos do interesse de Paulo em esclarecer problemas e situações das comunidades que ele tinha ajudado a criar, e não súmulas teológicas indiscutíveis a serem tomadas como regra. Só muito mais tarde alguém com alguma influência política as julgariam apropriadas para formarem parte do cânone do Novo Testamento.

Paulo, como todos sabem, foi um aspirante a doutor da Lei (sacerdote graduado). Um judeu do século I, contemporâneo de Cristo, mas que nunca o vira pessoalmente durante seu ministério, e que, profundamente zeloso da ortodoxia judaica, de início foi perseguidor implacável dos primeiros cristãos. Contudo, esta atitude agressiva iria mudar radicalmente após Paulo (na época, Saulo) ter uma visão do Cristo pós-morte. Isso o abalou o suficiente para que passasse por uma crise religiosa, se convertendo ao cristianismo e se transformando de perseguidor a divulgador. Contudo, apesar do que diz supostamente Lucas nos Atos dos Apóstolos (escrito muitos anos após a morte de Paulo, provavelmente em torno do ano 75), Paulo não procurou nas fontes apropriadas, ou seja, nos discípulos diretos de Jesus, a base da sua própria mensagem. Ao invés disto, após um contato muito superficial com alguns discípulos menores – e não com os apóstolos, o que só se daria após três anos -, Paulo se afastou para pensar sobre sua experiência da visão que teve do ente que antes perseguira. Com estas reflexões ele também questionou sua herança formal judaica, para voltar três anos depois com toda uma visão pessoal já sedimentado do seria ou deveria ser o cristianismo, moldada com elementos judaicos e gregos (Paulo era cosmopolita). Só então, depois, teve contato com alguns dos apóstolos diretos de Jesus e, nas suas palavras, destes mais precisamente apenas Pedro e Tiago, “irmão do Senhor”, sem que este contato tivesse qualquer  grande impacto na sua já cristalizada visão do cristianismo. Assim, lemos pela pena do próprio Paulo em Gálatas 1:16-20:

“Não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim, mas fui à Arábia e voltei novamente a Damasco. Em seguida, após três anos, é que subi a Jerusalém para avistar-me com Pedro e fiquei com ele por 15 dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão do Senhor. Isso vos escrevo e asseguro diante de Deus que não minto.”

O estudo crítico das epístolas junto com os novos textos descobertos no século XX, daquela época, mostra que ante o que pareciam ser elementos próprios de Paulo em muitas de suas cartas, as descobertas de textos antigos, como os famosos Manuscritos do Mar Morto (que, ao contrário do que muitos pensam, nada têm de cristãos) mostrou serem elementos de discussão comum entre a classe judaica mais instruída na época, especialmente as interpretações apocalípticas dadas ao que se esperava do “messias” e que foi adaptada à singularidade da vida e obra de Jesus (o apocalipsismo era uma mentalidade constante entre os judeus oprimidos da época). Porém, muito mais sério do que isso, uma parte da visão “cristã” de Paulo parece chocar de frente com os próprios ensinamentos de Jesus. Isso fica mais grandemente visível no núcleo do pensamento paulino de que a simples justificação pela fé em Jesus, especialmente nos fatos de seu sacrifício e ressurreição, serem os únicos elementos que justificariam a salvação de um crente, doutrina arduamente abraçada pela maioria das igrejas e seitas evangélicas, mas que bate frontalmente com o que Jesus diz em Mateus em 25:31-45:
«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. 32Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os bodes.
34O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 35Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’
37Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?38Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? 39E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ 40E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’
41Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o mal e para os seus anjos!42Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, 43era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ 44Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ 45Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’”

O conhecido especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman reflete que esta passagem de Mateus “sugere que a salvação não é apenas uma questão de crença, mas também de ação, uma idéia absolutamente ausente do raciocínio de Paulo”. Poderíamos dizer ausente não apenas de Paulo, mas de toda a tradição que se moldou a partir das igrejas “paulinas”, especialmente as atuais igrejas televangélicas, de cunho paulino-fundamentalista.  Na passagem de Mateus acima transcrita se percebe mesmo que os escolhidos (as “ovelhas”) podem sequer ter tomado conhecimento da vida de Jesus (“Senhor, quando foi que te vimos...”). Nos dizeres de Bart D. Ehrman,

As ‘ovelhas’ ficam perplexas (de terem sido escolhidas como herdeiras do Reino). Elas não se lembram sequer de ter encontrado Jesus, o Filho do Homem, quanto mais de fazer essas coisas por ele. Mas ele diz a elas: ‘Cada vez que fizeste a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’. Em outras palavras, é cuidando dos que têm fome, sede, estão nus, doentes e encarcerados que é possível herdar o Reino de Deus.
“Como essas palavras se coadunam com Paulo? Não muito bem. Paulo acreditava que a Cida eterna era dada àqueles que acreditavam na morte e ressurreição de Jesus. No relato de Mateus sobre as ovelhas e os bodes, a salvação é dada a quem nunca havia falar de Jesus. É dada a quem trata os outros de forma humana e carinhosa no momento de maior necessidade. É uma visão  da salvação inteiramente diferente” (Bart D. Ehrman, “Quem foi Jesus? Quem Jesus não foi”, Ed. Ediouro, 2010).

Portanto, segundo alguns pesquisadores – e até mesmo alguns teólogos mais esclarecidos – ,existe material suficiente para suspeitar que Paulo  divulgou uma doutrina “paulina” em franco contraste com a mensagem de Jesus. Paulo ajudou a cristalizar uma religião sobre Cristo e não de Cristo. Edgar Jones, autor do livro Paulo: O Estranho, diz que "Jesus de Nazaré deve ser cuidadosamente diferenciado do Jesus de Paulo. Gerações e séculos passaram até que a corrente paulina com seu forte apelo em favor do Império Romano ganhasse ascendência sobre a corrente apostólica". O fato é que, até o século 4, existiam várias correntes de cristianismo, cada uma com uma forma de interpretar a mensagem original de Jesus e, em linhas gerais. eram divididas entre as que eram lideradas pelos discípulos de Paulo e outras atreladas, pelos seguidores, à tradição mais ligada aos apóstolos de Cristo. Uma que dava ênfase à transformação pessoal calcada na preocupação ética com o próximo a partir das mensagens éticas do evangelho e outra mais voltada para a conversão ideológica à própria figura de Jesus. Sobre essa divisão veja-se, por exemplo, a ênfase que está na epístola atribuída ao apóstolo Tiago, o irmão do Senhor – e que portanto, se for dele mesmo conheceu e conviveu com Jesus. Ainda que provavelmente a epístola não seja do Tiago apóstolo, parece ser de alguém que conhecia melhor os ensinos de Jesus que Paulo. Esta epístola dá a grande ênfase à caridade e às obras humanistas, criticando quem acha que apenas a fé o ajudará a purificar a alma e atingir o nível do Reino dos Céus, o que está concorde com o trecho de Mateus que já vimos. Na epístola a Tiago atribuída, que não se encontra em algumas bíblias protestantes, lê-se o seguinte:

“14 Que aproveitará, irmãos meus, a alguém que tem fé, se não tiver obras? Acaso podê-lo-á salvá-lo a fé? 15 Se um irmão, porém, ou uma irmã estiverem nus e lhes faltar o alimento diário, 16 e lhes disser algum de vós: Vá em paz, aquentai-vos e farte-se, e não lhes deres o que é preciso para o corpo, de que lhes aproveitará estas palavras? 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”.
“18 Poderá logo alguém dizer: Tu tens a fé e eu tenho as obras. Mostrai-me tu a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. 19 Tu crês que há um só Deus, fazes muito bem, mas também os demônios o crêem e tremem. 20 Queres tu, pois, saber, oh homem vão, que a fé sem obras é morta? (...) 24 Não vedes como é que é pelas obras que um homem é justificado e não somente pela fé? (...) 26 Porque bem como um corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.”

Este é igualmente o diferencial que muitos dos acadêmicos têm sobre o diferencial da corrente paulina e da corrente apostólica (veja-se que nos Atos dos Apóstolos Paulo não é chamado de Apóstolo, embora ele mesmo o faça em suas epístolas). O professor Bart Ehrman, resumindo o pensamento da maioria dos pesquisadores e do que é mesmo ensina na maior parte dos centros de formação teológica de grandes universidades, chega mesmo a enfatizar que, de acordo com os indícios das palavras ou, ao menos do pensamento, do Jesus histórico:

“ As ‘ovelhas’ recebem sua recompensa celestial e eterna por todas as coisas boas que fizeram: alimentar os que tinha fome, vestir os despidos, cuidar dos doentes; os ‘bodes’ são punidos por não terem feitos boas ações. Um cristão posterior inventaria tal tradição? Após a morte de Jesus, seus seguidores alegaram que a pessoa se tornava justa perante Deus e receberia sua recompensa eterna ao [simplesmente] acreditar na morte e na ressurreição de Jesus, não fazendo boas ações. Portanto, essa hsitória (encontrada em Mateus 25) rema contra a corrente desse ensinamento, ao indicar que a pessoa será recompensada por suas boas ações. Logo: isso tem de remontar a Jesus.
“Em síntese, Jesus ensinou (...) que as pessoas (...) deveriam mudar seu comportamento e viverem como Deus esperava que vivessem. Isso envolvia o amor desinteressado pelos outros. Assim, Jesus teria cidade as Escrituras: ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’ (Mateus 22:39, citando Levítico 19:118). Sua formulação da idéia é a Regra de Ouro: Tudo aquilo, portanto, que querei que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mateus 7:12). É difícil afirmar, de forma mais concisa, as exigências éticas da lei de Deus” (EHRMAN, 2010, “Quem foi Jesus, Quem Jesus não foi?”, PP. 177-178).

Quando o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, especialmente com Teodósio, a corrente paulina saiu-se vitoriosa, especialmente porque uma das cartas (Romanos) de Paulo diz textualmente que os cristãos deveriam se submeter às autoridades constituidas, no caso, Roma.  "As idéias de Paulo, afáveis aos dominadores, foram definitivamente incorporadas à doutrina cristã", diz Fernando Travi, teólogo evangélico. Ora, essa submissão passiva ás autoridades políticas soa estranha a um seguidor de um revolucionário morto por estas mesmas autoridades, com o aval das autoridades religiosos locais, por seu potencial perigo político. O teólogo franciscano Jacir de Freitas Faria, mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico (PIB), de Roma, comunga da mesma opinião: "Paulo é uma figura basilar do cristianismo, mas não podemos deixar de ser críticos a ele nessa relação com o Império Romano".

Outro ponto de controvérsia clássico sobre Paulo é a sua clara (ou a ele associada) e nem sempre sutil opinião sobre as mulheres. Na carta, provavelmente espúria, endereçada à comunidade cristã de Colosso, encontramos a seguinte passagem machista: "Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia. (...) Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem".

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O paradoxo do fanatismo e o perigo de uma teocracia: como fica o Estado Laico?



"Nem todo aquele que diz 'Senhor', 'Senhor' entrará no Reino dos Céus
(...) Naquele dia, muitos vão me dizer:
‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos
demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?’ Então, eu lhes declararei:
‘Jamais vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade’."
Jesus Cristo

Jesus de Nazaré, em partes variadas no Evagelho de Mateus, critica a teocracia e superficialidade dos falsos doutores da Lei que se preocupam mais em viajar por mares e terra em busca de fazer prosélitos que, no fim, são tão radicais ou ainda mais quanto a eles mesmos, sempre prontos a verem qualquer pequeno cisco no olho dos demais quando possuem uma enorme trave de conceitos duros em frente aos próprios olhos... São como cegos guiando cegos na certeza de que assim poderão obter graças dos céus pela loucura da quantidade e homogeinidade do pensar. 

E mais, embora Jesus de Nazaré seja a meiga e sublime pessoa conhecida e amada de todas (inclusive admirada por não cristãos), eles, os fundamentalistas cristãos, querem que as pessoas aceitem o Jesus igrejeiro, para eles fiscalizador, recompensador e exclusivista, como o "único que salva", algo diferente do Jesus histórico, como pesquisadores do porte de um James Charlesworth, Geza Vermes, Gherd Theissen, Bart Ehrman e outros discutem. Do contrário, por melhor que seja a pessoa em obras e caráter (como é o quer o Jesus de Nazaré dos Evangelhos, mas não propriamente dos "evangélicos"), ela impreterivelmente estará condenada ao inferno...

Isso é ser cristão do Cristo ou uma corruptela de uma interpretação literalista dos textos sagrados, em especial os de Paulo de Tarso, que não conviveu com Jesus mas ajudou a disseminar uma religião sobre ele, com a estranha base de que só a fé é suficiente, e não dele, Jesus, que tanto disse que obras e mudança íntima para o bem a todos é o que mais importa e não o fato de se dizer mesmo discípulo dele, como no texto de Mateus transcrito acima?

Falam também estes novos doutores literais da Lei tanto no surgimento de Falsos Profetas nos últimos dias e muitas das seitas fundamentalistas pró-pentecostais são de, no máximo, menos de quarenta anos...

Engraçado como as pessoas, que se reconhecem limitadas em tantas coisas, possam achar que detém a avaliação correta e defintiva sobre um Absoluto sempre inacessível, quase podendo engarrafá-Lo e vendê-Lo como propiedade particular, de acordo com seus interesses....

Imagine-se, então, se tais pessoas, multiplicando o número de membros de suas agremiações por promessas muitas vezes de ganho material pela cômoda dádiva de uma "salvação" sem muitos eforços além de "aceitar" a interpretação deles de Jesus, pagar impreterivelmente o dízimo ao pastor - por vezes tão altruista que agride outras pessoas que não sejam da sua Igreja para o "bem" delas - e forçar a paciência dos outros gritando e impedindo o sono da vizinhança, quiserem tomar o poder?

Isto parece um absurdo, mas é exatamente o que está acontecendo nos últimos anos e a tomada do horário nobre e das madrugadas de rádios e tvs por estanhos e ensaiados "espetáculos" da fé demonstram claramente isso e até Edir Macedo escreveu um livro chocante e explítico sobre suas pretensões políticas.

Mas o estado moderno não é laico? As concessões de rádios e tvs são são feitas pelo governo laico para o bem de todos, independentemente de diferenças de credo? Já não está provado que a união Estado-Clero é sinônimo de retrocesso e perseguição? Para eles, não.

A procuradora Simone Andréa Barcelos Coutinho, procuradora em Brasília do município de São Paulo, preocupada com o andar das coisas neste sentido, defende corajosamente uma reforma no código eleitoral que impeça no Congresso Nacional a existência de representações religiosas, ainda que informais, como a da poderosa bancada evangélica e, em reação a esta, a de outras denomiaçãoes religiosas.

Para ela, essas representações são incompatíveis com o Estado laico estabelecido pela Constituição brasileira: "O Poder Legislativo é um dos Poderes da União; se não for o Legislativo laico, como falar-se em Estado laico?"

Em artigo no site Consultor Jurídico, Simone escreveu muito apropriadamente que há duas formas de separação entre o Estado e as instituições religiosas, uma é total e outra é atenuada - e esta é o caso brasileiro.

"Num Estado laico todo poder emana da vontade do ser humano, e não da ideia que se tenha sobre a vontade dos deuses ou dos sacerdotes", escreveu. "Se o poder emana do ser humano, o direito do Estado também dele emana e em seu nome há de ser exercido."

Por isso, acrescenta ela, a importância do interesse público, resguardando o direito íntimo do livre-pensar, "jamais poderá ser aferido segundo sentimentos ou ideias religiosas, ainda que se trate de religião da grande maioria da população."

O que define um Estado verdadeiramente laico, argumenta a procuradora, não são apenas a garantia da liberdade religiosa e a inexistência formal de relações entre esferas governamental e religiosa, mas também a vigência de normas que proíbam qualquer tipo de influência das crenças na atividade política e administrativa do país.

Vejam, agora, algumas absurdas propostas de Lei a tramitarem no congresso, nas assembléias legislativas e nas câmaras municipais de todo o Brasil pela ala dos fundamentalistas:

- Projeto de Resolução que determinada obrigatoriedade de leitura de versículo bíblico antes de cada sessão na Câmara dos Deputados (PRC 4/1999) e no Senado Federal (PRS 10/2007)
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=21630 e
http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=80322

- Projeto de Lei (873/1999) que obriga leitura de versículos bíblicos antes de cada aula nas escolas públicas de SP
http://webspl1.al.sp.gov.br/internet/download?poFileIfs=2480350&%2F01_0873_1999_2480350.tif%22


- Projeto de Lei (256/2011) que obriga todos estabelecimentos de ensino (públicos e privados) do Estado de SP a fixar crufixos em local e em tamanho de fácil visualização, em área de circulação.
http://webspl1.al.sp.gov.br/internet/download?poFileIfs=22010914&%2Fpl256.doc%22


- Emenda evangélica ao projeto de lei acima obrigando também os estabelecimentos de ensino públicos e privados de SP a exporem uma Bíblia em cima da mesa de cada sala de aula.
http://webspl1.al.sp.gov.br/internet/download.do?poFileIfs=22041287&%2Fsl49.doc


- Projeto de Lei (PL 7924/2010) que determina que só terão validade legal os casamentos celebrados por instituições religiosas.
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=487034


Conclusão? Para o bem de todos e para a manutenção da paz e da liberdade, que Deus nos ajude a que não venhamos a cair no retrocesso de uma teocracia fundamentalista!