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sexta-feira, 1 de setembro de 2023

A propriedade privada e os meios de exclusão social no capitalismo selvagem: uma reflexão entre Marx e Kardec

 "A proposta socialista acerca da propriedade privada é sempre muito mal compreendida pelo vulgo. Além disso, a direita sempre buscou mal informar por interesse óbvio e mentir em relação a esse ponto importante (...)"

Do site Espíritas à esquerda:





Foto: Hermes Rivera / Unsplash
A proposta socialista acerca da propriedade privada é sempre muito mal compreendida pelo vulgo. Além disso, a direita sempre buscou mal informar por interesse óbvio e mentir em relação a esse ponto importante da superação do sistema capitalista de produção.

Um exemplo sobre essa confusão é a acusação feita amiúde aos movimentos sociais, mormente MTST e MST, de que lutam para tomar sua terra ou sua casa. Não, isso não é verdade!

Foto: Hermes Rivera / Unsplash
Quando Marx e Engels falam em expropriação da propriedade privada não se referem à sua casinha suburbana nem ao seu carro financiado em 60 vezes. Não! A propriedade privada a ser expropriada é a que se transforma em capital, ou seja, aquela que está ligada de forma direta ao sistema de produção capitalista. Resumindo, os meios de produção devem ser coletivos.

Portanto, o sistema socialista de produção não pretende coletivizar sua casa nem quer tomar seu moderno telefone celular. Esses bens não são meios de produção. O que o socialismo pretende tomar, isso sim, são os meios de produção do capitalista, ou seja, a fábrica, o banco, o latifúndio, o maquinário de produção etc., para que a produção econômica da sociedade seja coletiva, bem como seus resultados, pois é a produção capitalista que explora o trabalho e o impede de usufruir dos bens produzidos.

Por isso Marx diz que nove décimos da sociedade não têm acesso à propriedade privada, porque a imensa parcela da população não possui bens de produção, apenas bens de consumo.

E o espiritismo? Bem, quando na questão 882 de “O livro dos espíritos” Kardec fala sobre a legitimidade da propriedade, é da propriedade dos bens de consumo e não dos bens de produção que trata, porque fala em propriedade advinda do resultado do trabalho. E, adiante, na questão 884, conclui da seguinte forma: “Propriedade legítima só é a que foi adquirida sem prejuízo de outrem.”

Ora, mas o mecanismo de reprodução do capital por meio da posse dos bens de produção é justamente a acumulação de mais capital, portanto propriedade, com enorme prejuízo aos trabalhadores explorados em seus direitos e em sua dignidade, afora a questão econômica da mais-valia.

Dessa forma, fica claro que não há interdição nas propostas de Kardec acerca daquilo que se entende como expropriação da propriedade privada nas propostas socialistas. Muito pelo contrário, entende-se que há uma grande aproximação entre o que as duas linhas de pensamento propõem.

No mais, fica a reflexão final sobre o tema colocada na questão 885:

“885. Será ilimitado o direito de propriedade?

 É fora de dúvida que tudo o que legitimamente se adquire constitui uma propriedade. Mas, como havemos dito, a legislação dos homens, porque imperfeita, consagra muitos direitos convencionais, que a lei de justiça reprova. Essa a razão por que eles reformam suas leis, à medida que o progresso se efetua e que melhor compreendem a justiça. O que num século parece perfeito, afigura-se bárbaro no século seguinte.”

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Disputa de butim versus união democrática contra o fascismo, por Benedito Tadeu César, cientista político



  "A criminalização da política e dos políticos, que abriu as portas para a escalada populista autoritária com fortes traços fascistas no Brasil e no mundo expressa, na verdade, a falência do atual modelo de desenvolvimento econômico e social, gerado pelo “globalismo” neoliberal-financista. A chamada “falência da democracia” é uma evidência do desgaste do atual modelo econômico, social e político."

Disputa de butim versus união democrática contra o fascismo

por Benedito Tadeu César em Discurso proferido na cerimônia de recebimento da Comenda Porto do Sol, concedida pela Câmara Municipal de Porto Alegre ao autor, no dia 25/10/2019




Vivemos hoje, no Brasil e no mundo, um aparente paradoxo. De um lado, o avanço exponencial das ciências fazendo com que a humanidade rompa barreiras antes consideradas intransponíveis.
Vou citar apenas um exemplo. Estima-se também que dentro de algumas décadas a espécie humana terá criado condições para se tornar “amortal” ou seja, que a vida humana possa ser prolongada por tempo indeterminado e a morte ocorra apenas por causas violentas.
Esta situação, que nos parece ainda inverossímil, já é considerada plausível no mundo científico e hi-tech. Estamos, sem dúvida, no limiar de uma nova era.
Paradoxalmente, no entanto, a concentração da riqueza e do poder político se aprofunda em todo o mundo e, obviamente, também no Brasil.
Os avanços sociais ocorridos ao longo do século XX, depois das duas Grandes Guerras Mundiais, impulsionados pela organização dos trabalhadores assalariados e pela ameaça de expansão do comunismo soviético, se esvaem rapidamente.
O hiperindividualismo, em avanço em todo o mundo ocidental, coloca nas costas de cada um de nós a responsabilidade única pelo seu sucesso ou fracasso. As ações coletivas estão desprestigiadas e, cada dia mais, tornam-se procedimentos exóticos.
A política democrática, espaço do embate de opiniões e interesses distintos para a construção do bem-estar geral, foi criminalizada e seus agentes estão sendo desmoralizados.
Os pobres são considerados os “fracassados”, os que não conseguiram sucesso no seu “empreendedorismo” de vida. São eles os alvos preferenciais do novo fascismo que se espalha por todo o mundo, reduzindo as redes de proteção social existentes para todos os cidadãos.
Os pobres, juntamente com os negros, os moradores das periferias urbanas e os imigrantes, os índios, os gays e as mulheres emancipadas (todas e todos aqueles que não são considerados os cidadãos “bem-sucedidos, chamados de “cidadãos de bem”), são agora os “diferentes” a serem combatidos.
A democracia liberal, tão desprezada pela esquerda, que deseja algo além e muito mais radical, está em crise em todo o mundo e, por ser uma conquista civilizatória, merece ser defendida por todos nós. As causas desta crise têm sido amplamente debatidas. Aqui, basta relembrar que ela é resultado do avanço do ultraliberalismo, do capitalismo financeiro e da consequente crise do Estado de Bem-Estar Social.
A criminalização da política e dos políticos, que abriu as portas para a escalada populista autoritária com fortes traços fascistas no Brasil e no mundo expressa, na verdade, a falência do atual modelo de desenvolvimento econômico e social, gerado pelo “globalismo” neoliberal-financista. A chamada “falência da democracia” é uma evidência do desgaste do atual modelo econômico, social e político.
Os momentos de crise econômica são momentos propícios para se promover os retrocessos sociais. Desmobilizados pelas crises econômicas, os não detentores de capital, antigos assalariados e hoje precarizados estão se tornando maioria entre os trabalhadores. São os “empreendedores autônomos”, uberizados em todos os setores. Os “aplicativos” são hoje os maiores empregadores (?) / contratadores (?) (como dizer?) de pessoal no Brasil, já ultrapassando os 4 milhões de “colaboradores”, a nova denominação para os antigos assalariados.
Não irei me alongar na análise da conjuntura política e social brasileira, mas é forçoso refletir aqui sobre a crise que atravessamos no país e, nos limites estreitos de minhas possibilidades, pensar um caminho possível para a sua superação.
O processo de deterioração institucional em curso no país continua e não dá ainda sinais de arrefecer. A equipe da Lava Jato, incrustada no Ministério Público Federal, na PGR, no STF e no Ministério da Justiça pode praticar as ilegalidades tornadas públicas recentemente, pelo site The Intercept e outros veículos de mídia, porque foi respaldada pelas demais instituições republicanas brasileiras: o Congresso Nacional, o Poder Executivo em seus diversos níveis e escaninhos, grande parte dos partidos políticos, a grande imprensa e, finalmente, a opinião pública.
Tudo era considerado “legítimo” e, para muitos continua sendo, para afastar da disputa política a esquerda, apresentada como responsável pela crise do país, e, assim, eliminar os avanços sociais e econômicos garantidos pela Constituição Federal de 1988. Neste processo Dilma Rousseff foi retirada da Presidência da República e Lula foi preso.
Os partidos e as autoridades públicas, em sua grande maioria, foram e continuam sendo coniventes com a construção do caos institucional e o avanço do autoritarismo em curso no país.
O novo fascismo avança em todo o mundo e, como já ocorreu historicamente, com a conivência de grande parte dos cidadãos comuns, das elites econômicas e de muitos daqueles que ocupam posições chave nos espaços de poder político e nas instituições que deveriam zelar pelo respeito à democracia e aos seus princípios basilares: os direitos e deveres individuais e coletivos, a equalização social, a independência dos poderes, o desenvolvimento e a soberania nacional. Princípios que norteiam a Constituição Federal de 1998 e que estão consagrados já no seu preâmbulo.
A experiência histórica já provou que a única forma de se derrotar o fascismo em ascensão no mundo e no Brasil é a união de todas as forças democráticas. No entanto, a repetir os erros do passado, as diferentes forças políticas democráticas, especialmente no Brasil, da extrema esquerda à direita não extremada, ainda acreditam que poderão vencer a besta fera fascista agindo isoladamente, sem se aliarem, e, pasmem, ainda creem que obterão algum ganho com esse tipo de enfrentamento isolado.
Muitos, no centro, acreditam e se preparam para se apropriar do espólio das esquerdas, principalmente do PT e de Lula, que supõem moribundos. Outros, à esquerda, acreditam que se reerguerão apropriando-se das bases dos partidos de centro e centro direita, que, eles têm certeza, em pouco tempo se desiludirão com o governo Bolsonaro.
Todos se preparam para se apoderarem de um butim que ainda não existe e que não existirá tão cedo. Estão equivocados. O atual governo só cairá quando tiver promovido todas as medidas concentradoras de riqueza e destruidoras do incipiente Estado de Bem-Estar Social que se construía no Brasil, do qual a Constituição de 1988 é o grande marco. E, aí, muito pouco restará para ser resgatado.
Na verdade, Bolsonaro, assim como Trump, Erdogan, Duterte, Orbán, Macri, Moreno, Piñera, lideranças populistas de extrema-direita, ascenderam ao poder exatamente para isso – para destruir, desmontar e desregulamentar a chamada “antiga política” e, com ela, a “antiga” forma de organização social e de representação política. Colocaram em seu lugar o velho fascismo, que agora se apresenta (tra)vestido com nova roupagem.
Uma nova forma de fascismo que, felizmente, começa a dar sinais de esgotamento em algumas regiões do mundo, as recentes explosões sociais no Equador e no Chile são uma evidência disso, mas que demorará ainda muito para ser vencida.
A luta contra o fascismo, para ser vitoriosa, exige que as diferentes forças políticas, sem que nenhuma delas renuncie às suas bandeiras e aos seus projetos, suspendam temporariamente suas divergências e se unam na defesa da democracia.
A bandeira Lula livre, por exemplo, não pode ser imposta a todas as forças políticas democráticas, mas ela precisa ser levantada bem alto pelas forças democráticas de esquerda e de centro esquerda, pois os processos inquisitoriais a que ele foi submetido estão eivados de irregularidades e parcialidades, como afirmam diversos juristas e magistrados de renome internacional de diferentes partes do mundo.
Só com a união de todas as forças políticas democráticas será possível superar o caos institucional e o autoritarismo atuais, fazendo com que as divergências e as disputas possam novamente se instalar e, cada força política possa lutar, ainda com maior ênfase, por aquilo que acredita ser o melhor caminho para a construção do desenvolvimento nacional e do bem-estar coletivo.
Haverá estadistas, nos diferentes partidos democráticos do Brasil e do mundo, capazes de assumir esse desafio e empreender essa tarefa?
Na verdade, cabe a cada um de nós, cidadãos comprometidos com a luta social, nos esforçarmos para tornar possível a união de todas as forças dispostas a lutar pela democracia.
Benedito Tadeu César – cientista político*
*Discurso proferido na cerimônia de recebimento da Comenda Porto do Sol, concedida pela Câmara Municipal de Porto Alegre ao autor, no dia 25/10/2019.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Resistir ou contestar? A dialogicidade como caminho viável, por José Erick Gomes da Silva



 "Norberto Bobbio (2004, p. 61), após afirmar que o alfa e o ômega da teoria política é o problema do poder, diferencia resistência de contestação. Para o autor, enquanto a resistência implica uma ação prática – que pode ou não ser um ato de violência, a contestação é expressa no discurso crítico, isto é, um protesto verbal de não aceitação. Essa distinção é central porque torna possível a compreensão de que existem muitas formas de proceder em meio aos tempos de retrocessos sociais consideráveis. A ação acompanhada de estratégias argumentativas aparenta ser a maior das chances de tomada de poder na pós-modernidade. E embora essa suspeita não garanta a vitória de quem efetivamente defenda o Estado Democrático de Direito, ela proporciona esperança de que, nesse ambiente, mentes e corações possam ser disputados."

Do site Justificando:

Resistir ou contestar? A dialogicidade como caminho viável


Segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Resistir ou contestar? A dialogicidade como caminho viável

Imagem: grafite do artista Bansky. 
Por José Erick Gomes da Silva
As ações grupais, a exemplo daquelas exercidas pelos movimentos sociais, ganham contornos ainda mais característicos em conjunturas consideradas desfavoráveis às minorias sociais. Nesse contexto, é comum que se utilize dos termos tais como “luta”, “enfrentamento” e “resistência” como sendo próprios de um vocabulário engajado com as demandas em pauta. É quando também surge a oportunidade de refletir sobre o sentido e o alcance das palavras utilizadas e acerca da sua (in)compatibilidade com os caminhos a percorrer.
Desde logo, necessário esclarecer que não se trata, esta abordagem, de mera discussão terminológica, mas de uma reflexão que toma os usos linguísticos de modo a reconhecê-los dotados de uma carga de significativos que extravasam as possibilidades semânticas. Noutras palavras, o discurso é a externalização de ideias e pensamentos, e, além de afirmar pretensões de ação, é, em si, um agir, e como tal, capaz de influir na vida social, ainda mais nos ambientes permeados por questões de cunho ético, político e/ou jurídico. Logo, as palavras, faladas ou escritas, são também microestruturas de influência, de interação política, hábeis a proporcionar evoluções ou involuções nas tratativas humanas. Merecidamente, o discurso é aspecto comportamental que carece de atenção e, sobretudo, de compatibilidade com as ideias consagradas.
Norberto Bobbio (2004, p. 61), após afirmar que o alfa e o ômega da teoria política é o problema do poder, diferencia resistência de contestação. Para o autor, enquanto a resistência implica uma ação prática – que pode ou não ser um ato de violência, a contestação é expressa no discurso crítico, isto é, um protesto verbal de não aceitação. Essa distinção é central porque torna possível a compreensão de que existem muitas formas de proceder em meio aos tempos de retrocessos sociais consideráveis. A ação acompanhada de estratégias argumentativas aparenta ser a maior das chances de tomada de poder na pós-modernidade. E embora essa suspeita não garanta a vitória de quem efetivamente defenda o Estado Democrático de Direito, ela proporciona esperança de que, nesse ambiente, mentes e corações possam ser disputados.
Tem-se como uma das mais lúcidas afirmativas a da deputada federal Talíria Petrone (PSOL/RJ) em entrevista ao veículo de comunicação El País quando diz da necessidade de se “voltar aos territórios, para as bases, mas não para levar uma verdade, mas para escutar”. É bem verdade que as pessoas que mais “resistem” estão às margens e sentem na pele as dores próprias das regiões consideradas suburbanas, dos municípios interioranos, dos morros e favelas. Ora, é preciso ouvir essa gente, sentir e dialogar um tanto com essa realidade. Esse é o arcabouço mais próximo para subsidiar as contestações que se agigantam capazes de devolver a sensibilidade ao cenário brasileiro.
O processo político pode ganhar com um esforço prático de ouvir mais do que semear verdades para contestar mais do que se apresentar imbatível, inflexível, rígido e resistente. Na lógica de Paulo Freire, estariam os agentes políticos deixando-se mediatizar-se pelo mundo, na convicção de que ninguém ensina ninguém, mas aprende em comunhão, no diálogo, na solidariedade, no ato de ouvir os sofreres e contestar ameaças autocráticas.
Atos de rua, ocupações, afrontas corriqueiras e demais estratégias de resistência marcam a política e podem ser fundamentais para a atuação da sociedade organizada em determinados momentos históricos. Contudo, soa urgente retomar esforços prioritários por um agir contestador, que, mais do que embates, busque o convencimento das pessoas, isso através da dialogicidade, habilidade inerente à condição humana.
José Erick Gomes da Silva é Bacharelando em Direito pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Monitor da disciplina de Teoria da Constituição. Coordenador-geral do Centro Acadêmico Guedes de Miranda. Estagiário na Justiça Federal em Alagoas.
Referências
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho.  Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
EL PARIS. A esquerda precisa voltar aos territórios. Não para levar uma verdade, mas para escutar. El Paris Brasil. Disponível em: . Acesso em: 18 Nov. 2018.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Grande frente de valores ético-sociais contra o ódio e a ignorância fascistóide, por Leonardo Boff


Resultado de imagem para frases em defesa da democracia

   "Isso é importante: devemos usar aquelas ferramentas que eles jamais poderão usar: como o amor, a solidariedade, a fraternidade, o direito de cada um de possuir um pedacinho de Terra, da Casa Comum que Deus destinou a todos, de uma moradia decente, de cultivar a com-paixão para com os sofredores, o respeito, a compreensão, a renúncia a todo espírito de vingança, o direito de ser feliz e a verdade transparente. Valem os três “ts”do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, como direitos fundamentais."

Grande frente de valores ético-sociais



Estamos vivendo tempos política e socialmente dramáticos. Nunca se viu em nossa história ódio e raiva tão difundidos, principalmente através das mídias sociais. Foi eleito para presidente uma figura amedrontadora que encarnou a dimensão de sombra e do recalcado de nossa história. Ele contaminou boa parte de seus eleitores. Essa figura conseguiu trazer à tona o dia-bólico (que separa e divide) que sempre acompanha o sim-bólico (o que une e congrega) de uma forma tão avassaladora que o dia-bólico inundou a consciência de muitos e enfraqueceu o sim-bólico a ponto de dividir famílias, romper com amigos e liberar a violência verbal e também física. Especialmente ela se dirige contra minorias políticas que, na verdade, são maiorias numéricas, como a população negra, além de indígenas, quilombolas e outros de condição sexual diferenciada.
Precisamos de uma liderança ou um colegiado de líderes, com o carisma capaz de pacificar,de trazer paz e harmonia social: uma pessoa de síntese. Esta não será o presidente eleito, pois lhe faltam todas estas características. Ao contrario, reforça a dimensão de sombra, presente em todos nós, mas que pela civilidade, pela ética, pela moral e pela religião a controlamos sob a égide da dimensão de luz. Os antropólogos nos ensinam que todos nós somos sapiens e simultaneamente demens, ou na linguagem de Freud, somos perpassados pelo princípio de vida (eros) e pelo princípio de morte (thanatos)..
O desafio de cada pessoa e de qualquer sociedade é ver como se equilibram estas energias que não podem ser negadas, dando a hegemonia ao sapiens e ao princípio de vida Caso contrário nos devoraríamos uns aos outros.
Nos tempos atuais em nosso pais perdemos este ponto de equilíbrio. Se quisermos conviver e construir uma sociedade minimamente humana, devemos potenciar a força da positividade fazendo o contraponto à força da negatividade. É urgente desentranhar a luz, a tolerância, a solidariedade, o cuidado e o amor à verdade que estão enraizados em nossa essência humana. Como faze-lo?
Os sábios da humanidade, sem esquecer a sabedoria dos povos originários, nos testemunham que há um só caminho e não há outro. Ele foi bem formulado pelo poverello de Assis quando cantou: onde houver ódio que eu leve o amor, onde houver discórdia que eu leve a união, onde houver trevas que eu leve a luz e onde houver erro que eu leve a verdade.
Especialmente a verdade foi sequestrada pelo ex-capitão, dentro de um discurso de ameaças e de ódio, contrário ao espírito de Jesus, transformando a verdade numa amedrontadora falsidade e injúria. Aqui cabem os versos do grande poeta espanhol António Machado:
“Tua verdade, não: a Verdade. E vem comigo buscá-la. A tua, guarda-a contigo”. A verdade genuina nos deve unir e não separar, pois ninguém tem a posse exclusiva dela. Todos participamos dela, de um modo ou de outro sem espírito de posse.
Junto com uma frente política ampla em defesa da democracia e dos direitos sociais precisamos agregar uma outra frente ampla, de todas as tendências políticas, ideológicas e espirituais, ao redor de valores, capazes de nos tirar da presente crise.
Isso é importante: devemos usar aquelas ferramentas que eles jamais poderão usar: como o amor, a solidariedade, a fraternidade, o direito de cada um de possuir um pedacinho de Terra, da Casa Comum que Deus destinou a todos, de uma moradia decente, de cultivar a com-paixão para com os sofredores, o respeito, a compreensão, a renúncia a todo espírito de vingança, o direito de ser feliz e a verdade transparente. Valem os três “ts”do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho, como direitos fundamentais.
Devemos atrair os fiéis das igrejas pentecostais através desses valores que são também evangélicos, em contra de seus pastores que são verdadeiros lobos. Ao se darem conta destes valores que os humanizam e os aproximam do Deus verdadeiro que está acima e dentro de todos mas cujo nome verdadeiro é amor e misericórdia, e não de ameaças de inferno, os fiéis se libertarão da servidão de um discurso que visa mais o bolso das pessoas do que o bem de suas almas.
O ódio não se vence com mais ódio, nem a violência com mais violência ainda. Só a mãos que se entrelaçam com outras mãos, só os ombros que se oferecem aos combalidos, só o amor incondicional nos permitirão gestar, nas palavras do injustamente odiado Paulo Freire, uma sociedade menos malfada onde não seja tão difícil o amor.
Aqui se encontra o segredo que faria do Brasil uma grande nação nos trópicos, que poderá ajudar n irrefreávell processo de mundialização a ganhar um rosto humano, jovial, alegre, hospitaleiro, tolerante terno e fraterno.
Leonardo Boff é filosofo, teólogo e escritor, autor do livro A oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual, Vozes 2009.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Igreja Católica confronta a “reforma” da Previdência



Artigo de Mauro Lopes, no site Caminho pra Casa


Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais
A CNBB, a entidade dos religiosos (CRB), franciscanos, jesuítas e a Arquidiocese de Londrina posicionam-se contra a “reforma” da Previdência em termos duros. Do site Previdência, Mitos e Verdades
Cresceram nos últimos dias e chegaram ao auge na quarta (15) as manifestações de segmentos da Igreja Católica no Brasil contra a “reforma” da Previdência. Leigos de comunidades das periferias, seminaristas, religiosos, padres e freiras participaram das manifestações em diversas cidades do país.
Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM, superior da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, que reúne mais de 400 franciscanos nos Estados de SP, Rio, ES, PR e SC, lançou uma nota na manhã de quarta (15) na qual anuncia um “posicionamento frontalmente contrário à Reforma da Previdência Social”.  O posicionamento, segundo Vanboemmel, é “baseado na realidade que nossos confrades encontram nos ambientes onde vivem e convivem e no compromisso com a Justiça, exigência irrenunciável do Evangelho”. Ele qualificou a emenda da Previdência de “ato de covardia com os mais pobres”.
A nota franciscana apresenta um retrato pungente dos efeitos da “reforma” sobre os mais pobres: “Basta olharmos para a luta diária de nossos irmãos agricultores, especialmente nas áreas rurais em que estamos presentes nos estados do PR (especialmente a Região Sudoeste), SC (Alto Vale do Itajaí, Planalto Central e Oeste) e ES (especialmente a região de Colatina), ou para a dureza da vida dos operários nas periferias urbanas do Rio de Janeiro (Baixada Fluminense) e São Paulo para percebermos o grau de insanidade presente em exigir que estes trabalhadores braçais se desdobrem em quase 50 anos de trabalho para, depois, receberem migalhas que mal custeiam os remédios que se fazem necessários depois de uma vida de trabalho intenso e extenuante.”
Um grupo de animadores vocacionais franciscanos reunidos em Bacabal (MA) distribuiu uma foto contra a “reforma” que circulou intensamente nas redes sociais (no alto deste post).
A Companhia de Jesus, ordem a que pertence o Papa Francisco e que reúne mais de 16 mil jesuítas ao redor do mundo, emitiu um comunicado em nome de todos os seus líderes que estavam reunidos no dia 15 em São Leopoldo (RS) afirmou olhas com “esperança de que mobilizações como a de hoje ajudem a sensibilizar os nossos governantes e congressistas a rever seus posicionamentos”.

Membros do IPDM na manifestação da Paulista – padre Paulo Sérgio está no alto à esquerda, de cabelos brancos
Dezenas de integrantes do grupo de base Igreja Povo de Deus em Movimento (IPDM), da zona leste de São Paulo, estiveram na avenida Paulista, com a presença do padre Paulo Sérgio Bezerra, pároco de Itaquera e um dos fundadores do movimento. Eles carregavam um cartaz que informava: “IPDM contra a reforma da Previdência: Temer sai, Previdência fica”.
No Dia Internacional da Mulher, a Conferência dos Religiosos do Brasil, que reúne mais de 35 mil religiosos e religiosas de congregações, havia se posicionado em termos duros contra o projeto do governo. Sua presidente, irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, distribuiu uma carta na qual expressou-se “com o coração entristecido por, mais uma vez, ver os interesses de poucos solaparem os direitos de muitos, especialmente das crianças e jovens mais pobres e vulneráveis. Literalmente querem nos tirar as migalhas.” A freira convocou a mobilização de todos os religiosos e religiosas: “Ou nós nos mobilizamos e defendemos o direito das nossas instituições e dos pobres, ou mais uma vez pagaremos a conta dos desmandos palacianos”.
O apoio à mobilização contra o pacote do governo deu o tom da nota de dom Manoel João Francisco, administrador apostólico da Arquidiocese de Londrina: “comprometemo-nos com toda e qualquer iniciativa da classe trabalhadora e suas organizações que venham questionar e exigir o respeito aos direitos já conquistados e digam não a qualquer ameaça de uma suposta reforma que venha anular os direitos já adquiridos.”
O posicionamento de diversas instituições católicas nos últimos dias está alinhado com a posição da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Em outubro, a Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz da entidade já havia se posicionado contra o “cenário de retrocessos dos direitos sociais em curso no Brasil.” -a íntegra da nota aqui.
Ontem (15), o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) distribuiu um parecer de sua assessoria jurídica apontando a inconstitucionalidade e perversidade dos efeitos da “reforma” contra os povos originários do país (aqui).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Dom Paulo Evaristo Arns, o Cardeal que ensinou a resistir

    
    "Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros."

Artigo de Mauro Lopes, publicado no Outras Palavras

Morre dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-profeta do Brasil, “para ver melhor”



Dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns, profetas da Igreja no Brasil
Morreu no final da manhã desta quarta-feira (28) em São Paulo, cardeal arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. Ele estava internado desde 28 de novembro com uma broncopneumonia. Foi um dos líderes da renovação teológica do Brasil e da América Latina dos anos 1960/70 que levou à criação da Teologia da Libertação. “Morreu um profeta e pastor”, disse o padre Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, criada por dom Paulo. O funeral ocorrerá na catedral da Sé, no centro de São Paulo. O teólogo Leonardo Boff, franciscano como dom Paulo, disse que o cardeal “foi ao encontro do Senhor a quem sempre serviu nos pobres e torturados. Foi meu mestre inesquecível. Disse um poeta latino-americano ‘Morrer é fechar os olhos para ver melhor’. É o que ocorreu com o cardeal Arns. Agora vê Deus face a face.” Não é possível olhar para a história do Brasil na segunda metade do século XX sem ver dom Paulo Evaristo Arns. [ao final, 14 fotos marcantes da trajetória de dom Paulo]
Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros.
Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Agnelo Rossi, e a partir de então sua ligação com a maior cidade do Brasil tornou-se profunda. Estimulava a criação de centenas de núcleos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), visitava com frequência os presos da Casa de Detenção e, em 1969, foi designado por dom Agnelo Rossi para acompanhar os frades dominicanos e outros religiosos na prisão. Ao visitá-los e a outros presos, constatou que todos eram torturados –a experiência marcou dom Paulo.
Um ano depois, em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de São Paulo –os dois tiveram uma amizade sólida, que foi decisiva anos depois na defesa de dom Pedro Casaldáliga, perseguido e odiado pelo regime militar brasileiro e pela cúpula conservadora da Cúria romana. Dom Paulo procurou o Papa para interceder por dom Pedro e a resposta de Paulo VI tornou-se famosa: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”.
Os militares não gostaram nada da nomeação de dom Paulo, menos ainda quando ele tornou-se cardeal, em 1973, no auge da repressão governamental. Ato contínuo à sua nomeação como cardeal, ele criou Comissão de Justiça e Paz, que funcionava na Cúria Metropolitana e tornou-se o polo de resistência, refúgio, solidariedade e ações legais em defesa de prisioneiros e desaparecidos políticos, seus familiares.
Em 1975, quando o jornalista Wladimir Herzog foi morto sob tortura na sede do II Exército em São Paulo, em 25 de outubro, dom Paulo uniu-se ao rabino Henry Sobel (Herzog era judeu) e ambos lideraram as celebrações religiosas até o enterro, debaixo de intensa pressão do regime militar, que desejava que sua versão de “suicídio” prevalecesse. O culto na catedral da Sé, presidido por dom Paulo, sob intenso cerco das forças de repressão, que reuniu milhares de pessoas, é um dos marcos da vida brasileira.
Em outubro 30 de outubro de 1979 sofreu um duro golpe com o assassinato pela polícia de Santo Dias da Silva, seu amigo pessoal, operário metalúrgico, líder da Pastoral Operária e das Comunidades Eclesiais de Base. O velório e enterro de Santo ocorreu novamente sob pressão violenta do regime militar e, mais uma vez, dom Paulo liderou as celebrações religiosas.
O lema de dom Paulo como bispo, arcebispo e cardeal – “De esperança em esperança – foi uma inspiração em sua vida sacerdotal. Ele dizia que São Francisco era “o encanto de toda minha vida” e que seu desejo último era “ser padre na vida eterna”.
No livro Da esperança à utopia (São Paulo, Sextante, 2001), de autoria do próprio dom Paulo, ele escreveu sobre seu lema e sua vocação: “Qualquer coisa que tenha feito em minha vida ou ainda chegue a realizar explica o fato de eu ser padre. Fui por longos anos professor, mas sempre padre-professor, ao ensinar literatura, teologia ou didática. Escrevi livros e milhares de artigos mesmo antes da ordenação sacerdotal. Trazem a marca de padre. Amei muito na vida e passei por situações humilhantes, por calúnias graves e muito difundidas, mas sempre como padre ou porque desejei cumprir a missão que Cristo me confiou. Meu lema de bispo, arcebispo e cardeal – ‘De esperança em esperança’ – foi escolhido na época em que eu era simples padre. Nem me custa acrescentar: gostaria de ver as angústias e promessas do mundo com o coração de padre. E quando, um dia, o coração deixar de bater, que o amor encontre na vida eterna a mesma forma de ser padre, assim como Cristo, o eterno sacerdote, o dispuser”.
A última aparição pública de dom Paulo Evaristo Arns foi uma homenagem, na noite de 24 de outubro no Teatro da Pontifícia Universidade Católica (Tuca), na capital paulista, pelos seus 95 anos de vida, comemorados no dia 14 de setembro. A cerimônia foi marcada por relatos de ações de Arns contra a ditadura militar, nas décadas de 60 e 70, e em defesa dos direitos humanos. O papa Francisco enviou uma mensagem especialmente para a comemoração.
“Louvemos e agradeçamos ao Altíssimo, onipotente e bom Senhor pelos 95 anos de vida de Dom Paulo, seus 76 anos de consagração religiosa, 71 anos de sacerdócio ministerial, 50 de episcopado e 43 anos de cardinalato”, afirmou a nota da Arquidiocese de São Paulo logo depois da morte do cardeal-profeta.
[Por Mauro Lopes]
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A última aparição pública de dom Paulo, em 24 de outubro, homenagem na PUC de São Paulo -com boné do Movimento dos Sem Terra (MST)

Em 1972, arcebispo de São Paulo, aos 51 anos

Missa de corpo presente na catedral da Sé em São Paulo, dias depois do assasinato do estudante Alexandre Vannuchi Leme pela repressão militar

Velório de Vladimir Herzog, morto em 25 de outubro de 1975 em dependências do Exército em São Paulo

Celebração multirreligiosa na catedral da Sé depois da morte do jornalista Vladimir Herzog em outubro de 1975. De terno, à direita, o rabino Henry Sobel

Dom Paulo pedindo passagem ao corpo do operário Santo Dias da Silva, assassinado pela polícia em outubro de 1979

Com o Papa Paulo VI, em Roma

Com o educador católico Paulo Freire, nos anos 80

Com o povo, em celebração na Praça da Sé, diante da catedral, nos anos 80

O cardeal depois de visita presos na Casa de Detenção, em São Paulo, em 30 de dezembro de 1980.

Com Lula, em 1979, pouco antes da fundação do PT e da prisão do então líder sindical

Os amigos dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns

Dom Paulo e a irmã, Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morta em janeiro de 2010 durante terremoto no Haiti

Em 2010, durante celebração eucarística dos 65 anos de sua ordenação sacerdotal, na Catedral da Sé