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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Dom Paulo Evaristo Arns, o Cardeal que ensinou a resistir

    
    "Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros."

Artigo de Mauro Lopes, publicado no Outras Palavras

Morre dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-profeta do Brasil, “para ver melhor”



Dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns, profetas da Igreja no Brasil
Morreu no final da manhã desta quarta-feira (28) em São Paulo, cardeal arcebispo emérito de São Paulo dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. Ele estava internado desde 28 de novembro com uma broncopneumonia. Foi um dos líderes da renovação teológica do Brasil e da América Latina dos anos 1960/70 que levou à criação da Teologia da Libertação. “Morreu um profeta e pastor”, disse o padre Júlio Lancelotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua, criada por dom Paulo. O funeral ocorrerá na catedral da Sé, no centro de São Paulo. O teólogo Leonardo Boff, franciscano como dom Paulo, disse que o cardeal “foi ao encontro do Senhor a quem sempre serviu nos pobres e torturados. Foi meu mestre inesquecível. Disse um poeta latino-americano ‘Morrer é fechar os olhos para ver melhor’. É o que ocorreu com o cardeal Arns. Agora vê Deus face a face.” Não é possível olhar para a história do Brasil na segunda metade do século XX sem ver dom Paulo Evaristo Arns. [ao final, 14 fotos marcantes da trajetória de dom Paulo]
Ao lado de dom Pedro Casaldáliga, dom Helder Câmara, dom Antônio Batista Fragoso, dom José Maria Pires e outros, dom Paulo compôs a linha de frente de uma Igreja popular, comprometida com os pobres, os direitos humanos e a luta contra o regime militar brasileiro instalado com o golpe de 1964. Os teólogos formuladores da Teologia da Libertação no Brasil eram interlocutores frequentes de dom Paulo e os demais bispos e cardeais, alguns deles leigos e outros sacerdotes ou religiosos: Carlos Mesters, frei Betto, Leonardo Boff, Ivone Gebara, José Comblin, entre outros.
Em maio de 1966, foi nomeado bispo auxiliar do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Agnelo Rossi, e a partir de então sua ligação com a maior cidade do Brasil tornou-se profunda. Estimulava a criação de centenas de núcleos das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), visitava com frequência os presos da Casa de Detenção e, em 1969, foi designado por dom Agnelo Rossi para acompanhar os frades dominicanos e outros religiosos na prisão. Ao visitá-los e a outros presos, constatou que todos eram torturados –a experiência marcou dom Paulo.
Um ano depois, em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o arcebispo de São Paulo –os dois tiveram uma amizade sólida, que foi decisiva anos depois na defesa de dom Pedro Casaldáliga, perseguido e odiado pelo regime militar brasileiro e pela cúpula conservadora da Cúria romana. Dom Paulo procurou o Papa para interceder por dom Pedro e a resposta de Paulo VI tornou-se famosa: “Mexer com Pedro é mexer com o papa”.
Os militares não gostaram nada da nomeação de dom Paulo, menos ainda quando ele tornou-se cardeal, em 1973, no auge da repressão governamental. Ato contínuo à sua nomeação como cardeal, ele criou Comissão de Justiça e Paz, que funcionava na Cúria Metropolitana e tornou-se o polo de resistência, refúgio, solidariedade e ações legais em defesa de prisioneiros e desaparecidos políticos, seus familiares.
Em 1975, quando o jornalista Wladimir Herzog foi morto sob tortura na sede do II Exército em São Paulo, em 25 de outubro, dom Paulo uniu-se ao rabino Henry Sobel (Herzog era judeu) e ambos lideraram as celebrações religiosas até o enterro, debaixo de intensa pressão do regime militar, que desejava que sua versão de “suicídio” prevalecesse. O culto na catedral da Sé, presidido por dom Paulo, sob intenso cerco das forças de repressão, que reuniu milhares de pessoas, é um dos marcos da vida brasileira.
Em outubro 30 de outubro de 1979 sofreu um duro golpe com o assassinato pela polícia de Santo Dias da Silva, seu amigo pessoal, operário metalúrgico, líder da Pastoral Operária e das Comunidades Eclesiais de Base. O velório e enterro de Santo ocorreu novamente sob pressão violenta do regime militar e, mais uma vez, dom Paulo liderou as celebrações religiosas.
O lema de dom Paulo como bispo, arcebispo e cardeal – “De esperança em esperança – foi uma inspiração em sua vida sacerdotal. Ele dizia que São Francisco era “o encanto de toda minha vida” e que seu desejo último era “ser padre na vida eterna”.
No livro Da esperança à utopia (São Paulo, Sextante, 2001), de autoria do próprio dom Paulo, ele escreveu sobre seu lema e sua vocação: “Qualquer coisa que tenha feito em minha vida ou ainda chegue a realizar explica o fato de eu ser padre. Fui por longos anos professor, mas sempre padre-professor, ao ensinar literatura, teologia ou didática. Escrevi livros e milhares de artigos mesmo antes da ordenação sacerdotal. Trazem a marca de padre. Amei muito na vida e passei por situações humilhantes, por calúnias graves e muito difundidas, mas sempre como padre ou porque desejei cumprir a missão que Cristo me confiou. Meu lema de bispo, arcebispo e cardeal – ‘De esperança em esperança’ – foi escolhido na época em que eu era simples padre. Nem me custa acrescentar: gostaria de ver as angústias e promessas do mundo com o coração de padre. E quando, um dia, o coração deixar de bater, que o amor encontre na vida eterna a mesma forma de ser padre, assim como Cristo, o eterno sacerdote, o dispuser”.
A última aparição pública de dom Paulo Evaristo Arns foi uma homenagem, na noite de 24 de outubro no Teatro da Pontifícia Universidade Católica (Tuca), na capital paulista, pelos seus 95 anos de vida, comemorados no dia 14 de setembro. A cerimônia foi marcada por relatos de ações de Arns contra a ditadura militar, nas décadas de 60 e 70, e em defesa dos direitos humanos. O papa Francisco enviou uma mensagem especialmente para a comemoração.
“Louvemos e agradeçamos ao Altíssimo, onipotente e bom Senhor pelos 95 anos de vida de Dom Paulo, seus 76 anos de consagração religiosa, 71 anos de sacerdócio ministerial, 50 de episcopado e 43 anos de cardinalato”, afirmou a nota da Arquidiocese de São Paulo logo depois da morte do cardeal-profeta.
[Por Mauro Lopes]
Veja mais fotos de dom Paulo

A última aparição pública de dom Paulo, em 24 de outubro, homenagem na PUC de São Paulo -com boné do Movimento dos Sem Terra (MST)

Em 1972, arcebispo de São Paulo, aos 51 anos

Missa de corpo presente na catedral da Sé em São Paulo, dias depois do assasinato do estudante Alexandre Vannuchi Leme pela repressão militar

Velório de Vladimir Herzog, morto em 25 de outubro de 1975 em dependências do Exército em São Paulo

Celebração multirreligiosa na catedral da Sé depois da morte do jornalista Vladimir Herzog em outubro de 1975. De terno, à direita, o rabino Henry Sobel

Dom Paulo pedindo passagem ao corpo do operário Santo Dias da Silva, assassinado pela polícia em outubro de 1979

Com o Papa Paulo VI, em Roma

Com o educador católico Paulo Freire, nos anos 80

Com o povo, em celebração na Praça da Sé, diante da catedral, nos anos 80

O cardeal depois de visita presos na Casa de Detenção, em São Paulo, em 30 de dezembro de 1980.

Com Lula, em 1979, pouco antes da fundação do PT e da prisão do então líder sindical

Os amigos dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns

Dom Paulo e a irmã, Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morta em janeiro de 2010 durante terremoto no Haiti

Em 2010, durante celebração eucarística dos 65 anos de sua ordenação sacerdotal, na Catedral da Sé

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O filme Aquarius e o sucesso internacional




Quando este artigo se publicar, Aquarius terá recebido uma consagração mundial até hoje não alcançada por filme pernambucano. Na quarta-feira em que escrevo, não sei se ele terá o prêmio máximo em Cannes. Mas a esta altura já é conhecido o sucesso da crítica de cinema e política, a partir do protesto da equipe do Aquarius  contra o golpe no Brasil. Foi lindo ver a capa de jornais da Europa aos Estados Unidos com a cara dos nossos artistas. Antes, no tempo da Rádio Jornal dos anos 50 e 60, era Pernambuco que falava para o mundo. Agora, não, com Kleber Mendonça é o Brasil que fala para a sensibilidade e denúncia onde houver gente. Perdoem o tom ufanista, típico de recifense, mas não encontro outro.
No entanto, mesmo agora não posso esquecer as resistências que eu possuía em relação ao chamado “cinema pernambucano”. Em dois parágrafos tentarei explicar a razão.
Eu sempre quis e esperei que entre nós houvesse um cinema de Nelson Pereira dos Santos, deVidas Secas e Memórias do Cárcere, por exemplo, ou  Cidade de Deus, ou daquela obra genialDeus e o Diabo na Terra do Sol, ou de imagens  próximas a O Pagador de Promessas. ”Faz tempo”, sei que estão dizendo. Respondo que o passado fecundante não passa. O meu erro era de outra natureza. É que para mim o grande cinema tinha a ver com a literatura, com o desejo que o filme devia ter com a humanidade total da obra literária. Mas estamos falando de cinema, de imagens, “de outra linguagem”, poderia ser dito. Ainda assim resistia aquela ambição de querer para nós a profundidade do cinema argentino, por exemplo, cujos diretores mantêm boa vizinhança com os seus escritores.
Daí a minha implicância, peitica, com o cinema de Pernambuco. Para mim, em sua franca maioria ele era iletrado. Quero dizer, ele não sabia nada do mundo fundamental da literatura. Os seus roteiros eram precários, com personagens mal realizados (mas “estamos falando de cinema”). A sua realidade era lúmpen, a pretexto de mostrar o real popular.
O que dizer disso? Talvez o meu conceito de esperança e ambição não batesse com a realidade. E quando isso acontece, o conceito tem sinais de um preconceito, ou de uma inadequação à moda, movimento e movie. Uma rejeição ao movie árido de poesia nas telas. Então a política me acordou.  Quando vejo a direita no Brasil cair em campo contra o filme Aquarius numa repetição, pois a direita é um longo replay, do que fizeram contra Dom Helder Câmara para que ele não fosse premiado com o Nobel da Paz, quando leio a repetição dos golpes conservadores, acordo e vejo. O filme Aquarius está consagrado. Em uma coletiva de imprensa concorrida, repleta de jornalistas estrangeiros, o diretor Kleber Mendonça Filho nos mandou este recado:
"Essa divisão no Brasil está trazendo o pior dos dois lados, especialmente da direita, com atitudes fascistas. Há deputados que dizem no Congresso que uma mulher não deve trabalhar porque engravida. Aquarius é um filme de resistência e um pouco filme de sobrevivência, mas mais filme sobre a energia que é necessário para existir. Cansa, mas dá mais energia para continuar a lutar”. 
Talvez Aquarius não seja o filme que a minha equivocada ambição sonhou. Talvez todo o cinema de Pernambuco ainda não fale para o mundo, como se anunciava na voz do locutor da Rádio Jornal do Comércio: “Pernambuco falando para o mundo”. Mas Aquarius na voz do cinema fala. A sua repercussão nos jornais do planeta é prova, e nos presenteia com a melhor notícia da semana. Tanto que a gente estava precisando de uma boa-nova.  Este é um filme que não vimos e já gostamos.  

sábado, 21 de maio de 2016

MinC voltou e fica a lição de como se deve lidar com Temer, por Renato Rovai

O ministro da Educação anunciou pelo Twitter que o Ministério da Cultura será recriado pelo presidente ilegítimo e interino Michel Temer.
É a primeira grande derrota de um governo que está mais do que completamente perdido e cujos ministros já anunciaram diversas coisas pela manhã e tiveram de recuar à tarde.
temer - jorn livres 2
Entre elas, a interrupção do Minha Casa Minha Vida, cortes no Bolsa Família e aposentadoria aos 65 anos.
Mas esse recuo não é isolado.
É um volta-atrás do governo como um todo que atinge duas iniciativas que se complementam.
A primeira é a da diminuição do Estado. Quando Temer fecha ministérios, isso aponta para uma desestatização geral. E abre as portas para a privatização de bancos públicos e da Petrobras, por exemplo.
A segunda tem a ver com o que o MinC tem de simbólico. Ao fechá-lo, busca-se interditar o campo da cultura e seus incômodos. É na área da cultura que se elaboram as críticas e as reflexões que tendem a incomodar o establishment.
Há quem vá dizer que o fato de Temer ter recuado no caso do MinC é uma derrota para a resistência ao golpe.
Enganam-se.
O mundo da cultura ganhou e mostrou ao Brasil que o presidente interino, além de ilegítimo, é fraco.
E isso é tudo o que Temer não queria mostrar ao Brasil.
Porque, com a volta do MinC, cresce o ânimo de quem quer a volta de Dilma e da democracia.
As lutas ficam mais fortes quando contabilizam vitórias. A vitória do MinC é de quem lutou e não de quem recuou.

Fonte do Texto: Blog do Rovai
Foto de capa: Jornalistas Livres