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sexta-feira, 8 de março de 2019

Mea culpa, mea maxima culpa



  "Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve."


Dom Hélder Câmara
Mea culpa, mea maxima culpa
por Diogo de Andrade
São Joaquim, Guanabara e Cidade. Em comum o fato de serem palácios importantes na história da cidade e do estado do Rio de Janeiro. Ah, se essas paredes falassem…
O primeiro, situado no bairro da Glória, tem um passado glorioso. Os mais garbosos bailes do país, que contavam com a presença de suas majestades Dom Pedro II e Dona Teresa, além do Marquês de Abrantes, do Visconde de Meriti, então dono do palácio, e da alta sociedade carioca daquele tempo, ocorriam no espaço onde hoje vivem os bispos católicos da igreja carioca.
O Palácio são Joaquim foi doado à igreja para servir de moradia ao primeiro cardeal do Rio de Janeiro, o cardeal Arcoverde.
Já o Palácio da Cidade, que foi a embaixada do Reino Unido no Brasil entre 1950 e 1970, em 74 foi vendido à cidade do Rio de Janeiro e, desde 75, é sua sede.
O Palácio Guanabara, por sua vez, foi residência da princesa Isabel, posteriormente abrigou o presidente Getúlio Vargas e foi doado ao estado do Rio quando a capital passou para Brasília
Prédios são símbolos. No caso dos três palácios, de poder político e religioso.
Assim como os três poderes da república, o religioso e o político precisam ser independentes. Diferentemente, porém, não precisam ser harmônicos quando o que está em jogo é o bem da população.
Ex-bispo auxiliar da arquidiocese de são sebastião do Rio de Janeiro, dom Hélder Câmara, por entender a independência da igreja em que estava inserido, não se calou diante das injustiças. Consequência? Houve. Em 1964, por pressão e intervenção dos militares que golpearam o Estado brasileiro, dom Hélder foi transferido da arquidiocese da capital do Brasil. Dom Hélder, fundador da CNBB, optou por denunciar a verdade em vez de ter uma relação harmônica com o poder político usurpador. E claro… Diante disso, restava aos militares o discurso que voltou à moda quando se pretende desqualificar alguém:
“comunista”, “socialista”, “esquerdista”.
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista” – Dom Hélder Câmara
O que observamos, hoje, na relação entre arquidioceses e o Estado Brasileiro é algo fora dos padrões do evangelho de Jesus Cristo. Prova disso é o acordo tríplice-palaciano por silêncio ou, no máximo, por amenização a críticas, fazendo-as de modo genérico. Evidência disso é que nunca se ouviram críticas explícitas do cardeal a ações dos governos estadual e municipal em casos agudos de crise. Cito 5 exemplos.
1 – Demolição do Museu do Índio para construção de estacionamento em vistas da copa do mundo. Cabral mandou, e a PM “desceu o cacetete” nos moradores da Aldeia Maracanã. Não houve nem uma notinha da Igreja, que tem como essência a opção preferencial pelos pobres.
Cf. https://m.folha.uol.com.br/…/1250643-batalhao-de-choque-da-…
A aldeia continua sob ataque, dessa vez retórico.
“Aldeia Maracanã é lixo urbano. Quem gosta de índio, vá para a Bolívia”
Rodrigo Amorim, deputado estadual eleito pelo PSL em entrevista a O Globo em 04/01/19
2 – Greve dos professores da rede municipal do Rio de Janeiro, em 2013. Diante de uma violência polícial totalmente desproporcional, em que professoras com mais de 50 anos de idade apanharam de Pms e na qual educadores foram alvejados por balas de borracha e bombas de gás, nada de denúncia contra a violência praticada pelo estado.
Cf. https://educacao.uol.com.br/…/rj-pm-afasta-policial-que-jog…
3 – Operações em favelas. A política do enfrentamento praticada pelo governo do estado costuma apreender alguma quantidade de drogas, algumas armas e prender alguns traficantes. No entanto, deixa um rastro de mortes inocentes de moradores e policiais em serviço. Em que momento o cardeal rompeu o silêncio e exclamou o óbvio: parem com operações dessa natureza! Parem de matar inocentes! Parem de enviar jovens soldados da PM para a morte! (Ou, se acredita na política de enfrentamento, quando o cardeal foi justo: Cabral, manda um caveirão para as portas de boates na zona sul, entre atirando e prenda os traficantes de drogas sintéticas. Ou quando o cardeal solicitou operações contra o tráfico de drogas que ocorre dentro da PUC?)
Cf.https://g1.globo.com/…/numero-de-mortes-por-intervencao-pol…
4 – De acordo com O Globo, a obra do Maracanã para a copa de 2014 custou aos cofres públicos 1,346 bilhão de reais. Levantamentos em dados oficiais mostram que a contrução de uma escola custa em torno de 6 milhões de reais e de um hospital 25 milhões. Seria possível construir cerca de 220 escolas públicas e, assim, evitar que agora, em 2019, houvesse mais de 20 mil alunos que ou não conseguiram vagas para o primeiro ano do Ensino Médio, ou estão tendo, com 15, 16 anos de idade, estudar à noite e longe de casa em uma das cidades mais violentas do país. Os gastos com um Maracanã também também equivalem à construção 50 hospitais públicos…
Cf. https://m.oglobo.globo.com/…/governardo-pezao-denunciado-pe…
5 – Crivella e o caso “Chama a Márcia”. Após um apoio explícito de parte efusiva de padres nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, quando, no segundo turno, o duelo foi entre Crivella x Freixo, houve o escândalo no Palácio da Cidade em que a máquina pública foi colocada à disposição de pastores evangélicos. Mais uma vez o cardeal arcebispo, que fingiu não ver padres fazendo campanhas nas missas para Crivella, não foi efetivo na denúncia contra a apropriação da máquina pública pela IURD.
Diante da flagrante má administração dos recursos públicos e da corrupção latente comandada por Cabral e Pezão e das denúncias contra Eduardo Paes, e Crivella, fica a dúvida:
POR QUE um dos cardeais mais influentes do Brasil, comandando uma das arquidioceses mais importantes do Brasil que configura o segundo maior colégio eleitoral do Brasil nunca teve a atitude profética que se espera de um sucessor dos apóstolos de se colocar frontalmente contra as ações de Cabral, Pezão, Paes e, mais recentemente, Crivella?
O cristianismo não deve assumir-se como detentor do poder político, mas tem o dever de lutar para que os que se encontram em cargos executivos, legislativos e judiciários ajam em defesa do bem comum. Quando isso não é feito de modo profético e efetivo, tem-se a omissão.
Sugiro ao cardeal orar com mais fervor:

Confiteor Deo omnipotens et vobis, fratres, quia peccavi omissione: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Sociólogo Jessé de Souza: "Só um tolo não vê a farsa orquestrada contra Lula"




O sociólogo Jessé de Souza, autor de livros como "A Elite do Atraso" e "A Classe Média 
no Espelho" escreveu uma carta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que é 
mantido como preso político há oito meses na Superintendência da Polícia Federal em 
Curitiba. 

Na careta, Jesse elogia Lula pelo seu legado no combate à miséria e na busca por 
uma distribuição de renda mais igualitária. "Em uma sociedade doente e cruel 
como a nossa, dominada pelo ódio covarde aos pobres, o senhor é a luz nas trevas. 
O senhor é o líder popular mais importante dos 500 anos de história deste país e o 
único que se preocupou com os mais pobres e os mais marginalizados", escreveu.

Souza destacou ainda que a perseguição judicial a Lula está cada vez mais clara e 
se materializa na parcialidade do agora ex-juiz Sérgio Moro. "A força moral do inimigo 
construída por mentiras já está caindo. A farsa de Sérgio Moro está cada vez mais 
evidente. Só um tolo não percebe isso", afirmou a Lula.  

Leia a carta na íntegra clicando aqui.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Carta do Papa Francisco a Leonardo Boff


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O Papa Francisco está sofrendo grande oposição por parte de alguns da Cúria Romana  e, curiosamente, também de membros conservadores do governo Trump, articulados com  grupos conservadores e até reacionários da Igreja Católica estadounidense, liderados pelo Card. Viganó.
Como apoio ao Papa Francisco  lhe escrevi uma carta, como fiz de outras vezes. Através do embaixador argentino junto a Santa Sé, Valdés, no governo de Cristiana Kirchner, me respondia através dele. O mesmo fez ao escrever a encíclica Laudato Sí: sobre o cuidado da Casa Comum, agradecendo minha modesta colaboração.
Aqui mostro a carta de agradecimento pelo meu apoio a ele com os melhores augúrios pelos meus 80 anos de vida.
Eis a carta:
Dr. Leonardo Boff
Querido hermano,
Gracias por tu carta enviada tràmite el P. Fabiàn.
Me alegrò recibirla y te agradezco la generosidad de tus comentarios.
Recuerdo nuestro primer encuentro, en San Miguel, en una reuniòn de la CLAR, allà por los anios 72-75. Y luego te seguì leyendo algunas de tus obras.
Por estos dìas estaràs cumpliendo 80 años. Te hago llegar mis mejores augurios.
Y, por favor, no te olvides de rezar por mì. Lo hago por vos y tu Senora. 
Que Jesùs te bendiga y la Virgen Santa te cuide.
Fraternalmente.
Francisco

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

A direita em ação: Vaticanista ultraconservador admite ter ajudado a escrever panfleto de ex-núncio contra o papa Francisco



Publicado no IHU e no DCM:
O vaticanista ultraconservador Marco Tosatti revelou que ajudou Carlo Maria Viganò a redigir e a divulgar em meios afins sua brutal acusação contra o Papa Francisco, e que foi ele quem convenceu o ex-núncio a torná-lo pública após o escândalo da Pensilvânia.
A reportagem é de Religión Digital, 28-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Em declarações à Associated Press, Tosatti explicou que ajudou Viganó a escrever, reescrever e editar seu testemunho de 11 páginas, observando que eles passaram três horas sentados ao redor de uma mesa de madeira na sala de estar do repórter no dia 22 de agosto passado.
Viganò, que ele conhecera antes, ligou para ele algumas semanas antes pedindo-lhe uma reunião, contou Tosatti, um promissor conservador crítico ao papa.
O prelado, então, contou-lhe as histórias que serviram de base para seu testemunho contra o pontífice. O documento de Viganò defende que o pontífice argentino sabia desde 2013 das acusações de abuso sexual que o ex-arcebispo de Washington, Theodore McCarrick, enfrentava, mas, apesar disso, reabilitou-o das sanções impostas pelo seu antecessor, Bento XVI.
Viganò pediu a renúncia de Francisco, pelo que qualificou como cumplicidade para encobrir os crimes do ex-cardeal McCarrick. No entanto, há ampla evidência de que o Vaticano fez o mesmo sob o comando de Bento XVI e de João Paulo II, e de que as sanções do papa anterior, caso tenham existido, nunca foram aplicadas, muito menos por Viganò.
O ex-núncio guarda silêncio desde a publicação de seu ataque contra o papa, e seu paradeiro é desconhecido. Assim, a reconstrução oferecida por Tosatti é a única versão sobre a elaboração do documento. Tosatti foi correspondente do jornal La Stampadurante anos, mas atualmente só escreve em blogs ultraconservadores.
Na conversa com a Associated Press, Tosatti afirma que, depois do seu primeiro encontro há algumas semanas, Viganò não estava preparado para tornar pública a sua denúncia. Mas o repórter o telefonou depois da publicação do relatório da Pensilvânia, que mostra como mais de 300 “predadores sexuais” abusaram de mais de mil menores nos últimos 70 anos.
Tosatti afirma ter dito ao arcebispo: “Eu acho que, se o senhor quer dizer algo, agora é o momento, porque tudo está de cabeça para baixo nos Estados Unidos. Ele disse: ‘Ok’”. Então, os dois se reuniram no apartamento de Tosatti em Roma. “Ele havia preparado uma espécie de rascunho do documento e se sentou aqui ao meu lado”, disse Tosatti à Associated Press atrás de sua escrivaninha, apontando para uma cadeira de madeira à sua direita.
“Eu lhe disse que tínhamos que trabalhar nele, porque não tinha estilo jornalístico.” Tosatti afirma ter convencido Viganò a eliminar as denúncias que não podiam ser sustentadas ou documentadas, “porque tinha que ser absolutamente irrefutável”.
Em seu escritório romano, ambos trabalharam durante três horas na redação da nota. Para Tosatti, Viganò teve muita dificuldade para tomar essa decisão. “Eles (os diplomatas da Santa Sé) são criados para morrer em silêncio”, enfatizou, “então o que ele estava fazendo era algo absolutamente contrário à sua natureza”.
Com o documento em mãos, o veterano jornalista procurou publicações dispostas a publicá-lo na íntegra: o pequeno jornal italiano La Verità, o National Catholic Register, que é editado em inglês, e, em espanhol, o InfoVaticana, todos meios de comunicação ultraconservadores que, como o próprio Tosatti, fizeram da crítica a Francisco o seu leitmotiv e que decidiram publicar a carta durante a viagem do papa à Irlanda, para que o impacto da “bomba” se multiplicasse.
Foto: Wikimedia Commons

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Com ampla adesão popular, Papa Francisco enfrenta reacionários da Igreja



Fotos Públicas: Mazur/catholicnews.org.uk

A sua modéstia e humildade fizeram dele uma figura popular por todo o mundo. Mas, dentro da Igreja, as suas reformas têm enfurecido os conservadores e provocado uma revolta

Da RBA
A edição de hoje (24 de dezembro) do Público, um dos principais jornais portugueses, reproduziu reportagem especial do jornalista Andrew Brown, do inglês The Guardian.
Segundo a reportagem, a modéstia e humildade do argentino Jorge Mario Bergoglio fizeram dele uma figura popular por todo o mundo. Mas, dentro da Igreja, as suas reformas têm enfurecido os conservadores e provocado uma revolta.
O homem que há precisamente uma semana fez 81 anos e vive com apenas um pulmão, conforme a reportagem, é o primeiro Papa não europeu dos tempos modernos e tem neste momento em mãos uma Igreja dividida.
E que um dos seus mais ferozes críticos, o cardeal Burke, é o mesmo que serviu de inspiração a uma série de proeminentes figuras laicas de direita nos Estados Unidos, de Pat Buchanan a Steve Bannon ou Newt Gingrich.
Conforme Brown, o Papa Francisco é atualmente um dos homens mais odiados do mundo. E quem mais o odeia não são ateus, protestantes ou muçulmanos, mas alguns dos seus próprios seguidores. Fora da Igreja goza de grande popularidade, afirmando-se como uma figura de uma modéstia e uma humildade quase ostensivas.
Desde o momento em que o cardeal Jorge Bergoglio se tornou Papa em 2013, prossegue a reportagem, os seus gestos prenderam a atenção do mundo: o novo Papa guiou um Fiat, transportou as próprias malas e pagou a conta em hotéis; sobre os homossexuais, perguntou: “Quem sou eu para julgar?”, e lavou os pés de refugiadas muçulmanas.
Dentro da Igreja, porém, Francisco tem desencadeado uma reação feroz por parte dos mais conservadores, que temem que este novo espírito divida a Igreja ou até que a destrua. 

Confira a íntegra da reportagem clicando aqui.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Defender a Filosofia contra cegueira neoliberal

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Projeto do governo para Ensino Médio chega ao Senado. Resistiremos: porque só uma visão não-fragmentada do mundo permite transformá-lo
Por Fran Alavina | Imagem: Pieter BruegelThe Parable of the Blind Leading the Blind, 1568
De novo, querem nos calar! De fato, não se trata de nenhuma novidade. Contra o silêncio da dúvida que precede toda contestação, querem impor o emudecimento forçado. Com efeito, a história da Filosofia está marcada por tentativas de fazer calar a potência do pensamento. Não foi assim contra Giordano Bruno, morto pela inquisição vaticana por ter nos mostrado as possibilidades abertas pelo alcance da infinitude? Não foi assim também com Walter Benjamim, perseguido até a morte pelos nazifascistas? Nessas, e em tantas outras tentativas, mesmo naquelas ocasiões em que os filósofos não são mortos, trata-se de realizar ações violentas contra uma forma de saber que sempre se coloca contra toda imposição.
De fato, o outro nome da Filosofia é Liberdade. São justamente os que querem a servidão dos ânimos, a subordinação do pensamento, em vez da sua autonomia doadora de pluralidade, que, mais uma vez, agindo violentamente, querem calar a voz rouca de um saber secular. Desta vez, trata-se de uma violência em forma de lei, por conseguinte uma violência constitucional. No final do ano passado, a Câmara dos Deputados votou pela não obrigatoriedade da Filosofia e da Sociologia na grade curricular do ensino médio. Para “disfarçarem” a violência de uma lei sem legitimidade, pois feita sem a devida discussão e sem a anuência da comunidade escolar, disseram que tratar-se-ia de dissolver os conteúdos filosóficos em outras disciplinas da grade curricular. Agora, ainda nesse primeiro semestre de 2017, o projeto deve ser discutido e votado no Senado Federal. Esta dissolução tentar enfraquecer a Filosofia e a Sociologia à medida que tenta fazer crer que seus conteúdos possam ser simplesmente dissolvidos em outros saberes.
Na verdade, não se trata de ensejar o diálogo interdisciplinar, mais sim de reduzir ao mínimo do mínimo possível o espaço propício ao pensamento crítico. Os conteúdos filosóficos e sociológicos possuem especificidades que lhes são próprias, demandando, por isso, tempo e espaço particulares. São conteúdos sólidos, que ao mesmo tempo em que ensejam um saber específico, podem colocar em diálogo disciplinas aparentemente díspares como a matemática e a literatura. Portanto, a via não é a dissolução dos conteúdos filosóficos e sociológicos, mas, pelo contrário, o fortalecimento deles, garantindo-lhes maior espaço e consideração na vida escolar.
Esta ação contra a Filosofia e a Sociologia está no bojo da famigerada reforma do ensino médio, que nada mais é que o retrocesso do sistema público de ensino. Se aprovada esta reforma-desmache, teremos dando dez passos para trás. Caindo em um tipo de ensino médio tecnicista capenga, reforçador das desigualdades sociais à medida que retira das classes populares o direito ao saber em sua completude. Para a imensa maioria, o mínimo; para alguns poucos, o tudo. Ademais, este gesto autoritário contra a Filosofia e a Sociologia dá margem a uma estupenda queda da qualidade do ensino, pois junta-se a isto, a possibilidade de que pessoas de “notório saber”, portanto sem a qualificação específica para o ensino, possam ministrar aulas. Desse modo, a reforma-desmanche do ensino médio tenta “flexibilizar” o saber para torná-lo um simples acúmulo de opções mínimas, dando aos alunos uma visão de mundo fragmentada e dispersa. Esta fragmentação e dispersão impede uma interpretação crítica da realidade, uma vez que faz parecer distante aquilo que está próximo. Retorna, em alguma medida, o lema do dividir para dominar melhor.
É esta visão dispersa de uma realidade apresentada como justaposição de fragmentos autônomos que possibilita, por exemplo, a ilusão de que a justificativa econômica está acima do argumento político; ou a fantasia desastrosa de que homens “não políticos” possam fazer política; ou ainda a crença supersticiosa de que todos nós somos empreendedores de nós mesmos; e, que, portanto, ao trabalharmos não somos trabalhadores, mas “prestadores de serviços”. Neste último caso, a reforma-desmanche do ensino médio está de mãos dadas com a ideologia neoliberal. É próprio da ideologia neoliberal fragmentar e dispersar para reduzir e limitar nossa visão de mundo. Não por mera coincidência, seu produto mais acabado no campo do saber é o aparecimento da figura do especialista. Aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Conforme avança a sanha neoliberal, mais pobre se torna a compreensão do que seja o processo educativo: reduzindo a dignidade do saber ao utilitarismo do mercado. Quem sabe em virtude da utilidade do mercado nunca sabe por si mesmo, portanto é um sujeito-objeto.
Um sujeito incapaz de dar um sentido único à dispersão que o aprisiona, um sujeito dócil, útil à servidão voluntária.
Dessa forma, tentam formar uma geração muda e resignada, mas que já deu mostras de não se deixar calar facilmente. Trata-se de um projeto de médio prazo: incapacitar o pensamento crítico no presente para fechar a possibilidade de qualquer futuro melhor e diferente do que temos hoje.
Ao neoliberalismo não interessa o saber na verdadeira acepção do termo, mas a ignorância disfarçada de conhecimento. Na medida em que não são ofertados os meios necessários para se constituir uma visão integral da realidade em suas diversas instâncias, conforme quer fazer a reforma-desmanche do ensino médio, mais de uma geração sofrerá um genocídio educacional. Não será apenas um genocídio simbólico, mas também material, uma vez que o tipo de saber construído afetará materialmente e politicamente as próximas gerações das classes trabalhadoras. Um genocídio típico dos regimes ditatoriais, mas, dessa vez, feito sob a tutela “democrática”.
Ora, a última vez que a Filosofia foi retirada da grade curricular foi justamente nos anos da ditadura militar. Os artífices do poder autoritário e dos regimes de exceção sabem que o exercício do pensamento quando feito livremente, e na sua plenitude, é por natureza indômito. Estavam cientes naquela época, como agora, que o pensamento é ousado e que nunca se dobra aos cerceamentos.
Ante a violência do poder que impõe, a Filosofia afasta toda forma de resignação. Nunca está resignado quem se põe a pensar sobras as causas de obviedades aparentes que sustentam a servidão voluntária. Questionar, por mais simples que seja o questionamento, já é não resignar-se. Por isso, a relação entre Filosofia e Democracia é algo inconteste. Quando os regimes democráticos estão ameaçados ou em crise, como no nosso caso, sempre se atenta contra a Filosofia, pois se reconhece nela uma forma de saber que mesmo sendo considerada inútil, se presta ao mais digno dos trabalhos: o reconhecimento da liberdade como único meio pelo qual se dá uma existência verdadeiramente humana. A Filosofia é, por excelência, o saber que interpela o poder. Por isso, não são poucos os que querem o seu silêncio.
Resistiremos, pois a Filosofia nunca se resigna. Ela resistiu desde quando aquele grego inoportuno fazia, no espaço público, simples perguntas aos seus concidadãos. Ele mostrou que a verdadeira vida democrática é aquela que não teme a dúvida, nem exaspera ante o reconhecimento dos opostos, fazendo da contestação um índice de vitalidade da vida democrática. Por isso, agora, que mais uma vez se tenta agir com violência contra a Filosofia, é a hora de fazer como fez o velho grego: ocupar os espaços públicos possíveis, fazer indagações simples e aparentemente inoportunas, pois este tipo de indagação é aquela que se presta ao desmoronamento das falsas certezas. Assim, talvez a primeira destas indagações seja esta: quem quer nos calar?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Papa reconhece corrupção no Vaticano e denuncia atmosfera mundana e principesca, por Mauro Lopes



O Papa Francisco reconheceu pela primeira vez que “há corrupção no Vaticano”, numa reunião a portas fechadas, em 25 de novembro, com 140 superiores de ordens e congregações religiosas. O diálogo será publicado na revista dos jesuítas, a Civilta Cattolica, que chega à edição 4.000. A declaração atinge diretamente os conservadores, que governaram a Cúria romana nos últimos 35 anos, durante os papados de João Paulo II e Bento XVI. No mesmo encontro, Francisco voltou a criticar duramente o clericalismo e disse que é preciso destruir o “ambiente nefasto” da “atmosfera mundana e principesca” de algumas estruturas eclesiásticas.
Na reunião, Bergoglio admitiu que nas estruturas da Igreja “pode ​​ser encontrada uma atmosfera mundana e principesca.” É a primeira vez que o Papa apontou diretamente a presença de corrupção no interior das muralhas do Vaticano e admitiu que esta questão foi um dos temas de sua eleição:  “Em conversas pré-conclave falamos de reformas. Todos as queriam, porque há corrupção no Vaticano, mas eu vivo em paz.”
Durante a conversa com os religiosos, Francisco afirmou a necessidade “algum pacifismo” para continuar a trabalhar apesar das críticas “mas nunca lavando as mãos dos problemas”, completando:  “na Igreja há muitos Pôncio Pilatos que lavam as mãos para sua tranquilidade, e um superior [das congregações] que lava as mãos não é pai, não ajuda”.
Sobre as críticas que sofre, o Papa respondeu  que “a vida é cheia de mal-entendidos e tensões, e quando as críticas servem para crescer, as aceito e respondo”. Diante da “atmosfera mundana e principesca” de algumas estruturas eclesiásticas, Francisco afirma a necessidade de “destruir esse ambiente nefasto.” Ele advertiu: “Não há necessidade de se tornarem cardeais para acreditarem-se príncipes; basta ser clericais Isto é o pior na organização da Igreja …”
O Papa também foi especialmente duro a respeito do abuso de crianças, a ponto de afirmar que, por trás dos abusos do clero “está presente o diabo, que destrói a obra de Jesus através teria que teria que anunciá-la”. Francisco, no entanto, apontou que a pederastia “é uma doença” e sublinhou que “tudo indica que dois de cada quatro abusadores sofreram abusos na infância. Isso é devastador.”
O Papa pediu aos superiores religiosos “atenção para os que recebem candidatos à formação religiosa sem verificar a maturidade afetiva adequada “. E continuou: “Por exemplo, nunca recebam na vida religiosa ou na dioceses candidatos que tenham sido rejeitados em outra sem pedir informações detalhadas sobre as razões do afastamento anterior”.
Finalmente, Francis lembrou de como, ao entrar no noviciado jesuíta, “deram-me o cilício. Tudo bem, mas atenção:  isto não serve para me ajudar a provar que sou bom e forte A verdadeira ascese tem de fazer-me mais livre.”
[Com Religion Digital e agências] Fonte: Outras Palavras

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Cristo, assim como outros que lutaram pela paz, teve morte violenta por sua mensagem e vida questionarem o sistema de poder vigente




Texto de Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Não é estranho, mesmo tragicamente contraditório, o fato de que os que mais fizeram em prol da paz, da justiça, da igualdade, libertação de consciências tenham tido quase sempre morte violenta? Ao menos, no Ocidente que se julga tão especial, isto tem sido quase que uma regra, mas não apenas aqui. Lembremos da morte trágica de Gandhi, que também foi violenta apesar de sua luta pacífica e de diálogo entre as diferenças.  

   A forma como tratamos os melhores homens e mulheres diz muito de nosso estágio evolutivo. Não é preciso expor exemplos inúmeros para confirmar isto. Basta alguns mais. Citemos, entre tantos, os de Sócrates, Jean Huss, Giordano Bruno, ou, mas recentemente, Martin Luther King, a injusta prisão de Nélson Mandela, entre outros casos assemelhados de perseguições a quem luta por justiça e igualdade social... Mas, sem dúvida, na História, talvez o mais conhecido e chocante dos casos tenha sido o de Jesus de Nazaré que, aliás, foi modelo para os citados acima no seu método de enfrentar as injustiças, com exceção de Sócrates e Buda que foram de uma época anterior. Dele sabemos que pregou e exemplificou o amor, a justiça, a irmandade entre todos os homens e mulheres e, com isto, expôs uma ética radical que, para o status quo de sua época - e também hoje -, era inaceitável e o levariam ao suplício.

 Independente de ter ou não Cristo a intenção de criar uma nova religião, não pode haver dúvidas de que ele pretendia despertar consciências, como o fizeram antes dele Sócrates, na Grécia, ou Buda, na Índia. E tal despertar não se faria apenas por uma aceitação "teórica" da paternidade de Deus. Tal realidade nos faz todos irmãos e só tem sentido na vivência ética da irmandade. É isto que fica explícito na doutrina original de Jesus resumida, pelos evangelistas, no famoso Sermão da Montanha, Aqui, destacamos o seguinte trecho do capítulo 25 do evangelho artibuído a Mateus, demonstrando , em sua linguagem poética muito útil para se gravar na memória, bem claramente que Cristo não separava a consciência do Reino de Deus de sua aplicação social na Terra:
34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; 
35 Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; 
36 Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. 
37 Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? 
38 E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? 
39 E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? 
40 E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. 
41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; 
42 Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; 
43 Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. 
44 Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? 
45 Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. 
   Compare estas palavras com estas outras, também encontradas no evangelho atribuído a Mateus, capítulo 7:
21 Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. 
22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? 
23 E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. 
24 Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras, e as pratica, assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; 
25 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. 
26 E aquele que ouve estas minhas palavras, e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; 
27 E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda. 
28 E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina; 
29 Porquanto os ensinava como tendo autoridade; e não como os escribas.
  Portanto, o "Reino dos Cèus" se advém de Deus e de sua justiça, haveria de ser aplicado igualmente sobre a terra. Ou, em outras palavras, o a perfeição da justiça celesta haveria de ser aplicada igualmente na Terra e seu exemplo de vida seria o paradigma disto. Afinal, "o Reino dos Céus está dentro de vós" (Lucas 17:20-21).

  Isto não impedia que o próprio Jesus fizesse críticas severas aos que deveriam, mais que todos, cumprir a Lei Moral do judaísmo, que já traz, no meio de tanta letra morta, as pérolas referentes à regra de Ouro: Fazer a outrem o que gostaria que se fizessem.

  As discussões por vezes quase violentas entre Jesus e os doutores da Lei do Templo são bem conhecidas, como igualmente conhecida é sua atitude de expulsar os vendilhões do templo. Justiça social e crítica à hipocrisia eram expressões do ensinamento de Cristo e foi isto que lhe faria seguir em rota de colisão com os interesses poderosos deste mundo e o resultado final todos conhecemos. Daí também o fato de que a ética radical de Jesus por vezes ficar encoberta pela letra nos escritos que sobre ele foram feitos, anos depois de sua morte sem que, no entanto, impedisse o despertar, ao menos nos três primeiros séculos, de pessoas de todas as classes sociais para a solidariedade e a crítica social, motivo das perseguições violentas aos cristãos até a época de Constantino. Infelizmente, a clareza revolucionária da mensagem original estaria sendo soterrada por uma série de encobrimentos dogmáticos e teológicos à medida que a Igreja se aproximava mais de César que do povo. Fica, então, uma pergunta: em nossa época de egoísmo exacerbado, individualismo e neofascismo galopante, como os poderosos de hoje tratariam Jesus Cristo?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Mauro Lopes: 2017 começará com agravamento do confronto na Igreja entre ultraconservadores e o Papa Francisco


A verdadeira guerra que quatro cardeais e segmentos ultraconservadores movem contra o Papa deixou definitivamente os bastidores, acontece à luz do dia e deve agravar-se no início de 2017. A sucessão de confrontos entre o grupo apoiado por uma agressiva mídia católica conservadoras e Francisco mudou de qualidade em novembro e tornou-se uma crise aguda.
Apesar de o primeiro movimento público ter sido assumido por cardeais quatro cardeais conservadores, os alemães Walter Brandmüller e Joachim Meisner e mais Carlo Caffarra (italiano) e Raymond Burke (norte-americano), a liderança pública das afrontas ao Papa têm sido lideradas por este último, que se apresenta como um porta-voz dos conservadores da Igreja.
As ações dos conservadores acontecem em torno da exortação Amoris Laetitia (Alegria do Amor) lançada pelo Papa depois do Sínodo da Família e especialmente a questão do direito à comunhão de casais divorciados casados pela segunda vez. Mas a disputa verdadeira acontece em torno da decisão de Francisco de de retomar a opção preferencial pelos pobres e retomar as diretrizes do Concílio Vaticano II.
A sequência e velocidade da crise a partir de meados de novembro é de fato impressionante:
  • 14 de novembro – os quatro cardeais vazaram ao vaticanista conservador Sandor Magister uma carta privada que haviam endereçado a Francisco em setembro apresentando as agora famosas “dubia” (dúvidas); o objetivo foi decretar que a indissolubilidade do casamento seria uma “norma moral absoluta” para os católicos -o que carece de amparo histórico.
  • 16 de novembro – apenas dois dias depois do vazamento a Magister, o site conservador Infovaticana veiculou entrevista de Burke na qual ele afirmou que seu grupo poderá decretar  “um ato formal de correção de um erro grave” contra o Papa, se ele não ceder às ameaças (aqui).
  • 18 de novembro – o Avvenire jornal dos bispos italianos publicou entrevista com Francisco na qual ele reagiu com vigor à ofensiva dos cardeais conservadores, acusando-os de fazerem críticas desonestas para fomentar a divisão na Igreja e de apegarem-se a um “legalismo” de fundo ideológico (aqui).
  • 20 de novembro – o bispo Fragkiskos Papamanolis, presidente da Conferência Episcopal da Grécia saiu na defesa de Francisco e divulgou uma carta aberta aos quatro cardeais, dizendo que eles deveriam, por dever de honestidade, renunciar às suas cadeiras no Colégio Cardinalício.
  • 26 de novembro – o Papa enviou carta a 800 gestores das organizações religiosas participantes do Simpósio sobre Economia da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, contendo dura advertência quanto à “hipocrisia dos consagrados que vivem como ricos fere a consciência dos fiéis e prejudica a Igreja”. Este é um tema que confronta Francisco diretamente com os conservadores.
  • 30 de novembro – divulgado texto de um dos mais destacados teólogos da Igreja, o italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, em defesa do Sínodo da Família e da Amoris Latetitia, colocando-os em linha direta com o Vaticano II. Foi no prólogo do livro do também teólogo e sacerdote Jesús Martínez Gordo, da diocese de Bilbao, intitulado Estive divorciado e me acolhestes –leia aqui.
  • 8 de dezembro –  numa ação coordenada por Raymond Burke, patrono da Ordem de Malta, a direção da organização destituiu seu grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, cargo de nomeação direta do Papa. Burke foi colocado à frente da Ordem por Francisco em 2014, que o removeu do poderoso  Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano -apesar da inexpressividade da Ordem de Malta, Burke encontrou mais um meio de confrontar Francisco e conseguir repercussão, mobilizando apoios entre os conservadores.
  • 19 de dezembro – em entrevistas a veículos conservadores dos EUA, Burke apresentou como que dois “ultimatos” ao Papa. Ao LifeSite, assegurou que se o Papa não responder às “dubia” seu grupo irá divulgar a anunciada “correção formal” a Francisco logo depois da solenidade da Epifania, que será celebrada em 8 de janeiro de 2017 (aqui); ao portal Catholic World Report Burke foi ainda mais longe e insinuou que o Papa é herege, ameaçando com a destituição: “Se o Papa professar uma heresia formalmente deixaria, por esse ato, de ser Papa. É automático.” Espertamente, para evitar uma punição direta, disse a seguir que “não estou dizendo que o Papa Francisco está em heresia” (aqui).
  • 22 dezembro – o Papa nomeou uma comissão para investigar a destituição do grão-chaceler da Ordem de Malta.
  • 22 de dezembro – depois de ter abalado a Cúria romana no discurso de Natal em 2014 quando atacou o que qualificou de “15 doenças curiais”, Francisco voltou à carga este ano numa duríssima advertência contra as “resistências maliciosa” de “mentes distorcidas” contra as reformas da Igreja (aqui).
  • 24 dezembro – a cúpula da Ordem de Malta reagiu de maneira sem precedentes a um Papa e contesta a comissão nomeada por Francisco, qualificando o gesto de “inaceitável” (leia aqui a reportagem de Religion Digital sobre o assunto).
Não é à toa que nos corredores do Vaticano, altos funcionários chamam Francisco à boca pequena de “esse argentinozinho”.
 Para termos uma ideia do que Francisco enfrenta é preciso retroceder na história. Ao ser apresentado ao mundo, o novo Papa surgiu no balcão do Vaticano vestido de branco, sem ouro algum. Num gesto inédito, curvou-se diante da multidão que ocupava a Praça São Pedro e pediu que as pessoas rezassem por ele. Com isso, rompeu uma tradição milenar de identificar o Papa com um monarca, abalada com a nomeação de João XXIII e o Concílio Vaticano II, há 50 anos, mas reconstruída por João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI (2005-2013). Na noite de na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013, o mundo viu um Papa humilde, sem ornamentos e vestes pomposas. O novo papa curvou-se [Clique aqui para o vídeo da apresentação do novo papa ao povo; vá até 7min20 e veja a cena]

Francisco curva-se diante do povo na praça São Pedro na noite de sua eleição, em 13 de março de 2013 –ao lado dele, o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes
O equilíbrio de forças no interior da Igreja, fortemente impactado pela onda conservadora dos últimos 35 anos, parece manter Francisco em relativo isolamento na cúpula católica, agravado pela onda conservadora que varre o planeta. Mas o cenário é paradoxal, pois este é o Papa mais popular da história, superando João Paulo II. Segundo seus aliados e alguns vaticanistas, Francisco está, aos poucos, modificando o perfil da Igreja. É o que diz dom Cláudio Hummes, o cardeal brasileiro que se tornou conhecido mundialmente pelo fato de, estando ao lado do Papa no exato momento de sua eleição, cumprimentá-lo sussurrando em seu ouvido uma frase que inspirou Bergoglio a escolher o nome de Francisco: “Não se esqueça dos pobres”.
Hummes assegura que a imensa maioria dos cardeais está ao lado do Papa: “Sem querer relativizar este fato, são quatro cardeais. E na Igreja somos mais de 200. Sem querer relativizar demasiadamente, são quatro de um grupo enorme que está dando todo o seu apoio ao Papa”. Não são apenas quatro; nas últimas semanas pelo menos outros três cardeais acorreram em apoio ao grupo original (George Pell, prefeito da Secretaria de Economia do Vaticano, alvo de um processo no qual é pesadamente acusado de encobrir casos de pedofilia na Austrália;  o arquiconservador Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino; Renato Martino, presidente emérito do Pontifício Conselho de Justiça e Paz).
‎Os movimentos no tabuleiro da Igreja estão sendo pensados de olho no próximo Papa, pois Francisco, aos 80 anos, não terá tempo para concluir suas reformas. Ele sabe disso e está redesenhando o colégio eleitoral do próximo papa com frieza e tirocínio típicos dos jesuítas. Para o teólogo brasileiro César Kuzma, Francisco “não joga no escuro e nem mesmo faz apostas para ver onde vai dar, ao contrário, ele sabe o que quer e sabe o que deve buscar. Ele também sabe que não terá um Pontificado longo e que não terá como resolver e mudar tudo.”
Por isso, ao nomear 13 cardeais com direito a voto (menos de 80 anos de idade) em 19 de novembro, ele é responsável por 1/3 do total de indicações do colégio de cardeais com direito a voto neste momento (44 de um total de 121). Em três rodadas de nomeações desde 2013, o Papa já conseguiu um feito memorável na história da Igreja: acabou com a maioria europeia. São agora 54 cardeais do Velho Continente contra 67 do resto do mundo.
É de se esperar mais uma ou duas rodadas de nomeações cardinalícias à frente. Com isso, o cálculo e a esperança dos conservadores para o próximo Papa pode estar em risco. O que explicaria a radicalização da luta no interior da Igreja nas últimas semanas.
O início de 2017 promete tensão e ações agressivas na disputa pelo perfil da Igreja Católica que se apresenta aos fiéis e ao mundo.
‎[por Mauro Lopes]
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[Uma primeira versão desta reportagem foi publicada originalmente na revista eletrônica Calle2, em 17 de dezembro, e, coautoria com Sérgio Kraselis, por ocasião do 80º aniversário do Papa Francisco – a versão original está aqui e republicada pela agência de notícias do Instituto Humanitas Unisinos, clique aqui e pelo site da Associação Rumosaqui]

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Evangélicos querem eleger um presidente para influenciar no Judiciário