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segunda-feira, 13 de julho de 2020

Elika Takimoto: Pastor criacionista posto como novo Ministro da Educação é uma pessoa retrógrada, primitiva e preconceituosa



"Lamento profundamente em ter uma pessoa tão retrógrada, primitiva, antiquada, preconceituosa, desatualizada, absoleta e machista comandando uma pasta essencial para um futuro menos injusto", diz a colunista Elika Takimoto

(Foto: Reprodução)

247.- Nunca espero que venha algo bom de qualquer coisa que Bolsonaro esteja envolvido. O quarto nome indicado para ministro da educação é um pastor. Qual o problema ser pastor nesse governo, né? Já deveríamos estar acostumados, afinal, temos a pastora Damares no comando do ministério dos Direitos Humanos e o pastor ministro da justiça. Todos “terrivelmente evangélicos”, termo usado pelo próprio Bolsonaro.
Como professora que sou há uns 25 anos, o meu corpo chega a doer vendo essa pasta sendo alvo de grupos conservadores. Nada contra religião e tudo contra o fundamentalismo religioso regendo as leis e a conduta deste país.
Não vejo discussão alguma sobre a Educação desde que Bolsonaro assumiu. Só me deparo com várias tentativas de atender a essa alucinação coletiva. Não há projeto para educação. A escola de Bolsonaro nunca foi pautada pelo conhecimento e pela competência da pessoa e sim em agradar grupos que o apoiem.
Falei, assim que o pastor Milton Ribeiro foi nomeado, que não importa a religião dele, contanto que não a use para comandar essa pasta essencial para o futuro do país. Mantenho o que disse. Porém, agora, já tenho como traçar um perfil desse pastor depois de ter visto vários vídeos, disponibilizados pelo próprio, sobre seus valores e sua visão de educação. Não trago boas novas, mas é preciso e urgente que elas sejam explicitadas.
Para citar somente três exemplos, o pastor já:
1-  Justificou o feminicídio: Ele afirmou que um homem de 33 anos que matou uma adolescente de 17 “confundiu paixão com amor”. Ao tentar justificar o feminicídio, o pastor ministro disse que paixão “é louca mesmo”. “Acho que esse homem foi acometido de uma loucura mesmo e confundiu paixão com amor. São coisas totalmente diferentes. Ele, naturalmente movido por paixão, paixão é louca mesmo, ele então entrou, cometeu esse ato louco, marcando a vida dele, marcando a vida de toda família. Triste”, disse.
Vê-se que o pastor nem sequer acompanha a evolução da nossa história. O que motiva homens a matarem mulheres não é o amor, nem a paixão e sim um sentimento de ódio e de propriedade, um sentimento de ter sido contrariado. Não existe “crime passional” e sim feminicídio. Quando se repete a ladainha que se matou por paixão, se induz a condição de atenuante de pena, e dá a entender que estamos falando de algo natural. Não é. É cultural. E essa fala do pastor ajuda a fortalecer essa cultura machista e contribui e muito para que outros crimes aconteçam.
2 -Disse que “Quando o pai é ausente dentro da casa, o inimigo ataca. Quando não impõe, essa é a palavra, a direção que a família vai tomar (…) o homem dentro de uma casa, ele aponta o caminho que a família vai”.
Eu poderia trazer dados do IBGE aqui que apontam que as mulheres têm chefiado mais famílias – mesmo quando possuem marido – representando a quase 50% dos casos e poderia mostrar como isso não tem nada a ver com a índole da família baseado em análises feitas e publicadas. Mas não importa porque para o pastor, como ele mesmo disse, o homem é responsável por “apontar o caminho”, dando a entender, obviamente, que o caminho apontado é o da moral.
Se o pastor usasse essa fala para denunciar o abandono paterno, seria um serviço. Mas não há vídeo, por mais que eu tenha procurado, que mostre que o pastor tenha esse tipo de preocupação com quase 6 milhões sem o nome do pai no registro. Também não encontramos nenhuma fala que demonstre um átimo de inquietação com o fato de que a maioria dos domicílios brasileiros tem mulheres negras como responsáveis pelo núcleo familiar. São elas que estão mais sujeitas à maternidade solitária, fruto de uma sociedade machista e de tradição escravocrata.
Que ter pai é importante, todos nós que temos ou deixamos de ter sabemos. O ponto é que a figura paterna tem várias funções relevantes na educação e a presença de um pai dentro de casa não quer dizer que, somente por causa dela, a família terá um norte moral e bom a seguir. O pastor desconsidera dados e a complexidade da sociedade.
3 -Falou com todas as letras, pasmem, que: “Não dá para argumentar de igual para igual com criança, senão ela deixa de ser criança. Deve haver rigor, SEVERIDADE. Vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir DOR”. O “ensinamento” está em trecho de uma pregação que pode ser encontrada no canal de vídeos do próprio ministro da educação.
Segundo o pastor-ministro, a “cura” para uma criança não vai ser obtida por métodos “justos e suaves”. “Talvez uma porcentagem muito pequena de criança precoce, superdotada, é que vai entender seu argumento. Deve haver rigor, severidade.”
Ora, senhor pastor, a Educação deve ser usada para combater a violência e, portanto, não devemos usá-la. Mais uma vez, essa fala mostra o quanto o pastor está desatualizado sobre estudos na área da Educação. Para começar a “Educação” não pode ser pensada sozinha e sim juntamente com a saúde, justiça, cultura, esporte, de relações da comunidade e muito mais.
Para além disso, está nos nossos documentos oficiais, como Base Nacional Comum Curricular (BNCC), importantes referências para a Educação como proteção contra a violência.  Entre as que mais se relacionam ao assunto, destaco as seguintes: a de argumentar e promover os direitos humanos (No 7), a  de exercitar a empatia e valorização dos diferentes saberes e identidades (No 9) e o reforço pela autonomia, tomada de decisões com base em princípios democráticos e inclusivos (No 10).
Estudos apontam que até a metade do século 20 os castigos físicos e punições corporais (ou não) eram práticas educativas socialmente aceitas e recomendadas, sendo utilizadas como instrumento de disciplina moral, garantia de respeito e obediência  especialmente à figura do pai, que, dentro de uma sociedade machista, foi considerada por tanto tempo como autoridade tanto para a esposa quanto para os filhos.
Se as pessoas considerarem o que o ministro-pastor disse, descartarão um fato apontado por vários especialistas na área que as punições físicas, ameaças, privação de privilégios e afetos não levam a criança a compreender as implicações do que fez. 
Por outro lado, quando não usamos violência, favorecemos a internalização valores, por propiciarem à criança a compreensão dos motivos que justificam a necessidade da mudança de comportamento, colocando-a como sujeito ativo em seu processo educativo e não como alguém submissa a ele.
Em outras palavras, não faltam livros que mostram que o uso de punições não é considerado eficaz à educação da criança e do adolescente na medida em que produz consequências negativas ao seu desenvolvimento a curto, médio e longo prazo.
A verdadeira autoridade não é violenta. E, se tivermos que usar a violência para sermos ouvidos, falhamos como educadores, pastor. Toma essa verdade.
Lamento profundamente em ter uma pessoa tão retrógrada, primitiva, antiquada, preconceituosa, desatualizada, absoleta e machista comandando uma pasta essencial para um futuro menos injusto.
Seguimos na luta pela cassação dessa chapa porque não há luz no fim do túnel enquanto Bolsonaro estiver presidindo esse país.
Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Contra o fundamentalismo hipócrita estúpido e o obscurantismo fascista: conversa de Henry Bugalho com a escritora e cineasta Daniela



Do Canal do filósofo Henry Alfred Bugalho:


Fundamentalistas religiosos estavam ocupando a praça diante do Hospital Pérola Byington e perturbando funcionários e pacientes do hospital. Então a roteirista e escritora Daniela teve uma ideia. Entenda!


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Do site Justificando, artigo de Vítor Queiroz de Medeiros: O autoritarismo como o direito de violar direitos




  Ao nível cotidiano, o autoritarismo se manifesta em sentimentos e discursos reacionários, na aversão à expansão dos direitos e na própria naturalização da violência.
  A principal condição para a reprodução desse autoritarismo é a indistinção que opera na vida social entre autoridade e arbítrio


O autoritarismo como o direito de violar direitos
Imagem: obra do artista Cleon Peterson.
Por Vítor Queiroz de Medeiros

Como a extrema direita pôde vencer as eleições? Como seus discursos vingaram? Como o autoritarismo funciona no Brasil?
Ao nível cotidiano, o autoritarismo se manifesta em sentimentos e discursos reacionários, na aversão à expansão dos direitos e na própria naturalização da violência.
Noutro nível, adquire significação política e se torna um denominador programático comum na política nacional.
A principal condição para a reprodução desse autoritarismo é a indistinção que opera na vida social entre autoridade e arbítrio. Isso tem raízes históricas e efeitos políticos atuais.
Já há algum tempo se sabe, graças a pesquisas sociais [1], que certos modos de pensar e agir são bastante frequentes quando o assunto é violência. De modo geral, o “mal” e a criminalidade são percebidos como resultados de uma “crise de autoridade” que, por sua vez, seria provocada pela fragilização das principais instituições sociais, como a igreja, a família, a escola, o Estado. A elas caberia a tarefa de garantir a ordem no mundo.
De repente, parece que elas não funcionam mais e a perda de “autoridade” teria resultado em desordem, desestabilizando relações pelas quais as pessoas construíam suas identidades e significavam suas vidas. “Antes haviam destinos”.
Essa leitura reacionária identifica ordem e paz social com rigor moral, severidade punitiva e, adivinhe, com a autoridade patricarcal própria de uma sociedade de tipo tradicional. Não à toa ouvimos tantos comentários nostálgicos acerca dos bons tempos de ditadura militar em que os professores eram respeitados pelos alunos; tempos em que a autoridade tinha a palmatória como instrumento. Hoje não se pode sequer dar um cascudo num aluno.
É fato também que nas últimas décadas há uma reconfiguração dos modelos familiares com o aumento da participação pública das mulheres – e sua consequente subtração do ambiente doméstico –, o avanço das minorias sexuais LGBTI+ e a autonomização dos mais jovens na construção de seus projetos e estilos de vida.
Os abalos das hierarquias tradicionais hetero-patriarcais de geração e gênero estão presentes quando se reclama dos “jovens de hoje em dia”, do beijo gay na novela, quando se ataca a Lei Menino Bernardo como “lei da palmada”, quando se clama por redução da maioridade penal. Essa é a face conservadora do autoritarismo. Ela não fica corada quando uma mulher é estuprada ou uma travesti é assassinada.
A outra face é aquela intrinsecamente violenta. Está às vistas de quem lê as estatísticas de homicídio por arma de fogo no Brasil, de quem testemunha a violência dos pais de famílias em seus lares ou de quem topa com um linchamento pelas ruas. Justiçamentos e vinganças compõem parte do cotidiano das classes sobreviventes. Nas periferias, o que há de parecido a um sistema de justiça é o tribunal do crime.
Essa violência naturalizada também se expressa na indiferença e apoio à barbárie: Um cidadão amarrado e torturado é algo elogiável para uma jornalista de TV, como Rachel Sherazade. A frase “bandido bom é bandido morto” enche as bocas povo afora e qualquer notícia como a morte do garoto Ítalo, que comete um assalto com 11 anos de idade, ou do menino João Victor no Habib’s, coleciona mil comentários odiosos, que endossam o extermínio dos corpos vulneráveis, negros, pobres, nus. Isso sem falar em Pedrinhas, Candelárias, Carandirus.
Tanto o conservadorismo quanto a violência naturalizada partem de (e alimentam) um mesmo princípio que é o pessimismo quanto à expansão e garantia dos direitos, já que isso criaria “desordem”. Neste contexto, o direito não apenas amarga descrédito, como é entendido como obstáculo à realização da justiça e da autoridade. Os únicos direitos efetivamente reclamados e acreditados são alguns direitos sociais, como os trabalhistas e o direito do consumidor. Mas os direitos civis…
A estes são reduzidos todos os famigerados direitos humanos, classificados desde os anos 1980 como “privilégios de bandidos” [2]. Desse modo, um “cidadão de bem”, indignado com algum pequeno furto, sente-se autorizado a fazer justiça com as próprias mãos ou algo do tipo; assim como um pater famílias vocifera para defender seu direito de espancar a mulher e as crianças. Reivindicam o “direito” a violar direitos.
Essas micropráticas autoritárias, excessivas e que se dão ao largo e à revelia da cidadania constituem o que Paulo Sérgio Pinheiro chamou de “autoritarismo socialmente implantado”. Com isso quis dizer que se existem governos autoritários, ditatoriais por exemplo, existem sociedades autoritárias, que assim permanecem mesmo quando um regime formalmente autoritário se encerra.
No caso brasileiro, como já argumentamos em outra ocasião [3], este autoritarismo, dado em atitudes conservadoras, indiferentes ou apologéticas da violência privada e aversivas à noção de cidadania, se expressa e opera por meio de uma indistinção: o abuso policial é lido como autoridade policial; a violência doméstica, como pátrio poder; o assassinato vira legítima defesa e o preconceito e a discriminação tornam-se apenas “liberdade de expressão” para excomunhão dos depravados morais. O que está acontecendo?
Autoridade, justiça, violência, legitimidade, arbítrio e outras categorias se confundem. Quando alguém reclama por “justiça” não sabemos exatamente a que se refere, se às práticas de extermínio por milícias, por exemplo, ou se efetivamente à justiça criminal estatal. Antes de haver um estado de exceção, portanto, há uma sociedade de exceção, uma cultura de exceção em que o direito deixa de ser parâmetro para nossa convivência.
Essa indistinção se desdobra em fortes disjunções, sempre mobilizadas pela extrema-direita: a) direito x costume; b) público x privado; c) formas autorizadas x formas autoritárias de controle social.
Disso decorre tamanha fragilidade dos nossos direitos civis e que as formas de mediação pública de conflitos sejam desprezadas em favor da adoção da violência como “linguagem”.
O autoritarismo como o direito de violar direitos, resulta, inevitavelmente, no questionamento do monopólio estatal da violência legítima – que Max Weber estabeleceu como elemento definidor dos Estados modernos. O faz, contudo, sem que para isso seja preciso ferir a lei. É que a cultura tem o poder de anacronizar, no tempo social, as leis e desfigurá-las, flexibilizá-las, interditá-las. Não fosse essa distância entre tempos, as leis não envelheceriam, nem seriam reformadas.
E se a violência policial, doméstica, homofóbica, miliciana, interpessoal começa a se tornar um jeito de fazer política? A violência legitimada por uma visão de mundo autoritária passa a fazer parte do repertório simbólico e prático das disputas políticas. Aí elegemos uma bancada da bala, um presidenciável pró-tortura, mata-se Marielle, atentam contra Freixo, Lula e quem mais se opuser à “ordem”.
Ocorre agora que essa indistinção ganhou expressividade política inédita. A biopolítica também escapa aos processos impessoais do capitalismo e da gestão das populações e da vida, para tornar-se, em todo o mundo, pauta de programa político e visão de mundo dos indivíduos, mesclando soluções populistas aos problemas de segurança pública, obscurantismo moral-cultural e liquidificando afetos e percepções. Nesse sentido, o Brasil é plenamente contemporâneo e globalizado, uma vez que experimenta das mesmas amarguras que o centro do capitalismo vive, por exemplo, no caso europeu e estadunidense.
Mas não podemos esquecer que essa indistinção por meio da qual o autoritarismo se reproduz no Brasil tem lastro histórico na própria violência e longevidade da colonização e da cultura escravista por aqui. Essas experiências são responsáveis pela conformação de uma sociedade de tipo estamental, com mil entraves à mobilidade social e pela concentração de poder nos caucasianos conclaves patriarcais. Nesse modelo de dominação extremamente violento, patrimonialista e autocrático, a exceção autoritária de fato se impôs como cultura, como sociabilidade, com subjetividade, como regra geral.
O que restou aos subalternos? A rebelião violenta, própria dos levantes populares que marcaram todo o século XIX e parte da primeira metade do século XX, com organizações armadas, feições regionais e reivindicações de cunho igualitário.
Ou uma política do conchavo e do favor, da conciliação que sempre reparte as sobras para conservar o mundo como ele é, evitando a ruptura a qualquer custo.
Ou ainda a submissão e o silenciamento pleno das massas, reféns de sua própria fome e ameaçadas pela repressão estatal – as elites políticas sempre buscaram desabilitar quaisquer ensaios de ação coletiva popular, privando os pobres dos meios de ação necessários para o engajamento político, inclusive recorrendo à sua criminalização.
Somos uma sociedade organizada a partir da violência, do autoritarismo operado pela indistinção. Nisso somos perfeitamente singulares, dado nosso processo de formação histórica e perfeitamente iguais ao resto do mundo quanto ao panorama da biopolítica. O que vimos mais recentemente nessas eleições e seus arredores foi a enunciação pública e o uso político desse autoritarismo e violência por parte da extrema direita, muito em função dos pânicos morais mobilizados durante as eleições.
De todo modo, com isso se pode lembrar que aquilo que se tem chamado de “fascismo”, essa reivindicação do direito de violar direitos, não nasceu nas eleições, tampouco foi parido por Bolsonaro. Aliás, ele apenas conseguiu se passar como “o novo” justamente por não sê-lo, mas por reiterar o que há de mais velhamente enraizado na sociedade brasileira: o autoritarismo violento e a indistinção entre autoridade e arbítrio. Cabe a todos nós desfazer este mal entendido.
Vítor Queiroz de Medeiros é cientista social e mestrando em sociologia na Universidade de São Paulo (USP). 
Leia mais:
Notas:
[1] Teresa Caldeira. Cidade de Muros. Crime, segregação e cidadania em São Paulo (2000). EDUSP e Editora 34.
[2] Teresa Caldeira. Direitos humanos: “privilégios de bandidos”? (1991) in Novos Estudos – Cebrap.
[3] Vítor Queiroz de Medeiros. Violência e cidadania no Brasil contemporâneo: Uma crônica da indistinção (2017) in Revista Praça/UFPE.
                                                                                                             

terça-feira, 7 de maio de 2019

Na esteira da revolta desta semana aos ataques do bolsonarismo-fascio-olavismo contra a Educação: O que é o ensino da filosofia?


  "(...) Claro que não é uma grande coincidência ela passar a ser alvo dos ataques do governo Bolsonaro. A sociologia e a filosofia são retiradas do currículo durante a ditadura militar, voltam para o mesmo nos breves anos de democracia, e são ameaçadas por este atual governo que tem mais cheiro de ditadura do que de democracia."


Segue o texto de Evânia E. Reich, doutora em Filosofia pela UFSCpublicado no Contexto Livre a partir de matéria do site Desacato:


Não faz muito tempo a filosofia voltou a ser uma disciplina no ensino médio. A lei que torna a filosofia obrigatória é de 2008. Até 1971 ela havia feito parte do currículo do ensino médio, e durante todo o período da ditadura militar foi retirada e substituída pela então chamada educação moral e cívica. Claro que não é uma grande coincidência ela passar a ser alvo dos ataques do governo Bolsonaro. A sociologia e a filosofia são retiradas do currículo durante a ditadura militar, voltam para o mesmo nos breves anos de democracia, e são ameaçadas por este atual governo que tem mais cheiro de ditadura do que de democracia.

E por que a filosofia é mais uma vez alvo de ataques? Para responder uma pergunta que parece até bastante evidente é preciso responder qual é o papel do ensino da filosofia.

No governo do PT, o objetivo principal do ministério da educação era com a promoção do desenvolvimento sistemático das questões humanistas, bem como a preparação dos jovens como cidadãos que conseguissem refletir sobre os problemas e soluções para a nação brasileira. Segundo a declaração do então ministro da educação Fernando Haddados jovens brasileiros deveriam ser responsáveis e concernidos ao destino do Brasil. Neste período o ensino da filosofia segundo as diretrizes do ministério teve uma proposta não somente de ensinar a história da filosofia, mas, sobretudo proporcionar aos jovens uma reflexão, a partir dos conceitos filosóficos, sobre a vida, a ética e a política. As aulas de filosofia deveriam servir para a análise de questões sociais e políticas e a construção de vivências filosóficas com a vida, ativando o pensamento e o pensamento afirmando a vida.

Desastrosamente voltamos ao período em que não se quer filosofia, e não se deseja que haja reflexão dentro de sala de aula. É a ideia de “escola sem partido” que se propaga por este Brasil a fora. Lamentavelmente vivemos em tempo de crise das ideias. “Escola sem partido” não significa que os professoras não devam ter um partido ou falar de uma bandeira partidária. Significa antes de tudo que não devemos questionar, problematizar, exercer o pensamento. Tudo isso é o que a filosofia faz. Filosofia é entender o mundo em conceitos. É justamente problematizar o mundo, a vida, a sociedade, as leis, o conhecimento e a própria filosofia. É sair do conforto de nossas ideias lineares, nosso mundo homogêneo, enfim, de nossa profunda bolha. É pensar o mundo, as instituições, as relações intersubjetivas, sociais, econômicas e políticas para além daquilo que nos é oferecido ver.  É por isso que a filosofia faz tanto mal.

Praticamente todos os filósofos desde Sócrates, passando pelos medievais, por Kant, na modernidade, Nietzsche no século XIX, e Adorno já no século XX, se preocuparam com a educação. A filosofia sempre esteve preocupada com a busca do conhecimento, mas também sobre a problematização do conhecimento. É preciso refletir a respeito da finalidade do conhecimento. O Conhecimento pelo conhecimento, para simplesmente colocá-lo no baú do esquecimento não é o tipo de educação que a filosofia espera. É preciso o aprendizado de um tipo de conhecimento que nos dê a ferramenta adequada ao contínuo aprender. É preciso aprender a conhecer, isto é, um tipo de aprendizado que foge da simples aquisição de saberes codificados e focalizar-se no domínio dos próprios instrumentos do conhecimento. Esse domínio dos instrumentos é o meio e a finalidade da vida humana. Pretende-se que cada indivíduo aprenda a compreender o mundo que o rodeia, na medida em que isto é necessário para uma vida digna. Através deste domínio dos instrumentos do conhecimento o indivíduo desenvolve a curiosidade intelectual e esta por sua vez estimula o senso crítico e torna os indivíduos autônomos para compreender o mundo em sua volta. É somente através desta dinâmica do aprender que possamos formar indivíduos autônomos e conhecedores de seu próprio mundo. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Segundo a filosofia, o conhecimento de uma cultura geral deve estar no centro da finalidade da educação. Contudo, o aprendizado desta cultura geral deve incluir sempre as mudanças constantes do próprio mundo em que se vive. A aquisição dos saberes permite compreender melhor o ambiente sob os seus diversos aspectos, e favorece o despertar da curiosidade intelectual. Não é possível se fechar apenas no espaço de um tipo de especialização. É necessária uma cultura geral vasta que trabalhe em profundidade determinados números de assuntos.  É por isso que a filosofia faz tanto mal!

É preciso dizer que o programa da filosofia no ensino médio consiste em apresentar a história da filosofia desde a Grécia antiga até os filósofos contemporâneos percorrendo as diferentes teorias do conhecimento. Estudar a teoria do conhecimento ou a epistemologia significa conhecer as teorias que tratam sob o problema ou a possibilidade do conhecimento. O que conhecemos? Como conhecemos? Quem é o sujeito cognoscente? Em última instância, por que queremos conhecer? Muitas vezes os alunos são confrontados com ideias que lhes parecem muito estranhas. Há efetivamente um estranhamento no pensar filosófico porque há questionamentos. Nada é simples. Mas através desse estranhamento os alunos aprendem a pensar, a questionar, a problematizar o mundo e as coisas que estão a sua volta. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

 O ensinamento estéril da história da filosofia aos alunos de ensino médio pode não fazer nenhum sentido, mas se fornecemos as ferramentas aos alunos para que eles consigam compreender o que uma doutrina e um conceito filosófico ainda têm a nos dizer no nosso tempo, embora eles possam ter sido escritos antes mesmo de nossa era, o estranhamento inicial pode se tornar algo esplêndido. Goethe, certa vez disse: “além disso, odeio tudo aquilo que somente me instrui sem aumentar ou estimular diretamente a minha atividade”. Não devemos querer apenas instruir nossos alunos, e tampouco discutir com eles mesmices do dia a dia; para tanto eles não precisam de filosofia. O que nós queremos é fornecer-lhes o contato com o estranhamento, e dar-lhes a possibilidade de ver algo que está para além da sua imediata compreensão. É o enfrentamento deste estranhamento que possibilitará o aluno adentrar no mundo da filosofia e do pensamento. Nós não podemos ensinar a filosofia como ensinamos a história. É preciso deixar uma marca de dúvida posto que filosofia não é a verdade incontestável, antes é a discussão eterna. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Todavia, para que os alunos consigam discutir é necessário que possamos percorrer o estranhamento e também a história do pensamento. É preciso que os alunos tenham conhecimento de seus antepassados. Das teorias que foram realizadas no decorrer de nossa história da humanidade. O fundamento de toda a educação, segundo Hannah Arendt é certa relação com o tempo. Os homens somente podem se tornar homens neste mundo comum que perpassa o seu próprio tempo. O passado lhe ensina sobre os seus antepassados, e como professores temos o dever de mostrar aos nossos alunos o passado e lhes confrontá-los com o presente.

A educação não pode existir sem uma continuidade, continuidade esta que advém dos nossos ensinamentos passados. A educação é aquilo que se renova a cada tempo, mas não pode perder de vista a transmissão do precedente. Cada novo aluno é uma renovação e um potencial de conhecimento, que tem o direito de adquirir e conhecer aquilo que lhe precedeu. O mundo não pode iniciar com o nascimento de cada indivíduo, senão cairemos na loucura. Ao mesmo tempo, o indivíduo que nasce é o iniciador de uma novidade que não podemos antecipar. Sua relação com o mundo é o novo que surge, mas lhe são necessárias as bases deste mundo para que seus passos consigam transformar. É neste sentido que a educação consiste nesta dupla dimensão temporal; o tempo que precede e o tempo que está por vir. Educar consiste a dar ao educando a chance de se apropriar do mundo pessoalmente e singularmente enquanto herdeiro deste. É por isso que a filosofia faz tanto mal!

Portanto, não podemos abandonar a filosofia e não podemos deixar que governos autoritários, os quais possuem um programa bem claro para a educação, que consiste em torná-la escrava dos meios de produção capitalista, cortem verbas ou denigram o ensino da filosofia, nas universidades e nas escolas. A filosofia é o exercício do pensamento. Um governo que solapa a filosofia é um governo que deseja cidadãos sem pensamento crítico. Filosofia não é “coisa de comunista”, é algo muito sério.

Evânia E. Reich é doutora em Filosofia pela UFSC – Pesquisa do pós-doutorado em Filosofia Política pela UFSC.
No Desacato