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terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Reacionarismo, neocolonialismo e a volta do nazifascismo, do elitismo e das barreiras sociais... A decadência ocidental analisada em entrevista do analista político Walden Bello

 

Adeus ao mundo eurocêntrico?

Um pensador destacado do altermundismo sustenta: o poder do Ocidente nunca foi tão frágil. É possível esperar um novo Sul Global? Por que a China é muito diferente da antiga URSS? Que esperar dela numa nova ordem mundial?

Arte: Nelson Makamo

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Walden Bello, entrevistado a Néstor Restivo, em Tektónicos | Tradução: Antonio Martins

A primeira vez que encontrei Walden Bello foi no verão de 2001, em Porto Alegre. Por ocasião do primeiro Fórum Social Mundial (FSM), há mais de duas décadas, esse sociólogo das Filipinas, ex-membro do parlamento de seu país viajou para o sul do Brasil como tantos ativistas, líderes e acadêmicos ou pesquisadores que esperavam que esse fórum, e os que o seguiram por vários anos, se consolidasse como uma tribuna internacionalista de resistência ao neoliberalismo – então em seu momento de expansão – e, ao mesmo tempo, uma plataforma para ideias alternativas. Bello, pouco conhecido na América do Sul, já era presença importante nos movimentos “altermundistas”. Dirigia uma rede de organizações sul-asiáticas denominada Focus on the Global South, cujo nome me chamou atenção.

O termo “Sul Global” apareceu pela primeira vez em 1969, quando o professor e ativista norte-americano Carl Oglesby escreveu um artigo sobre a Guerra do Vietnã no qual mencionou a “dominação do Norte sobre o Sul Global” — causa, segundo ele, de uma “ordem social intolerável”.

“Certamente não fomos os inventores nem os pioneiros em falar do ‘Sul Global'””, diz Walden Bello na Casa de las Madres de Plaza de Mayo, no inverno de 2024 em Buenos Aires, uma cidade que ele está visitando pela primeira vez. Ele conta que a Focus on the Global South foi estabelecida em Bangkok, Tailândia, em 1995, acrescentando:”de qualquer forma, adotamos esse nome, sintonizando-nos no momento certo com o que estava começando a acontecer no mundo”.

Walden Bello visitou à capital argentina (e não deixou de observar com perplexidade tudo o que emerge do governo de Javier Milei) a convite do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) e da Fundação para a Pesquisa Social e Política (FISYP). Palestrou sobre o “Impacto e oportunidades da crise da hegemonia dos EUA” e conversou com a Tektónikos sobre esse tema.

O que o Sul Global significa para você hoje?

– O que chamamos de países em desenvolvimento, subdesenvolvidos ou colonizados costumava ser chamado de “Terceiro Mundo”. Mas a União Soviética e a Europa Oriental entraram em colapso, entre 1989 e 91. Isso pôs fim à ideia de que havia um “segundo mundo”, um mundo comunista. Ficou difícil manter estes termos. Então, o termo Sul Global, que já havia sido inventado, ressurgiu como uma ideia na década de 1990, sob a premissa de reivindicar o fim de sua dominação.

Quais foram os principais desafios — e quais ainda são agora — nesse novo mundo em formação?

Continuam a ser o fim da dominação econômica e política dos Estados Unidos e de suas potências aliadas no Ocidente. São forças estruturais que dominaram o mundo por 500 anos, um cenário que, no entanto, está sendo questionado neste século XXI. Isso se dá principalmente por causa do surgimento de um grande ator como a China. Isso criou algum espaço para que o Sul Global pudesse se distanciar do Ocidente, tramar seu próprio desenvolvimento, ensaiar políticas autônomas – e não continuar a ser dominado por uma força ocidental liderada pelos Estados Unidos.A disputa da União Soviética com os EUA abriu espaço de manobra para o Terceiro Mundo. Mas a diferença é que agora a China possibilita outro cenário: é uma grande potência econômica e política de uma forma que a URSS não era – ou era apenas militarmente, mas não em outros níveis. Em outras palavras, agora a China tem grandes recursos econômicos e pode cooperar muito melhor com o mundo em desenvolvimento. Essas são condições muito diferentes daquelas da Guerra Fria.

Qual é o papel do BRICS?

É uma nova formação importante, hoje já com 10 países que se juntaram ao chamado BRICS+. Isso significa que não apenas os quatro e depois cinco fundadores do início (Brasil, Rússia, Índia, China e depois África do Sul), mas agora o dobro de nações (Egito, Irã, Etiópia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos se juntaram desde 2024). Além disso, outros países querem aderir. Em outras palavras, agora temos um nível maior de recursos que podem ser usados para o desenvolvimento do Sul Global. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, temos a China novamente, não apenas como uma potência econômica, mas oferecendo um modelo bem-sucedido de desenvolvimento liderado pelo Estado, em contraste com o que o FMI ou o Banco Mundial vêm defendendo há décadas, com seu foco no mercado como condutor. E, em terceiro lugar, o peso político dos BRICS é muito importante para fornecer recursos, espaço e margem de manobra, além de crédito para o Sul Global. Os BRICS também oferecem diversidade, pois em muitos aspectos os parceiros são diferentes uns dos outros (Brasil da Arábia Saudita ou Rússia do Irã etc.). Ainda assim, o importante é que o grupo agora ampliado não pode mais, devido ao seu tamanho e peso, ser dominado pelas potências ocidentais.

E quanto ao papel da China em particular, sendo a mais poderosa desse grupo?

É claro que a China lidera o grupo, é a principal fornecedora de recursos e impulsionadora dos bancos de desenvolvimento que estão sendo criados nesse novo ambiente, dos fundos de contingência, que têm formatos e exigências diferentes dos esquemas do FMI (o que mostra uma alternativa em potencial à ordem multilateral existente). A liderança da China é muito interessante. Pequim forneceu uma quantidade impressionante de recursos aos países do Sul Global e é um modelo, insisto nisso, em que o Estado controla as forças de mercado. Cada vez mais países estão olhando para isso como uma alternativa às economias orientadas pelo mercado. E, por fim, há o peso político e militar da China, embora ainda seja muito menor do que o dos EUA. A China tem muito cuidado para não se apresentar como um substituto dos EUA e disse explicitamente que bancos como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) ou o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) não querem substituir o sistema de Bretton Woods. Entretanto, os EUA afirmam que a China é uma potência revisionista e ambiciosa, que quer ser a número um, substituir tudo, não se integrar ao capitalismo e que representa um desafio. Na verdade, essa é uma tentativa de justificar o primeiro objetivo dos EUA, que é conter a China com uma postura muito agressiva, presente em especial no governo Biden, que está saindo.

A guerra interna imperial

O Ocidente está inevitavelmente entrando em guerra ou há setores que querem negociar algum tipo de transição?

Acho que a Europa está sendo arrastada pelos EUA nesse objetivo de conter a China. Ela foi fortemente influenciada e isso levou à expansão da OTAN para o leste e para a Ásia. Por meios econômicos, diplomáticos e militares, os EUA têm procurado conter a China durante todos esses anos e o Partido Democrata (PD) deu sinais muito claros aos seus militares de que é isso que eles querem em relação à China. O número de missões e bases dos comandos militares dos EUA no Pacífico foi aumentado e as forças armadas receberam sinal verde para isso. O comandante da Força Aérea, Mike Minihan, chegou a ser citado como tendo falado sobre a possibilidade de entrar em guerra contra a China em 2025.

A posição da extrema direita e do Partido Republicano em geral nos Estados Unidos é menos clara, você não acha?

Vamos examinar isso com atenção. A candidata democrata Kamala Harris e os líderes democratas gostariam de manter o papel do “livre comércio”, a hegemonia dos EUA, o uso de órgãos multilaterais que controlam e o fluxo “livre” de capital. Mas basicamente essa é a velha ordem. O presidente Biden e outros disseram que os EUA são os únicos capazes de preservar tudo isso, as instituições do domínio ocidental em seu conjunto, etc. Eles também acreditam que o desafiante republicano, Donald Trump, não faria isso. Com relação a Trump, acho que ele não está tão interessado em expandir o poder econômico dos EUA no Sul Global — nem no fluxo de capitais, nem na promoção de uma economia global ou transfronteiriça. Pense que, em seu primeiro governo, uma das ações imediatas de seu governo, em janeiro de 2017, foi retirar-se da Parceria Transpacífica (TPP). Isso é muito diferente do que o Partido Democrata quer. A mesma coisa aconteceu com a forma diferente de lidar com a ocupação do Afeganistão durante a mudança de governo de Trump para Biden. Acho que Trump está basicamente interessado em trazer o capital de volta para os EUA, o chamado reshoring, porque ele acusa as corporações de levar empregos para fora do país. Toda essa ideia de colocar os “Estados Unidos em primeiro lugar” é seu ponto de apoio. E seus apoiadores odeiam as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício e de Wall Street. Embora o próprio Trump seja obviamente um grande capitalista, ele explora esses sentimentos contra o grande capital. Entretanto, sua ideia não é tanto expandir os EUA, mas priorizar o mercado doméstico.

Será que o trumpismo se posiciona como completamente alheio aos problemas globais?

Eu diria que, em geral, sim, embora obviamente preservando o poder unilateral em questões mundiais. Ele é claramente anti-imigração. Em termos militares, eu o vejo mais comprometido e interessado em ter um país poderoso em si mesmo novamente, não um país de alianças como a OTAN, pois ele não gosta disso. Em resumo, vejo uma perspectiva diferente da dos democratas. Há diferenças reais entre os dois candidatos e os dois projetos. A pergunta que faço é se nós, no Sul Global, devemos escolher uma dessas duas opções. Minha resposta é que não precisamos fazer isso, não temos interesse na ordem liberal ou na ordem “América em primeiro lugar”. Mas precisamos prestar atenção em qual das duas posições prevalece e tentar tirar proveito dessas contradições.

Olhando das Filipinas, qual é o papel do Sudeste Asiático na reconfiguração global em andamento?

Há muitas contradições. O Vietnã e as Filipinas são muito críticos em relação à China pelo mesmo motivo: a disputa de limites no Mar do Sul da China, onde a China assumiu unilateralmente uma posição. É um mar com seis países reivindicantes e a China estabeleceu unilateralmente que 90% dele lhe pertence. Pode-se entender que a razão chinesa não é expansionista, mas defensiva – porque o Sudeste Asiático está muito próximo do núcleo industrial da China (Xangai, Guangzhou, suas áreas adjacentes etc.) e a ideia é que ela precisa proteger ou impedir um ataque dos EUA à sua infraestrutura produtiva. Em um cenário de guerra, isso é fundamental para a China, e os norte-americanos têm muitos ativos militares na área. Isso é compreensível do lado chinês, o que não é compreensível foi seu método unilateral de dizer “isso é nosso e, por ser nosso, vamos desenvolvê-lo de tal maneira”. A China deveria ter negociado isso com os outros países. Então, talvez fosse possível avançar na desmilitarização da área. É por isso, entre outros motivos, que o Vietnã critica a China nesse ponto. O país tem uma política externa independente. Como você sabe, já lutou no passado contra os norte-americanos e os franceses e exerce neutralidade diplomática.

E quanto ao seu país?

As Filipinas são diferentes. São totalmente aliadas militarmente aos EUA com o atual presidente Ferdinand Marcos Jr. Os norte-americanos têm nove bases militares e Marcos não tem nenhum senso de nacionalismo. Ele não se importa, só se preocupa com a fortuna de sua família, seu grupo central de pessoas próximas, a dinastia, seus investimentos milionários nos EUA e em outros países ocidentais, que podem ser facilmente expropriados se ele não fizer o que Washington quer. O governo de Marcos está completamente vendido aos EUA e não tem controle sobre a política de defesa.

E quanto ao cenário global, o restante das nações do Sudeste Asiático?

O restante da ASEAN, a associação que integra todas essas nações, é diversificado, mas a maioria da população tem uma opinião melhor sobre a China do que sobre os Estados Unidos, especialmente na Tailândia, no Camboja, na Indonésia e na Malásia. A maioria prefere a China como parceira aos EUA, de acordo com relatórios recentes. Os únicos dois países que se opõem a isso são, não surpreendentemente pelo que expliquei, embora por motivos diferentes, o Vietnã e as Filipinas. Essa é a situação atual na região, que se tornou decisiva no tabuleiro de xadrez global.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Necropolítica em tempos neofascistas: Doentes morrem em casa por falta de vagas em UTIs do Rio. Artigo do Jornal GGN

 

A Fiocruz soltou sua nota com base nos dados até 1 de dezembro. Isso significa que os números podem aumentar, já que casos de novembro ainda estão sendo inseridos.


Agência Brasil

Jornal GGN As infecções e mortes por Covid-19 aumentam, os leitos rareiam e as UTIs estão no limite no Rio de Janeiro, alerta a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em nota técnica. Segundo informações obtidas pelo jornal Extra, a nota alerta que a rede do SUS da capital está em colapso, com menor oferta de leitos e demanda reprimida de pacientes que ficaram em segundo plano no início da pandemia. O resultado disso é que, sem atendimento e sem condições nos hospitais, estas pessoas estão morrendo em casa.

— Já vemos o colapso no sistema. E nem todos (os óbitos) foram por Covid-19, mas indiretamente de pessoas que ficaram sem assistência — comenta o sanitarista Christovam Barcellos, membro do Monitora Covid-19 e pesquisador da Fiocruz.

Neste caos, 172 pessoas aguardavam por leito de UTI na cidade e na Região Metropolitana. A taxa de ocupação de leitos de UTIs chegou a 90%, com 552 pessoas internadas, e o estado com mais 81 mortes e 3.415 casos relatados. A média móvel de casos da doença têm crescido há duas semanas.

A Fiocruz soltou sua nota com base nos dados até 1 de dezembro. Isso significa que os números podem aumentar, já que casos de novembro ainda estão sendo inseridos. Os pesquisadores alertam que as unidades de assistência básica e emergências sofrem o mesmo esgotamento e isso acentua o risco de morte. Setembro e outubro concentraram 1.100 óbitos a mais que o esperado. E um alerta para o fato de que, se houver ações de prevenção e tratamento oportuno de doenças crônicas, é possível evitar um grande número de óbitos.

Hoje, os óbitos em domicílio respondem por 15% do total, enquanto a média no ano passado era de 12%. A proporção constatada em novembro é maior da que foi vista no pico da pandemia. Do total de mortes no Rio por covid-19, só 40% foram em UTIs.

A nota da Fiocruz destaca que os problemas tendem a aumentar com as festas de fim de ano. Procurada, a Prefeitura do Rio informou que foi a que mais abriu leitos de Covid no país.

Com informações do Extra.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Precisamos discutir o neofascismo – Entrevista de Lourdes Nassif com Odilon Caldeira Neto

 

Entender o fenômeno na Ucrânia e suas ramificações pelo mundo, e entender como funcionam esses grupelhos que se baseiam no discurso de ódio classista, racista, machista no Brasil ajudam no seu combate.

Jornal GGN O tema do dia é o Neofascismo. E, na esteira, o Fascismo. Entender o fascismo em seu contexto histórico e o neofascismo como uma corruptela daquele movimento, muito importante no mundo atual. Se os neofascistas não encampam toda a ideologia, acomodaram elementos que não podem ser ignorados.

O renascimento da extrema-direita pelo mundo não foi o detonador do neofascismo, mas um componente extra para sua saída das sombras.

Entender o fenômeno na Ucrânia e suas ramificações pelo mundo, e entender como funcionam esses grupelhos no Brasil ajudam no seu combate.

Odilon Caldeira Neto é professor adjunto de História Contemporânea na Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Veja a entrevista a seguir:

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

The Intercept: Sete coisas que você precisa saber sobre Donald Trump e o Irã, por Mehdi Hasan, colunista e colaborador sênior no The Intercept, apresentador do podcast “Deconstructed” do The Intercept





Sete coisas que você precisa saber sobre Donald Trump e o Irã

Vídeo de Mehdi Hasan, no The Intercept — 3h02


Trump mal conhece o inimigo e já disse que atacar o Irã seria uma manobra política de quem procura se reeleger.

TRUMP COMEÇOU 2020 ordenando o assassinato de Qassim Suleimani, general de alta patente considerado o segundo homem mais importante do Irã.
Mehdi Hassan lista sete coisas que você precisa saber sobre Trump e o Irã.
Tradução: Ricardo Romanoff

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Xadrez do pacto suprapartidário contra o fascismo, por Luis Nassif




Peça 1 – a precariedade do momento

Há um tipo de análise política estática, baseada na correlação de forças do momento, superdimensionando a estatura das instituições e incapaz de estimar a dinâmica de crescimento do bolsonarismo.
Segundo essa visão, Bolsonaro late, mas não morde. É um anão perto do poder ciclópico das instituições brasileiras. Portanto, o único desafio é jogar no campo eleitoral e impedir sua reeleição em 2022.
É até curiosa essa aposta nas instituições.
STF – rachado e desmoralizado, obtendo maiorias precárias e pontuais em favor da obediência à Constituição. E atento ao primeiro sinal de clarim.
Congresso – consegue montar maiorias em reformas liberais e segurar alguns exageros de Bolsonaro.
Judiciário – infiltrado por bolsonaristas em todos os níveis. Hoje em dia é o porteiro da delegacia, sem obedecer a nenhum critério técnico.
Ministério Público – ao nomear um ultradireitista para representar o MPF na Comissão de Direitos Humanos, o Procurador Geral Augusto Aras matou qualquer esperança de redução de danos na condução da corporação.
Polícia Federal – sob controle dos delegados da Lava Jato de Curitiba, com histórico de manipulação de inquéritos e de retaliação contra críticos internos e externos.
Mídia – ainda tem grande influência no Judiciário e no meio empresarial. Hoje em dia, está empenhada em exaltar o crescimento do Pibinho, em esconder as manipulações de Paulo Guedes com o câmbio, em varrer para baixo do tapete o caso Marielle e as suspeitas contra a Lava Jato.
Bolsonarismo – consolidado na área empresarial, com ampla penetração nas classes C, B e A, com canais de transmissão nacionais – neopentecostais, milícias, Polícias Militares, clubes de tiros, caminhoneiros. O Partido 38 será o grande agente coordenador de uma violência hoje em dia difusa.

Peça 2 – o fator militar

E a grande incógnita, as Forças Armadas.
Na sua gestão, o general Villas Boas montou o vínculo que faltava entre a força e os carbonários da reserva – liderados pelos generais Hamilton Mourão e Augusto Heleno. Hoje em dia, o Alto Comando do Exército tem um comportamento profissional. Mas não há a menor segurança de que seja permanente.
O que aconteceria se espocassem as grandes manifestações populares, emulando o que ocorre nos países vizinhos? O que ocorrerá com a demonização de Lula, a insistência da mídia em situá-lo como radical de esquerda?
Há uma resistência histórica das Forças Armadas contra qualquer forma de organização popular. É um sentimento que remonta os anos 30, quando tem início a profissionalização do Exército e a criação das academias militares. Esse sentimento tornou-se arraigado com a Intentona Comunista. Depois, com a criação do PTB e do sindicalismo. E permanece vivo contra o PT.
Uma mera mudança de atitude do Alto Comando imediatamente desmontaria o equilíbrio precário das instituições. As Forças Armadas, especialmente o Exército, tendem a emular o sentimento da classe média e das corporações públicas. E o Alto Comando é sensível aos sentimentos da tropa. No limite, poderá endossar medidas autoritárias, inclusive para manter o controle hierárquico da tropa, em uma quadra da história em que todas as formas de hierarquia estão sendo questionadas.
Qual o limite em caso de manifestações populares, com os manifestantes sendo insuflados pelos P2? Ou de expectativa de volta do PT ao poder?
Tem-se um barril de gasolina a descoberto, que poderá fazer o Colosso de Rhodes, das nossas instituições, desmontar como um castelo de cartas. Como falar em solidez das instituições sem conhecer o comportamento do fator central?

Peça 3 – as alianças políticas

Justamente pelo que foi exposto acima, reduzir todas as disputas nacionais ao Congresso, como se ele fosse início e fecho de todas as transformações sociopolíticas do país é de um simplismo extremo.
Toda estratégia política tem que incluir, nas variáveis de analise, a perspectiva de caminhada persistente de Bolsonaro rumo a um regime fascista e os avanços que tem obtido.
No campo político, significa o seguinte:
  1. Acelerar as tratativas de formação de alianças, tanto na esquerda quanto no centro-democrático visando eleições e a resistência institucional.
  2. Iniciar a sério as conversas para um pacto entre esquerda e centro democrático. Enquanto a mídia não sentir firmeza nesse movimento, continuará com esse jogo de amuos sem consequência contra Bolsonaro.

Peça 4 – pacto e redução de danos

Peça central será a definição de um programa de governo tendo como ponto central a melhoria das condições de vida da população, a redução das desigualdades e a recuperação do crescimento econômico. É um discurso da esquerda e que já vem sendo ensaiado pelo centro-direita racional. Os temas programáticos mais polêmicos deverão ser deixados para um segundo momento.
O pacto será um processo de redução de danos, visando impedir a deterioração ainda maior das políticas públicas, o avanço do arbítrio, o desmonte de instituições estratégicas.
A direita liberal tem que aceitar que desmonte social é caminho certo para o populismo de direita anti-globalização, anti-direitos humanos e anti-meio ambiente. E parar com esse devaneio de que será possível um pacto sem o maior dos partidos de oposição, o PT.
O PT tem que adiar os sonhos de pretender retomar o projeto social no lugar em que parou com o impeachment. E parar com esse sonho de que, por ser o maior partido de esquerda,  deve preservar sua hegemonia em todos os níveis.
A crise atual, com os ogros saindo da jaula e invadindo todos os poros da vida nacional, com milícias e neopentecostais assumindo a interlocução com periferias, com tribos de jovens sem espaço para atuação política mais aprofundada, exigirá uma profunda reflexão da sociedade brasileira – especialmente dos partidos políticos.
A inação da população, apoiando ou não reagindo ante a perda de direitos duramente conquistados, é a demonstração mais eloquente de que a vida política dissociou-se totalmente das expectativas do cidadão médio e o de periferia.
A recuperação dos partidos políticos, como agentes principais da organização política, dependerá fundamentalmente de sua democratização, da renovação, da abertura das portas para a jovem militância, para o acolhimento das minorias – como protagonistas principais das suas políticas públicas e não como meros apêndices.

Peça 5 – os interlocutores do pacto

Do impeachment para cá houve um enorme retrocesso econômico, político e social. Muitos setores envolvidos no impeachment, como autores e como vítimas, estão em processo de autocrítica interno e exigindo autocrítica pública dos adversários.  Melhor deixar essa hipocrisia de lado. Todo mundo sabe o que todo mundo fez no verão passado.
A melhor autocrítica é assumir a defesa intransigente da democracia e abraçar o pacto político com desprendimento.
Um dos problemas sérios é a falta de interlocutores representativos do centro democrático. Caberá ao arco da esquerda acelerar esse processo, identificando no centro-direita interlocutores confiáveis para as primeiras tratativas.
Essas reavaliações, avivadas pela tragédia Bolsonaro, ajudam a identificar alguns pontos em comum, em condições de serem endossados por um pacto mais abrangente:
  1. A defesa da democracia e dos direitos individuais.
  2. O combate à extrema miséria.
  3. A recuperação da racionalidade econômica.
  4. O enquadramento das corporações públicas.
  5. O combate a toda forma de extremismo.
  6. A recuperação dos sistemas de ciência, tecnologia, cultura.
O objetivo final do pacto será restaurar a democracia, as regras do jogo. E, em um segundo momento, recuperar a disputa das últimas décadas, entre centro-esquerda e centro-direita.

Peça 6 – o desafio de passar o pano

O primeiro teste do pacto serão as próximas eleições municipais. É crucial que as forças antibolsonaristas conquistem grandes capitais, reforçando o extraordinário consórcio de governadores do Nordeste.
Um grande teste é a proposta de uma dobradinha Fernando Haddad-Marta Suplicy para a prefeitura de São Paulo, Martha entrando pelo PDT.
Olha a encrenca:
  1. Martha foi uma prefeita progressista muito bem sucedida, com ampla penetração na periferia – território abandonado politicamente por Haddad, embora preservado administrativamente.
  2. Será fundamental para garantir a vitória de Haddad, seja atraindo o voto de periferia, seja reduzindo o enorme antipetismo das classes A e B.
  3. Há total compatibilidade entre suas ideias e os projetos sociais de Haddad e do PT.
Por outro lado:
  1. Foi defensora intransigente do impeachment e do governo Temer.
  2. Presenteou Janaina Paschoal com um buquê de flores em plena sessão do Senado.
  3. Votou até contra a PEC que proibia mulher grávida de trabalhar em ambiente insalubre.
  4. Tem ampla resistência de todos os que se empenharam em impedir o impeachment.
Da capacidade ou incapacidade do PT resolver esse dilema dependerá em muito o futuro da grande aliança. Sabendo-se que, do outro lado do muro, tem os Bolsonaros, Dórias e Witzel.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Leonardo Boff: Depois do ascenso da extrema direita o que virá?



 "A pergunta que se coloca agora é: o que virá após o conservadorismo atroz da direita? Será mais do mesmo? Mas isso é muito muito perigoso, pois podemos ir ao encontro de um armargedom ecológico-social pondo em risco o futuro comum da Terra e da Humanidade."

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Façamos algumas constatações: consolidou-se a aldeia global; ocupamos praticamente todo o espaço terrestre e exploramos o capital natural até os confins da matéria e da vida com a automação, robotização e inteligência artificial. Verificamos um ascenso atemorizador da extrema direita, bem expressa pelo ultra neoliberalismo radical e pelo fundamentalismo político e religioso. Estamos imersos numa angustiante crise civilizatória que ganha corpo nas várias crises (climática, alimentaria, energética, econômico-financeira, ética e espiritual). Inauguramos, segundo alguns, uma nova era geológica, o antropoceno, na qual o ser humano comparece como o Satã da Terra. Em contraposição, está surgindo uma outra era geológica, o ecoceno na qual a vida e não o crescimento ilimitado possui centralidade.
A pergunta que se coloca agora é: o que virá após o conservadorismo atroz da direita? Será mais do mesmo? Mas isso é muito muito perigoso, pois podemos ir ao encontro de um armargedom ecológico-social pondo em risco o futuro comum da Terra e da Humanidade. Tal tragédia pode ocorrer a qualquer momento se a Inteligência Artificial Autônoma, por algoritmos ensandecidos, deslanchar uma guerra letal, sem que os seres humanos se deem conta e possam previamente impedi-la.
Estamos sem saída, rumando para um destino sem retorno? No limite, quando nos dermos conta de que poderemos desaparecer aí temos que mudar: quem sabe, a saída possível será passar do capital materialpara o capital humano-espiritual. Aquele tem limites e se exaure. Este último é infinito e inexaurível. Não há limites para aquilo que são seus os conteúdos: a solidariedade, a cooperação, o amor, a compaixão, o cuidado, o espírito humanitário, valores em si infinitos, pois sua realização pode crescer sem cessar. O espiritual foi parcamente vivenciado por nós. Mas o medo de desaparecer e dada a acumulação imensa de energias positivas, ele pode irromper como a grande alternativa que nos poderá salvar.
A centralidade do capital espiritual reside na vida em toda a sua diversidade, na conectitividade de todos com todos e, por isso, as relações são inclusivas, no amor incondicional, na compaixão, no cuidado de nossa Casa Comum e na abertura à Transcendência.
Não significa que tenhamos que dispensar a razão instrumental e sua expressão na tecnociência. Sem elas não atenderíamos as complexas demandas humanas. Mas elas não teriam a exclusiva centralidade nem seriam mais destrutiva. Nestas, a razão instrumental-analítica constituía seu motor, no capital espiritual, a razão cordial e sensível. A partir dela organizar-se-iam a vida social e a produção. Na razão cordial se hospeda o mundo dos valores; dela se alimentam a vida espiritual a ética e os grandes sonhos e produz as obras do espírito, acima referidas.
Imaginemos o seguinte cenário: se no tempo do desaparecimento dos dinossauros, há cerca de 67 milhões de anos, houvesse um observador hipotético que se perguntasse: o que virá depois deles? Provavelmente diria: o aparecimento de espécies de dinos ainda maiores e mais vorazes. Ele estaria enganado. Sequer imaginaria que de um pequeno mamífero,nosso ancestral, vivendo na copa das árvores mais altas, alimentando-se de flores e de brotos e tremendo de medo de ser devorado por algum dinossauro mais alto, iria irromper, milhões de anos depois, algo absolutamente impensado: um ser de consciência e de inteligência – o ser humano – totalmente diferente dos dinossauros. Não foi mais do mesmo. Foi um salto qualitativo novo.
Semelhantemente cremos que agora poderá surgir um novo estado de consciência, imbuído do inexaurível capital espiritual. Agora é o mundo do ser mais que do ter, da cooperação  mais do que da competição, do bem-viver-e-conviver mais do que do viver bem.
O próximo passo, então, seria descobrir o que está oculto em nós: o capital espiritual. Sob sua regência, poderemos começar a organizar a sociedade, a produção e o cotidiano. Então a economia estaria a serviço da vida e a vida penetrada pelos valores da auto-realização, da amorização e da alegria de viver.
Mas isso não ocorre automaticamente. Podemos acolher o capital espiritual ou também recusá-lo. Mas mesmo recusado, ele se oferece como uma possibilidade sempre presente a ser abrigada. O espiritual não se identifica com nenhuma religião. Ele é algo anterior, antropológico, que emerge das virtualidades de nossa profundidade  arquetípica.Mas a religião pode alimentá-lo e fortalecê-lo, pois se originou dele.
Estimo que a atual crise nos abra a possibilidade de dar um centro axial ao capital espiritual. Dizem por aí que Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi, irmã Dulce e tantos outros mestres, o teriam antecipado historicamente.
Eles são os alimentadores de nosso princípio-esperança, de sairmos da crise global que nos assola. Seremos mais humanos, integrando nossas sombras, reconciliados conosco mesmos, com a Mãe Terra e com a Última Realidade.
Então seremos mais plenamente nós mesmos, entrelaçados por redes de relações ternas e fraternas com todos os seres e entre todos nós, co-iguais.
Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escreveu: Saudade de Deus – a força dos pequenos, Vozes 2019.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, discorre sobre a era do neoliberalismo totalitário



Ele impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiões eram totalmente intolerantes à dissidência. Os fatos a derrotaram — mas a teoria debate-se para sobreviver: as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm morte lenta
Por Joseph E. Stiglitz, no Project Syndicate
No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um famoso ensaio chamado “The End of History?”. Ele argumentou que a queda do comunismo eliminaria o último obstáculo que separava o mundo inteiro do seu destino de democracia liberal e economia de mercado. Muita gente concordou.
Hoje, à medida que enfrentamos uma retirada da ordem global liberal baseada em regras, com governantes autocráticos e demagogos à frente de países que contêm bem mais da metade da população do mundo, a ideia de Fukuyama parece peculiar e ingênua. Mas reforçou a doutrina econômica neoliberal que prevaleceu nos últimos 40 anos.
A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados desenfreados como sendo o caminho mais seguro para a prosperidade partilhada está na unidade dos cuidados intensivos nos dias de hoje. E com razão. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou uma mera correlação. O neoliberalismo prejudica a democracia há 40 anos.
A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu próprio destino, tal como Dani Rodrik da Universidade de Harvard explicou de forma tão clara e tal como afirmo nos meus recentes livros Globalization and Its Discontents Revisited e People, Power, and Profits. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se o principal candidato à presidência num mercado emergente “perdesse a graça” em Wall Street, os bancos retirariam o seu dinheiro do país. Os eleitores enfrentavam então uma escolha dolorosa: ceder a Wall Street ou enfrentar uma grave crise financeira. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos do país.
Mesmo nos países ricos, era dito aos cidadãos comuns: “Vocês não podem defender as políticas que desejam” – fosse ela a proteção social adequada, os salários decentes, a tributação progressiva ou um sistema financeiro bem regulamentado – “porque o país perderá competitividade, os empregos desaparecerão e vocês sofrerão”.
Tanto nos países ricos como nos pobres, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam a um crescimento econômico mais rápido e que os benefícios iriam ser repartidos para que todos, inclusive os mais pobres, ficassem em melhor situação. Para se chegar a esse patamar, os trabalhadores teriam, contudo, de aceitar salários mais baixos e todos os cidadãos teriam de aceitar cortes em importantes programas governamentais.
As elites alegaram que as suas promessas eram baseadas em modelos econômicos científicos e na “investigação com base em provas”. Bem, após 40 anos, os números estão aí: o crescimento diminuiu e os frutos desse crescimento foram na sua esmagadora maioria para um punhado que está no topo. À medida que os salários estagnavam e o mercado de ações subia, o rendimento e a riqueza espalhavam-se para os mais ricos, em vez de se espalharem para os mais pobres.
Como é que a restrição salarial – para alcançar ou manter a competitividade – e a redução dos programas governamentais podem resultar em padrões de vida mais elevados? Os cidadãos comuns sentiram como se lhes tivessem vendido uma lista de artigos. Estavam certos em sentirem-se enganados.Agora estamos a enfrentar as consequências políticas deste grande artifício: desconfiança das elites, da “ciência” econômica em que se baseava o neoliberalismo e do sistema político corrompido pelo dinheiro que tornou tudo isso possível.
A verdade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiães eram totalmente intolerantes à dissidência. Os economistas com perspetivas heterodoxas eram tratados como hereges a ser evitados ou, na melhor das hipóteses, desviados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo continha poucas semelhanças com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Tal como George Soros enfatizou, Popper reconheceu que a nossa sociedade é um sistema complexo e em constante evolução, no qual quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.
Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a que vivemos em 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma inundação em 500 anos – um fenômeno insólito que nenhum modelo poderia ter previsto. Ainda hoje, os defensores dessas teorias recusam-se a aceitar que a sua crença nos mercados autorregulados e a sua rejeição de externalidades como inexistentes ou sem importância levaram à desregulamentação que foi essencial para alimentar a crise. A teoria continua a sobreviver, com tentativas ptolomaicas de ajustá-las aos factos, o que atesta a realidade de que as más ideias, uma vez estabelecidas, geralmente têm uma morte lenta.
Se a crise financeira de 2008 não conseguiu fazer-nos perceber que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria conseguir: o neoliberalismo acabará literalmente com a nossa civilização. Mas também está claro que os demagogos que querem que viremos as costas à ciência e à tolerância só pioram as coisas.
O único caminho a seguir, o único caminho para salvar o nosso planeta e a nossa civilização, é um renascimento da história. Temos de revitalizar o Século das Luzes e reafirmar o nosso compromisso de honrar os seus valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e democracia.


segunda-feira, 11 de novembro de 2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A luta de cada dia com um pouco de poesia, por Dora Incontri



A luta de cada dia com um pouco de poesia, por Dora Incontri, publicado no GGN


É de manhã e já me cansa
Mais um novo assassinato
De um indígena guardião
E já me fere a esperança
Com esse bárbaro ato
Ensanguentando a nação.

É de tarde e vejo a rede
Com as balbúrdias infames
De milícias no poder…
E já me sufoca a sede
De justiça sem vexames
Que me alivie o viver…

É de noite e vem o vídeo
Do apoplético feroz
Vociferando absurdos…
E já me pica o aracnídeo
Da raiva que não tem voz
Da raiva de tantos surdos…

Sei que toda essa miséria
É antiga, é estrutural,
Está enraizada na terra
Da escravidão deletéria
Do machismo natural
Em uma atávica guerra…

Constitui-nos a violência,
E a sádica dominância
Sobre um povo sem razão.
Na trágica subserviência
À estrangeira ganância
Perdemos sempre a nação…

Levanto-me a cada dia
Buscando a força da luta
E a esperança que não morre…
Que se quebre a hegemonia
Dos que usam força bruta
De quem toda treva escorre…

Levanto-me a cada instante
Para honrar os nossos mortos
Que deram sua vida e morte
Por um mundo de decência
Pra que a luz da consciência
Brilhasse sempre mais forte.

Levanto-me e fico em pé
Vou semeando o que posso
Vou acolhendo quem vem…
Quem luta não perde a fé
Lutemos pelo que é nosso:
A paz, a verdade e o bem!