Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Necropolítica em tempos neofascistas: Doentes morrem em casa por falta de vagas em UTIs do Rio. Artigo do Jornal GGN

 

A Fiocruz soltou sua nota com base nos dados até 1 de dezembro. Isso significa que os números podem aumentar, já que casos de novembro ainda estão sendo inseridos.


Agência Brasil

Jornal GGN As infecções e mortes por Covid-19 aumentam, os leitos rareiam e as UTIs estão no limite no Rio de Janeiro, alerta a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em nota técnica. Segundo informações obtidas pelo jornal Extra, a nota alerta que a rede do SUS da capital está em colapso, com menor oferta de leitos e demanda reprimida de pacientes que ficaram em segundo plano no início da pandemia. O resultado disso é que, sem atendimento e sem condições nos hospitais, estas pessoas estão morrendo em casa.

— Já vemos o colapso no sistema. E nem todos (os óbitos) foram por Covid-19, mas indiretamente de pessoas que ficaram sem assistência — comenta o sanitarista Christovam Barcellos, membro do Monitora Covid-19 e pesquisador da Fiocruz.

Neste caos, 172 pessoas aguardavam por leito de UTI na cidade e na Região Metropolitana. A taxa de ocupação de leitos de UTIs chegou a 90%, com 552 pessoas internadas, e o estado com mais 81 mortes e 3.415 casos relatados. A média móvel de casos da doença têm crescido há duas semanas.

A Fiocruz soltou sua nota com base nos dados até 1 de dezembro. Isso significa que os números podem aumentar, já que casos de novembro ainda estão sendo inseridos. Os pesquisadores alertam que as unidades de assistência básica e emergências sofrem o mesmo esgotamento e isso acentua o risco de morte. Setembro e outubro concentraram 1.100 óbitos a mais que o esperado. E um alerta para o fato de que, se houver ações de prevenção e tratamento oportuno de doenças crônicas, é possível evitar um grande número de óbitos.

Hoje, os óbitos em domicílio respondem por 15% do total, enquanto a média no ano passado era de 12%. A proporção constatada em novembro é maior da que foi vista no pico da pandemia. Do total de mortes no Rio por covid-19, só 40% foram em UTIs.

A nota da Fiocruz destaca que os problemas tendem a aumentar com as festas de fim de ano. Procurada, a Prefeitura do Rio informou que foi a que mais abriu leitos de Covid no país.

Com informações do Extra.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

ASSINE AGORA

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Fala de Leonardo Boff no Comício pela Democracia e contra o fascismo realizado na Cinelândia - Lapa, Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 2018





Minhas palavras serão breves. Cito duas frases, uma de Gandhi que é o Betinho da Índia e outra do Betinho que é o Gandhi do Brasil.
Diz Gandhi, o Betinho da Índia: “a política é um gesto amoroso para com o povo; é o cuidado do bem de todos”.
“Entrei na política POR AMOR à vida dos fracos; morei com os pobres, recebi párias como hóspedes, lutei para que tivessem direitos políticos iguais aos nossos, DESAFIEI reis, esqueci-me das vezes que estive preso”.
Diz Betinho, o Gandhi do Brasil:
De sua boca ouvimos e de seu exemplo aprendemos “que a crise central não está na economia política da exclusão, nem na corrupção da política, nem na derrocada moral da humanidade e do Brasil”.
“A CRISE FUNDAMENTAL RESIDE NA FALTA DE SENSIBILIDADE DOS HUMANOS PARA COM OUTROS SERES HUMANOS”.
Boa parte da oligarquia dos  endinheirados e de outros tantos compatriotas perderam qualquer sensibilidade face aos milhões de sofredores de nosso pais. Tiveram uma espécie de lobotomia que impede sentir o outro como outro, inclui-lo e respeitá-lo, lobotomia que incapacita nosso coração de sentir o pulsar de outro coração e nos faz cruéis e sem piedade diante do padecimento humano e ainda perderam sensibilidade pelas veias abertas da Mãe Terra, devastada e crucificada.
Uma grande parte da classe dos endinheirados, descendentes da Casa Grande e que hoje vivem de rentismo e da sonegação são os grandes corruptos. Só no último ano, segundo os Procuradores da Fazenda Nacional, foram sonegados diretamente ou pelo benefício da insenção fiscal, cerca de 450 bilhões de reais. Ninguém fala nem condena essa maxi-corrupção.
Se esses bilhões fossem cobrados não se precisaria fazer a Reforma da Previdência.    
Agora falo como teólogo: dizem as Escrituras Sagradas, a Bíblia que foi roubada de Fernando Haddad: “Se alguém disser: amo a Deus e odeia seu irmão é um mentiroso”. E mais ainda:“quem odeia seu irmão e sua irmã, é um assassino”(1Jo 4,20 e 1Jo 3,15).
Sabemos hoje quem mais odeia os que têm uma condição sexual própria, os LGBT, as minorias indígenas e quilombolas, seus opositores que deverão ir para a cadeia ou para o exílio. Que exalta a violência, tem como ídolo um grande torturador, o coronel Ustra e afirma que a polícia tem que matar e que o erro dos militares de 64 foi torturar pois deveriam fuzilar a começar pelo ex-presidente FHC. Esse não se mostra como aquele do qual as Escrituras afirmam?
O Deus desse senhor, não tem nada a ver com o Deus de Jesus Cristo que dizia “bem-aventurados os pobres e ai de vós ricos”, que pregava o amor incondicional, anunciava o Deus do amor aos pobres e da ternura aos humildes.
Repito a advertência que grandes intelectuais alemães nos enviaram, eles que conheceram o terror do nazifascismo:

“UMA POLÍTICA DE EXALTAÇÃO DA VIOLÊNCIA PODE CAUSAR UMA CATÁSTROfE DE DIMENSÕES INCALCULÁVEIS”

E eu acrescento: não podemos engrossar o cortejo daqueles que nos querem levar para o abismo.

Termino com as palavras de São Francisco em sua Oração pela Paz:”onde há discórdia que eu leve a união, onde há ódio que eu leve o amor”.
Viva a Democracia a ser preservada contra qualquer intento de arbítrio. Viva o Brasil coeso, justo, fraterno e democrático.
Leonardo Boff, filósofo, teólogo, ecologista e escritor

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Da alemã Deutsche Welle: Intervenção não melhorou segurança no Rio, diz estudo


Da Deutsche Welle:


BRASIL

Intervenção não melhorou segurança no Rio, diz estudo

Relatório aponta que, nos dois meses de ocupação militar, estado teve mais tiroteios e mais chacinas. Cerca de 40 mil homens foram postos nas ruas, mas apenas 140 armas foram aprendidas.
Miliares patrulham comunidade no Rio: estado teve mais chacinas com intervençãoMilitär übernimmt Kontrolle in Rio de Janeiro (Reuters/P. Olivares)
A intervenção federal tem amplo apoio da população, mas, nos dois meses desde seu início, falhou em conter a violência no Rio de Janeiro: houve mais tiroteios e chacinas no estado, segundo revela um relatório independente divulgado nesta quinta-feira (26/04), sob o título À deriva: sem programa, sem resultado, sem rumo.
O título do relatório produzido pelo Observatório da Intervenção sintetiza a análise das instituições que integram a iniciativa criada para monitorar a intervenção. Coordenadora do projeto, a pesquisadora Sílvia Ramos define o que os dados ilustram: “A intervenção não resolveu os problemas da segurança pública do Rio e trouxe outros novos”.
De acordo com os dados coletados entre 16 de fevereiro e 16 de abril deste ano pelas 20 instituições públicas e privadas que integram o Observatório, as 70 operações realizadas nesse período envolveram 40 mil homens, no total, e resultaram na apreensão de apenas 140 armas. Durante as ações, 25 pessoas morreram. O número de tiroteios registrados no estado durante a intervenção chegou a 1.502, ante os 1.299 observados nos dois meses anteriores à vinda das Forças Armadas.
Outro indicador revelou que, em comparação ao mesmo período do ano passado, o número de chacinas praticadas no estado dobrou, saltando de seis para 12. Ante esses dados, Sílvia Ramos criticou a falta de transparência sobre as verbas empregadas na intervenção e cobrou esclarecimento sobre as metas a serem atingidas com a presença dos militares no estado, para que possam ser monitoradas.
“Neste momento, a intervenção não tem programa. Utilizaram 40 mil homens para apreender 140 armas. Algo está errado. Nenhuma política de segurança pode funcionar no Rio sem inteligência. É simples: onde há mancha criminal, onde está havendo mais mortes e roubos, é preciso investir mais”, afirmou.
“Não dá para termos esses números e, no sábado e domingo, colocar ‘soldadinho’ lá na orla, deixando a Baixada Fluminense e o município de São Gonçalo nessa situação que vem se agravando desde 2017, de forma dramática nos últimos dois meses”, completou.
A reportagem entrou em contato com o Gabinete de Intervenção Federal para questionar os objetivos do projeto e os recursos empregados até aqui. Em nota, o Gabinete afirmou estar “dedicado aos objetivos estabelecidos de diminuir progressivamente os índices de criminalidade e fortalecer as instituições da área de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro. Medidas emergenciais e estruturantes estão sendo tomadas e serão observadas ao longo do período previsto de Intervenção Federal”.
A que serve a intervenção?
O coronel Íbis Pereira, comandante geral da PM do Rio em 2014, lembrou que as Forças Armadas atuam no estado do Rio desde agosto do ano passado. Logo, o período de dois meses seria suficiente para se fazer uma avaliação crítica da intervenção até aqui. Ele defendeu uma reforma das instituições policiais como uma pauta a ser priorizada pela próxima legislatura.
“O relatório não poderia ter um nome mais preciso e verdadeiro. Não podemos continuar tratando a segurança pública da forma amadora e irresponsável como a União tem feito nos últimos anos. A Constituição de 1988 completa 30 anos, e o capítulo sobre esse tema nunca foi regulamentado. Temos uma Polícia Civil que investiga e não patrulha, uma Polícia Militar que patrulha e não investiga, e uma Polícia Federal que não trabalha em sintonia com as instituições estaduais”, criticou.
Brasilien Militär übernimmt Kontrolle in Rio de Janeiro (Reuters/P. Olivares)
Blindado e soldados em ação no Rio de Janeiro: só 140 armas apreendidas
“Não dá para continuar nesse cenário com o número de mortos que temos. Ultrapassamos o limiar de 60 mil e, se não fizermos nada, vamos ultrapassar os 70 mil por ano. Não dá para viver em um país assim e continuar acreditando que vivemos em um Estado democrático de direito”, acrescentou.
Os representantes de instituições que atuam em parceria com o Observatório lembraram que a chacina de oito mortos na Rocinha, no final de março, segue sem explicações do Gabinete de Intervenção Federal. Outro massacre mencionado foi o ocorrido no morro do Salgueiro, no município de São Gonçalo, região metropolitana do Rio. Na ocasião, oito pessoas foram mortas com características de execução durante operação conjunta da Polícia Civil com as Forças Armadas.
O subdefensor público-geral do Rio, Rodrigo Pacheco, afirmou que o caso foi encaminhado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em outubro do ano passado, o presidente Michel Temer sancionou uma lei que transfere o julgamento de crimes cometidos por agentes das Forças Armadas em missões de Garantia da Lei e da Ordem para a Justiça Militar.
Renata Neder, coordenadora de pesquisa da Anistia Internacional no Brasil, afirmou que a medida inibe investigações sobre esses atos. “É algo muito perigoso, que respondeu a um clamor das Forças Armadas. Eles diziam que precisavam de garantias legais se fossem atuar com maior frequência na segurança pública”, criticou.
Para a representante da Anistia Internacional, a intervenção federal aprofunda e consolida um modelo de militarização da política de segurança pública. Em sua visão, experiências anteriores evidenciariam que esse caminho não gera melhorias nos indicadores de violência.
"No Rio e em outros estados, o uso das Forças Armadas não reduziu a criminalidade, custou muito caro e produziu violações de direitos humanos. O México vive esse processo desde 2006. Nesse período, houve aumento dos homicídios e desaparecimentos, com um custo orçamentário altíssimo e muitas violações. Se a intervenção não serve ao propósito de reduzir a violência, precisamos nos perguntar a que ela serve”, argumentou.
A prisão de 159 pessoas durante uma festa organizada por milicianos em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, era considerada a maior vitória da intervenção até aqui. Na última quarta-feira, 137 deles, todos réus primários, foram liberados. No pedido de soltura, o Ministério Público alegou que não havia provas efetivas que permitissem o oferecimento de denúncias contra eles.
O subdefensor Pacheco, que atuou no caso, afirmou considerar necessário despolitizar a intervenção. “Essas prisões foram apresentadas como um troféu do projeto. Porta-vozes do governo disseram que o Rio vivia uma nova era a partir delas. A intervenção está extremamente politizada”.
Durante o lançamento do relatório, integrantes do Observatório cobraram explicações para a execução da vereadora Marielle Franco, ocorrida em 14 de março. Ela esteve na primeira reunião de elaboração do projeto e coordenava a Comissão Representativa da Câmara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar ações da intervenção.
Uma pesquisa divulgada no fina de março pelo Instituto Datafolha revelou que a intervenção federalno Rio de Janeiro tem o apoio de quatro em cada cinco moradores da cidade, mas apenas 21% acham que a situação melhorou com os militares nas ruas.
______________
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube | WhatsApp | App | Instagram

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Mandado coletivo representa a extinção do processo e a formalização da barbárie, por Pedro Estevam Serrano, jurista, Professor de Direito Constitucional da PUC-SP




no ConJur e GGN
por Pedro Estevam Serrano
O decreto presidencial assinado no último dia 16, que impôs ao Rio de Janeiro intervenção federal, vem carregado de mecanismos tanto ineficazes quanto inconstitucionais. Primeiro, é preciso observar que há no decreto uma inconstitucionalidade de procedimento formal. O documento deveria ter passado por dois conselhos — o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional —, o que só ocorreu dias depois de sua decretação. Mas o mais grave são as inconstitucionalidades substanciais da medida, como a nomeação de um militar como interventor, uma vez que a nossa Constituição prevê somente intervenção de caráter civil. Ressalte-se que segurança pública é uma atividade essencialmente civil.
O sistema de intervenção da União nos Estados-membros pressupõe condutas estritas. A substituição do secretário de segurança pública pela figura do interventor, que passa a comandar a área de segurança, com total submissão das polícias civil, militar e também dos bombeiros, não é a forma prevista. A ordem jurídica não prevê intervenção em função subordinada. O esperado, nesses casos, é o afastamento do próprio chefe do executivo, e não de seu secretário ou assessor, pois isso gera uma disposição problemática que subverte a estrutura de poder do Estado.
A função do secretário de segurança é derivada da função do governador, o que, no Direito Administrativo, define-se como desconcentração de autoridade. No entanto, da forma como foi feita a intervenção, criou-se uma anarquia sistêmica no Estado, já que o governador, mantido no cargo, deixa de ter comando sobre uma função subordinada à sua — a de chefe da segurança pública, ora sob mando do interventor federal. Na prática, é como se o presidente Michel Temer tivesse constituído um governador autônomo para a área de segurança e mantido o governador de fato para as demais áreas, numa conformação imprevista e inexistente em nosso ordenamento constitucional.
Outro aspecto relevante que demonstra a falta de legitimidade do decreto é o seu fundamento, que vem a ser “pôr termo ao grave comprometimento da ordem pública”. Existem vários tipos de agressão à ordem pública e é evidente a qualquer observador de fora e, principalmente, ao cidadão que vive no Rio de Janeiro, que o problema de segurança no estado é grave. Mas a ofensa à ordem pública prevista na Constituição não é de caráter genérico ou indeterminado; há algumas características que precisam estar presentes. Para que se justifique uma intervenção federal é necessário que haja uma ofensa imprevista e imprevisível. Aliás, toda medida de exceção, como o Estado de sítio em caso de guerra, ou esse tipo de intervenção federal que, em tese, funciona como um mecanismo de calibragem do pacto federativo, tem de ser pensada como medida de emergência para atender algo imprevisto ou imprevisível.
Ora, o agravamento da questão da segurança no Rio de Janeiro é notório e vem se acentuando há muito tempo, logo não é possível dizer que seja imprevisto ou imprevisível. O governo poderia e deveria ter lançado mão de outros instrumentos e de políticas públicas consistentes e contínuas para atender a esse problema que já se pode considerar sistêmico.
A “novidade”, portanto, não está na suposta causa, mas, talvez, no fato de que o decreto de intervenção se configura como uma medida de exceção mais clássica, diferentemente dos mecanismos de exceção que têm sido mais comuns no século XXI, que trazem uma aparência, uma roupagem democrática maior. O decreto explicita o desejo de interferir na federação com a finalidade de suspender os direitos fundamentais e humanos das pessoas, e seus desdobramentos evidenciam isso.
É o caso do mandado de busca e apreensão coletivo, algo que já vinha sendo praticado no Brasil e que faz parte da produção de uma jurisprudência de exceção, ou seja, de um conjunto de medidas de exceção produzidas pelo próprio Judiciário, que se traduz num mecanismo de espoliação no campo dos direitos fundamentais, esvaziando o sentido da nossa Constituição.
De forma acelerada, vimos as liberdades individuais serem tolhidas por interpretações que as restringem intensamente. Tanto os direitos de livre expressão, livre orientação sexual, o direito de ir e vir, como os direitos processuais de defesa e presunção de inocência vêm sendo espoliados em um processo que nos leva às portas da barbárie, à ruptura com os marcos civilizatórios da modernidade.
Essa jurisprudência de exceção, de certa forma, sempre existiu no Brasil, mas se intensifica muito a partir da década de 1990. É a partir de então que a nossa população carcerária quadruplica, tornando-se hoje a terceira maior do mundo, com 750 mil aprisionados. Decuplicamos em números simples e quadruplicamos em números percentuais a quantidade de mortos no país (entre 60 e 70 mil mortos por ano), algo que só se assemelha aos números de uma guerra civil. Na Guerra do Golfo, por exemplo, morreram 20 mil soldados americanos em uma década. Aqui, em um ano, 60 mil civis são mortos em situações de violência e ainda ostentamos o deplorável título de ter a polícia que mais mata e morre no mundo. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016 foram 4.224 casos de pessoas mortas em decorrência de intervenções policiais no Brasil e 437 o número de policiais civis e militares vítimas de homicídio.
A intervenção acentua esse cenário, pois se caracteriza como uma medida de exceção que abre espaço a ações cautelares e coletivas que suprimem intensamente os direitos das pessoas e da própria condição humana daqueles que serão atingidos por elas. Não há, na nossa Constituição, algo que preveja o estabelecimento de restrição coletiva à liberdade. A busca e apreensão ou aprisionamento deve se dar por ordem judicial individualizada com conduta determinada. O mandado coletivo representa a extinção da ideia de processo e a formalização da barbárie.
Representa ainda a disposição do Estado para combater um suposto inimigo, no caso o “bandido”, aquele que ofende a ordem pública e que, no Brasil, está deliberadamente confundido com o pobre. Não há dúvidas de que os segmentos mais empobrecidos da classe trabalhadora e a juventude negra das periferias serão os mais atingidos por esse conjunto de atos executivos e jurisprudências de exceção.
Vale observar que, além de não ser factível face a nossa Constituição, esse tipo de medida também contraria o pacto humanista democrático construído no pós-guerra, que se traduz, na Europa, nas constituições verticais, hierarquicamente superiores, a que chamamos, no meio constitucional, constituições rígidas, que são direitos que se sobrepõem a qualquer decisão política ou judicial. O Estado democrático, no pós-guerra, é um Estado que não apenas estabelece procedimentos e formas majoritárias de decisão política, mas que também determina restrições às decisões políticas e judiciais com base nos direitos.
O que se vê no Rio de Janeiro, de forma mais ampla, é consequência de uma evidente incompatibilidade entre o capitalismo liberal e as novas formas de democracia, que se observa não apenas localmente, mas em todo o ocidente, no mundo contemporâneo. No Brasil, no entanto, essa divergência se manifesta de forma mais violenta, pois aqui esse processo redunda no retorno às formas mais primitivas de acumulação de capital e de gerenciamento da vida das pessoas pelo Estado.
Do mesmo jeito que, no processo de afastamento da presidente Dilma Rousseff, tivemos o sistema de justiça à frente, criando um clima político para que o Legislativo executasse a medida de exceção que foi o impeachment, temos agora o Executivo produzindo um ato que dá origem a medidas cautelares de exceção, que devem ser encampadas pelo Judiciário. O que se percebe é que o Estado brasileiro como um todo promove o esvaziamento de sentido os direitos fundamentais assegurados pela nossa Constituição. O abandono dos Direitos Humanos, que acaba de perder seu ministério, rebaixado à secretaria da pasta da Justiça, é também simbólico deste processo.
Pedro Estevam Serrano é professor de Direito Constitucional e Teoria do Direito da graduação, mestrado e doutorado da PUC/SP, mestre e doutor pela PUC/SP com pós-doutorado na Universidade de Lisboa.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Hildegard Angel reflete sobre o papel da Globo na intervenção do Rio...



A imagem pode conter: texto


"Repetiram com requintes a campanha feita pela emissora contra o governo de Brizola, quando conseguiram satanizar os CIEPS com seu ensino em tempo integral. Projeto do visionário Darcy Ribeiro, que Brizola concretizou, e os jornalões, com grande eco da elite e da classe média, detonaram o que puderam. Findo o governo Brizola, cresceu mato nos Cieps. Foram abandonados, junto com o sonho de uma juventude carente salva das ruas e do crime, através do tempo integral na escola, até sua profissão. E ninguém se lembra. E todos reclamam disso, reclamam daquilo, mas não assumem as próprias responsabilidades, quer como mídia, quer como cidadãos. Reclamar é bom, né? Distancia a imagem de quem reclama do problema e exibe apenas seu dedo acusador." - Hildegard Angel



Sabendo dessa súbita decisão de se intervir militarmente no Rio, temos que dar o devido crédito à Globo, que fomentou, através de seus veículos, esse clima de horror e insegurança na população do Rio de Janeiro, onde não parece que houve carnaval. Só crimes.
No último mês todos os telejornais da emissora iniciaram com crianças mortas em tiroteios no Rio. Todos. E flagrantes de assaltos. Três ou quatro imagens de celulares, que eles repetiam à exaustão. Carnaval do Recife só tinha frevo. Da Bahia, só axé. Do Rio, só destacaram violência, o carnaval vinha depois. Vergonha. Como os jornalistas da emissora se prestam a isso? Vão arder no mármore do inferno dos comunicadores.
Repetiram com requintes a campanha feita pela emissora contra o governo de Brizola, quando conseguiram satanizar os CIEPS com seu ensino em tempo integral. Projeto do visionário Darcy Ribeiro, que Brizola concretizou, e os jornalões, com grande eco da elite e da classe média, detonaram o que puderam. Findo o governo Brizola, cresceu mato nos Cieps. Foram abandonados, junto com o sonho de uma juventude carente salva das ruas e do crime, através do tempo integral na escola, até sua profissão. Hoje temos aqueles menores – abandonados pela sociedade – feitos bandidos.
E ninguém se lembra. E todos reclamam disso, reclamam daquilo, mas não assumem as próprias responsabilidades, quer como mídia, quer como cidadãos. Reclamar é bom, né? Distancia a imagem de quem reclama do problema e exibe apenas seu dedo acusador. Mas não custa lembrar que, no local do primeiro CIEP, o CIEP modelo, no Panorama Palace Hotel, no Morro do Cantagalo, em Ipanema, o que há hoje é a sede do Criança Esperança. E o que se disse quando lá se instalou a escola para crianças pobres, em local nobre, de grande visibilidade e bem perto da favela do Cantagalo? “Que absurdo! Vão enfiar um monte de pivetes ao lado da casa da gente em Ipanema pra assaltar todo mundo”. Pois é. Parece que “pivete” de Criança Esperança é mais bem-vindo do que os de escola pública. E assim caminha a hipocrisia nacional, até…. esta segunda campanha massiva e obsessiva contra o Rio, com fins e endereço certo: intervenção militar.
Serve bem ao propósito de muitos, que gostam de brincar de guerra, de metralhar cidadãos (pobres, sobretudo), de matar sem ter que dar satisfação. Afinal, foi aberta a alta temporada de caça, com soldadinhos de chumbo já em marcha em direção à Venezuela…
A imagem pode conter: texto

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A violência contra professores é reflexo da violência e descaso para com a Educação




A violência contra professores é reflexo da violência e descaso para com a Educação e meio de deter o poder impedindo a conscientização críticas das pessoas, em especial do grande público, através de uma educação pública de qualidade. Para as elites que há mais de 513 anos exploram a maioria neste país, apenas banqueiros, golpistas, executivos de multinacionais leitores da Veja e do astrólogo Olavo de Carvalho e do difusor golpista Reinaldo Azevedo  é gente que vale a pena respeitar... O resto é apenas resto a ser usado e maltratado...

Carlos Antonio Fragoso Guimarães






Palavras de uma PROFESSORA aos POLICIAIS: 

"Eu posso olhar nos olhos de vocês porque não preciso ter vergonha de nada! Eu fui professora de muitos de vocês, dos seus irmãos e dos seus filhos. Eu trabalho ao lado de suas mães e esposas, em escolas miseráveis, caindo aos pedaços... Eu tenho a cara e o coração limpos porque minhas mãos não estão sujas de sangue, minhas mãos estão sujas e calejadas de giz!".


Para o Jornal do Brasil:

Os professores do Rio de Janeiro, que lutam por melhores salários, enfrentam agora a truculência da Polícia Militar, que no sábado - acionada pelo governador Sérgio Cabral, a pedido do prefeito Eduardo Paes – retirou a força os representantes da categoria da Câmara de Vereadores. Uma categoria da maior importância para o desenvolvimento de qualquer município, estado, nação, recebe no Rio entre R$ 1.200 e R$ 3.500 mensais, um dos piores salários pagos a um profissional com esse nível de capacitação para exercício da profissão.  A prefeitura acena com um reajuste de míseros 8%, enquanto a categoria pede 19%.
Não bastam os salários aviltados, é preciso bater, humilhar e impor um plano de cargos e salários que deverá piorar ainda mais a vida dos professores. Esquece o prefeito que aumentar a carga horária para 40 horas semanais vai transformar o professor em mero aplicador de provas e exercícios já prontos e que, provavelmente, deverão ser elaborados por alguma empresa privada “especialista nesse tipo de serviço”, cobrando o inimaginável para ser pago pelo contribuinte carioca, enquanto a educação da população vai piorando cada vez mais. 
Uma solução excelente do ponto de vista da secretária de Educação, Cláudia Costin, ex-funcionária de construtora e sem a menor capacidade para estar à frente da secretaria. Sua proposta de cargos e salários foi recusada por ser considerada pior do que a situação atual dos professores. O que já é péssimo ficaria pior. Parece piada, mas é a pura realidade. Uma luta que deveria ser de todos, mas infelizmente não vem contando com muito apoio.
Postura bem diferente de certos articulistas da mais suja das revistas nacionais:


 a fonte destes dizeres fascistas de Reinaldo Azevedo está neste link: