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terça-feira, 9 de abril de 2019

The Intercept: 80 tiros: Assista o vídeo com imagens exclusivas do carro fuzilado pelo Exército no Rio





Cecília Olliveira, Pedro Prado — 8 de Abril
Militares fuzilaram o carro de uma família e mataram um músico. Sem apurar os fatos, Exército cravou que os militares estavam reagindo a um "assalto em andamento".

“ELE TINHA LEVADO um tiro, aí os vizinhos começaram a socorrer. Eu ia voltar, mas eles continuaram atirando, e vieram com a arma em punho. Eu comecei a botar a mão na cabeça e falar “moço, socorro! É meu esposo”! Eles não fizeram nada. Ficaram de deboche! Meu deus!” O desabafo é de Luciana Nogueira, que há 27 anos dividia a vida com Evaldo Rosa, e que viu tudo acabar em meio a mais de 80 tiros disparados pela “mão amiga” do Exército, na tarde deste domingo. Luciana quase perdeu também o padrasto, que segue internado. Um homem que tentou socorrer a família também foi baleado.
O chão da Estrada do Camboatá, onde dois blindados do exército estavam posicionados, foi marcado por uma, duas, três, cinquenta, setenta marcas de tiros. No interior do carro é possível contar ao menos 11 tiros no banco do motorista. No lado do carona, outros seis.

Antes das vítimas virem à tona dar sua versão dos fatos, o Exército cravou que os militares se depararam com um “assalto em andamento“. “Ao avistarem a patrulha, dois criminosos que estavam a bordo de um veículo atiraram contra os militares, que por sua vez responderam à injusta agressão”. A nota mentirosa das Forças Armadas não encontrou eco no que mostra a perícia: nenhuma arma foi encontrada com a família, que ia a um chá de bebê. O delegado que esteve na cena disse que “tudo indica” que os militares confundiram o carro. Em nota divulgada hoje, o Exército diz que emitiu seu primeiro parecer “com base em informações iniciais transmitidas pela patrulha”. Ou seja, endossaram uma versão farsante dos soldados, sem checar o que de fato houve, e defenderam a versão sem apuração.
Hoje o Comando Militar do Leste informou que 10 dos 12 militarespresentes na ação foram presos.

Quem vigia o vigia?

O fato de divulgarem uma nota com uma versão falsa dos fatos logo de início levanta preocupações também sobre as investigações, que ficarão a cargo do próprio Exército. Isso graças a uma lei (a 13.491) sancionada por Michel Temer em 2017 e que prevê que crimes cometidos por militares em serviço passam a ser julgados pela Justiça Militar. Até hoje, nenhum membro das Forças Armadas foi sentenciado por crimes contra civis.
E não é só. No fim de 2017 houve uma operação no Salgueiro, em São Gonçalo, conhecido como o caso dos sete mortos que ninguém matou. A operação da polícia civil e das Forças Armadas foi marcada por desencontro de informações, depoimentos conflitantes, vítimas que não haviam sido ouvidas mas que a imprensa achou (e ouviu). E é isso: até hoje, nada. As investigações – que estão a cargo do exército – não andam. O conjunto da obra fez com que a Defensoria Pública do Rio denunciasse o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Desde 2010, 32 civis foram mortos pelo Exército no Rio de Janeiro. Há ainda casos de mortes não registradas e nem investigadas. Nenhuma condenação e apenas um caso chegou de fato a julgamento na Justiça Militar: uma ação do Exército realizada em 2015, no Complexo da Maré. Na época, as Forças Armadas ocupavam a Maré há quase um ano, quando um carro com cinco jovens que voltavam de um bar após assistir um jogo do Flamengo foi, também, fuzilado. Todos ficaram feridos, inclusive um sargento da aeronáutica. Vitor Santiago ficou paraplégico.

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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Novo ataque policial à Universidade. E, de novo, em Santa Catarina


Por Fernando Brito:

novaop

No dia seguinte à prisão – envelopada de “condução coercitiva” do reitor e da vice-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, e da abertura de uma sindicância – dois meses depois! – sobre os abusos que teriam levado o professor Luiz Cancellier, da Federal de Santa Catarina, a mesma juíza autoriza o envio de uma matilha de nada menos que 90 policiais para “conduzir coercitivamente” seis professores e servidores da mesma universidade.
Depois da morte do reitor, o mínimo de prudência que se exige é que as pessoas que se quer ouvir sejam intimadas.  Todas, como se disse ontem aqui, têm endereço e ocupação definidas. Ninguém vai fugir pro Afeganistão.
Se esta precaução básica não foi tomada é por haver uma deliberação política de demonstrar força do sistema policial-judicial.
É preciso se mostrarem como cães ferozes e nada ilustra melhor essa intenção que a narrativa do professor Alexandre Neves, da UFMG, sobre o momento em que os policiais federais entraram na casa do reitor Jaime Arturo Ramírez, que saía do banho, enrolado numa toalha e pediu uns minutos para se trocar.
– Você não tem mais direito à privacidade, não, rapaz! -disse-lhe um meganha.
Se ninguém os segura, amanhã tem mais.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Três mulheres, três países, o mesmo crime: a luta feminina contra a violência do Estado. Artigo de Helena Borges para o The Intercept




The Intercept:

MULHERES FORTES, posicionadas na linha de frente de grupos e movimentos sociais em todo o mundo, seja por bandeiras abertamente feministas ou não. São mães, filhas, irmãs, amigas que se levantam contra as injustiças que tiraram a vida de alguém que elas amavam.
The Intercept Brasil conversou com três mulheres ativistas do Brasil, da Jamaica e dos Estados Unidos, em fevereiro durante um encontro da Anistia Internacional, no Rio de Janeiro. Nos três casos, seus familiares foram vítimas do Estado. A forma como foram mortos e o fracasso da Justiça em responsabilizar os agentes do Estado pelos assassinatos têm um impacto profundo e duradouro sobre essas mulheres, que se tornaram forças-motoras de luta social.
“Naquele dia, tinha 23 policiais militares que estavam em fase de formatura, eles precisavam de diploma para entrar na Polícia Militar, fazer o ‘batismo’. Aquele era o último dia deles. E eles resolveram naquele dia fazer o holocausto do meu filho e o meu também. Eles abordaram Davi, ele estava conversando com uma pessoa, foi comprar alguma coisa às 7h da manhã. A testemunha disse assim: Não, ele mora aqui, é meu vizinho, tem nada a ver com isso não. E ele [o policial] fez: Bom, já que não tem ninguém, vai ele mesmo.”
O caso de Davi Fiúza — jovem de 16 anos sequestrado e morto por agentes da Polícia Militar da Bahia em 2014 — corre até hoje no Ministério Público, que segue prorrogando o prazo de entrega do inquérito desde 2016. Foram acusados 23 policiais, então formandos.
Sua história reflete a de tantos outros jovens, negros, moradores de periferias: o perfil apontado pela Anistia Internacional em seu relatório anual como os mais “desproporcionalmente afetados pela violência por parte de policiais”. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil.
Índices similares se repetem em outros países, onde histórias parecidas com a de Fiuza não cansam de se repetir. Nos Estados Unidos, um jovem negro de 15 a 34 anos corre um risco 9 vezes maior de ser morto pelas mãos de agentes policiais do que os demais. Na Jamaica, entre 2005 e 2013, mais de 200 pessoas foram mortas por policiais a cada ano. No entanto, desde 2000, apenas dois policiais foram julgados culpados por assassinato no país.
“Formamos essa coalizão, e é incrível, porque te dá força, te motiva a continuar. Eu, pessoalmente, sou uma líder. É simplesmente automático, foi intuitivo para mim começar a liderar essas mulheres, a ser a fonte da força delas. Eu sempre fui a fonte de força na minha família, agora sou uma fonte para elas. Porque muitas delas estão destruídas, muitas delas não têm o apoio de suas famílias. Então nós somos a família. Nós nos vemos como irmãs.”
A fala de Marion Gray-Hopkins retrata uma dificuldade que ela mesma observa entre outras mulheres: a dificuldade e a falta de apoio familiar na decisão de militar por uma causa.
A pesquisa “Feminismo e igualdade de gênero pelo mundo” perguntou, entre outras coisas, se as mulheres teriam medo de defender a igualdade de direitos por algo que pudesse acontecer com elas em represália ao ativismo. Foram entrevistadas 17.551 pessoas de 24 países, entre elas 8.822 mulheres. Das brasileiras entrevistadas, 41% disseram ter medo de defender os próprios direitos – a média mundial é de 26%. Dos 24 países participantes, o Brasil ficou em terceiro lugar neste quesito, perdendo apenas para Índia e Turquia.
São dados como este que confirmam a importância de grupos como os formados pelas três entrevistadas que figuram nesta matéria. É da troca de experiências e do apoio em rede, presentes nos relatos das três, que surge a força para buscar justiça.
“Quando você abraça uma mãe que perdeu um filho, tem quase uma transferência de emoções, de força. Não é apenas um abraço, é algo que transcende até a barreira linguística pela qual passei no Brasil. Nós conversamos sem precisar falar muito. Aquele olhar; aquele punho que está cerrado; a maneira como elas te encaram; a maneira como elas te garantem, na forma como acariciam a sua mão, para dizer ‘eu te entendo’. Estamos nessa juntas, mais fortes juntas.”

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Helena Borgeshelena.borges@​theintercept.com@HelenaTIB