Do Canal do jornalista Bob Fernandes:
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domingo, 23 de fevereiro de 2020
Bob Fernandes: Família Bolsonaro "permitiu às milícias controle do Rio", acusa Ciro Gomes… Militarização insuflada por milicianos avança
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terça-feira, 9 de abril de 2019
The Intercept: 80 tiros: Assista o vídeo com imagens exclusivas do carro fuzilado pelo Exército no Rio
Cecília Olliveira, Pedro Prado — 8 de Abril
Militares fuzilaram o carro de uma família e mataram um músico. Sem apurar os fatos, Exército cravou que os militares estavam reagindo a um "assalto em andamento".
“ELE TINHA LEVADO um tiro, aí os vizinhos começaram a socorrer. Eu ia voltar, mas eles continuaram atirando, e vieram com a arma em punho. Eu comecei a botar a mão na cabeça e falar “moço, socorro! É meu esposo”! Eles não fizeram nada. Ficaram de deboche! Meu deus!” O desabafo é de Luciana Nogueira, que há 27 anos dividia a vida com Evaldo Rosa, e que viu tudo acabar em meio a mais de 80 tiros disparados pela “mão amiga” do Exército, na tarde deste domingo. Luciana quase perdeu também o padrasto, que segue internado. Um homem que tentou socorrer a família também foi baleado.
O chão da Estrada do Camboatá, onde dois blindados do exército estavam posicionados, foi marcado por uma, duas, três, cinquenta, setenta marcas de tiros. No interior do carro é possível contar ao menos 11 tiros no banco do motorista. No lado do carona, outros seis.
Antes das vítimas virem à tona dar sua versão dos fatos, o Exército cravou que os militares se depararam com um “assalto em andamento“. “Ao avistarem a patrulha, dois criminosos que estavam a bordo de um veículo atiraram contra os militares, que por sua vez responderam à injusta agressão”. A nota mentirosa das Forças Armadas não encontrou eco no que mostra a perícia: nenhuma arma foi encontrada com a família, que ia a um chá de bebê. O delegado que esteve na cena disse que “tudo indica” que os militares confundiram o carro. Em nota divulgada hoje, o Exército diz que emitiu seu primeiro parecer “com base em informações iniciais transmitidas pela patrulha”. Ou seja, endossaram uma versão farsante dos soldados, sem checar o que de fato houve, e defenderam a versão sem apuração.
Hoje o Comando Militar do Leste informou que 10 dos 12 militarespresentes na ação foram presos.
Quem vigia o vigia?
O fato de divulgarem uma nota com uma versão falsa dos fatos logo de início levanta preocupações também sobre as investigações, que ficarão a cargo do próprio Exército. Isso graças a uma lei (a 13.491) sancionada por Michel Temer em 2017 e que prevê que crimes cometidos por militares em serviço passam a ser julgados pela Justiça Militar. Até hoje, nenhum membro das Forças Armadas foi sentenciado por crimes contra civis.
E não é só. No fim de 2017 houve uma operação no Salgueiro, em São Gonçalo, conhecido como o caso dos sete mortos que ninguém matou. A operação da polícia civil e das Forças Armadas foi marcada por desencontro de informações, depoimentos conflitantes, vítimas que não haviam sido ouvidas mas que a imprensa achou (e ouviu). E é isso: até hoje, nada. As investigações – que estão a cargo do exército – não andam. O conjunto da obra fez com que a Defensoria Pública do Rio denunciasse o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
Desde 2010, 32 civis foram mortos pelo Exército no Rio de Janeiro. Há ainda casos de mortes não registradas e nem investigadas. Nenhuma condenação e apenas um caso chegou de fato a julgamento na Justiça Militar: uma ação do Exército realizada em 2015, no Complexo da Maré. Na época, as Forças Armadas ocupavam a Maré há quase um ano, quando um carro com cinco jovens que voltavam de um bar após assistir um jogo do Flamengo foi, também, fuzilado. Todos ficaram feridos, inclusive um sargento da aeronáutica. Vitor Santiago ficou paraplégico.
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terça-feira, 1 de janeiro de 2019
O espetáculo da fascistização, por Marcelo Zero
"Há um enorme aparato militar ostensivo distribuído em pontos estratégicos e de grande visibilidade. A Esplanada e a Praça dos Três Poderes, o coração da cidade, estão cercadas por tropas numerosas. A toda hora, helicópteros militares sobrevoam a cidade de Niemeyer e Lúcio Costa. Parece que estamos em guerra ou que há uma quartelada em andamento."
Do Contexto Livre
Brasília está sitiada para a posse do presidente que defende a tortura e a ditadura.
Há um enorme aparato militar ostensivo distribuído em pontos estratégicos e de grande visibilidade. A Esplanada e a Praça dos Três Poderes, o coração da cidade, estão cercadas por tropas numerosas. A toda hora, helicópteros militares sobrevoam a cidade de Niemeyer e Lúcio Costa. Parece que estamos em guerra ou que há uma quartelada em andamento.
Alega-se que tudo isso seria necessário em nome da segurança do evento.
Trata-se, a meu ver, de alegação frágil.
No mundo civilizado, em países sujeitos a atos de terrorismo, há esquemas de segurança rígidos para eventos semelhantes. Mas, por motivos claros, eles são bem mais discretos e certamente menos militarizados.
Nos EUA, por exemplo, os agentes do Serviço Secreto, do FBI etc. atuam discretamente, misturando-se a convidados e público. Coloca-se ênfase em atividades de inteligência e na vigilância secreta, que são muito mais eficientes na prevenção a atentados que a presença ostensiva de militares uniformizados com tanques e mísseis. Por óbvio, patrulhamentos militares ostensivos são facilmente burláveis por terroristas minimamente eficazes.
Assim, parece-me que o esquema militar grandioso e caríssimo da posse de Bolsonaro tem duas outras funções principais:
1) Impedir eventuais manifestações contrárias ao presidente neofascista e, sobretudo,
2) Fazer a propaganda do novo regime autoritário.
O primeiro ponto é óbvio. O segundo, nem tanto.
Tanto o fascismo como o nazismo foram regimes que recorreram a espetáculos grandiosos para sua afirmação e legitimação.
O historiador Karl Dietrich Bracher argumenta que o sucesso da ideologia nazista não pode ser entendido sem a compreensão do papel central da propaganda. Tal propaganda criou um forte fenômeno psicorreligioso na população alemã. O líder passou a ser visto como uma espécie de representante do divino na Terra, um ser infalível, que pairava sobre todos.
Fundamental para a configuração de tal fenômeno foram as cerimônias cuidadosamente coreografadas e intensamente militarizadas, como os famosos rallies de Nuremberg, nos quais se comemorava o aniversário do partido nazista.
Nessas cerimônias, o aspecto militarista era central. Uniformes, estandartes e bandeiras desfilavam em rígida formação. O objetivo era projetar força e poder. Força e poder para intimidar os inimigos e força e poder para “empoderar” os membros da seita político-religiosa.
Dessa forma, o cidadão comum, humilhado e amedrontado pela recessão, a insegurança e a derrota na Primeira Guerra Mundial, sentia-se forte e protegido. Sua vida medíocre ganhava propósito e sentido.
E o propósito comum era defender os valores culturais e religiosos do “Ocidente” e os valores nacionais da Alemanha contra a ameaça maléfica, universalista e corrupta do bolchevismo e do judaísmo.
Qualquer semelhança com o bolsonarismo, sua mistura de fundamentalismo cristão e reacionarismo político, sua cruzada santa contra o “marxismo cultural” que ameaça o “Ocidente” e seu discurso fortemente autoritário, violento e militarizante não é mera coincidência.
Embora em épocas e circunstâncias muito diferentes, o bolsonarismo cumpre, no Brasil da crise, o mesmo papel psicopolítico que o nazismo desempenhou na República de Weimar. Ele proporciona, mediante a projeção de força, poder simbólico e propósito a uma legião de gente fragilizada e amedrontada, que busca no ódio a inimigos imaginários a sua redenção. Por isso mesmo, seu primeiro grande ato será distribuir armas aos “cidadãos de bem”.
Nesse sentido, a posse do “Mito”, nesse ambiente de militarização ostensiva, será um primeiro grande rally político do nosso fascismo. Uma espécie de Nuremberg em Brasília.
Não se trata, portanto, de segurança contra atentados. Pelo menos não no essencial. E não se trata, muito menos, de uma festa republicana, democrática, destinada a unir os brasileiros.
Ao contrário, trata-se de uma cerimônia para demarcar terreno simbólico e político. Uma cerimônia para dividir o Brasil entre aqueles que têm de ser banidos, presos ou “metralhados” e aqueles que, agora, dispõem da força e “legitimidade” necessárias para eliminar seus “inimigos”.
Por muito tempo, o Brasil e sua democracia desprezaram a ameaça do fascismo bolsonarista. Agora, talvez seja tarde demais. O rally político deste primeiro de janeiro poderá ser o primeiro de muitos.
Marcelo Zero
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Esperança: Indignação e Coragem, por Leonardo Boff
"Vivemos tempos sombrios e incertos. Internacionalmente somos motivo de vergonha e de escárnio. Não sabemos sequer que futuro nos espera. A estrutura de governo que até agora se montou, particularmente no Ministério das Relações Exteriores e no da Educação nos desenham um quadro perturbador. No lugar da partidização dos cargos do Estado está ocorrendo uma militarização de seus principais postos. Os militares não precisaram dar um golpe. O ex-capitão Bolsonaro os chamou para dentro do Governo. Como estamos sem horizonte, ficamos perplexos e muitos tomados de desesperança."

ESPERANÇA: INDIGNAÇÃO E CORAGEM
Vivemos no Brasil nos últimos dois anos dois grandes golpes: o primeiro, o impeachment e a deposição de Dilma Rousseff e neste ano de 2018 a ascensão da extrema-direita com a eleição de Jair Bolosonário a presidente do Brasil.
Não foi Bolsonaro que ganhou. Foi o PT que perdeu e com ele o Brasil.
1.Vivemos tempos sombrios e incertos
Vivemos tempos sombrios e incertos. Internacionalmente somos motivo de vergonha e de escárnio. Não sabemos sequer que futuro nos espera. A estrutura de governo que até agora se montou, particularmente no Ministério das Relações Exteriores e no da Educação nos desenham um quadro perturbador. No lugar da partidização dos cargos do Estado está ocorrendo uma militarização de seus principais postos.
Os militares não precisaram dar um golpe. O ex-capitão Bolsonaro os chamou para dentro do Governo. Como estamos sem horizonte, ficamos perplexos e muitos tomados de desesperança.
2.. Resgate da utopia e das utopias minimalistas
Num contexto assim, antes de falar de esperança, temos que resgatar a dimensão da utopia. A utopia não se opõe à realidade, antes pertence a ela, porque esta não é feita apenas por aquilo que é feito e dado, o que está aí palpável. Mas por aquilo que ainda pode ser feito e dado, portanto por aquilo que é potencial e viável não é ainda visível.
A utopia nasce deste transfundo de potencialidades presentes na história, em cada povo e em cada pessoa. O renomado filósofo alemão Ernst Bloch introduziu a expressão principio-esperança. Ele é mais que a virtude da esperança; emerge como uma fonte geradora de sonhos e de ações. O princípio esperança representa o inesgotável potencial da existência humana e da história que permite dizer não a qualquer realidade concreta, às limitações de nossa condição humana, aos modelos políticos e às barreiras que cerceiam o viver, o saber, o querer e o amar. E dizer sim a formas novas ou alternativas de organização social ou de plasmação de qualquer projeto. O não é fruto de um sim prévio e anterior.
Hoje podemos afirmar que as grandes utopias, as utopias maximalistas, do iluminismo (dar cultura letrada a todos), do socialismo (fazer que o nós prevaleça sobre o eu) e também do capitalismo (o eu prevalecer sobre o nós) entraram numa profunda crise. Nunca realizaram o que prometiam: nem todos participam da cultura letrada, a maioria não assistiu a distribuição equitativa e justa dos bens e a riqueza foi somente de pequenos grupos e não das maiorias. Mais ainda: todas estas utopias degradaram a Casa Comum pela super-exploração, e produziram um mar de pobreza, de injustiça social e de sofrimento evitável no lugar de benefícios para todos.
Somos obrigados a nos volver paras utopias minimalistas, aqueles que, não podendo mudar o mundo, podem, no entanto, melhorá-lo.
As utopias minimalistas são aquelas que foram implementadas pelos governos Lula-Dilma e seus aliados com base popular que agora pelo governo de ultra-direita seguramente serão desmontadas.
A nível das grandes maiorias são verdadeiras utopias mínimas viáveis: receber um salário que atenda as necessidades da família, ter acesso à saúde, mandar os filhos à escola, conseguir um transporte coletivo que não tire tanto tempo de vida, contar com serviços sanitários básicos, dispor de lugares de lazer e de cultura e com uma aposentadoria suficiente para enfrentar os achaques da velhice.
A consecução destas utopias minimalistas cria a base para utopias mais altas: aspirar que a nação supere relações de ódio e de exclusão,que os povos se abracem na fraternidade, que não se guerreiem, se unam todos para preservar este pequeno e belo planeta Terra, sem o qual nenhuma outra utopia seria possível.
3.Resgatar a força política da esperança
A vitória de Bolsonaro é fruto de uma imensa e bem tramada fraude: suscitando o anti-petismo, colocando a corrupção endêmica no país, como se fosse coisa só do PT, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista e atrasada, ligada a um tipo de família moralista e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os quilombolas, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando milhões milhões de fake news, caluniando e difamando o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.
Por trás do triunfo da extrema-direita atuaram forças do Império, particularmente, da CIA como o mostraram váios analistas da área inernacional, as classes dos endinheirados, herdeiros da Casa Grande, no sentido de preservar seus privilégios, parte do Ministério Público, do grupo ligado ao Lava-Jato, parte do STF e com expressiva força a imprensa empresarial conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.
A consequência é o descalabro político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. Todas elas estão contaminadas pela corrupção e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política. A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro juiz federal de primeira instância Sérgio Moro que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre se moveu não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado) e pelo impulso de raiva e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento que recebeu nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.
Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. A vitória fraudulenta de Bolsonaro (por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportâveis (mais de 62 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candadidato e agora presidente Bolsonaro soube alimentar durante a campanha. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.
Este cenário adverso ao direito e a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime de exceção, num tempo de pós-democracia ( juiz no Rio, Rubens Casara). Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história. Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender das contradições e a sair mais maduros, experimentados e seguros para rasgar um novo caminho mais justo, democrático, popular e includente para o Brasil.
Referimo-nos ao princípio esperança já citado anteriormene, que é aquele impulso que nos habita a sempre nos mover, projetar sonhos e utopias e dos fracassos nos permitir tirar sábias lições e nos tornar mais fortes na resiliência, na resistência e na luta.
- As duas formosas irmãs da esperança
A Santo Agostinho (353-450 da era cristã), talvez o maior gênio cristão e africano de Hipona, hoje Argélia, grande formulador de frases, nos vem esta sentença: “a esperança tem duas belas e queridas filhas: a indignação e a coragem; a indignação para recusar as coisas como estão aí; e a coragem, para mudá-las”.
Nesta fase de nossa história, devemos evocar, em primeiro lugar, a filha-indignação contra o que o futuro governo de Bolsonaro está e ainda irá perpetrar criminosamente contra o povo, contra os indígenas, contra os negros, contra os quilombolas, contra a população do campo, contra as mulheres, contra os sem-teto, e os sem-terra (MST) criminalizando-os como terroristas, os trabalhadores e contra os idosos, tirando-lhes direitos e rebaixando milhões que da pobreza estão passando para a miséria.
Nem escapa a autonomia nacional, pois o governo ofendendo nossa soberania, está permitindo vender terras nacionais a estrangeiros e mostrando um humilhante alinhamento à estratégia direitista e militarista do governo norteamericano de Trump.
Se o governo ofende o povo, este tem direito de evocar a filha-indignação e de não lhe dar paz. Deve denunciar, resistir e pressionar o mais que puder para mudar dos rumos da política.
A filha-coragem se mostra na vontade de mudanças, não obstante os enfrentamentos que poderão ser calorosos. É ela que nos manterá animados, nos sustentará na luta e poderá nos levar a mudanças substantivas. É imperioso voltar às bases populares, de onde nasceu o PT, criar escolas de formação política, passar de beneficiarios de projetos governamentais de inclusão a cidadãos ativos que se organizam, elaboram pressões, saem às ruas e apresentam projetos alternativos aos oficiais que deem centralidade aos mais pobres e vulneráveis e se decidam por um outro tipo de democracia participativa e ecológica.
Lembremo-nos do conselho de Dom Quixote:”no hay que aceptar las derrotas sin antes dar todas las batallas”: “Não devemos aceitar as derrotas sem antes dar todas as batalhas”.
Há um dado que devemos sempre tomar em conta: é evocar o primeiro artigo da constituição que reza: ”todo o poder emana do povo”. Governantes, deputados e senadores são apenas delegados do povo. Quando estes atraiçoam e não representam mais os interesses gerais mas os do mercado voraz, e de grandes grupos corporativos nacionais e internacionais que só conhecem a competição e desconhecem ao que é mais humano em nos que é a colaboração e solidariedade, o povo tem direito de reclamar por um empeachment e buscar formas legais de afastá-lo de poder.
As duas belas filhas da esperança poderão fazer sua a frase do escritor argelino-francês Albert Camus, autor do famoso romance A Peste: ”Em meio ao inverno, aprendi que bem dentro de mim, morava um verão invencível”.
O povo brasileiro, em seu momento, assim esperamos, fará sentir dentro de si este verão invencível, fruto de uma rebelde esperança. Será o resgate da democracia contra a impostura do governo Bolsonaro e de seus seguidores e um pilar para refundação de nosso país sobre outros valores e sobre bases mais humanitárias e participativas.
A esperança não é apenas um princípio, quer dizer, um dado da essência humana. Ela é também uma virtude cristã, junto com a fé e o amor. A esperança, de certa forma, está na base da vida. Podemos perder a fé e contuamos a viver. Podemos perder o amor de nossa vida e nos ralizarmos num outro. Mas quando perdemos a esperança, estamos a um passo do suicídio porque a vida perdeu sentido e o futuro não possui mais nenhum horizonte com uma luz orientadora. Dominam as trevas.
- A esperança no Novo Testamento
Curiosamente, os Evangelhos nunca falam de esperança. Logicamente, havia no povo eleito, a esperança pela vinda do Messias libertador. Ela ocorre uma vez na espístola de São João (1 Jo, 3,3), 4 vezes na epístola aos Hebreus e 3 vezes na primeira epístola de São Pedro. Mas é uma virtude muito presente nos Atos dos Apóstolos (7 vezes) e frequetemente nas cartas de São Paulo. Bem escreve na Epístola aos Romanos que Abraão teve “uma esperança contra toda esperança, de ser pai de muitas nações”(4,18). Numa outra passagem diz que “a esperança nunca engana pois o amor está em nossos corações”(5,5).
Cristo nos salvou. Mas peregrinamos no mundo longe de Deus. Por isso afirma São Paulo: “é na esperança que somos salvos”(Rom 8,24). Aos Efésios fala que num certo tempo “vivíamos sem esperança e sem Deus”(2,12) e agora pelo sangue de Cristo pertencemos ao Messias.
Embora não se use frequentemente a palavra esperança, a realidade da esperança para os cristãos foi, é e será Jesus Cristo vivo, morto e ressuscitado. Por ele Deus mostrou que a promessa de salvação e de libertação da criação e da humanidade nunca desvaneceu. Nele, pela ressurreição, estamos seguros de que a esprança jamais nos defraudará e que por ela se antecipou o fim bom da criação, do destino humano e do universo.
Devemos somar as energias da esperança, daquela que está sempre presente em nosso ser com aquela que é uma virtude cristã. Ambas se dão as mãos. Elas nos enriquecem com as energias para suportar as aflições do tempo presente mas muito mais nos dão a coragem para enfretá-las e inaugurar um novo caminho.
Talvez nunca em nossa história temos precisado tanto das duas formas de esperança como agora, pois os tempos são maus e somos governados por forças poderosas do ódio, da exclusão, da falsidade, da violência e da mentira.
Que o Espírito que é esperança dos pobres não nos deixe desanimar mas nos acompanhe com sua Energia divina para sermos fiéis ao sonho de Jesus. Ele veio para nos ensinar a viver os bens do Reino: do amor, da justiça,da compaixão com os pobres, do perdão e da total confiança no poder de Deus, “apaixonado amante da vida”(Sb 11,2 6).
(Palestra dada no dia 2 de dezembro de 2018 em Belo Horizonte a um numeroso grupo de políticos que assumem a fé cristã como fonte de ética e de inspiração para os ideais democráticos, grupo este organizado pelo ex-deputado Durval Angelo de Andrade e atualmente membro do Tribunal de Contas do Governo de Minas Gerais)
Leonardo Boff, teólogo e assessor de movimentos sociais.
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