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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Bandidos de Farda (5): Operações militares da ditadura para assassinar opositores custaram cerca de R$ 1 mi • POR JULIANA DAL PIVA, IGOR MELLO E CHICO OTAVIO

 

    No dia 8 de janeiro de 1973, o Centro de Informações do Exército (CIE) finalizou uma de suas ações mais brutais. Militares ligados ao principal órgão de repressão da ditadura militar invadiram um sítio em Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, e assassinaram cinco integrantes do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações da luta armada contra o regime.


Do Instituto Conhecimento Libera - ICL:


No dia 8 de janeiro de 1973, o Centro de Informações do Exército (CIE) finalizou uma de suas ações mais brutais. Militares ligados ao principal órgão de repressão da ditadura militar invadiram um sítio em Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, e assassinaram cinco integrantes do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações da luta armada contra o regime.

A ação, conhecida como massacre da Chácara São Bento, foi a etapa final do plano da ditadura para exterminar a iniciativa da Vanguarda Popular Revolucionária de retomada de uma guerrilha e também uma resposta dos militares à descoberta do agente duplo José Anselmo dos Santos, o “cabo Anselmo”. Mas nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, aquele era o final da Operação Kymball, uma das dezenas de ações clandestinas conduzidas pelo órgão entre 1969 e 1974.

Os dados de uma caderneta empoeirada de 83 páginas, coordenada pelo coronel Cyro Etchegoyen, expõe os gastos com todo o planejamento desses cinco assassinatos. Além disso, o ICL Notícias fez um cruzamento de informações entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com as informações produzidas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos e encontrou pagamentos de ações militares que resultaram em,  pelo menos, outras 29 mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

Caderno de contabilidade com anotações feitas por militar registra gastos com operações clandestinas e ações para assassinar opositores durante a ditadura.
Caderno de contabilidade de Cyro Etchegoyen com dados de gastos com o agente infiltrado “cabo Anselmo” e com operações para assassinar opositores

O coronel Cyro registrou informações de despesas e receitas detalhadamente por 54 meses –de dezembro de 1969 a junho de 1974–, os gastos da equipe do órgão com o dia a dia da repressão política durante os governos Médici e Geisel. De acordo com essa contabilidade, o CIE gastou ao menos 615 salários mínimos em operações clandestinas. Em valores de hoje, isso equivale a um orçamento de aproximadamente R$ 1 milhão.

A caderneta faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte, em fevereiro deste ano, à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias, entre estes a caderneta.

Contabilidade da Barbárie

Registrada meticulosamente a mão pelo coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, a contabilidade aponta para a existência de pelo menos dois aparelhos clandestinos do CIE. Um deles é a “Casa da Morte”, em Petrópolis, mas um registro em agosto de 1971 indica pagamentos para a “manutenção de um aparelho em Raiz da Serra”, localidade próxima a Magé, no interior do Rio.

Nas minúcias dos custos, há também dados que apontam para, ao menos, 29 operações e ações sigilosas realizadas pelo CIE contra organizações de esquerda. Destacam-se entre as anotações os custos envolvidos na infiltração de agentes duplos em organizações de esquerda.

A primeira delas, segundo o próprio Cyro é a “Operação Morro Velho”, codinome dado a Victor Luiz Papandreu, que o militar descreve como um agente duplo. Papandreu era da VPR, tinha o codinome “Grego” e é registrado como desaparecido desde 1971. O tenente médico Amilcar Lobo contou em livro ter presenciado seu assassinato dentro da “Casa da Morte” quando os militares teriam avaliado que ele não tinha mais condições de dar informações. No entanto, não há comprovação de que ele, de fato, tenha morrido.

Em outro documento do arquivo de Cyro Etchegoyen, ele detalha que só nessa ação foram assassinados cinco integrantes de “comandos nacionais”, seis foram presos e um total de 25 opositores foram identificados. No livro, “Seu Amigo esteve aqui”, da jornalista Cristina Chacel, a autora detalha que os últimos contatos de Carlos Alberto Soares de Freitas e Antonio Joaquim Machado teriam sido com Papandreu.

Casa da Morte de Petrópolis

As anotações de Cyro Etchegoyen também dão pistas sobre a rotina da Casa da Morte de Petrópolis – aparelho clandestino onde mais de uma dezena pode ter sido assassinada. As vítimas depois tiveram seus corpos ocultados.

A única sobrevivente foi a militante Inês Etienne Romeu – a responsável por denunciar os crimes cometidos por militares no local e por identificar parte dos torturadores que atuavam na casa, inclusive, o “dr Bruno”, codinome de Cyro Etchegoyen. A dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária foi levada para o aparelho na Região Serrana do Rio em maio de 1971, onde foi presa e torturada por cerca de três meses.

Em julho daquele ano, a contabilidade registra “despesas com Inez”, no valor de 100 cruzeiros, quase meio salário mínimo na época. Os militares do CIE tinham o objetivo de transformar Inês em uma infiltrada, coisa que nunca aconteceu. Como parte do plano, a colocaram em liberdade em agosto de 1971. Inês, no entanto, chegou na casa de sua irmã Geralda e denunciou a família todo o que aconteceu durante sua prisão.

Naquele mês, a caderneta de Etchegoyen registra várias despesas relativas à ida de Inês –identificada com o codinome de Maristela pelos militares– para Minas Gerais.

Uma delas, confirma a tentativa frustrada de transformá-la em um agente duplo. O coronel Etchegoyen anota “Pago a Maristela, conforme contrato”, também no valor de 100 cruzeiros.

"Cabo Anselmo"

O caso mais famoso de agente duplo, porém, é o do “cabo Anselmo”. Na contabilidade de Cyro Etchegoyen, os custos relacionados à infiltração de Anselmo na VPR no Recife estão rotuladas como Operação Kymball — codinome dado pelos agentes do CIE a ele. Somente nessa ação, a reportagem identificou gastos que somaram mais de 172 salários mínimos –o equivalente a R$ 279,3 mil em valores de 2026.

A operação que resultou no massacre da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, consumiu boa parte desses R$ 279,3 mil. A ação foi desencadeada para resgatar Anselmo, que, segundo os arquivos de Cyro Etchegoyen, chegou a ser preso pelos militantes da VPR. A ação de resgate e assassinato dos militantes da VPR mobilizou um total de 18 homens, em cinco equipes do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma outra do DOI do IV Exército, do Recife.

Uma ação clandestina  focada no Rio Grande do Sul, batizada de Operação Pampa, consumiu outros R$ 102,1 mil. Os registros da Operação Pampa mostram a participação direta de Etchegoyen em campo, bem longe do escritório do CIE, no Rio de Janeiro.

Há registros de gastos com duas viagens de “Dr Bruno” – codinome de Cyro Etchegoyen no aparato de repressão– para Porto Alegre durante o ano de 1972. As datas coincidem com viagens oficiais do coronel para a capital gaúcha, conforme anotações encontradas pela reportagem na ficha funcional do militar –nela há ainda uma terceira viagem ao Rio Grande do Sul não registrada na contabilidade em 1972.

Bandidos de Farda (4): Militares roubavam móveis, dinheiro e até brinquedos de imóveis em que faziam batidas. O abuso do poder fascista em ação da ditadura em reportagem de Juliana Dal Piva, Igor Mello e Chico Octávio para ICL

 



    Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.

Do Instituto Conhecimento Liberta  - ICL:

Brinquedo de criança, canetas, poltronas, estantes, sapatos, dinheiro, armas e até um carro. Esses são alguns exemplos dos itens que militares do Exército brasileiro roubaram de casas e apartamentos nos quais efetuaram revistas, buscas e prisões de militantes da luta armada. Não importava a quem pertencesse. Agentes inconformados com os desvios dos colegas denunciaram que a pilhagem atingiu pessoas que não integravam grupos de oposição à ditadura. O esquema contava até com o uso de um apartamento na Rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, utilizado para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”

Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.

A denúncia desses crimes consta do depoimento de Israel Sturne, sargento do CIE, tomado em 17 de fevereiro de 1970 pelo coronel Cyro Etchegoyen no informe “Irregularidades na Seção de Operações”. Além dos assaltos, Sturne denunciou um estupro feito por um colega durante uma ação para prender integrantes da ALN em dezembro de 1969. O documento integra o arquivo secreto do oficial que é publicado pelo ICL Notícias no projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.

O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Móveis roubados para encontros com amantes

Documento do Exército com trechos destacados registra denúncia de desvio de objetos apreendidos por agentes do CIE durante operações na ditadura brasileira.

No relato, Sturne diz que os paraquedistas que vieram servir no CIE eram os principais envolvidos nos crimes relatados. Ele estranhou o fato de os colegas serem voluntários para qualquer tipo de missão, especialmente estouro de aparelhos.“Em sua impressão todo o problema começou com a vinda dos referidos paraquedistas para o CIE, pois a partir de certo tempo verificou que quando se estourava um aparelho, este era cercado por eles e ninguém entrava no recinto sinão depois de certo tempo”, afirmou o sargento.

Logo adiante, Sturne completou: “Com o correr do tempo soube que os objetos retirados dos aparelhos eram, em sua maioria, levados para a rua Tenente Possolo, local utilizado pelo pessoal da Seção de Operações para encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino. Tal apartamento é de propriedade de um amigo do capitão Malhães que lhe cedeu particularmente”. O endereço completo do apartamento para os encontros com amantes não foi informado no documento.

Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano”, ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene” que alugava quartos para integrantes da Ação Libertadora Nacional e sequer era integrante do grupo. Além de estuprá-la, segundo Sturne, os agentes que atuaram na ação roubaram até um brinquedo de seu filho. “Que dona Marilene pediu-lhe para reaver um objeto (um carrinho de corda) que comprara para dar a seu filho no Natal e que deixara no quarto de Aton. Que informou na S-104 mas tal objeto não reapareceu”, contou.

Quem também lembra do episódio é Augusto dos Santos Mello, filho de Marilene. Ele tinha seis anos, na época, e o dia marcou sua memória para sempre: “Quando eles invadiram minha casa, eles rasgaram o colchão, brinquedo de palha, meu cavalinho todo, os brinquedos. Tudo foi destruído procurando dinheiro. Não ficou nada”.

No depoimento ao CIE, Sturne relatou ainda que, em outra ação, um móvel foi levado para o CIE. “O apartamento era muito bem montado e foi completamente desmontado; sabe que o móvel da sala (tipo estante) foi levado para o escritório do CIE na Avenida Presidente Vargas”, disse. Outro destino dos bens relatados pelo denunciante foi a garagem de um imóvel ocupado por uma mulher e duas crianças ligadas ao ao “tenente-coronel Caldeira” na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.

Militares em veículo do Exército em registro da época da ditadura, contexto em que agentes realizavam operações que incluíam apreensão e desvio de bens de civis.
Crédito: arquivo pessoal família Sturne

Na denúncia, o sargento identificou que esse comportamento não era só dos subordinados, mas também dos oficiais superiores, seus chefes de operações, e citou o caso do então Major Rubens Paim Sampaio. “Quanto ao Major Sampaio (Paraquedista), que soube apenas de uma troca de móveis, isto é, que o referido oficial ao saber que umas poltronas haviam sido enviadas a Jacarepaguá, foi buscá-las e as trocou por outras existentes em sua residência. Nessa ocasião, foi utilizado o caminhão do gabinete para a mudança”, revelou. Sampaio, já morto, também foi denunciado como um dos torturadores de Inês Etienne Romeu, na “Casa da Morte”, de Petrópolis, e é um dos acusados pelo assassinato do deputado federal cassado Rubens Paiva.

Além de Sampaio, algumas das ações que terminaram com assaltos tinham o comando do tenente-coronel Paulo Malhães, morto em 2014.  “Quanto ao capitão Malhães, que sabe ser da teoria de que todas as coisas retiradas devem vir para o CIE, ou para o escritório do Presidente Vargas, ou, finalmente, para a Ten Possolo; que as coisas retiradas devem ser de utilização coletiva pelo pessoal da seção de operações”. Segundo Sturne, para Malhães, o ato de levar objetos das casas não seria ilegal na lei deles. Malhães “considera roubo retirar coisas para uso pessoal”.

"Loucos com prazeres sádicos"

Sturne foi mais duro com alguns. “Quanto ao sgt Canaã que lhe parece um louco cheio de prazeres sádicos; que é um irresponsável e que leva tudo o que pode para sua casa”

O sargento Iracy, apontado por Sturne como o estuprador de Marilene, admitiu a retirada de itens, mas negou a violência sexual. “Que apanhou para si alguns lápis, 3 canetas esferográficas, 1 par de sapatos usados, 1 grill”, afirmou. Ele disse ainda que “um monte de dinheiro apreendido pelo cap Mauricio da Operação Bandeirante na Ten Villas Villas Boas; não sabe a quantia nem destino”. O capitão Maurício Lima foi apontado pela ex-presidente Dilma Rousseff como um dos agentes que a torturou na Operação Bandeirante em São Paulo.

Após a denúncia de Sturne, um soldado identificado como “Gordo” prestou depoimento em 16 de fevereiro de 1970 e confirmou os assaltos. “Ouvido pelo chefe da Seção de Contra-Informações, o referido soldado confirmou que fez várias mudanças para o pessoal da Seção de Operações do CIE”, disse.

Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho que diziam na época e que lá era divididos em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.

Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai era pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa  ai para outra. Então, morei em laria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.

Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.

Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Bandidos de Farda (3): Seis décadas depois, é desoberta uma uma vítima de est*pro por militares de extrema direita da ditadura. Reportagem de Juliana Dal Piva, Igor Mello e Chico Otávio para o ICL com base em documentação real

 


A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias.


Do ICL:






A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias. Não era militante da luta armada contra o regime e nem sequer se envolvia com política, mas acabou capturada ao lado de três guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi estuprada pelo menos duas vezes, uma na viatura do Exército, logo após a captura, e outra em um apartamento de Copacabana, usado como aparelho da ALN.

O estupro no imóvel, na Rua República do Peru 143, está descrito em informe sobre “Irregularidades na Seção de Operações”, de 12 de fevereiro de 1970, um dos mais importantes papéis encontrados no acervo pessoal do coronel Cyro Etchegoyen. O documento estava guardado dentro de uma pasta intitulada “Ordem dos gorilas” e com um desenho na capa.

Trechos do depoimento do sargento Sturne denunciando o estupro de Marilene

A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte.

Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias. Em nota, o Instituto Fernando Santa Cruz disse que “teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos”. Além disso, o IFSC vai atuar pelo reconhecimento oficial de Marilene como vítima da ditadura militar brasileira.

No depoimento que prestou a Cyro, o então sargento Israel Sturne, indignado com a atitude dos colegas do CIE, denunciou não apenas a violência praticada contra Marilene, mas o roubo sistemático, por parte de agentes, de bens encontrados com os presos políticos. Na segunda-feira (27), o ICL Notícias publicará novos dados sobre essa denúncia na sequência da série de reportagens.

Carteira de identidade de Israel Sturne

O documento interno descreve que as “irregularidades que estariam ocorrendo na seção de Operações (do CIE), a qual era acusada de praticar violências desnecessárias e excessivas durante os interrogatórios e de apropriação, para uso pessoal de seus integrantes, de objetos pessoais encontrados em aparelhos estourados”. Denominado “Resumo das declarações do sargento Sturne”, de 12 de fevereiro de 1970, o documento diz que, após ser presa na Tijuca, Marilene foi levada para outro local usado como aparelho pela ALN, em Copacabana, e foi estuprada.

Sturne descreveu a violência a Etchegoyen. “Consta que o sargento Iraci forçou a senhora Marilene a dormir com ele na frente dos demais”, relatou. Na sequência, ainda disse ter ficado absolutamente chocado com o episódio. “Sintetizando, disse que funcionalmente o fato que mais o chocou foi a limpeza no apartamento de Domingos e, do ponto de vista humano, chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene e com as torturas violentas observadas durante os interrogatórios”, completou Sturne. Segundo ele, o sargente Canaã também presenciou o crime. Sturne ainda definiu os colegas como “os piores sem sombra de dúvidas”.

O agressor descrito pelo colega é o sargento Iracy Pedro Interaminense Correa e Canaã é o sargento Jairo de Canãa Cony. Em 2014, em depoimento ao Grupo de Justiça de Transição do  Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, Iracy disse que serviu 15 anos no Exército e admitiu que trabalhou no CIE e que conheceu o coronel Cyro. Na ocasião, tanto Iracy como Canaã tinham sido apontados pelo tenente-coronel Paulo Malhães como os sargentos que atuaram com ele na operação para ocultar os restos mortais do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido desde janeiro de 1971.

Ao depor, Iracy negou a participação no crime. Questionado sobre seu trabalho, ele reconheceu que atuava junto com Canaã. “Esse Canaã ele era muito ligado na brigada. Então, era um companheiro meu da brigada. Ele era da minha equipe, mas eu não trabalhava quase com ele”, disse. “Eles iam sair, iam fazer a informação e eu ia cuidar da viatura e cuidar de rádio”, informou. Ambos também foram integrantes das equipes que atuaram nas torturas da “Casa da Morte”, de Petrópolis.

Inês Etienne Romeu, única sobrevivente a passar pelo local, também denunciou que foi estuprada ao longo dos três meses em que foi torturada no aparelho clandestino da ditadura. Ela acusou o soldado Antonio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, de tê-la violentado. Ele responde a um processo na Justiça Federal do Rio de Janeiro que aguarda apenas a sentença desde o ano passado. Camarão mora em Mogi das Cruzes, em São Paulo.

Canaã morreu em 1982 e Iracy em 2024.

Sequestrada por três dias

Marilene morava com os filhos e a avó centenária em um sobrado na Rua Tenente Villas Boas 16, na Tijuca. Ela era enteada do ator Modesto de Souza, um velho militante do PCB, que atuou em filmes como “Terra em transe”. Depois que o padrasto morreu, em agosto de 1967, o sobrado passou a ser usado como “casa de passagem” para os militantes da ALN chegados do treinamento de guerrilha em Cuba. A mãe de Marilene, Laura Santos Mello, organizava a acolhida em comum acordo com Zilda Xavier Pereira, sua amiga e uma das mais importantes dirigentes da organização guerrilheira.

A rua, estreita e sem saída, parecia uma vila de casas e prédios baixos. Um bom esconderijo para quem tramava contra o regime militar. O clima insuspeito do local era reforçado pela vizinhança, formada por famílias tradicionais, moradores pacatos e muitos militares. O tenente médico Amilcar Lobo, que seria denunciado anos depois por atuar nas sessões de tortura no Destacamento de Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, era vizinho de porta. Nunca desconfiou da existência do aparelho.

O ex-deputado Carlos Marighella, o fundador da ALN que chegou a ser considerado o inimigo “número um” do regime, frequentava o aparelho da Tijuca para se reunir com os militantes da organização. O líder sindical Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que coordenou o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em setembro de 1969, esteve escondido no local. Ambos foram assassinados pelos militares naquele ano.

Hoje morando em Brasília, o ex-integrante da ALN Gilney Viana lembrou que passou alguns meses no local e conviveu com Marilene e os filhos. “Ela era, no máximo, uma simpatizante”, conta Viana, ao dizer que Marilene sabia que os hóspedes eram integrantes da oposição à ditadura.  “Foi o aparelho que eu fiquei mais tempo. De final de maio até o dia 2 de novembro de 1969″, relembra. “O Marighella, veja bem, eles tinham confiança nesse aparelho porque é um aparelho que normalmente era de trânsito”, explica.

Tanto Viana como o agora advogado Aton Fon Filho, outro integrante da ALN, recordam de encontros com Marighella naquele local. Aton agora vive em São Paulo, mas recorda de cada detalhe daquele 19 de dezembro de 1969.

“Tinha regra na organização: se tiver algo estranho, uma pessoa diferente, foge. Eu descumpri a regra. Subi e entrei. Quando eu entro na casa, a Linda Tayah já havia sido presa e estava sendo torturada numa banheira no banheiro lá dessa casa. Eu sou preso também. Subindo a escada. Eu tomo uns pontapés. Rolo escada abaixo”, relembra. Depois, Aton foi levado para a mesma banheira onde estava a colega da ALN. “Eles molhavam a gente e puxaram o fio de lá de cima do chuveiro elétrico para aplicar choques elétricos na gente. Então, as torturas começaram ali mesmo, na casa”, revela. Aton depois foi levado pelo capitão Maurício Lima para São Paulo e ficou preso até novembro de 1979. Ele não chegou a ver o que ocorreu com Marilene naquele dia.

Quem soube o que Marilene sofreu foi o sargento do Exército Israel Sturne. Ele integrava a equipe que, no dia 19 de dezembro de 1969, estourou o aparelho da ANL na casa de Marilene. No local, foram presos três nomes importantes da organização na cidade: Aton Fon Filho, guerrilheiro treinado em Cuba, que morava no sobrado, Linda Tayar e Domingos Fernandes, primeiro chefe militar da ALN carioca. Marilene foi levada pelos militares para o endereço onde ficava o “aparelho” de Domingos, em Copacabana. Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano” ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene”.

Fon Filho era um quadro importante da ALN. Meses antes da prisão, em junho de 1969, ele participou da ação que detonou uma bomba-relógio no elevador da Câmara Americana de Comércio, nos arredores do viaduto do Chá. O objetivo do atentado era protestar contra a missão do então governador de Nova York, Nelson Rockefeller, enviado ao Brasil pelo presidente norte-americano, Richard Nixon.

Na memória de Augusto dos Santos Mello, 61 anos, existe uma lembrança viva daquele dia. Ele é um dos cinco filhos de Marilene e hoje mora no interior do Rio de Janeiro com a mulher. Ele diz que saiu com Marilene para fazer a feira naquele dia e ela reparou em carros cheios de armas no caminho. Por isso, parou e resolveu telefonar para sua mãe em casa. “Aí quando volta, é o terror, né? Eu e meus irmãos fomos levados para uma sala no centro da casa, toda fechada, a portas fechadas, janelas fechadas e ficamos lá. Ficamos lá até eles saírem da casa e nos jogarem no vizinho”.

No entanto, ao longo do tempo em que os militares torturavam Aton, Linda e Domingos, as crianças ouviram tudo. “Eles encheram a banheira. Nós tínhamos uma banheira de encher com água. E torturavam com fios. Estupraram ela e tudo mais e bateram nela. E foi isso lá que aconteceu. A gente escutou”, relembra.  Depois, a mãe ficou desaparecida por cerca de três dias. “Quando nós voltamos para casa, a minha avó que foi tomar conta da gente”, explica. Augusto diz que a mãe retornou diferente. Calada, distante e por um bom tempo continuou assim. “Ela voltou meio afastada da gente”, revela.

Sobre o que aconteceu a ela no período em que desapareceu, Marilene guardou a dor por muito tempo. A única vez em que revelou parte da violência sofrida foi quando a família estava num carro e precisava passar por um túnel. “Ela só relatou depois de muito tempo, porque a gente tinha que ir visitar minha avó e tinha que passar pelo túnel. Ela não queria passar. Ela tinha trauma do túnel porque ela foi retirada de casa e foi estuprada dentro do túnel”, revela.

O militar Israel Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho, como diziam na época, e que lá era dividido em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.

Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai foi pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa aí para outra. Então, morei em Olaria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.

Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.

Segundo Reinaldo, esse foi o começo da retaliação contra o pai, que teve consequências para toda a família.

“Realmente ele se sentiu perseguido porque ele denunciou alguns colegas de farda. O pessoal estava ameaçando ele, praticamente. Tanto é que ele não tinha local fixo. Ele quase que não ficava com a gente. Passei minha infância todinha prejudicado porque não via meu pai. Ele não vinha pra casa para não expor a família dele a risco”, relembra.

Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.

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Vamos revelar o arquivo secreto do Coronel Etchegoyen com os crimes que os militares esconderam por 5 décadas

17/05, domingo às 20h

Documentário original





segunda-feira, 27 de abril de 2026

Bandidos de Farda (2): Estupro, roubos, assassinatos - os crimes dos militares da ditadura escondidos por Cyro Etchegoyen. Reportagem 1 da série produzida pelo ICL com Juliana Dal Piva, Igor Mellor e Chico Otávio



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Estupros, roubos assinatos: Os crimes da ditadura escondidos por Cyri Etchegoyn

POR JULIANA DAL PIVA, IGOR MELLO E CHICO OTAVIO

“Dr. Bruno – baixo, meio gordo, tipo sírio-libanês. Pareceu-me o oficial mais graduado do grupo (coronel). Defendeu tese na Escola Superior de Guerra, segundo me contou. É gaúcho”. Foi assim que a ex-presa política Inês Etienne Romeu descreveu o primeiro dos 20 homens que a violentaram por 91 dias na “Casa da Morte”, o maior cárcere clandestino da ditadura militar, localizado no morro Caxambu, em Petrópolis, região Serrana do Rio. Por mais de quatro décadas, o codinome “Dr Bruno” escondeu o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contra-Informações do gabinete do ministro do Exército no governo do ditador-presidente Emilio Garrastazu Médici. A atuação do coronel foi revelada por um antigo subordinado, o tenente-coronel Paulo Malhães, em 2014.  Só que, ao ser descoberto como um dos chefes do centro clandestino criado pelos militares para torturar e desaparecer com opositores, o coronel Cyro já tinha morrido. Ele morreu dois anos antes, em 2012, em decorrência de complicações de um AVC.


A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

 

O coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contrainformação do CIE na ditadura

Entre os documentos, obtidos com exclusividade, o coronel guardava, por exemplo, relatórios de monitoramento do presidente Lula, no fim dos anos 1970. Mas o documento mais perturbador é uma denúncia feita por um soldado do Centro de Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro, informando a existência de um estupro perpetrado, em 1969, por uma equipe de militares que atuava na área de operações e inteligência do CIE contra uma mulher que alugava quartos a integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). O crime aponta para a existência de uma nova vítima da ditadura, desconhecida quando o relatório da Comissão Nacional da Verdade foi finalizado em 2014. Na ocasião, foram reconhecidas 434 vítimas, das quais 210 desaparecidas.

No arquivo de Cyro Etchegoyen estava ainda uma apostila que detalha um curso de interrogatório feito por ele, em dezembro de 1970, na Inglaterra, a convite do próprio governo inglês. No documento, é possível verificar a indicação para a construção de locais isolados, nos quais os presos são levados vendados e após técnicas de desorientação.

Essas duas primeiras histórias você conhecerá neste domingo e as demais serão publicadas nos próximos dias até à estreia do documentário “Bandidos de farda”.

O coronel Cyro tinha relatórios que registravam metodicamente sistemáticos roubos de móveis, objetos e dinheiro feitos por militares nas casas e apartamentos em que prendiam pessoas. Segundo o soldado Israel Sturne, o produto do roubo era levado para os escritórios do CIE, um dentro do Palácio Duque de Caxias e outro que ficava em prédio da Avenida Presidente Vargas. Havia ainda um apartamento que, de acordo com o militar, era utilizado pelos agentes para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”.

O coronel Cyro Etchegoyen com o ditador paraguaio Alfredo Stroessner em 1967

O coronel tinha em seu poder um extenso relatório informando como foi o trabalho para o planejamento de operações que resultaram em prisões e assassinatos de diversos opositores políticos entre 1969 e 1974, período em que ele esteve no CIE. No documento, os militares nomeiam e dão detalhes inéditos da atuação de dois agentes infiltrados que a ditadura colocou dentro das organizações de luta armada. A documentação ainda aponta que o Exército teve, até 1974, ao menos 30 agentes infiltrados. Desses, pelo menos seis no exterior, entre Argentina, Chile e Uruguai. No documento, a maioria é apresentada por meio de codinomes. Não é possível saber se são militares treinados ou ex-integrantes dos grupos de resistência que trocaram de lado.

O coronel Cyro Etchegoyen no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul

O arquivo inédito também possui uma caderneta empoeirada de 83 páginas na qual o coronel expõe os gastos com todo o planejamento de várias operações que resultaram em assassinatos. Um cruzamento de informações feito pelo ICL Notícias entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com os dados produzidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos encontrou pagamentos no total de R$ 1 milhão para cerca de 30 ações militares que resultaram em mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O registro dos pagamentos, que inclui a indicação de um centro clandestino de tortura, desconhecido até aqui, também aponta para o controle e a prestação de contas que era feito dentro do gabinete do então ministro do Exército, Orlando Geisel. Os dados reforçam as informações existentes do controle da cúpula da ditadura sobre os crimes do período, conforme também ficou registrado em um memorando da CIA de 11 de abril de 1974. No documento do governo dos EUA, é descrita uma reunião em 30 de março daquele ano na qual os ex-ditadores-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo discutem com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do Exército (CIE), à época, a manutenção da política de assassinatos e desaparecimentos desenvolvida no governo Médici. Na ocasião, eles registravam 104 mortes de opositores.

O próprio coronel Cyro, ainda em 1994, tinha apontado para essa proximidade da cúpula em relação às decisões do gabinete. “Eu cansei de ver assuntos do CIE irem direto para o presidente da República. Não que não tenham ido ao SNI. Mas eram tão importantes que o general Orlando Geisel (ministro da Justiça) os levava direto ao gabinete do presidente, e lá se encontrava também com o chefe do SNI”, afirmou Cyro, em uma entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon Soares, publicada no livro “Os anos de chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. Cyro Etchegoyen não costumava receber jornalistas ou pesquisadores. Esse é o único registro de declarações públicas dele em vida.

E foi por meio de uma cópia dessa entrevista que o ICL Notícias também averiguou a veracidade desse arquivo. No meio dos documentos, há uma carta manuscrita da professora Maria Celina com a cópia da entrevista entregue por ela em 1993 para o coronel Cyro, pouco antes da publicação do livro. A pesquisadora reconheceu a cópia da carta e lembrou da entrevista. “Todos eram muito educados. Eu acho que é parte até da masculinidade e a parte do machismo, você ser educado com uma dama. Ele não me chamou a atenção, assim em termos de ser uma pessoa que tivesse vaidade de falar sobre seus feitos, do ponto de vista do que foi a repressão. Bem, porque ele negava. Ele negava que tivesse havido uma repressão nos moldes que os presos políticos falavam. Ele negava a tortura, por mais que a gente tentasse saber detalhes. Mas ele vai falar sempre de uma forma muito orgulhosa do trabalho deles. Isso era uma coisa que me impressionava. Era o orgulho que eles tinham de falar da contribuição que eles tinham dado para o golpe de 64, para a ditadura, para ter combatido o comunismo”, conta a pesquisadora. Sobre a apostila do estágio na Inglaterra, Maria Celina pontuou a importância da descoberta. “Quer dizer, obviamente que o governo inglês não faz um convite assim… ó, vem aqui. Ele faz um convite a partir de uma conjuntura. Deve ter havido negociações anteriores”, explica.

Cerca de um mês depois do retorno do coronel Cyro da Inglaterra, ele coordenou a criação da “Casa da Morte” em moldes semelhantes ao que descreveu ter aprendido no curso. “A tortura era uma política de Estado. A gente se diferencia dos países da América Latina, porque de fato a gente vai ter um grupo específico a frente dessas ações”, explica Samantha Quadrat, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. “Eles se beneficiavam economicamente, seja através das pilhagens (roubos) que eram feitas, mas também porque eles tinham boas gratificações nessa atuação. Eles recebem as melhores promoções. Eles tinham uma série de benesses para estar atuando ali e eram homens formados para aquilo. Havia uma ciência ao redor daquilo”, completa.

Há ainda uma lista com 73 nomes de integrantes do CIE, dos quais a metade recebeu a Medalha do Pacificador com Palma naquele período, revelando uma série de novos potenciais integrantes das ações da repressão da ditadura.

Cyro, o "dr. Bruno"

Cyro nasceu em 1929 e é filho de Alcides, o patriarca do Etchegoyen. Nasceu na fronteira entre o Brasil e o Uruguai a ponto de inspirar entre seus conhecidos uma certa lenda sobre se era brasileiro ou uruguaio. Torcia pelo Fluminense, não costumava beber, mas manteve até os últimos dias, em 2012, o hábito de fumar. Guardava consigo quatro armas: uma pistola .38, uma Beretta 22 e duas Magnum, uma .48 e outra .45.

Pertence a uma longa família de militares. O primeiro Etchegoyen militar é o pai: Alcides. Ele  aderiu à chamada Coluna Relâmpago, em 1926, e tentou um levante em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, contra a posse do presidente Washington Luís. Depois, apoiou o movimento que levou Getúlio Vargas ao poder e cresceu na carreira. Em 1942, substituiu Filinto Müller na chefia de Polícia Civil do Distrito Federal — o mesmo Müller que havia prendido e entregado à Gestapo de Hitler a judia alemã Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, então grávida, que foi executada na câmara de gás do campo de extermínio de Bernburg. Alcides foi promovido a coronel e passou a perseguir o jogo do bicho e a prostituição, além de dar continuidade à repressão dos opositores políticos do governo.

O general Sérgio Etchegoyen ( esquerda) e o patriarca Alcides (direita); e os irmãos Cyro e Leo Etchegoyen (Crédito: Arte/ ICL Notícias). Sérgio é filho de Leo e sobrinho de Cyro.

Nos anos 1950, Alcides se envolveu em novas conspirações. Em agosto de 1954, assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas  e acabou preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor o presidente interino Carlos Luz. Naquele mesmo ano, Alcides também se somou aos que tentaram barrar a posse de Juscelino Kubitschek. Um ano depois, morreu de infarto fulminante e não chegou a ver a ascensão militar dos filhos Cyro e Léo. Ambos seguiram a carreira militar e despontaram com a ascensão dos militares após o golpe de 1964.

Em março e abril de 1964, o envolvimento pessoal de Cyro foi decisivo. Ele estudava na Escola do Comando do Estado Maior e lá integrou as articulações do golpe. Quando as tropas do general Olímpio Mourão deixaram Juiz de Fora rumo ao Rio, Cyro ajudou a proteger o governador Carlos Lacerda, simpático à ideia dos militares derrubarem o presidente João Goulart. Nesse alinhamento de forças, encontrou o então tenente Freddie Perdigão Pereira, que guardava a entrada do Parque Guinle, no bairro de Laranjeiras, com cinco tanques M-41 inicialmente disponibilizados para proteger Goulart. Com o desenrolar dos acontecimentos, Perdigão foi convidado a trocar de lado. Hesitante, negociou com seus subordinados e, horas depois, saiu com quatro tanques em direção ao Palácio Guanabara. O major Cyro Guedes Etchegoyen liderou o comboio dirigindo um Volkswagen. Discursos e fotos se seguiram, com o governador Carlos Lacerda bradando sobre o que chamou de “salvação do Brasil e a de si próprio”.

Naquele mesmo ano, em junho de 1964, Leo, então chefe da polícia gaúcha em Porto Alegre, recebeu o policial norte-americano Dan Mitrione, especialista em torturas e responsável no Brasil do Office of Public Safety (OPS), braço da CIA que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Os dois posaram para fotos na escadaria do Palácio da Polícia. A primeira visita de Mitrione a Porto Alegre havia ocorrido entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro de 1964, com um curso de 30 horas intitulado “Supervisão e operações de patrulhamento”. Mitrione voltou no mesmo ano, dois meses após o golpe, para um curso de 25 horas sobre “Técnica de patrulhamento”, entre os dias 19 e 26 de junho.

Ao longo dos anos seguintes, Cyro subiu na hierarquia militar. Em 1967, foi adido militar no Paraguai e chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner, que comandou aquele país entre 1954 e 1989 e deixou mais de 3 mil pessoas assassinadas no período. Na sequência do crescimento, veio o convite ao CIE.

Sete anos após o golpe, era um dos chefes do órgão e foi chamado para dar início ao trabalho de contra-informação.  Sediado no 8º andar do Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro, onde ficava também o Quartel General do I Exército, o CIE centralizou algumas das principais ações para prender e assassinar lideranças dos grupos de oposição à ditadura. Junto com outros oficiais do gabinete do ministro do Exército, Cyro tornou-se expoente do trabalho de segurança, espionagem e repressão. Ele passou à reserva em 1983 e morreu em 2012.

O último dos Etchegoyen a ser conhecido publicamente é o sobrinho de Cyro, general Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Michel Temer, entre 2016 e 2018.

Nota Instituto Fernando Santa Cruz

Há histórias que o tempo tenta enterrar, guardadas em arquivos “reservados”, escritas com a frieza burocrática de quem transformou o terror em rotina, reduzidas a números em relatórios de “subversivos postos fora de circulação”. Há famílias que resistiram ao silêncio imposto pelo Estado, guardando memórias como brasas acesas. Há o heroísmo dos que disseram não, que escolheram a consciência em vez da ordem e desapareceram sem túmulo, sem despedida, sem fim. Foi Juliana Del Piva e a equipe do ICL quem foram até essas famílias, quem os ouviu, quem reconstituiu os fatos com a coragem de quem sabe que a verdade, quando finalmente encontrada, dói e liberta ao mesmo tempo. Este trabalho não é apenas uma séri de reportagens. É um ato de resistência, de reparação e de memória viva.

​O Instituto Fernando Santa Cruz – IFSC apoia de forma incondicional este trabalho e estende esse apoio a cada família que abriu suas portas e suas feridas para que ele existisse. O IFSC leva o nome de Fernando Santa Cruz, estudante, militante, pai, desaparecido político desde 1974, cujo corpo o Estado jamais devolveu à sua família. Levamos seu nome não como símbolo de dor, mas de luta: pela memória, pela verdade e pela justiça que ainda está por vir. O IFSC teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos. Cada família encontrada confirma que a história não pertence aos que tentaram apagá-la, ela pertence aos que sobreviveram para contá-la. Acreditamos, com toda a força de nossa missão, que um país que não enfrenta o seu passado não apenas o repete, mas o legitima. Nunca mais!

Instituto Fernando Santa Cruz-IFSC
Memória, Verdade e Justiça