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sexta-feira, 22 de maio de 2026

MORO - O EX-JUIZ PARANAENSE DESMORALIZADO - PASSA NOVA VERGONHA AO VIVO AO SER TRITURADO POR OCTAVIO GUEDES NA GLOBO NEWS

 

Da TV Afiada baseado em vídeo da GlobNews:

Octavio Guedes não perdoa! O jornalista detonou a postura de Sergio Moro ao lado de Flávio Bolsonaro: "Virou papagaio de pirata!". O ex-juiz que prometia prender agora serve de escudo? Assista à análise ácida sobre esse vexame político!



sexta-feira, 14 de maio de 2021

Xadrez dos "bastardos inglórios" da direita (Moro, Dallagnol, Lava Jato, Globo, Centrão, Barroso, militares, Temer) que levaram o Brasil ao caos... Por Luis Nassif

 

  E enquanto Bolsonaro procede à mesma desavergonhada distribuição de recursos públicos, através do orçamento oculto, que o centrão domina o país, que o Ministro do Meio Ambiente sai em defesa de criminosos ambientais, Barroso morre abraçado à bandeira da Lava Jato, sustentando que hoje em dia a corrupção pelo menos é envergonhada. O país não abdicou apenas da inteligência, mas do pudor.



Xadrez dos bastardos inglórios que levaram o Brasil ao caos, por Luis Nassif


Peça 1 – a teoria e a realidade

Uma das implicâncias que acumulei na minha carreira jornalística foi em relação a intelectuais livrescos, incapazes de utilizar os princípios que supostamente dominam na análise da realidade. Só aceitam a realidade abstratamente quando ela aparece em forma de livro – e, de preferência, aceito pelo sistema – e quando endossada pela maioria. 

No início da Lava Jato, na visita da Força Tarefa aos Estados Unidos, já havia indícios da influência do Departamento de Justiça na operação. No entanto, em maio de 2018, com todos os sinais no horizonte, cientistas sociais para se mostrarem “modernos” tratavam de classificar as teses de interferência de “teoria conspiratória”.

Não é prerrogativa dos cientistas sociais. Os economistas repetiram, em 20 anos, os dois maiores desastres da história recente do país – a explosão de juros do início de 1995 e o pacote Levy, de 2015. Em ambos os casos seguiam a cartilha – independentemente da realidade econômica e social em que a teoria seria aplicada. Agiram como o médico que receita doses de antibiótico iguais para adultos e crianças.

Essa desmoralização da análise e da informação está na raiz do que viria a ganhar a forma de bolsonarismo e que prosseguirá vivo e fatal como uma cobra cascavel, minando todos os esforços de tentar recuperar o país para a contemporaneidade.

Peça 2 – como se formam as ondas

O processo psicológico que explica a timidez em entender a crise de 1995, os efeitos da Lava Jato, a inação autodestrutiva de Paulo Guedes, é a mesma que levou a ondas como a que sacrificou os donos da Escola Base.

Desafiados a explicar o fenômeno, a cada novo evento, a mídia – e seus especialistas, os cabeças de planilha e os cientistas de papel – saem correndo atrás da primeira interpretação, buscando a faixa de menor risco através de dois expedientes.

O primeiro, seguir o mesmo padrão de coberturas similares, mesmo quando se vive situações excepcionais, isto é, sem precedentes comparáveis – como o fim da inflação do Real ou a crise de 2008.

O segundo, usar a explicação mais acessível ao leitor que, em geral, é a mais superficial e descontextualizada. Cria-se, então, a onda em cima da primeira versão, e amarram-se todas as opiniões posteriores.

Se disser a maior estultice do mundo, mas estiver em companhia da maioria, não será cobrado. Se defender uma posição inovadora ou minoritária, será questionado de todas as formas, e precisará de argumentos seguros para se defender. 

O efeito manada, que tanto criticam no bolsonarismo, é companheiro de cabeceira desse pessoal.

Os que ousam ir contra a maré vivem dois momentos. Na primeira etapa, são vistos com total desconfiança. Depois que as teses são assimiladas, há uma multidão aderindo, diluindo seu pioneirismo.

É por isso que, em todas as discussões, a maioria dos interlocutores procura a faixa de menor risco, que é acompanhar as ondas. No Brasil esse movimento foi acentuado pelo populismo da mídia, de não entrar em dividida contra os consensos.

Peça 3 – a importância da análise empírica

Mas não apenas isso. Há uma enorme mediocridade, uma incapacidade crônica dos cabeças de planilha e dos cientistas de papel de aplicar conceitos aos dados da realidade. Se a realidade não bate com o livrinho, abole-se a realidade. Isso não é ciência.

Lembro-me do início do Plano Real. Abriu-se a economia, apreciou-se violentamente o câmbio e ficou-se aguardando a entrada das importações, para segurar pressões de preços. E as importações não entravam, para desespero dos economistas do Real.

Na época, escrevi um artigo mostrando que havia uma defasagem entre abertura de mercado e entrada das importações. Seria um tempo para identificar produtos importáveis, fornecedores externos, demanda interna.

O então Ministro do Planejamento José Serra me telefonou perguntando se havia lido os trabalhos do até então desconhecido Paul Krugman – que começava a desbastar esse tema.  Não, apenas fui dar uma palestra para um grande atacadista de Uberlândia e ele me contou. Ou seja, bastaria a qualquer dos brilhantes economistas do Real chamar um atacadista e perguntar o óbvio. Mas ficaram esperando os estudos de Krugman.

André Lara Rezende levou vinte anos para entender e defender a relevância da análise empírica, especialmente na identificação das correlações na economia, em eventos extraordinários.

Peça 4 – a lógica da homogeneização da análise

Essa falsa ciência – de se basear em manuais de uso geral, sem se debruçar sobre as características específicas do país -, foi utilizada exclusivamente para a universalização de normas favoráveis ao capital financeiro. 

Usa-se, então, política monetária para lumbago, dor de dente e pneumonia. Uma economia continental, complexa como a brasileira, ficou restrita às mesas de operação. 

Tome-se o fenômeno da inflação. Há inúmeros fatores que podem pressionar preços, quebras de safra, preços de comercializáveis, interrupção de cadeias de produção, aquecimento da demanda. A formação de preços passa por grandes grupos, pequenas empresas, cadeias produtivas agrícolas, aluguéis, serviços pessoais, estado de espirito do consumidor, níveis de inadimplência.  Em países racionais, governos atuam sobre problemas de oferta, quebra de safras, quebra de cadeias produtivas, efeitos do câmbio etc. Mas como o Estado foi demonizado, e o mercado exige homogeneização de análises, qualquer combate à inflação passa exclusivamente pelo Banco Central.

Por trás dessa insuficiência de análise está uma dependência férrea da noção do equilíbrio geral da economia. Monta-se um mundo fictício em que só existem mesas de operação justamente para facilitar o trânsito de capitais, permitindo aos gestores comparar indicadores semelhantes de todos os países. Indicadores, aliás, muitas vezes sem nenhuma relação com a economia real, mas que permitem a sincronização de expectativas do mercado – exclusivamente do mercado, saliente-se.

Criaram-se fantasias, então, como a taxa de juros de equilíbrio. Anos atrás, quando ganhou o prêmio de Economista do Ano, Pérsio Arida calculou uma taxa de juros de equilíbrio de 8% ao ano. Ou seja, cada vez que a taxa real de juros (acima da inflação!!!!) ficasse abaixo de 8%, dispararia reajustes de preços.

Na época, almocei com Pérsio e lhe disse que todos os formadores de preços que eu conhecia se baseavam em princípios tradicionais: há mercado? aumenta. Não há mercado? Reduz. Há competição? Reduz. Há cartelização? Aumenta. Há condições de aumentar os preços? Os preços aumentarão independentemente da tal taxa de juros de equilíbrio.

Mas como sintetizar essa soma complexa de fatores em um único indicador? Toca então a criar essas miragens, que são tão falsas quanto as notas das agências de risco, o Triple A para o Lehman Brothers.

Peça 5 – a burrice institucional brasileira

Concentrei as análises em temas econômicos, que acompanhei mais de perto. Mas essa burrice institucional, de cabeças de planilha e de cientistas de livros, é generalizada e pega todos os escalões da República. Surge no curto-prazismo do operador de mercado, ecoado pela mídia econômica, e no personagem público, autoridade ou editor, que quer surfar, viver intensamente seu momento fugaz de brilho, e o futuro que exploda – especialmente para a organização que ele representa.

Vamos a alguns exemplos de relações causa-efeito óbvias de uma geração de ignorantes, sem nenhuma noção sobre a relevância institucional de suas respectivas instituições e sem nenhuma capacidade analítica de perceber as consequências óbvias de seus atos.

Lava Jato e a antipolítica

Há uma ampla literatura mostrando que, quando se desmoraliza o poder político, abre-se espaço para outras formas de poder não eleitos – em geral, o poder militar. Foi o que ocorreu na Itália, Alemanha e Brasil dos anos 30; no Brasil e outros países latino-americanos nos anos 60 e 70. 

No Brasil, mídia, Supremo e mercado ignoraram completamente essa lógica e abriram espaço para o poder militar pegar carona em um líder popular sociopata.

Mídia como partido político

Como dois e dois são quatro, era óbvio que, ao se transformar em partido político, a mídia entraria em uma armadilha fatal. Nenhum grupo político, de esquerda, direita, aceitaria passivamente a convivência com uma mídia que se propõe a sequestrar a política e a se colocar acima do poder político. Diretores de redação mandaram os princípios jornalísticos à merda e gozaram intensamente o poder que detiveram, comprometendo irreversivelmente a segurança futura do próprio exercício do jornalismo.

O Judiciário militante

A mesma ignorância institucional se manifestou no Judiciário. Há o choque do pré e do pós impeachment, cria-se o vácuo de lideranças e deslumbrados sem-noção ganham visibilidade, devido ao protagonismo de suas instituições naquele cenário específico. E passam a se julgar ungidos por Deus para ocupar o espaço vazio e se tornar condutores de povos. Aconteceu com Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Luis Roberto Barroso, trinca de ignorantes vaidosos de diversas extrações.

Depois, à medida que o organismo social e político vai se reconstituindo, são expelidos como vírus nocivos à volta do equilíbrio.

Os militares políticos

Esse mesmo deslumbramento com o vácuo político contaminou militares, como o ex-comandante do Exército, general Villas Boas.

Houve uma invasão do Estado por militares, e a grande derrota na batalha contra o Covid-19 recaiu sobre eles, o maior desgaste à imagem das Forças Armadas desde a redemocratização.

General Pazuello se tornou o paradigma do militar administrador. E os milhares de camaradas levados para o serviço público liquidaram definitivamente com o estereótipo de que as “boquinhas” do serviço público eram prerrogativa de civis.

Peça 6 – os danos à democracia

Essa soma de personagens públicos ignorantes, sem responsabilidade institucional, conseguiu o feito de colocar no comando do país o grupo mais despreparado da história da República, um sociopata que corteja a morte e a destruição.

Bolsonaro é filho direto da irresponsabilidade dos Barrosos, Moros e Dallagnols, dos diretores de redação, dos donos de grupos de mídia, de militares que perderam o pudor, de lideranças políticas que não tiveram paciência de retomar o poder pelo voto.

O legado não é apenas Bolsonaro e seus próximos 500 mil mortos. É a desorganização institucional completa do país e um legado, na opinião pública, que mostra a que foi reduzida a ex-7a economia do mundo, o país que encantava o globo no início da década.

Segundo pesquisa do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, denominada de “A Cara da Democracia”, 22,2% dos brasileiros acreditam que a terra é plana; 50,7% acreditam que o coronavírus foi criado pelo governo chinês; 56,4% acreditam que os hospitais são pagos para aumentar o número de pacientes mortos pela Covid-19.

Como conclui Leonardo Avritzer, organizador da pesquisa:

“Elas estão ligadas a uma diminuição da influência da mídia tradicional na formação da opinião pública: 62,6% dizem não confiar na Rede Globo e 41,7% dizem não confiar na Rede Record. Ainda mais surpreendente é que o número de pessoas que confiam na Record, 11,2% é quase o dobro daquelas que confiam na Globo”.

Desde 2005, era óbvio que o jornalismo de esgoto implementado conduziria a isso. Mas a ignorância institucional brasileira, e o oportunismo do curto prazo, falou mais alto. 

Naquele início de autodestruição, quem ousasse discordar da mídia era massacrado por toneladas de ataques pessoais e de ações judiciais.

Hoje, todos pagam por essa irresponsabilidade. E enquanto Bolsonaro procede à mesma desavergonhada distribuição de recursos públicos, através do orçamento oculto, que o centrão domina o país, que o Ministro do Meio Ambiente sai em defesa de crimonosos ambientais, Barroso morre abraçado à bandeira da Lava Jato, sustentando que hoje em dia a corrupção pelo menos é envergonhada.

O país não abdicou apenas da inteligência, mas do pudor.

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A fábula do Conjo, o que foi receber seu prêmio fora, por Maria Betânia Silva, Procuradora de Justiça

 

Um belo dia, Conjo foi convidado para voar para além da Linha do Equador, de novo. Ele aceitou o convite e se foi. Disse que como tinha destruído o gigante poderia passar um tempo descansando por lá.

Jornal GGN:
Boris Kossoy

do Coletivo Transforma MP

A fábula

por Maria Betânia Silva

Conta- se que num país abaixo da linha do Equador, cheio de petróleo, gás e muitas florestas habitava um homem chamado Conjo cuja voz era irritante e a mentalidade tosca.

Conjo gostava de usar capa preta e ora parecia juiz de altos Tribunais, ora super-herói, coisas que no lugar onde Conjo morava eram comuns e importantes.

Com sua capa, Conjo tinha uma enorme capacidade de voar e voava para onde queria. Voou muito para lugares acima da Linha do Equador onde aprendeu vários truques: um deles consistia em saber como destruir um gigante. Na terra natal de Conjo tinha um que era muito querido pelos habitantes. Mas Conjo não gostava dele porque ele era um gigante inteligente.

Na sua terra natal, Conjo se juntou a uns homens nanicos e, inspirado numa versão distorcida das Aventuras de Gulliver lançada na Itália, usando de alguns truques que aprendeu no Norte, enfrentou o gigante a fim de destruí- lo. Amarrou- o da cabeça aos pés e proibiu os habitantes do lugar que lhe dessem comida. Nessa época, os habitantes do lugar costumavam ter comida no prato e de vez em quando faziam oferendas ao gigante por não lhes haver pisoteado. Mas o gigante era muito, muito grande para comer essas oferendas como os habitantes queriam.

Entretanto, Conjo conseguiu destrui-lo, porque além de amarrá-lo, edificou uma gaiola imensa onde o gigante passou a viver sem ser visto, mesmo que os habitantes continuassem a fazer oferendas. Pouco a pouco, muitos habitantes foram convencidos pelo Conjo de q o gigante punha no lixo todas as oferendas que recebia e isso fez com que os habitantes ficassem chateados com o gigante.

Um belo dia, Conjo foi convidado para voar para além da Linha do Equador, de novo. Ele aceitou o convite e se foi. Disse que como tinha destruído o gigante poderia passar um tempo descansando por lá.

No lugar para onde Conjo voou, havia um homem já velho chamado Jobi, que conseguiu, depois de uma árdua batalha, vencer um homem muito mau chamado Laranja, e que adorava ver tudo pegando fogo. Laranja tinha a língua de dragão. Toda vez que abria a boca incendiava tudo ao seu redor. Aliás, Laranja era o ídolo de um outro homem que morava na terra de origem de Conjo e do gigante, que fora destruído.  Esse homem, chamado Boston, também gostava de tocar fogo em tudo, inclusive nas florestas. Boston não gostava de muitas coisas e por isso também não gostava das flores, dos bichos e das árvores, que, segundo ele, eram usadas para fabricar arco e flecha, hábito secular de um povo isolado que vivia nas florestas.

Boston conheceu Conjo mas eles se desentenderam porque Boston se disse flechado por Conjo e pensou que ele estava querendo ter amizade com os povos da floresta.

Esta é a história de Conjo até antes da partida dele.

Contudo, há quem que diga que quando Conjo chegou para morar no lugar onde vive Jobi, Jobi ficou sabendo e ao conhecer Conjo cuja fama, por haver destruído um gigante, era imensa, quis ter com ele uma conversa.

Conta- se que quando eles se conheceram Jobi teria feito um acordo com Conjo. Jobi teria dito que Conjo poderia voltar para o seu lugar de origem a fim de proteger as florestas. Conjo, então, perguntou o que ganharia com isso (ele era muito bom  em fazer negociação  que lhe trouxesse algum benefício mesmo que isso significasse o sacrifício de muitos ) e, Jobi, então, teria dito que o ajudaria a criar os filhos do gigante que ficaram sem pai, se ele assumisse o compromisso de não mais tocar fogo na floresta, coisa que os habitantes do lugar adorariam. Ao mesmo tempo, teria pedido para que Conjo não recuperasse as partes já devastadas pelo grande incêndio provocado por Boston. Jobi disse que tinha planos para usar a terra queimada como se fosse uma terra prometida, uma terra sagrada para salvar o futuro.

Conjo teria topado o acordo porque se sentiu prestigiado e além disso queria se vingar de Boston, já que este concorreu com ele pra destruir o gigante e  teve a simpatia de muita gente ao propor envenenar a comida do gigante.

É que Boston tinha dividido a população entre os queriam alimentar o gigante e os que queriam envenená-lo. E Conjo ficou com inveja dele porque destruir o gigante era objetivo seu.

De tudo que se conta sobre Conjo, o que se sabe até agora é que ele pensa ser um gigante ao Sul do Equador porque destruiu um. Diz- se que os habitantes do lugar já ouviram falar de Jobi e sabem que ele quer proteger a floresta. Mas não sabem ainda se entre Jobi e Conjo existe alguma amizade.

Maria Betânia Silva (em exercício literário) – Procuradora de Justiça aposentada – MPPE e membra do Coletivo Transforma – MP. DEAs com foco em Sociologia Política e Filosofia Política – Paris VII e EHESS, respectivamente. MSc. Em Práticas de Desenvolvimento – Brookes University – Oxford

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Sérgio Moro é sinônimo de traição nacional, afirma a jurista Carol Proner

 

"Moro foi absolutamente parcial nos processos nos quais atuou, em especial contra o ex-Presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores. Foi um agente. E esta constatação se alinha com o recente convite para ser consultor da empresa que administra os escombros da economia", diz a jurista Carol Proner

Ex-“herói” do Jornal Nacional vai defender nos EUA empresas que a própria Lava Jato quebrou

        Foto: Correio 24 horas/Reprodução


Do 247:

Ainda sob impacto das eleições municipais, quando o país busca decifrar o mapa das forças políticas pós segundo turno, um personagem surpreender uma vez mais pela capacidade de se reinventar e escapar dos crimes que cometeu contra país. Não falo do filho do Presidente ou mesmo dele próprio, mas do ex-juiz, do ex-ministro, agora advogado e consultor jurídico da própria empresa que ajudou a destruir. Sérgio Moro escandaliza novamente ao aparecer como consultor da Alvarez & Marsal, consultoria americana especializada em gestão de empresa e que atuará na recuperação judicial da Odebrecht.

Escandaliza para quem tem princípios, caráter. Mas, olhando o leque de opções do nefasto personagem, que sonhou com a Presidência da República, as saídas não eram tantas. A querida esposa Rô, cultivada nos círculos do Graciosa Country Club, em Curitiba, depois de circular entre vips no eixo Rio-São-Paulo-BSB, agora sofre de enxaquecas e ataques de pânico. E a carta na manga dos “States”, um prêmio de consolação ou uma válvula de escape, já estava no horizonte do excelentíssimo quando largou a carreira da magistratura. Esse efetivamente não é o maior problema. De um ponto de vista jurídico-político, a indignação diante da conduta sem escrúpulos não deve ser a única reação, mas sim o silêncio – das instituições, dos setores nacionalistas, da imprensa, do Supremo Tribunal Federal – que paira diante dos escombros provocados pela destruição da indústria da construção civil e da cadeia de óleo e gás provocada pela Lava Jato. O acobertamento ou a naturalização das ilegalidades cometidas por um punhado de procuradores que favoreceram os acordos de cooperação em matéria penal entre órgãos (públicos e privados) de outro país, por meio de relações obscuras e ilegais. Interesses que vêm sendo desvendados como imperialistas, para ir direto ao ponto. E um juiz que, como até capivaras do Lago Paranoá ou do Parque Barigui, na “República”, sabem, foi absolutamente parcial nos processos nos quais atuou, em especial contra o ex-Presidente Lula e o partido dos trabalhadores. Foi um agente. E esta constatação se alinha com o recente convite para ser consultor da empresa que administra os escombros, corroborando com o que todo mundo já sabe e que foi brilhantemente exposto no “Livro das Suspeições”, organizado por juristas do Grupo Prerrogativas.

Portanto, para além do corrompimento funcional, ético, biográfico de um personagem que vem de longe, dos tempos do Banestado, que foi treinado fora do país, para além das implicações de responsabilidade, o que a “lição Sérgio Moro” traz para o Brasil é a necessidade urgente de rever a forma como é feita a cooperação internacional em matéria penal na área do combate à corrupção. O que grita para nós é a forma como cedemos a nossa própria jurisdição à soberania de outro país, e os prejuízos bilionários que mal sabemos, pois permanecem em sigilo nos acordos de leniência. A França passou pelos mesmos problema e já está a caminho de rever a legislação de combate à corrupção para que não vulnere interesses soberanos. Outros países fazem o mesmo. E o Brasil? Ou estamos seguros de que não existirão outros Moros e Dallagnolls em nosso caminho? Ou achamos que efetivamente os EEUU são a polícia neutra do mundo? 

O resgate da soberania também significa evitar a extraterritorialidade em matéria de combate à corrupção. Nossos problemas devem ser resolvidos internamente, pelas nossas instituições, pelo sistema de justiça funcionando com respeito à legalidade, sem arroubos de autonomia ilimitada e em consonância com as garantias legais e o devido processo. Sérgio Moro já é sinônimo de traição nacional e isso nem ele próprio faz questão de esconder.

domingo, 22 de novembro de 2020

Xadrez dos arquivos da Lava Jato e a segunda morte do mito Moro. por Luis Nassif

  

Jornal GGN:




Sérgio Moro não é um jurista. Mal domina o idioma pátrio. Não conhece a legislação internacional de mineração. Sua presença em um processo, como parecerista, poderia sensibilizar procuradores e juízes nacionais, jamais um juiz de outro país.


Qual seria o motivo, então, para receber US$ 150 mil por um mero parecer? No final da vida, o ex-Ministro Saulo Ramos, um dos mais caros pareceristas brasileiros, cobrava US$ 100 mil por parecer. E justificava o alto preço com o argumento de que não gostava de dar pareceres e quero restringir sua contratação. Fazia não mais que quatro pareceres por ano.


É o tema do nosso Xadrez.

Peça 1 – a indústria anticorrupção e o compliance


Em várias oportunidades, descrevemos, aqui, a hipocrisia da indústria da anticorrupção e os riscos da utilização indevida dos arquivos da Lava Jato para disputas empresariais. Principalmente quando os ex-membros passassem a trilhar a carreira de advogados.

Há dois caminhos óbvios, fartamente explicados pela GGN em várias oportunidades.


Um deles seria a venda de serviços baseada na rede de conhecimentos com procuradores da ativa, nacionais e i

nternacionais.

Esse processo foi detalhado no post “O negócio da Lava Jato com a indústria da anticorrupção”, de 22.05.2019.

Esse caminho já tinha sido trilhado por ex-procuradores suíços ligados à lava jato, conforme detalhado em “PGR suíço é acusado de conluio com a Lava Jato”, com base em reportagens dos jornais NZZ e da Swissinfo. O PGR Michel Lauber foi acusado de reuniões informais, não documentadas, com representantes da FIFA e da Lava Jato.

“Um pouco antes, Lauber foi acusado de irregularidades, também por reuniões sigilosas no caso FIFA. A corregedoria do MP suíço abriu uma investigação disciplinar para apurar essas reuniões entre Lauber e o presidente da FIFA, Gianni Infantino. Lauber admitiu as reuniões e alegou que visavam ajudar no avanço das investigações.

Em relação à Petrobras, argumentou que as investigações não poderiam ser tocadas de modo eficiente sem as conversas informais.

Com as denúncias, Lauder corre o risco de não ser reconduzido ao cargo”.


De fato, não foi.

Na reportagem “A Lava Jato suíças também a caminho do banco de réus” conta, com base em reportagem do Financial Times, que o governo suíço nomeou um promotor especial para analisar acusações criminais contra o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e Michel Lauber.

Segundo a reportagem,



“Segundo e-mails vazados, Infantino tinha interesse que Lauber suspendesse investigações sobre sua conduta enquanto diretor de assuntos jurídicos da UEFA, a confederação de futebol da Europa. 

As investigações sobre Lauder se estenderam também sobre outros casos de corrupção, incluindo a Leva Jato e as contas da Odebrecht. E um terceiro escândalo surgiu com as posições aparentemente simpática de Lauder em relação a Moscou”.

Antes disso, o principal procurador suíço na Lava Jato, Stefan Lenz, abriu um escritório de advocacia e passou a oferecer serviços a clientes brasileiros. Na home do escritório, havia oferta clara de contatos com colegas no mundo todo.

Contatos internacionais

Como Promotor Público Federal eu estabeleci contatos importantes com responsáveis pela persecução penal em todo o mundo, especialmente na Europa, nos Estados Unidos da América, na América do Sul e na América Central.

Outros contatos valiosos são aqueles com importantes representantes das autoridades de investigação do Banco Mundial e do Banco Europeu de Desenvolvimento.



Recém-demitido da procuradoria suíça, Lenz recebeu uma proposta de trabalho do então Procurador Geral Rodrigo Janot, tratando Lenz como “cérebro suíço” da Lava Jato.

Peça 2 – a indústria anticorrupção e as guerras empresariais


O principal produto oferecido por ex-juizes e ex-procuradores, no entanto, não era apenas o contato com ex-colegas para abrandar investigações, mas participar diretamente das grandes disputas empresariais. E o principal cliente passaram a ser empresas com histórico de corrupção.

A lógica é simples. A ficha suja é um elemento negativo, com influência na sentença final. Trata-se, então, de levantar acusações contra o adversário para igualar o jogo.

Foi o que carreira na reportagem “Caso Eldorado expõe os negócios obscuros da indústria da anticorrupção”. Foi o caso de Josimar Verillo, empresário que participou da criação de uma ONG destinada a coibir abusos em prefeituras do interior. Nessa condição tornou-se parceiro da versão brasileira da Transparência Internacional – uma das principais aliadas da Lava Jato na mal-sucedida tentativa de criar a fundação de R$ 2,5 bilhões.

Nessa condição, Verillo foi contratado pela Paper Excelente, do grupo indonésio Asia Pulp & Paper, envolta em sem-número de denúncias de corrupção, em uma disputa com a JB&S em relação ao controle da Eldorado, fábrica de papel.

Na reportagem, mostrava a estratégia dos indonésios. Era um grupo com extensas ligações com fornecedores de madeira ligados a incêndios e degradação ambiental. Em 2010, em um desses julgamentos, contratou como lobista uma firma de relações públicas dirigida por um ex-ativista do Greenpeace.

Verillo foi flagrado financiando uma edição especial de um livro com acusações à JBS. Sua filha ocupa cargo relevante na Transparência Internacional.

Peça 3 – o uso dos arquivos das Lava Jato


A contratação de Sérgio Moro para o caso Beny Steinmetz x Vale reforça a ideia da repetição da estratégia do grupo indonésio. E aí se entende a preocupação do Procurador Geral da República Augusto Aras de compartilhar o conteúdo dos arquivos da Lava Jato, para evitar que sejam utilizados por ex-procuradores e ex-juizes em disputas comerciais.

Conforme relatei no pot “A briga de narrativas entre a Lava Jato e a PGR


“Não tem sentido a explicação da Lava Jato Curitiba, de que o compartilhamento de banco de dados pode permitir vazamentos e uso indevido para achaque. O risco maior é o do controle absoluto de um grupo sobre o banco de dados, sem nenhuma espécie de supervisão externa – nem de suas chefias”.

E aí chegamos ao busílis do caso Sérgio Moro. Conforme a bela reportagem de Cintia Alves na edição de ontem do GGN – “Moro trabalha para bilionário israelense investigado por corrupção na Suíça e nos EUA” – Benny Steinmetz está envolvido em corrupção na Guiné e com ameaça de prisão em quatro países. Consta que mora em um Boeing dele, para não ser preso em suas viagens.

Anos atrás, a Vale se associou a ele, tentando ampliar sua penetração na África. Descobriu-se, depois, que as minas de Steinmetz tinham sido conquistados mediante suborno ao ex-presidente da Guiné.



A Vale alegou que fora enganada pela empresa parceira e abriu uma disputa judicial em Londres, onde obteve, em 2019, uma vitória: sentença a favor de uma indenização de 2 bilhões de dólares. Steinmetz tenta, agora, reverter a sentença. É aí que entra Sérgio Moro.

Sua contratação por US$ 150 mil visa dois objetivos:

1. Valer-se das informações sobre a Vale, que constam dos arquivos da Lava Jato.

2. Aproveitar a penetração de Moro na imprensa para repetir a dobradinha acrítica ocorrida com a Lava Jato.

Peça 4 – a Lava Jato e a Vale


Em 2014 o governo da Guiné mandou cassar a concessão de Steinmetz, acusando-o de corrupção. Em 2008 ele pagou US$ 170 milhões para conseguir explorar a mina de Simandu. 18 meses depois, revendeu 51$ para a Vale por US$ 2,5 bilhões. Tempos depois, foi acusado de tentar subornado a viúva co ex-presidente da Guiné, Lansana Conté, por US$ 8 milhões, e US$ 200 milhões ao então Ministro das Minas e energia Mahmoud Thiam.

Simandu era considerada a “Carajás africana”.


Foram abertos dois processos bilionários em torno do tema:

1. Da Vale, tentando conseguir a indenização de US$ 2 bilhões.

2. Da Rio Tinto tentando provar que a Vale sabia da corrupção e que, portanto, a exploração da mina deveria ser transferida para ela.


Segundo reportagem de O Globo,

“No documento protocolado na Justiça americana, de 50 páginas, a Rio Tinto descreve conversas que teriam sido realizadas entre executivos da companhia e da rival brasileira entre 2008 e 2009, quando Roger Agnelli ainda estava à frente da Vale.

Nessas conversas, a Rio Tinto teria fornecido à Vale informações confidenciais relativas a Simandou, na confiança de que a empresa “as trataria com discrição” com o objetivo de avaliar uma possível parceria entre as duas gigantes da mineração na Guiné. A Rio Tinto havia adquirido os direitos de exploração de Simandou em 2006. Hoje, é sócia da chinesa Chinalco no país.

Até agora, o principal instrumento para tentar vincular a Vale à Lava Jato é o site Notícias da Mineração. Já veiculou matérias tentando ligar executivos da Andrade Gutierrez à Vale, e também executivos da Camargo Correia. É um jogo malicioso porque ambos foram depor na condição de representantes das empreiteiras junto à Petrobras. Mas a insistência em ligá-los à Vale mostra claramente a estratégia de defesa de Steinmetz.

Agora, troca-se o mensageiro: em vez do desconhecido “Notícias da Mineração”, o ex-juiz que comandou a Lava Jato. É por aí que deverá se desdobrar o tal parecer de Sérgio Moro.

Peça 5 – como matar dois coelhos com uma só cajadada

Com o parecer contratado de Sérgio Moro, matam-se dois coelhos com uma só cajadada


1. O mega-corrupto Steinmetz, capaz de deixar no chinelo qualquer corruptor brasileiro, ganha um argumento forte contra a Vale.

2. Liquida-se definitivamente com a imagem da Lava Jato, depois do segundo suicídio de Moro – o primeiro foi ter aceitado o cargo de Ministro da Justiça do presidente que ele ajudou a eleger.

Fica óbvio, agora, as sucessivas homenagens que Moro recebeu nos salões da plutocracia internacional.


Parafraseando Paulo Vanzolini, US$ 150 mil francamente foi barato.


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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Contra a Democracia, a luta corrupta "contra a corrupção" dos que não são neoliberais. Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais



É interessante notar (e também lamentar) que sempre que uma determinada forma de “luta contra a corrupção” toma corpo na história republicana do Brasil, acaba-se com a república, mas nunca com a corrupção. A corrupção, aliás, parece se aprofundar.

A luta corrupta contra a corrupção

Do site Justificando:


Terça-feira, 11 de agosto de 2020

A luta corrupta contra a corrupção

Imagem: Fotógrafo/Agência


Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

É interessante notar (e também lamentar) que sempre que uma determinada forma de “luta contra a corrupção” toma corpo na história republicana do Brasil, acaba-se com a república, mas nunca com a corrupção. A corrupção, aliás, parece se aprofundar.


E digo que “parece se aprofundar” porque os períodos que se seguem ao suposto “triunfo da lei” contra o “lamaçal da corrupção” são marcados pela ausência de transparência. Com isso, não seria prudente afirmar, de modo categórico, que a corrupção se aprofunda. Mas deixemos o “parecer” de lado, ao menos por enquanto. Examinemos, um pouco, alguns elementos cíclicos de nossa história mais ou menos recente. E quando digo cíclico é porque a “luta contra a corrupção” segue um padrão mais ou menos preestabelecido. Embora a noção cíclica da história tenha caído em desuso, cedendo a uma concepção progressista das famosas “linhas do tempo”, uma análise dos loopingshistórico-temporais podem apontar que o “legado” lavajatista não será nada além de um vácuo, apropriável pelo que se tem de pior na arena política. 

Antes de continuar o texto, gostaria de salientar que as incoerências apontadas nas formas corruptas de combate à corrupção não podem levar à falsa crença de que não se deve combater a corrupção. A tentativa de usurpação da coisa pública merece a repressão estatal. Por outro lado, faz parte do apontado “ciclo da corrupção” que a luta contra a corrupção assuma tonalidades hipócritas (para se dizer o mínimo), criando uma aura angelical em torno de indivíduos que corrompem a lei e esfacelam as instituições para “acabar com a corrupção”. E o mais trágico deste processo está no fato de que, quase sempre(e eu enfatizo o “quase sempre”), aqueles que menos sofrem com a degradação institucional cíclica são aqueles que provocaram este processo. 

De forma bastante resumida, eu descreveria o “ciclo do combate corrupto à corrupção” da seguinte forma: 1) inicialmente surgem certos fatos que, de efetivamente, podem ser classificados como atos de corrupção; 2) a partir disso, algumas vozes de uma suposta e elevada retidão moral passam a denunciar estas formas de corrupção como sendo sistêmicas; 3) os “arautos da moralidade”, tomados pela vontade de se apropriar de uma fatia do poder político, começam a dar eco a estas vozes; 4) este eco ganha uma força social, passando a intimidar a institucionalidade para que ela chancele este embate, o que leva a uma fratura da institucionalidade; 5) com o esfacelamento institucional e o fantasma da “corrupção sistêmica” a espreita, a sociedade se volta a uma saída messiânica associada a um “conservadorismo” pouco inteligente, nada empático e deliberadamente cego. A partir daí, o que resta de institucionalidade fica à mercê “de um soldado e um cabo”. 

Quanto à primeira parte do ciclo, os exemplos históricos se multiplicam.  Como aponta Wanderley dos Santos, em A democracia impedida, “A denúncia de corrupção sistêmica, outra coincidência propagandística associada a um e outro golpe, acompanha na verdade a política conservadora brasileira desde o retorno de Getúlio Vargas ao governo, em 1951, em vitória de eleições tão limpas quanto conseguiam sê-las nos anos 50”. Após um atentado frustrado à vida de Carlos Lacerda, a Força Aérea abre um inquérito militar para investigar este ato, conduzindo-o a partir de uma instância denominada “República do Galeão”. 

Neste momento, as vozes udenistas vociferavam moralidade, abrindo mão da soberania nacional sem qualquer pudor. Pedia-se ajuda aos EUA para resolver a situação. Dizia-se que o país se afundava em um mar de lama. A moralidade estava constantemente a serviço de um conservadorismo derrotado eleitoralmente. Paradoxalmente, um inquérito militar levou à intimidação de civis. Oficiais de alta patente demandaram a renúncia do presidente. O presidente perde a vida. Se havia ou não corrupção, nunca se descobriu. Mas o que havia de institucionalidade, começa a se corroer. 
Um outro exemplo do início do ciclo, com uma forte essência udenista, se deu com Aécio Neves. Este, denunciando a corrupção sistêmica do governo federal, se negava a aceitar uma derrota eleitoral. Enquanto pedia a recontagem dos votos, associava-se a nomes conhecidos da “República de Curitiba”. E claro, é impossível compreender esta trama sem fazer menção à Vaza Jato. Sob o pretexto de combate à corrupção, os arautos da moralidade trocavam informações com os EUA (soa familiar?), afrontavam a institucionalidade ao intimidarem as instâncias superiores e insuflavam a população contra o STF, seja por manifestações, seja por jejuns religiosos. Em suma, corrompiam para (supostamente) combater a corrupção. 

E se em 64 Lacerda não teve qualquer pudor em colocar toda a institucionalidade nas mãos dos militares na esperança de sair vencedor nas próximas eleições, o mesmo se deu com Aécio. Aécio, frustrada a tese da “fraude eleitoral”, resolveu dar eco ao combate à corrupção, colocando a sua integridade a prova em um processo de impedimento. Vale ressaltar que nem sua integridade nem a institucionalidade sobreviveram. Moro também fez parte deste processo de corrosão. Diria que ele já vem colhendo os frutos de sua integridade abalada. No entanto, ainda é um pouco cedo para futurologias. Sabemos como os udenistas e os militares corromperam a institucionalidade em 64. Mas e hoje?

Descreveria que não há (ainda) algo como os atos institucionais. No entanto, a sociedade já vem fazendo as suas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Não sei se Deus está lá. Muito menos a liberdade. Mas sim, há uma estética fascista. Há um forte messianismo (“a culpa não é minha, eu votei no Aécio”; “somos todos cunha”; “fechados com Bolsonaro”). Há um conservadorismo pouco inteligente (afinal, não se pode dizer que arriscar a própria vida em meio à pandemia seja uma atitude lá muito genial). Há uma total ausência de empatia. Há uma cegueira deliberada (não importam as ligações com as milícias, com esquadrões da morte, com esquemas de desvio de dinheiro público).  Quanto à ausência dos atos institucionais, acredito que eles não existem formalmente. No entanto, os milicianos que compõem governo já vêm evidenciando o que pensam da institucionalidade, principalmente quando se negam a aceitar “julgamentos políticos” (o que não fizeram quando Collor e Dilma eram Presidentes). 

Quando enumerei os pontos do ciclo da corrupção, mencionei que ao final a corrupção se aprofunda. Pois bem. Deixemos de lado a questão do Regime Militar de 64 (hoje em dia é importante especificar de qual regime falamos, pois podemos estar nos referindo do Regime Militar de 19). Já existem muitos estudos sobre os escândalos de corrupção neste período ditatorial, escândalos que a cegueira deliberada de alguns não os permitem ver. Não existem mais estudos porque ocorreram “queimas de arquivo”. No entanto, como ainda resta alguma publicidade no que diz respeito aos atos do atual governo e alguns vazamentos a jato, vemos o que não queremos: os “paladinos da moralidade” corromperam para acabar com a corrupção. 

Interessante paradoxo: a corrupção está na luta contra a corrupção. Há uma forte semelhança com a anedota do filho que questiona o pai sobre pena de morte. Diz o filho: “pai, se matarmos todos os bandidos, o mundo seria melhor?”. O pai responde: “provavelmente não meu filho, já que sobrariam só os assassinos”. 

Mas o que isso quer dizer? Para esta pergunta apenas tenho algumas pistas. Um juiz acertar a ordem de operações policiais midiáticas com o órgão de acusação é um ato de corrupção. Um procurador da república ocultar uma cooperação internacional e recusar que a cúpula de sua instituição tenha acesso a dados investigativos são atos de corrupção. Um juiz opinar sobre a capacidade de uma procuradora em proceder interrogatórios e sugerir a sua troca é um ato de corrupção. Um juiz vazar conversas sigilosas é um ato de corrupção. Um juiz compor um governo que ele ajudou a eleger ferindo a lei é um ato de corrupção. A grande mídia defender que o lavajatismo avançou no combate à corrupção, desconsiderando os atos de corrupção deste “movimento”, é um ato de corrupção. 

Sobre o atual governo e sua “luta contra a corrupção”, acho que os seus atos falam por si, assim como dos 30% de cegos deliberados existentes no que sobrou da 6ª República.


Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.