Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papa Francisco. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética, por Dora Incontri

 


Escolho hoje para falar do trecho de entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”.


Jornal GGN:


    screenshot


Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética

por Dora Incontri

Correm na internet incontáveis textos, frases, entrevistas, sermões, manifestações do já saudoso Papa Francisco e que devem ressoar (assim esperamos) por muitos anos, para iluminar caminhos neste mundo tão cheio de sombras. Escolho hoje para falar do trecho de uma entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”. No final deste texto, direi por que escolhi tratar este tema.

Quando me formei em Jornalismo, na Cásper Líbero, no início dos anos 80, já recusei de saída um cobiçadíssimo emprego na maior revista brasileira, porque via como a mídia corporativa cometia o primeiro pecado apontado por Francisco: a desinformação. Ele se refere a dar uma notícia pela metade, omitir informações. E para que isso? Para manipular, para direcionar o leitor aos interesses defendidos pela linha editorial do órgão em questão. Um exemplo bem concreto nos últimos dias: os grandes veículos de comunicação, que nem é preciso mencionar, não puderam escapar, por conta da repercussão, de noticiar a greve de fome de Glauber Braga, contra o seu pedido de cassação do mantado de deputado. Mas, como davam a notícia? Que ele havia agredido o representante do MBL. Mas não diziam o motivo: que esse sujeito o estava assediando há tempos, com ofensas pessoais à sua mãe, naquele momento no leito de morte. Essa parte da história não aparecia. A manipulação contribuiu para o resultado, por enquanto negativo, da reversão da cassação.

O segundo mal da mídia é a calúnia. Gravíssima, desumana e crime previsto no Código Penal. Lançada tantas vezes com objetivos de destruição de alguma pessoa pública ou mesmo apenas para vender o jornal, o canal ou angariar mais likes. Mesmo se houver desmentido, mesmo se houver processo, demorado, o estrago já foi feito, às vezes até com o suicídio do caluniado.

Como terceira infração à ética jornalística, Papa Francisco aponta a difamação. Ele cita como exemplo, pessoas que tiveram algum deslize no passado e já pagaram por isso, e que têm direito a uma imagem sem mancha, mas a mídia não perdoa. Podemos estender isso para exemplos de divulgação de notícias que prejudicam a vida e a imagem de alguém, sem nenhuma necessidade, apenas, mais uma vez, por motivos sórdidos de lucro.

E por fim, Francisco evoca a cropofilia e traduz com graça: amor ao cocô. É o prazer mórbido e comercial de publicar escândalos, crimes sangrentos, notícias sujas, verdadeiras ou não. No meu tempo de faculdade, isso se chamava imprensa marrom. Mas hoje, mesmo grandes veículos de comunicação que se arrogam seriedade e, às vezes até se propõem como de esquerda, cometem esse pecado repulsivo.

O leitor, o ouvinte, a massa que não sabe se orientar no meio de tantos desvios, fica à mercê da manipulação desses órgãos. E assim, pessoas têm reputações assassinadas, entre calúnias, difamações ou meias verdades. Factóides são criados, lawfares são perpetrados, com o apoio irrestrito dessa mídia tão “pecadora”, nos termos do querido Francisco. E o povo é inclinado aos ventos políticos opressores, de extrema direita, que desatendem suas reais necessidades.

Dedico esse texto ao meu grande amigo Alysson Leandro Mascaro. O vídeo do Papa lhe foi enviado, com o seguinte comentário: “Você tem sido alvo desses quatro males. Mas há de superar.” Assino embaixo. Quem quiser saber mais, assista à entrevista de Alysson Mascaro ao 247, publicada no dia 25 de abril último.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

O Papa Francisco e a Literatura, por Urariano Mota

 

O fim não é exatamente o último segundo do viço da orquídea. O fim não é nem mesmo a destruição feita pela bomba atômica. Nós seremos os grãos de pó que escreveram estes dias.


Do Jornal GGN:

    Foto: Vatican News


O Papa Francisco e a Literatura

por Urariano Mota

Li há pouco a notícia de um prefácio muito bem escrito do Papa Francisco para um livro do Cardeal Angelo Scola. Texto belo e fecundo, que eu aproximo à literatura. Nele, eu li que “a morte não é o fim de tudo”. Que o livro tem páginas que saíram “do pensamento e do afeto”, como o Papa diz.  Agora olhem que feliz coincidência. No romance “A mais longa duração da juventude”, escrevi:

“Nada passou nem ficou sepultado. Então vem, e vejo agora que a sobrevivência do acontecimento não é uma revolta romântica. Nem uma luta quixotesca e inglória contra a morte. O fim,  o tudo acaba não é a dissolução de tudo. O fim não é exatamente o último segundo do viço da orquídea. O fim não é nem mesmo a destruição feita pela bomba atômica. Nós seremos os grãos de pó que escreveram estes dias”. 

Vocês veem que aquela reflexão teológica do Papa termina por se confundir com a visão da matéria da nossa luta, que sobrevive à força da arte, da ciência e da literatura, que vai além dos nossos dias.

https://www.facebook.com/reel/1864087407775000

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Leonardo Boff: O papa Francisco não é ou foi um nome, mas um projeto de Igreja

 


Com sua conclamação em favor dos empobrecidos e sua crítica corajosa ao sistema que produz morte, Francisco compareceu como líder religioso e político.

 Segue o texto de Leonardo Boff, publicado no ICL Notícias:

COLUNISTAS ICL

Boff: O papa Francisco não é um nome, mas um projeto de Igreja



Todo ponto de vista é a vista de um ponto, afirmei certa vez. O meu ponto de vista acerca do papa Francisco é aquele latino-americano. O próprio papa Francisco se apresentou como “aquele que vem do fim do mundo”, isto é, da Argentina, do extremo Sul do mundo. Este fato não é sem relevância, pois nos oferece uma leitura diversa de outras, de outros pontos de vista.

A escolha do nome Francisco, sem antecedentes, não é fortuita. Francisco de Assis representa um outro projeto de Igreja cuja centralidade residia no Jesus histórico, pobre, amigo dos desprezados e humilhados como os hansenianos com os quais foi morar.

Pois esta é a perspectiva assumida por Bergoglio ao ser eleito papa. Quer uma Igreja pobre para os pobres. Consequentemente, despoja-se das vestes honoríficas, que vem da tradição dos imperadores romanos, bem representadas pela mozzeta (aquela capinha branca ornada de joias), símbolo do poder absoluto dos imperadores e incorporada às vestimentas papais. Recusou-a e a deu ao secretário com recordação. Veste um simples manto branco com a cruz de ferro que sempre usou.

Viveu na maior simplicidade (o papa não veste Prada) e, sem cerimônia, quebrou ritos para poder estar perto dos fiéis. Isso seguramente escandalizou a muitos da velha cristandade europeia, acostumada à pompa e à glória das vestimentas papais e, em geral, dos prelados da Igreja. Cabe recordar que tais tradições remontam aos imperadores romanos, mas que não têm nada a ver com o pobre artesão e camponês mediterrâneo de Nazaré. Surpreendentemente apresenta-se, primeiro com bispo local, de Roma. Depois, como papa para animar a Igreja universal e, como enfatizou, não com o direito canônico, mas com o amor.

Escolheu o nome Francisco porque São Francisco de Assis é o “exemplo por excelência do cuidado e por uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade (“Laudato Sí“, n.10) e que chamava a todos os seres com o doce nome de irmão e de irmã. Não quis morar num palácio pontifício, mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Comia na fila como todos os demais e, com humor, comentava: “Assim é mais difícil que me envenenem”.

A centralidade de sua missão foi colocada na preferência e cuidado dos pobres especialmente dos migrantes. Disse com honradez: “Vocês europeus estiveram primeiro lá, ocuparam suas terras e riquezas e foram bem recebidos. Agora eles estão aqui e não estão dispostos a recebê-los.” Com tristeza, constata globalização da indiferença.

Pela primeira vez na história do papado, o papa Francisco recebeu, por várias vezes, os movimentos sociais mundiais. Via neles a esperança de um futuro para a Terra, porque a tratam com cuidado, cultivam a agroecologia, vivem uma democracia popular e participativa. Repetiu-lhes muitas vezes o direito que lhes é negado, os famosos três Ts: Terra, Teto e Trabalho. Devem começar de lá onde estão: na região, pois aí se pode construir uma comunidade sustentável. Com isso legitimou todo um movimento mundial, o biorregionalismo, como forma de superação da exploração e da acumulação de poucos e com mais participação e justiça social para muitos.

Foi neste contexto que escreveu duas extraordinárias encíclicas: “Laudato sì: sobre o cuidado da casa comum” (2020), de uma ecologia integral que implica o meio ambiente, a política, a economia, a cultura, a vida cotidiana e a espiritualidade ecológica. Na outra, na “Fratelli tutti” (2025), face à degradação generalizada dos ecossistemas, faz a severa advertência:”estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva” (n.34).

Com estes textos, Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica mundial que vai além da simples ecologia verde e de outras formas de produção sem nunca questionar o sistema capitalista que, por sua lógica, cria acumulação de um lado às custas da exploração do outro, das grandes maiorias.

O papa Francisco vem da Teologia da Libertação de vertente argentina, que enfatiza a opressão do povo e o silenciamento da cultura popular. Foi discípulo do teólogo da libertação Juan Carlos Scannone, mencionado num rodapé da “Laudato Sí”. Já como estudante e inspirado nesta teologia, fez para si uma promessa: de toda semana fazer, sozinho, uma visita às favelas (“vilas miseria”). Entrava nas casas, informava-se dos problemas dos pobres e suscitava esperança em todos.

Durante anos levou uma polêmica com o governo que fazia assistencialismo e paternalismo como políticas do estado. Reclamava dizendo: “Assim jamais se tirará os pobres da dependência. O que precisamos é de justiça social, raiz da real libertação dos pobres”. Em solidariedade para com os pobres, vivia num pequeno apartamento, cozinhava sua comida, buscava seu jornal. Recusou viver no palácio e usar o carro especial.

Esta inspiração libertadora iluminou o modelo de Igreja que se dispôs a construir. Não uma Igreja fechada tal qual um castelo, imaginando-a cercada de inimigos por todos os lados, vindos da modernidade com suas conquistas e liberdades. A esta Igreja fechada opôs uma Igreja em saída rumo às carências existenciais, uma Igreja como hospital de campanha que acolhe a todos os feridos, sem lhes perguntar a tendência sexual, a religião ou ideologia: basta serem humanos necessitados.

Papa Francisco não se apresenta como um doutor da fé, mas como um pastor que acompanha os fiéis. Pede aos pastores que tenham cheiro de ovelhas, tal a sua proximidade e compromisso com os fiéis, exercendo a pastoral da ternura e da amorosidade.

Talvez nenhum papa na história da Igreja mostrou tanta coragem quanto ele ao criticar o sistema vigente que mata e que produz duas ferozes injustiças: a injustiça ecológica, devastando os ecossistemas e a injustiça social, explorando até o sangue a humanidade. Nunca na história houve tanta acumulação de riqueza em poucas mãos. Oito pessoas individualmente possuem mais riqueza que 4,7 bilhões de pessoas. É um crime que brada ao céu, ofende o Criador e sacrifica seus filhos e filhas.

Como pastor, mais do que como doutor, sua mensagem é fundada especialmente no Jesus histórico, amigo dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e dos oprimidos. Foi assassinado na cruz por um duplo processo, um religioso (ofensas à religião da época e sua afirmação de sentir-se de Filho de Deus) e outro político, pelas forças de ocupação romana.

Não colocava muito o acento nas doutrinas, nos dogmas e nos ritos que sempre respeitou, pois reconhecia que com tais coisas não se chega ao coração humano. Para isso precisa-se de amor, de ternura e misericórdia. Disse, certa feita, uma das frases mais importantes de seu magistério: “Cristo veio nos ensinar a viver: o amor incondicional, a solidariedade,a compaixão e o perdão, valores que compõe o projeto do Pai que é o cerne do anúncio  de Jesus: o Reino de Deus”. Prefere um ateu sensível à justiça social que um fiel que frequenta a igreja mas não tem um olhar para o semelhante sofredor.

Tema recorrente em suas pregações é o da misericórdia. Para o papa Francisco, a misericórdia é essencial. A condenação é só para este mundo. Deus não pode perder nenhum filho ou filha que criou no amor. A misericórdia vence a justiça e ninguém pode impor algum limite à misericórdia divina. Alertava os pregadores o que se fez durante séculos: pregar o medo e infundir pavor do inferno. Todos, por piores que tenham sido, estão sob o arco-íris da graça e da misericórdia divina.

Logicamente, nem tudo vale nesse mundo. Mas os que viveram uma vida sacrificando outras vidas e pouco se importando ou até negando Deus, passarão pela clínica curadora da graça, na qual reconhecerão suas maldades e aprenderão o que é o amor, o perdão e a misericórdia. Só então a clínica de Deus, que não é a ante-sala do inferno, mas a antessala do céu, se abrirá para que participem também eles das promessas divinas.

Com sua conclamação em favor dos empobrecidos, com sua crítica corajosa ao sistema vigente que produz morte e ameaça as bases ecológicas que sustentam a vida, por seu apaixonado amor e cuidado da natureza e da Casa Comum, pelos incansáveis esforços para mediar guerras em função da paz, emergiu com um grande profeta que anunciou e denunciou, mas sempre suscitando a esperança de que podemos construir um mundo diferente e melhor. Com isso compareceu como um líder religioso e político respeitado e admirado por todos.

Inesquecível é a imagem de um papa caminhando solitário sob chuva fina, na praça de São Pedro em direção da capela de orações para que Deus poupasse a humanidade do coronavírus e tivesse misericórdia dos mais vulneráveis.

O Papa Francisco honra a humanidade e ficará na memória como uma pessoa santa, amável, carinhosa e extremamente humana. É por causa de figuras assim que Deus ainda se tem apiedado de nossas maldades e loucuras e nos mantém vivos sobre esse pequeno e belo planeta.




Bob Fernandes: Deus! O papa Francisco morreu, Bolsonaro está na UTI dando entrevista e tuitando e Trump, com saúde, tarifando o mundo!

 

Do Canal do analista político Bob Fernandes:


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

O Papa Francisco e a esperança, por Dora Incontri

 

Ele trouxe a esperança de renovação religiosa e política, com seu exemplo, com suas ideias e com sua forma única de exercer o papado.



O Papa Francisco e a esperança

por Dora Incontri

Não quero de forma alguma caracterizar esse texto como um tributo que anuncia a morte de uma grande liderança mundial, o Papa Francisco, que de fato apresenta por esses dias um estado delicado de saúde. Ele está internado com pneumonia dupla. Quero, queremos muitos, que consiga superar esse momento, porque precisamos de sua presença no mundo.

É que estou quase terminando a leitura de seu livro Esperança, a autobiografia. Minha apreciação já começa com o título peculiar. Significativo que o subtítulo é a autobiografia, como se sua vida fosse uma nota de rodapé, submetida ao compromisso da esperança, um ensaio constante de esperançar – para usar um verbo caro a Paulo Freire.

É verdade que a vida de Giorgio Bergoglio trouxe por si mesma a esperança de renovação religiosa e política, com seu exemplo, com suas ideias e finalmente com sua forma única, simples e transformadora de exercer o papado. Lembremos que a instituição do papado levou à divisão da Igreja do Ocidente e do Oriente, provocou a ruptura da Reforma protestante e representou ao longo da história um lugar de poder desmedido, de imposições e perseguições, de corrupção e luxúria. O anarquista e espírita Maurice Lachâtre se deu ao trabalho, no século XIX, de escrever milhares de páginas de horrores em seu livro Crimes e história dos Papas.

No início deste século XXI, a Igreja tinha atravessado o retrocesso de Papas conservadores (João Paulo II e Bento XVI), quando surge a figura leve, aberta, amorosa e simples do Papa Francisco, um papa que transpôs os limites da Igreja Católica, para ser amado e admirado por pessoas de outras religiões ou mesmo sem religião. Prova disso é que estou aqui escrevendo esse texto em sua homenagem, sendo espírita kardecista, e, portanto, completamente desconectada da tradição do papado.

Giorgio chegou ao Vaticano e já evocou o que houve de mais luminoso e autenticamente cristão em toda a história da Igreja Católica: Francisco de Assis. Sendo jesuíta, mas tendo adotado o nome de Papa Francisco, (pela primeira vez na história da Igreja) já anunciava que seu compromisso seria de despojamento, de renúncia ao culto pessoal, de conexão com a natureza, de compaixão para com todos os excluídos e de disposição de diálogo com religiosos de todos os matizes e não religiosos de todos os rincões.

Começou por abolir os rituais de submissão pessoal: beija-mão, ajoelhar-se diante dele, tapete vermelho, vestimenta de púrpura, assento em trono, moradia em palácio.… Simplificou tudo, despojou-se de formalismos, como convém a alguém que esteja inspirado pelo exemplo de Francisco de Assis.

Depois, partiu para o diálogo com o mundo. Abriu-se para lideranças religiosas e políticas de todo o planeta, procurando estabelecer vínculos fraternos, cheios de respeito e proposta de cooperação universal, para salvar a Terra, para acabar com a guerra, para proteger os vulneráveis.

A sua história de vida, tão saborosamente retratada nesta Autobiografia, explica muito de sua postura humana e humanista. É de uma família de imigrantes italianos, por todos os lados (aliás como a minha, e essa ressonância produz intensas emoções nesta leitura). As circunstâncias da imigração e as lutas intensas semelhantes na Argentina e no Brasil, nas primeiras décadas do século XX deixaram nele marcas profundas. O interessante que, ao contrário de muitos italianos que já estavam radicados por aqui quando da ascensão do fascismo e, de longe, aderiram entusiasticamente ao Duce, a família de Bergoglio saiu da Itália em oposição a essa tomada de poder pela extrema direita. O menino foi criado de maneira simples, pobre, num catolicismo popular, mas com espírito crítico. Essa sua ascendência fez dele um defensor engajado dos refugiados, dos imigrantes, dos que enfrentam a fuga das guerras, da fome, das violências políticas, com tanta resistência de acolhimento por parte dos países mais ricos.

O que transparece na obra toda em que narra a sua vida é a profunda conexão com o mundo e seus problemas, com o momento histórico e suas tragédias globais. Isso vem também de sua inserção cultural. Leitor de boa literatura, amante da música, ligado ao cinema de arte – ou seja, uma erudição que não é apenas teológica, fechada em fontes religiosas – mostra que a arte é transformadora e formadora de pessoas engajadas no mundo.

Suas duas encíclicas, diretamente inspiradas em Francisco de Assis, Laudato si’ (2015) e Frattelli Tutti (2020) são obras-primas de defesa da vida, da natureza, de todos os povos e pessoas excluídas e marginalizadas. São apelos ao cuidado com o planeta e ao cuidado com o outro. E já no início da Frattelli Tutti, o Papa alude ao seu diálogo com uma liderança muçulmana, o Imã Ahmad Al-Tayyeb, lembrando da visita que Francisco de Assis fez ao Sultão Malik-al-Kamil, no Egito, em plena vigência das Cruzadas.

A sua atitude de abertura não se manifestou, nestes anos todos, apenas em relação ao diálogo com o outro, mas nas reformas que conseguiu implementar dentro da própria Igreja. Herdeiro da Teologia da Libertação, como bom latino-americano, que enfrentou na Argentina os horrores da ditadura militar, soube trazer temas absolutamente urgentes: o acolhimento aos homossexuais, o combate ao abuso sexual dentro da Igreja, a maior inserção das mulheres – isso tudo apesar da resistência brutal que tem enfrentado dos mais conservadores e dos fundamentalistas, que não faltam em qualquer religião nos dias de hoje.

Mas Francisco afirma em seu livro: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e suja por ter saído pelas ruas a uma Igreja asfixiada e doente pela clausura e pela conveniência de se agarrar às próprias certezas”.

Esperemos que suas sementes frutifiquem, que venham outros papas que continuem a sua obra, quando ele se for, e que não assistamos a retrocessos tristes, em consonância com os retrocessos mundiais.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Löwy: O Papa e os comunistas

 

Neste mês, Francisco recebeu lideranças da esquerda europeia. Diálogo inusitado no Vaticano aventa um olhar comum diante das desigualdades globais. “A medida de uma civilização pode ser vista pela forma como trata os mais vulneráveis”, diz

Por Michael Löwy, em A Terra é Redonda

Em 2014, o Papa Bergoglio encontrou-se com Alexis Tsipras e Walter Baier (ex-secretario do Partido Comunista Austriaco) representantes da esquerda européia, e Franz Kronreif , do movimento cristão Focolari, que se empenha há anos no diálogo com a Cultural secular, contemplado pelo Concílio Vaticano II. Com o acordo do Pontífice, se iniciou, a partir desta data, um processo de diálogo entre marxistas, representados pela rede de fundações da esquerda europeia transform! e cristãos, representados sobretudo pelo movimento Focolari.

Criou-se uma Associação, DIALOP, que organizou vários seminários de diálogo no Centro Universitario Sofia do Movimento Focolari, em Loppiano (Itália), uma Universidade de Verão na ilha de Syros (Grécia) e uma declaração comum redigida por Michael Brie et Benni Callebaut, assinada por dezenas de pessoas de ambas as tendências.

Finalmente, em 10 de janeiro de 2024, o Papa Francisco recebeu em audiência privada, uma delegação deste diálogo, composta de sete personalidades ligadas ao movimento Focolari (como Franz Kronreif e Luisa Sello) et oito marxistas vinculados a rede transform!europe, entre os quais Walter Baier, atual presidente do Partido da Esquerda Europeia, Cornelia Hildebrandt, da Fundaçâo Rosa Luxemburgo de Berlin, José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda de Portugal, e o autor da presente nota. Baier e Kronreif entregaram a Francisco um pequeno presente: um livro com fotografias de indígenas – os guardiões das florestas e de nossa Casa Comum, a Mãe Terra.

Papa com a delegação do Grupo DIALOP  Foto: Vatican Media

O Pontífice leu uma saudação dirigida aos presentes, em que manifestou seu apoio ao diálogo entre marxistas e cristãos – não sem esboçar um gesto irônico significando «difícil, não é?». O diálogo é possível porque ambos buscam «a promoção do bem comum». Dirigindo se a ambos grupos fez um supreendente apelo utilizando uma expressão de seu pais natal : «Nós argentinos dizemos no te arrugues, «não te desanimes». Este é tambem meu convite para vocês. Não se desanimem, não abandonem, não deixem de sonhar por um mundo melhor».

Citando literalmente os grandes valores da Revoluçâo Francesa, ele acrescentou: «Inúmeras vezes durante os anos passados grandes sonhos de liberdade e igualdade, dignidade e fraternidade, refletindo o proprio sonho de Deus, produziram avanços e progresso». O Papa argentino sugeriu três atitudes aos participantes: romper com os esquemas, cuidar dos menos afortunados e combater a corrupção respeitando a lei.

A proposito da segunda sugestão ele afirmou um princípio que sem dúvida corresponde ao espírito não conformista de seu pontificado: «A medida de uma civilização pode ser vista pela forma como trata os mais vulneráveis: os pobres, os desempregados, os sem teto, os imigrantes, os explorados, e todos aqueles que a cultura do desperdício transforma em escória. Uma política verdadeiramente a serviço da humanidade não pode ser ditada pela finança e pelos mecanismos de mercado».

A solidariedade, insistiu, «não é só uma virtude moral, mas também uma exigência de justiça» que implica «radicais mudanças de perspectiva». Os que assumem este compromisso, disse Francisco, são «poetas sociais», porque «colocam a criatividade a serviço da sociedade, para torná-la mais humana e mais fraterna».

A leitura desta saudação foi seguida de uma conversa informal entre o Papa e os participantes, em que foram abordados temas como a posição das mulheres na Igreja – «elas já dirigem a Cúria», afirmou o Pontífice – a mortífera indústria de armas, a luta pela paz, e o drama dos imigrantes rejeitados, «talvez o maior drama da Europa hoje». Nada de protocolar neste encontro, onde não faltaram momentos de humor, ironia e auto-ironia. Ao se despedir pessoalmente de cada participante do encontro, Francisco distribui a todos um rosário e um livro, Fratellino, publidado pela editora (de tradição comunista) Feltrinelli, que conta a odisséia de um jovem imigrante africano da Guinéia, Ibrahim Balde, que conseguiu, depois de muita luta e sofrimento, chegar na Espanha. A escolha deste livro é um gesto significativo, que ilustra a convergência entre o Vaticano, os Focolari e os marxistas na defesa dos direitos dos imigrantes.

O secretariado do Vaticano havia proposto um encontro de 20 minutos, finalmente foram mais de quarenta. A agencia oficial Vatican News noticiou o encontro, o que suscitou, como era de se esperar, reações iradas de setores religiosos ultraconservadores, em especial nos Estados Unidos. Se trata sem dúvida de um encontro histórico, tanto do ponto de vista dos marxistas, como do proprio Vaticano.

Uma velha cançâo comunista italiana continha a seguinte estrofe: “Bandiera Rossa, al Vaticano, con bomba in mano, con bomba in mano! ». Desta vez, os comunistas e marxistas foram ao Vaticano de mãos abertas, junto com seus amigos cristãos.

Michae Löwy é diretor de pesquisa em sociologia no Centre nationale de la recherche scientifique (CNRS). Autor, entre outros livros, de Marx, esse desconhecido (Boitempo).

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Papa Francisco ataca capitalismo unipolar, imperialista e desumano, e visualiza socialismo cooperativo multipolar. Artigo do jornalista César Fonseca

 " (...) o seu sonho é o socialismo não o capitalismo, num cenário global em que jamais se pode esperar cooperação no discurso do capitalismo unipolar"

Papa Francisco

Papa Francisco (Foto: Reuters)

Os governos capitalistas ocidentais – europeus e americano, especialmente – não engolem o Papa Francisco, porque o seu sonho é o socialismo não o capitalismo, num cenário global em que jamais se pode esperar cooperação no discurso do capitalismo unipolar, enquanto o mundo multipolar cooperativo ainda é uma construção incerta, no ambiente de ameaça de conflito nuclear entre as suas potências atômicas.

São a inclusão social e a solidariedade, e não a exploração do capital que alimenta a indústria armamentista, o foco do chefe da Igreja Católica, como destacou durante a última semana em Portugal, na Jornada Mundial da Juventude. Claudicante, tentando vender otimismo, Francisco, na verdade, revelou expressão de desespero psicológico, quando se sabe que cerca de 22% dos jovens estão desempregados, segundo a ONU.

Ele buscou animá-los com a narrativa da esperança e do acolhimento, que, para bom entendedor, é tudo que não seja predação capitalista comandada, atualmente, pelo mercado financeiro especulativo. O mercado não cria mais emprego, renda, consumo, produção e arrecadação e investimento, mas destruição, desigualdade, concentração de renda, desemprego, desespero e violência. 

O catolicismo está diante do desafio de ser explícito – sem tergiversações – com sua base religiosa para falar a verdade sobre conflitos que inviabilizam o futuro da juventude que sonha com a estabilidade do emprego e da renda.

Tal possibilidade virou, no cenário do capitalismo especulativo, utopia, em meio à qual o que funciona são narrativas de fake News do radicalismo político de direita fascista, cujo objetivo, como, historicamente, se sabe, é destruir a classe trabalhadora, somente possível com supressão da democracia, como Hitler e Mussolini demonstraram na segunda guerra mundial. 

BANCARROTA DO CRISTIANISMO - O Vaticano, no cenário do capitalismo pós-guerra fria, adepto da desregulamentação total das fronteiras nacionais, para livre circulação do capital, vacilou, abandonando a doutrina cristã para apoiar o nazifascismo em administrações papistas altamente controvertidas, aliando-se ao capital contra o comunismo soviético. 

O nazifascismo perdeu a guerra, mas ganhou a paz, na medida em que prosperou com a sobrevivência do neoliberalismo, na guerra fria. Agora, porém, mostra-se incapaz de criar expectativas para a humanidade, diante de radicalismos que ganham espaço, principalmente, no compasso do fracasso da social-democracia e da fuga da esquerda com seu compromisso com o socialismo, destroçado, sobretudo, com a tragédia da expansão dos emigrantes.

O câncer da imigração dos países pobres para os ricos foi a resposta da exploração colonialista, que funciona, atualmente, como a volta do chicote no lombo de quem mandou dar, motivo de expansão da ideologia direitista radical no velho Continente e nos Estados Unidos. 

O discurso humanista europeu e americano, diante do fenômeno da imigração, virou fumaça. A Igreja, frente ao desastre social-democrata esquerdista no capitalismo cêntrico, sob desconfiança generalizada dos mercados especulativos, tenta, com Francisco, acenar para o nacionalismo desenvolvimentista anti-imperialista, na periferia capitalista, visando o mundo multipolar. 

Para ter alguma dose de chances nessa trajetória, altamente, espinhosa, o líder católico visualiza nova geopolítica mundial que se amplia com a abertura de fronteiras na Rota da Seda, rumo à Eurásia, sob comando da China, vitoriosa sobre o capitalismo de desastre especulativo norte-americano.

BRICS E NEONACIONALISMO - É ela que traça os caminhos alternativos à geopolítica atlanticista ocidental americana, para construção do mundo multipolar que a China e Rússia tentam expandir pela Ásia, África, Oriente Médio e América Latina, na construção de neo-nacionalismo cooperativo, antineoliberral, por meio dos BRICs.

Tenta-se, dessa forma, construção de novo sistema monetário internacional alternativo ao de Bretton Woods, criado em 1944 pelo poder bélico americano, exaurido pelo neoliberalismo. Trabalha em favor dessa hipótese a estratégia imperialista desastrosa de sancionar os que não seguem sua cartilha, cujo efeito destrutivo é a fuga da moeda americana, rumo à desdolarização e à construção de relações comerciais em moedas locais, no rastro da pregação multipolar chinesa-russa.

Enquanto isso ainda não passa de articulações poderosas sem amplo efeito demonstrativo prático, a ideologia imperialista busca a predominância em discursos de fake news. Por meio dele, arregimenta ideologicamente o Ocidente em torno da narrativa de que a paz está bloqueada pela Rússia, responsável por guerra que pode ser interminável, quando, na prática, ocorre o contrário, como se conscientiza a própria inteligência americana.

Lança, portanto, incertezas que colocam a humanidade em estresse total, ideal satisfatório para a indústria da guerra, com a qual o imperialismo de Tio Sam enriquece o mercado financeiro que a banca.

Nesse contexto de total indefinição, Papa Francisco, consciente do estrago social e político da guerra, especialmente, sobre os jovens desempregados e desesperados, como atesta sua passagem por Portugal, aposta no mundo multipolar, porque o unipolar, para a humanidade, deixou de ser útil.

terça-feira, 14 de junho de 2022

Por interesses imperialistas de uma minoria plutocrata e de sua indústria da Guerra, a “Terceira Guerra Mundial foi declarada”, diz Papa Francisco

 Pontífice lamenta os conflitos militares em todo o mundo e diz que a crise Rússia-Ucrânia pode ter sido “provocada” de fora dos dois países

O Papa Francisco
Foto: Getty Images

Do RT (e GGN)

O Papa Francisco sugeriu que a Terceira Guerra Mundial já está em andamento, como evidenciado por “elementos entrelaçados” em ação na crise Rússia-Ucrânia e outros conflitos em todo o mundo.

Há alguns anos, ocorreu-me dizer que estamos vivendo uma terceira guerra mundial travada aos poucos”disse o chefe da Igreja Católica em uma entrevista em 19 de maio a meios de comunicação jesuítas que foi publicada na terça-feira. Hoje, para mim, a Terceira Guerra Mundial foi declarada.”

Francisco observou que, embora os combates na Ucrânia “agucem mais nossas sensibilidades”, as guerras também estão em andamento em lugares como o norte da Nigéria e Mianmar, “e ninguém se importa”. Ele acrescentou: “O mundo está em guerra. Isso é algo que deve nos dar uma pausa para pensar.”

“O que está acontecendo com a humanidade que teve três guerras mundiais em um século…? Você tem que pensar que em um século houve três guerras mundiais, com todo o comércio de armas por trás disso.”

Reconhecendo as críticas por seu fracasso em condenar o presidente russo Vladimir Putin e seus comentários anteriores sugerindo que a expansão da OTAN às portas da Rússia pode ter provocado a crise, o pontífice negou ser “pró-Putin”. Ele disse que tal afirmação seria “simplista e errônea”.

Sou simplesmente contra transformar uma situação complexa em uma distinção entre mocinhos e bandidos, sem considerar as raízes e os interesses próprios, que são muito complexos”, disse ele. Enquanto testemunhamos a ferocidade e a crueldade das tropas russas, não devemos esquecer os problemas e procurar resolvê-los.”

NÃO HÁ MOCINHOS, NEM BANDIDOS


Questionado sobre como os editores jesuítas deveriam relatar o conflito no Leste Europeu de uma forma que contribua para um futuro pacífico, Francisco respondeu: “Temos que nos afastar da mentalidade comum da Chapeuzinho Vermelho. Chapeuzinho Vermelho era bom, e o lobo era o vilão. Aqui, não há mocinhos e bandidos metafísicos, em abstrato. Algo global está surgindo, com elementos que estão intimamente interligados.” 

O CONFLITO ENTRE RÚSSIA E UCRÂNIA: confira webstories sobre o assunto

Ele também advertiu contra focar apenas na “brutalidade e ferocidade” do conflito. “O perigo é que só vemos isso, que é monstruoso, e perdemos todo o drama que está se desenrolando por trás dessa guerra, que talvez tenha sido provocada ou não evitada. Também noto o interesse em testar e vender armas. É muito triste, mas no final das contas, é isso que está em jogo”.

Francisco elogiou o heroísmo do povo ucraniano na defesa de seu país, mas apontou interesses externos que os colocam em perigo“O que está diante de nossos olhos é uma situação de guerra mundial, interesses globais, venda de armas e apropriação geopolítica, que está martirizando um povo heróico” , disse ele.

O pontífice reiterou sua preocupação, divulgada pela primeira vez em uma entrevista no mês passado, de que a Otan possa ter instigado a ofensiva militar de Moscou contra Kiev. Ele se lembrou de uma conversa com um chefe de Estado, a quem identificou apenas como “um homem sábio”, alguns meses antes do início dos combates. “Ele me disse que estava muito preocupado com a maneira como a Otan estava agindo. Perguntei-lhe por que, e ele disse: ‘Eles estão latindo nos portões da Rússia e não entendem que os russos são imperiais e não permitirão que nenhuma potência estrangeira se aproxime deles’”.

Francisco também alertou que, depois que muitos dos apoiadores ocidentais da Ucrânia  “abriram seus corações” para as mulheres e crianças que fugiram do país nos primeiros dias do conflito, o apoio aos refugiados já está “esfriando”. Ele acrescentou: “Quem vai cuidar dessas mulheres? Precisamos olhar além da ação concreta do momento e ver como vamos apoiá-los para que não caiam no tráfico de pessoas ou acabem sendo usados, porque os abutres já estão circulando.”

LEIA TAMBÉM: Lula e Zelensky na Time, a voz do líder, por Luis Nassif

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

“Lula sabe que o fator ecológico é estratégico e fundamental”, afirma Leonardo Boff

 

Para o teólogo e ecologista, Leonardo Boff, apesar do Brasil ter perdido o protagonismo nos debates sobre o tema, as eleições de 2022 serão decisivas para retomarmos o trilho do progresso ambiental: 
 
“Há uma razão importante de nós sabermos escolher, já no ano que vem, aqueles que nos vão governar e aqueles que vão cuidar da natureza, porque sem isso nós cometemos um crime contra a humanidade.” 

Foto: Divulgação

“Lula sabe que o fator ecológico é estratégico e fundamental”, diz Leonardo Boff

Do Brasil de Fato

Por José Eduardo Bernardes

Os debates sobre o clima deverão pautar os governos em todo o planeta nos próximos anos. Os desastres relacionados às alterações na temperatura da Terra têm se avolumado e colocam milhões de pessoas em risco, em geral, os mais pobres. 
 
Por isso, os acordos entre nações para barrar essas mudanças se tornaram prioridade nas mesas de negociações. Hoje, inclusive, são impeditivos para a conclusão de avanços comerciais como o, até então, estacionado acordo entre o Mercosul e a União Europeia. 
 
Para o teólogo e ecologista, Leonardo Boff, apesar do Brasil ter perdido o protagonismo nos debates sobre o tema, as eleições de 2022 serão decisivas para retomarmos o trilho do progresso ambiental: 
 
“Há uma razão importante de nós sabermos escolher, já no ano que vem, aqueles que nos vão governar e aqueles que vão cuidar da natureza, porque sem isso nós cometemos um crime contra a humanidade.” 
 
Boff, que é o convidado desta semana no BDF Entrevista, aposta que o candidato petista, Luiz Inácio Lula da Silva, soube reciclar suas propostas de governo e deve apresentar planos robustos para a proteção do meio ambiente no Brasil:
 
“Eu acho que está ocorrendo, em toda a sociedade, especialmente no líder mais importante, que é Luiz Inácio Lula da Silva, e eu posso constatar isso, porque o visitei duas vezes, levei literatura, e ele incorporou como algo estratégico, fundamental, o fator ecológico”, diz o teólogo. 

“Ele vinha da luta operária, dos direitos dos trabalhadores, o direito a comer, de terem salários melhores, mas não tinha muita sensibilidade para a natureza. Mas agora ele despertou e se deu conta que, ou salvamos nossa natureza, a riqueza ecológica que temos, ou nós não vamos ter futuro para o Brasil e para nosso povo”.
 
Na conversa, Boff também fala sobre ecossocialismo, os rumos da sociedade, o governo Bolsonaro e o papa Francisco. 
 
Talvez [Francisco] seja hoje o líder político – embora ele seja um líder religioso – mais importante da humanidade, porque ele fala às consciências dos chefes de estado, que eles têm que acolher os emigrados climáticos, aqueles que vêm da África, vem do Oriente Médio, fugindo das guerras e do extermínio”. 

Leia a íntegra da entrevista e ao vídeo no Brasil de Fato.