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quinta-feira, 24 de abril de 2025

Francisco, uma estrela latina que brilhou no Vaticano. Artigo de Ana Cláudia Laurindo

 

A sabedoria amorosa do Papa Francisco acrescentou virtudes a uma das instituições mais antigas e conservadoras do mundo, a mesma que instituiu morticínios e se apropriou das chaves do céu, no simbolismo de Pedro, o discípulo de Jesus.


Segue o texto da Educadora e Cientista Social Ana Paulo Laurindo, publicado no
Repórter Nordeste:

Uma estrela latina brilhou no Vaticano

Será este dia um divisor de águas na história contemporânea?

Estará riscada na linha do tempo uma nova idade das trevas?

Será Bergoglio, o Francisco católico, um marco de luz no fim do túnel dessa história?

Setores da igreja rezaram por sua morte no reclame do arcaísmo que ele combateu.

A sabedoria amorosa do Papa Francisco acrescentou virtudes a uma das instituições mais antigas e conservadoras do mundo, a mesma que instituiu morticínios e se apropriou das chaves do céu, no simbolismo de Pedro, o discípulo de Jesus.

Mas também foi nos arrabaldes da igreja católica que ganhou força a Teologia da Libertação e as comunidades dançaram e cantaram a esperança nas ruas, superando ditaduras e movimentando uma sociedade libertária em comunidades eclesiais.

A imperfeição e a perfeição postas na mesa, na consagração de um corpo sacrificado e um derramamento de sangue dito redentor que vira pão, que se transforma em vinho, que promete a salvação aos fiéis. Essa mesma igreja reúne interesses os mais divergentes, afina com poderes políticos e econômicos e continua detendo importância na condição de milhares de mentalidades.

Francisco foi uma estrela latina que brilhou no Vaticano.

Um Papa que fez o mundo se sentir mais aconchegado.

Deixou esperança nos dias pandêmicos e enfrentou tabus.

A morte de Francisco deixa uma sensação de perda em caráter global. Mas seu exemplo fincou nuances importantes nessa história, e sem sua presença física, um temor do arcaísmo ressurge, porque a igreja católica não logrou superar o medieval que palpita na ânsia de domínio do mundo sob os discursos celestiais.

O sentimento de gratidão ao Papa Francisco também é global, passando pelos corações humanizados, pelos espíritos sensibilizados e por todas as consciências amorosas que palpitam nesta terra.

Missão cumprida, segue em paz a estrela latina, e agora rezaremos pelo porvir.


O Papa Francisco e a Literatura, por Urariano Mota

 

O fim não é exatamente o último segundo do viço da orquídea. O fim não é nem mesmo a destruição feita pela bomba atômica. Nós seremos os grãos de pó que escreveram estes dias.


Do Jornal GGN:

    Foto: Vatican News


O Papa Francisco e a Literatura

por Urariano Mota

Li há pouco a notícia de um prefácio muito bem escrito do Papa Francisco para um livro do Cardeal Angelo Scola. Texto belo e fecundo, que eu aproximo à literatura. Nele, eu li que “a morte não é o fim de tudo”. Que o livro tem páginas que saíram “do pensamento e do afeto”, como o Papa diz.  Agora olhem que feliz coincidência. No romance “A mais longa duração da juventude”, escrevi:

“Nada passou nem ficou sepultado. Então vem, e vejo agora que a sobrevivência do acontecimento não é uma revolta romântica. Nem uma luta quixotesca e inglória contra a morte. O fim,  o tudo acaba não é a dissolução de tudo. O fim não é exatamente o último segundo do viço da orquídea. O fim não é nem mesmo a destruição feita pela bomba atômica. Nós seremos os grãos de pó que escreveram estes dias”. 

Vocês veem que aquela reflexão teológica do Papa termina por se confundir com a visão da matéria da nossa luta, que sobrevive à força da arte, da ciência e da literatura, que vai além dos nossos dias.

https://www.facebook.com/reel/1864087407775000

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.