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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Chico Pinheiro entrevista Leonardo Boff

 

Do Canal ICL:




quarta-feira, 23 de abril de 2025

Leonardo Boff: O papa Francisco não é ou foi um nome, mas um projeto de Igreja

 


Com sua conclamação em favor dos empobrecidos e sua crítica corajosa ao sistema que produz morte, Francisco compareceu como líder religioso e político.

 Segue o texto de Leonardo Boff, publicado no ICL Notícias:

COLUNISTAS ICL

Boff: O papa Francisco não é um nome, mas um projeto de Igreja



Todo ponto de vista é a vista de um ponto, afirmei certa vez. O meu ponto de vista acerca do papa Francisco é aquele latino-americano. O próprio papa Francisco se apresentou como “aquele que vem do fim do mundo”, isto é, da Argentina, do extremo Sul do mundo. Este fato não é sem relevância, pois nos oferece uma leitura diversa de outras, de outros pontos de vista.

A escolha do nome Francisco, sem antecedentes, não é fortuita. Francisco de Assis representa um outro projeto de Igreja cuja centralidade residia no Jesus histórico, pobre, amigo dos desprezados e humilhados como os hansenianos com os quais foi morar.

Pois esta é a perspectiva assumida por Bergoglio ao ser eleito papa. Quer uma Igreja pobre para os pobres. Consequentemente, despoja-se das vestes honoríficas, que vem da tradição dos imperadores romanos, bem representadas pela mozzeta (aquela capinha branca ornada de joias), símbolo do poder absoluto dos imperadores e incorporada às vestimentas papais. Recusou-a e a deu ao secretário com recordação. Veste um simples manto branco com a cruz de ferro que sempre usou.

Viveu na maior simplicidade (o papa não veste Prada) e, sem cerimônia, quebrou ritos para poder estar perto dos fiéis. Isso seguramente escandalizou a muitos da velha cristandade europeia, acostumada à pompa e à glória das vestimentas papais e, em geral, dos prelados da Igreja. Cabe recordar que tais tradições remontam aos imperadores romanos, mas que não têm nada a ver com o pobre artesão e camponês mediterrâneo de Nazaré. Surpreendentemente apresenta-se, primeiro com bispo local, de Roma. Depois, como papa para animar a Igreja universal e, como enfatizou, não com o direito canônico, mas com o amor.

Escolheu o nome Francisco porque São Francisco de Assis é o “exemplo por excelência do cuidado e por uma ecologia integral vivida com alegria e autenticidade (“Laudato Sí“, n.10) e que chamava a todos os seres com o doce nome de irmão e de irmã. Não quis morar num palácio pontifício, mas numa casa de hóspedes, Santa Marta. Comia na fila como todos os demais e, com humor, comentava: “Assim é mais difícil que me envenenem”.

A centralidade de sua missão foi colocada na preferência e cuidado dos pobres especialmente dos migrantes. Disse com honradez: “Vocês europeus estiveram primeiro lá, ocuparam suas terras e riquezas e foram bem recebidos. Agora eles estão aqui e não estão dispostos a recebê-los.” Com tristeza, constata globalização da indiferença.

Pela primeira vez na história do papado, o papa Francisco recebeu, por várias vezes, os movimentos sociais mundiais. Via neles a esperança de um futuro para a Terra, porque a tratam com cuidado, cultivam a agroecologia, vivem uma democracia popular e participativa. Repetiu-lhes muitas vezes o direito que lhes é negado, os famosos três Ts: Terra, Teto e Trabalho. Devem começar de lá onde estão: na região, pois aí se pode construir uma comunidade sustentável. Com isso legitimou todo um movimento mundial, o biorregionalismo, como forma de superação da exploração e da acumulação de poucos e com mais participação e justiça social para muitos.

Foi neste contexto que escreveu duas extraordinárias encíclicas: “Laudato sì: sobre o cuidado da casa comum” (2020), de uma ecologia integral que implica o meio ambiente, a política, a economia, a cultura, a vida cotidiana e a espiritualidade ecológica. Na outra, na “Fratelli tutti” (2025), face à degradação generalizada dos ecossistemas, faz a severa advertência:”estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva” (n.34).

Com estes textos, Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica mundial que vai além da simples ecologia verde e de outras formas de produção sem nunca questionar o sistema capitalista que, por sua lógica, cria acumulação de um lado às custas da exploração do outro, das grandes maiorias.

O papa Francisco vem da Teologia da Libertação de vertente argentina, que enfatiza a opressão do povo e o silenciamento da cultura popular. Foi discípulo do teólogo da libertação Juan Carlos Scannone, mencionado num rodapé da “Laudato Sí”. Já como estudante e inspirado nesta teologia, fez para si uma promessa: de toda semana fazer, sozinho, uma visita às favelas (“vilas miseria”). Entrava nas casas, informava-se dos problemas dos pobres e suscitava esperança em todos.

Durante anos levou uma polêmica com o governo que fazia assistencialismo e paternalismo como políticas do estado. Reclamava dizendo: “Assim jamais se tirará os pobres da dependência. O que precisamos é de justiça social, raiz da real libertação dos pobres”. Em solidariedade para com os pobres, vivia num pequeno apartamento, cozinhava sua comida, buscava seu jornal. Recusou viver no palácio e usar o carro especial.

Esta inspiração libertadora iluminou o modelo de Igreja que se dispôs a construir. Não uma Igreja fechada tal qual um castelo, imaginando-a cercada de inimigos por todos os lados, vindos da modernidade com suas conquistas e liberdades. A esta Igreja fechada opôs uma Igreja em saída rumo às carências existenciais, uma Igreja como hospital de campanha que acolhe a todos os feridos, sem lhes perguntar a tendência sexual, a religião ou ideologia: basta serem humanos necessitados.

Papa Francisco não se apresenta como um doutor da fé, mas como um pastor que acompanha os fiéis. Pede aos pastores que tenham cheiro de ovelhas, tal a sua proximidade e compromisso com os fiéis, exercendo a pastoral da ternura e da amorosidade.

Talvez nenhum papa na história da Igreja mostrou tanta coragem quanto ele ao criticar o sistema vigente que mata e que produz duas ferozes injustiças: a injustiça ecológica, devastando os ecossistemas e a injustiça social, explorando até o sangue a humanidade. Nunca na história houve tanta acumulação de riqueza em poucas mãos. Oito pessoas individualmente possuem mais riqueza que 4,7 bilhões de pessoas. É um crime que brada ao céu, ofende o Criador e sacrifica seus filhos e filhas.

Como pastor, mais do que como doutor, sua mensagem é fundada especialmente no Jesus histórico, amigo dos pobres, dos doentes, dos marginalizados e dos oprimidos. Foi assassinado na cruz por um duplo processo, um religioso (ofensas à religião da época e sua afirmação de sentir-se de Filho de Deus) e outro político, pelas forças de ocupação romana.

Não colocava muito o acento nas doutrinas, nos dogmas e nos ritos que sempre respeitou, pois reconhecia que com tais coisas não se chega ao coração humano. Para isso precisa-se de amor, de ternura e misericórdia. Disse, certa feita, uma das frases mais importantes de seu magistério: “Cristo veio nos ensinar a viver: o amor incondicional, a solidariedade,a compaixão e o perdão, valores que compõe o projeto do Pai que é o cerne do anúncio  de Jesus: o Reino de Deus”. Prefere um ateu sensível à justiça social que um fiel que frequenta a igreja mas não tem um olhar para o semelhante sofredor.

Tema recorrente em suas pregações é o da misericórdia. Para o papa Francisco, a misericórdia é essencial. A condenação é só para este mundo. Deus não pode perder nenhum filho ou filha que criou no amor. A misericórdia vence a justiça e ninguém pode impor algum limite à misericórdia divina. Alertava os pregadores o que se fez durante séculos: pregar o medo e infundir pavor do inferno. Todos, por piores que tenham sido, estão sob o arco-íris da graça e da misericórdia divina.

Logicamente, nem tudo vale nesse mundo. Mas os que viveram uma vida sacrificando outras vidas e pouco se importando ou até negando Deus, passarão pela clínica curadora da graça, na qual reconhecerão suas maldades e aprenderão o que é o amor, o perdão e a misericórdia. Só então a clínica de Deus, que não é a ante-sala do inferno, mas a antessala do céu, se abrirá para que participem também eles das promessas divinas.

Com sua conclamação em favor dos empobrecidos, com sua crítica corajosa ao sistema vigente que produz morte e ameaça as bases ecológicas que sustentam a vida, por seu apaixonado amor e cuidado da natureza e da Casa Comum, pelos incansáveis esforços para mediar guerras em função da paz, emergiu com um grande profeta que anunciou e denunciou, mas sempre suscitando a esperança de que podemos construir um mundo diferente e melhor. Com isso compareceu como um líder religioso e político respeitado e admirado por todos.

Inesquecível é a imagem de um papa caminhando solitário sob chuva fina, na praça de São Pedro em direção da capela de orações para que Deus poupasse a humanidade do coronavírus e tivesse misericórdia dos mais vulneráveis.

O Papa Francisco honra a humanidade e ficará na memória como uma pessoa santa, amável, carinhosa e extremamente humana. É por causa de figuras assim que Deus ainda se tem apiedado de nossas maldades e loucuras e nos mantém vivos sobre esse pequeno e belo planeta.




segunda-feira, 27 de junho de 2022

Utopias de Fé, Pr. Henriquei Vieria em diálogo com Padre Júlio Lancelotti

 

Do Canal do Pastor Henrique Vieira:

O último episódio da Primeira Temporada do programa Utopias conta com uma conversa cheia de amor e afeto entre o Padre Julio Lancelotti e o Pastor Henrique Vieira. Uma conversa sobre a potência revolucionária da leitura do Evangelho a partir do olhar dos oprimidos. Padre Julio, homem de fé que presta uma trabalho incrível para as populações em situação de rua na cidade de São Paulo, trás pro fim desta temporada a mensagem de esperança para seguirmos nossas utopias.



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Leonardo Boff e Faustino Teixeira em vídeo-debate: o fim do antropoceno. Do Canal Paz e Bem

 

Vídeo do Canal Paz e Bem, de Mauro Lopes:



Faustino Teixeira recebe na aula 71 de seu curso de espiritualidade ninguém menos que Leonardo Boff. Eis a apresentação que Faustino preparou:

“Hoje é dia do meu curso de espiritualidade no Paz e Bem. Vai ser um momento singular, pois teremos a presença amiga de Leonardo Boff, respondendo questões que eu e Mauro estaremos lançando para o debate. São questões relacionadas ao tema da espiritualidade, bem ligadas ao precioso livro que Leonardo Boff escreveu em 2018 na editora Vozes: ‘Reflexões de um velho teólogo e pensador’. Estaremos também refletindo sobre a novidade epocal da encíclica do papa Francisco sobre o cuidado com a casa comum (Laudato si) e também a última: Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Temas complexos como a finitude, a morte e as atrocidades do Antropoceno estarão também presentes, como a questão complexa do antropocentrismo no pensamento cristão. O desafio da ampliação do olhar para entender o diálogo no seu sentido mais amplo e nobre.” Todas as aulas programadas: Dezembro 02 - A mística em João da Cruz 09 – A mística em João da Cruz 16 – A espiritualidade no cinema oriental: Rodrigo Petrônio Para 2021: . Teresa de Ávila . Angelus Silesius . sobre a finitude: Philip Roth . Reflexões sobre Lévi-Strauss . Encontro com Pedro Lima Vasconcelos . Encontro com Dora Incontri . Encontro com Marco Lucchesi . Encontro com Dom Erwin Krautler . Encontro com Alberto Pucheu (sobre o pensamento de Leonardo Froes) . Toda última quarta feira do mês: um debate de filme com Angelo Atalla e Rodrigo Petrônio. * * * • INSCREVA-SE NO CANAL PAZ E BEM: http://bit.ly/Pazebem • FAÇA UMA ASSINATURA SOLIDÁRIA DO PAZ E BEM: http://bit.ly/AssinePazBem * * * Apoie o 247 por Pix usando a chave pix@brasil247.com.br no aplicativo do seu banco e peça sua nota fiscal em contato@brasil247.com.br. O conhecimento liberta. Saiba mais em: http://bit.ly/ICL247


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A tentadora proposta da Economia de Francisco e o grande encontro global de pensadores que contrariam os interesses da direita...

 

Se preferir, pode chamá-la de pós-capitalismo. Começa hoje, e vai até sábado, encontro internacional convocado pelo Papa para debater alternativas à crise civilizatória. Na sexta, Leonardo Boff e Vilson Grob debatem com jovens brasileiros

Por Tatiana Machado, Claudia AndradeJosimar PrioriMariana Reis, Eduardo BrasileiroGabriela ConsolaroLucas FeresMaurizio Pitzolu e Klaus Raupp

MAIS
> Todos os diálogos são a distância e podem ser acompanhados ao vivo. Participam, entre outros, Vandana ShivaKate RaworthJeffrey SachsMuhammad Yunus Mariana Mazzucato. A programação completa está aqui.
> O encontro com Leonardo Boff e Vilson Grob é na sexta (20/11), às 10h10 (de Brasília)

Muitas análises, leituras, discussões e ações conduziram ao grande encontro global que acontece virtualmente, a partir de Assis, nesta quinta, sexta e sábado, convocado pelo Papa Francisco. No esperado evento, adiando por conta da pandemia, será possível assistir a mesas com pensadores e atores da economia global, como Vandana Shiva, Juan Camilo Cardenas, Cecile Renouard, Kate Raworth e o Prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus. No sábado, o próprio Papa transmitirá sua mensagem aos jovens do mundo todo. Todas as palestras serão abertas ao público através do Youtube.

Na sexta-feira, às 10h10 (horário de Brasília), uma mesa chama a atenção na programação. A única com título em idioma diferente do inglês, a única com pensadores brasileiros, a única apenas com jovens brasileiros. Será a conferência “Responsabilidade sócio-ecológica: olhar global, ações territoriais”, com o teólogo Leonardo Boff e o padre Vilson Groh, que há décadas atua junto às periferias de Florianópolis. O fato é resultado da mobilização de um grupo de brasileiros para levar vozes da América Latina ao centro do palco mundial da Economia de Francisco – a iniciativa estabelecida em torno do chamado do papa latino-americano para “dar nova alma à economia global”. A convocação do Papa, feita em 1º de maio de 2019 em memória de São José Operário, quer “promover juntos um processo de mudança global”, “inspirado por um ideal de fraternidade voltado sobretudo aos pobres e excluídos”.

Em sua análise da encíclica Fratelli Tutti para a coluna Rumo a Assis, do IHU Online, Boff afirma que “a proposta do Papa é uma atitude de confiança no ser humano e em suas potencialidades”. O teólogo aponta para o diagnóstico de uma crise de civilização, em um sistema econômico que devasta a natureza e condena parte da humanidade à exclusão. Mas a amizade social, a solidariedade, a fraternidade insistem em lembrar para o que foi feito o homem, e o cuidado uns com os outros e com a natureza podem dar centralidade a uma nova ecologia integral, que coloque a vida acima do dinheiro.

Sete jovens brasileiros estarão em diálogo com os dois conferencistas. No primeiro bloco, dedicado ao olhar global, entrará em questão a racionalidade neoliberal e seu desmantelamento do social. Após décadas de contestação a formas de organização social e ataques ao Estado de bem-estar social, será possível ainda pensar em reformar o sistema? “Penso numa política salutar, capaz de reformar as instituições, coordená-las (…) Não se pode pedir isto à economia, nem aceitar que ela assuma o poder real do Estado” (FT, 177), diz Francisco. De que setores da sociedade podem partir essa política salutar? Qual é o papel dos jovens da Economia de Francisco?

No segundo bloco, os jovens falam “a partir do chão em que pisam”. Das ações territoriais, surgem temas como o direito à cidade, a violência social, as políticas de repressão e extermínio, a gestão urbana militarizada, as práticas agroecológicas, a mística da vida cotidiana. A pobreza real mostra sua cara através das palavras e quer saber o que esperar da Economia de Francisco. O padre Vilson Groh falará também sobre o projeto Casas de Francisco, espaço de educação para as economias que geram vida e diálogo inter-religioso.

Duas das maiores figuras do cristianismo no país encontram sete jovens de diferentes experiências, áreas de estudo e ações concretas, em busca de respostas para um mundo mais justo. É assim que se dará a presença brasileira nas conferências de Assis.

Serviço: Economia de Francisco – Responsabilidade sócio-ecológica: olhar global, ações territoriais, com Leonardo Boff e Pe. Vilson Groh

Data: 20 de novembro de 2020, 10h10 (horário de Brasília)

Transmissão: através do site oficial do evento (https://francescoeconomy.org/)


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Leonardo Boff em entrevista ao Podcast Preto e Branco: Existe indignação na esperança? Aprendendo sobre a coragem de agir!

 


Estamos vivendo um momento de nossa política republicana no qual somos bombardeados por notícias que, se por um lado nos deixam atordoados, por outro nos dão a sensação de que uma nova normalidade, baseada numa ética deturpada quando comparada àquela necessária para a convivência humana saudável, se agiganta e se instala,  produzindo em muitos de nós uma sensação parecida com a de derrota.

Nestes tempos mais difíceis é que vozes de sabedoria se fazem ainda mais necessárias. Há, sim, outras formas de convivência, e é legítimo nos indignarmos frente às estruturas que já há muito tempo imperam e que não respondem às necessidades de um planeta diverso, porém limitado. Indignação é motor, que empurra para outras realidades que só se concretizam na ação.

Por isso este episódio é tão necessário. Leonardo Boff é uma voz que ecoa uma mensagem de transformação. Uma voz que desde a década de 1970 tem, nas asas da Teologia da Libertação, inspirado novos fazeres políticos e alimentado a criação de movimentos sociais que, vivos e atuantes ainda hoje, são necessários no enfrentamento de forças que se organizam numa lógica de acumulação, exploração e individualismo. 

Numa conversa acolhedora e cheia de um conteúdo que promove esperança, o Prof. Leonardo Boff, um intelectual que fala ao coração, deixa claro os caminhos que podemos e devemos percorrer, juntos, para transformar nossa esperança em realidade.

Esperamos que você se inspire com este episódio tanto quanto a gente. E que ele te ajude com a energia que gera movimento e ação, energia necessária e fundamental para a construção de uma convivência planetária mais solidária e fraterna. Nas palavras do Prof. Leonardo Boff, fratelli tutti – todos irmãos.

Dicas do episódio (todas do Prof. Boff)

Todos os livros são de autoria de Leonardo Boff.

Livro Cuidar da Terra, Salvar a Vida: como evitar o fim do mundo.
Livro Brasil: Concluir a refundação ou prolongar a dependência?
Livro Covid-19. A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade. Advertências da Pandemia.
Livro Ecologia. Grito da Terra, Grito dos Pobres.

http://podcastpretoebranco.podbean.com/

Nosso podcast:
@podcastpretoebranco no Instagram.
Canal e página Podcast Preto e Branco no Youtube e no Facebook.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A Teologia da Libertação e seu necessário retorno, por Flávio José Rocha

 

Na ditadura, religiosos rebeldes acercaram-se das lutas diárias do povo, questionando as causas da desigualdade. Foram perseguidos. Como seu recuo abriu espaço para o sequestro da fé pela ultradireita e pelo neofascismo

Por 

Em Outras Palavras

Qual a conexão entre o declínio da Teologia da Libertação e a ascensão dos grupos de extrema direita no Brasil? É fácil identificar o elo entre estes dois fatos observando o caso do estado do Rio de Janeiro. Basta ver que foi lá que o Presidente Bolsonaro galgou a sua ascensão política como deputado federal antes de chegar à presidência, que o prefeito carioca é um bispo da Igreja Universal e o governador em exercício é um cantor gospel oriundo da Renovação Carismática Católica. A Arquidiocese do Rio de Janeiro nunca apoiou a Teologia da Libertação como aconteceu em outras dioceses e arquidioceses brasileiras, abrindo um vazio nas periferias que foi tomado por grupos religiosos conservadores e que teve como resultado a perda de fiéis para as igrejas neopentecostais. Várias lideranças destas novas denominações estão envolvidas com políticos da extrema direita, utilizando um discurso moralista para ganhar votos para seus aliados. O mesmo fenômeno não aconteceu de forma tão drástica onde a Igreja Católica manteve e ainda mantém uma presença nas lutas diárias do povo, a exemplo de vários estados do Norte e do Nordeste ou em certas áreas da periferia da cidade de São Paulo.

Há 50 anos o padre belga José Comblin (1923-2011) lançou o seu livro Théologie de la Révolution. No ano seguinte seria lançado o livro seminal Teología de la liberación pelo padre peruano Gustavo Gutiérrez. Alguns teólogos e teólogas protestantes também publicaram livros na mesma linha naquele mesmo período. Um planeta que se urbanizava e uma juventude que clamava por mudanças (clamor que explodiria no final dos anos sessenta), pedia novas reflexões sobre o pensar teológico e o papel das igrejas em um mundo que se reconfigurava religiosa e politicamente. No meio de todas estas mudanças, uma pergunta começava a circular no meio religioso da América Latina: Por que o continente com o maior número de cristãos é tão desigual economicamente? Se somos todos irmãos e irmãs como pregam as igrejas, há algo que não está sendo bem equacionado nesta irmandade supostamente de iguais, concluíam muitos dos que se aprofundaram neste questionamento.

Os protagonistas das ações de caridade da Igreja Católica não questionavam o que levava a milhões de pessoas a dependerem dos seus hospitais, escolas, orfanatos e casas de assistência com distribuição de comida. Aos poucos, isso foi mudando. No Brasil, por exemplo, um bispo começou a pensar diferente e criar inimigos dentro da elite carioca, cidade onde exercia o cargo de bispo auxiliar. O cearense dom Helder Câmara, sob certa influência do advogado católico Sobral Pinto e da Ação Católica da França, começou a mudar as opiniões integralistas que carregava desde a juventude. Além de ajudar a organizar a Ação Católica no Brasil, dom Helder repensou o seu papel como prelado na sociedade e como o seu poder poderia ajudar aos mais pobres. Este primeiro momento ainda estava no limite da caridade, mas já incomodava muitos fiéis católicos ricos da capital fluminense. Com a sua mudança para a cidade do Recife, que coincidiu com o início da ditadura civil-militar, as suas posições se direcionaram para a oposição ao regime autoritário com a denúncia sobre as arbitrariedades cometidas pela ditadura contra as prisioneiras e os prisioneiros políticos (não importando para ele se eram crentes ou ateus) e a luta por justiça social. Não à toa, dom Helder é o Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos.

Quanto as outras igrejas, o vento também começava a soprar em direções diferentes. Em 1962, aconteceu na cidade do Recife o encontro Cristo e o Processo RevolucionárioBrasileiro, patrocinado por algumas Igrejas Protestantes. Influenciados por teólogos e teólogas de suas igrejas irmãs na Europa e nos Estados Unidos, estas instituições tinham fiéis que também vinham questionando a desigualdade entre os brasileiros. Alguns deles começaram, inclusive, a despontar como lideranças no campo das lutas sociais, como o presbiteriano João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas na Paraíba que seria assassinado em 1962 por causa de sua luta por reforma agrária.

Não há dúvida de que sem a Teologia da Libertação o processo de repressão durante a ditadura civil-militar teria sido ainda pior. O compromisso de parte da hierarquia contra o regime ditatorial surpreendeu os militares que não perceberam a profundidade das novas ideias que estavam sendo semeadas desde a década anterior. Um dos resultados da oposição à ditadura foi o projeto Brasil: nunca mais, liderado pelo cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, pelo Rabino Henry Sobel e pelo Pastor Presbiteriano Jaime Wright. Juntos, eles lideraram uma equipe que produziu um relatório com denúncias sobre o que estava acontecendo nas prisões brasileiras com torturas, desaparecimentos e várias outras formas de repressão aos opositores dos militares. O relatório foi muito importante para documentar a opressão sofrida pelas vítimas.

Nos anos setenta as comunidades religiosas começaram a sair dos conventos e dos seminários. Esta ida para o mundo externo resultou no fortalecimento das Comunidade Eclesiais de Base, as famosas CEBs. Elas reuniam milhões de pessoas em pequenos grupos para a leitura e reflexão da Bíblia à luz da realidade social em que seus participantes viviam e isso proporcionou a formação do senso crítico sobre as opressões sofridas no mundo rural e nas periferias das grandes cidades de um número incontável de pessoas. Não fosse pelas CEBs, elas talvez nunca tivessem como receber toda aquela formação política. Era um lugar onde as pessoas podiam opinar sobre os problemas das comunidades onde viviam. Assumiam cargos nas coordenações e direções de diversas pastorais e, para a maioria, era a primeira vez que tinham os seus talentos para a liderança reconhecidos. De certa maneira, a Teologia da Libertação é uma Teologia da Prosperidade. Porém, não a prosperidade do Ter, mas sim a prosperidade do Ser de forma integral. As pessoas se sentiam reconhecidas como seres humanos e não apenas como mão de obra. Lá elas eram pessoas inteiras e não apenas donas de casa, trabalhadores da construção, empacotadeiras, desempregados, cortadores de cana ou empregadas domésticas. Nas CEBs esses trabalhadores e trabalhadoras se tornavam artistas, lideranças comunitárias, aprendiam sobre os seus direitos e algumas destas pessoas desembocaram na luta política partidária por perceberem que o poder institucional também lhes pertencia.

Os resultados positivos são imensuráveis para a população brasileira. Foi nas CEBs que surgiram muitas lutas que germinaram em movimentos sociais e que resultaram em ganhos concretos. Também não há dúvida de que não teríamos uma onda de governos progressistas nas últimas décadas com as vitórias dos candidatos Lula (Brasil), Rafael Correia (Equador), Fernando Lugo (Paraguai), Evo Morales (Bolívia) e Jean-Bertrand Aristide (Haiti) sem a influência desta corrente teológica. Ela também influenciou religiões não cristãs como podemos ver pela corrente do Budismo Engajado e os grupos mulçumanos na Europa e nos Estados Unidos preocupados com as liberdades individuais e o meio ambiente.

Tamanha influência da Teologia da Libertação começou a chamar a atenção ainda no final dos anos sessenta. Otto Maduro conta em seu livro Religião e luta de classes, como órgãos e governos internacionais de direita financiaram estudos sobre a movimentação de algumas lideranças das igrejas na América Latina por já estarem preocupados com o discurso anticapitalista que começava a permear as pregações religiosas. Claro que o ataque viria em algum momento. A partir dos anos setenta, as acusações na grande mídia contra as lideranças pró-Teologia da Libertação começaram a tomar as páginas dos jornais e das revistas de alcance nacional. Nos anos oitenta, os ataques se intensificaram até que, na década de noventa, esta corrente começou a sofrer a perda de influência nas igrejas como resultado da chegada ao poder de lideranças conservadoras. A Teologia da Libertação sempre foi um empecilho para os grupos opressores porque possibilitava a formação política das pessoas oprimidas e isso podia impedir que esses grupos permanecessem no poder que gozam até hoje. Claro que nem tudo era perfeito. A centralização de poder nas CEBs por parte de alguns ou o aproveitamento político por parte de outros fez parte da jornada dos grupos. Mesmo a ideia repetida por alguns líderes religiosos de que eram “a voz de quem não têm voz”, frase muito difundida durante o auge da Teologia da Libertação, mostra uma certa soberba perante os mais pobres, pois eles têm a sua voz, mas esta não é levada em conta. Somando estas e outras questões, isto não diminui em nada a sua importância.

É óbvio que não defendo o retorno da Teologia da Libertação na forma e no conteúdo das décadas passadas. A realidade é outra e novos pensamentos teológicos libertadores reverberaram em teologias focadas em certos grupos oprimidos, fazendo brotar a Teologia Indígena, Teologia Queer, Teologia Negra e as Teologias Feminista e Ecofeminista, por exemplo. Estes grupos foram buscando respostas às suas indagações e criaram as suas próprias reflexões e ações e isso só enriquece as possibilidades de avanços positivos para as pessoas oprimidas.

Os territórios periféricos e invibilizados ainda sofrem com a perda dos direitos humanos fundamentais enquanto algumas lideranças religiosas conservadoras destes locais se comprometem, conscientemente ou não, com políticos que só farão estes direitos mais distantes das populações que lá vivem. A Teologia da Libertação mostrou que a não negação da fé é elemento importantíssima para a conscientização das pessoas oprimidas em nosso continente por ser parte inerente da vida cotidiana do seu povo. Não podemos deixar este espaço vazio por mais tempo ou as consequências de termos as religiões sequestradas pela extrema direita serão desastrosas.

domingo, 20 de setembro de 2020

Pe. JÚLIO LANCELLOTTI: TEOLOGIA DO CONFLITO A FAVOR DO CRISTIANISMO E DA JUSTIÇA SOCIAL CONTRA O FASCISMO E A OPRESSÃO DOS PODEROSOS. Vídeo do Meteoro Brasil

 

Do Canal Meteoro Brasil:


Conhecido pelo trabalho de assistência social, o padre Júlio Lancellotti sempre precisou viver em conflito com o poder público para fazer o que faz: lutar pela dignidade dos excluídos seguindo o exemplo de Cristo. Agora, os conflitos foram radicalizados e ele passou a receber ameaças sérias de proto-fascistas.



quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Loiro de cabelos compridos? Ou, como um semita do século I, moreno, de cabelos crespos? Um Jesus "vigilante dos corpos", um teólogo sem crítica social ou um defensor explícito dos menos favorecidos e, portanto, um subversivo na ótica das elites dominantes de seu tempo? Afinal, quem foi #JesusCristo?



Imagem relacionada

Loiro, cabelos compridos e barbudo? Ou negro, de cabelos crespos? Um Jesus "vigilante dos corpos" ou um defensor dos menos favorecidos? Afinal, quem foi #JesusCristo? Estas perguntas são o ponto de partido para o papo desta semana no Chega Junto. Um papo que envolve #fé e história. O convidado é o pastor #HenriqueVieira, que também é ator e teólogo. Para ele, "Cristo foi um subversivo" e deixou um legado distorcido, ignorado e até mesmo desrespeitado por muitos daqueles que dizem agir em nome do cristianismo...


Do Canal de Murilo Ribeiro:



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Dom Hélder Câmara e o Brasil hoje, por Urariano Mota



Imagino o libertário Dom Helder Câmara no país destes dias sombrios, hipócritas, de bancada da Bíblia e fundamentalistas

Dom Helder, por Ral

Dom Hélder Câmara e o Brasil hoje

por Urariano Mota

Ontem foi aniversário de Dom Hélder Câmara. Em que tempos ele completou 110 anos!
Imagino Dom Helder Câmara no país destes dias sombrios, hipócritas, de bancada da Bíblia e fundamentalistas. E não é preciso muito imaginar, porque ele já nos respondeu em uma crônica para o rádio em 28 de janeiro de 1977. Da fala e texto, destaco:
“É impressionante como é fácil parecer bom e como é difícil ser justo. Mas Justiça, para muitos, tornou-se uma palavra perigosa e feia”. 
Notaram Sergio Moro e Cia?
E continuou Dom Hélder Câmara para estes dias:
“Meu amigo Luís Antônio meteu na cabeça que falar em Direitos Humanos, bater-se pela justiça, é linguagem de quem, sabendo ou sem saber, está mordido de comunismo. Tentei um dia lembrá-lo: os Direitos Humanos foram proclamados  solenemente pela ONU, inclusive pelo Brasil”
Sim, ministrinho medíocre das relações exteriores. Sim, bancada da bala e da bíblia prestem atenção na fala acima de 1977. E continuou Dom Hélder a falar para o Brasil de hoje:
“Meu amigo Luís Antônio comentou:  ‘a idéia de Direitos Humanos foi generosa e justa, mas os comunistas se meteram no meio’.  Ele acha que os Papas se deixaram iludir por esquerdistas, que se a Igreja se preocupar com os Direitos do Homem e com a justiça como condições para a paz, não será mais a Igreja de Cristo. Luís Antônio, cuidado! Você quer é que a Igreja dê cobertura a seus interesses bastante egoístas”
Eu poderia parar aqui. Nos parágrafos acima, Dom Hélder já falou o essencial para os religiosos atrasados do Congresso Nacional. Já expressou muito bem as trevas dos bolsonaristas, bolsomínios, que viraram um palavrão. Mas posso ir um pouquinho mais para situar o profeta destes dias, quando ele falava sobre o Brasil da ditadura.
Lembro-me de Dom Hélder Câmara em duas ocasiões. Na primeira delas, nos anos 70, a repressão política havia aprisionado vários auxiliares dele, poucos anos depois de haver assassinado o Padre Henrique, auxiliar direto do seu trabalho na Arquidiocese.
Nessa ocasião, em que o vi pela primeira vez, pude notar um dom desse padre poucas vezes mencionado. Dom Hélder era um orador excepcional.  Franzino, baixinho, havia um cérebro de pensador na sua voz, um talento de ator que o fazia crescer com uma dicção a acentuar as palavras conforme o seu desejo. Ele fazia pausas no discurso, intervalos cujo único fim era imprimir o seu pensamento em nossos espíritos.
A Vida é um dom divino. É o nosso Deus, o nosso Criador e Pai que nos chama à Vida. Ele veio à terra para que todos tenham Vida e Vida plena… Ora, a Vida está sendo atingida, aviltada, ameaçada de extinção”
 No discurso vivo de Dom Hélder havia uma chama calorosa, que os crentes e ele próprio diriam ser um fogo do Espírito Santo, que tomava conta do seu rosto, da sua expressão, de suas palavras. Com os olhos graúdos, sem gritar, ele comovia a todos. Para falar do afeto que nos unia aos presos, da nossa comum preocupação, para ressaltar que éramos solidários, ele fez com que todos cantássemos o “Como vai você?”, de Antonio Marcos, que era sucesso na voz de Roberto Carlos:
“Como vai você?
Eu preciso saber da sua vida.
Peça a alguém pra me contar
Sobre o seu dia.
Anoiteceu e eu preciso de saber”
Da segunda vez, eu não o vi, mas pude ouvi-lo no rádio. Dom Helder perguntava no ar:
“O que fazer quando as flores murcham? Uma roseira já me perguntou se eu acredito que Deus ressuscitará também as flores…Os teólogos que me perdoem, se é teologicamente sem base o que vou dizer: eu não posso imaginar um céu sem flores.
O que fazer quando as flores murcham? O que responder a uma roseira sozinha, que não terá um Deus a seu lado na ressurreição, porque um dia ela será murcha?”.
E respondia o poeta Hélder Câmara:  “Eu não posso imaginar um céu sem flores”.
Hoje, continuamos a sua fala: nós não podemos imaginar um mundo, em qualquer céu, onde não caibam todas as diferenças. E mais. Pois assim como existem urtigas entre as flores de humanidade, também existe chão até para os fanáticos da bíblia, aquela que se lê com preconceito e fundamentalismo. Mas em seu devido lugar: fora do poder de nos obrigar a seu atraso. As flores de Dom Hélder pedem passagem.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Reportagem-entrevista celebra os 80 anos de Leonardo Boff


"A morte pertence à vida. É seu ponto culminante. Ela nos permite dar um salto para o outro lado de nós mesmos, invisível a nós, mas real". Entrevista especial com Leonardo Boff


Reprodução Facebook
 
 
 
Por: João Vitor Santos, Patricia Fachin e Wagner Fernandes de Azevedo
 
A Teologia não deve ser uma ciência fechada e encastelada, assim como a Igreja não tem de ser algo posto no olimpo, num nível quase inatingível que a afasta das realidades. São essas as perspectivas que orientam as concepções de Leonardo Boff. “A teologia sempre é possível e deve ser feita para responder com sentido crítico às demandas derradeiras da condição humana, mas ela deve desembocar numa espiritualidade”, define. Reconhecido como um dos maiores nomes da teologia brasileira e um dos principais pensadores da Teologia da Libertação, Leonardo está completando 80 anos hoje, dia 14 dezembro. Para ele, um momento de revisitar pensamentos e de se conectar com o que ainda há de vir. “Estou convencido mais e mais de que a solicitação maior não é por teologia, mas por espiritualidade. Todos estão saturados de mil mensagens de todo tipo, cansados de discursos religiosos, de encíclicas e coisas do gênero. Não querem mais que se fale sobre Deus, mas pedem como experimentar Deus realmente”, observa.
 
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele recorda os primeiros movimentos que deram origem ao que se irá formular como a Teologia da Libertação. “A teologia estava na academia e a pastoral no meio do povo e dos operários. Não se escutavam”, lembra. E acrescenta que “dom Helder [Câmara] foi o primeiro a perceber que o nosso desenvolvimento significava um desenvolvimento do subdesenvolvimento” e que, por isso, era necessário conceber uma nova forma de ser Igreja que desse conta das duras realidades de países periféricos. “Não tivemos mestres específicos. Foi a inserção dos teólogos no meio dos pobres, onde descobrimos o Cristo crucificado que devia ser baixado da Cruz e de nossos bispos proféticos que corajosamente defendiam os direitos humanos, sob a opressão da ditadura militar”, observa.
 
Entretanto, reconhece que a atuação de leigos foi fundamental para atualizar essa necessidade de “ser Igreja”. “A Teologia da Libertação não seria o que foi e como hoje é se não fosse a presença de Paulo Freire com seu método libertador e seus dois clássicos”, acrescenta. E define: “a Teologia da Libertação não é uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza e optando pelos condenados da Terra”. A quem ainda vê, nessa forma de pensar, apenas um instrumental marxista, responde que “Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação”. “Mas há que reconhecer que Marx nos ajudou a ver no pobre não apenas um pobre, mas alguém feito pobre”, dispara.
 
Além de uma avaliação dessa experiência acerca da Teologia da Libertação – que para ele tem como principal reconhecimento a eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa, pois considera que ele “provém do caldo cultural da Teologia da Libertação” –, Leonardo também retoma conceitos que são importantes para sua concepção de cristianismo. Entre eles, o da morte. “Para mim, a morte pertence à vida. É seu ponto culminante”, pontua. Afinal, segundo ele, “a Ressurreição de Jesus nos veio mostrar esse outro lado nosso: a irrupção do “novissimus Adam”, a emergência do ser novo, unido à realidade divina”.
 
Por fim, falar em Leonardo Boff é também falar em ecologia, ou nos cuidados da Casa Comum, como ele diz. Aliás, numa outra concepção de pensamento ecológico, até então, pouco usual. “Dei-me conta de que não somente as florestas gritam, gritam também os animais, as águas, os solos e os ares. Todos são explorados pelo ser humano na sua voracidade de buscar comodidades e riqueza. O planeta Terra é o mais explorado de todos. Ele já está perdendo a sustentabilidade”, lembra. Assim, numa outra cosmovisão, ele tensiona a tomar esta também como uma das questões a serem abarcadas por uma teologia em sintonia com os problemas do mundo. “Dentro da opção pelos pobres, devemos incluir o Grande Pobre que é a nossa Mãe Terra. Daí nasceu uma Ecoteologia da Libertação”, pontua.
 
Leonardo Boff é doutor em teologia pela Universidade de Munique, na Alemanha. Foi professor de teologia sistemática e ecumênica com os Franciscanos em Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Referência no campo da Teologia, é um dos fundadores da Teologia da Libertação. Em 1985, foi condenado a um ano de silêncio obsequioso pelo ex-Santo Ofício, por suas teses no livro Igreja: carisma e poder (Record). A partir da década de 1980, dedicou-se à questão ecológica como prolongamento da Teologia da Libertação. Foi membro da Ordem dos Frades Menores (franciscanos) até 1992, quando pediu seu desligamento da congregação e do sacerdócio, dedicando-se exclusivamente aos estudos teológicos. Agora em 2018, quando celebra seus 80 anos de vida, está lançando Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018).
 
Entre os inúmeros livros publicados, destacamos: Ecologia, Mundialização, Espiritualidade (Rio de Janeiro: Record, 1993), Civilização planetária (Rio de Janeiro: Sextante, 1994), A voz do arco-íris (Rio de Janeiro: Sextante, 2000), Saber cuidar (Ed. 20. Petrópolis: Vozes, 2014), Ética e ecoespiritualidade (Petrópolis: Vozes, 2011), Homem: satã ou anjo bom (Rio de Janeiro: Record, 2008), Evangelho do Cristo cósmico (Rio de Janeiro: Record, 2008), Do iceberg à Arca de Noé (Rio de Janeiro: Sextante, 2002), Opção Terra. A solução da Terra não cai do céu (Rio de Janeiro: Sextante, 2009), Proteger a Terra-cuidar a vida. Como evitar o fim do mundo (Rio de Janeiro: Record, 2010), Ecologia: grito da Terra, grito do pobre (Petrópolis: Vozes, 1995), além de Reflexões de um velho teólogo e pensador (Petrópolis: Vozes, 2018).
 
Assista ao testemunho do entrevistado durante a comemoração dos seus 80 anos realizada, em 07 de dezembro, pela Editora Vozes e Instituto Teológico Francisco, em Petrópolis, no Rio de Janeiro:
 
 
 
Confira a entrevista.
IHU On-Line – A Teologia da Libertação trouxe uma outra percepção do “ser Igreja” num momento, especialmente no Brasil, de grande dureza. Gostaria que o senhor recuperasse esse momento e nos contasse quais as fontes, autores e teóricos, que inspiraram esse primeiro grupo que apostou nessa perspectiva teológica?
 
Leonardo Boff – A Teologia da Libertação nasceu da preocupação da Igreja com a pobreza das grandes maiorias empobrecidas. Foram os profetas da Igreja como dom Helder Câmara, dom José Maria Pires, dom Antônio Fragoso, dom Pedro Casaldáliga, cardeal dom Paulo Evaristo Arns, entre outros, que sentiram que a missão da Igreja junto aos pobres devia ser libertadora e não mais assistencialista. Dom Helder foi o primeiro a perceber que o nosso desenvolvimento significava um desenvolvimento do subdesenvolvimento. Deveríamos fazer não uma teologia do desenvolvimento, mas da libertação das amarras que nos prendiam a um tipo de desenvolvimento feito à custa dos muitos pobres em favor de poucos ricos. Numa reunião de bispos do Conselho Episcopal Latino-Americano – Celam em Montevidéu no final dos anos 1960, caiu da boca de dom Helder a palavra libertação. Ela foi retomada por Gustavo Gutiérrez quando ele, estando em Itaipava-Petrópolis, numa reunião de bispos latino-americanos que faziam um balanço das sessões do Vaticano II , falou que a missão da Igreja em nosso Continente empobrecido deveria ser libertadora.
 
Depois, em 1971, em Lima, lançou seu livro-fundador “Teologia da libertação: perspectivas” (São Paulo: Loyola, 1999). Eu, sem saber nada dele, escrevia cada mês, na revista para religiosas Sponsa Christi, artigos sobre Jesus Cristo Libertador. Fazia-o para escapar da repressão dos militares, pois a palavra libertação era proibida. Em janeiro de 1972, reuni os artigos e saiu o livro “Jesus Cristo Libertador” (Petrópolis, RJ: Vozes, 1972) , tido como iniciador no Brasil desse tipo de teologia.
 
Inspirações
Não tivemos mestres específicos. Foi a inserção dos teólogos no meio dos pobres, onde descobrimos o Cristo crucificado que devia ser baixado da Cruz e de nossos bispos proféticos que corajosamente defendiam os direitos humanos, sob a opressão da ditadura militar. Aqui cabe dizer: a Teologia da Libertação não seria o que foi e como hoje é se não fosse a presença de Paulo Freire com seu método libertador e seus dois clássicos “Pedagogia do oprimido” e “Educação como prática da liberdade”.
 
Ele sempre se considerou, como cristão, um dos fundadores da Teologia da Libertação. Nele descobrimos o método: de sempre escutar primeiramente o povo, depois pensar e elaborar o que recolhemos. Freire nos ajudou a assumir o método da Ação Católica mundial do ver, julgar, agir e celebrar (isso é acréscimo da Teologia da Libertação).
 
Em segundo lugar, está o principal da Teologia da Libertação, sem o qual não se pode falar em libertação: a opção especial pelos pobres, contra sua pobreza e pela justiça social que significa verdadeira libertação. Os sujeitos dessa libertação, isso aprendemos de Paulo Freire e da prática pastoral junto aos oprimidos, são os pobres mesmos quando conscientizados e organizados. Nós entramos pela porta de trás e como força auxiliar. Portanto, a Teologia da Libertação não é uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza e optando pelos condenados da Terra.
 
Sem esse amor pelos mais desvalidos e sem a experiência espiritual de ver neles a atualização da Paixão de Cristo, nunca teria nascido a Teologia da Libertação. Sem o amor e sem espiritualidade a Teologia da Libertação não teria conservado seu caráter eminentemente teológico com efeito claramente social, pois a libertação constitui um valor social em si mesmo, mesmo nascida de uma prática religiosa.
 
Reações da Igreja

Infelizmente, as autoridades doutrinais da Igreja não se deram conta dessa base espiritual e passaram a considerar a Teologia da Libertação, segundo diziam, como um cavalo de Troia mediante o qual o marxismo entraria na América Latina. Eles tinham boa intenção, só que essa intenção não era boa, pois começaram a censurar teólogos e bispos.
 
Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática de Jesus e dos apóstolos que estão na base desta Teologia. Mas há que reconhecer que Marx nos ajudou a ver no pobre não apenas um pobre, mas alguém feito pobre, portanto, um empobrecido, vale dizer, um oprimido por um sistema que explora seu trabalho e lhe suga o sangue. Clique aqui para continuar lendo.