Do Canal ICL:
Do Canal de Flávio Ricardo Vassoler:
Da TV Boitempo:
Em LACAN E A DEMOCRACIA, o professor e psicanalista Christian Dunker mostra como a psicanálise contribui para a tradição crítica, para a reflexão histórica sobre a democracia e também para a revalorização da palavra em sua ação direta pelos sujeitos. Fundamentado na convergência de diferentes esforços para pensar o que seria uma política que tem a psicanálise como alicerce, o autor joga luz ao empenho de Jacques Lacan em inscrever a psicanálise na tradição das luzes, no debate da ciência e no crivo da razão.
CHRISTIAN DUNKER é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), obteve o título de livre-docente em psicologia clínica após realizar pós-doutorado na Manchester Metropolitan University (2003). Atualmente é analista membro de Escola do Fórum do Campo Lacaniano. Tem experiência na área clínica com ênfase em psicanálise, atuando principalmente com estrutura e epistemologia da prática clínica, teoria da constituição do sujeito, metapsicologia, filosofia da psicanálise e ciências da linguagem. Coordena, ao lado de Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip-USP). Autor de várias obras, pela Boitempo publicou Mal-estar, sofrimento e sintoma (2015), livro ganhador do prêmio Jabuti em 2016 na categoria psicologia, psicanálise e comportamento, e A arte da quarentena para principiantes (2020). JONES MANOEL é historiador e mestre em serviço social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), comunicador, educador popular e militante do PCB. ANDREA DIP é diretora e editora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo. Trabalha como jornalista com foco em direitos humanos desde 2001 e desde então recebeu 16 prêmios de jornalismo. Em 2018, publicou seu primeiro livro "Em nome de quem?'' A bancada evangélica e seu projeto de poder". Mantém coluna semanal no UOL e pesquisa gênero, política e avanço do fundamentalismo religioso na América Latina.
Colunista Lucio Mauro afirma que, no "imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória".
(Foto: Divulgação / Reuters)Do 247:
Não faz muito tempo que me perguntaram sobre o porquê de acreditar que não se deve olhar com olhos demasiadamente no passado quando se quer pensar as recentes rupturas e abalos que países diversos vêm sofrendo em suas estruturas sociopolíticas, uma vez sendo essas, alvos de manobras típicas de guerras híbridas.
Indo ao ponto, sem pretender esgotar a questão, creio que esses movimentos vigentes, de caráter disruptivo, trouxeram consigo transformações bastante radicais, que dizem respeito às comunicações, aos relacionamentos interpessoais, aos novos canais e superfícies através das quais se estabelecem laços e contatos.
Os movimentos em curso apresentam diferenças sensíveis entre si. Eles são adaptados às particularidades culturais de cada uma das demografias alvo e das já atingidas. Hoje, esses eventos estão fortemente marcados e influenciados pelo poder de alcance da internet, esse imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória. A pseudoliberdade disseminou a ideia de que as conexões virtuais seriam capazes de levar as pessoas onde elas desejassem ir, através de navegações sem barreiras e fronteiras1.
Do percurso iniciado junto ao encantamento dessa ilusão de liberdade até o ponto dos atuais golpes, revoluções coloridas e guerras em rede, estamos descobrindo que não há transparência, de fato, nos processos virtuais estabelecidos na grande rede. Em contrapartida, paga-se um preço alto no mercado capitalista das emoções, onde outra espécie de transparência se apoia na produção de uma exposição incessante de usuários que são exortados a falar, a postar, a se expor, a curtir, a compartilhar, a vigiar e ser vigiado, a consumir e ser consumido.
Para se construir relações menos invasivas, violentas ou sujeitas à manipulação e controle em rede, não basta criar normas reguladoras específicas que barrem e punam excessos e ações criminosas. Ainda que já se tenha conhecimento sobre o vazamento de dados de pessoas pelo Facebook e da participação de agências privadas, com financiamentos milionários, em eleições de diversos países (algumas dessas, detentoras de know-how na aplicação de “operações psicológicas” [PSYOPs] para fins variados), os usuários permanecem sem nenhum preparo para se proteger no ambiente virtual.
A velocidade e a capacidade de alcance da comunicação que são características da grande web constituíram um campo fértil para o surgimento e a proliferação de agências especializadas em análises psicossociais e métodos pautados em psicometria, capazes de fabricar campanhas de propaganda usando enormes bancos de dados com perfis psicológicos detalhados de milhares de potenciais eleitores e consumidores.
Em sua página na internet, uma dessas conhecidas agências propagandeia como conseguiu operacionalizar estratégias personalizadas para manipular e influenciar nos resultados das campanhas eleitorais e plebiscitárias em diversos países. E, ao visitar outra dessas páginas, de uma diferente empresa do mesmo ramo, causa perplexidade constatar a presença de estrategistas militares compondo o seu portfólio de profissionais, lado a lado com psicólogos e analistas de dados, o que leva a concluir que essa modalidade de comunicação, ancorada no uso indevido de informações pessoais, tornou-se, de fato, um artefato de guerra.
Ainda não se pode prever as reais consequências desse tipo de instrumentação das linguagens, que permanecem sem a devida regulação, no que toca as estruturas das democracias do modo que até então as conhecemos.
A grande rede e seus diversos sítios, como as plataformas sociais, não são acessíveis de imediato. São, na realidade, espaços normalmente mediados por sistemas operacionais comercializados (pagos), como os da Microsoft (Windows) e da Apple (MacOS), ou de software livre e código aberto, normalmente gratuitos e mantidos por comunidades de desenvolvedores, como é o caso das diversas distribuições Linux. Desse modo, fica a reflexão se o caminho para projetar uma supressão de manipulações indevidas de dados, de controle e vigilância expositiva na internet, passa por um movimento de desassociação das redes sociais, ou se é necessário, também, um aprofundamento maior sobre o funcionamento dos programas que fazem parte da mediação entre os indivíduos e a grande rede.
Em suma, além da necessidade de uma regulamentação de proteção de dados pessoais dos usuários, com as devidas sanções legais, faz-se necessário também que se insira no processo de conhecimento da linguagem esse novo tipo de comunicação. A comunicação em rede e a sua articulação nas modalidades de linguagem falada, escrita e imagética, muitas vezes conjugadas.
O conhecimento liberta. Saiba mais

Como o ser social existente é abraçado e, assim, tomado até certo ponto por essa racionalidade? Afirmam eles que é por meio da construção de ficções socialmente plausíveis e eficazes, as quais funcionam como “modelos” e/ou “espelhos” para os seres humanos reais. O velho liberalismo, fundado no utilitarismo, criou o homem econômico racional. A socialdemocracia inventou o homem funcional e o homem administrativo. O neoliberalismo cunhou o homem como empresário de si mesmo. Este último foi capaz de se apropriar de uma tradição que se inicia no século XVII e XVIII e permanece em vigor até agora, modificando-a conforme a necessidade do momento histórico.Isto significa que as mudanças subjetivas que se pode verificar nos homens e nas mulheres do nosso tempo, alterações que abarcam a forma de viver, mas também de sofrer, não são meras consequências ou efeitos secundários de um sistema. Ao contrário, a produção da subjetividade é um elemento fundamental em sua reprodução e expansão. Para dizer brevemente, um novo sujeito assume em si e por si mesmo os objetivos e os funcionamentos do sistema, converte-se em agente principal de sua expansão. Nessa perspectiva, para falar em termos marxistas, não se trata de pensar apenas que há um modo de produção que se reflete nas formas de consciência, mais ou menos alienadas. Mas sim, de um modo de subjetividade, um modo de vida, que é essencial ao próprio modo de produção, assim como chave para que ele se imponha em nível planetário.
“A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer”; “o princípio da utilidade [ou maior felicidade] reconhece essa sujeição e a coloca como fundamento desse sistema, cujo objetivo consiste em construir o edifício da felicidade por meio da razão e da lei”. Ademais, “a comunidade constitui um corpo fictício, composto por pessoas individuais que se consideram como seus membros”.
O utilitarismo de Bentham (…) definiu uma nova figura do homem, uma figura antropológica específica: o “homem econômico”. Essa figura nasceu de um discurso que explica como o ser humano trabalha, que concebe o homem como uma pequena máquina de prazer e sofrimento, um ser de cálculo que é governado em todas as coisas pelo seu interesse e que, pela mesma razão, é governável por meio do referido interesse. Essa invenção da ficção do homem econômico foi o fundamento e a estrutura para justificar e promover o que mais tarde foi chamado capitalismo.

