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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Chico Pinheiro entrevista Leonardo Boff

 

Do Canal ICL:




segunda-feira, 6 de junho de 2022

Leitura de Flávio Ricardo Vassoler: Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung

 

Do Canal de Flávio Ricardo Vassoler:


Leitura de fragmentos da autobiografia "Memórias, sonhos, reflexões" (1961), do psicanalista, psiquiatra e espiritualista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Link para o livro "Memórias, sonhos, reflexões", de Jung, a partir do site da Amazon: https://amzn.to/3pqceCZ



quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O Professor e psicanalista Christian Dunker debate com o historiador Jones Manoel, mediados pela jornalista Andrea Dip, sobre o surgimento do discurso de ódio e o neofascismo na política

 

Da TV Boitempo:

Em LACAN E A DEMOCRACIA, o professor e psicanalista Christian Dunker mostra como a psicanálise contribui para a tradição crítica, para a reflexão histórica sobre a democracia e também para a revalorização da palavra em sua ação direta pelos sujeitos. Fundamentado na convergência de diferentes esforços para pensar o que seria uma política que tem a psicanálise como alicerce, o autor joga luz ao empenho de Jacques Lacan em inscrever a psicanálise na tradição das luzes, no debate da ciência e no crivo da razão.

CHRISTIAN DUNKER é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), obteve o título de livre-docente em psicologia clínica após realizar pós-doutorado na Manchester Metropolitan University (2003). Atualmente é analista membro de Escola do Fórum do Campo Lacaniano. Tem experiência na área clínica com ênfase em psicanálise, atuando principalmente com estrutura e epistemologia da prática clínica, teoria da constituição do sujeito, metapsicologia, filosofia da psicanálise e ciências da linguagem. Coordena, ao lado de Vladimir Safatle e Nelson da Silva Jr., o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip-USP). Autor de várias obras, pela Boitempo publicou Mal-estar, sofrimento e sintoma (2015), livro ganhador do prêmio Jabuti em 2016 na categoria psicologia, psicanálise e comportamento, e A arte da quarentena para principiantes (2020). JONES MANOEL é historiador e mestre em serviço social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), comunicador, educador popular e militante do PCB. ANDREA DIP é diretora e editora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo. Trabalha como jornalista com foco em direitos humanos desde 2001 e desde então recebeu 16 prêmios de jornalismo. Em 2018, publicou seu primeiro livro "Em nome de quem?'' A bancada evangélica e seu projeto de poder". Mantém coluna semanal no UOL e pesquisa gênero, política e avanço do fundamentalismo religioso na América Latina.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Ilusão de liberdade e manipulação na grande rede virtual. Por Lucio Lauro Massafferri Salles, psicanalista e filósofo

 

Colunista Lucio Mauro afirma que, no "imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória". 

(Foto: Divulgação / Reuters)

Do 247:

Não faz muito tempo que me perguntaram sobre o porquê de acreditar que não se deve olhar com olhos demasiadamente no passado quando se quer pensar as recentes rupturas e abalos que países diversos vêm sofrendo em suas estruturas sociopolíticas, uma vez sendo essas, alvos de manobras típicas de guerras híbridas. 

Indo ao ponto, sem pretender esgotar a questão, creio que esses movimentos vigentes, de caráter disruptivo, trouxeram consigo transformações bastante radicais, que dizem respeito às comunicações, aos relacionamentos interpessoais, aos novos canais e superfícies através das quais se estabelecem laços e contatos.

Os movimentos em curso apresentam diferenças sensíveis entre si. Eles são adaptados às particularidades culturais de cada uma das demografias alvo e das já atingidas. Hoje, esses eventos estão fortemente marcados e influenciados pelo poder de alcance da internet, esse imenso sistema global de conexões em rede que, em sua nascente, chegou a propor uma liberdade total que se mostrou ilusória. A pseudoliberdade disseminou a ideia de que as conexões virtuais seriam capazes de levar as pessoas onde elas desejassem ir, através de navegações sem barreiras e fronteiras1.

Do percurso iniciado junto ao encantamento dessa ilusão de liberdade até o ponto dos atuais golpes, revoluções coloridas e guerras em rede, estamos descobrindo que não há transparência, de fato, nos processos virtuais estabelecidos na grande rede. Em contrapartida, paga-se um preço alto no mercado capitalista das emoções, onde outra espécie de transparência se apoia na produção de uma exposição incessante de usuários que são exortados a falar, a postar, a se expor, a curtir, a compartilhar, a vigiar e ser vigiado, a consumir e ser consumido.

Para se construir relações menos invasivas, violentas ou sujeitas à manipulação e controle em rede, não basta criar normas reguladoras específicas que barrem e punam excessos e ações criminosas. Ainda que já se tenha conhecimento sobre o vazamento de dados de pessoas pelo Facebook e da participação de agências privadas, com financiamentos milionários, em eleições de diversos países (algumas dessas, detentoras de know-how na aplicação de “operações psicológicas” [PSYOPs] para fins variados), os usuários permanecem sem nenhum preparo para se proteger no ambiente virtual. 

A velocidade e a capacidade de alcance da comunicação que são características da grande web constituíram um campo fértil para o surgimento e a proliferação de agências especializadas em análises psicossociais e métodos pautados em psicometria, capazes de fabricar campanhas de propaganda usando enormes bancos de dados com perfis psicológicos detalhados de milhares de potenciais eleitores e consumidores.

Em sua página na internet, uma dessas conhecidas agências propagandeia como conseguiu operacionalizar estratégias personalizadas para manipular e influenciar nos resultados das campanhas eleitorais e plebiscitárias em diversos países. E, ao visitar outra dessas páginas, de uma diferente empresa do mesmo ramo, causa perplexidade constatar a presença de estrategistas militares compondo o seu portfólio de profissionais, lado a lado com psicólogos e analistas de dados, o que leva a concluir que essa modalidade de comunicação, ancorada no uso indevido de informações pessoais, tornou-se, de fato, um artefato de guerra. 

Ainda não se pode prever as reais consequências desse tipo de instrumentação das linguagens, que permanecem sem a devida regulação, no que toca as estruturas das democracias do modo que até então as conhecemos.

A grande rede e seus diversos sítios, como as plataformas sociais, não são acessíveis de imediato. São, na realidade, espaços normalmente mediados por sistemas operacionais comercializados (pagos), como os da Microsoft (Windows) e da Apple (MacOS), ou de software livre e código aberto, normalmente gratuitos e mantidos por comunidades de desenvolvedores, como é o caso das diversas distribuições Linux. Desse modo, fica a reflexão se o caminho para projetar uma supressão de manipulações indevidas de dados, de controle e vigilância expositiva na internet, passa por um movimento de desassociação das redes sociais, ou se é necessário, também, um aprofundamento maior sobre o funcionamento dos programas que fazem parte da mediação entre os indivíduos e a grande rede.

Em suma, além da necessidade de uma regulamentação de proteção de dados pessoais dos usuários, com as devidas sanções legais, faz-se necessário também que se insira no processo de conhecimento da linguagem esse novo tipo de comunicação. A comunicação em rede e a sua articulação nas modalidades de linguagem falada, escrita e imagética, muitas vezes conjugadas.

O conhecimento liberta. Saiba mais

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A formação do ser neoliberal, por Eleutério F. S. Prado, no Outras Palavras



Empresário de si mesmo. Iludido pelo consumo. Alienado da natureza. Suscetível a seitas que o impedem de desabar. Em novo livro, Pierre Dardot e Christian Laval mostram como a nova racionalidade capitalista criou o sujeito que a reproduz



Por Eleutério F. S. Prado
Os economistas de direita costumam ridicularizar a ideia de economista neoliberal, assim como o conceito de neoliberalismo. Será que eles são apenas competentes na formulação e na aplicação de teorias econômicas ou, ademais, eles são na verdade bons produtores de fake-theories que são funcionais – isto é, permitem que as coisas funcionem melhor e de acordo com as conveniências do sistema econômico ora existente? É preciso examinar isto cuidadosamente.
No livro El ser neoliberal (Gedisa, 2018), publicado na Espanha, os pesquisadores franceses Pierre Dardot e Christian Laval mais uma vez interpretam o neoliberalismo, não como uma ideologia, mas como uma racionalidade e uma mentalidade que se impõe. Uma ideologia é uma representação do mundo – nele baseada, mas em última análise falsa ou apenas aparente. Uma racionalidade é algo que constitui o ser social em sua prática cotidiana, posta historicamente por meio de práticas de poder que, segundo Foucault, são também formas de governar as mentalidades.
O modo de produção capitalista sob a regência do neoliberalismo é, segundo os autores, inseparável da produção contínua de uma subjetividade apropriada. No referido livro, Dardot e Laval travam um diálogo com o psicanalista espanhol Enric Berenguer sobre essa questão. Como pano de fundo, esses três intelectuais encontram-se claramente preocupados não só com os sintomas mórbidos que proliferam na sociedade atual, mas também, principalmente, com a forte deterioração da democracia liberal em quase todos os países do Ocidente. Tomando tudo isso como um sintoma, eles analisam o neoliberalismo como um modo de constituição de um novo sujeito. Eis como Berenguer resume a abordagem psicossocial e crítica dos dois autores franceses:
Isto significa que as mudanças subjetivas que se pode verificar nos homens e nas mulheres do nosso tempo, alterações que abarcam a forma de viver, mas também de sofrer, não são meras consequências ou efeitos secundários de um sistema. Ao contrário, a produção da subjetividade é um elemento fundamental em sua reprodução e expansão. Para dizer brevemente, um novo sujeito assume em si e por si mesmo os objetivos e os funcionamentos do sistema, converte-se em agente principal de sua expansão. Nessa perspectiva, para falar em termos marxistas, não se trata de pensar apenas que há um modo de produção que se reflete nas formas de consciência, mais ou menos alienadas. Mas sim, de um modo de subjetividade, um modo de vida, que é essencial ao próprio modo de produção, assim como chave para que ele se imponha em nível planetário.
 Como o ser social existente é abraçado e, assim, tomado até certo ponto por essa racionalidade? Afirmam eles que é por meio da construção de ficções socialmente plausíveis e eficazes, as quais funcionam como “modelos” e/ou “espelhos” para os seres humanos reais. O velho liberalismo, fundado no utilitarismo, criou o homem econômico racional. A socialdemocracia inventou o homem funcional e o homem administrativo. O neoliberalismo cunhou o homem como empresário de si mesmo. Este último foi capaz de se apropriar de uma tradição que se inicia no século XVII e XVIII e permanece em vigor até agora, modificando-a conforme a necessidade do momento histórico.
Essa técnica de formação do ser social e, assim, da conformação da própria sociedade nasce junto com o capitalismo. Veja-se brevemente como o homem econômico é projetado nos Princípios sobre moral e legislação de Jeremy Bentham (autor que viveu entre 1748 e 1832):
“A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer”; “o princípio da utilidade [ou maior felicidade] reconhece essa sujeição e a coloca como fundamento desse sistema, cujo objetivo consiste em construir o edifício da felicidade por meio da razão e da lei”. Ademais, “a comunidade constitui um corpo fictício, composto por pessoas individuais que se consideram como seus membros”.
Ou seja, a comunidade não é comunidade, mas um mero agregado de indivíduos racionais que buscam o auto-interesse.
Para Dardot e Laval, o próprio homem se inventou na época moderna por meio do discurso da ciência. Assim, o utilitarismo, o liberalismo e, depois, o neoliberalismo, são encarados por eles não como meras ideologias ou meras fonte de políticas econômicas, mas como práticas históricas que modificam a sociedade e os próprios seres humanos de acordo com as necessidades do sistema econômico. Eis o que dizem:
O utilitarismo de Bentham (…) definiu uma nova figura do homem, uma figura antropológica específica: o “homem econômico”. Essa figura nasceu de um discurso que explica como o ser humano trabalha, que concebe o homem como uma pequena máquina de prazer e sofrimento, um ser de cálculo que é governado em todas as coisas pelo seu interesse e que, pela mesma razão, é governável por meio do referido interesse. Essa invenção da ficção do homem econômico foi o fundamento e a estrutura para justificar e promover o que mais tarde foi chamado capitalismo.
Segundo Dardot e Laval, o utilitarismo é o berço do homem econômico racional, mas não a forma última de embalá-lo. O liberalismo do século XIX transformou-se no neoliberalismo do século XX sem que o fundamento utilitarista fosse abandonado. Se o indivíduo fictício como tal sofreu uma certa mudança, o individualismo e egocentrismo não foram abandonados. Na condição ainda de calculista inveterado, o otimizador continua sendo a base lógica da alocação de recursos escassos entre fins alternativos. Proposição esta que supostamente resume a tarefa da Economia e dos economistas.
No último quartel do século XIX, a teoria neoclássica substituiu a economia política clássica no discurso econômico dominante; com ela, a linguagem da matemática, que se orgulha de sua exatidão formal, invadiu os textos na construção das teorias. Assim, o homem econômico passou a ter racionalidade perfeita. Ora, essa ficção de um ser individual que maximiza utilidade continua presente na teoria econômica atual – e não só nos livros de economia. Eis que ele se impõe até certo ponto como forma de comportamento também á sociedade. Ademais, os economistas, com base nele, se apresentam como os profissionais que, mais do que nunca, fornecem a racionalidade decisória que determina os meios e os fins legítimos da ação governamental.
Mesmo se o homem econômico permanece como fundamento do discurso dominante, no curso da segunda metade do século XX apareceu em paralelo uma nova figura de ser racional, o homem econômico transfigurado em homem-empresa, naquele que se vê como capital humano e que, tal como o capital industrial, precisa se valorizar constantemente. Trata-se, é certo, de uma nova ficção que vem para revalorizar a concorrência capitalista real, já que a teoria neoclássica a havia suprimido por meio da noção de concorrência perfeita. Já não se trata de “uma maquininha homeostática que tende, tal como o próprio mercado, ao equilíbrio”. Ao invés, o que se tem agora é o empreendedor que tem como tarefa “produzir o desequilíbrio, romper sempre a rotina, gerar inovação, mantendo sempre a capacidade de se adaptar ao movimento perpétuo do capital.”
Esse novo homem econômico, portanto, é aquele que, subjetivamente, vê-se como uma empresa. Essa nova ficção abandona a racionalidade perfeita para adotar uma racionalidade constrangida pela incapacidade de obter informação completa sobre as condições em que supostamente acontece a ação econômica. De qualquer modo, ele continua sendo o homem que busca sempre mais, mais utilidade, mais consumo, mais dinheiro, mais capital de modo insaciável.
Ao lado do homem-empresa ascendeu, no capitalismo da segunda metade do século XX, o consumidor voraz que assim se comporta na vida cotidiana segundo a própria lógica da acumulação de capital – uma lógica que, como se sabe, tem-se por ilimitada. O próprio capitalismo constrói o indivíduo consumidor que precisa para o seu próprio movimento acumulativo. E ele aproveita, para tanto, a pulsão que mora no ser humano real. “Como todo trabalho é uma renúncia ao gozo, no consumo, no mercado de bens, há uma busca vã de recuperar o gozo perdido, o qual pode ser qualificado como um ‘mais-gozar’”. Assim, “para o proletário” – dizem eles –, “trata-se finalmente de consumir cada vez mais com o objetivo de se converter, imaginariamente, em um capitalista”.
Assim como a lógica do capital acaba sendo cada vez mais destrutiva do mundo natural e do mundo social, a lógica do consumismo, do mais-consumo, termina destruindo a individualidade real e mesmo, eventualmente, o ser vivo como tal. Ora, o homem-consumidor, como se sabe, é um produto da governamentalidade posta pela propaganda e pelo marketing que a imprensa corporativa, a qual se esmera em gritar “liberdade” e “democracia” a todo momento, não para nunca de propagar. Assim, é claro, ela sabota a verdadeira liberdade e a verdadeira democracia porque estas pressupõem uma certa autonomia das pessoas e uma formação da vontade que emerge das interações comunicativas delas mesmas.
A discussão travada por Dardot e Laval enfrenta também a questão do crescimento dos fundamentalismos, em particular, da expansão das seitas evangélicas e pentecostais. Para eles, essa difusão não é incompatível com o capitalismo neoliberal – ao contrário, é-lhe necessária e funcional. Formam um mercado da fé que acaba cumprindo uma função necessária num mundo em que há poucos vitoriosos e muitos perdedores. Essas seitas espalham-se e competem entre si, procurando mais-suplantar e mais-remediar os males engendrados incansavelmente pelo próprio capitalismo neoliberal. Elas se esforçam na tarefa de recondicionar ilimitadamente os indivíduos que sofrem com toda sorte de dificuldades, assim como de falta de solidariedade e de comunidade, readequando-os mais do que os consolando, para que continuem capazes de competir nos mercados, sem colapsar como ser humanos.
Mas a construção de ficções que passam a fundamentar a governamentalidade na sociedade atual não descansa sob os “louros” do passado. A discussão dos três autores no livro resenhado vai também do presente para o futuro. Examinam em adição como os novos saberes científicos, em particular, as neurociências, ensaiam atualmente a criação de novas ficções. Eis que se fala agora no transumano e no pós-humano, ou seja, no ciborgue, um ser que é meio humano e meio máquina. É desse modo que se pretende ir não só além do homem econômico racional, mas também da própria condição humana; eis que se ousa pensar assim na possibilidade de superar a natalidade, a mortalidade, a pluralidade, o aperfeiçoamento de si mesmo, a simpatia pelos outros etc. Entra-se assim no campo da neuropolítica: “a utopia transumanista é uma utopia” – dizem eles – “que opera levando ao limite o que considera potencialidade ilimitadas do mercado”.
Para eles, enfim, para resumir e para terminar, “o neoliberalismo pode ser definido como a racionalidade política cujo efeito é levar o mais longe possível a ampliação da lógica do valor, isto é, do ‘mais de…’, do ‘valor a mais’, do mais-valor”. O que implica também no transbordamento da lógica do ilimitado para todos os âmbitos da vida social. Não parece, portanto, haver para ele barreiras intransponíveis sejam estas psíquicas, sociais e ecológicas…
Como os economistas de direita encarnam essa lógica do ilimitado, eles continuarão a ridicularizar aqueles que falam em neoliberalismo – sem deixar, é claro, de pô-lo em prática. Diferentemente deles, aqui se pergunta mais uma vez: essa lógica cada vez mais sem freios não produz o niilismo e, depois, o neofascismo, tal como foi mencionado no artigo anterior? (Ruinas do neoliberalismo: Chile, caso precursor, em 14/11/2019).
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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pensando o Coringa de Joaquim Phoenix e Todd Phillips como espelho de nosso insano tempo, pela análise do psicanalista e fílósofo érico Andrade




  Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça?



Crítica de Coringa, por Érico Andrade


A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
Joaquin Phoenix como Coringa (Foto: Reprodução Warner)
Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça? Sobretudo felizes segundo as normas do gozo que o capitalismo impõe como os aplausos encomendados nos programas de auditório? Um gozo pronto para o consumo. Diante de tanto apelo à felicidade como realizar a fantasia do prazer eterno na forma do riso quando rir é um ato compulsório?
Apesar de ser didático (com flashbacks explicativos para dar a medida da alucinação da personagem principal) e deixando claro para o telespectador todos os seus detalhes (como a frase sublinhada por um foco da câmera na escada do camarim que depois o Coringa apaga uma parte para deixar apenas “não sorria”), o filme Coringa fala sobre um adoecimento profundo. A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir, por meio da apresentação minuciosa de um vilão de quadrinhos, uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
As razões para isso são várias. Uma delas é explicitada por Arthur Fleck (antes de se tornar o Coringa): ninguém consegue escutar ninguém. Para a urgência da vida feliz o tempo da escuta não é compatível. Temos pressa de ter pressa. Que só é interrompida quando assumimos, como disse no meu último livro (Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo), a figura do loser para o qual o tempo não é mais um território a ser conquistado. O loser é aquele que, como na música ecoada com força no filme, não pode pegar a vida. Ela não domina a sua própria vida.
Aliás, só um vilão poderia encarnar o loser porque ainda que o vilão mimetize o super-herói, visto que ambos agem à margem do Estado para promoverem certa noção de justiça (no filme isso fica patente com a transformação do Coringa numa espécie de líder revolucionário e na sua ação violenta contra figuras hipócritas e poderosas), a sua atuação é construída a partir do fracasso e impotência por meio dos quais ele se subjetiviza. Diferentemente dos super-heróis, cuja assepsia em geral não permite matar os adversários, o Coringa é um loser que decide tocar fogo no sistema e atinge na cabeça – em cadeia nacional – a felicidade ridícula da vida feita para entreter (encarnada no apresentador Murray Franklin). Vida de entretenimento que nos obriga, permitam-me a insistência, a ser felizesnão apenas na miséria, mas da miséria. Vale tudo para se arrancar um sorriso no grande sistema do vale tudo.
Aqui a distinção entre o super-herói e o vilão se dissipa. Não importa. Ambos têm o poder de decidir sobre a vida das outras pessoas. Trata-se da vontade de poder que nos fascina e que ganha a sua máxima expressão quando se pode decidir pela vida dos outros. Enquanto no filme Batman dirigido por C. Nolan, por exemplo, o super-herói é obrigado a escolher entre um grupo de pessoas e a sua namorada presa, só a ele cabe a decisão e a capacidade de salvar essas pessoas, no Coringa a própria personagem estabelece quem vai viver (especialmente na cena em que ele mata seu ex-colega que o traiu e poupa a vida do seu também ex-colega anão). A assimetria existente é que marca a sutil diferença entre o super-herói, que decide a partir de uma questão que lhe é imposta, e o vilão que impõe uma decisão para si mesmo. O ponto de convergência: as vidas que são poupadas são aquelas para as quais eles guardam algum afeto. São os afetos que movem os heróis, super-heróis e os vilões. São os afetos que nos movem. Isto é a vida, como diz novamente a música That’slife.
E no filme Coringa os afetos são destacados por enquadramentos responsáveis por sublinhar as diferentes feições da personagem principal que no fim do filme podem ser vistas retrospectivamente como um quadro de Andy Wharhol: variações de um mesmo sofrimento. Filme que é quadro a quadro construído para mostrar a força de um só quadro.
As oscilações de humor de Arthur Fleck (interpretação impecável de Joaquin Phoenix) são destacadas também de modo metafórico em algumas cenas por luzes que piscam freneticamente. Seu sofrimento vai ganhando forma definitiva, como sublinha uma amiga, no desenvolvimento da sua dança – performance – cada vez mais densa e, em certa medida, violenta. Ele deixa de se fantasiar para ser o seu fantasma. É quando ele toma consciência de que é um loser numa sociedade composta por losers (motivo pelo qual ele termina se tornando um ícone social) e se assume definitivamente como o Coringa.
A última cena em que o agora Coringa fala o close no seu rosto é tão próximo que parte dele fica fora da tela. É o apogeu do seu sofrimento e é quando ele se encontra no mesmo sanatório para o qual a sua mãe tinha ido. Sua mãe que fora condenada por lhe maltratar e que ele resolve matar numa tentativa desesperada de enterrar o seu passado: sufocar. No entanto, a volta do recalcado não respeita limites nem algumas vezes a ética. Transgride. O filme o Coringa é sobre essa estrutura da transgressão.
Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco – ericoandrade@gmail.com

terça-feira, 9 de abril de 2019

Espiritismo, Marxismo e Psicanálise – e a complexidade do real, por Dora Incontri


"E as três correntes ainda hoje não são consideradas científicas pela ortodoxia da ciência, dita mainstream. Mas o marxismo e a psicanálise pelo menos têm espaços largos em universidades e inúmeros pesquisadores e intelectuais desdobraram seus pressupostos; já o espiritismo, por mexer com paradigmas talvez mais cristalizados, com preconceitos muito arraigados e, sobretudo, por ferir interesses muito estabelecidos - ao mesmo tempo do materialismo e das religiões institucionais, com seus mistérios), e também talvez por ter se popularizado como uma forma de religião – é o que mais sofre ostracismo e silenciamento (...)" - Dora Incontri



Do Jornal GGN: Três modelos teóricos de interpretação de mundo, de visão do ser humano e de ação prática nasceram no século XIX. Os três se autodenominavam científicos. Os três pretendiam desvendar aspectos de certa maneira até então desconhecidos ou desconsiderados, que melhor explicariam o comportamento humano, individual e coletivamente.
E as três correntes ainda hoje não são consideradas científicas pela ortodoxia da ciência, dita mainstream. Mas o marxismo e a psicanálise pelo menos têm espaços largos em universidades e inúmeros pesquisadores e intelectuais desdobraram seus pressupostos; já o espiritismo, por mexer com paradigmas talvez mais cristalizados, com preconceitos muito arraigados e, sobretudo, por ferir interesses muito estabelecidos (ao mesmo tempo do materialismo e das religiões institucionais, com seus mistérios), e também talvez por ter se popularizado como uma forma de religião –  é o que mais sofre ostracismo e silenciamento – apesar de ser talvez das três propostas, a que coleciona maior número de evidências de pesquisa, que corroboram seu modelo explicativo.
Vamos nos debruçar brevemente sobre essas questões, que são complexas e sutis e que num breve artigo de blog podem apenas ser esboçadas, como um convite para pesquisas, diálogos e estudos mais aprofundados.
Primeira coisa em comum entre as três vertentes: há algo que não se vê, de que não se está consciente, mas que influi e até determina nosso modo de estar no mundo.
Para o marxismo, são as infraestruturas econômicas, são os determinismos da classe social em que nascemos. Então, por exemplo, alguém que nasce na burguesia, está sem perceber embebido da ideologia dessa classe social e age, sem pensar, como produto de sua classe, reproduzindo as formas de relação de poder.
Para a Psicanálise, é o inconsciente que impulsiona palavras e ações, sem que nos demos conta de nossas profundas motivações – que podem ser pulsionais (provindas do ID – essa zona nebulosa do nosso psiquismo, zona dos desejos, dos impulsos de vida e de morte) e que podem ser também provindas do nosso superego, que são as normas e leis que introjetamos da cultura, que freiam o nosso ID. Estabelece-se uma arena de conflito dentro de nós, intermediada pelo Ego, a parte mais consciente de nossa estrutura psíquica.
Para o Espiritismo, o que está em relação com nosso eu, são as heranças de nossas vidas passadas, com nossas capacidades já desenvolvidas e nossos desajustes inatos, e as influências espirituais que nos cercam, para o bem e para o mal, de acordo com as afinidades que estabelecemos.
Duas questões interessantes se nos apresentam então:
  • Uma teoria anula a outra? De jeito nenhum! E até o seu entrelaçamento pode ser altamente interessante. A realidade é mais complexa do que a que cabe num só modelo teórico. Pode haver diferentes camadas sociais e psíquicas, biológicas e espirituais, que constituem o ser humano. Cenários antropológicos, cósmicos, internos podem se conectar em diversos nexos. Psicanálise e Marxismo já dialogaram através de vários autores fecundos, como Erich Fromm e Zygmunt Bauman. Entre Espiritismo e Marxismo, por exemplo, há textos de Humberto Mariotti e Herculano Pires. Entre Espiritismo e Psicanálise, ainda está por ser feito um diálogo.
  • Há possibilidade de liberdade e transcendência diante dos condicionamentos apontados nas três teorias? Podemos nos sobrepor aos nossos determinismos de classe? Sim, para Marx é possível, tomarmos consciência dos modelos de exploração e dominação em que estamos inseridos e fazermos a hora (ou a história), como na canção de Geraldo Vandré. Para Freud, é possível a sublimação, que seria a forma de transformarmos nossas pulsões de vida e de morte em cultura, civilização, arte… e obtermos alívio de nossas tensões internas. Para o espiritismo, mais ainda… porque o espírito imortal está destinado à evolução, à transcendência, com realização plena de si e pode sempre exercer seu livre arbítrio.
O problema filosófico que se apresenta para um diálogo com essa terceira ciência nascida no século XIX – o Espiritismo – que tanta resistência encontra e que é tão desconhecida por seus próprios adeptos é que tanto o Marxismo como a Psicanálise (pelo menos a freudiana), desqualificam qualquer forma de espiritualidade. E o Espiritismo justamente quer abordar a dimensão espiritual do ser humano, revelando-a como uma instância natural. Marx e Engels consideram religiões, formas de alienação, e Freud, formas de ilusão – fantasias inúteis e patológicas.
Mas essas críticas, como já disse em meu livro Deus e deus, podem ser proveitosas aos que aceitam o espírito – porque elas nos previnem de uma religiosidade comprometida com o conservadorismo que explora o outro ser humano, em nome de Deus e também nos alerta para os possíveis aspectos fantasiosos de nossas percepções extra-sensoriais. Separar o que é de nosso inconsciente do que é de uma manifestação mediúnica; distinguir o que é um trauma de infância de um trauma de outra vida; avaliar o que é projeção de nossos desejos e o que é uma percepção extra-sensorial; tudo isso pode ser um exercício necessário, em que o autoconhecimento e o desenvolvimento de nossas potencialidades mediúnicas se conjugam.
Ficar no materialismo positivista do século XIX sem qualquer abertura de diálogo com a espiritualidade é um caminho de dogmatismo, que muitos praticam. Assim como permanecer no Espiritismo, sem tomar conhecimento de outras formas de pensar o mundo, que nos descortinam outros horizontes sociais e psíquicos – é encarcerar-se num sistema fechado de pensamento, coisa que Kardec não propôs, e estacionar à beira da história.
 *Retirado, com autorização da autora Dora Incontri, do blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita

segunda-feira, 11 de março de 2019

Psicanalisando um governo deliróide, por Rita Almeida

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  "Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?"



Não acho prudente, nem ético, usar a psicanálise para diagnosticar ou analisar pessoas fora do meu consultório, mas é totalmente possível ou aceitável utilizá-la para analisar conjunturas político-sociais. Mas, nem é preciso entender de psicologia para perceber que o Bolsonarismo tem um componente deliroide bastante forte. As tão faladas “Fake News” exemplificam muito bem o que eu chamo aqui de deliroide: verdades construídas a partir de fragmentos ou de indícios de realidade e tornadas verdades universais. 

Eu trabalho no campo da saúde mental há mais de 20 anos, e se tem uma coisa que aprendi com esse trabalho é que o delírio não pode ser desmontado por uma simples confrontação com a realidade ou com racionalidade. Se o sujeito, em franco delírio, chega até você afirmando que tem um chip instalado na cabeça e através do qual se comunica com extraterrestres, não há absolutamente nada que se diga que mudará sua perspectiva de realidade. Nem que eu lhe mostre uma ressonância magnética do próprio crânio, ou que seja possível abrir sua cabeça para mostrar que não há nada lá, ele não se demoverá de sua verdade. Isso pelo simples fato de que aceitar desmontar tal delírio, seria desmontar a si próprio, já que, naquele momento, por uma fragilidade simbólica, o sujeito encontra-se totalmente assentado sobre aquela verdade. Se ela cair, ele cai junto. Freud dizia que os psicóticos amam o próprio delírio como a si mesmos. Resumindo, é isso. 

Semana passada li um artigo do Javier Salas no El País, sobre o terraplanismo intitulado: “Você não pode convencer um terraplanista e isso deveria te preocupar”. Os terraplanistas, afirma Salas, simplesmente acreditam que a Terra é plana, e qualquer dado que possa prová-los do contrário é simplesmente ignorado ou considerado manipulação de conspiradores. Obviamente que não é possível dizer que todos os terraplanistas são psicóticos ou doentes mentais, mas certamente, podemos falar de um empobrecimento ou fragilidade simbólicas, o que favorece o discurso que chamei de deliroide, ainda que ele não seja rigorosamente delirante. 

Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?

O que posso dizer a partir do que estudei e pratiquei todos esses anos é que, se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar. 

Comecei a escrever este texto, com a intensão de defender a estratégia do ator José de Abreu, ao criar seu personagem presidente. Obviamente que ele não partiu de nada disso que eu falei para se autodeclarar presidente, mas acredito que tenha pensado algo do tipo: “diante de tanto absurdo, o remédio só pode ser mais absurdo”, e suponho que ele tenha razão. Não há argumento racional que possa arredar o Bolsoplanismo do seu lugar. O debate, o noticiário, a justiça ou a ciência (números, estudos e estatísticas), não fazem o menor efeito. Portanto, é necessário provocar outros afetos nessas pessoas, afetos que possam ir descontruindo suas certezas. Obviamente que não estou me referindo ao clã Bolsonaro e sua trupe maluca, e haverá também um núcleo duro que irá defender o Bolsoplanismo até a morte, mas é possível reduzir bastante o contingente de militantes deliroides, até que fiquem relativamente inofensivos.

Voltando ao teatro do absurdo estrelado por José de Abreu – e é perfeito que isso esteja sendo feito por um ator - acredito que ele esteja colocando em prática uma coisa que fazemos nos nossos serviços de saúde mental e que funciona muito. Como usamos muitas práticas coletivas (grupos, oficinas e outras) os pacientes começam a ter que lidar com os delírios uns dos outros e, desse modo, começam a enxergar o seu próprio delírio. Ao duvidarem do delírio do outro, passam a duvidar do seu também. Ao rirem do delírio do outro, começam a rir do seu também. Ao se envergonharem do delírio do outro, começam a se envergonhar do seu também. E todos esses afetos, se não derrubam completamente os delírios, os deixam menos rígidos, emburrecedores e limitadores.

Tenho considerado que a performance de José de Abreu, já abraçada por vários outros políticos aliados, pode funcionar como uma grande oficina terapêutica a céu aberto. E ela tem ficado ainda melhor por contar com a participação do próprio Bolsonaro, que se dispõe a sair de sua posição de Presidente diplomado, para “bater boca” com um presidente fake. Apenas esse fato já nos dá a medida do tamanho do surreal que nos (des)governa, e do quanto a oficina do presidente fake está funcionando. Sugiro que ela não pare, e se amplie.

Por hora, o que podemos fazer para desbancar o Bolsonarismo e seu mito deliroide é isso mesmo: miná-lo. Para tal, precisaremos despertar o maior número de pessoas possível. Acho uma excelente estratégia fazer isso por meio do humor e do teatro do absurdo. O Brasil precisa enxergar sua própria loucura. 

Contra um fake Presidente, nada melhor que um fake concorrente.

José de Abreu pra presidente do Brasil.

E já me ofereço para o Ministério do Alienista 

Rita Almeida

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Ruan de Souza Gabriel: Emma Bovary, proviciana, consumista, egoísta, é meu país



Assim como a personagem de Flaubert, o Brasil tenta se adequar a uma narrativa que não combina com ele

Emma Bovary sempre despertou em mim sentimentos ambíguos. Ao mesmo tempo que ria das trapalhadas românticas dessa provinciana consumista e embriagada de leituras açucaradas, eu admirava sua coragem lunática. 

Emma negava sua realidade medíocre e, meio desajeitada, esforçava-se para transformá-la no enredo de um romance heroico. Talvez Emma sofresse de uma espécie de miopia, como se aquela garoa triste que não permitia ao eu lírico de Mário de Andrade enxergar a desigualdade paulistana também cobrisse a paisagem da Normandia, impedindo Emma de distinguir o possível do delírio. Ou talvez fosse tudo uma questão de gênero – literário, no caso. Se o narrador flaubertiano não fosse tão silencioso e imparcial, ele decerto poderia avisar Emma de que ela protagonizava um romance realista crítico à vulgaridade burguesa e não um romance romântico com cavalheiros valentes, mocinhas suspirosas e final feliz. Com essa informação, Emma talvez resistisse melhor à mediocridade cotidiana em vez de se abrigar numa fantasia romântica, ideológica, pobre e conservadora.

O filósofo francês Jules Gaultier definiu bovarismo como “o poder conferido ao homem de conceber-se diferente do que é”. Num livro de ensaios recente, Bovarismo brasileiro (Boitempo), a psicanalista Maria Rita Kehl argumenta que povos e nações não estão imunes à doença nervosa de Emma Bovary. O Brasil, aliás, é um caso gravíssimo de bovarismo. Com um pé na psicanálise e outro na literatura, Kehl diagnostica um punhado de manifestações do bovarismo brasileiro: a mania nacional de querer ser outro – europeu, civilizado – sem jamais reconhecer e/ou contornar os obstáculos que frustram nosso desenvolvimento. Kehl identifica até um personagem bovarista na literatura brasileira: o Rubião, de Quincas Borba, de Machado de Assis. Rubião é um professor de província (alô, Barbacena), que depois de herdar uma fortuna segue para o Rio de Janeiro, onde tenta pateticamente ser um gentleman tropical – ser outro. Em vez de aproveitar a sorte financeira para construir uma vida autêntica, que fosse sua, Rubião copia o modelo de sociabilidade que imperava na corte de Dom Pedro II – um modelo de sociabilidade, aliás, importado da Europa e que nunca se encaixou bem nos trópicos escravocratas.

Emma Bovary queria viver os luxos da aristocracia e ser disputada por cavalheiros corajosos e gentis. Sonhava repetir em sua vida os enredos folhetinescos que lera na adolescência. Mas Emma não era como as personagens daqueles livros açucarados. Não era filha da nobreza (seu pai era um pequeníssimo proprietário de terras), vivia longe de Paris e era casada com um médico pouco talentoso, a quem nenhuma princesa honrada se entregaria. Emma jamais viveria como uma mocinha folhetinesca porque era apenas uma senhora de classe média, com cultura e orçamento limitados. O bovarismo, lembra Kehl, acomete em especial aqueles cujos recursos financeiros não correspondem a seus delírios e sonhos.

Um dos sintomas do bovarismo é esconder as condições sociais que separam um sujeito (ou uma nação) da realização de seus projetos românticos (ou liberais/emancipatórios). Em nações periféricas, como o Brasil, o bovarismo aparece como desejo de se modernizar tomando como referências as revoluções industrial e liberal europeias. A única opção do sul subdesenvolvido é seguir os passos das nações ricas do norte, ainda que a realidade nos trópicos seja outra e não faça sentido replicar aqui um receituário que deu certo lá fora em condições muito específicas. “O bovarismo dos países periféricos não favorece sua modernização”, escreveu Kehl. “Pelo contrário, sempre inibiu e obscureceu a busca de caminhos próprios, emancipatórios, capazes de resolver as contradições próprias de sua posição no cenário internacional”. O esforço de se adequar narrativas europeias não resultou em avanços sociais por aqui e ainda impediu que se pensasse em soluções originais para nossos impasses.

Ideias propagadas por livros franceses – como liberdade, igualdade e fraternidade – não resistiram à força da escravidão, da obscena concentração fundiária, do autoritarismo e à apropriação do Estado brasileiro por elites retrógradas. O atraso venceu as ideias emancipatórias porque as ideias emancipatórias pouco fizeram para combater o atraso. As elites pensantes brasileiras, pequenas Emmas Bovarys verde-amarelas, embriagaram-se de ideias emancipatórias, mas falharam em usá-las para enfrentar as configurações sociais que impossibilitavam a realização de nobres aspirações, como a democracia, a República e a justiça social. “A ‘crença mágica no poder das ideias’, cuja importação deveria projetar-nos no cenário da modernidade sem exigir a alteração das nossas práticas sociais, teve o efeito de alimentar o permanente desinteresse das elites cultas pelas questões públicas, permitindo a manutenção de privilégios e de um estilo de dominação pré-modernos”, escreveu Kehl.Se o bovarismo nos coloca ideais inatingíveis e nos proíbe de buscar saídas alternativas, mais condizentes com a realidade, por que é tão difícil nos curar dessa neurose? Talvez porque encarar a realidade é difícil e até assustador. O bovarismo verde-amarelo nos poupa do Brasil real, que é violento, autoritário e de uma desigualdade aviltante. O bovarismo nos oferece a narrativa do país do futuro, o Brasil como uma epopeia épica ou romance fantástico, delirante, mas charmoso e promissor. E mais: nos assegura de que o final será feliz se nos esforçarmos para cumprir um roteiro, que muda de acordo com os tempos e as preferências ideológicas – integração total ao capitalismo globalizado, revolução em duas etapas (primeiro burguesa e nacionalista, depois operário-camponesa).

O Brasil parece um bocado com Emma nos últimos capítulos de Madame Bovary: desesperado, afundado em dívidas, sem entender direito como chegou aqui. Talvez o antídoto ao bovarismo – entendido como conceber-se outro – seja não desviar os olhos do real, por mais horrendo que ele seja, procurar as possibilidades que ele apresenta e engajar-se nelas. Como o eu lírico de Mário de Andrade, precisamos afastar a garoa de nossos olhos. E, quem sabe, dar um pouco mais de crédito a nossas próprias ideias, desistir de nos adequar a gêneros literários que são estranhos à sintaxe do nosso português. Emma Bovary não precisava transformar sua vida num romance romântico fora de moda. E nós tampouco precisamos.

Ruan de Souza Gabriel

Fonte: Revista Época, reeditado também no Contexto Livre