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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Quando os neoliberais encontram (e abraçam) os fascistas. Artigo de Eleutério F. S. Prado a partir do livro da cientista política americana Wendy Brown In the ruins of neoliberalism – The rise of antidemocratic politics in the West




Novo livro tenta explicar como sistema que diz defender a liberdade gerou figuras como Trump e Bolsonaro. Explicação pode estar na auto-corrosão e niilismo a que estão sujeitas as sociedades quando creem no valor supremo do dinheiro
Por Eleutério F. S. Prado
O neoliberalismo é, sim, criador. Do que mesmo, na prática!? De má distribuição da renda, da destruição da proteção social dos mais pobres, da precarização da condição de vida dos trabalhadores – tudo isso é bem conhecido. Ainda que procure se justificar em nome da liberdade, o que ele procura mesmo é elevar a taxa de lucro do capital industrial e manter intocado e em processo de valorização o volumoso capital fictício acumulado nas últimas décadas. Mas a sua mais terrível – tem gente que gosta desse último termo e o emprega positivamente – criação não é bem conhecida. E ela precisa, sim, ser mostrada e bem mostrada.
Antes disso, note-se que esse agenciamento político é de certo modo sincero quando exalta a liberdade. Mas veja-se também que defende, em última análise, a liberdade do agente econômico, do homem como personificação do seu capital. E, nessa perspectiva, é preciso perceber que o neoliberalismo move-se também no terreno da moralidade e tem uma pretensão tanto idealista quanto “idealista”.
O livro mais recente da cientista política norte-americana Wendy Brown tem uma importância fundamental porque aponta para o pior que o neoliberalismo está criando em vários países da “civilização ocidental”. No recém-publicado In the ruins of neoliberalism – The rise of antidemocratic politics in the West (Columbia University Press, 2019), ela mostra que diversos movimentos políticos de extrema direita, com diversos tons de cinza, crescem atualmente no mundo. E que eles são filhos legítimos do neoliberalismo, sem que – segundo ela – fossem desejados por ele.
Ainda que essa afirmação, tal como Brown mostra, seja verdadeira quando se refere a um pensador como Friedrich Hayek, é certo, também, que essa forma de governamentalidade assomou ao poder pela primeira vez na história durante um governo de direita, por meio da ditadura do general Pinochet, no Chile. E foi aí, como bem se sabe, que pontificaram os rebentos ideológicos de Milton Friedman, outro conhecido apóstolo do neoliberalismo. O sonho de fazer o sistema funcionar alimentou um pesadelo.
Brown, professora de ciência política da Universidade da California, em Berkeley, modifica a sua tese anterior sobre a natureza do neoliberalismo, que fora apresentada em outra obra, Undoing the Demos: Neoliberalism’s stealth revolution (Zone Books, 2015). Aí, sustentara que o projeto dessa corrente consistia basicamente em ampliar o âmbito das relações mercantis, inclusive para as esferas do mundo da vida pessoal e social; mas agora percebeu que o neoliberalismo mantinha e mantém um projeto muito mais ambicioso. Eis que tem uma pretensão moral e política de “proteger as hierarquias tradicionais negando a própria ideia de sociedade e restringindo radicalmente o poder político nos estados-nações”. Margareth Thatcher, repercutindo Hayek, não afirmou que a sociedade não existe, isto é, que só existem os indivíduos?!
Brown julga que apenas se pode entender essa forma de governamentalidade quando se lê rigorosamente os textos de Hayek. Eis que esse autor considera o mercado como uma ordem moral que, estimulando a máxima liberdade na descoberta de inovações mercantis, promove o contínuo desenvolvimento da civilização. Essa ordem, segundo ele, evolui espontaneamente por seleção de normas que são transmitidas pela tradição. Ou seja – e é preciso indicar enfaticamente – esse autor crê que tais normas não são postas por deliberação intencional, pelo poder político e, em especial, pela construção política, mas por meio de inúmeras iniciativas privadas que ocorrem contínua e descentralizadamente na sociedade. E compreende esta última apenas como uma ordem formada por indivíduos que interagem com outros indivíduos, formando um sistema complexo.
Ocorre que não é bem isto o que está acontecendo nos países que ainda se veem como pluralistas, liberais e democráticos – uma imagem que é motivo de orgulho e material de propaganda. Seja ele denominado de autoritarismo, fascismo, populismo, iliberalismo ou plutocracia, o fato é que está crescendo aí um tipo de movimento social e político que parece relembrar, ainda que com diferenças, os piores momentos do século passado, em especial na Itália e na Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930.
Esses movimentos – menciona Brown – combinam de modo peculiar libertarismo, moralismo, autoritarismo, nacionalismo e governo forte, além de racismo, homofobia e misoginia. De modo aparentemente contraditório, juntam antielitismo com favorecimento dos mais ricos; defesa de rigor moral e civilidade com uma conduta amoral e brutal; religiosidade fervorosa com comportamentos impiedosos com as vítimas de seu ódio. Mantêm um certo desprezo pela ciência e pela intelectualidade, mas não deixam de ser seduzidos pelos avanços tecnológicos e por filosofias políticas extravagantes. Enfim: “desdenham a política e os políticos, mas, ao mesmo tempo, mostram um feroz desejo de poder, assim como ambição política desmesurada”.
Como explicar esse ornitorrinco que não é só australiano e muito menos brasileiro? Brown lembra, então, que não faltaram esforços para classificar esse novo animal, arredio ao conhecimento mas sem dúvida bestial em sua forma de ser.
Tomando por referência a realidade dos países capitalistas desenvolvidos, alguns elementos foram propostos para caracterizar o nascimento e o crescimento desse enjeitado, em pleno século XXI. As políticas neoliberais iniciadas já no final da década dos anos 1970 reduziram não só as taxas, mas também a qualidade do crescimento econômico. Os sindicatos foram desincentivados e os empregos intensivos em trabalho, deslocados para o exterior. Assim, os salários reais estagnaram, os bons empregos rarearam, as escolas públicas receberam poucos recursos (algumas foram privatizadas), as infraestruturas das cidades deixaram de ser bem cuidadas, os sistemas de aposentadoria encolheram. Os países mais prósperos, ademais, receberam uma enorme imigração de força de trabalho barata. Uma insatisfação social de fundo assediou os trabalhadores fabris, brancos e cristãos, nesses países.
O processo produziu uma polarização na esfera do trabalho, da cultura e das crenças religiosas. As ocupações de baixos salários, pouco exigentes, e as de altas remunerações, que requerem mais escolaridade e mais treinamento, cresceram, mas não muito; as intermediárias com bons salários, no entanto, tornaram-se escassas. Os imigrantes que vieram de outros países tinham outros costumes e outras crenças; ora, isto produziu um estranhamento crescente entre os habitantes antigos e os recentemente chegados nas zonas mais pobres. Um mal-estar latente, mas pontuado por conflitos abertos, alastrou-se entre os antigos moradores dessas zonas e os que para ali vieram na condição de estrangeiros ou mesmo de párias.
A insatisfação cresceu entre aqueles que foram educados na ideologia do progresso e na lógica consumista do bem-estar crescente. Esta foi contrariada por uma estagnação persistente, por uma deterioração das condições de vida e por uma insuficiência de serviços públicos em especial nas zonas mais carentes. Como foi bem documentado, a desigualdade de renda cresceu fortemente. Racismo e a xenofobia desenvolveram-se, então, espontaneamente, sob as políticas e os discursos do neoliberalismo que se justificavam falando em “equidade e inclusão”. Um ódio à globalização engendrou-se na mesma medida em que passou a ocorrer a transferência de empregos para o exterior e a implantação de tecnologias que produziam desemprego tecnológico – tudo isso em nome da difusão dos padrões ocidentais para o resto do mundo.
Nessa linha de argumentação, chegou-se à tese de que populistas espertos, bem assessorados no marketing e na propaganda, foram capazes de capturar eleitoralmente todas as frustrações acumuladas no período em que prevaleceu o assim chamado “neoliberalismo progressista”. Desse modo, tornaram-se capazes de ascender ao poder, dando continuidade quase às mesmas políticas do período anterior – apenas agora com uma aparência populista e antissistema. Para alcançar os seus objetivos, os plutocratas apresentaram-se na cena política como críticos da financeirização, do roubo de empregos pelas firmas do exterior, da invasão de estrangeiros no mercado nacional etc. Para dourar uma pílula amarga que piora ainda mais as condições de vida dos assalariados e dos precários, passaram a se apresentar como tradicionalistas religiosos, nacionalistas e militaristas que tinham por tarefa salvar a pátria da ruína trazida pelos políticos tradicionais.
Brown considera que essa narrativa contém uma certa verdade, ainda que não diga tudo o que precisa ser dito; mais do que isso, pensa que omite o principal. Eis que não apreende por que forças políticas profundamente antidemocráticas cresceram nesse ambiente de tal modo a fazer reaparecer, ainda que mal disfarçados de democratas, os velhos demônios do autoritarismo e, no limite, do fascismo.
Ademais, essa compreensão – diz Brown – não é capaz de pensar o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade que promove a moralidade tradicional e, ao mesmo tempo, a lógica da concorrência em todas as esferas da sociedade. É preciso ver aqui que a sua ascensão não ocorreu por mérito próprio. A oportunidade veio apenas quando a taxa de lucro despencou, no correr da década dos anos 1970 e se descobriu que a social-democracia estava entravando o evolver da acumulação de capital. Em consequência, teve de enfrentar condições difíceis. Pois, tinha que transformar o padrão de atuação do Estado enfrentando a contradição entre a necessidade de aumentar a lucratividade, manter a demanda efetiva, conservar a boa saúde do próprio capitalismo (o que requer gastos públicos crescentes). Os resultados acima apontados de modo breve decorreram de sua atuação que pode ser considerada desastrosa.
De qualquer modo, o neoliberalismo tem de sustentar continuamente uma esperança de retomada e de prosperidade que não pode fazer acontecer. Mantém-se, assim, num estado de hipocrisia, o qual, quando descoberto, transforma-se em cinismo: promete sempre mais, mais uma vez, para o futuro mais próximo, aquilo que não pôde realizar no passado recente. Ora, este não é ainda o principal. Pois, nesse momento da exposição, essa autora apresenta um achado central: como promove a racionalidade econômica de modo intenso, a ficção do capital humano, do ser que se pensa como uma empresa de si mesmo, o neoliberalismo reforça o niilismo. Eis o que diz:
Ora, aquela narrativa não abrange a intensificação do niilismo que agora contesta a verdade dos fatos e transforma a moralidade tradicional em arma na luta política. Não identifica os assaltos à democracia constitucional, à igualdade sexual, de gênero e racial; a sabotagem praticada contra a educação pública e a esfera civil pública e não violenta, ao mesmo tempo em que fala de liberdade e moralidade. Não apreende, enfim, como a racionalidade neoliberal desorienta radicalmente a esquerda ao chamar de “politicamente correto” o discurso que clama pela justiça social.
O novo livro de Brown defende a tese de que o neoliberalismo, durante trinta anos (1979-2008), preparou o terreno onde medraram as correntes antidemocráticas na segunda década do século XXI. Ela não afirma que seja a causa direta do direitismo extremado, nem que este último tenha sido desejado por ele. Diferentemente, afirma que, ao expandir a racionalidade da competição econômica para outras esferas da sociedade, minou a democracia em vigor nesses países e, ao mesmo tempo, desacreditou a confiança em certos valores comunitários em que esta supostamente se baseia. O neoliberalismo, em última análise, “intensificou o niilismo e este se manifestou como quebra da fé na verdade, nos fatos e nos valores que fundam a sociedade”. Ou seja, remontando a Nietzsche, ela afirma que a desvolaração dos valores, a quebra da confiança nas condições necessárias para o funcionamento do próprio sistema econômico, foi o solo em que renasceram as tendências fascistas.
Brown lembra que, do ponto de vista intelectual, o neoliberalismo nasceu, em 1947, com a criação da Sociedade Mont-Pelerin. Formada por conhecidos pensadores liberais como Hayek, Friedman, Aron etc., passou a se reunir anualmente nessa cidade da Suíça. Seu propósito explícito era reprogramar o liberalismo, com o fim de combater os totalitarismos que haviam medrado com o socialismo burocrático no Oriente e com os regimes nazifascistas na Europa Ocidental. O projeto de sociedade então criado colocava a lógica de funcionamento dos mercados como um antidoto, supostamente eficaz, contra a centralização do sistema econômico por meio do Estado, vista como a causa principal dos regimes totalitários. Ou seja,
Ansiosos para separar o mercado da política, os neoliberais originais queriam tornar odientos tanto o capitalismo de compadrio quanto o poder oligárquico internacional. (…) Ao afastar a política dos mercados, assim como os interesses econômicos da política econômica, queriam evitar a manipulação dos interesses públicos mais gerais, feita pelos grandes industriais capitalistas . Desejavam, sobretudo, debelar as mobilizações demagógicas dos cidadãos e, para tanto, pensaram os mercados como uma disciplina moral que poderia limitar a democracia e conter o populismo.
Talvez haja aí uma concessão excessiva, já que Hayek visitou o Chile de Pinochet e aprovou a sua ditadura. Não importa. Nesse sentido, Brown vai argumentar que a catástrofe política do presente, em que se vê as tendências neofascistas se organizarem e tomarem o poder ou parte dele em diversos países, não foi uma consequência intencional da política neoliberal, mas apenas a sua criatura Frankenstein.
O “erro” cometido por aqueles intelectuais decorreu certamente da grande confiança que tinham na economia baseada em mercados e movida descentralizadamente pelo autointeresse dos participantes, organizações, empresas e pessoas. Trata-se, para eles, do sistema que cria prosperidade, promove a liberdade e estabelece as condições para uma vida pacífica. Faltou-lhes, portanto, um conhecimento melhor do capitalismo enquanto tal, um sistema em que o dinheiro é a forma privilegiada do capital, e este é um princípio de desenvolvimento infinito que transforma os indivíduos sociais em personificações.
Em consequência, eles não foram capazes de pensar com a categoria do niilismo que Nietzsche consagrou como uma característica fundamental da sociedade moderna. Ora, não parece difícil aceitar que a lógica do dinheiro que gera mais dinheiro – mesmo se esse filósofo não tenha dito isso expressamente – é a grande responsável pela desvaloração de todos os valores nessa sociedade que não aqueles associados à lógica de crescimento infinito do capital. Há, pois, um vínculo obscuro – não propositado – entre o liberalismo e o fascismo, ainda que os lanços não sejam reconhecidos como tais.
Em consequência, vale perguntar se os neoliberais originais, alguns dos quais receberam o Prêmio Nobel de Economia, foram apenas ingênuos, cegos devido à aparência mercantil do sistema do capital ou ignorantes por má vontade, já que não quiseram ler ou compreender O capital de Marx?
Para tentar responder essa pergunta, faz-se uma citação de Roger Scruton no livro O que é conservadorismo (É realização editora, 2001):
Marx tomou de empréstimo da filosofia hegeliana o conceito de alienação para descrever a condição do homem sob o capitalismo. (…) Reconhecendo que pode haver verdade na descrição de nossa “condição alienada”, e reconhecendo também a sua conexão profunda entre essa condição e o ‘fetichismo da mercadoria’ (…) os conservadores vão desejar apresentar sua própria versão da alienação e refutar a acusação de que a propriedade privada é sua causa.
Bem, é preciso convir, para terminar, que nem toda propriedade privada é condição da alienação, mas somente aquela que embasa a forma mercadoria dos produtos do trabalho. Ademais, é preciso dizer que em O capital não há, de fato, uma condenação moral da exploração!
Como Roger Scruton, o autor citado resolve o seu problema? Seu truque consiste em tratar o trabalho não como um meio, mas como um fim, algo que depende da vontade expressa do trabalhador. É assim, por meio de uma reinterpretação, que o trabalho alienado se transforma em não alienado, “um fim em si mesmo”. Scruton, então, revela para os seus leitores que ele tem muita satisfação em trabalhar na escrita de livros que promovem a causa do conservadorismo. E que, por isso, não é alienado. Vale, então, repetir a pergunta antes feita, mas dirigida agora a esses opositores do liberalismo: são eles apenas ingênuos, cegos devido à aparência mercantil do sistema do capital ou ignorantes por má vontade, já que também não quiseram compreender a fundo O capital de Marx?
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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pensando o Coringa de Joaquim Phoenix e Todd Phillips como espelho de nosso insano tempo, pela análise do psicanalista e fílósofo érico Andrade




  Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça?



Crítica de Coringa, por Érico Andrade


A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
Joaquin Phoenix como Coringa (Foto: Reprodução Warner)
Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça? Sobretudo felizes segundo as normas do gozo que o capitalismo impõe como os aplausos encomendados nos programas de auditório? Um gozo pronto para o consumo. Diante de tanto apelo à felicidade como realizar a fantasia do prazer eterno na forma do riso quando rir é um ato compulsório?
Apesar de ser didático (com flashbacks explicativos para dar a medida da alucinação da personagem principal) e deixando claro para o telespectador todos os seus detalhes (como a frase sublinhada por um foco da câmera na escada do camarim que depois o Coringa apaga uma parte para deixar apenas “não sorria”), o filme Coringa fala sobre um adoecimento profundo. A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir, por meio da apresentação minuciosa de um vilão de quadrinhos, uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
As razões para isso são várias. Uma delas é explicitada por Arthur Fleck (antes de se tornar o Coringa): ninguém consegue escutar ninguém. Para a urgência da vida feliz o tempo da escuta não é compatível. Temos pressa de ter pressa. Que só é interrompida quando assumimos, como disse no meu último livro (Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo), a figura do loser para o qual o tempo não é mais um território a ser conquistado. O loser é aquele que, como na música ecoada com força no filme, não pode pegar a vida. Ela não domina a sua própria vida.
Aliás, só um vilão poderia encarnar o loser porque ainda que o vilão mimetize o super-herói, visto que ambos agem à margem do Estado para promoverem certa noção de justiça (no filme isso fica patente com a transformação do Coringa numa espécie de líder revolucionário e na sua ação violenta contra figuras hipócritas e poderosas), a sua atuação é construída a partir do fracasso e impotência por meio dos quais ele se subjetiviza. Diferentemente dos super-heróis, cuja assepsia em geral não permite matar os adversários, o Coringa é um loser que decide tocar fogo no sistema e atinge na cabeça – em cadeia nacional – a felicidade ridícula da vida feita para entreter (encarnada no apresentador Murray Franklin). Vida de entretenimento que nos obriga, permitam-me a insistência, a ser felizesnão apenas na miséria, mas da miséria. Vale tudo para se arrancar um sorriso no grande sistema do vale tudo.
Aqui a distinção entre o super-herói e o vilão se dissipa. Não importa. Ambos têm o poder de decidir sobre a vida das outras pessoas. Trata-se da vontade de poder que nos fascina e que ganha a sua máxima expressão quando se pode decidir pela vida dos outros. Enquanto no filme Batman dirigido por C. Nolan, por exemplo, o super-herói é obrigado a escolher entre um grupo de pessoas e a sua namorada presa, só a ele cabe a decisão e a capacidade de salvar essas pessoas, no Coringa a própria personagem estabelece quem vai viver (especialmente na cena em que ele mata seu ex-colega que o traiu e poupa a vida do seu também ex-colega anão). A assimetria existente é que marca a sutil diferença entre o super-herói, que decide a partir de uma questão que lhe é imposta, e o vilão que impõe uma decisão para si mesmo. O ponto de convergência: as vidas que são poupadas são aquelas para as quais eles guardam algum afeto. São os afetos que movem os heróis, super-heróis e os vilões. São os afetos que nos movem. Isto é a vida, como diz novamente a música That’slife.
E no filme Coringa os afetos são destacados por enquadramentos responsáveis por sublinhar as diferentes feições da personagem principal que no fim do filme podem ser vistas retrospectivamente como um quadro de Andy Wharhol: variações de um mesmo sofrimento. Filme que é quadro a quadro construído para mostrar a força de um só quadro.
As oscilações de humor de Arthur Fleck (interpretação impecável de Joaquin Phoenix) são destacadas também de modo metafórico em algumas cenas por luzes que piscam freneticamente. Seu sofrimento vai ganhando forma definitiva, como sublinha uma amiga, no desenvolvimento da sua dança – performance – cada vez mais densa e, em certa medida, violenta. Ele deixa de se fantasiar para ser o seu fantasma. É quando ele toma consciência de que é um loser numa sociedade composta por losers (motivo pelo qual ele termina se tornando um ícone social) e se assume definitivamente como o Coringa.
A última cena em que o agora Coringa fala o close no seu rosto é tão próximo que parte dele fica fora da tela. É o apogeu do seu sofrimento e é quando ele se encontra no mesmo sanatório para o qual a sua mãe tinha ido. Sua mãe que fora condenada por lhe maltratar e que ele resolve matar numa tentativa desesperada de enterrar o seu passado: sufocar. No entanto, a volta do recalcado não respeita limites nem algumas vezes a ética. Transgride. O filme o Coringa é sobre essa estrutura da transgressão.
Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco – ericoandrade@gmail.com

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O governo degradante de Bolsonaro se aproxima da hora da verdade, por Luis Nassif



Hoje em dia, a crise fiscal – que se aprofunda – é função direta da queda da atividade econômica. E Guedes não tem a menor noção sobre políticas anticíclicas.

Do Jornal GGN:



Não há que se surpreender com Paulo Guedes, assim como não havia razões para esperar algo diferente de Jair Bolsonaro.
Desde o começo se sabia que Guedes era um gestor atrapalhado. É muito mais fácil comandar uma equipe de analistas, do que uma equipe multidisciplinar como o super-ministério que ele assumiu.  No caso do banco de investimento, o objeto é um só, assim como o nível de conhecimento e de analise. Mesmo assim, Guedes foi um desastre, criando conflitos desnecessários com seus sócios e suas equipes, não demonstrando capacidade de convivência e de liderança. Sempre foi um grande desorganizado – e nem se tome como ofensa, porque é a característica dos intelectuais.
Se não dava certo em ambientes de conhecimento homogêneo, no governo foi pior, ainda mais com essa loucura do super-ministério colocado sob seu comando. O problema central é a recessão continuada da economia, seus impactos sobre emprego, criminalidade e contas públicas.
Hoje saiu a PNAD Trimestral (Pesquisa Naciional de Amostra de Domicílios), mostrando o tamanho da crise. Em geral, se mede o desemprego apenas no universo das pessoas que estão trabalhando ou procuraram emprego no curto prazo. O PNADT vai além. Ele investiga também aqueles que desistiram de buscar emprego e estão fora do mercado de trabalho.
O quadro é dantesco.
Em Alagoas se somar trabalhadores desocupados, mais os que estão fora do mercado, há 66% pessoas a mais do que os trabalhadores ocupados. No total Brasil, essa relação é de 82%.
No penúltima PNADT, mediu-se o tempo que dura esse desemprego. Os que buscam emprego há mais de 2 anos chegam a quase 20%
Hoje em dia, a crise fiscal – que se aprofunda – é função direta da queda da atividade econômica. E Guedes não tem a menor noção sobre políticas anticíclicas. Menos ainda sobre o ferramental que tem à sua mão, bancos públicos, gastos públicos, destravamento de concessões.
Ele está totalmente travado. Não conseguiu desenvolver uma política setorial sequer. Foi incapaz de definir estratégias de redução da inadimplência, melhorar a situação do crédito, acelerar os processos de concessão. Todo seu trabalho consiste em cumprir ao pé da letra as restrições fiscais, cujo buraco aumenta em função direta da queda de receita – fruto da recessão.
Cria-se o moto contínuo do desastre. Efetua cortes brutais no orçamento, a demanda cai mais ainda, derrubando mais ainda as projeções de crescimento do PIB. A reação são mais cortes, mais desaquecimento, mais queda da receita. E joga todas as expectativas na tal reforma da Previdência que, mesmo saindo, não resolverá a questão crônica da falta de demanda.
O país se aproxima rapidamente de uma situação de impasse, com desfechos radicais no front político.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Como se fabrica o déficit e outros mitos da reforma da Previdência, por Luis Nassif

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Jornal GGN - Utilizado à exaustão para justificar a reforma da Previdência pelo governo Temer, o chamado déficit é historicamente fabricado. Em hangout disponível em um dos canais do GGN no Youtube, Luis Nassif explica como o governo faz malabarismos com números para criar o conceito de déficit. 
Tudo começa quando criaram a Constituição e estabeleceram o benefício de prestação continuada e outros direitos sociais concedidos a trabalhadores do campo e outras previsões. Os constituintes definiram a forma de financiamento da seguridade social - uma parte deve sair do bolso do trabalhador e do empresário (com descontos na folha de pagamento) e a outra parte, do governo, que desvia uma série de impostos para formar esse caixa.
A ideia de déficit é fabricada pegando todos os setores que são contemplados com a aposentadoria, inclusive os que estão livres de tributação, como os servidores de igrejas e outros subsidiários, e inserem no mesmo pacote em que é aferido apenas a contribuição de empresas e trabalhadores contribuintes, excluindo os impostos captados pelo governo. "Esse déficit é falso", diz Nassif.
O segundo mito é que a reforma da Previdência vai atrair imediatamente investimentos privados. "Mentira. O impacto inicial de uma reforma da Previdência é maior sobre as contas da Previdência, porque todo mundo sairá correndo para antecipar a aposentadoria."
O terceiro ponto da reforma é o risco de desmonte da Previdência. "Se o trabalhador acha que não vai se aposentar, por que continuaria a contribuir?"
Outro aspecto é que, de fato, o crescimento da expectativa de vida do brasileiro demanda idade mínima e alterações graduais nesse quesito. Mas tudo deveria ser feito com debate, não "enfiando goela abaixo".
Sem pacto social, lembra Nassif, não haverá projeto que se sustente a longo prazo, "a não ser que se faça uma aposta no Estado de exceção permanente".

sexta-feira, 13 de março de 2015

Luis Fernando Veríssimo sobre a pá de cal em Francis Fukuyama e a escolha entre Socialismo ou Barbárie



 "A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos."

O texto a seguir, de Luis Fernando Veríssimo, foi extraído do Contexto Livre:

O Pós-Fukuyama



  Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado.

 O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase parecia não ter resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

  Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita.

  Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

  A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vitimas da crise, em palavrão.

  Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

  E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam.

  Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?

  Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer.

  A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

  Luís Fernando Veríssimo