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quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Pensando o Coringa de Joaquim Phoenix e Todd Phillips como espelho de nosso insano tempo, pela análise do psicanalista e fílósofo érico Andrade




  Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça?



Crítica de Coringa, por Érico Andrade


A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
Joaquin Phoenix como Coringa (Foto: Reprodução Warner)
Numa sociedade onde reina o imperativo da felicidade ser obrigado a rir é paradoxalmente uma condenação que na forma do distúrbio psíquico de Arthur Fleck nos faz refletir sobre o nosso adoecimento. Será que a grande loucura não seria nos obrigar a sermos felizes diante de um quadro de pobreza e injustiça? Sobretudo felizes segundo as normas do gozo que o capitalismo impõe como os aplausos encomendados nos programas de auditório? Um gozo pronto para o consumo. Diante de tanto apelo à felicidade como realizar a fantasia do prazer eterno na forma do riso quando rir é um ato compulsório?
Apesar de ser didático (com flashbacks explicativos para dar a medida da alucinação da personagem principal) e deixando claro para o telespectador todos os seus detalhes (como a frase sublinhada por um foco da câmera na escada do camarim que depois o Coringa apaga uma parte para deixar apenas “não sorria”), o filme Coringa fala sobre um adoecimento profundo. A exigência de uma vida feliz no erro, para parafrasear Adorno, é a forma como o diretor Todd Phillips escolheu para conduzir, por meio da apresentação minuciosa de um vilão de quadrinhos, uma trama em cujo centro está um diagnóstico de algumas de nossas patologias sociais. Estamos doentes.
As razões para isso são várias. Uma delas é explicitada por Arthur Fleck (antes de se tornar o Coringa): ninguém consegue escutar ninguém. Para a urgência da vida feliz o tempo da escuta não é compatível. Temos pressa de ter pressa. Que só é interrompida quando assumimos, como disse no meu último livro (Sobre losers: fracasso, impotência e afetos no capitalismo contemporâneo), a figura do loser para o qual o tempo não é mais um território a ser conquistado. O loser é aquele que, como na música ecoada com força no filme, não pode pegar a vida. Ela não domina a sua própria vida.
Aliás, só um vilão poderia encarnar o loser porque ainda que o vilão mimetize o super-herói, visto que ambos agem à margem do Estado para promoverem certa noção de justiça (no filme isso fica patente com a transformação do Coringa numa espécie de líder revolucionário e na sua ação violenta contra figuras hipócritas e poderosas), a sua atuação é construída a partir do fracasso e impotência por meio dos quais ele se subjetiviza. Diferentemente dos super-heróis, cuja assepsia em geral não permite matar os adversários, o Coringa é um loser que decide tocar fogo no sistema e atinge na cabeça – em cadeia nacional – a felicidade ridícula da vida feita para entreter (encarnada no apresentador Murray Franklin). Vida de entretenimento que nos obriga, permitam-me a insistência, a ser felizesnão apenas na miséria, mas da miséria. Vale tudo para se arrancar um sorriso no grande sistema do vale tudo.
Aqui a distinção entre o super-herói e o vilão se dissipa. Não importa. Ambos têm o poder de decidir sobre a vida das outras pessoas. Trata-se da vontade de poder que nos fascina e que ganha a sua máxima expressão quando se pode decidir pela vida dos outros. Enquanto no filme Batman dirigido por C. Nolan, por exemplo, o super-herói é obrigado a escolher entre um grupo de pessoas e a sua namorada presa, só a ele cabe a decisão e a capacidade de salvar essas pessoas, no Coringa a própria personagem estabelece quem vai viver (especialmente na cena em que ele mata seu ex-colega que o traiu e poupa a vida do seu também ex-colega anão). A assimetria existente é que marca a sutil diferença entre o super-herói, que decide a partir de uma questão que lhe é imposta, e o vilão que impõe uma decisão para si mesmo. O ponto de convergência: as vidas que são poupadas são aquelas para as quais eles guardam algum afeto. São os afetos que movem os heróis, super-heróis e os vilões. São os afetos que nos movem. Isto é a vida, como diz novamente a música That’slife.
E no filme Coringa os afetos são destacados por enquadramentos responsáveis por sublinhar as diferentes feições da personagem principal que no fim do filme podem ser vistas retrospectivamente como um quadro de Andy Wharhol: variações de um mesmo sofrimento. Filme que é quadro a quadro construído para mostrar a força de um só quadro.
As oscilações de humor de Arthur Fleck (interpretação impecável de Joaquin Phoenix) são destacadas também de modo metafórico em algumas cenas por luzes que piscam freneticamente. Seu sofrimento vai ganhando forma definitiva, como sublinha uma amiga, no desenvolvimento da sua dança – performance – cada vez mais densa e, em certa medida, violenta. Ele deixa de se fantasiar para ser o seu fantasma. É quando ele toma consciência de que é um loser numa sociedade composta por losers (motivo pelo qual ele termina se tornando um ícone social) e se assume definitivamente como o Coringa.
A última cena em que o agora Coringa fala o close no seu rosto é tão próximo que parte dele fica fora da tela. É o apogeu do seu sofrimento e é quando ele se encontra no mesmo sanatório para o qual a sua mãe tinha ido. Sua mãe que fora condenada por lhe maltratar e que ele resolve matar numa tentativa desesperada de enterrar o seu passado: sufocar. No entanto, a volta do recalcado não respeita limites nem algumas vezes a ética. Transgride. O filme o Coringa é sobre essa estrutura da transgressão.
Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco – ericoandrade@gmail.com

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Theodor Adorno: a psicanálise de adesão ao fascismo



“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”


Do blog da Boitempo
Por Theodor W. Adorno
 
 
Durante a última década, a natureza e o conteúdo dos discursos e panfletos de agitadores fascistas americanos foram submetidos à pesquisa intensiva de cientistas sociais. Alguns desses estudos, realizados segundo as linhas da análise de conteúdo, resultaram numa exposição abrangente [que se encontra] no livro Prophets of deceit, de L. Löwenthal e N. Guterman

1. A imagem global obtida é caracterizada por dois traços principais. Em primeiro lugar, com a exceção de algumas recomendações bizarras e completamente negativas – confinar estrangeiros em campos de concentração ou expatriar sionistas –, o material de propaganda fascista nesse país preocupa-se pouco com questões políticas concretas e tangíveis. A maioria esmagadora das declarações dos agitadores é dirigida ad hominem. Elas são obviamente baseadas mais em cálculos psicológicos que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais. O termo “incitador da turba”, apesar de censurável por seu desprezo inerente pelas massas, é em boa medida adequado, já que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos hitleristas. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de “turba”, é precisamente o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas em uma “turba”, isto é, uma multidão inclinada à ação violenta sem nenhum objetivo político sensato, e criar a atmosfera do pogrom. O propósito universal desses agitadores é instigar metodicamente o que, desde o famoso livro de Gustave Le Bon, é comumente conhecido como “psicologia das massas”.
 
Em segundo lugar, o método dos agitadores é verdadeiramente sistemático e segue um padrão rigidamente estabelecido de “dispositivos” definidos. Isso não se liga apenas à unidade fundamental do propósito político – a abolição da democracia mediante o apoio de massa contra o princípio democrático –, mas mais ainda à natureza intrínseca do conteúdo e da apresentação da própria propaganda. A similaridade das expressões de vários agitadores – das figuras bem conhecidas, como Coughlin e Gerald Smith, aos pequenos disseminadores provincianos de ódio – é tão grande que basta em princípio analisar as declarações de um deles para conhecê-los todos2. Além disso, os próprios discursos são tão monótonos que, assim que se fica familiarizado com o número muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra são intermináveis repetições. De fato, a reiteração constante e a escassez de idéias são ingredientes indispensáveis da técnica toda.
 
“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”
 
Na medida em que a rigidez mecânica do padrão é óbvia e ela mesma expressão de certos aspectos psicológicos da mentalidade fascista, não se pode evitar o sentimento de que o material de propaganda de tipo fascista forma uma unidade estrutural com uma concepção comum total, consciente ou inconsciente, que determina cada palavra que é dita. Essa unidade estrutural parece se referir à concepção política implícita tanto quanto à essência psicológica. Até agora, deu-se atenção científica apenas à natureza destacada e de certo modo isolada de cada dispositivo; as conotações psicanalíticas dos dispositivos foram sublinhadas e elaboradas. Agora com os elementos esclarecidos suficientemente, chegou a hora de centralizar a atenção no sistema psicológico em si – e pode não ser inteiramente acidental que o termo invoque a associação da paranóia –, o qual compreende e gera esses elementos. Isso parece ser o mais apropriado, caso contrário a interpretação psicanalítica dos dispositivos individuais permanecerá algo fortuita e arbitrária. Um tipo de quadro de referência teórica terá de ser desenvolvido. Na medida em que os dispositivos individuais pedem quase irresistivelmente uma interpretação psicanalítica, não é senão lógico postular que esse quadro de referência deveria consistir na aplicação de uma teoria psicanalítica mais abrangente e básica ao método global do agitador.
 
Tal quadro de referência foi fornecido pelo próprio Freud em seu livro Psicologia das massas e análise do eu, publicado em inglês já em 1922, muito antes que o perigo do fascismo alemão parecesse ser agudo3. Não é exagero dizer que Freud, apesar de pouco interessado na fase política do problema, claramente previu a origem e a natureza dos movimentos fascistas de massa em categorias puramente psicológicas. Se é verdade que o inconsciente do analista percebe o inconsciente do paciente, pode-se também presumir que suas intuições teóricas são capazes de antecipar tendências ainda latentes em um nível racional, mas se manifestando em um nível mais profundo. Pode não ter sido por acaso que, após a Primeira Guerra Mundial, Freud tenha voltado sua atenção para o narcisismo e os problemas do eu em sentido específico. Os mecanismos e conflitos instintuais envolvidos desempenham de forma evidente um papel cada vez mais importante na época atual, considerando que, de acordo com o testemunho de analistas praticantes, as neuroses “clássicas”, como a histeria de conversão, que serviram de modelos para o método, ocorrem menos freqüentemente agora que na época do próprio desenvolvimento de Freud, quando Charcot tratou clinicamente a histeria e Ibsen fez dela tema de algumas de suas peças. De acordo com Freud, o problema da psicologia de massa está bastante relacionado ao novo tipo de aflição psicológica tão característico da época que, por razões socioeconômicas, testemunha o declínio do indivíduo e sua subseqüente fraqueza. Embora Freud não se tenha preocupado com as mudanças sociais, pode-se dizer que ele revelou nos confins monadológicos do indivíduo os traços de sua crise profunda e a vontade de se submeter inquestionavelmente a poderosas instâncias (agencies) coletivas externas. Sem jamais ter se dedicado ao estudo dos desenvolvimentos sociais contemporâneos, Freud apontou tendências históricas por meio do desenvolvimento de seu próprio trabalho, da escolha de seus temas e da evolução dos conceitos-guia.
 
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sábado, 2 de dezembro de 2017

Por que precisamos pensar sobre o fascismo? Artigo de Douglas Rodrigues Barros





"É patente que no Brasil, mas também em grande parte do mundo, o nacionalismo, a xenofobia, o racismo e o anticomunismo se ergueram na Santa Cruzada contra o “mal”. Nessas épocas de forte regressão político-social, a “ciência” é elevada a mito e a biologia é posta em primeiro lugar para justificar teorias que foram engolidas pelo soçobrar da ciência como verdade infalível. Nesse processo, a condição humana é reduzida a sua suposta qualidade biológica e a “reflexão” sobre a sociedade se restringemao darwinismo social no qual vence o mais forte.

"Enquanto isso se dá, por outro lado, o pensamento crítico é escrachado e visa-se denunciá-lo como o obrar de gente dissoluta. Um passo à censura, dois passos à queima de livros. O caso de Judith Butler, dos protestos frente a exposições de arte, dos tribunais de exceção que impedem cantores de cantarem, etc., abrem precedentes para se refletir sobre a nova performance legada pelo velho fascismo, algo que a pouco tempo parecia estar encerrado."



Por que precisamos pensar sobre o fascismo?


“Queimem a bruxa”, protestantes pediam #ForaButler e a ‘ideologia de gênero’. Foto: Reprodução 
Quando o renegado [falso] socialista Benito Mussolini encontrou a alcunha para uma prática que nasceu antes da metade do século XIX, com certeza não poderia prever que se desdobraria ao longo do século XX e encontraria expressão no século XXI.
Quando o nacionalismo crescente em todo mundo, a luta contra a ameaça fantasmática do comunismo, agora supostamente travestido de “ideologia de gênero”, e o discurso beligerante a favor da manutenção de relações patriarcais se expressam como tentativa de salvaguardar “os valores”, viceja no solo social antigos horrores.
É patente que no Brasil, mas também em grande parte do mundo, o nacionalismo, a xenofobia, o racismo e o anticomunismo se ergueram na Santa Cruzada contra o “mal”. Nessas épocas de forte regressão político-social, a “ciência” é elevada a mito e a biologia é posta em primeiro lugar para justificar teorias que foram engolidas pelo soçobrar da ciência como verdade infalível. Nesse processo, a condição humana é reduzida a sua suposta qualidade biológica e a “reflexão” sobre a sociedade se restringemao darwinismo social no qual vence o mais forte.
Enquanto isso se dá, por outro lado, o pensamento crítico é escrachado e visa-se denunciá-lo como o obrar de gente dissoluta. Um passo à censura, dois passos à queima de livros. O caso de Judith Butler, dos protestos frente a exposições de arte, dos tribunais de exceção que impedem cantores de cantarem, etc., abrem precedentes para se refletir sobre a nova performance legada pelo velho fascismo, algo que a pouco tempo parecia estar encerrado.
Marcuse certa vez concluiu que o fascismo fora derrotado militarmente, no entanto, nunca culturalmente. Também Adorno no seu famoso Educação após Auschwitz buscou alertar sobre a dormência e o estado de latência das políticas fascistas pós-guerra. Enquanto João Bernardo escreveu uma monumental obra intitulada Os labirintos do fascismo com intuito de explanar sobre os sinais implícitos da sobrevivência do fascismo em lugares insuspeitos. Brecht, mais sensível que os três, resumiu tudo com a liberdade de um poeta na conhecida frase: a cadela do fascismo está sempre no cio.
Podemos dizer que o fascismo sobrevivente a Segunda Guerra se amoldou nos vãos institucionais da Sociedade Civil Burguesa e a ele foram fornecidas diversas roupagens.
No entanto, mais do que um objeto inerte, ou algo que muitos preguiçosos gostariam de resolver em poucas palavras, o termo fascismo desde seu surgimento não fora algo unitário. O mais correto seria refletir nos diferentes fascismos e em suas diferentes características regionais que se uniram sobre alguns princípios comuns: anticomunismo, antiliberalismo, nacionalismo, reafirmação de valores tradicionais, etc.
Sabemos que um conceito pode se tornar adjetivo e não se pode esquecer, também, que o caminho historicamente trilhado pelo fascismo foi exatamente o de travar uma luta de esvaziamento dos conceitos. Por isso, a noção do que é o fascismo não se pode reduzir ao escracho pela preguiça de aprofundar o debate e abandonar as posições que nos são confortáveis.
É patente que o fascismo se manifestou a partir de uma profunda crise do capital unida a uma crise político-social que se dispersou por grande parte da Europa. A burocratização da Revolução Russa e o aniquilamento da nascente Revolução Alemã, com o assassinato brutal de Rosa Luxemburgo, marcaram o início de um processo que levou a adoção do fascismo como uma espécie de terceira via salvadora. Processo que se massificaria, sobretudo, após a rápida ascensão de Hitler ao poder.
Uma das definições mais sintéticas do que é fascismo foi formulada por João Bernardo quando concluiu que o fascismo é uma revolta na ordem. Há no desenvolvimento interno do fascismo uma contradição paradoxal que mobiliza os trabalhadores afim de efetuar uma transformação no capitalismo “necessária” aos duros anos de crise. O historiador Hobsbawn, por outro caminho, chegou quase a mesma conclusão quando sintetizou serem os fascistas revolucionários da contrarrevolução
Diferentemente da direita – que nem sempre é fascista – a direita fascista alcançou rapidamente “as massas”, mantendo, nas palavras de Hobsbawn, uma mobilização na forma de teatro público[1].
Além disso, usurpou muitas formas de atuação dos trabalhadores e adotou seus símbolos desvirtuando-os de seu sentido histórico. O fascismo tomou as ruas com grandes e espetaculares apresentações que visavam, sobretudo, demonstrar sua força e tinham como fim encontrar novos adeptos por meio de discursos violentos.
É conhecida a célebre frase de Benjamin, segundo o qual: “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”. No entanto, é possível haver contrarrevolução sem revolução? Dado a atual conjuntura mundial, talvez, a resposta seja afirmativa. Assim, refletir sobre os problemas perigosos surgidos no solo político-social com o avanço da extrema-direita global só será eficaz na medida em que se observar que há, pelo menos, cinquenta anosa maior parte da esquerda perdeu de seu horizonte qualquer tentativa de transformação social profunda, adotando o reformismo moderador.
Agora, é justamente contra esse reformismo que a direita radical se ergue com sua retórica violenta contra qualquer medida de cunho social.
Nesse sentido, a atual disputa pela gestão do capital entre esquerda e direita se debate no interior da ordem e, uma vez dentro dela, se apresenta também como uma revolta na ordem independente do lado que se esteja.
Obnubilado os espectros políticos que tornam distintos as práticas alcunhadas de esquerda ou de direita dá-se o perigo. Há tempos a esquerda mundial deixou de pautar o debate aceitando acriticamente as medidas econômicas surgidas ante o colapso da modernização do capital. 
No Brasil os resultados disso segundo Chico de Oliveira é o retorno a “acumulação primitiva” sangrenta entregue a voragem financeira. Se, “a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”[2] e o empenho de criar algo novo simplesmente reverbera os espíritos do passado, os gritos e as roupagens; o beco sem saída encontrado com o fim da modernização retornou os índices de miséria no mundo capitalista àqueles do século XIX.
A conhecida frase de Max Horkheimer, que diz que aqueles que não querem falar criticamente de capitalismo devem se manter em silêncio sobre o fascismo, encontra uma atualidade gritante.
A própria sobrevida do fascismo é inerente a um tipo de organização social engendrada por uma dinâmica que dilui as subjetividades ao bel prazer do funcionamento sistêmico. Possibilitando que o próprio conceito de fascismo se aglutine no entorno de algumas práticas mantidas e perpetradas pela “democracia” vigente.
No entanto, se o fascismo de outrora fora um movimento que encontrou formas de modernizar o capital através da guerra imperialista. A direita radical atual, ante a impossibilidade de modernização, prega a simples extinção dos supérfluos numa mise-en-scène grotesca de capitalismo selvagem.
Uma das lições que o fascismo forneceu é um claro sinal de que a cultura do trabalho obedece uma contradição interna que está sempre em disputa e, não poucas vezes, quando o campo da direita se sobressai, ele se sobrepõe.
Vangloriar o trabalho é algo sempre arriscado. A crítica anticapitalista deve sempre estar presente e a noção de classe não pode ser diluída ao signo da individualidade.
Não se pode esquecer que o pórtico de Auschwitz sustentava a infame frase: “Arbeitmacht frei” (isto é, o trabalho liberta).
Com tudo isso, se por um lado, se deve ter cuidado com o termo, por outro, não se pode evitar a denúncia de práticas atuais que em tudo lembram as práticas fascistas. É imprescindível advertir que o embrião do fascismo está vinculado ao ressentimento de pessoas comuns contra uma sociedade que as esmaga e cuja resposta aos problemas é encontrada num tipo de sociedade anterior– numa espécie de volta as raízes – que cria um inimigo “fenotipicamente” ou ideologicamente diferente.
Contrários a emancipação liberal, os fascistas de outrora detestavam a cultura moderna, sobretudo, as artes que os nacional-socialistas alemães alcunhavam de “bolchevismo cultural”.
As semelhanças com os problemas atuais quanto a esse tema se sobressaem a despeito do que queria o autor desse texto. Ainda é preciso dizer, todavia, que no campo das forças políticas, no terreno social, as definições e as posições geralmente são mais dinâmicas do que nossa capacidade de compreensão que sempre chega atrasada.
Com isso em vista, não é à toa que a divisão eleitoreira entre Bolsonaro e Lula pode indicar algo mais complexo do que invariavelmente julgamos. Uma das hipóteses acerca dessa inusitada aproximação, supostamente distantes no espectro político-ideológico, pode apontar que uma oposição contra o fascismo, criada a partir do fortalecimento das instituições estatais, ao invés de deter o perigo fascista, o torna viável.
A questão é: como pensar tais problemas à sombra dos atuais processos regressivos de movimentos de extrema direita no Brasil – movimentos estes que usam uma retórica porcamente liberal, mas sua prática é reativa e extremamente conservadora? Em todo caso, de algo temos certeza; estamos sobre forte ofensiva da extrema-direita não só no Brasil como no mundo. Ao se esgotarem a capacidade de modernização e desenvolvimento, as formas políticas representativas da democracia atual entraram em colapso.
Se as práticas fascistas mais espetaculares são extremamente vendáveis, sempre estampam os jornalões e impõe o debate público atualmente, não se pode esquecer que não é de hoje que vivemos num país extremamente violento. Os números oficiais indicam que todos os dias morrem duas pessoas por erros policiais. A cada nove minutos uma pessoa é violentamente assassinada no Brasil. Segundo o Anuário de Segurança Pública 2015, o Brasil registrou mais vítimas de assassinatos em 5 anos do que a guerra na Síria no mesmo período. Treze mulheres são violentamente assassinadas por dia e em 2014 47.646 mulheres foram estupradas. Qualquer estudo mínimo sobre as estatísticas revela os horrores instaurados e provenientes de um Estado radicalmente desigual e conservador.
Da mesma forma, não é de hoje que a carnificina diária dos programas de maior audiência instaura um sentimento de terror que se orienta na criação de um inimigo comum geralmente identificado com o campo progressista. Programas estes que, sob a presunção da “liberdade de expressão”, que oculta o monopólio midiático, expõe corpos mutilados e lucram com a miséria em sua dose diária fazendo proselitismo contra qualquer tipo de “direitos humanos”.
Não é de hoje que indígenas são assassinados e comunidades inteiras desaparecem sem o mínimo clamor público. É tudo uma questão de prioridades.
Por isso, para grande parte da população a palavra fascismo não tem um significado mais assustador do que a frase “ocupação pacífica da PM em seus bairros”. A grande questão seria que, agora, o ódio tornou-se também performático e saiu do bueiro. Assim, qualquer luta verdadeiramente séria só será realmente efetiva quando se combater não só esses grupos, mas o modo de sociabilidade que os possibilitou e os mantém.
Quando Marx escreveu a conhecidíssima frase que a história aparece a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, refletia sobre Napoleão Sobrinho. Este último como uma caricatura do que foi grande outrora. Também tais movimentos são caricaturais. Mas, tal como Napoleão Sobrinho, conduzem tremendas massas.
Já sabemos onde isso levou no passado, resta saber se ficaremos apenas observando e, com isso, sendo a farsa de nós mesmos. Talvez, por isso seja importante refletir sobre o fascismo, porque pensar sobre o fascismo implica sempre pensar em nossos próprios erros!
Douglas Rodrigues Barros é escritor e doutorando em filosofia.

[1] Hobsbawn, E. Era dos extremos: o breve século XX. São Paulo: Companhia das letras, 1995.
[2]Paráfrase de Marx

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Theodor Adorno e o triunfo da ignorância



Em tempos marcados por brutalidade, o filósofo alemão, expoente da Escola de Frankfurt, escreveu: os estúpidos “já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência” — porque “a debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida”.
Curadoria e Narração: Alexandre Machado - extraído do Outras Palavras
[Este é um trecho de Minima Moralia (1951). A obra completa está disponível (em formato digital) aqui. O livro, em português, é encontrado aqui].
As relações privadas entre os homens formam-se, parece, segundo o modelo do bottleneck (gargalo) industrial. Até na mais reduzida comunidade, o nível obedece ao do mais subalterno dos seus membros. Assim, quem na conversação fala de coisas fora do alcance de um só que seja comete uma falta de tato. O diálogo limita-se, por motivos de humanidade, ao mais chão, ao mais monótono e banal, quando na presença de um só “inumano”.
Desde que o mundo emudeceu o homem, tem razão o incapaz de argumentar. Não necessita mais do que ser pertinaz no seu interesse e na sua condição para prevalecer. Basta que o outro, num vão esforço para estabelecer contato, adote um tom argumentativo ou panfletário para se transformar na parte mais débil. Visto que obottleneck não conhece nenhuma instância que vá além do factual, quando o pensamento e o discurso remetem forçosamente para semelhante instância, a inteligência torna-se ingenuidade, e isso até os imbecis entendem.
A conjura pelo positivo atua como uma força gravitatória, que tudo atrai para baixo. Mostra-se superior ao movimento que se lhe opõe, quando com ele já não entra emdebate. O diferenciado que não quer passar inadvertido persiste numa atitude estrita de consideração para com todos os desconsiderados. Estes já não precisam sentir nenhuma intranquilidade da consciência. 


A debilidade espiritual, confirmada como princípio universal, surge como força de vida. O expediente formalisto–administrativo, a separação em compartimentos de tudo quanto pelo seu sentido é inseparável, a insistência fanática na opinião pessoal na ausência de qualquer fundamento, a prática, em suma, de reificar todo o traço da frustrada formação do eu, de se subtrair ao processo da experiência e de afirmar o “sou assim” como algo definitivo, é suficiente para conquistar posições inexpugnáveis. Pode estar-se seguro do acordo dos outros, igualmente deformados, como da vantagem própria. Na cínica reivindicação do defeito pessoal pulsa a suspeita de que o espírito objetivo, no estágio actual, liquida o subjetivo. Estão down toearth, como os antepassados zoológicos, antes de se alçarem sobre as patas traseiras”