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quinta-feira, 7 de março de 2019

Bolsonaro, o twitteiro, foi a escolha ideal das classes médias e ricas, que se sentem escandalizadas agora com ele.... Por Janio de Freitas


"Má conduta tuiteira tem a ver com o Ministério da Justiça, embora também com a área da comunicação. O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever." - Janio de Freitas


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O autor da cafajestada tuiteira que escandaliza as classes média e rica tem todo o direito de estar, ele sim, com o mais sincero e legítimo espanto. Tudo o que levou a fazê-lo presidente veio de iniciativas dessas classes. Não por acaso, as mais informadas sobre o tenentinho desordeiro, depois sobre o político estadual defensor da ditadura e das milícias, e logo o deputado federal que enriqueceu as características precedentes com duas demonstrações: a ignorância sem brechas e uma variedade insuperável de atos qualificáveis, desde sempre, como molecagens, cafajestices, falta de decoro e de educação, e daí para pior. Não cabe falar em deselegância, em falta de sensibilidade.

Foram três décadas de exibição, bem exposta ao país pela comunicação em geral, até que esse personagem anômalo se revelasse o ideal, político e de governante, das classes média e rica para o Brasil. O direitismo de Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles foi desprezado como insignificância diante do "mito".

O Jair Bolsonaro com título de presidente é o Jair Bolsonaro que todos, mesmo se dotados só de informações mínimas da política, puderam saber quem era, como era e do que se mostrava capaz. E quem, em 30 anos, não teve sequer esse resíduo de informação, na campanha recebeu do candidato uma síntese bastante fiel da sua sedução pela violência, pela morte alheia, pelas palavras e atos moldados no primarismo feroz.

Não há eleitor ingênuo nesse drama brasileiro, se não for tragédia. Não há, portanto, eleitor inocente nos que produziram a vitória nas urnas. Nem mesmo o grande contingente dos evangélicos. Do qual não se sabe se mais usou ou foi usado pela classe rica, na busca de um poder que só compartilham na aparência, enquanto afiam as lâminas.

Nas responsabilidades da classe média estão as dos militares, em particular a da oficialidade do Exército, ativa e reformada. É imaginável que seu pudor profissional, já com muitos hematomas, esteja agora envolto em sentimentos misturados que a perplexidade silencia. Aos olhos da paisanada, a formação do militar do Exército está sob muitas interrogações. Não só pela figura central, mas também pelo endosso que lhe foi dado e pela associação que, noticiou o "Estado de S. Paulo", já conta com mais de uma centena de militares em postos do governo.

Aos militares do núcleo de poder há que reconhecer o respeito demonstrado por suas funções, na relação com os cidadãos. Nada de arroubos, nem de exibicionismo. Apesar de daí decorrer, também, o desconhecimento geral do que pensam esses militares, mesmo que só como definições de políticas públicas. E isso inquieta, porque é quase unânime a percepção do péssimo estado do país. E do que alguns ministros já começaram para piorá-lo.

Má conduta tuiteira tem a ver com o Ministério da Justiça, embora também com a área da comunicação. O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever.

Na casa de Sergio Moro, a vitória de Jair Bolsonaro teve comemoração, levada por sua mulher às redes sociais. Prova de identificação que elimina as hipóteses de encontro com o inesperado, por parte de quem renegou a toga para estar ao lado de quem hoje escandaliza. Moro leva a muitas afirmações de surpresa, entre seus admiradores, mas não pode se surpreender com "o mito".

Jair Bolsonaro encerrou sua mensagem suja com este pedido: "Comentem e tirem suas conslusões" (sic). No que me cabe, pedido atendido.

Janio de Freitas

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Boaventura Santos: "O Brasil é território de experimentação social de interesses internacionais"



  "O Brasil tornou-se um território de experimentação neoliberal e o campo progressista terá de unir para tentar conter os enormes retrocessos que se desenham no horizonte. Esta é a avaliação do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos mais lúcidos, ativos e influentes intelectuais em atividade."

Do GGN:
Sugerido por ML
Na CartaCapital, entrevista muito interessante do Boaventura Santos sobre o Brasil como "território de experimentação neoliberal". 
A descatar o enfoque geopolítico. Segundo o entrevistado, nada se explica no mundo sem considerarmos o conflito EUA x China (e Rússia).
Da CartaCapital
O Brasil tornou-se um território de experimentação neoliberal e o campo progressista terá de unir para tentar conter os enormes retrocessos que se desenham no horizonte. Esta é a avaliação do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, um dos mais lúcidos, ativos e influentes intelectuais em atividade.
O acadêmico foi o convidado do Direto da Redação de CartaCapital, que sempre às quintas-feiras recebe convidados para debater temas da atualidade. Sousa Santos passou por São Paulo, após um périplo de quase um mês por outras cidades brasileiras, para lançar um novo livro, “Na oficina do sociólogo artesão”, editado pela Cortez.
“No Brasil, nesse momento, é difícil que a gente se deixe de surpreender”, afirmou o sociólogo a respeito da eleição de Jair Bolsonaro. Sousa Santos não acredita, porém, que o atual ciclo, de ascensão da extrema-direita, esteja concluído. Ele cita os protestos dos “coletes amarelos” contra o governo do francês Emmanuel Macron, “eleito sob grandes expectativas”, mas que atravessa uma fase de baixíssima popularidade.
Sobre a possibilidade de formação de uma frente progressista no Brasil, a reunir as principais forças de oposição, ele não vê alternativa. “Seria ótima uma união das esquerdas brasileiros, para começo de conversa”.
Para tanto, seria preciso retomar o trabalho de base e o diálogo com as classes populares. “Houve a ilusão de que as conquistas do campo progressista seriam irreversíveis”.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Dois Natais e um país no meio, por Jânio de Freitas



O Natal dói. Não são todos a sentir essa dor. Depende do que a memória diz, e como diz. Das perdas e dos ganhos. Do tempo, talvez. É uma dor vadia. Uma dor sem lugar de doer. Está aqui, está aí, simplesmente.

O Natal que chega me trouxe mais do que essa sensação. Há dias, para mim tudo tem se parecido muito com o final do primeiro ano que vivi como jornalista profissional, excitado com as descobertas naquele 1954. O país agora dividido, dizem, desde a eleição presidencial de 2014, naquele ano era reconhecido como dividido e irreconciliável.

Quatro meses antes, Getúlio se matara, e os defensores de uma política de desenvolvimento industrial e exploração própria de petróleo, contra a política americana de retenção da América Latina, estavam apreensivos e desnorteados. Os conservadores ocupavam outra vez o poder, e as conquistas do governo de Getúlio ficavam ameaçadas. Não é difícil encontrar paralelos entre aquela e a atual fase.

O que mais aproxima os dois momentos, porém, a meu ver é o estado de ânimo dos opostos. Os abatidos na Lava Jato e destituídos do poder reproduzem hoje os sentimentos dos golpeados com Getúlio e retirados do poder. Situações políticas e anímicas equivalentes. Mas a direita de 54 não desfrutou do otimismo que a vitória, por si, podia lhes dar. A situação febril continuou. O ano entrante era esperado com inquietação pelos conservadores, tanto mais que seria ano de eleições e o seu recente controle do poder estaria sob risco.

A euforia dos apoiadores populares de Bolsonaro — da qual não está claro se feita mais de direitismo ou de mera reação aos políticos — não é correspondida no segmento de fato e de direito representativo do conservadorismo. Por mais que evitada a sua exposição, a insegurança sobre o próximo governo é o senso comum no empresariado e na classe média, de sua camada central para cima. As muitas incógnitas do plano e do próprio Paulo Guedes, os já iniciados problemas de comércio exterior decorrentes de política externa, e a reforma tributária produzem um quadro de tensões que dá equanimidade aos conservadores de 54 e de hoje.

Os Natais se sucedem. O Brasil se repete.

A cada leitor, ameno ou raivoso, o desejo de que viva um Natal de levezas e sorrisos.

Leituras

Ainda há tempo. "A fogueira das vaidades" (reedição natalina da Rocco), romance do jornalista Tom Wolfe que é quase uma grande reportagem da modernidade. Leonardo Padura, o do best-seller "O homem que amava cachorros", está de volta com "A transparência do tempo" (Boitempo). Quem não os leu, merece ganhá-los.

Janio de Freitas

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O voto em tempos fascistas, por Tiago Zapater, Professor de Direito Ambiental da PUC-SP e Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP.




"Para o homem comum de Pondé, a vida não tem causa nem sentido. As coisas são o que são ou têm causas sobrenaturais: as pessoas são boas ou más e, com isso, se explica a sociedade. Há homens que batem em mulheres, porque são maus, mas são uma exceção sem causa. São maus, porque nasceram assim. No limite, existe Deus, família e a meritocracia (cujo outro lado é a inveja), e com isso se explicam as injustiças do mundo. E ninguém precisa assumir responsabilidades pelas coisas que não fez, como a escravidão, a poluição, a pobreza e o machismo, porque apenas os méritos alheios (jamais os erros) podem ser apropriados, e a isso chamam de patriotismo e herança. Nação, família e propriedade. "

Do Justificando:


O voto em tempos fascistas

Quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O voto em tempos fascistas

    Foto: Supremacistas brancos após um comício no Estado de Geórgia, Estados Unidos, em 21 de abril de 2018.
Todo voto é uma troca. Nenhum candidato é perfeito. Em todo voto há uma aposta em um ganho futuro e incerto. Mas qual é o preço?
Recentemente, setores da direita parecem ter desenvolvido um especial interesse pela curadoria histórica da expressão “fascismo“. A expressão, dizem, deveria ser reservada para descrever um modo específico de intervenção do Estado na economia, e na vida privada de modo geral, que marcou o regime de Italiano após 1926. Insinua-se assim (e, por vezes, até se diz), que o fascismo foi, na verdade, um incompreendido movimento de esquerda ou, melhor ainda, que a esquerda seria, na verdade, um grande e incompreendido movimento fascista.
Um problema de significados.
É certamente possível observar a experiência histórica do fascismo e extrair, como significado útil para os dias presentes, que a intervenção do Estado na economia é o que leva à violação de direitos humanos e que, portanto, a melhor maneira de garantir esses direitos é garantindo a liberdade de mercado. Para essa visão, nacionalismo, xenofobia e a intolerância de um modo geral não seriam características essenciais do fascismo. O essencial seria o gigantismo estatal. Nesse viés, acusar um candidato de ser fascista seria algo muito próximo de acusá-lo de ser intervencionista, razão pela qual, quando acusados, pela esquerda, de fascistas, esses candidatos podem bradar de volta algo como “fascista é quem me diz“.
De outro lado, também é possível, como fazem as ciências, observar a experiência histórica do fascismo e extrair, como significado útil, a percepção de como autoritarismo totalitário, fundado em um nacionalismo de bases xenófobas e racistas, levou a uma violação sistemática de direitos humanos pelo Estado, com apoio da população (sem o que não seria possível), marcada pela intolerância e opressão de minorias. A ideia-chave do fascismo estaria na construção de um fascio (união de semelhantes) do qual o “outro” está excluído, e é, assim, um inimigo a ser combatido.
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Contudo, independentemente de se considerar o fascismo um movimento (para parafrasear o Min. Toffoli) à esquerda ou à direita, esse debate só tem sentido porque todos concordam em uma coisa: a xenofobia, o racismo, a violação a direitos humanos e a opressão de minorias é algo ruim, e temos o dever de evitar que se repita, certo?
Pois bem. Dentre os vários feitos inacreditáveis de Bolsonaro parece estar o sucesso em conseguir pautar temas como a opressão de minorias e a violação de direitos humanos sob perspectivas inéditas, ao menos desde o fim dos regimes fascista, nazista e soviético. É sobre isso que, em tempos de cólera, me desafio a refletir. 
Recentemente, dois artigos relacionados ao tema me chamaram a atenção. Um, de Eduardo Wolf (Estadão), fala sobre a falácia do voto moralmente superior em um dos dois candidatos (Haddad ou Bolsonaro [1]). O outro, de Luiz Felipe Pondé (Folha de São Paulo), fala sobre como o homem comum não estaria preocupado com problemas ideológicos, mas apenas em obedecer sua mulher, pois, caso contrário, o resultado será não só “que ela ‘fechará as pernas pra ele’, como o dia a dia virará um combate contínuo ao redor de coisas pequenas. E, por consequência, ele não conseguirá trabalhar em paz“.  Nas palavras de Pondé, o homem comum não quer saber de ideologias, mas apenas de pagar boletos “mais fundamentais do que muitas das discussões que os inteligentinhos levam a cabo na mídia” [2].
A pretensa crítica de Pondé ao feminismo não me interessa. É um lugar-comum para o qual não vejo nenhuma utilidade intelectual. Interessa-me a noção de “homem comum” que ele utiliza: uma ficção para dar a ilusão de que há uma maioria de iguais (homens comuns) em relação à qual as minorias estão excluídas, podendo, quando muito, ser toleradas.
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O homem comum, fica claro, é heterossexual e casado. Branco ou, no mínimo, indiferente à raça e ao racismo, bem como a qualquer expressão de identidade que o afaste dos seus iguais homens-comuns. Se não é machista, é, no mínimo, indiferente ao machismo. Se não é homofóbico é, ao menos, indiferente à homofobia e não reconhece equivalência a nenhuma outra expressão da sexualidade que não a sua, heterossexual. Na verdade, nem crê que, nesses temas todos, haja um problema, a não ser que insistam em criar. Interessa-lhe, pois, trabalhar para consumir (pagar boletos) e manter-se no círculo dos seus iguais homens-comuns.
Para o homem comum de Pondé, a vida não tem causa nem sentido. As coisas são o que são ou têm causas sobrenaturais: as pessoas são boas ou más e, com isso, se explica a sociedade. Há homens que batem em mulheres, porque são maus, mas são uma exceção sem causa. São maus, porque nasceram assim. No limite, existe Deus, família e a meritocracia (cujo outro lado é a inveja), e com isso se explicam as injustiças do mundo. E ninguém precisa assumir responsabilidades pelas coisas que não fez, como a escravidão, a poluição, a pobreza e o machismo, porque apenas os méritos alheios (jamais os erros) podem ser apropriados, e a isso chamam de patriotismo e herança. Nação, família e propriedade.   
O que o homem comum não sabe é que os credores que lhe mandam boletos preferem assim. Roubaram-lhe o mundo e ele não percebeu. Sonegam-lhe significados e, para o homem comum, a sociedade segue sendo algo tão certo e místico quanto o mundo natural era para o homem medieval.
Esse homem comum, pagador de boletos, é também o eleitor médio, a quem não interessa os aspectos ideológicos dos candidatos. Interessa-lhe pagar os boletos fundamentais que, com o seu trabalho, ajuda um patrão a emitir e dele ganha o salário para poder pagar (e há quem diga que Marx estava errado…).
Isso me leva ao segundo artigo: aquele sobe a falácia do voto moralmente superior. Wolf aponta que nem todo bolsonário seria um sádico autoritário, assim como nem todo haddadista seria um petista de fé. O eleitor médio (o homem comum) quer pagar seus boletos: uns acreditam na promessa do liberalismo e outros se lembram dos bons tempos do governo Lula. Em ambos os lados, a grande maioria apenas deseja evitar o candidato oposto e torce para que o seu não seja tão ruim quanto aparenta.
O que traz inquietação, para Wolf, não é o voto do homem comum, pagador de boletos, mas aquele eleitor que julga seu voto como moralmente superior ao outro. O seu argumento é o de que os eleitores de Bolsonaro “estão afirmando que o elogio a ditaduras, o louvor a torturadores, o desrespeito sistemático, planejado e continuado às instituições que constituem uma democracia (Congresso, partidos, liberdade de imprensa, respeito ao adversário político, que jamais deve ser tratado como um inimigo, e pesos e contra-pesos que impeçam uma tirania da maioria sobre a minoria) são, política e moralmente falando, ou bem secundários, ou bem irrelevantes“. De outro lado, os eleitores de Haddad estariam em um igual posição moral, pois “ não há uma única acusação relevante do ponto de vista moral em matéria de liberdades políticas e defesa dos direitos humanos que não possa, em alguma medida, ser feita contra o próprio PT“.
O argumento já tomou as redes sociais: o apoio do PT a regimes que violam direitos humanos seria moralmente equivalente ao louvor de Bolsonaro à tortura e à ditadura. De um lado, a hipocrisia política. Do outro lado, o cinismo sádico. Entre um e outro, ao homem comum restaria pagar seus boletos fundamentais e seguir com a vida sem se preocupar com esses detalhes.
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Novamente, um problema de significados.
Fazer vistas grossas à violação de direitos humanos em outros países é moralmente reprovável, mas faz parte do cardápio da política internacional. É o caso do Brasil com a Venezuela e é o caso da Venezuela com a China. Também é o caso dos Estados Unidos com a China (Obama chegou a reconhecer o Tibete como parte da China) e com a Rússia, que, por sua vez, também apoia a Venezuela. Aliás, apesar do justo rechaço à ditadura de Maduro, os Estados Unidos continuam comprando petróleo da Venezuela.
Bolsonaro traz algo diferente: um louvor público ao ato de torturar e um apoio específico à prática da tortura pelo Estado (“sou à favor da tortura, tu sabes disso“). Ora, se a vida tem causa e sentido, e se as coisas têm significados, não é possível dizer que estamos diante do mesmo problema moral. Se existe um inferno, ele reserva um lugar diferente para a apologia sádica de Bolsonaro “ao terror de Dilma Rousseff“, ao assassinato de opositores (“deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique“); ao racismo (“nem para procriador ele serve mais“) e à desumanização de homossexuais (“seria incapaz de amar um filho homossexual […]prefiro que um filho meu morra num acidente“). 
Uma inequívoca visão de mundo segundo a qual nem todos têm direito a ter direitos.
Homens de bem (o homem comum) têm direito a ter direitos. Todos os outrospodem, legalmente, ser mortos, torturados, oprimidos, humilhados, excluídos do espaço público, tratados como anormais, como animais, agredidos, entulhados em presídios ou, quando muito, tolerados na condição de minoria. A questão é saber quem são os excluídos do fascio (união de iguais) e o que estaria reservado a esses excluídos.
A divisão do mundo entre nós (homens comuns) e os outros é antiga. Romanos e bárbaros viveram sob essa distinção e, sob ela, morreram judeus, homossexuais, portadores de necessidades especiais, poloneses, testemunhas de Jeová, eslavos, comunistas e vários outros que não perfaziam o conceito nazista de homem de bem. O homem comum, privado de significados, adere à divisão e se julga protegido sem saber que não tem controle sobre quem será considerado, amanhã, o outro. A divisão é uma técnica antiga. Ela nasce do discurso do medo e serve a propósitos políticos dos poderosos e daqueles que mandam boletos para que os homens comuns paguem.
Eu estaria disposto a aceitar, ainda que a contragosto, um governo que apoie a causa de Israel contra a Palestina (como Bolsonaro anuncia que fará). Estaria também disposto a aceitar, exigindo fiscalização e atuação das instituições, um partido corrupto no governo, como é o caso do partido de Bolsonaro, o PSL (para onde migrou o PP, partido mais envolvido na lava jato). Mas não posso aceitar um governo que, mesmo após todas as falsas modulações típicas do segundo turno, continua deixando claríssimo que vê o mundo dividido entre homens de bem e os outros.
Não me pretendo moralmente superior a ninguém, mas tenho para mim alguns valores, que são inegociáveis. O que Bolsonaro pode me oferecer por eles? Estabilidade econômica? Crescimento do PIB? Baixa do dólar? Alta da bolsa? Mais empregos? O fim da corrupção?
Todo voto é uma troca. Nenhum candidato é perfeito. Quando escolhemos um candidato, aceitamos certos defeitos, aderimos a certas ideias e torcemos para que, ao menos em parte, aqueles projetos deem certo. Ao mesmo tempo, torcemos para que certas acusações e temores contra o candidato não se confirmem. Em todo voto há uma aposta em um ganho futuro e incerto, que pode ou não se realizar: projetos, programas, propostas e a própria propalada honestidade do candidato. Mas em todo voto há também um preço, que pagamos à vista. Qual é esse preço?  Lembro de Saramago:  dentro de nós há uma coisa que não tem nome essa coisa é o que somos“. Pelo que Bolsonaro oferece, não estou disposto a pagar o preço.
Leia mais:
Em qualquer caso, são favas contadas. Bolsonaro e seus bolsonários estão aí. Repercutir suas bravatas anti-humanistas só contribui para a perda de significados. A mídia e os intelectuais deveriam se esforçar por ignorar essas bravatas, relegá-las ao esquecimento a que pertencem. Os direitos humanos e as instituições são muito maiores que Bolsonaro e suas declarações. Bolsonaro não será o fim do ativismo, do feminismo e dos movimentos sociais, a não ser que estes insistam em se descrever a partir desse discurso autofágico. A sociedade tem explicação e já não é possível por o gênio de volta na garrafa.
O tempo é de superar as bravatas bolsonaristas, porque elas só têm o tamanho que lhe permitirmos. É tempo de resistir ao obscurantismo, que rouba dos indivíduos as causas e sentidos do mundo. É tempo de superar o fascio (união de iguais) como modelo de agregação e pensar em projetos de nação que possam unir sem exclusões. Pensar uma comunidade de diferentes, com interesses comuns, e lembrar, ao longo dos próximos quatro anos, que existe muito mais na vida do que os bolsonários.
Somos a resistência, e estamos aqui.
Tiago C. Vaitekunas Zapater é Professor de Direito Ambiental da PUC-SP e Mestre e Doutor em Direito pela PUC-SP.
Notas:
[1] cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/a-cruz-e-a-espada-o-voto-moralmente-superior-em-bolsonaro-ou-haddad
[2] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/10/as-filosofas-do-interior.shtml

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Dez pontos para se entender a farsa e conluio entre membros instituicionais, mídia e direita raivosa no Brasil ameaçado pelo fascismo




Texto de Carlos Motta (publicado no Contexto Livre):


Pessoal que está preocupado com a eleição deste ano deve levar em consideração algumas coisas nesta semana decisiva. São algumas observações de quem já passou por incontáveis eleições:

1) O jogo é pesadíssimo, envolve interesses que nós, mortais, nem sonhamos existir;

2) O eleitorado brasileiro é dividido entre 30% de conservadores, 30% de progressistas, e o restante que muda de lado a cada eleição de acordo com seus interesses - econômicos, principalmente;

3) A direita não cresceu tanto quanto se imagina, apesar de todo o esforço feito para desmoralizar, criminalizar e demonizar a esquerda. A maioria da população não sabe o que é esquerda ou direita, é analfabeta politicamente;

4) O viés autoritário, machista, preconceituoso, racista, homofóbico, materialista e intolerante de certa parcela da população sempre existiu no país e apenas veio à tona, desavergonhadamente, com a revolução proporcionada pela internet;

5) Esta é uma eleição que difere das passadas justamente pela explicitação dessa violência latente por parte do candidato nazifascista. Nunca, anteriormente, um candidato se mostrou tão adepto das práticas antidemocráticas.

6) A direita "civilizada" não existe mais no Brasil, não tem lideranças nacionais, perdeu completamente o prumo quando resolveu promover o golpe que afastou Dilma Rousseff da presidência;

7) O papel da imprensa nesta eleição não mudou: ela continua a serviço de seus interesses, ou seja, dos interesses da turma do dinheiro, da classe dominante que não aceita sequer um governo social-democrata. A imprensa brasileira é uma imensa máquina de propaganda ideológica, nada mais que isso;

8) Tudo o que for possível para derrotar os candidatos progressistas será feito pelos donos do Brasil. Eles atravessaram o Rubicão há algum tempo, não têm mais pudores em aplicar os golpes mais sujos para vencer o pleito;

9) A eleição é importante para essa turma porque, de certa forma, legitima a "democracia" que querem para o Brasil: um simulacro, no qual Judiciário, Ministério Público, Imprensa, grandes empresários, e políticos reacionários controlam as instituições, mantendo o povo distante da tomada de decisões;

10) Para não alongar mais esta pensata, vai a última consideração: institutos de pesquisa sempre fizeram e continuam a fazer parte do jogo do poder. Pesquisas eleitorais servem para duas coisas, basicamente: nortear os rumos das campanhas e esquentar ou esfriar o ânimo dos eleitores/apoiadores. Elas nunca estão completamente certas ou erradas, nem são tão científicas quanto pretendem mostrar. Devem, sempre, ser vistas e interpretadas com uma boa dose de desconfiança.

Carlos Motta
No Esquerda Caviar


quinta-feira, 6 de abril de 2017

O resgate da natureza e do humano do mal da Globalização econômica.... Por Leonardo Boff


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"Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de bilhardários contra 99% de dependentes e empobrecidos."


O resgate da planetização/globalização


Texto de Leonardo Boff


Hoje há uma forte confrontação com o processo de globalização, exacerbado por Donald Trump que reforçou fortemente “o América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. Move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor das corporações dentro dos USA.

Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de bilhardários contra 99% de dependents e empobrecidos.

Este tipo de globalização é de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, a fase de ferro da globalização. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra a quando a descobrimos, vendo-a de suas naves espaciais, a partir de fora, como no-lo testemunharam os astronautas Aí fica claro que Terra e Humanidade formam uma única entidade complexa.

Impactante é o testemunho do astronauta norteamericano John W.Young, por ocasião da quinta viagem à Lua no dia 16 de abril de 1972:”Lá embaixo, está a Terra, este planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, mossa patria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E desta perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esta planeta do qual somos parte”.

A partir desta experiência, soam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teihard de Chardin ainda em 1933:”A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”. Esta crise se instalou nas nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. Ao inventarmos os meios de nossa própria auto-destruição, aumentou ainda mais nossa responsabilidade pelo todo do planeta.

Se bem repararmos esta consciência irrompeu já nos albores do século XVI, precisamente em 1521, quando Magalhães fez pela primeira vez o périplo do globo terrestre, comprovando empicamente que a Terra é de fato redonda e podemos alcançá-la a partir de qualquer ponto de onde estivermos.

Inicialmente a globalização realizou-se na forma de ocidentalização do mundo. A Europa deu início à aventura colonialista e imperialista de conquista e dominação de todas as terras descobertas e a descobrir, postas serviço dos interesses europeus corporificados na vontade de poder que bem podemos traduzir como vontade de enriquecimento ilimitado, de imposição da cultura branca, de suas formas políticas e de sua religião cristã. A partir das vítimas desse processo, essa aventura se fez sob grande violência, de genocídios, etnocídios e de ecocídios. Ela significou para a maioria dos povos um trauma e uma tragédia, cujas consequências se fazem sentir até os dias de hoje, também entre nós que fomos colonizados, que introduzimos a escravidão e nos rendemos às grandes potências imperialistas.

Hoje temos que resgatar o sentido positivo e irrenunciável da planetização, palavra melhor que globalizção, devido à sua conotação econômica. A ONU no dia 22 de abril de 2009 oficializou a nomenclatura de Mãe Terra para dar-lhe um sentido de algo vivo que deve ser respeitado e venerado como o fazemos com nossas mães. O Papa Francisco divulgou a expressão Casa Comum para mostrar a profunda unidade da espécie humana habitando num mesmo espaço comum.

Esse processo é um salto para frente no processo da geogênese. Não podemos retroceder e fecharmo-nos, como pretende Trump, nos nossos limites nacionais com uma consciência diminuída. Temos que adequarmo-nos a esse novo passo que a Terra deu, esse super-organismo vivo, segundo a tese de Gaia. Nós somos o momento de consciência e de inteligência da Terra. Por isso somos a Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera. Somos os únicos entre os seres da natureza cuja missão ética é de cuidar desta herança bem-aventurada, faze-la um lar habitável para nós e para toda a comunidade de vida.

Não estamos correspondendo a este chamado da própria Terra. Por isso temos que despertar e assumir essa nobre missão de construir a planetização.






Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O golpe parlamentar e a volta da classe do privilégio e hipocrisia, por Leonardo Boff




A volta da classe do privilégio e o golpe parlamentar



O principal problema brasileiro que atravessa toda a nossa história é a monumental desigualdade social que reduz grande parte da população à condição de ralé.
Os dados são estarrecedores. Segundo Marcio Pochman e Jessé Souza, que substituiu Pochman na presidência do IPEA são apenas 71 mil pessoas (ou 1% da população que representa apenas 0,05% dos adultos), multibilionários brasileiros, que controlam praticamente nossas riquezas e nossas finanças e através delas o jogo político. Essa classe dos endinheirados, que Jessé Souza chama de classe do privilégio, além de perversa socialmente é extremamente hábil pois se articula nacional e internacionalmente de tal forma que sempre consegue manobrar o poder de Estado em seu benefício.
Estimo que seu maior feito atual foi vergar a orientação da política dos governos Lula-Dilma na direção de seus interesses econômicos e sociais, apesar das intenções originais do governo de praticar uma política alternativa, própria de um filho da pobreza e do caos social, como era o caso de Lula.
A pretexto de garantir a governabilidade e de evitar o caos sistêmico, como se alegava, essa classe do privilégio conseguiu impor o que lhe interessava: a manutenção inalterável da lógica acumuladora do capital. Os projetos sociais do Governo não a obrigava a renunciar a nada, antes, eram funcionais a seus propósitos. Chegavam a dizer entre si, que em vez de nós, da elite, governarmos o país, é melhor que o PT governe, mantendo intocáveis nossos interesses históricos, com a vantagem de não termos mais nenhuma oposição. Ele assina em baixo de nossos projetos essenciais.
Essa classe de endinheirados coagia o governo a pagar a dívida pública antes de atender as demandas históricas da população. Assim quitava-se a dívida monetária com sacrifício da dívida social, que era o preço para poder fazer as políticas sociais. Estas, nunca havidas antes, foram robustas e incluíram cerca de 40 milhões de pobres no consumo.
Os mais críticos perceberam que esse caminho era demasiadamente irracional e desumano para ser prolongado. Foi aqui que se instalou um estremecimento entre os movimentos sociais e o governo Lula-Dilma.
Tudo indicava que, com quatro eleições ganhas, apesar dos constrangimentos sistêmicos, se consolidava um outro sujeito de poder, vindo de baixo, das grandes maiorias oriundas da senzala e dos movimentos sociais. Estas começaram a ocupar os lugares e usar os meios antes reservados à classe média e aos da classe do privilégio que, no fundo nunca aceitou o operário Lula e nunca se reconciliou com o povo, antes o desprezava e humilhava. Foi aí que os antigos donos do poder despertaram raivosamente, pois poderiam pela via do voto nunca mais chegar ao poder.
Instaurada uma crise político-econômica sob o governo Dilma, crise cujos contornos são globais, a classe do privilégio aproveitou a oportunidade para agravar a situação e, pela porta dos fundos, chegar ao Planalto. Criou-se uma articulação nada nova, já ensaiada contra Vargas, Jango e Juscelino Kutischek, assentada sobre o tema moralista do combate à corrupção, salvar a democracia (a deles que é de poucos). Para isso era necessário suscitar a tropa de choque que são os partidos da macroeconomia capitalista (PSDB,PMDB e outros),apoiados pela imprensa empresarial que foi o braço estendido das forças mais conservadores e reacionárias de nossa história com jornalistas que se prestam à distorção, à difamação e diretamente à difusão de mentiras.
A narrativa é antiga, pois sataniza o Estado como o antro da corrupção e magnifica o mercado como o lugar das virtudes econômicas e da inteireza dos negócios. Nada mais falso. Nos Estados, mesmo dos países centrais, vigora corrupção. Mas onde ela é mais selvagem é no mercado, pois sua lógica não se rege pela cooperação mas pela competição, onde praticamente vale tudo, um procurando engolir o outro. Há milionárias sonegações de impostos e grandes empresários escondem seus ganhos absurdos em contas no exterior, em paraísos ficais como se tem denunciado recentemente pela Zelotes, Lava-Jato e Panamá-papers.
Portanto, é pura falsidade atribuir as boas obras ao mercado e as más ao Estado. Mas essa narrativa, martelada continuamente pela mídia empresarial, conquistou a classe média. Diz Jessé Souza com acerto: “em literalmente todos os casos a classe média conservadora foi usada como massa de manobra para derrubar os governos de Vargas, Jango e agora Lula-Dilma e conferir o “apoio popular” e a consequente legitimidade para esses golpes sempre no interesse de meia dúzia de poderosos”(A tolice de inteligência brasileira, Leya 2015,p. 207).
Na base está uma mesquinha visão mercantilista da sociedade, sem qualquer interesse pela cultura e que exclui e humilha os mais pobres, roubando-lhes o tempo de vida nos transportes sem qualidade, nos baixos salários e na negação de qualquer perspectiva de melhora já que são destituídos de capital social (educação, tradição familiar etc). Para garantir sucesso nessa empreitada perversa se criou uma articulação que envolve grandes bancos, a FIESP, a MP, a PF e sectores do judiciário. No lugar das baionetas funcionam agora os juízes justiceiros que não relutam em passar por cima dos direitos humanos e da presunção de inocência dos acusados, com prisões preventivas e pressão psicológica para a delação premiada, com conteúdos sigilosos divulgados pela imprensa.
O atual processo de impeachment à presidenta Dilma,mediante um golpe parlamentar, se inscreve dentro desta quadro golpista pois se trata de tirá-la do poder não por via eleitoral mas pela exacerbação de práticas administrativas consideradas crime de responsabilidade. Por eventuais erros (concedido mas não aceito) se pune com o supremo castigo uma pessoa honesta contra a qual não se reconhece nenhum crime.
A injustiça é o que mais fere a dignidade de uma pessoa. Dilma não merece essa dor, pior do que aquela sofrida nas mãos dos torturadores.
*Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

sábado, 23 de abril de 2016

A razão real que os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment (e a imbecilidade néscia dos coxinhas). Artigo de David Miranda e video de Mino Carta

Segue vídeo do jornalista Mino Carta e o artigo de David Miranda sobre o surrealismo e cinismo hipócrita do Maior e Mais Estúpido Golpe ocorrido no Brasil com apoio de imbecis coxinhas néscios, velhacos e hipócritas:



Corrupção é só um pretesto para os ricos e poderosos que falharam em derrotá-la nas eleições

A história da crise política no Brasil, e a mudança rápida da perspectiva global em torno dela, começa pela sua mídia nacional. A imprensa e as emissoras de TV dominantes no país estão nas mãos de um pequeno grupo de famílias, entre as mais ricas do Brasil, e são claramente conservadoras. Por décadas, esses meios de comunicação têm sido usados em favor dos ricos brasileiros, assegurando que a grande desigualdade social (e a irregularidade política que a causa) permanecesse a mesma.

Aliás, a maioria dos grandes grupos de mídia atuais — que aparentam ser respeitáveis para quem é de fora — apoiaram o golpe militar de 1964 que trouxe duas décadas de uma ditadura de direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do país. Esse evento histórico chave ainda joga uma sombra sobre a identidade e política do país. Essas corporações — lideradas pelos múltiplos braços midiáticos das Organizações Globo — anunciaram o golpe como um ataque nobre à corrupção de um governo progressista democraticamente eleito. Soa familiar?

Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora.



Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi que a mídia plutocrática do país gastou meses incitando esses protestos (enquanto pretendia apenas “cobri-los”). Os manifestantes não representavam nem de longe a população do Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e seus programas de combate à pobreza por duas décadas.

Aos poucos, o resto do mundo começou a ver além da caricatura simples e bidimensional criada pela imprensa local, e a reconhecer quem obterá o poder uma vez que Rousseff seja derrubada. Agora tornou-se claro que a corrupção não é a razão de todo o esforço para retirar do cargo a presidente reeleita do Brasil; na verdade, a corrupção é apenas o pretexto.

O partido de Dilma, de centro-esquerda, conseguiu a presidência pela primeira vez em 2002, quando seu antecessor, Lula da Silva, obteve uma vitória espetacular. Graças a sua popularidade e carisma, e reforçada pela grande expansão econômica do Brasil durante seu mandato na presidência, o PT ganhou quatro eleições presidenciais seguidas — incluindo a vitória de Dilma em 2010 e, apenas 18 meses atrás, sua reeleição com 54 milhões de votos.

A elite do país e seus grupos midiáticos fracassaram, várias vezes, em seus esforços para derrotar o partido nas urnas. Mas plutocratas não são conhecidos por aceitarem a derrota de forma gentil, ou por jogarem de acordo com as regras. O que foram incapazes de conseguir democraticamente, eles agora estão tentando alcançar de maneira antidemocrática: agrupando uma mistura bizarra de políticos — evangélicos extremistas, apoiadores da extrema direita que defendem a volta do regime militar, figuras dos bastidores sem ideologia alguma — para simplesmente derrubarem ela do cargo.

Inclusive, aqueles liderando a campanha pelo impeachment dela e os que estão na linha sucessória do poder — principalmente o inelegível Presidente da Câmara Eduardo Cunha — estão bem mais envolvidos em escândalos de corrupção do que ela. Cunha foi pego ano passado com milhões de dólares de subornos em contas secretas na Suíça, logo depois de ter mentido ao negar no Congresso que tivesse contas no exterior. Cunha também aparece no Panamá Papers, com provas de que agiu para esconder seus milhões ilícitos em paraísos fiscais para não ser detectado e evitar responsabilidades fiscais.

É impossível marchar de forma convincente atrás de um banner de “contra a corrupção” e “democracia” quando simultaneamente se trabalha para instalar no poder algumas das figuras políticas mais corruptas e antipáticas do país. Palavras não podem descrever o surrealismo de assistir a votação no Congresso do pedido de impeachment para o senado, enquanto um membro evidentemente corrupto após o outro se endereçava a Cunha, proclamando com uma expressão séria que votavam pela remoção de Dilma por causa da raiva que sentiam da corrupção.

Como o The Guardian reportou: “Sim, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. ‘Pelo amor de Deus, sim!’ declarou Silas Câmara, que está sob investigação por forjar documentos e por desvio de dinheiro público.”

Mas esses políticos abusaram da situação. Nem os mais poderosos do Brasil podem convencer o mundo de que o impeachment de Dilma é sobre combater a corrupção — seu esquema iria dar mais poder a políticos cujos escândalos próprios destruiriam qualquer carreira em uma democracia saudável.

Um artigo do New York Times da semana passada reportou que “60% dos 594 membros do Congresso brasileiro” — aqueles votando para a cassação de Dilma — “enfrentam sérias acusações como suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, sequestro e homicídio”. Por contraste, disse o artigo, Rousseff “é uma espécie rara entre as principais figuras políticas do Brasil: Ela não foi acusada de roubar para si mesma”.

O chocante espetáculo da Câmara dos Deputados televisionado domingo passado recebeu atenção mundial devido a algumas repulsivas (e reveladoras) afirmações dos defensores do impeachment. Um deles, o proeminente congressista de direita Jair Bolsonaro – que muitos esperam que concorra à presidência e em pesquisas recentes é o candidato líder entre os brasileiros mais ricos – disse que estava votando em homenagem a um coronel que violou os direitos humanos durante a ditadura militar e que foi um dos torturadores responsáveis por Dilma. Seu filho, Eduardo, orgulhosamente dedicou o voto aos “militares de 64” – aqueles que lideraram o golpe.

Women carrying flowers take part in a demonstration against the impeachment process of Dilma Rousseff

Até agora, os brasileiros têm direcionando sua atenção exclusivamente para Rousseff, que está profundamente impopular devido a grave recessão atual do país. Ninguém sabe como os brasileiros, especialmente as classes mais pobres e trabalhadoras, irão reagir quando verem seu novo chefe de estado recém-instalado: um vice-presidente pró-negócios, sem identidade e manchado de corrupção que, segundo as pesquisas mostram, a maioria dos brasileiros também querem que seja cassado.

O mais instável de tudo, é que muitos — incluindo os promotores e investigadores que tem promovido a varredura da corrupção — temem que o real plano por trás do impeachment de Rousseff é botar um fim nas investigações em andamento, assim protegendo a corrupção, invés de puni-la. Há um risco real de que uma vez que ela seja cassada, a mídia brasileira não irá mais se focar na corrupção, o interesse público irá se desmanchar, e as novas facções de Brasília no poder estarão hábeis para explorar o apoio da maioria do Congresso para paralisar as investigações e se protegerem.

Por fim, as elites políticas e a mídia do Brasil têm brincado com os mecanismos da democracia. Isso é um jogo imprevisível e perigoso para se jogar em qualquer lugar, porém mais ainda em uma democracia tão jovem com uma história recente de instabilidade política e tirania, e onde milhões estão furiosos com a crise econômica que enfrentam.

David Miranda
No The Guardian

sexta-feira, 4 de março de 2016

A Operação Palhaçada da Globo-Moro-Casa Grande explicita o óbvio: apesar de suas limitações, são os acertos de Lula que levam as elites ao ódio classista e a o quererem preso


Condução coercitiva, com caráter claramente fanfarrão, é primeiro passo para prisão sem julgamento. Lulismo tem limites e contradições evidentes — mas são seus méritos que levam elites a odiá-lo

Sintoma: em montagem que circulou fartamente nas redes sociais, Lula acaricia boneco que o representa preso. Que recalques a Lava Jato suscita?
Sintoma: em montagem que circulou fartamente nas redes sociais, Lula acaricia boneco que o representa preso. Quantos recalques a Lava Jato suscitara?

Por Antonio Martins - do Outras Palavras
O ex-presidente Lula está, neste momento (manhã do dia 04 de março), em alguma dependência da Polícia Federal, levado sob coerção para prestar depoimento. As informações são contraditórias e confusas: não se sabe se irá à sede da PF na Lapa, se será conduzido a Curitiba ou ouvido por delegados em um hotel em São Paulo. A coerção foi determinada pelo juiz paranaense Sérgio Moro, na 24ª etapa – “Aletheia” – da chamada Operação Lava Jato. O objetivo declarado é apurar suposto favorecimento que Lula teria recebido, de empreiteiras, em imóveis cuja propriedade é atribuída a ele, em Atibaia e Guarujá.
Porém, os passos que precederam a coerção são claros, tanto no terreno jurídico quanto no político e midiático. Nos últimos dias, a força-tarefa de juízes e procuradores que constitui a Lava Jato passou a operar freneticamente, num aparente esforço para consumar a prisão do ex-presidente. Na quarta-feira (2/3), divulgou-se com alarde que o empresário Leo Pinheiro, sócio e ex-presidente da construtora OAS,estaria decicido a fazer delação premiada que comprometeria Lula. Em seguida, silêncio: tiro perdido? Ontem, foi a vez de a revista IstoÉ anunciar a possível delação, com idêntico sentido, do senador Delcídio do Amaral (PT-MT) – que aparentemente ocorreu de fato, o que não significa ser verídica. Agora, vem a coerção, acompanhada de medidas destinadas a produzir alarde. Duzentos policiais federais envolvidos. Invasão do Instituto Lula, das casas do ex-presidente e de seu filho, para suposta apreensão de provas… Ainda que Lula tenha cometido crimes, guardará os indícios em seus computadores, depois de sofrer anos de perseguições?
* * *
No terreno político, há movimentação paralela mas igualmente frenética. Aproveitando-se da fraqueza e da falta completa de iniciativa e ânimo, por parte do governo Dilma, um grupo de parlamentares tenta aprovar no Congresso Nacional — a toque de caixa e sem qualquer debate com a sociedade — um conjunto de medidas claramente regressivas. Estão entre elas: a) a concessão do petróleo do pré-sal para corporações estrangeiras; b) a “independência” do Banco Central em relação a autoridades eleitas – que o colocaria diretamente sob controle da aristocracia financeira; c) a escandalosa blindagem das empresas que obtiverem concessão de serviços públicos (para que a sociedade seja impedida de examinar e rever os contratos); d) a limitação de gastos não financeiros do Estado (o que poderia levar a redução real do salário-mínimo e das aposentadorias).
A articulação entre as frentes jurídica e política é evidente. A agenda regressiva no Congressso é impulsionada pelos senadores José Serra (PSDB-SP) e Romero Jucá (PMDB-RR). Mas quem comanda seu avanço são dois dos parlamentares mais enterrados no lodaçal do Congresso – Eduardo Cunha e Renan Calheiros, os presidentes da Câmara e Senado. A estes a mídia e a Lava Jato permitem e estimulam que dirijam a pauta nacional sem qualquer tipo de constrangimento. Ou seja: não se está diante de uma cruzada moralizadora, de uma Operação Mãos Limpas despartidarizada. O que há é uma campanha que usa a bandeira do combate à corrupção como biombo para obter, sem o risco do debate democrático, objetivos que não seriam alcançados de outro modo. O sentido político da Lava Jato tem sido desnudado numa série de textos do jornalista Luís Nassif, um dos quais é essencial.
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As piores mentiras são, sempre, as meias verdades. O que torna esta operação jurídico-política mais danosa é o fato de se basear em fatos concretos. As revelações da Lava Jato não são invenções brotadas da imaginação fértil de Sérgio Moro. Assim como no caso do “Mensalão”, o PT herdou e reproduziu as práticas corruptas que o Estado brasileiro impõe, desde que fundado, aos que o habitam. No primeiro episódio, o elo de ligação foi o marqueteiro Marcos Valério, que serviu sucessivamente a tucanos e petistas – mantendo idênticomodus operandi. Agora é o senador Delcídio do Amaral. Nomeado por Fernando Henrique Cardoso para a diretoria de Gás e Energia da Petrobŕas, em 2000, articulou-se desde então com Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, hoje os dois principais delatores da Lava Jato. Em 2001, sentiu o esgotamento do velho esquema e bandeou-se para o PT, partido pelo qual elegeu-se senador, em 2002. Foi acolhido e, tal qual Marcos Valério, manteve métodos idênticos. Não é de estranhar que este autêntico homem-bomba seja igualmente rechaçado, agora, por tucanos e governistas.
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O que mais deu força à Lava Jato não foram suas revelações – alguém ignora a corrupção endêmica ao Estado brasileiro? – mas o novo ambiente político em que ela vicejou, após o início do segundo governo Dilma. Conforme destacou com precisão Guilherme Boulos, a presidente abre mão, sem pudor algum, de tudo que diferenciava o petismo dos governos das elites. No desespero para salvar a própria pele, entrega o único trunfo que a distinguiria da pilhagem praticada pelo Estado brasileiro. Seus atos sugerem que desistiu do que havia de mais positivo no lulismo: a modesta (porém efetiva) redistribuição de riquezas; a política externa independente (que tanto incomodou a Washington); a tentativa de retomar um projeto desenvolvimentista (ainda voltado aos velhos paradigmas, mas ao menos não submisso à aristocracia financeira).
Lula sobreviveu ao “mensalão” porque pôde mostrar, em 2006, que seu projeto o distinguia. A campanha udenista de Serra e da mídia esbarrou em algo nítido na consciência coletiva. A corrupção do Estado brasileiro é, todos sabem, atávica; mas o lulismo indicava que as maiorias não estavam condenadas a padecer eternamente. Que dizer de Dilma, que, em 2016, entrega o pré-sal, propõe uma contra-reforma fiscal que levará à redução real do salário mínimo e quer reduzir os direitos previdenciários – enquanto tolera os lucros recordes dos bancos? Como defender um governo que trabalha com afinco, todos os dias, para tornar-se indefensável?
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Bem pouco resta, em todo o mundo, das velhas democracias que herdamos das revoluções dos séculos XVII ao XX. Mas seus símbolos persistem e podem ser reavivados, porque são conquistas coletivas. Os filósofos iluministas cujas ideias ajudaram a superar a crise do mundo medieval apoiaram-se no que houvera de melhor na Antiguidade clássica. Talvez seja necessário retornar aos ideais das revoluções modernas para retirar inspiração, nos dias tormentosos que vivemos.
Num mundo em crise, surgem por toda parte fenômenos estranhos. Nos EUA, um senador marginalizado do Partido Democrataconverteu-se num candidato à presidência com chances reais de vitória. Na Inglaterra, o velho Partido Trabalhista, depois de amortecido e privado de sua alma, reviveu graças ao impulso de Jeremy Corbin, um socialista sincero. A coerção de Lula é um símbolo poderoso. O Brasil tem sido, desde o início deste século, um país inspirador para outro mundo possível. Diante deste ataque, seremos capazes de inventar uma alternativa?