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terça-feira, 26 de agosto de 2025
A engrenagem oculta da mídia ocidental. Reportagem de Reynaldo José Aragon Gonçalves, jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento.
'Como think tanks, fundações, Big Techs e agências estatais moldam o consenso global em nome da hegemonia liberal', escreve Reynaldo Aragon
Evento da Fenaj (Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)
247.- O que você lê nos jornais, vê nos telejornais e compartilha nas redes não surge de forma espontânea. Por trás do mainstream, há uma rede densa de think tanks, fundações filantrópicas, agências de Estado, universidades de prestígio e plataformas digitais que financiam, formam e pautam narrativas. Este artigo revela, em detalhes, como essa engrenagem funciona e como sustenta a hegemonia cultural e política do Ocidente há décadas.
A engrenagem invisível
O noticiário diário, que chega às telas dos celulares e às páginas dos jornais de prestígio, parece nascer do acaso. Supõe-se que a imprensa esteja apenas narrando os fatos, descrevendo a realidade como ela é. Mas essa é a primeira ilusão que precisa ser desfeita. A informação que consumimos não brota de forma espontânea: ela é o produto final de uma cadeia complexa de interesses, uma engrenagem invisível que funciona há décadas e que tem como objetivo consolidar a hegemonia cultural do Ocidente.
Essa engrenagem é composta por think tanks, fundações filantrópicas, centros de pesquisa universitários, agências de Estado, ONGs, aceleradoras de mídia e Big Techs que se apresentam como neutras. Na prática, são elas que formulam conceitos, financiam projetos, selecionam “especialistas” e irrigam redações inteiras com narrativas previamente alinhadas. O que vemos estampado nas manchetes do New York Times, da Reuters, do El País ou do Globo já passou antes pelas mesas de conselhos do Atlantic Council, pelos relatórios do CSIS, pelos orçamentos do Congresso norte-americano destinados à USAGM ou pelos cursos de capacitação financiados pela Google News Initiative.
Ao contrário do que se imagina, a chamada imprensa mainstream não é o ponto de partida da informação: é apenas a ponta visível de um ecossistema denso, construído historicamente para fabricar consenso. Cada declaração de um analista em horário nobre, cada editorial sobre geopolítica, cada campanha contra a “desinformação” está amparada por uma rede de financiamento e legitimação que remonta à Guerra Fria e foi aperfeiçoada na era digital. O mainstream é, em essência, a vitrine de um processo industrial de produção ideológica que serve aos interesses das elites liberais e imperiais.
Neste artigo, vamos desvelar essa engrenagem. Mostrar quem são as instituições que a compõem, quem as financia, quais interesses estão por trás de seus relatórios, seminários e bolsas. Vamos seguir o caminho do dinheiro e das ideias, revelando como o Ocidente transformou think tanks, fundações e universidades em armas culturais. E, sobretudo, vamos expor como esse modelo se replicou no Sul Global, fazendo do Brasil e da América Latina laboratórios privilegiados dessa guerra cultural.
Mais do que uma denúncia, este texto é um mapa estratégico. Ele mostra que a informação não é neutra, não é livre, não é plural: é produto de um sistema hierárquico e dirigido. Entender essa engrenagem é o primeiro passo para reconstruir nossa soberania informacional e romper o ciclo de dependência que aprisiona nossas democracias à narrativa ocidental.
A guerra cultural e a hegemonia liberal
A história das guerras não se escreve apenas com tanques, bombas e tratados diplomáticos. Ela também se escreve com ideias, símbolos e narrativas. Antonio Gramsci, no início do século XX, identificou que a classe dominante não se mantém apenas pelo controle da força material, mas pela capacidade de estabelecer uma hegemonia cultural: um consenso em torno de valores, crenças e sentidos comuns que naturalizam a dominação. Essa formulação, concebida como instrumento para a luta socialista, foi há muito sequestrada pelo inimigo. O Ocidente liberal, liderado pelos Estados Unidos, soube aplicar a lição gramsciana com uma eficácia implacável, convertendo a cultura, a informação e a opinião pública em armas estratégicas de poder.
Durante a Guerra Fria, esse aprendizado se consolidou. Não bastava derrotar o “outro” militarmente: era preciso corroer sua legitimidade cultural e política. Foi nesse contexto que surgiram os grandes laboratórios de influência financiados por Washington — think tanks como a RAND Corporation e o Council on Foreign Relations, revistas como Foreign Affairs e agências estatais como a Voice of America. Sua função não era apenas informar, mas moldar consciências e plantar consensos sobre democracia, economia e segurança. A guerra cultural tornou-se uma frente permanente, na qual cada editorial, cada relatório e cada manual de jornalismo servia como munição.
Com o fim da União Soviética, o alvo mudou, mas a engrenagem permaneceu. O inimigo deixou de ser o comunismo real e passou a ser qualquer alternativa que ameaçasse a ordem neoliberal global. Na América Latina, governos desenvolvimentistas e soberanistas foram tachados de “populistas” ou “autoritários”. No Oriente Médio, regimes contrários aos interesses dos EUA eram enquadrados como “terroristas” ou “ameaças à democracia”. E, na era digital, o conceito de “desinformação” assumiu o lugar simbólico antes ocupado pelo “fantasma do comunismo”: uma categoria maleável, capaz de enquadrar tanto fake news grosseiras quanto críticas legítimas à hegemonia ocidental.
A hegemonia liberal ocidental, portanto, não se impôs apenas por meio da economia e das armas, mas também pela colonização do imaginário. Revistas de prestígio, universidades, fundações “filantrópicas”, centros de treinamento de jornalistas e, mais recentemente, plataformas digitais, são os templos modernos dessa guerra cultural. Eles não apenas informam: definem os parâmetros do pensável e do dizível. Quem sai desse perímetro é rapidamente rotulado como extremista, autoritário ou desinformador. É assim que se fabrica o consenso e se sufoca o dissenso.
Ao compreender essa lógica, percebemos que a guerra cultural não é um fenômeno episódico, mas um processo histórico contínuo, que começa na Guerra Fria e se adapta às novas conjunturas. Hoje, na era dos algoritmos, a engrenagem se sofisticou, mas o objetivo é o mesmo: garantir que os valores do liberalismo ocidental pareçam universais, inevitáveis, inquestionáveis. Uma operação de longo prazo, destinada a eternizar a hegemonia das elites do Norte sobre os povos do Sul.
O núcleo duro: agências estatais dos EUA e da Europa
No coração da engrenagem hegemônica que sustenta o poder cultural do Ocidente estão as agências estatais criadas para moldar consciências e projetar narrativas como armas de guerra. Não se trata de iniciativas isoladas, mas de uma arquitetura densa, planejada e bilionária, que atua sob a máscara da diplomacia pública ou da “defesa da democracia”. É nesse núcleo duro que a hegemonia cultural liberal se organiza de maneira mais explícita, com financiamento público direto e objetivos geopolíticos assumidos.
A peça central dessa máquina é a US Agency for Global Media (USAGM), responsável por coordenar um vasto sistema de emissoras e programas que funcionam como extensão da política externa dos Estados Unidos. Em 2025, o orçamento da agência alcançou 950 milhões de dólares, valor que por si só já a equipara a ministérios inteiros de países do Sul Global. Com esse montante, a USAGM mantém a Voice of America, que sozinha recebe mais de 300 milhões de dólares anuais para falar em dezenas de idiomas a partir do ponto de vista americano; a Radio Free Europe/Radio Liberty, que ainda carrega o espírito da Guerra Fria e consome mais de 150 milhões para atuar na Europa Oriental e na Ásia Central; a Radio Free Asia, com cerca de 71 milhões destinados a cercar a China e seus vizinhos estratégicos; as Middle East Broadcasting Networks, que recebem 103 milhões para atuar no mundo árabe; e o Office of Cuba Broadcasting, que dedica quase 16 milhões apenas para transmitir contra um único país de 11 milhões de habitantes. Além dessas emissoras, a USAGM administra o Open Technology Fund, com 50 milhões anuais para desenvolver tecnologias de “liberdade digital”, que na prática servem para enfraquecer controles soberanos e facilitar operações de espionagem. Essa estrutura, sustentada pelo Congresso americano, não tem nada de jornalismo neutro: é um projeto estatal de guerra cultural em escala global.
Paralelamente, os Estados Unidos mantêm a National Endowment for Democracy (NED), criada nos anos 1980 para fazer às claras o que antes era conduzido clandestinamente pela CIA. A própria instituição reconhece que 95% do seu orçamento vêm diretamente do Congresso. Em 2024, foram 315 milhões de dólares, distribuídos para quatro braços principais: o International Republican Institute, ligado ao Partido Republicano; o National Democratic Institute, ligado ao Partido Democrata; o Center for International Private Enterprise, ligado à Câmara de Comércio; e o Solidarity Center, vinculado à AFL-CIO. Essa “família NED” atua em rede, financiando partidos, sindicatos, ONGs e veículos de mídia em dezenas de países. Sob o discurso de “fortalecimento da democracia”, pavimenta golpes parlamentares, revoluções coloridas e campanhas sistemáticas de deslegitimação contra governos que buscam soberania fora do eixo liberal ocidental.
Na Europa, o modelo foi replicado e adaptado. Em 2015, a União Europeia criou a East StratCom Task Force, cuja missão oficial é combater a desinformação, mas cuja prática real é coordenar a contra-informação e controlar narrativas em seu entorno estratégico. O orçamento dessa célula cresceu de pouco mais de um milhão de euros em 2018 para mais de onze milhões em 2021, evidenciando a importância crescente da guerra cultural no cálculo de Bruxelas. O rosto público dessa engrenagem é o portal EUvsDisinfo, mas por trás da vitrine digital está um aparato de monitoramento e enquadramento discursivo contra qualquer narrativa que desafie os interesses da UE. A OTAN também tem sua própria frente de guerra informacional: o Strategic Communications Centre of Excellence, instalado em Riga, na Letônia. Embora não seja financiado pelo orçamento central da Aliança, funciona com contribuições voluntárias de países como Alemanha, Reino Unido, Itália e Polônia. Ali, militares, acadêmicos e especialistas em comunicação produzem manuais e treinamentos para a guerra informacional, transformando a comunicação estratégica em uma doutrina militar reconhecida.
Essas instituições, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, não escondem seus objetivos. Falam em “ganhar corações e mentes”, “proteger democracias” e “combater a desinformação”. Mas essas expressões são apenas traduções elegantes de uma prática muito mais dura: controlar o debate público dentro dos limites aceitáveis para o liberalismo ocidental, deslegitimar governos que representem alternativas e neutralizar qualquer discurso que ameace corroer sua influência global. Essa engrenagem estatal, sustentada com orçamentos bilionários e legitimada por uma retórica de liberdade, é o núcleo duro da guerra cultural contemporânea. É ali que os frames, os conceitos e os discursos são fabricados, testados e disseminados em escala planetária, antes mesmo de chegarem às páginas dos jornais que o leitor imagina serem independentes.
Os think tanks como fábricas de consenso
Se as agências estatais funcionam como braços oficiais da guerra cultural, os think tanks são os laboratórios onde o consenso é fabricado, legitimado e exportado como se fosse conhecimento neutro. São instituições privadas ou semi públicas que, sob a aparência de centros de pesquisa, operam como parlamentos paralelos do imperialismo. Neles, corporações de energia, defesa e tecnologia se encontram com governos e elites financeiras para formular diagnósticos, elaborar relatórios, prever cenários e oferecer soluções que invariavelmente apontam para a manutenção da ordem liberal ocidental.
Entre os mais influentes, o Atlantic Council ocupa posição central. Nascido da lógica transatlântica da OTAN, o Conselho se tornou uma usina de narrativas sobre segurança, economia e tecnologia. Seus relatórios, conferências e análises são imediatamente repercutidos por jornais, agências e TVs do mainstream, moldando a percepção de jornalistas, políticos e acadêmicos. E não é difícil entender por quê: sua lista de financiadores inclui governos como os dos Emirados Árabes Unidos e do Reino Unido, além de gigantes como Chevron e grandes fabricantes de armas. Cada relatório sobre “ameaças híbridas”, cada alerta sobre “perigo russo” ou “influência chinesa” é escrito sob a sombra desses interesses concretos.
O Center for Strategic and International Studies (CSIS) segue a mesma lógica. Criado nos anos 1960, é hoje um dos think tanks mais influentes de Washington, especializado em segurança e defesa. Seu financiamento vem de corporações como Amazon, Aramco, ExxonMobil, Lockheed Martin, Northrop Grumman e Raytheon. Não se trata de detalhe: quando um especialista do CSIS aparece no noticiário defendendo o aumento do orçamento militar ou a imposição de sanções econômicas, está representando um ecossistema que lucra diretamente com a guerra e com a manutenção do status quo global. É a guerra cultural operando em sua forma mais sofisticada: vestir de “análise técnica” aquilo que é, na essência, lobby.
O Council on Foreign Relations (CFR) é outro vértice fundamental. Conhecido mundialmente por publicar a revista Foreign Affairs, o CFR funciona como cérebro diplomático das elites americanas. Sua lista de membros corporativos inclui Google, Chevron e BlackRock, revelando a fusão entre capital financeiro, Big Techs e indústria energética. É no CFR que se testam as narrativas antes de elas se transformarem em editoriais de prestígio. É também de lá que saem os “especialistas” que povoam os telejornais internacionais sempre que uma crise global exige explicações.
A Brookings Institution, embora com uma fachada liberal-centrista, também atua como engrenagem estratégica do consenso. Financiada por fundações como Gates, Ford e Rockefeller, além de corporações globais, Brookings produz relatórios que moldam políticas econômicas, sociais e internacionais. Seu peso simbólico é tanto que documentos elaborados em seus gabinetes frequentemente se tornam base para políticas da Casa Branca ou para reportagens em grandes veículos.
O poder desses think tanks não está apenas em suas publicações, mas na forma como se infiltram no ecossistema midiático. Suas conferências são frequentadas por jornalistas que depois reproduzem diagnósticos sem questionar; seus relatórios são traduzidos em manchetes; seus especialistas são tratados como vozes neutras, quando, na verdade, são porta-vozes de corporações e governos. Eles funcionam como usinas de consenso, onde a ideologia liberal é embalada como ciência e oferecida ao público global como verdade objetiva.
Essa simbiose entre think tanks, governos e corporações mostra que não existe separação entre pesquisa, lobby e jornalismo no campo da hegemonia ocidental. Todos fazem parte de uma mesma engrenagem, cuidadosamente articulada para projetar poder e deslegitimar alternativas. É nesse espaço nebuloso, entre a academia, a política e a mídia, que o Ocidente produz as ideias que mais tarde se transformam em narrativas globais, moldando o que se pensa sobre guerra, economia, democracia e soberania.
As universidades e centros de jornalismo como incubadoras
Se os think tanks funcionam como usinas de formulação política, as universidades e os centros de jornalismo atuam como incubadoras de hegemonia cultural. É nesses espaços que futuros jornalistas, editores e comunicadores são treinados, onde padrões de qualidade são definidos e onde pesquisas são produzidas para legitimar a narrativa dominante como se fosse consenso científico. A engrenagem aqui é mais sutil, mas não menos estratégica: trata-se de formar o olhar daqueles que vão mediar a realidade para milhões de leitores e telespectadores.
O Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado à Universidade de Oxford, é talvez o exemplo mais emblemático. Seu prestígio acadêmico lhe confere a aura da neutralidade científica, mas seu financiamento revela outra história. A Thomson Reuters Foundation é sua principal mantenedora, e desde 2010 o Google News Initiative se tornou patrocinador de peso, ampliado em 2023 para garantir a continuidade do Digital News Report até 2026. Esse relatório, publicado anualmente, é uma das referências globais para executivos de mídia e governos. Ele define tendências, aponta desafios e, sobretudo, legitima diagnósticos que reforçam a centralidade da mídia ocidental como referência universal. Quando jornalistas no Brasil, na Índia ou no Quênia citam dados desse relatório, estão de fato reproduzindo uma análise financiada por Big Techs que moldam o próprio ecossistema de informação.
O Knight Center for Journalism in the Americas, sediado na Universidade do Texas em Austin, cumpre função semelhante no continente americano. Com apoio decisivo da Knight Foundation e parcerias com a Google News Initiative e a Meta, oferece cursos massivos online que já formaram centenas de milhares de jornalistas no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Esses treinamentos padronizam técnicas, definem boas práticas e difundem valores editoriais baseados no modelo anglo-saxão de jornalismo. Mais do que capacitação técnica, o que está em jogo é a consolidação de um ethos profissional global, no qual os parâmetros ocidentais são naturalizados como universais.
O International Center for Journalists (ICFJ) e a Fundación Gabo, na Colômbia, completam essa engrenagem. O ICFJ, financiado por governos ocidentais, corporações e Big Techs, atua como intermediário, conectando redações latino-americanas a programas de capacitação e bolsas. Já a Fundación Gabo, criada para preservar o legado de Gabriel García Márquez, transformou-se em polo de formação regional com apoio de parceiros institucionais como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), a CAF e bancos privados latino-americanos. Seu prestígio cultural funciona como um selo de legitimidade, permitindo que treinamentos e prêmios patrocinados por grandes empresas sejam vistos como iniciativas neutras em prol da qualidade jornalística.
Essas instituições não apenas formam profissionais: elas definem os limites do que é aceitável publicar, as métricas que determinam o que é jornalismo de qualidade e os enquadramentos que se tornarão padrão global. Quando uma redação latino-americana recebe uma bolsa para participar de um programa do Knight Center ou uma consultoria da SembraMedia, não está apenas adquirindo ferramentas técnicas; está sendo incorporada a uma lógica que vincula sustentabilidade editorial à adesão a narrativas hegemônicas.
Por trás do verniz acadêmico, a função é clara: moldar as mentes que moldarão a opinião pública. A universidade e o centro de treinamento tornam-se extensões sofisticadas da guerra cultural, funcionando como escolas de enquadramento narrativo. O resultado é um jornalismo internacional padronizado, que pensa e escreve segundo parâmetros ditados pelas elites ocidentais, e que considera qualquer desvio como “desinformação” ou “populismo”.
Big Techs e filantropias: os novos ministérios da verdade
Se no passado a hegemonia cultural ocidental se apoiava sobretudo em agências estatais e think tanks, hoje o poder se concentra também nas mãos das Big Techs e das grandes fundações filantrópicas. Google, Meta, YouTube e, em menor medida, TikTok, tornaram-se atores centrais da guerra cultural, financiando iniciativas jornalísticas, certificando checadores de fatos e controlando, por meio de algoritmos, o que circula ou desaparece no espaço público digital. A filantropia, por sua vez, atua como intermediária legitimadora: Ford Foundation, Open Society Foundations (OSF), Luminate, Knight Foundation e outras despejam centenas de milhões em projetos de mídia e advocacy, sempre em nome da “liberdade” e da “democracia”. O efeito é a criação de verdadeiros ministérios da verdade privados, que decidem globalmente quais narrativas podem existir e quais serão silenciadas.
O caso do Google News Initiative (GNI) é emblemático. Desde sua criação, a GNI investiu bilhões em redações, laboratórios e programas de checagem de fatos. Patrocina relatórios de referência, como o Digital News Report do Reuters Institute, e financia diretamente projetos na América Latina, como o consórcio Comprova no Brasil e a aceleradora Velocidad. O Google não apenas apoia financeiramente, mas define padrões: o que significa sustentabilidade, o que é jornalismo de qualidade, quais iniciativas merecem sobreviver. O jornalismo que aceita esse dinheiro adere, voluntária ou involuntariamente, a um ecossistema em que a crítica radical ao poder das plataformas é quase impossível.
A Meta, por sua vez, criou um império de checagem terceirizada. Em dezenas de países, incluindo o Brasil, mantém contratos com veículos como Agência Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica, AFP Checamos e Reuters Fact Check. Esses veículos, ao firmarem parcerias comerciais com a Meta, tornam-se árbitros do que pode ou não circular no Facebook, Instagram e WhatsApp. O poder de enquadrar a verdade e a mentira deixa de ser uma atribuição da esfera pública democrática e passa a ser um serviço terceirizado para pequenas redações dependentes de recursos privados. O discurso é o de combate à desinformação, mas a prática é a de controle do debate, decidindo o que os cidadãos podem compartilhar e em quais termos.
Nesse ecossistema, o International Fact-Checking Network (IFCN), ligado ao Poynter Institute, ocupa o papel de certificador global. Somente veículos signatários do seu Código de Princípios podem ser parceiros das plataformas. Isso significa que a IFCN funciona como um selo de aprovação universal, determinando quem pode ser reconhecido como checador legítimo. Essa posição foi reforçada com a criação do Global Fact Check Fund, financiado em 2023 por Google e YouTube com 13,2 milhões de dólares. A estrutura é clara: as plataformas financiam o fundo, o Poynter administra, e os veículos locais se submetem aos critérios estabelecidos para receber recursos. Um circuito fechado que concentra poder e define unilateralmente as regras do jogo.
As fundações filantrópicas operam como aliadas indispensáveis desse processo. A Ford Foundation financia projetos de transparência e acesso à informação no Brasil, como o Achados e Pedidos da Abraji. A OSF, criada por George Soros, injeta milhões em redes investigativas como o OCCRP e em veículos independentes latino-americanos. A Luminate, do grupo Omidyar, investiu diretamente em redações como o Nexo Jornal e financiou aceleradoras como a Velocidad, que impulsionam modelos de negócios alinhados ao ecossistema liberal. A Knight Foundation sustenta centros de formação como o Knight Center for Journalism in the Americas, que se tornou referência em capacitação para jornalistas da América Latina. Todas essas fundações operam sob a retórica da filantropia, mas seus recursos cumprem a função estratégica de alinhar redações, jornalistas e projetos ao campo do liberalismo global
O resultado é uma engrenagem perfeita. As plataformas controlam a infraestrutura digital, os algoritmos definem o alcance da informação, os checadores locais filtram o que pode ou não circular, e as fundações garantem legitimidade moral e financiamento estável. No discurso, são iniciativas para fortalecer democracias. Na prática, trata-se de uma arquitetura de controle da informação que reforça a hegemonia cultural ocidental, criminaliza narrativas divergentes e fragiliza a soberania informacional dos países do Sul. O Ocidente privatizou a censura, transformando o combate à desinformação em sua mais nova arma de guerra cultural.
A engrenagem na América Latina: laboratório e campo de testes
Se Estados Unidos e Europa são o cérebro da engrenagem hegemônica, a América Latina é o corpo no qual as ideias são testadas e as metodologias refinadas. Nossa região cumpre uma função estratégica: servir de laboratório de guerra cultural, onde modelos de combate à “desinformação” e programas de sustentabilidade midiática são implementados, ajustados e depois exportados para o resto do mundo. O Brasil, com sua dimensão continental e sua centralidade política, tornou-se o epicentro desse processo.
Um exemplo claro é o Projeto Comprova, criado em 2018 durante a campanha eleitoral brasileira. Sob a coordenação da Abraji e com financiamento inicial da Google News Initiative e do Facebook Journalism Project (Meta), o consórcio reuniu dezenas de redações para verificar conteúdos virais. Posteriormente, a iniciativa recebeu apoio da Embaixada e Consulados dos Estados Unidos, que financiaram o “Comprova + Comunidades”, voltado para regiões periféricas. O projeto, que nasceu como piloto, transformou-se em vitrine: sua metodologia foi estudada e replicada em outros países como modelo de combate à desinformação.
A mesma lógica se aplica às checagens independentes. No Brasil, veículos como Agência Lupa, Aos Fatos, Estadão Verifica, UOL Confere, AFP Checamos e Reuters Fact Check Brasil firmaram contratos comerciais com a Meta para atuar como verificadores de conteúdo em Facebook, Instagram e WhatsApp. Ao fazer isso, tornaram-se árbitros da circulação da informação digital, definindo o que pode ou não ser compartilhado. Esse arranjo, que transfere a função de regular o espaço público para parcerias privadas entre plataformas e redações, foi implementado primeiro em países do Sul Global, como o Brasil, antes de ser testado em maior escala nos Estados Unidos e na Europa.
A Abraji tornou-se um polo estratégico. Além de coordenar o Comprova, opera projetos financiados por grandes fundações. O Achados e Perdidos, desenvolvido em parceria com a Transparência Brasil, é sustentado pela Ford Foundation, enquanto o CTRL+X, voltado para monitorar processos judiciais contra jornalistas, conta com apoio da Google News Initiative. Assim, a associação que se apresenta como defensora da liberdade de imprensa é, ao mesmo tempo, um nó de redistribuição de recursos estrangeiros para moldar a agenda da mídia brasileira.
Outras redações também foram incorporadas ao ecossistema. A Agência Pública, pioneira no jornalismo investigativo independente no Brasil, sustenta parte de sua operação com doações internacionais e programas de financiamento recorrente. O Nexo Jornal recebeu investimento direto da Luminate, do grupo Omidyar, em 2019, e em 2023 tornou-se beneficiário do International Fund for Public Interest Media (IFPIM), um fundo global criado para sustentar veículos de interesse público em países estratégicos. Essa dupla injeção de recursos, primeiro de uma fundação privada e depois de um consórcio internacional, ilustra como o modelo de “independência” se converte, na prática, em dependência de agendas globais.
No plano regional, redes como a LatamChequea, coordenada pelo Chequeado na Argentina, reúnem dezenas de organizações de 21 países, padronizando metodologias e compartilhando conteúdos. Já a aceleradora Velocidad, implementada pelo ICFJ em parceria com a SembraMedia e financiada pela Luminate, injetou milhões de dólares e milhares de horas de consultoria em redações latino-americanas, inclusive no Brasil, para “profissionalizar” modelos de negócio. Por trás do discurso de sustentabilidade, o que se consolida é uma integração direta ao ecossistema global do liberalismo, no qual os padrões de financiamento, gestão e narrativa são definidos de fora para dentro.
A função desse aparato é clara: alinhar a imprensa latino-americana às prioridades estratégicas do Ocidente. Quando uma redação recebe consultoria da SembraMedia, um curso do Knight Center ou um aporte da Luminate, ela não está apenas recebendo dinheiro ou treinamento. Está sendo inserida em uma rede transnacional que opera com objetivos geopolíticos definidos. O resultado é um jornalismo regional cada vez mais dependente de recursos externos, que passa a internalizar como naturais as agendas da guerra cultural ocidental.
O Brasil é hoje o laboratório mais importante desse processo. Daqui, partem metodologias de checagem, redes de monitoramento e experiências de financiamento que depois se expandem para outras regiões. E é aqui que se testam os limites do poder das plataformas sobre o espaço público. O país que já foi visto como “democracia emergente” tornou-se o campo de provas da hegemonia cultural do Ocidente, um lugar onde soberania informacional e autonomia jornalística são constantemente sacrificadas em nome de uma agenda que não é nossa.
Como a engrenagem se articula com a mídia mainstream
Toda a arquitetura que descrevemos até aqui — agências estatais, think tanks, fundações, universidades, Big Techs e redes regionais — teria pouco efeito se não encontrasse uma vitrine global para difundir suas narrativas. Essa vitrine é a mídia mainstream, composta por grandes jornais, revistas, agências de notícias e redes de televisão que alcançam milhões de leitores e espectadores em todo o mundo. É nesse ponto que a engrenagem se fecha: as ideias produzidas nos laboratórios da hegemonia tornam-se informação cotidiana, moldando a percepção do público e enquadrando o debate político.
O caminho é claro e repetitivo. Uma fundação ou um think tank publica um relatório sobre um tema sensível — guerra, crise climática, política econômica ou eleições em um país estratégico. Esse documento, financiado por governos ou corporações, é imediatamente repercutido por agências como Reuters, Associated Press ou AFP, que funcionam como correias de transmissão global. A partir daí, jornais de prestígio como New York Times, Washington Post, Financial Times, El País e Folha de S.Paulo reproduzem as conclusões, frequentemente citando especialistas ligados às mesmas instituições que elaboraram o estudo original. O público consome a narrativa já filtrada, sem saber que ela foi construída em instâncias muito distantes da redação que a assina.
O processo funciona como uma linha de montagem. Primeiro, define-se o enquadramento no think tank ou na agência estatal: “a Rússia ameaça a democracia europeia”, “a China é culpada pela desinformação digital”, “o governo desenvolvimentista na América Latina representa risco populista”. Em seguida, esses frames são legitimados por pesquisas acadêmicas financiadas por fundações e universidades parceiras. Logo depois, são difundidos por agências internacionais que têm prestígio de neutralidade. Finalmente, aparecem nas páginas de jornais nacionais e regionais, já com a aparência de consenso. Quando o leitor brasileiro lê no Globo ou na Folha que “especialistas do Atlantic Council alertam para riscos da influência chinesa”, o que está diante dele é o produto final de uma cadeia industrial de construção de opinião.
Esse circuito é reforçado pela presença constante de “especialistas” nos meios de comunicação. Analistas do CFR, do CSIS ou da Brookings ocupam espaços privilegiados em telejornais e mesas de debate, onde aparecem como vozes técnicas e imparciais. O que não se diz ao espectador é que esses mesmos especialistas são financiados por corporações de petróleo, empresas de armas ou governos estrangeiros. O efeito é devastador: a opinião pública mundial passa a ser moldada por diagnósticos produzidos por instituições diretamente interessadas nos desfechos que defendem.
No Brasil, esse mecanismo é ainda mais evidente. As redações, fragilizadas financeiramente, dependem das grandes agências de notícias internacionais para abastecer suas páginas. Reuters, AP e AFP fornecem não apenas informações, mas também os enquadramentos interpretativos que serão repetidos sem contestação. É por isso que, em temas como Ucrânia, China, Oriente Médio ou mesmo a política latino-americana, a narrativa publicada na imprensa brasileira é quase idêntica àquela produzida nos centros de poder ocidentais. A engrenagem global chega intacta, sem mediações críticas, e se apresenta como se fosse jornalismo independente.
O resultado desse processo é a naturalização da hegemonia. Ao ler um editorial do New York Times ou uma reportagem da Reuters, o leitor imagina estar diante da “realidade”. Na verdade, está consumindo um produto cuidadosamente elaborado por uma cadeia de interesses que começa em Washington, Bruxelas ou Londres, passa por fundações e think tanks, percorre universidades e centros de treinamento, e desemboca nas redações nacionais. A mídia mainstream não é o início da informação, mas apenas o ponto final de uma engrenagem que já decidiu antes quais narrativas serão aceitas como verdade.
Consequências: hegemonia cultural e soberania informacional
O resultado dessa engrenagem é a consolidação de uma hegemonia cultural que vai muito além da simples circulação de notícias. O que está em jogo é a definição dos próprios limites do pensável. Ao controlar a produção e difusão das narrativas, o Ocidente liberal estabelece os marcos do debate público, determinando quais agendas são legítimas, quais atores políticos são confiáveis e quais ideias devem ser tratadas como aberrações. Essa operação cria um cercamento simbólico do mundo, no qual alternativas são sistematicamente sufocadas antes mesmo de alcançarem visibilidade.
A uniformização da informação provoca um efeito de espelhamento: a crise ucraniana, a ascensão da China, as políticas desenvolvimentistas na América Latina, as disputas ambientais na Amazônia — tudo é narrado a partir de um mesmo enquadramento, elaborado nos centros de poder do Atlântico Norte. Governos que se opõem ao consenso neoliberal são taxados de “populistas” ou “autoritários”. Movimentos sociais que questionam as bases da exploração global são reduzidos a “radicais” ou “ameaças à democracia”. O conceito de “desinformação”, por sua vez, converte-se em uma categoria maleável que serve para deslegitimar qualquer narrativa que desafie a ordem estabelecida.
Para o Sul Global, e em particular para o Brasil, isso significa viver sob um regime de dependência informacional. Nossas redações, muitas vezes fragilizadas financeiramente, tornam-se reprodutoras de conteúdos das grandes agências internacionais. Nossas organizações jornalísticas mais prestigiadas recebem recursos de fundações e Big Techs que definem suas agendas. Nossos jornalistas são formados em cursos patrocinados por centros estrangeiros que moldam sua visão de mundo. O resultado é que a soberania informacional nacional se dissolve em uma rede transnacional que transforma o Brasil em consumidor passivo de narrativas fabricadas fora de nossas fronteiras.
Esse processo tem ainda um impacto devastador sobre a democracia. Ao monopolizar os critérios do que é verdadeiro e do que é falso, esse ecossistema restringe a pluralidade do debate público e criminaliza o dissenso. Narrativas alternativas são rapidamente enquadradas como “fake news”, enquanto vozes críticas às elites globais são acusadas de “ameaçar a democracia”. Assim, em nome da defesa da liberdade, o que se pratica é a censura seletiva e a vigilância permanente. É uma ironia cruel: quanto mais se fala em combater a desinformação, mais se estreitam os limites da informação.
No Brasil, esse quadro se traduz em vulnerabilidade permanente. Quando um governo tenta adotar uma política externa mais soberana, imediatamente enfrenta uma avalanche de editoriais e relatórios que questionam sua legitimidade. Quando movimentos populares tentam propor alternativas econômicas, são tachados de irracionais ou atrasados. Quando pesquisadores contestam os efeitos das Big Techs sobre a democracia, têm suas vozes abafadas pelo mesmo sistema que financia suas instituições de ensino. O campo político nacional passa a ser regulado não apenas por forças internas, mas por um ecossistema global que dita as condições do jogo.
As consequências dessa arquitetura não são apenas simbólicas: são materiais e estruturais. O controle da informação garante vantagens econômicas, militares e diplomáticas ao Ocidente. Ao impor sua narrativa como verdade universal, as elites globais asseguram a manutenção de seus interesses e neutralizam qualquer projeto alternativo de desenvolvimento ou soberania. A guerra cultural não é um apêndice da geopolítica: é o próprio campo onde as batalhas decisivas são travadas.
Conclusão: desvelar o invisível
Chegamos ao ponto em que o véu precisa ser rasgado. O que este artigo mostrou não é um conjunto de coincidências ou meras parcerias entre governos, fundações e jornalistas bem-intencionados. O que desvelamos é uma arquitetura de poder cuidadosamente montada, que atravessa décadas, que se adapta a contextos e que tem como objetivo central garantir a hegemonia liberal ocidental sobre a produção de informação e, portanto, sobre a própria consciência coletiva.
Nada do que consumimos nos grandes jornais, revistas e telejornais surge de forma espontânea. Cada enquadramento, cada frame, cada palavra-chave foi antes discutida em reuniões de think tanks financiados por petroleiras, bancos ou fabricantes de armas; foi filtrada por universidades prestigiadas patrocinadas por Big Techs; foi legitimada por fundações filantrópicas que distribuem recursos sob critérios políticos; foi testada em laboratórios do Sul Global, como o Brasil, para depois ser replicada em escala global. O que chega às nossas telas é apenas o último elo de uma corrente invisível que transforma a informação em instrumento de dominação.
As consequências são profundas. A pluralidade é sufocada, o dissenso é criminalizado e as alternativas de desenvolvimento e soberania tornam-se caricaturadas como “populismo”, “radicalismo” ou “ameaça à democracia”. Ao mesmo tempo, o Ocidente projeta sua narrativa como universal, tornando natural aquilo que é apenas a defesa de seus interesses estratégicos. A guerra cultural é, portanto, o campo onde se disputa o futuro das nações, e nela o Brasil e a América Latina têm sido mais alvos do que protagonistas.
Desvelar essa engrenagem é um ato político de primeira ordem. Não basta denunciar fake news ou criticar superficialmente o poder das plataformas. É preciso entender a máquina em sua totalidade: quem financia, quem formula, quem difunde e quem consome. Só assim poderemos construir soberania informacional, condição indispensável para qualquer projeto democrático que não se curve às agendas impostas de fora.
Este artigo não pretende encerrar o debate, mas abrir um caminho. O leitor que compreendeu as conexões aqui expostas não pode mais olhar o noticiário da mesma forma. Agora sabe que por trás de cada manchete há uma rede de interesses, que por trás de cada “especialista” há um financiador, que por trás de cada “consenso global” há uma estratégia imperial. O desafio que se impõe é construir nossas próprias redes, nossas próprias narrativas, nossas próprias trincheiras no campo da informação.
A hegemonia ocidental não é invencível. Ela só se mantém porque se oculta sob o manto da neutralidade. Ao expor sua engrenagem, revelamos sua fragilidade. Cabe a nós, no Sul Global, transformar esse conhecimento em ação, desarmar o mito da imparcialidade e afirmar nossa autonomia. Porque a guerra cultural não é apenas sobre ideias: é sobre futuro, soberania e liberdade.
quinta-feira, 5 de junho de 2025
Folha de São Paulo. Colher verdade para vender mentira? Artigo de Armando Coelho, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
A Folha de S. Paulo vive há anos “contando mentiras dizendo verdades”. Aliás, tema de uma peça publicitária dela, premiado em Cannes (1988).
Folha de S. Paulo. Colher verdade para vender mentira?
por Armando Coelho Neto
O tema, em princípio, é Folha de S. Paulo, mas cabe antes falar de Globo, por pertencerem a mesma cepa. Em 1992, a emissora produziu a bem-sucedida série “Anos Rebeldes” (Gilberto Braga), na qual conta parte da ditadura militar, com foco inclusive na guerrilha, sequestro de embaixadores, etc., mas comete a proeza de omitir o seu próprio papel como braço dos ditadores e que deles foi porta-voz.
Folha de S. Paulo. Não, leitor, não cabe relembrar que ela conseguiu lacrar que foi vítima de “invasão” pela Polícia Federal, durante o governo Fernando Collor de Mello, o salvador da pátria de então, um “imbroxável” da época que tinha “aquilo roxo”. Junto com a Globo et caterva, o jornal o tornou presidente. “Invasão? ” Os policiais federais da operação nunca foram ouvidos. Vale a versão dos Frias.
Também não cabe aqui, falar de “Folha Corrida”, um documentário produzido pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), segundo quem, a Folha abrigava agentes da ditadura que “torturavam de manhã e trabalhavam no jornal à tarde”. O veículo publicava fotos, nomes completos e filiação de militantes do Partido Comunista, conclamando o público a fazer denúncias. É o que diz a produção do ICL.
A Folha de S. Paulo vive há anos “contando mentiras dizendo verdades”. Aliás, tema de uma peça publicitária dela, premiado em Cannes (1988). Num fundo difuso, o narrador enaltece um governante que recuperou a economia de seu país e devolveu o orgulho ao seu povo, e até queria ser artista. Ao ser aberta a imagem, surge Adolf Hitler, e ouve-se: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só verdades”.
Na prática, a Folha de S. Paulo colocou Lula e Hitler no mesmo patamar, com visível intento de desqualificar Lula, com a imagem esfolada pela prisão espúria, e apoiar a candidatura adversária. É que esse mesmo comercial voltou a ser exibido em 2018, durante a campanha presidencial daquele ano, quando os indiscutíveis feitos do presidente Luís Inácio Lula da Silva estavam sendo exaltados.
Os feitos positivos de Hitler e de Lula eram verdadeiros, já que tanto um quanto outro trouxeram dados positivos às economias de seus respectivos países. Tanto um quanto o outro, devolveram o orgulho ao seu povo. Mas, com mentiras embutidas, seja na falsa e maldosa comparação entre as duas personalidades, seja pelo fato da comparação estar a serviço da candidatura apoiada pelo jornal, que se diz isento.
Quando fake news e disciplina nas redes sociais voltam ao centro do debate, nota-se que na prática as redes só potencializaram o que Globo e Folha (meros exemplos) já o faziam. Como dito no comercial, difundiam e difundem mentiras falando verdades, de forma clara ou camuflada. Não debater o sequestro do orçamento por um parlamento corrupto é uma forma de mentir.
Em 13/08/2024, a Folha publicou: “Moraes usou TSE fora do rito para investigar bolsonaristas no Supremo, revelam mensagens”. O uso do genérico “rito” colocou sob suspeita a pessoa do ministro e o próprio tribunal, criando dúvida sobre algo que a rigor não teria rito algum. Seria uma nova Vasa-Jato? O veículo só quis estabelecer uma falsa similaridade e ou semelhança com o ex-juiz ladrão de Curitiba.
A Folha está preparando uma série especial de reportagens sobre o julgamento do ex-capitão. Diante do impacto no futuro do país, com garantia de sigilo e fins estatísticos, o jornal quer saber de possíveis leitores, quais temas gostariam que fossem aprofundados. Nesse sentido, é importante tirar a máscara do jornal, e dele pedir compromisso com a democracia, sem flertes com golpistas.
Folha, Globo et caterva sabem que pavimentaram o caminho para o nazifascismo. Sabem que os problemas de hoje têm raízes num passado próximo com o qual compactuaram. Palavras como ditadura, democracia, censura, direitos fundamentais ganham sentido de ocasião. Os que distorcem os seus sentidos ganham palanques e visibilidade em nome de uma polifonia corrosiva.
Se a Folha está mesmo preocupada com o impacto do julgamento do ex-capitão, tem que resgatar o sentido real das palavras, dar a dimensão real dos acontecimentos. Da Adutora do Gandu aos 700 mil mortos, falar de genocídio, fome, joias, imóveis, discriminação, aporofobia, inclusão, narcopentecostalismo, coisa e orçamento públicos. Há que se reconstituir a história, resgatar valores. Sem anistia.
Entrar na história para contar a História, sem essa de colher verdade para vender mentira.
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
Imprensa e "grande" mídia empresarial (controlada pelos agentes do mercado financeiro): a quinta-coluna do projeto autoritário da direita, por Daniel Gorte-Dalmoro
“Uma escolha muito difícil” apenas um subterfúgio para não assumirem logo que a democracia é um detalhe irrelevante para os donos dos poderes.
Do Jornal GGN:
Foto: reproduçãoGrande imprensa brasileira: a quinta-coluna do projeto autoritário da direita
por Daniel Gorte-Dalmoro
De um lado, os grandes veículos de imprensa dizem defender a democracia. De outro, abrem espaço para os Bolsonaro darem sua distorção dos fatos – mesmo quando é inconteste a participação na tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro – e fazerem política, mantendo sua relevância no cenário político nacional. Por outro lado, ainda, dia sim, outro também, apresentam Tarcísio como alguém de uma direita moderada, mesmo sabendo quem ele é – assim como sabiam quem era Bolsonaro, sendo a conversa de “uma escolha muito difícil” apenas um subterfúgio para não assumirem logo que a democracia é um detalhe irrelevante para os donos dos poderes.
O paradoxo da tolerância, de Karl Popper, é conhecido dessa imprensa, e não tem como dar a ela o benefício da dúvida, de que não saberia que tolerar (e dar voz) aos intolerantes põe em risco a própria tolerância que é um dos pilares de uma sociedade democrática e liberal.
O que essa imprensa também sabe é o modus operandi da nova extrema-direita, seja pelo que vivenciou durante a presidência de Bolsonaro, seja com o que acompanha nos EUA, com Trump: sem nenhum princípio republicano, persegue quem não se submete a seus desígnios e os adula: a única imprensa que eles aceitam é a que dá a versão oficial dos fatos. Investigação? Só se for dos adversários do governante, convertidos em inimigos.
O que a grande imprensa tem feito, portanto, é investimento futuro, sem risco de perdas: sabendo do republicanismo de Lula e do PT (republicanismo de almanaque, de tão distante das lutas políticas que atravessam o país, diga-se de passagem), fustiga o governo sem dó nem ética, distorcendo dados e notícias favoráveis e criando factóides para desgastar o governo. Fazem-no porque tem a tranquilidade de que publicidade oficial continuará caindo na conta, apesar de fazerem mau jornalismo (se é que o que fazem é jornalismo).
Se Lula ganhar em 2026, não tem problema, a vida segue normal, sem reação do Planalto. Se a extrema-direita ganhar, tem o cartão de visitas a apresentar ao próximo presidente: foram uma quinta-coluna no enfraquecimento da democracia e podem continuar sendo agraciados com verbas publicitárias governamentais. Isso para não falar no agrado que fazem aos donos do capital que vandaliza o país, visto que a plataforma da nova direita para países periféricos é o capitalismo de butim – vide as privatizações da era Temer/Bolsonaro, como da Petrobrás, e agora a privatização da Sabesp por Tarcísio -, sem nenhuma preocupação com desenvolvimento econômico ou social.
Há quem questione se apoiar um projeto autoritário, ainda que com verniz democrático, não seria um tiro no pé da imprensa. De modo algum! Quem sucumbiria não seria a imprensa e sim o jornalismo. As empresas seguiriam lucrando – e colaborando com a repressão -, como foi durante a ditadura militar-empresarial de 64-85.
Quem precisa estudar um pouco mais sobre o paradoxo da intolerância é o PT e o governo.
Daniel Gorte-Dalmoro é escritor e funcionário público. Filósofo e Sociólogo formado pela Unicamp, Mestre em Filosofia pela PUC-SP (se debruçou sobre A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord), Psicanalista em formação. Autor, dentre outros, de Trezenhum. Humor sem graça. (Ibiporã 1011) e Linha de Produção/Linha de Descartes (Editora Urutau).
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
Aliadas da Ditadura militar, Globo contratou censores e Folha só apoiou Diretas Já em 1984 para ganhar mercado
Beatriz Kushnir, historiadora que publicou trabalho sobre relação de grupos de mídia com o regime militar, fala à TVGGN; assista
Embora hoje se afirmem como defensores da democracia, o fato é que muitos dos grandes jornais brasileiros estiveram ao lado dos militares que deram o golpe de 1964, e não há ação de marketing capaz de apagar esse passado.
O Grupo Globo, por exemplo, fez editoriais apoiando a ruptura e até contratou censores profissionais para analisar previamente suas produções e evitar problemas com o regime de exceção.
O jornal Folha da Tarde, por sua vez, deu uma guinada à direita após a morte do guerrilheiro Mariguella, e Folha de S. Paulo só se engajou com as campanhas das Diretas Já para cumprir com o objetivo financeiro de abocanhar a fatia do mercado ávida pela abertura democrática.
Essas e outras histórias que revelam como os grandes grupos de mídia se relacionaram com a ditadura militar foram pauta de entrevista do jornalista Luis Nassif com a historiadora Beatriz Kushir, que publicou em 2001 uma tese de doutorado pela Unicamp que aborda o tema, mas que ainda hoje se faz muito atual.
No bate-papo [assista abaixo] veiculado no canal do GGN no Youtube na noite de terça (14), Beatriz Kushir avaliou que ainda hoje os donos dos grupos de mídias e alguns jornalistas têm dificuldade de digerir a verdade dos fatos: admitir que as redações faziam até mesmo autocensura para não melindrar a ditadura.
“As empresas de comunicação vão jogar o tempo todo com o Poder que tem no momento, tentando navegar para perder menos anéis possíveis”, disse Beatriz Kushir.
Na semana passada, dois jornais centenários, O Globo e o Estadão, se meteram em uma polêmica por conta da veiculação de uma peça publicitária feita por ocasião de aniversário de 150 anos do Estadão, que dizia que ambos os diários atuaram nas “trincheiras da democracia”, como se jamais tivessem apoiado a ditadura militar.
Pela distorção da verdade, O Globo, que vendeu o espaço publicitário ao Estadão, foi acionado no Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) pelo deputado Ivan Valente (PSOL), que chamou de “escárnio” o fato de que a peça publicitária usou a frase “Ainda estamos aqui”, se aproveitando “cinicamente” do sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, ambientado na ditadura.
“Todo mundo sabe que o Grupo Globo não só apoiou o golpe, como participou das benesses do golpe e foi um dos maiores beneficiários do regime militar da ditadura”, declarou Ivan Valente ao ICL Notícias.
Para Kushnir, o que sobrevive ainda hoje é a defesa, pelos grandes meios de comunicação, de seus próprios interesses.
“Os donos de jornais querem manter controle econômico e social. (…) A gente tem a ilusão de que eles são um quarto poder”, mas na verdade, desde antes da democracia ser reestabelecida, esses jornais só publicam o que os donos querem.
Beatriz Kushnir é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp. Pela Boitempo, publicou Cães de guarda.
Assista a entrevista completa com Beatriz Kushnir abaixo:
segunda-feira, 19 de agosto de 2024
A alopragem política e partidária da Folha e as estratégias de comunicação ‘alt-right’, por Wilson Ferreira
Podemos entender alopragem política como estratégia de criação de factoides, pseudo-eventos ou não-acontecimento que criam a espuma midiática
A alopragem política da Folha e as estratégias de comunicação ‘alt-right’
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
As estratégias de comunicação alt-right da extrema-direita basicamente se estruturam em dois princípios: a “alopragem política” e a “comunicação indireta”. O não-acontecimento da matéria de Glenn Greenwald e Fabio Serapião na Folha contra a “falta de ritos” de Alexandre Morais, abrindo uma espécie de “Vaza Xandão” e a denúncia de “perseguição política” contra bolsonaristas flagrantemente revela isso. Principalmente com o timing no momento em que a ultradireita na Venezuela espelha o modus operandi da extrema-direita brasileira, colocando a grande mídia, que incensa Xandão como o guardião da Democracia, numa espécie de saia justa. Por que lá pode e aqui não? Folha não quer impeachment do Xandão, mas duas mais valias semióticas: (a) gerar mais uma crise e continuar suprindo a grande mídia de acontecimentos (alopragem política); (b) com o barulho todo, o efeito Firehose e dissonâncias cognitivas, criar o background subliminar da simetria lulismo-bolsonarismo.
Alopragem política é um conceito que deveria ser mais levado a sério pelos analistas políticos. Porque, de um lado, ajuda a entender a engrenagem atual entre os fatos políticos e a mídia; e, do outro, o núcleo duro da estratégia alt-right de comunicação.
A princípio, podemos entender o conceito de alopragem política como uma estratégia de criação de factoides, pseudo-eventos ou não-acontecimento que criam aquele efeito de espuma midiática – muito próximo a outro conceito, o “efeito Firehose”: a criação de uma espiral interpretativa até o momento em que a diferença entre verdade e mentira desaparece. Para tudo permanecer na função performática: o barulho criado, a confusão, o escândalo etc.
Alopragem política está muito próximo do caos como método através da constante criação de crises, controvérsias etc. E, como bem sabemos, a estratégia alt-right de comunicação não visa o interlocutor, mas o público, a maioria silenciosa, impactada por tanta dissonância cognitiva.
A controvérsia atual surgida da reportagem da Folha feita a quatro mãos pelo notório jornalista e advogado Glenn Greenwald e o repórter Fabio Serapião, contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes (acusado de ter usado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante seu mandato na presidência do órgão, “fora do rito” para investigar bolsonaristas no âmbito dos inquéritos das fake news e das milícias digitais no STF) escancara mais uma vez essa engenharia do caos.
Como sempre, explorar limites e ambiguidades de um sistema (seja legal ou político) para empurrá-lo ao limite, ad absurdum – no caso, a arquitetura da Constituição de 1988 que permite a acumulação de funções dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que atuam simultaneamente como magistrados da mais alta corte e, eventualmente, em outras cortes, como o TSE. O acúmulo de funções entre o juiz criminal que segue o princípio acusatório, e o juiz eleitoral possui poderes de polícia para investigar e tomar medidas de ofício.
Gerando situações de humor involuntário, como a defesa de Alexandre Morais de que “seria esquizofrênico me auto-oficiar” se quisesse seguir à risca o rito.
A co-autoria de notório jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer e responsável pela “Vaza Jato”, cujo vazamentos revelaram uma organização criminosa na “República de Curitiba”, Glenn Greenwald, é simbólica: representa o objetivo de criar uma simetria entre os crimes da Operação Lava Jato e os inquéritos das fake news e das milícias digitais no STF.
Mas para quê? O fato de todo o banco de dados da denúncia da Folha ter provavelmente vindo do celular apreendido do assessor de Alexandre Moraes, pela Polícia Civil de São Paulo (num incidente de violência doméstica no ano passado), e SÓ AGORA, mais de um ano depois, ter sido utilizado revela uma intencionalidade: o contexto atual é de um governador, Tarcísio de Freitas, que definitivamente se lança como candidato à presidência. Depois de ter comprado o apoio da Faria Lima com a privatização da Sabesp – e a promessa de privatizar no futuro tudo, na bacia das almas: Petrobrás, Caixa Federal etc.
E o método utilizado é o da alopragem política: a extrema-direita sabe que é impossível um impeachment do “Xandão”. Assim como a grande mídia sabe que bater diariamente do Nicolas Maduro chamando-o de “ditador sanguinário” não vai derrubá-lo. Porque o objetivo é sempre outro, nunca destinado ao interlocutor imediato: de um lado, aloprar a política para pavimentar o caminho de Tarcísio de Freitas com o oxímoro “bolsonarista moderado”; e no bate-bumbo contra Maduro, desgastar diariamente Lula.
Ou “sangrá-lo”, fixação do jornalismo hemorrágico do “colonista” Gerson Camarotti da Globo News – “Lula está sangrando!”, repete com os olhos esbugalhados.
Notícias, por favor!
Assim como a extrema-direita leu e compreendeu Gramsci (a dimensão estratégica da guerra cultural para criar a hegemonia política nos espaços de poder da sociedade civil), também parece que entendeu uma das teses axiais do historiador conservador norte-americano Daniel Boorstin: a contradição entre notícias e a indústria midiática de informações – a mídia necessita de um fluxo constante da matéria-prima das notícias, os acontecimentos. Precisa de um interminável fluxo de conteúdo para atrair anúncios, espaços publicitários etc.
O problema é que a realidade não produz tantos acontecimentos assim. O que Boorstin revelou em seu livro “The Image: A Guide os peudo-events in America” como, dessa maneira, a mídia cria “pseudo-eventos” para corrigir essa “deficiência” da realidade – cria coletivas, debates, encontros, conferências etc. para arrancar depoimentos, controvérsias que gerem manchetes.
Consciente dessa contradição midiática existencial, a estratégia alt-right é criar uma usina produtora de crises, a engenharia do caos – fornecer um fluxo constante de “crises”, denúncias, contra os outros e até contra si mesma: notem como Bolsonaro foi o presidente que mais produziu provas contra si mesmo.
Satisfazer a sede midiática por acontecimentos. Aloprar a política, acelerando o tempo dos acontecimentos para que se sintonize com o tempo midiático.
Como? Para começar, através do “agro jornalismo”: a indústria de plantação de notas para os “colonistas” – aqueles jornalistas que trabalham sentados, ligando ou aguardando ligações das “fontes”. Ou aguardando postagens em redes sociais para “repercutir” – turbinar ou dar pernas à próxima não-notícia, geradora da nova “crise”.
Ou através de uma grife jornalística como Glenn Greenwald (movido por obsessões pessoais em torno da primeira emenda da Constituição dos EUA), criando o pseudo-evento da denúncia da ausência de “ritos” nos atos de Alexandre Morais à frente do STF e TSE – uma bomba semiótica, nitroglicerina pura, cuja explosão gera uma interminável espiral especulativa.
A espuma midiática cujo principal beneficiário é o “bandeirante-frankenstein”, a criatura Tarcísio de Freitas, vinda diretamente dos laboratórios de jantares com midiáticos como Luciano Huck e futuros ministráveis como Roberto Campos Neto, do Banco Central “autônomo”.
A alopragem política supre uma deficiência que sempre dominou o sistema político: para usar um termo da moda, a Política sempre obedeceu a “ritos”: os ritos processuais dos debates das casas do Congresso, as negociações, os cronogramas das mesas diretoras, o timing lento da Câmara e do Senado em busca de consensos através de acordos, alianças, das consultas políticas às bases de deputados e senadores.
A mídia sempre se ressentiu desse timing lento, oposto do tempo midiático acelerado: sempre acusou os políticos de “não trabalharem”, serem “preguiçosos”, “só estão em Brasília de terça a quinta-feira” etc.
Pois a estratégia alt-right de comunicação corrigiu essa “deficiência”: para a sensação de “colonistas” e editores, o bolsonarismo virou uma fonte inesgotável de “notas”, bravatas, crises, denúncias, escândalos, até voltando-se contra si próprio. Tudo on-line, em tempo real nas redes sociais.
Pois, sabem, contam com a normalização da grande mídia… afinal, ela é eternamente agradecida pelas pautas e conteúdo incessantes.
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