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sábado, 11 de julho de 2026

Debatendo sobre as EQMs - Experiências de Quase Morte

 

Do Canal de Carlos Antonio Fragoso Guimarães:

Entrevista do Psicólogo e Professor Carlos Antonio Fragoso Guimarães ao Podcast Pauta Espírita sobre as Experiências de Quase Morte - EQM, suas características, histórico e estado atual das Pesquisas.



segunda-feira, 6 de junho de 2022

Leitura de Flávio Ricardo Vassoler: Memórias, sonhos e reflexões, de Carl Gustav Jung

 

Do Canal de Flávio Ricardo Vassoler:


Leitura de fragmentos da autobiografia "Memórias, sonhos, reflexões" (1961), do psicanalista, psiquiatra e espiritualista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961). Link para o livro "Memórias, sonhos, reflexões", de Jung, a partir do site da Amazon: https://amzn.to/3pqceCZ



quarta-feira, 30 de março de 2022

Carl Gustav Jung sobre a alma ferida e o curador ferido de almas em busca de equilíbrio

 



    “Tornar-se íntegro ou completo é uma tarefa tão formidável que o indivíduo não ousa estabelecer objetivos ainda mais distintos, como o da perfeição. Assim como o médico não imagina nem espera fazer de seu paciente um atleta, também o médico da psique não se imagina capaz de produzir santos. Ele já se sente imensamente feliz quando consegue fazer de si mesmo, assim como dos demais, um indivíduo bastante equilibrado ou mais ou menos são, não importa quão distante ele esteja do estado que se acredita ser de perfeição. 

    "Antes de lutar pela perfeição, devemos ser capazes de viver como pessoas comuns, sem automutilação. Se, depois de sua humilde completude, alguém descobrir que ainda lhe restou energia suficiente, então pode iniciar uma carreira de santo”.

Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra e psicólogo suíço

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Carpe Diem

 

"Carpe Diem" - Aproveita o dia

 Poema de Walt Whtman (1819-1891), cronista, jornalista e poeta americano



Aproveita o dia,
Não permitas que ele que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te permitas vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e também oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Livro "O Espiritualismo Ocidental", Volume 1, de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, pela Editora do Conhecimento

 




Sinopse: Esta obra, a primeira de uma série de três, constitui-se num estudo acessível, porém profundo, da evolução das ideias espiritualistas no Ocidente, desde os tempos homéricos ao século IV da Era Cristã. Mais que um levantamento cronológico voltado para a história da Filosofia, ela vai além e apresenta uma discussão das ideias de Alma, Psique, Reencarnação, Paligênese, a função psicológica da Mitologia e outros temas em diálogo com pesquisas científicas atuais, como as do Centro de Estudo da Consciência da Universidade de Virgínia, EUA, ou das discussões sobre o que se sabe atualmente a respeito do “Jesus histórico”, discutindo as diversas escolas históricas, inclusive atuais, voltadas ao estudo de tais temas. 

O texto é enriquecido com a apresentação das recentes descobertas arqueológicas que lançam novas luzes sobre temas como a formação do cristianismo, por exemplo. Do mesmo modo, as implicações filosóficas e sociais das ideias espiritualistas são confrontadas com o que hoje sabemos sobre a psicologia humana e as manifestações culturais de diferentes sociedades pelo mundo.

Pensadores do porte de Heráclito, Pitágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Antístenes, Diógenes, Jesus de Nazaré, Fílon de Alexandria, Orígenes de Alexandria, Plotino, Apolônio de Tiana, Plutarco, Hipácia de Alexandria, e outros, são introduzidos para o leitor, especialmente os que não tiveram chance de ter contato com a Filosofia, de forma a que se entenda a pessoa do pensador em foco dentro do seu contexto histórico. Também são apresentadas e discutidas as ideias destes luminares no que toca à espiritualidade, ao mundo espiritual, ao fato de existirmos e à ética do viver, sempre que possível comparando as ideias originais com o que vivemos hoje neste conturbado mundo moderno.


Em um período em que vivemos um obscurecimento de certa forma planejado por parte de alguns, que desejam o solapamento do pensamento sensível, holístico e integral mais amplo, voltado ao conjunto e às questões fundamentais referentes ao porquê da vida, a presente obra constitui um estímulo e um convite à reflexão, ao questionamento do valores mecanicistas, egoístas e antissociais que perpassam nossa sociedade, e um raio de esperança para o reencontro com a Alma...


Título:O Espiritualismo no Ocidente - Vol. 1
Autor:Carlos Antonio Fragoso Guimarães
Coautor:Sem coautor
Formato:14x21cm
Páginas:522
Categoria:
Capa:4 cores (Laminação fosca)
Acabamento:Cola PUR
ISBN:9788576184591
Edição:
Lançamento:27 de Março de 2019
Preço:R$ 48,00

Carl Gustav Jung e o Autoconhecimento

 

Vídeo do Canal Conhecimentos da Humanidade:




segunda-feira, 3 de junho de 2019

Willhelm Reich, a extrema-direita e a psicologia de massas do fascismo de ontem e do bolsonarismo de hoje: por que as massas caminham sob a direção de seus algozes?



Mauro Iasi revisita as teses de Wilhelm Reich sobre a psicologia de massas do fascismo para compreender os impasses políticos do presente.


“o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório
de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”
W. Reich

“queriam que eu falasse do agora
mas, o presente que procuro
está preso em um passado
que insiste em ser futuro”
M. Iasi

O psicólogo marxista Wilhelm Reich (1897-1957) escreveu o livro Psicologia de massas do fascismo em 1933 (o estudo se estendeu de 1930 até 1933), no contexto da ascensão do nazismo na Alemanha. O autor se refugiou em Viena, depois Copenhagen e Oslo, onde iniciou seus estudos sobre as couraças e depois do que denominou de “energia vital”, levando-o a teoria do “orgon”. Desde 1926 acumulava divergências com Freud, com o qual trabalhou como assistente clínico, e em 1934 seria expulso da Sociedade Freudiana e da Associação Psicanalítica Internacional, sairia da Noruega em direção aos EUA, onde seria também perseguido com a acusação de “subversão”. Acabou preso em 1957 e morreu no mesmo ano na prisão. Toda sua obra, incluindo livros e material de pesquisa, foram queimados por ordem judicial nos EUA em 1960.

Ainda que possamos questionar as teorias reichianas fundadas na teoria do “orgon” e a relação que esperava estabelecer entre “soma e psiquismo”, temos que ter muito cuidado ao tratar as considerações que esse importante autor tece sobre o fascismo e o caráter das massas analisados na obra citada. Em vários aspectos, considero que as reflexões de Reich sobre o tema podem ser extremamente úteis em nossos tumultuados dias, principalmente pelas questões que levanta, mais do que pelas respostas que encontra.

O autor coloca da seguinte maneira o problema. Se assumirmos que a compreensão da sociedade realizada por Marx esteja correta – isto é, que o desenvolvimento da sociedade capitalista e suas contradições leva à possibilidade de sua superação revolucionária (o que implica a conformação do proletariado como um sujeito consciente de sua tarefa histórica) –, a questão que se coloca é como compreender o comportamento político de amplos setores da classe trabalhadora que efetivamente estão servindo de base para a reação política que emergia com o fascismo.

Chamar atenção aos efeitos da exploração capitalista, como a miséria, a fome e o conjunto das injustiças próprias do sistema capitalista para ativar o “ímpeto revolucionário”, dizia Reich, já não era suficiente. Tampouco acusar o comportamento conservador das massas de “irracional”, de constituir uma “psicose de massas” ou uma “histeria coletiva” – algo que em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema, a saber, compreender a razão pela qual a classe trabalhadora respaldava o discurso fascista que em última instância atacava exatamente seus próprios interesses.

Na base dessa incompreensão se encontrava um sentimento de espanto. Os marxistas acreditavam que a crise econômica de 1923-1933 era de tal forma brutal que produziria “necessariamente uma orientação ideológica de esquerda nas massas por ela atingidas”. Entretanto o que se presenciou foi, nas palavras do autor, uma “clivagem entre a base econômica, que pendeu para a esquerda, e a ideologia de largas camadas da sociedade que pendeu para a direita”. O autor conclui com a constatação de que a “situação econômica e a situação ideológica das massas não coincidem necessariamente”. (Wilhelm Reich, Psicologia de massas do fascismo, São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 7).

Nesse ponto, Reich afirmará que – e a observação dele aqui me parece profundamente pertinente hoje – essa não correspondência não deveria surpreender aos marxistas, uma vez que o materialismo dialético de Marx não compreende a relação entre a situação econômica e a consciência de classe como sendo algo mecânico, ou seja, como se a situação material determinasse esquematicamente sua expressão ideal na consciência dos membros de uma classe social. Somente um “marxismo vulgar” concebe uma antítese na relação entre economia e ideologia, assim como entre a “estrutura” e a “superestrutura”, uma perspectiva precária que não leva em conta o chamado “efeito de volta” da ideologia, isto é, as formas pelas quais a ideologia incide sobre a própria base material que a determina. Presa a essa visão esquemática e pouco dialética, resta a essa modalidade de marxismo vulgar apenas recorrer ao chamamento moral para que os trabalhadores correspondam em sua ação às condições objetivas em que se inserem, clamando pela “consciência revolucionária”, às “necessidades das massas” ou ao “impulso natural” para as greves e a luta (p. 14). Melancolicamente, Reich conclui então que essa versão esquemática do marxismo:

“Tentará, por exemplo, explicar uma situação histórica com base na ‘psicose hitleriana’ ou tentará consolar as massas, persuadindo-as a não perder a fé no marxismo, assegurando-lhes que, apesar de tudo, o processo avança, que a revolução não pode ser esmagada, etc. O marxista comum acaba por descer ao ponto de incutir no povo uma coragem ilusória, sem, no entanto, analisar objetivamente a situação em sem compreender sequer o que se passou. Jamais compreenderá que uma situação difícil nunca é desesperadora para a reação política ou que uma grave crise econômica tanto pode conduzir à barbárie como a liberdade social. Em vez de deixar seus pensamentos e atos partirem da realidade, ele transporta essa realidade para a sua fantasia de modo que ela corresponda aos seus desejos.” (pp. 14-5)

A miséria econômica causada pela crise atualiza a disjuntiva “socialismo ou barbárie”, mas o que faria com que os trabalhadores optem pela alternativa socialista? Reich está convencido de que em uma situação como essas os trabalhadores escolhem em primeiro lugar a barbárie. O marxismo vulgar compreende a ideologia como um conjunto de ideias que se impõe à sociedade e, portanto, aos trabalhadores. Dessa maneira, os partidários desse tipo de perspectiva acreditam que as ideais marxistas ganham força na crise porque desmentem na prática as ideias conservadoras. O que foge à compreensão dessa análise é exatamente o modo de operação da ideologia, muito mais do que a definição escolástica do “que é” ideologia.

Assim, o psicólogo comunista fará a pergunta decisiva: se uma ideologia se transforma em força material quando se apodera das massas, como afirmava Marx, a pergunta é “como é possível que um fator ideológico produza resultado material”, seja na direção de uma política revolucionária ou na direção de uma “psicologia de massas reacionária”? (p. 17)

Se compreendermos a ideologia na chave de ideias dominantes em uma sociedade – isto é, as ideias das classes dominantes que expressam as relações sociais que fazem de uma classe a classe dominante (Marx e Engels, A ideologia alemã, Boitempo, p. 47) –, a pergunta se formula da seguinte maneira: como é que relações sociais se convertem em expressões ideais, valores, juízos e representações interiorizadas pelas pessoas que constituem uma determinada sociedade? A resposta é que isto se dá na vivência de instituições no interior das quais as pessoas formam seu próprio psiquismo, neste caso, fundamentalmente, na família.

É aqui que as relações sociais dadas são apresentadas pela pessoa em formação como “realidade”, onde se desenvolve a transição do “princípio do prazer” para o “princípio da realidade” e se produz um complexo processo de identificação com aquele que representa o limite, a ordem e a norma social a ser imposta, mas, o que é essencial ao nosso tema, que é incorporada pela pessoa como se fosse sua (autocontrole) e não uma imposição oriunda de uma ordem social. O fundamento desse processo de interiorização, na formação daquilo que Freud denominou de “superego”, está a repressão à sexualidade infantil, o seu recalque e a volta como sintoma nos termos de Reich (Materialismo Dialético e Psicanálise. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1977).

É mister lembrar neste momento que o resultado desse processo de interiorização das relações sociais na forma de valores e normas de comportamento implica na identidade com o agende da imposição das normas externas, no caso do complexo de Édipo descrito por Freud na formação de uma identidade com o pai.

Dessa maneira, Reich localizará a base de uma determinada expressão de uma psicologia de massas (a do fascismo) em dois pilares: uma certa forma de família tendo no centro a repressão à sexualidade infantil; e o caráter da “classe média baixa”. Para ele, a repressão à satisfação das necessidades materiais difere da repressão aos impulsos sexuais pelo fato que a primeira leva à revolta enquanto a segunda impede a rebelião, uma vez que o retira do domínio consciente “fixando-o como defesa moral”, fazendo com que o próprio recalque do impulso seja inconsciente, seja visto pela pessoa como uma característica de seu caráter. O resultado disso, segundo Reich, “é o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária” (Psicologia de Massas do Fascismo, p. 29).

Os setores médios não são os únicos a viverem esse processo (que é de fato universal para nossa sociedade) mas o vivem de maneira singular. Trata-se de uma classe ou segmento de classe espremido entre o antagonismo das classes fundamentais da sociabilidade burguesa (a burguesia e o proletariado), desenvolvendo o curioso senso de que estão acima das classes e representam a nação. Seus impulsos jogam os setores médios ora para a radicalidade proletária (a luta contra as barreiras da realidade que se levantam contra os impulsos), ora para o apelo à ordem da reação burguesa (a defesa das barreiras sociais impostas como garantia da sobrevivência). Como o indivíduo teme seus impulsos e clama por controle, os segmentos médios temem a quebra da ordem na qual se equilibram precariamente e pedem controle e repressão.

Não é acidente ou casualidade que no campo dos valores reacionários vejamos alinhados à defesa abstrata da “nação” características como o “moralismo” quanto aos costumes (que vem inseparavelmente ligado a preconceitos, a homofobia, etc.) e a defesa da “família”, assim como o chamado “irracionalismo”, a “violência”, o mito da xenofobia e do racismo como constituintes da nação, e o clamor pela “ordem”. A recente cena dantesca de “manifestantes” enrolados na bandeira do Brasil, de joelhos e mãos na cabeça, pedindo uma intervenção militar é a imagem que condensa todos esses elementos. Por incrível que pareça, essa não é uma sociedade “doente”, mas a sociedade “normal” exposta sem os filtros que rotineiramente a oculta.

Os argumentos de Reich estão longe de dar conta da totalidade do fenômeno do fascismo. Ainda que justificada, sua crítica aos marxistas oficiais (em 1931 Reich criou a Sexpol Verlag que aglutina mais de 40 mil membros discutindo uma política sexual e suas relações com a luta revolucionária, o que causou preocupações no Partido Comunista austríaco e redundou na sua expulsão do partido em 1933) não pode dar conta de todos os elementos históricos, políticos, sociais e culturais do tema que foram abordados em inúmeras obras de competentes marxistas (de Gramsci a Adorno e Benjamin, passando por Togliatti, Polantzas e tantos outros). Ele apenas aponta para um aspecto que normalmente é desconsiderado. O que nos parece pertinente é que o comportamento fascista não pode ser reduzido a manipulação e engodo, mas encontra profunda raízes na consciência imediata das massas e seus fundamentos afetivos, seja nos segmentos médios, seja na classe trabalhadora.

O fascismo é, na sua essência, uma expressão política da crise capitalismo em sua fase imperialista e na etapa do domínio dos monopólios, como define Leandro Konder (Introdução ao fascismo, São Paulo, Expressão Popular, 2009). Ele disfarça sob uma máscara modernizadora seu conteúdo conservador, sendo antiliberal, antissocialista, antioperário e, principalmente, antidemocrático. A dificuldade do fascismo reside exatamente em juntar esses dois aspectos contrários em sua síntese – isto é, uma intencionalidade à serviço do grande capital (imperialista, monopolista e financeiro) e uma base de massas que permita apresentar seu programa reacionário como alternativa para a “nação”. Creio que o estudo de Reich nos dá aqui uma pista valiosa. A ideologia fascista conclama à revolta dos impulsos reprimidos (seja das necessidades materiais, seja aqueles relativos à repressão da sexualidade) e depois oferece a ordem como alternativa, dialogando assim diretamente com o fundamental da estrutura do caráter universalizado pela sociabilidade burguesa, principalmente das chamadas classes médias. É, portanto, uma política da pequena burguesia que mobiliza massas trabalhadoras para defender os interesses do grande capital monopolista. Acreditem, realizou-se esta façanha com eficiência e sucesso naquilo que conhecemos por nazifascismo.

Na luta contra o fascismo, a burguesia democrática é sempre a primeira derrotada e junto a ela a pequena burguesia que acredita no seu próprio mito de um Estado acima dos interesses de classe. A única força social capaz de enfrentar o fascismo é a revolução proletária, por isso são os trabalhadores o alvo duplo do fascismo, seja no sentido da cooptação, seja na repressão brutal e direta. Quando a luta de classes se acirra e qualquer conciliação é impossível, a burguesia se inquieta, os segmentos médios entram em pânico e os fascistas vendem seu remédio amargo para a doença que ajudaram a criar. Se nesse momento os trabalhadores se movimentarem com autonomia em direção ao seu projeto societário – o socialismo –, impelidos inicialmente pelos impulsos mais elementares e ainda não conscientes, eles podem colocar toda a sociedade em torno de sua luta e se constituir como alternativa à barbárie do capitalismo em crise. Se, por razões várias, esse segmento não se movimentar com a força necessária, uma longa noite de terror se impõe com seus cadáveres e cortejos fúnebres.

Ainda que tenham particularidades em seu processo de consciência, os trabalhadores não podem escapar ao fato de que são socializados nas instituições de uma ordem burguesa, portanto, que os valores, princípios, representações ideais desta ordem constituam o fundamento de sua consciência imediata. Diante do caos que emerge da crise do capital vive uma contradição entre os impulsos materiais que os impulsionam à luta e à identidade com os opressores que os mantêm presos às correntes da ideologia. Na ausência de uma política revolucionária se somam às “classes médias” conclamando pela ordem e se prestam a ser a base de massas para as aventuras fascistas.

Toda a esperança da psicanálise é tornar possível que o inconsciente emerja, em parte, para que seja compreendido o sintoma. Guardadas as mediações necessárias, a luta de classes torna possível que as determinações ocultas pelos mecanismos da ordem se façam visíveis e que o sintoma se torne exposto. No primeiro assim como no segundo caso isto não significa a resolução do sintoma, mas o início de uma longa luta para enfrentá-lo. O novo que pulsa vigoroso nas entranhas do cadáver moribundo do velho mundo, não pode ser detido a não ser pela violência. Não pode se libertar sem quebrar violentamente a ordem que o aprisiona.

“Veintiuno veintiuno
firmamento del dos mil
en el cielo la paloma
va en la mira del fusil”
Silvio Rodriguez

* * *

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Psicanalisando um governo deliróide, por Rita Almeida

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  "Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?"



Não acho prudente, nem ético, usar a psicanálise para diagnosticar ou analisar pessoas fora do meu consultório, mas é totalmente possível ou aceitável utilizá-la para analisar conjunturas político-sociais. Mas, nem é preciso entender de psicologia para perceber que o Bolsonarismo tem um componente deliroide bastante forte. As tão faladas “Fake News” exemplificam muito bem o que eu chamo aqui de deliroide: verdades construídas a partir de fragmentos ou de indícios de realidade e tornadas verdades universais. 

Eu trabalho no campo da saúde mental há mais de 20 anos, e se tem uma coisa que aprendi com esse trabalho é que o delírio não pode ser desmontado por uma simples confrontação com a realidade ou com racionalidade. Se o sujeito, em franco delírio, chega até você afirmando que tem um chip instalado na cabeça e através do qual se comunica com extraterrestres, não há absolutamente nada que se diga que mudará sua perspectiva de realidade. Nem que eu lhe mostre uma ressonância magnética do próprio crânio, ou que seja possível abrir sua cabeça para mostrar que não há nada lá, ele não se demoverá de sua verdade. Isso pelo simples fato de que aceitar desmontar tal delírio, seria desmontar a si próprio, já que, naquele momento, por uma fragilidade simbólica, o sujeito encontra-se totalmente assentado sobre aquela verdade. Se ela cair, ele cai junto. Freud dizia que os psicóticos amam o próprio delírio como a si mesmos. Resumindo, é isso. 

Semana passada li um artigo do Javier Salas no El País, sobre o terraplanismo intitulado: “Você não pode convencer um terraplanista e isso deveria te preocupar”. Os terraplanistas, afirma Salas, simplesmente acreditam que a Terra é plana, e qualquer dado que possa prová-los do contrário é simplesmente ignorado ou considerado manipulação de conspiradores. Obviamente que não é possível dizer que todos os terraplanistas são psicóticos ou doentes mentais, mas certamente, podemos falar de um empobrecimento ou fragilidade simbólicas, o que favorece o discurso que chamei de deliroide, ainda que ele não seja rigorosamente delirante. 

Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?

O que posso dizer a partir do que estudei e pratiquei todos esses anos é que, se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar. 

Comecei a escrever este texto, com a intensão de defender a estratégia do ator José de Abreu, ao criar seu personagem presidente. Obviamente que ele não partiu de nada disso que eu falei para se autodeclarar presidente, mas acredito que tenha pensado algo do tipo: “diante de tanto absurdo, o remédio só pode ser mais absurdo”, e suponho que ele tenha razão. Não há argumento racional que possa arredar o Bolsoplanismo do seu lugar. O debate, o noticiário, a justiça ou a ciência (números, estudos e estatísticas), não fazem o menor efeito. Portanto, é necessário provocar outros afetos nessas pessoas, afetos que possam ir descontruindo suas certezas. Obviamente que não estou me referindo ao clã Bolsonaro e sua trupe maluca, e haverá também um núcleo duro que irá defender o Bolsoplanismo até a morte, mas é possível reduzir bastante o contingente de militantes deliroides, até que fiquem relativamente inofensivos.

Voltando ao teatro do absurdo estrelado por José de Abreu – e é perfeito que isso esteja sendo feito por um ator - acredito que ele esteja colocando em prática uma coisa que fazemos nos nossos serviços de saúde mental e que funciona muito. Como usamos muitas práticas coletivas (grupos, oficinas e outras) os pacientes começam a ter que lidar com os delírios uns dos outros e, desse modo, começam a enxergar o seu próprio delírio. Ao duvidarem do delírio do outro, passam a duvidar do seu também. Ao rirem do delírio do outro, começam a rir do seu também. Ao se envergonharem do delírio do outro, começam a se envergonhar do seu também. E todos esses afetos, se não derrubam completamente os delírios, os deixam menos rígidos, emburrecedores e limitadores.

Tenho considerado que a performance de José de Abreu, já abraçada por vários outros políticos aliados, pode funcionar como uma grande oficina terapêutica a céu aberto. E ela tem ficado ainda melhor por contar com a participação do próprio Bolsonaro, que se dispõe a sair de sua posição de Presidente diplomado, para “bater boca” com um presidente fake. Apenas esse fato já nos dá a medida do tamanho do surreal que nos (des)governa, e do quanto a oficina do presidente fake está funcionando. Sugiro que ela não pare, e se amplie.

Por hora, o que podemos fazer para desbancar o Bolsonarismo e seu mito deliroide é isso mesmo: miná-lo. Para tal, precisaremos despertar o maior número de pessoas possível. Acho uma excelente estratégia fazer isso por meio do humor e do teatro do absurdo. O Brasil precisa enxergar sua própria loucura. 

Contra um fake Presidente, nada melhor que um fake concorrente.

José de Abreu pra presidente do Brasil.

E já me ofereço para o Ministério do Alienista 

Rita Almeida

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Fé evangélica e reestruturação psíquica, por Wilton Moreira





Em um outro artigo, mencionei que há décadas as igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, preparam o terreno para a ascensão de ideias fascistas no Brasil, ao propagar um fundamentalismo cristão baseado na desvalorização ou demonização de certos grupos sociais, como os LGBTs, praticantes de religiões de matriz africana ou indígena, mulheres, feministas e “comunistas”. Acrescente-se a estes grupos os dependentes químicos, inclusive do álcool, cujo uso é proibido ou bastante restringido entre os fiéis.

Mas como as igrejas evangélicas conseguiram tamanha adesão popular, entrando em espaços propícios à esquerda, inclusive à religiosidade de esquerda, como foi a Teologia da Libertação, nascida no seio do catolicismo?

O novo indivíduo e a fé evangélica

Não ser uma fé alinhada com as ideias de esquerda foi justamente que proporcionou o sucesso da fé evangélica. O capitalismo não é apenas um sistema econômico que explora os trabalhadores. Ele desenvolve o que Marx chamava de ideologia, que é um sistema de ideias e crenças que justifica esta exploração.

Eu iria mais longe e afirmaria que o capitalismo, mais que ter uma ideologia (parte de sua superestrutura) é uma cultura, no sentido antropológico do termo. Uma cultura inédita na história da humanidade, na qual as pessoas alienam seu poder criativo a uma forma social abstrata chamada capital. O capital tem leis objetivas e rigorosas, mas profundamente estranhas ao que nas culturas anteriores se identificava como humano.

O objetivo principal do capital, o de multiplicar-se indefinidamente através do lucro, é simplesmente desumano. As pessoas que nascem sob o regime capitalista podem não notar, mas o principal objetivo de sua vida é o de trabalhar para reproduzir uma riqueza abstrata que, concretamente, jamais lhe servirá. Por isto, Marx, em certos momentos, diz que, por trás da subjetividade burguesa, o que impera de fato é o sujeito automático, que é o próprio capital comandando, a partir do inconsciente, as ações humanas.

Num regime capitalista plenamente estabelecido, o sujeito automático assume então a hegemonia da subjetividade dos indivíduos que passam a pensar e agir para o capital, tanto individualmente quanto coletivamente.

O Brasil das décadas de 70 e 80 é um país majoritariamente urbano e plenamente capitalista, mesmo nas pequenas cidades do interior. Alguns argumentam que o capitalismo nunca foi pleno no país, carente, por exemplo, de uma forte burguesia industrial. Eu responderia que, com a urbanização maciça e desordenada das décadas de 60 e 70, promovida pelo desenvolvimentismo da ditadura militar, o processo capitalista se completou no país, na forma de um capitalismo de estado de direita.

A população ativa da década de 1980 já está completamente desenraizada da cultura rural, que até meados do século XX preservava fortes características arcaicas e não capitalistas, como, por exemplo, a quase inexistência de trabalho abstrato. A partir da década de 1980, o trabalho abstrato, mesmo que precário (como os de ambulante, pedreiro, garçom e doméstica) passa a prevalecer, alterando todo um modo de vida cotidiano, mas também a subjetividade profunda dos indivíduos, que passa a coincidir com o sujeito automático (capital).

A nova crença dos evangélicos pentecostais, continuadores da tradição protestante da ética do trabalho, do individualismo, da racionalidade (instrumental) e da disciplina pessoal, vem de encontro com esta nova subjetividade capitalista, que se torna hegemônica a partir da década de 1980. Por outro lado, apesar do sucesso momentâneo da Teologia da Libertação, suas ideias comunitárias, baseadas na solidariedade e na crítica ao individualismo exacerbado, estão muito mais vinculadas ao Brasil rural que fica para trás.

Portanto, a fé evangélica, ancorada desde suas raízes protestantes europeias na cultura capitalista, se torna muito mais adequada à psique do novo indivíduo brasileiro, urbano e que ganha a vida com seu trabalho abstrato. Psique regida, agora, pela batuta inconsciente do sujeito automático, ou seja, pelo capital; e que se torna refratária a qualquer crítica “de esquerda” ao sistema, pois a negação do sistema implicaria na negação de sua própria subjetividade, ou seja, seria um questionamento da identidade do indivíduo enquanto homo economicus, circunscrito na e pela sociedade capitalista. Por outro lado, a crença evangélica, ao afirmar a cultura do capital, reforça essa identidade individual.

A miséria e a reestruturação da psique

Não é necessária muita observação para constatar que, individualmente, a fé evangélica é responsável por numerosas reestruturações psíquicas extremamente benéficas para o indivíduo e seu círculo familiar.

O impacto destes verdadeiros renascimentos espirituais é maior ainda em ambientes sociais degradados pela miséria, como periferias, favelas e pequenas cidades. Em tais ambientes, nos quais vivem boa parte da população brasileira, os indivíduos e as famílias vivem numa perigosa proximidade com o crime (principalmente os jovens do sexo masculino) a prostituição (as mulheres jovens) e a dependência química, seja de drogas ilícitas ou do álcool. O trabalho precário ou o desemprego, a ausência de estado, a humilhação diária e o individualismo “salve-se quem puder” próprio do capitalismo tornam a miséria urbana um verdadeiro inferno, social e psicológico.

Mas os indivíduos que sofrem neste inferno são, como os demais membros da sociedade capitalista, guiados pelo sujeito automático do capital e se tornam refratários à crítica ao sistema (mesmo que limitada) que a esquerda costuma oferecer, bem como à medidas de caráter coletivista, como priorização do transporte público em substituição ao automóvel, por exemplo. O que eles desejam é terem chance de se tornar, com estudo e trabalho duro, pessoas de classe média ou, simplesmente, pessoas de bem. Trata-se portanto, dos desejos de um sujeito liberal, perfeitamente conformado à cultura capitalista. Registre-se que o grande sucesso do PT e de Lula nos anos 2000 se deveu ao fato de que esta “ralé” ascendeu socialmente, mesmo que de forma precária, realizando estes sonhos de consumo individualistas, como comprar automóvel, frequentar shoppings, viajar de avião etc.

É a estes indivíduos desesperados e desamparados, mergulhados na favela sem fim das classes populares, cuja psique é formada pelo sujeito automático, que a fé evangélica vem socorrer, com sua promessa de salvação, não em outra vida, como na fé católica, mas ainda nesta e de forma rápida e efetiva.

A conversão, de fato, disciplina e organiza a psique do brasileiro pobre e miserável, que se protege da dependência química, da criminalidade e da prostituição que rondam suas frágeis famílias num ambiente social degradante. Ao se converter, muitos passam da condição de “malandros”, “viciados” ou “perdidos” para a de pessoas de bom senso, comedidas e educadas. Maus pais passam a dar atenção aos filhos, maus maridos passam a respeitar suas parceiras, brigões se amansam, criminosos se contentam com o ganho modesto do trabalho duro e muitas vezes precário.

Não se pode negar que, para muitíssimos casos, a conversão evangélica proporciona à pessoa um verdadeiro renascimento, a partir do qual sua vida psíquica e familiar se torna muito melhor. Como consequência, o indivíduo se insere melhor também no mercado de trabalho, tornando-se mais produtivo. Mesmo nas durezas do trabalho precário e do desemprego, comuns às populações pobres, sua resignação e disciplina financeira, decorrentes de sua maior força psíquica, ajudam-no a enfrentar os percalços, mitigando seu sofrimento e de sua família.

Outro aspecto positivo das igrejas evangélicas é que elas formam efetivamente uma comunidade de “irmãos”, uma grande família na qual uns amparam os outros, psicologicamente, mas também e materialmente. Se algum membro da comunidade passa por dificuldades financeiras ou problemas de saúde, a igreja, sob a liderança do pastor, provê o básico até que o necessitado se restabeleça. Na comunidade evangélica não é raro, inclusive, que o irmão de crença privilegie o outro na hora de contratar um empregado ou se associar como parceiro de trabalho.

Este espírito comunitário é, quase sempre, a única garantia de sobrevivência em caso de desemprego, dificuldades financeiras ou de doenças que venham a acometer as pessoas muito pobres nas periferias das cidades, invisíveis para o estado e para as classes médias e altas. Trata-se, portanto, de um amparo crucial nos momentos de desamparo por que passam quase todos os pobres.

É claro que tal comunidade evangélica difere em muito das comunidades arcaicas do Brasil rural, marcadas pelo compartilhamento da terra, das atividades de cultivo e da colheita. A comunidade evangélica, ao contrário, é marcada pelo apoio através da caridade (como também as rurais) e da preparação (espiritual, mas também técnica) do irmão para o mercado de trabalho. Não se compartilham meios de produção ou ganhos financeiros, mas sim educação espiritual e técnica. Não é raro, por exemplo, que mestres de obras trabalhem apenas com serventes evangélicos, que depois se tornam pedreiros e mestres de obras, assim ocorrendo em várias outras profissões de nível básico ou médio, normalmente precárias, como mecânicos, vidraceiros, marceneiros, serralheiros, vendedores etc.

Como nas comunidades arcaicas, a regra é que os evangélicos nãos questionem os seus fundamentos culturais que, no caso são os do próprio capitalismo, pois é na ética do trabalho (e não apenas no gozo do consumo, que também é louvado) que o indivíduo evangélico é educado desde sua conversão. Ganhar e gastar, mas ganhar de forma honesta e com trabalho duro, para, depois, gozar, como recompensa de Deus, as delícias do consumo de mercadorias, fruto colhido após a semeadura do trabalho duro, da vida reta e justa do bom cristão.

A fé evangélica de caráter pentecostal instaura, então, uma integridade psíquica (no sentido de unidade, autenticidade e inteireza da psique) que a degradação da miséria destruía. Esta integridade individual acaba por se tornar também familiar, na medida em que a transformação de um membro da casa, acaba por levar os outros à conversão. Alargando o círculo, a conversão acaba por atingir grande parte dos bairros pobres, e não só estes, se tornando um fenômeno social de largo alcance, como acontece atualmente no Rio de Janeiro, onde a rígida cultura evangélica já disputa a hegemonia com as culturas tradicionais dos morros e periferias, também comunitárias, mas festivas e com fortes traços anticapitalistas, marcadas pelo samba, malandragem, erotismo e sincretismo religioso.

Na verdade, as comunidades semi-capitalistas, como a dos morros cariocas e as do sertão nordestino, são frágeis diante da hegemonia da cultura capitalista, que se torna referência em termos de valores, modo de vida e técnica. A recusa do trabalho abstrato e a cultura de subsistência não consumista, próprias do sertanejo e do malandro, são desvalorizadas como preguiça e falta da saudável ambição pela prosperidade. Não raro, os jovens destas comunidades são seduzidos pelo aspecto mais prazeroso da cultura capitalista, que é o narcisismo consumista, sem a contraparte da preparação para o consumo de uma vida inteira, marcada pelo estudo e, depois, pelo trabalho disciplinados, próprios dos filhos da classe média. O resultado é a frustração, o sentimento de impotência e inferioridade dos jovens pobres e, muitas vezes, a compensação com o dinheiro “fácil” da criminalidade e da prostituição ou a fuga para a dependência química.

A fé evangélica se apresenta, então, para reequilibrar a desorganização que o capitalismo causa nas comunidades semi-capitalistas, introduzindo a ética do trabalho de cunho protestante como contraparte necessária ao consumismo, ou seja, o gozo do consumo deve ser precedido e preparado pelo sacrifício do estudo e do trabalho. Como num tratamento de choque, todos os vícios químicos devem ser abolidos, inclusive as drogas legais como tabaco e álcool. A sexualidade, vista como outro vício corporal, deve ser contida no espaço rígido do casamento heterosexual e deve ser severamente controlada nas jovens solteiras, cuja vida sexual, idealmente, se inicia somente após o casamento, num retorno à rigidez patriarcal das sociedades rurais. Os benefícios óbvios de tais rigores é a ausência de dependência química e de prostituição na comunidade evangélica, dois perigos reais que rondam os filhos e filhas das famílias pobres das periferias e que se entrelaçam com a criminalidade urbana, que também não é praticada por jovens evangélicos.

A todos esses rigores corporais, claramente puritanos, se soma o culto da disciplina para o estudo e o trabalho, cujo objetivo é transformar o corpo e a mente do evangélico num trabalhador incansável, pai e mãe de família responsáveis (que reproduzirão nos filhos a ética do trabalho) e consumidores insaciáveis, cujos gozos interdito do corpo se reverterão no gozo consumista, abençoado como prosperidade, recompensa de Deus (ou do capital) aos que trilharam o caminho estreito da salvação. Para trilhar este caminho, o evangélico convertido deve se transformar, de um preguiçoso sem ambição, numa máquina de trabalho e consumo, como já é, há muito tempo, o homo economicus das classes médias tradicionais. Estas, inclusive, incorporadas de longa data no sujeito automático do capital, podem dispensar a rigidez puritana dos evangélicos e se tornarem liberais nos costumes, gozando não apenas os prazeres do consumo, mas também os do corpo.

A integridade psíquica que a fé evangélica promove é, na verdade, uma integração total da psique humana no sujeito automático do capital. Processo que já fora concluído há tempos na Europa pelo protestantismo.

O preço da integridade psíquica: a violência canalizada

Para o indivíduo e famílias das classes populares há claros benefícios na conversão evangélica. A recuperação do pertencimento a uma comunidade, mesmo que seja de mônadas individualistas, é um deles. Mas, principalmente, a reestruturação da psique que, ao se integrar no sujeito automático, se torna íntegra sob a perspectiva cultural do capitalismo, perfazendo uma subjetividade amalgamada na lógica da mercadoria. Ao mesmo tempo que se sacrifica às durezas do trabalho abstrato (o corpo como oferenda de si, na forma da mercadoria-trabalho), o sujeito tem como recompensa o gozo do consumismo (o corpo como fruidor de mercadorias produzidas pelo mesmo trabalho abstrato).

No sujeito capitalista, o sacrifício da produção de mercadorias com a mercadoria-trabalho tem como contraparte inseparável o gozo consumista da fruição das mercadorias, troca mercantil que realiza o capital, multiplicando-o (pelo lucro) e renovando-o para outro ciclo reprodutivo. No ciclo capitalista de produção e consumo, o ser humano funciona como uma espécie de órgão reprodutor do capital, que se utiliza das pessoas para seu objetivo de reprodução ilimitada.

Como bem observou Marx, na cultura capitalista, a forma social capital, inventada pelas pessoas e que se reproduz apenas por meio do trabalho humano, se torna autônoma e passa a impor sua lógica cega e abstrata aos próprios seres humanos que a inventaram e que se tornam escravos de suas coerções. A ética do trabalho da fé evangélica de caráter pentecostal, assim como do protestantismo europeu, funciona como um adestramento das mentalidades na lógica da mercadoria, subordinando a psique humana ao sujeito automático, que é o próprio capital encarnado no humano.

O processo de evangelização, como vimos, traz claros benefícios individuais e familiares às pessoas pobres das periferias, por conta da unidade psíquica que promove, mas gera, por outro lado enormes frustrações, que devem ser descarregadas de alguma forma.

A primeira destas frustrações é que a evangelização, embora amenize o problema da exclusão social decorrente da pobreza, não o soluciona. Ao se constituir psicologicamente como sujeito automático, o evangélico torna-se mais preparado e disciplinado para enfrentar o mercado e, em caso de insucesso profissional, pode contar com a ajuda da comunidade evangélica e mesmo com sua psique mais estruturada para se resignar com o fracasso.

Nada disso, no entanto, elimina o fato de que a imensa maioria dos evangélicos pobres continuarão pobres e exercendo trabalhos precários, transitando entre o desemprego, a informalidade, a terceirização e os empregos temporários, todos de baixa remuneração e alta exploração. As tendências do capitalismo tardio financeirizado, em todo o mundo, é a de aumento da desigualdade e da precarização do trabalho.

Os evangélicos (e também as classes médias tradicionais), ao integrarem sua psique ao sujeito automático do capital, perdem a capacidade de criticar o capitalismo, pois tal crítica poria em questão sua própria identidade subjetiva. São auto-interditados, portanto, de questionar o capitalismo, primeiro pela via tradicional das esquerdas, que baseia sua crítica na luta de classes, ou seja, na exploração do trabalho pelo capital, propondo, como solução uma melhor distribuição da renda e da riqueza, por meio da intervenção estatal. São mais incapazes ainda de criticar as categorias básicas do capital que, a partir do sujeito automático, constitui sua própria base psíquica: trabalho, mercadoria e valor/dinheiro são, pelo contrário, absorvidos na crença evangélica e louvados como dádiva da prosperidade. Ressalte-se que, neste aspecto, nem as esquerdas são capazes da crítica categorial do capitalismo, principalmente no que se refere à crítica ao trabalho, tão louvado à esquerda quanto à direita. Apenas alguns artistas e escritores conseguem, de forma intuitiva mas poderosa, criticar a ética do trabalho de fundo protestante.

A frustração da pobreza persistente, se não pode ter sua causa real (que é o próprio capitalismo) revelada e enfrentada, deve ser canalizada para outras pessoas, para um outro. Este outro tem muitas faces, mas que pode genericamente ser designado por corrupto (ou imoral). A fonte do mal passa a ser, então, a corrupção (imoralidade) humana, que pode se dar na esfera do corpo (sexualidade e dependência química), da política, dos negócios ou do crime.

Os corruptos passam a ser a causa da miséria e da degradação social. Os LGBTs, as feministas, os ladrões, traficantes e dependentes químicos acabam por se tornarem responsáveis pela crise da sociedade capitalista, numa inversão em que as vítimas se tornam a causa dos problemas sociais. Mas principalmente a corrupção política passa a ser responsável pela apropriação indébita da riqueza do país que, de outra forma, poderia irrigar o mercado e recompensar dignamente o trabalho duro.

Esta mistificação da corrupção política como causa principal da miséria do povo não se sustenta empiricamente, mas a persistência endêmica da corrupção na sociedade brasileira (na verdade, em todas as sociedades capitalistas) é suficiente para que a política e os políticos profissionais sejam identificados como a fonte dos males sociais do país, não apenas para os evangélicos, mas para a população em geral. É de se destacar que a imagem de homem do povo, tanto de Lula quanto de Bolsonaro se sobreponha a de político, bem como a imagem inicial de Collor como empresário inimigo dos marajás, de Dilma como gerente e a de Fernando Henrique como intelectual, tenham sido relevantes em suas respectivas eleições. São personagens que entraram na política, mas preservando uma certa imagem de pureza em relação à corrupção comumente associada ao meio político.

A conversão evangélica funciona como uma defesa contra a violência social, psíquica e física às quais as populações pobres das periferias são diariamente submetidas, cuja causa principal é a exclusão social promovida pelo capitalismo. Para os membros da comunidade evangélica a crença funciona, de fato, como proteção social e renascimento psíquico. Mas numa perspectiva coletiva, a evangelização das populações pobres, por não resolver o problema da exclusão social, funciona como uma transferência da violência para outros grupos marginalizados da sociedade.

O preconceito evangélico contra as mulheres em geral e as feministas em particular, contra os LGBTs, dependentes químicos e praticantes da umbanda e candomblé se torna um canal de para que as frustrações sociais sejam descarregadas, na forma de ódio social, nestas minorias, já discriminadas de longa data. Some-se a isto, uma intolerância radical contra os criminosos, mesmo os pequenos, os quais burlam a sagrada ética do trabalho.

Estas posições de intolerância se manifestam politicamente, como voto e apoio a políticos linhas-dura e justiceiros, não raro demagogos, dispostos a combater o crime e a corrupção moral e política com leis e ações duríssimas, mesmo às custas do estado de direito. O estado, sob a crescente influência evangélica, se torna paulatinamente menos laico e mais intolerante e desumano, disposto a exercer sua violência institucional contra os que divergem da normalidade heterossexual cristã, do homem trabalhador e cumpridor de seus deveres cívicos e familiares.

Trabalho duro, farra consumista e mal-estar da civilização capitalista

Mesmos os grupos evangélicos bem sucedidos, que nunca conheceram a miséria das periferias e seus perigos da degradação familiar e individual manifestam, não raro, ódio social contra minorias e veem na corrupção política as causas dos males do país. É o mesmo  mecanismo de deslocamento observado nos evangélicos pobres, de recusa em ver no capitalismo a causa principal dos problemas sociais, canalizando sua revolta para grupos sociais que funcionam como bodes expiatórios.

Este deslocamento acomete, inclusive, nas classes médias não evangélicas, que debitam na conta da corrupção política a causa maior dos males do país, associando esta corrupção normalmente a governos de esquerda, principalmente petistas. Esta junção convenientemente acoberta seu secular ódio social aos pobres, de origem escravocrata, com o ódio ao corrupto, muito mais justificável (e auto-justificável, pois neste caso a mentira é também para si-mesmo) socialmente.

Mas que motivos teriam as classes médias tradicionais, evangélicas ou não, para canalizar tanto ódio às minorias, aos pobres e aos políticos corruptos, se elas não vivem nem viveram no ambiente violento das periferias? Pode-se argumentar que a violência urbana provocada pela desigualdade capitalista acaba por afetar também as classes médias que, mesmo com suas casas, carros e bairros relativamente bem protegidos, não escapam da sensação de medo que a crescente criminalidade alimenta em todos os cidadãos. Sem dúvida, o medo é um sentimento que se transforma normalmente em ódio e o apoio das classes médias ao endurecimento da repressão policial aos criminosos, às custas, inclusive, dos direitos humanos, tem no medo do crime uma de suas causas.

Mas o ódio social contra as minorias que evangélicos sentem, que se soma ao ódio ao pobre, de fundo escravocrata, sentimento comum nas classes médias, evangélicas ou não, tem provavelmente uma causa mais profunda, que é o mal estar provocado pela integração psíquica ao sujeito automático. Ao se tornar parte do capital, como sujeito automático, o ser humano se torna uma mônada abstrata. O sujeito do direito da democracia e o profissional do mercado de trabalho são construções tão abstratas quanto a forma social capital, distantes da concretude da vida humana. Esta subjetividade abstrata deve subordinar seus desejos às coerções e formas abstratas do capital, cujo “objetivo” principal é a multiplicação infinita de si mesmo.

A subordinação da concretude da vida humana à dominação abstrata do capital, que se dá com a integralização da psique como sujeito automático, é a causa do mal estar da civilização capitalista, mesmo entre as classes abastadas, cujos sujeitos alienam (no sentido de delegar) suas potências humanas para as forças abstratas do capital, que trabalham pelas costas destes mesmos sujeitos. O resultado de tal sacrifício (de vida) é um imenso sofrimento psíquico, oculto sob a camada de tranquilidade da pessoa de bem, em paz consigo mesma e com a sociedade. Paz de espírito da superfície da psique, conquistada duplamente: com a sensação do dever cumprido por meio do trabalho duro (ganho); e, depois, com o viciante prazer proporcionado pela “merecida” farra consumista (gasto).

O sofrimento interior decorrente da subordinação dos desejos humanos aos do sujeito automático (capital) é inconsciente para a imensa maioria das pessoas, mas ele costuma vir à tona em párias sociais, como alguns doentes mentais, drogados e artistas. Neste últimos, por exemplo, são tolerados delírios anticapitalistas e até comportamentos condenáveis da perspectiva do sujeito automático, como a crítica ao trabalho, ao status quo e ao consumismo, bem como a recusa em trabalhar etc. Mas tais expressões estéticas ou comportamentos desviantes são enquadrados (no sentido de classificados, mas também de emoldurados, ou seja, separados do mundo real) como excentricidades ou rebeldias de artistas que, embora possam provocar prazer estético, não devem ser levadas a sério como expressões da psique coletiva ou críticas sociais.

O sofrimento reprimido se transforma, então, em ressentimento e ódio, que precisam ser direcionados para algum bode expiatório, uma vez que não pode se voltar contra o capitalismo, já que  este constitui a identidade do próprio sujeito automático. Uma revolta consciente contra o capitalismo significaria, para a pessoa de bem, um autoquestionamento de suas próprias bases psíquicas, inclusive morais.

Esta frustração reprimida, inerente ao capitalismo e que atravessa todas as classes sociais, inclusive as elites, se torna um perigoso veículo da violência em momentos de crises sistêmicas agudas do capitalismo. Ela é o ovo da serpente dos diversos fascismo latentes sob a fina camada civilizacional do capitalismo e costuma vir à tona como ódio social contra minorias desamparadas, que pode se efetivar, em algumas ocasiões, como violência física: aprisionamento, tortura e assassinato, geralmente em escala massiva.

As classes médias tradicionais do Brasil, cujos indivíduos já estão constituídos como sujeito automático há tempos, carregam desde a Velha República a dinâmica da frustração reprimida que se canaliza para o ódio social, cujo ranço escravocrata faz com que se manifeste como ódio ao pobre.

Os novos evangélicos pentecostais, sejam de classe média ou baixa, recém integrados na psique do sujeito automático apresentam o mesmo mecanismo de frustração interior e necessidade de sua descarga, como sentimento de ódio, em grupos sociais fragilizados. No caso dos evangélicos pobres, há o agravante da frustração inerente à alienação de sua humanidade às abstrações do sujeito automático, comum em todas as classes sociais, se juntar à frustração da condenação à eterna miséria, pois na quadra atual do capitalismo, ascensão social pelo estudo e trabalho será cada vez mais rara.
A transformação do humano numa máquina de trabalhar/ganhar e consumir/gastar aliena as potências humanas para a forma social abstrata do capital, transformando as pessoas em meios para a finalidade última do capitalismo, que é a reprodução do capital. Tal processo de reestruturação psíquica para integração dos indivíduos à cultura capitalista começa com o protestantismo europeu e tem na fé pentecostal sua atualização para o Brasil do século XXI. O problema é que a integração ao sujeito automático proporcinada pela conversão evangélica é profundamante desumanizadora e causa, aos seres humanos, imensos sofrimentos psíquicos que se manifestam, em momentos de crise, como preconceitos, ódios sociais e manifestações de violência de caráter fascista.
Fonte: Jornal GGN