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terça-feira, 4 de junho de 2024

O Coronelismo eletrônico evangélico, por Valdemar Dema Figueiredo

 


Redes de comunicação evangélicas ampliam os seus poderes simbólicos, econômicos, ideológicos e políticos

ICL Notícias.- Sobreposição do regime representativo. Conluio do poder público com chefes locais. Troca de favores. Mandonismo nos municípios que vão além das instituições políticas formais. Chefes políticos municipais que não ocupam necessariamente cargos públicos, mas sabidamente mandam no pedaço. Dispõe de poderes e mecanismos para acionar “votos de cabresto”. Será que essa caracterização da cultura política brasileira se restringe apenas a uma página infeliz da nossa história?

Coronelismo

Ainda que identificada a crescente criação de pequenas e médias propriedades rurais, prevalecia a estrutura baseada na concentração de grandes propriedades, latifúndios. O fenômeno do “coronelismo” não decorre apenas do mandonismo municipal, também deriva da estrutura econômica e social brasileira.

Embora o federalismo seja idealizado como a solução para a descentralização, coexistência do poder central e do poder local, no caso brasileiro retratado por Victor Nunes Leal, o federalismo se desenvolveu a despeito do municipalismo.

Os traços principais do coronelismo: atua no ambiente do governo local, predominantemente nos municípios rurais; promove o aparelhamento do Estado que consiste na retroalimentação do poder privado e do poder público; sistema político governista que conta com a força eleitoral dos chefes locais; facções locais governistas operam como condutores da máquina pública oficial.

Aferir que as causas e consequências do coronelismo ainda persistem rigidamente iguais seria incorrer em erro. No entanto, não podemos ignorar o fato que essa cultura política descrita por Victor Nunes Leal não é estranha, mesmo na atualidade. Possui traços que são perceptíveis no dia a dia da política nas disputas eleitorais. A ideia de coronelismo ganhou novas roupagens. Entre outras, as feições de um “coronelismo eletrônico”.

Coronelismo eletrônico

No passado, a centralidade dos proprietários rurais dando contornos ao mandonismo municipal. Na atualidade, os chefes políticos identificados como proprietários de mídias. Os recursos de transformar aparatos técnicos de mídias em poder de influenciar votos e determinar estruturas eleitorais. Mando local, não necessariamente circunscrito ao município, em que o controle de mídias voltadas para grupos específicos coopera para gerar comportamentos políticos típicos.

Coronéis políticos transformados em coronéis eletrônicos. Mais do que uma transformação do conceito, trata-se de um novo arranjo diante das mudanças sociopolíticas. Tem mais a ver com continuidade do que com rompimentos ou rupturas. Nas duas pontas do processo, persiste a imposição do controle. Enquanto os antigos coronéis mantinham o controle eleitoral a partir das suas propriedades rurais, os atuais coronéis eletrônicos despontam como liderança política a partir das suas propriedades de emissoras e retransmissoras de radiodifusão.

Suzy Santos e Sérgio Capparelli descrevem empiricamente como o poder público estabelece relações de trocas com setores empresariais que atuam na área das comunicações. São trocas de favores com compensações políticas que vão desde a sustentação política do governo até a propaganda política nos Estados e cidades em períodos eleitorais. Conluios que funcionam para além das regras eleitorais e dos princípios democráticos de equidade de condições perante o Estado para disputar votos e oferecer representação. No Brasil atual, grupos familiares/empresarias dominam vastas redes de comunicação provenientes de concessões do Estado. Relações de troca que não fazem lembrar relações republicanas em que as decisões são publicizadas e justificadas. Conforme o coronelismo caracterizado por Victor Nunes Leal, o coronelismo eletrônico atual no Brasil funciona como uma sobreposição ao sistema democrático da representação política.

Os chefes locais, pelo grande poder político e econômico que possuem, são atores capazes de oferecer aos detentores do poder público a sustentação política que necessitam. Por outro lado, os chefes locais tornam-se os beneficiários preferenciais quando se trata de outorgas de concessões na área da radiodifusão. Fica caracterizada a perpetuação de grupos de poder com alta capilaridade política. Os expedientes governamentais das comunicações são usados como “moeda de troca”. Na atualidade, os “coronéis” não são propriamente os grandes produtores rurais, mas os beneficiários/proprietários das empresas de comunicação de massa.

Coronelismo eletrônico evangélico

E quando os controladores das mídias dentro dessa lógica são grupos religiosos, especificamente evangélicos? Fica configurado o que conceituamos como coronelismo eletrônico evangélico. Grupos que dispõem do poder de comunicação midiática e que avançam na conquista, expansão, dos seus interesses religiosos, econômicos e políticos. Tais grupos podem ser igrejas que adquirem concessões do Estado de radiodifusão e resolvem diversificar suas atividades. Mas, pode ser também no sentido inverso: grupos de comunicação ou empresariais que diversificam seus investimentos e organizam instituições eclesiásticas.

Os vícios inerentes aos mecanismos de outorgas de radiodifusão operados por instituições estatais remetem à noção de clientelismo. A propósito, o clientelismo é um dos principais pilares do coronelismo. No período da redemocratização brasileira, após a ditadura militar, esses vícios de origem não recrudesceram. As concessões continuaram a ser usadas como moeda de troca, em que estruturas estatais continuaram a distribuir benefícios para os aliados. Tratando-se do ramo das comunicações, tal monopólio representava também tentativas de silenciamento dos opositores.

A cultura política brasileira é caracterizada tradicionalmente como oligárquica, clientelista e patrimonialista. O processo estatal de outorga de concessões de rádio e televisão durante a redemocratização não deixou de expressar essas características autoritárias do coronelismo.

A representação política evangélica passa decisivamente pelas instituições das redes de comunicação. Desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88, o fenômeno do coronelismo eletrônico evangélico ocorre de forma contínua e crescente. Neste sentido, existe uma coesão pragmática entre diferentes grupos evangélicos que buscam, via consolidação de representações políticas, afirmação de redes de comunicação.

Estruturas são criadas e ampliadas caracterizando o coronelismo eletrônico evangélico como redes de comunicação que dispõem dos poderes simbólicos, econômicos e políticos. A expansão desses grupos ocorre em consonância e instrumentalização de setores estatais ávidos por reeditar o que Victor Nunes Leal chamou de mandonismo local. Determinados setores estatais utilizam recursos públicos para fidelizar lideranças locais que podem recompensar os favores com votos nas eleições e sustentação política popular no exercício do governo.

 

Referência bibliográfica

FIGUEREDO FILHO, Valdemar. Coronelismo eletrônico evangélico. Rio de Janeiro: Publit, 2010.

FIGUEREDO FILHO, Valdemar (2023). Representação política evangélica: Rádios FM´s nas capitais brasileiras. Projeto História: Revista Do Programa De Estudos Pós-Graduados De História, 76, 118–146. Disponível em: https://doi.org/10.23925/2176-2767.2023v76p118-146. Acesso em: 03/06/2024

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1975.

SANTOS, Suzy; CAPPARELLI, Sérgio. Coronelismo, radiodifusão e voto: a nova face de um velho conceito. In: BRITTOS, Valério Cruz; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira (org.). Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. São Paulo: Paulus, 2005. p. 77-101.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Sobre guerra híbrida, política, fake news, manipulação e cristianismo protestante, por Luciano Vasconcelos Jr, graduado em História e mestre em educação pela UFPE.

 



 "Analisando a partir daí a campanha presidencial do Brasil de 2018, observamos uma forte presença de elementos da guerra híbrida. A começar pelo fato de que, na campanha do atual presidente Jair Bolsonaro, houve uma atuação do marqueteiro da campanha do presidente dos EUA Donald Trump, o Steve Bannon, hoje condenado pela justiça estadunidense. A tática utilizada pelo Bannon era a da desinformação. Nutrir as redes de fake news ou de notícias que desviavam o foco do que realmente importava se discutir."

Texto de Luciano Vasconcelos Jr, extraído do site Justificando:




Sobre guerra híbrida, política e cristianismo protestante

Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Luciano Vasconcelos Jr

 

Em tempos de grande avanço no campo da tecnologia, as formas como se fazem guerras também sofrem alterações.

 

Hoje, governos que desejam desestabilizar seus rivais não podem simplesmente sair tacando bomba. Assim, em sua sanha imperialista, desenvolveram a tática da guerra híbrida, que o Andrew Korybko chama também de “revoluções coloridas”.

 

A guerra híbrida consiste em criar condições para geração de instabilidade e/ou caos em alvos periféricos, porém próximos dos que se desejam atingir. Dessa forma, financiam grupos que irão atuar na forma de protestos, teoricamente “apartidários” e com bandeiras que agregam sentimentos comuns à população, como a luta contra “ditaduras” e/ou o desejo por mais liberdades individuais, como ocorreu com a primavera árabe, ou o combate à corrupção, como ocorreu com o Brasil entre 2013 e 2018.

 

Outro exemplo disso é o que terminou desembocando na Guerra Civil Líbia em 2011, quando revoltosos foram para as ruas e iniciaram uma onda de protestos populares contra a ditadura de Muammar al-Gaddafi, com reivindicações sociais e políticas.

 

À época a Líbia tinha o maior PIB da África e estava encaminhando alianças com China e Rússia, calos nos sapatos dos EUA.

 

Grupos da OTAN deram apoio aos populares contra Gaddafi.

 

No desenvolvimento das guerras híbridas, todos os fatores que possam gerar desestabilização social são levados em consideração. 

 

E a melhor forma de obtenção dos resultados é levar o conflito para fatores periféricos. Inclusive quanto mais periféricos o forem, melhor.

 

Analisando a partir daí a campanha presidencial do Brasil de 2018, observamos uma forte presença de elementos da guerra híbrida. A começar pelo fato de que, na campanha do atual presidente Jair Bolsonaro, houve uma atuação do marqueteiro da campanha do presidente dos EUA Donald Trump, o Steve Bannon, hoje condenado pela justiça estadunidense.

 

A tática utilizada pelo Bannon era a da desinformação. Nutrir as redes de fake news ou de notícias que desviavam o foco do que realmente importava se discutir. Vimos o ódio aos imigrantes ser apresentado como proteção aos norte-americanos, por exemplo.

 

Aqui no Brasil, o foco da campanha foi direcionado para a criminalização da política, quando se evidenciou no discurso de muitos políticos a ideia de combate à chamada política tradicional ou “velha política”; para a moralidade e para o combate à corrupção. Não que isso não seja importante, porém, consideramos que não era e nunca foi o mais importante a se discutir no Brasil.

 

Em estados democráticos de direito e laicos, moralidade, principalmente a religiosa, não são e nem devem ser o foco principal das discussões políticas. Tampouco são ou deveriam ser programas de governo de quaisquer políticos.

 

Entretanto, dada a enxurrada de campanhas de criminalização da política, principalmente a que foi realizada por integrantes da Operação Lava Jato, que hoje sabemos que foi direcionada com muito mais ênfase a um dos lados do espectro político (esquerda), criou-se no imaginário popular a ideia de que a política não serve, hoje evidenciada também pelos altos índices de abstenções em pleitos eleitorais, e que para resolver os graves problemas sociais do país, bastava apenas eleger um candidato “honesto, íntegro e não corrupto”, que tudo se resolveria.

 

Assim, o discurso do à época deputado Jair Bolsonaro, que se apresentou como um candidato que iria combater a velha política, zelar pela moral cristã e pela família, bem como combater a corrupção, canalizou uma grande quantidade de votos. Bolsonaro foi apresentado como um outsider, mesmo estando envolvido com os grupos mais tradicionais da velha política que ele afirmava que iria combater. Passou 11 anos filiado ao PP, partido considerado o mais corrupto do país e que tinha como um de seus líderes o condenado por corrupção Paulo Maluf.

Porém, um dos fatores que considero mais grave nesse processo, é o fato de que Bolsonaro canalizou uma grande quantidade de votos dos chamados cristãos, apesar de seu discurso de defesa de golpe estado, apoio à tortura e a um torturador, armamento da população, e de minimização de direitos humanos.

 

Setores conservadores do cristianismo, principalmente o de igrejas com tradição de defesa de padrões morais de conduta pessoal (como as Assembleias de Deus, por exemplo), e de denominações com histórico de apoio à ditadura brasileira (como a Igreja Presbiteriana, por exemplo), viram no discurso de Bolsonaro, a possibilidade de combate contra o maior de todos os inimigos: o “comunismo”. 

 

Embora a maior base de apoio “cristão” tenha vindo de grupos neopentecostais e pentecostais, que possuem maior acesso às camadas mais populares, grupos advindos de igrejas protestantes históricas (Batista, presbiteriana, anglicana e luterana) passaram a dar grande apoio ao Bolsonaro.

 

Assim, partidos de esquerda foram rotulados nas congregações como os piores inimigos a serem combatidos. Aqui em Recife, sendo cristão anglicano mas com grande trânsito em demais denominações protestantes históricas e pentecostais, cansamos de visitar igrejas, onde pastores faziam propagandas abertas pedindo votos para o Bolsonaro e chamando os progressistas de libertinos, defensores do aborto e da “homossexualização” da sociedade.

 

Retirando assim o foco da pregação do evangelho para combate às mazelas e desigualdades da sociedade, da “proteção do pobre, do órfão e das viúvas” e jogando o foco para o combate a uma imaginária e fictícia “doutrinação comunista” nas escolas, que, segundo esses mesmos líderes religiosos, estariam introduzindo livros que ensinavam as crianças a se transformarem em libertinos e/ou em homossexuais. O chamados Kits gay, que, como professor de redes públicas de ensino, nunca vi chegar para as bibliotecas das escolas mais quais trabalhamos.

 

Esse discurso moralista e moralizante ganhou a defesa de muitos líderes cristãos protestantes. também nas redes sociais. Pastores de viés progressista passaram a ser duramente acusados de comunistas e, ao se tratar o comunismo como uma ideologia atéia e anti-cristã, passaram a ser rotulados de hereges. Muitos líderes passaram a fazer uma defesa aberta e escancarada do candidato Bolsonaro antes das eleições, dentre os quais podemos apontar o que, talvez, fosse a ainda o é, seu mais fervoroso defensor: Silas Malafaia.

 

Vale enfatizar aqui que a crítica nesse artigo vai para o Bolsonaro, por ter sido ele o canalizador do apoio desses grupos, mas poderia ser direcionada a qualquer outro que estivesse sido escolhido nas mesmas condições. E que essa escolha fala muito mais sobre como se encontra o pensamento desses líderes e grupos cristãos protestantes do que do atual mandatário da presidência do Brasil.

 

Pastores publicaram em suas redes sociais textos, com trechos bíblicos e argumentação teológica, inclusive, defendendo o voto no Jair Bolsonaro. Relativizando inclusive as falas do mesmo sobre ser favorável à tortura e sobre outras práticas que os evangelhos, por meio das falas do Cristo ou pela escrita dos apóstolos, condenam. 

 

Muitas das vezes, bastava-se um texto defendendo questões como justiça social, combate ao racismo e proteção maior às mulheres, para que fosse realizado nas redes sociais o linchamento dos pastores que levantavam essas bandeiras. E se fosse condenando homofobia, o linchamento era ainda maior.

 

Antonio Carlos Costa, pastor com um trabalho social muito ativo por meio da ONG Rio de Paz, e por meio de incursões no interior do Nordeste brasileiro, foi um desses que vivenciou forte linchamento nas redes sociais e foi violentamente acusado de ser comunista.

 

Recentemente, o pastor Ed Renê Kivtiz, da Igreja Batista Água Branca, teve uma de suas mensagens (Cartas vivas contra letras mortas, pregada em 25 de outubro) desvirtuada do sentido que utilizou ao pregá-la e, ao falar sobre a necessidade de contextualização da mensagem dos evangelhos para a sociedade atual, clamando por combate a racismo, machismo e homofobia, foi duramente condenado de herege e de comunista. 

 

Assim, me parece que, se utilizando de uma pauta periférica (moralidade), o meio protestante é um dos setores da sociedade do Brasil que tem servido para utilização de práticas de guerra híbrida para tirar do foco do que realmente importa (justiça social, igualdade entre as pessoas, antirracismo, fim das desigualdades sociais) e gerar conflitos periféricos que impedem (mesmo que momentaneamente) de mirar nesses alvos.

 

Segmentos e líderes de igrejas protestantes históricas adotaram o bolsonarismo, atacando o periférico, mirando na moralidade, e usando isso como forma de segregação dos diferentes, que por não seguirem essa cartilha que adotaram, ganham status de inimigos do cristianismo, e por tabela, inimigos do Brasil. Apontam para o desenvolvimento de uma espécie de cristofascismo ou necrocalvinismo, que não apenas se distancia dos ensinamentos dos Evangelhos de Cristo, mas contribui para uma divisão entre os adeptos da própria fé cristã.

 

Vale a pena ligar o alerta. Deve-se organizar o combate.

 

 

Luciano Vasconcelos Jr é graduado em História e mestre em educação pela UFPE. Cristão anglicano e professor das redes municipais de Recife e Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Professor


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A "cristã" bolsonarista Damares pede aliança na ONU contra gays, feministas e imigrantes que “ameaçam” a “família tradicional”




Contra a corrente dos que lutam por salvar o Planeta na própria ONU, Conservadores e neofundametalistas cristãos  discutem na Cúpula da Demografia  os planos para "resgatar os valores tradicionais"



Jornal GGN O “Ocidente” está em perigo: corre o risco de ver seu perfil “branco” e “cristão” se dissolver em meio à onda migratória. E a solução é incentivar as famílias (leia-se: a união entre homem e mulher) a resgatar os “valores tradicionais”, respeitar as “leis de Deus” e gerar mais filhos, três ou quatro, pelo menos. É isso o que Damares Alves e outros líderes mundiais foram pregar na ONU, no início de setembro.
O jornalista Jamil Chade revelou no UOL deste sábado (21) o resulto de mais de 30 intervenções que ele assistiu durante a Cúpula da Demografia da ONU. Foi lá que a ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos de Bolsonaro convocou uma aliança internacional para “resgatar os valores tradicionais” e tratar homossexuais, feministas e imigrantes como “ameaças” à família branca e cristã.
Segundo Chade, o “mantra” da Cúpula era “sem famílias não há nação nem identidade”, e um dos palestrantes dos dois dias de Cúpula chegou a questionar se a mulher deve ter o direito de definir quantos filhos uma família vai ter.
Outro defendeu que a mídia deve ser usada como veículo propagador do modelo ideal de família: homem, mulher, filhos. Não importa se isso será considerado “politicamente incorreto”.
Viktor Orbán, o líder ultraconservador da Hungria, defendeu expressamente que a Europa precisa gerar mais europeus no futuro, caso contrário haverá misturas e os “europeus serão substituídos por outros.” Ele defendeu mudar constituições para definir que família é homem e mulher, e proibir que cortes judiciais tomem decisões em sentido contrário.
Da parte dos Estados Unidos, os representantes criticaram resoluções de saúde da ONU que defendem os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, bem como educação sexual. Há países que culpam isso pela redução das famílias. A revolução sexual e o empoderamento das mulheres “enfraqueceu” a instituição casamento e comprometeu a geração de europeus para fazer frente à chegada dos imigrantes.
De acordo com Chade, ao final do evento, Damares afirmou que o Brasil sob Bolsonaro está disposto a liderar um bloco “pró-família” para tirar todos os planos conservadores do papel.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Procuradora Eugenia Gonzaga x pastora Damares, ou a civilização x a selvageria, por Luis Nassif




É um confronto curioso, entre o país selvagem que emergiu das passeatas e do fundamentalismo, e o país institucional, que teima em resistir.



GGN.- Ontem, cinco entidades – Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), o Instituto Vladimir Herzog, a Comissão Arns e o Instituto Ethos – enviaram ofício à ONU denunciando “visíveis retrocessos” nas políticas públicas brasileiras sobre o tema. A peça de resistência foi o relatório final da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) na gestão da antiga presidente Eugênia Gonzaga, exonerada por Jair Bolsonaro.
Eugênia conseguiu que se desse início à retificação dos atestados de óbitos dos desaparecidos. Em vez de suicídio, desaparecimento e outras desculpas, o reconhecimento de ter sido assassinado pelo Estado brasileiro.
As famílias foram orientadas sobre como proceder, para obter as retificações perante cartórios. Damares, agora, acusa Eugênia de ter praticado “advocacia administrativa”, por ter oferecido os meios necessários ao requerimento das famílias – uma declaração de óbito, com base na Comissão Nacional da Verdade e um formulário para a família assinar -, um argumento duplamente estapafúrdio, porque esse tipo de pedido aos cartórios não á ato privativo de advogado.
No final do ano passado, houve um encontro inesquecível em Brasilia, onde, pela primeira vez, os familiares de mortos e desaparecidos políticos receberam desculpas formais de um órgão do Estado brasileiro.
Segundo o depoimento de Lygia Jobim, filha do embaixador José Jobim, assassinado na ditadura por ter provas sobre a corrupção ocorrida na construção da Hidrelétrica  de Itaipu:
Sem o trabalho dos que a constituem, sob a presidência da incansável guerreira Dra. Eugênia Augusta Gonzaga, não só este encontro não teria sido realizado como não teríamos tido o reconhecimento dos restos mortais de mais um desaparecido político nem o primeiro caso de retificação de um atestado de óbito, que foi o de meu pai, José Jobim.
No primeiro dia do Encontro recebi, através da Dra. Eugênia, não só a  certidão de óbito atestando que o falecimento se deu “em razão de morte não natural, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição generalizada e sistemática á população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”, mas também, em nome do Estado brasileiro, um pedido formal de desculpas.
São reparações morais a que todos temos direito
Damares pretende criminalizar os gastos de R$ 216 mil, com transporte e hospedagem das famílias.
É um confronto curioso, entre o país selvagem que emergiu das passeatas e do fundamentalismo, e o país institucional, que teima em resistir.
Damares fez carreira como pastora, enganando fieis com falsificações sobre zoofilia, pedofilia. Chegou a Ministra pelas relações familiares com parlamentares de duvidosa reputação. Explicou que os sermões que fazia, com seus temas absurdos, eram para um tipo específico de plateia, admitindo a manipulação dos fatos para impressionar fieis iletrados. É a mais explícita representante do país que emergiu com Bolsonaro.
Eugênia assumiu há anos o tema dos desaparecidos por exclusiva solidariedade com as famílias – que jamais deixaram de lutar pelo direito de saber o que ocorreu com seus familiares desaparecidos na ditadura. Não tinha formação política, se considerava uma desinformada sobre a história do período. O que a movia era exclusivamente a solidariedade com as famílias e o respeito absoluto pela Constituição. E sua recompensa maior era o reconhecimento interno do trabalho realizado.
Na comemoração dos 25 anos da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, a PGR Raquel Dodge relembrou dois dos maiores feitos da PFDC: a inclusão de crianças com deficiência na rede escolar e a defesa da justiça de transição, ambas com participação essencial de Eugenia.
O que esse pessoal nunca entenderá é o que move pessoas como Eugenia a ponto de trabalhar sem remuneração para a Comissão, sem se licenciar do MPF, portanto acumulando trabalho, muitas vezes tirando dinheiro do próprio bolso para cobrir despesas imprevistas.
Tudo isso para receber a recompensa de um sorriso de agradecimento de um familiar, testemunhar o conforto de uma família por poder ter um túmulo para velar o parente assassinado. E a sensação de, como servidora pública, ter cumprido com suas obrigações.
Nesse  Brasil selvagem e argentário das últimas décadas, há exemplos de pessoas que resistem, se movendo por princípios e pelo reconhecimento. E isso é uma ofensa indesculpável para a turma de Damares, por expor, mais ainda, sua pequenez de alma.

O GGN prepara uma série de vídeos explicando a interferência dos EUA na Lava Jato. Quer apoiar esse projeto? Acesse www.catarse.me/LavaJatoLadoB e saiba mais.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Notas Sobre a Teocracia: o perigo do Capitol Ministries, por Alessandra Impalea




Historicamente percebe-se que regimes teocráticos agem por práticas de persuasão que vão de dialógicas (o valor político-religioso do discurso, ou a "orientação política-religiosa") até a dominação pela força física, com a violência psicológica, moral e emocional.


Notas Sobre a Teocracia: o perigo do Capital Ministries

por Alessandra Impalea

EXTREMAMENTE DANOSAS E IRREVERSÍVEIS, as ações de regimes teocráticos se baseiam em princípios e condutas de ordens religiosas (imateriais e simbólicas), em certa dissonância com fatos que constituem o cotidiano  comum na sociedade global. A teocracia e o teocentrismo é um regime e movimento político religioso que coloca Deus como centro de todos os tipos de orientações e ações humanas. No Ocidente a Teocracia consolidou -se com os processos armados para a conversão ao cristianismo romano do Ocidente desde a Antiguidade católico-romana, no período conhecido como Idade das Trevas (era medieval), onde ocorrem as “cruzadas”, guerras santas promovidas pela Igreja Católica Romana.

Mas a Teocracia antes de tudo, constitui estruturas estruturantes doutrinadoras, que conduzem de imediato à perda da liberdade de expressão individual e coletiva, e logo a perda de direitos individuais, civís e sociais.

Historicamente percebe-se que regimes teocráticos agem por práticas de persuasão que vão de dialógicas (o valor político-religioso do discurso, ou a “orientação política-religiosa”) até a dominação pela força física, com a violência psicológica, moral e emocional.
Tais práticas hoje compõem a categoria dos crimes contra a humanidade, pois hitoricamente exterminaram populações inteiras tentando impôr a ordem através de normas e condutas sob sistemas de doutrinas de discursos e regras religiosas (imateriais, simbólicas e não realistas).
Hoje a estratégia de dominação teocrática, para implantação de governos fundamentalistas religiosos (principalmente evangélicos) está sutilmente se articulando e ascendendo, em boa parte dos partidos da direita ultraliberal dos países que constituem o G7.
Mas as estrategias de persuasão e de dominação graduais mas violentas  atentam contra a segurança e a integridade humana, e contra a garantia da liberdade individual e coletiva.
Regimes teocráticos tendem a se tornar, em curto prazo, radicais e fundamentalistas: seus princípios e condutas doutrinadores  objetivam o controle e a  delimitação  irracional do pensamento e das ações dos indivíduos. Este controle irracional baseado em ordens e autoridades imateriais incorre em:
1) processos de estagnação filosófica e sociológica;  censura científica, tecnológica, política e socio-econômica (à médio e longo prazo);
2)  negação da realidade e confrontos internos de todas as ordens, pois abomina e refuta a realidade histórica como constructo sócio-cultural dinâmico e transformador, por natureza.
IMPALEA, Ale.
18/08/2019
NOTA referente à reportagem “Os pastores de Trump chegam à Brasília de Bolsonaro”, de apublica.org, com alguns destaques:
Evangélicos da Capitol Ministries de Trump se aliam à Bolsonaro. A Capitol Ministries (Ministério do Capitólio, símbolo do Congresso americano) foi fundada pelo ex-jogador de basquete Ralph Drollinger em 1996, que evangiliza a política como evangelizou atletas.
Ele converte políticos e servidores públicos à visão “cristã evangélica” da política, aliada à visão da ultradireita americana: “Sem isso é difícil chegar a políticas que satisfaçam a Deus e à nação”. Suas pregações têm efeito prático no governo, que reconhece ter sido eleito graças ao voto evangélico.
➡️Drollinger usa a Bíblia pra justificar todas as ações de Trump: construir o muro na fronteira do México e rejeitar imigrantes equivale ao princípio cristão da compaixão: “No Gênesis 11, as nações, pelos desígnios de Deus, devem ter diferentes línguas, culturas e fronteiras”.
➡️Até 2010 seu público eram deputados estaduais. Mas qdo funda o 1o. ciclo de estudos bíblicos em Washington no Congresso americano em 2017, Drollinger entra na política mundial, com o 1o. grupo bíblico dedicado ao governo Trump.
O encontro semanal, em local não revelado, reúne 10 membros do alto escalão do governo, incluindo o vice-presidente (Mike Pence) e o secretário de Estado (Mike Pompeo), que dirige a política externa. CONTINUE LENDO: https://apublica.org/2019/08/os-pastores-de-trump-chegam-a-brasilia-de-bolsonaro/#.XVilQdCUoeE.whatsapp

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Sobre o retrocesso intelectual e avanço dos fundamentalismos religiosos e políticos no mundo de hoje




O extremismo, que hoje choca, foi praticado naturalmente durante séculos. Foi o advento da Razão que obrigou religiosos de viés fundamentalista a suavizarem suas práticas, mas o extremismo também se encontra na política...

Texto de Almir Albuquerque, publicado no site Panorâmica Social


Sobre os fundamentalismos religiosos de hoje no mundo


Em julho de 2011, Anders Behring Breivik (imagem acima fazendo a saudação nazista no seu julgamento), um ativista norueguês da extrema-direita, considerado “fundamentalista” cristão, provocou a morte de 76 pessoas, e feriu quase 100 em dois atentados naquele país. Muito se enfatizou o aspeto extremista de seu manifesto religioso e de sua conduta, como se fosse um lunático ou alguém que tivesse praticado um ato contrário ao que pregam as religiões.

Quero chamar a atenção para para um detalhe importante: quando acontece um caso como esse, é comum a mídia em geral tratar os religiosos que o praticam como fundamentalistas, seja um solitário católico como Breivik ou um grupo islâmico, por serem uma parcela menor com métodos questionáveis dentro de determinada religião, que seria, no seu âmago, boa, pura e inocente. Mas eu vejo de modo um pouco diferente. Na verdade, chamamos de fundamentalistas aqueles que praticam a religião ortodoxamenterigidamentefielmente, e, portanto, são os autêntico religiosos. Explico adiante.

Fundamentalistas, na verdade, são religiosos legítimos

fundamentalista religioso (fundamentalismo: "doutrina que defende a fidelidade absoluta à interpretação literal dos textos religiosos") na realidade, é o verdadeiro religioso, porque não cria nenhum juízo de valor sobre as consequências dos seu atos, ele acredita na veracidade incontestável de sua fé e de seus textos sagrados, que, para ele, são atemporais, devem ser livres de interpretaçõessubjetivasmoderações e suavizações. Ao contrário do que se diz, é ele que pratica a ortodoxia da sua religião, ou seja, segue os dogmas corretamente. Portanto, se o livro sagrado que ele cultua afirma que o seu deus é o único e verdadeiro e que todos os outros religiosos de outras fés são perigosos, infiéis, que devem ser convertidos ou combatidos, então ele o faz da melhor forma que lhe convir. Antes se fazia Jihads e Cruzadas, hoje atentados à bomba ou genocídio.

Os que se dizem religiosos, mas não são “fundamentalistas”, e que até os condenam, na verdade são, estes sim, heterodoxos, religiosos por conveniência ou religiosos de ocasião, por medo, comodismo, vontade de estabelecer aprovação social, salvação pelo menor esforço, ou outra situação qualquer. E acham que estão fazendo muito bem. No entanto, não estão seguindo fielmente as determinações de deus e de sua religião como deveriam. Felizmente, para o resto de nós, (os não-religiosos, religiosos de outras denominações, agnósticos ou deístas), enquanto cidadãos de um Estado laico (pelo menos no papel), religiosos fajutos não-praticantes ou suavizados deste tipo são cada vez mais comuns e bem-vindos.


Religiosos moderados optaram por fé sem sacrifícios

Fundamentalistas são os verdadeiros religiosos, tentando corrigir os desvios que suas religiões foram obrigadas a fazer nas Eras Moderna e Contemporânea – na verdade, suavizações e relativizações de interpretação – por causa do advento da ciência e da Razão, especialmente a partir do século XVIII.

Buscam seguir fielmente todos os males e irracionalidades que suas religiões determinam historicamente desde uma época de ignorância, como passar fome em jejuns, abstinências sexuais antes de dias sagrados, não usar eletricidade nos sábados e etc. porque "assim determinou deus".

A religião, realmente, só faz sentido se levada ao pé da letra, como mandamentosvindos direto de deus, como é a doutrina das religiões monoteístas. Senão, pra que segui-la? Esse é o dilema dos religiosos moderados. Os fundamentalistas decidiram fazer uma escolha corajosa: manter a fé e abandonar a Razão. Os religiosos moderados resolveram optar pela solução mais cômoda: manter a fé sem abrir mão de uma suposta racionalidade mandrake, embora pra isso precisem fazer diversos malabarismos mentais para conciliar as duas situações. Mas isso não faz sentido. Quem modera a palavra de deus não a está seguindo corretamente, e, caso estejam certos sobre a vida após a morte, talvez tenham problemas na hora do julgamento celestial…


Caminhando para o ateísmo no futuro

A religião só é tolerada em nosso meio, em pleno século XXI, porque, felizmente, em diversos países a população mundial se encontra no estágio intermediárioentre seguir as religiões ao pé da letra como Anders Behring Breivik abandoná-las completamente como algo ultrapassado, como os ateus. Neste ínterim, não seguem mais as doutrinas religiosas com muito afinco — o que pode não ser muito bom para eles na hora de prestar contas com o todo-poderoso um dia, mas é ótimo para a sociedade de modo geral —, mas não são ainda absolutamente capazes de se livrar por completo dela. Claro que em alguns locais, muitos cidadãos estão ainda vivendo plenamente a era fundamentalista, como os países islâmicos, os Estados Unidos e o Brasil, enquanto outros parecem já ter abandonado de vez as crenças religiosas, como nos países do norte da Europa.

Mas o fato é que apesar disso, a maioria das pessoas se encontra no no meio do caminho para o abandono total desses dogmas medievais no futuro breve. Porque, no mundo de hoje, se todo mundo fosse tão fiel à sua fé quanto o atirador que matou dezenas de pessoas na Noruega ou os terroristas do Estado Islâmico, ou o mundo já teria acabado, ou quem teria acabado de vez era a religião, proibida como algo ultrajante em plena era do conhecimento.