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segunda-feira, 4 de maio de 2026

A terra queimada pelos Senadores no caso da redução da dosimetria para criminosos e golpistas bolsonaristas não é uma política, mas a ausência dela. Por José Sócrates, ex-Primeiro Ministro de Portugal


Não estou a ver o povo brasileiro aplaudir os senadores que fazem votações de puro revanchismo político


A terra queimada não é uma política, mas a ausência dela


José Sócrates

Primeiro-ministro de Portugal, de 2005 até 2011







Podemos criticar a motivação, mas não a legitimidade. Podemos apontar, e com justiça, as maléficas consequências institucionais da decisão. Mas não podemos pôr em causa a legalidade do ato. Ninguém é dono dos votos dos senadores, a não ser eles próprios — que respondem apenas perante o povo, não perante outra qualquer instituição. É a isso que chamamos soberania popular — a decisão foi política e o debate deve continuar na política. Para quem está viciado em apelos judiciários sempre que perde (como se perder e ganhar não fizesse parte do jogo democrático), faz sentido lembrar o dito espirituoso do ministro Barroso: perdeu, mané.

E quem perde, em democracia, tenta de novo. Talvez como nenhum outro político, o presidente Lula da Silva sabe exatamente do que estou a falar: perdeu três vezes e três vezes se levantou — para ganhar à quarta vez, em 2002. Foi este percurso (ao qual se somaram a prisão e a terceira vitória) que fez dele um protagonista político singular — só é derrotado quem desiste de lutar.

E para aqueles que veem nesta votação uma derrota presidencial, eu peço que não se precipitem. Não estou a ver o povo brasileiro aplaudir os senadores que fazem votações de puro revanchismo político, esquecendo os superiores interesses institucionais do país. No meu ponto de vista, o que aconteceu foi feio demais, mas, seja como for, tenha quem tiver razão, o problema é político e deve ser resolvido na arena da política, não nos tribunais.  É ao povo que compete dizer quem andou bem e quem andou mal, e só saberemos a opinião do povo em breve, nas eleições. Portanto, muita calma nessa hora (ou, como dizem por aí com muita graça, muita hora nessa calma) — quanto a quem perde e a quem ganha, estamos ainda para ver.

Sem prejuízo de melhor análise, julgo que o presidente, como democrata que sempre foi, vai respeitar a decisão do Senado e fazer outra escolha que sujeitará, de novo, à aprovação do Senado. E aí se verá a verdadeira intenção dos senadores: avaliar o currículo do indicado ou retirar o poder constitucional do presidente de indicar os ministros do STF? Cumprir o rito constitucional ou “incendiar o botequim”? Na verdade, a mesma situação aconteceu nos Estados Unidos (com Obama em fim de mandato e o Congresso com maioria republicana) e teve consequências nocivas para os dois partidos — no final, ninguém ganhou, mas a democracia americana, que vive destes rituais, saiu a perder.

Não acredito que o presidente do Senado não agende nova sabatina com novo candidato — aí estaria a ultrapassar os seus poderes e a limitar os dos outros. Portanto, calma. Antecipar a campanha eleitoral com uma disputa de competências entre o presidente e o Senado não me parece ser um comportamento inteligente para os segundos, os senadores da oposição. Seria mau para a democracia brasileira, é certo, mas seria muito pior para a direita brasileira, que escolheria assim, abertamente, a política de terra queimada. Não conheço povo algum que aprecie comportamentos sectários — não deixar governar ninguém, nem eu nem ele, que ganhou limpamente as eleições para presidente da República. Portanto, calma. Muita calma. Ainda é cedo para dizer quem ganhou.

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Programa O Espírito da Coisa, em vídeo, com o tema Espiritismo, o pensamento socialista e o antifascismo.

 

Do Canal da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita:

Dora Incontri e Sergio Mauricio entrevistam Alessandro César Bigheto e Marcio Salles Saraiva - ambos coautores do livro Espiritismo, Sociedade e Política - Projetos de Transformação. No livro, estão representados diversos matizes de pensamento espírita à esquerda, todos buscando inspiração em Kardec e em diálogo com correntes socialistas e anarquistas.


Conheçam o site Espíritas à Esquerda - http://espiritasaesquerda.com.br/ O link para a pré-venda do livro - https://editoracomenius.com.br/produc... Siga a ABPE no instagram: https://www.instagram.com/pedagogia_e...

Luis Nassif: É hora de se passar as Forças Armadas a limpo, se se pretende um país moderno e de fato democrático

 

Do Jornal GGN:


É hora de profissionalizar as Forças Armadas, por Luís Nassif

José Cruz – Agência Brasil

Não há nada mais pusilânime, no jornalismo atual, que reportagens com menções a supostas ameaças de militares ao avanço das investigações sobre a tentativa de golpe das Forças Armadas. Que as FFAAs se sintam humilhadas pelo comportamento dos seus, aceita-se. Que porta-vozes afirmem (sempre em off) que não defenderão os subversivos, é meritório. Mas a ênfase de que o avanço das investigações poderá levar a uma perda de controle dos escalões inferiores, é sabujice, é uma suposição que humilha o próprio conceito de disciplina das FFAAs.

É hora de se passar as FFAAs a limpo, se se pretende um país moderno e democrático. Em 2014, a Academia Militar de Agulhas Negras, que supostamente deveria formar a elite militar, recebeu o capitão Jair Bolsonaro para um comício. Foi um dos episódios mais humilhantes da história das FFAAs, com as AMAN dirigida pelo atual comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva.

Nem se o condene o general Tomaz por seu passado. Antes de se converter em baluarte da democracia, o Marechal Henrique Duffles Teixeira Lott aderiu ao golpe que derrubou Vargas, nos anos 40, e foi premiado com o cargo de adido militar nos Estados Unidos. Então, é bem possível que, ante os novos ventos, o general Tomás Miguel Ribeiro Paiva seja uma âncora legalista.

De qualquer modo, o episódio de 2014, mais o envolvimento dos militares com o governo miliciano de Jair Bolsonaro, mostram uma profunda degradação das FFAAs. Mais que isso, o comportamento dos militares comprova que o currículo da AMAN não serve para formar bons cidadãos e, muito menos, bons militares.

Não se ouve falar mais em Plano Nacional de Defesa. No setor tecnologicamente mais relevante das FFAAs – o da energia e do submarino nuclear – os três almirantes responsáveis tiveram comportamento deplorável. O Ministro das Minas e Energia permitiu a negociata da Eletrobras, vulnerabilizando um setor estratégico para o país; o comandante da Marinha recusou-se a entregar o cargo na presença do presidente eleito; e o segundo homem do setor declarou que não trabalharia com um “ladrão”. Está trabalhando. Sem contar o vexame dos tanques de 7 de setembro.

Como pode uma força que se pretende profissional permitir abusos dessa ordem? Agora, à medida em que a Polícia Federal avança nas investigações sobre o dia 8 de janeiro, manchetes de jornais assustados tentam recriar o fantasma militar.

A chamada não coloca em dúvida apenas a democracia brasileira, mas o próprio conceito de hierarquia, base de todas FFAAs. O temor é de uma reação dos escalões inferiores a esse avanço da PF. Como assim? Não existe alto comando? Estão colocando em dúvida o poder do alto comando? O alto comando se curvaria à ameaça de escalões inferiores. Aí não seriam mais FFAAs, mas milícias. Tomara que a fonte da reportagem seja imaginária, ou ninguém do alto comando. Se for, o país está perdido.

No período Bolsonaro, as FFAAs abriram mão da prerrogativa da força. Permitiram a entrada indiscriminada de armas sem registro. Permitiram que os Clubes Militares se transformassem em centros de conspiração. Toleraram toda sorte de abusos, interferências políticas. Não reprimiriam os negócios obscuros feitos por trás de fardas e patentes.

Agora, entra-se na fase mais decisiva, que determinará se o país poderá contar com Forças Armadas profissionais ou se continuarão sendo tratadas como o “partido da boquinha” ou do golpismo.

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Polícia Federal encontra provas de que ex-auxiliares diretos de (os militares Ailton Barros e Mauro Cid) planejaram golpe

 

Ailton Barros, preso ontem, chegou a sugerir a prisão de Alexandre de Morais a Mauro Cid para evitar posse de Lula.

Ex-major do Exército, Ailton Barros é aliado de Jair Bolsonaro

Ex-major do Exército, Ailton Barros se considera 01 de Bolsonaro. Crédito: Reprodução das redes sociais

Jornal GGN. - Em desdobramento da operação que prendeu o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) enquanto presidente, Mauro Cid, a Polícia Federal agora encontrou mensagens de cunho golpista no celular do 01 do ex-presidente, em que o ex-major do Exército Ailton Barros cobra ações para evitar a posse do Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 1º de janeiro.

“Temos a força e a caneta”, disse o Barros a Cid. O ex-major também pressionou o comandante do Exército Freire Gomes, “para que ele faça o que tem de fazer” e fizesse um pronunciamento, pois “aí tudo vai ser dentro das quatro linhas”.

As mensagens demonstram que, mais que a certeza da impunidade, por manter mensagens de cunho golpista no celular, os aliados próximos de Bolsonaro cultivaram ainda uma sensação de que o Exército teria poder superior ao Estado Democrático Brasileiro. Caso Gomes não apoiasse publicamente as aspirações golpistas, então, Bolsonaro é quem “deveria levantar a moral da tropa, que está abalada em todo o Brasil”, na avaliação de Ailton Barros.

Prisão de Moraes


Mais que o envolvimento do Exército em uma ação de golpe de Estado, Barros chegou a, inclusive, sugerir a prisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, para tomar o poder “se preciso, fora das quatro linhas”.

“Nos decretos e nas portarias assinadas, tem que ser dada a missão de prender o Alexande de Moraes no dominfo, na casa dele, como ele faz com todo mundo. Na segunda-feira, assinar os decretos de Garantia da Lei e da Ordem e botar as Forças Armadas para agir, senão nunca mais vamos limpar o nome do Exército”

Ailton Barros, ex-major do Exército

Barros usou referências militares como “a gente vai dar passagem perdida?”, que na Aeronáutica significa que o avião está sobre uma zona de lançamento, mas que por algum motivo, o lançamento não ocorre.

Investigados


O ex-presidente Jair Bolsonaro foi alvo de uma Operação da Polícia Federal, na manhã desta quarta-feira (3), acusado de envolvimento em esquema de adulteração de dados do Ministério da Saúde sobre as vacinas de Covid-19. O celular de Bolsonaro foi apreendido e o então assessor do ex-presidente, Mauro Cid, foi levado preso.

Tenente-coronel, Cid era ajudante de ordens de Bolsonaro, controlava o cadastro do então presidente no ConecteSUS e teria incluído os dados falsos de Bolsonaro e de sua filha de 12 anos, Laura, nos sistemas do Ministério da Saúde.

Ailton Barros também foi detido na operação da PF desta quarta-feira (3), acusado de auxiliar o ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, nas falsificações.

*Com informações da CNN.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Congressistas e entidades acionam a Justiça contra Bolsonaro por declaração sobre meninas venezuelanas

 


Bolsonaro declarou, sem qualquer constrangimento, que “pintou um clima” com “menininhas de 14 e 15 anos”


Jair Bolsonaro chorando
Foto: Agência Brasil

Em meio a repercussão do vídeo em que Jair Bolsonaro (PL) fala que “pintou um clima” com “menininhas de 14 e 15 anos”, congressistas e entidades civis já preparam ofensiva contra o mandatário na Justiça. 

Entenda o caso


Em entrevista ao podcast Paparazzo Rubro-Negro, na sexta-feira (14), Bolsonaro declarou, sem qualquer constrangimento, que “pintou um clima” com “menininhas de 14 e 15 anos” quando ele passeava de moto pela comunidade São Sebastião, no Distrito Federal. 

“Parei a moto em uma esquina, tirei o capacete, e olhei umas menininhas… Três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado, em uma comunidade, e vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei. ‘Posso entrar na sua casa?’ Entrei. Tinha umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando, todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas de 14, 15 anos, se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida”, afirmou Bolsonaro. 

PSOL prepara notícia crime


A bancada do PSOL na Câmara prepara uma notícia-crime contra Bolsonaro a declaração, que ultrapassou “acintosamente todos os limites morais” 

“Bolsonaro passa acintosamente todos os limites morais ao afirmar que ‘pintou clima’ entre ele e pré-adolescentes de 14 anos, e mostrar que, mesmo numa situação em que ele, em tese, vislumbrou exploração sexual infantil, sua atitude foi a de interesse e não de proteção daquelas meninas”, afirmou a líder Sâmia Bomfim (SP).

Deputado pede que PGR investigue conduta


O deputado distrital Leandro Grass (PV) enviou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, ainda neste sábado (15), um pedido para investigar a conduta de Bolsonaro (PL). 

No ofício enviado à PGR, Grass questiona por que o presidente não acionou as autoridades competentes “para que providências fossem tomadas” sobre o “caso gravíssimo”. O parlamentar pede que seja apurado “o que de fato ocorreu, com a urgência que o caso requer”.

Prerrogativas irá à Justiça 


O grupo Prerrogativas, que reúne juristas, afirmou que entrará com uma representação na Justiça para que Bolsonaro (PL) explique as circunstâncias em que se deram os fatos narrados por ele. 

“Nós vamos acioná-lo na Justiça o quanto antes. Essas declarações são constrangedoras, para dizer o mínimo. São constrangedoras e criminosas”, declarou o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo.


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Toda dor é política. Artigo de Ana Cláudia Laurindo

Eu respeito a dor que não me esmaga, porque de alguma maneira ela  me avisa sobre aquilo que me faz humana.

                         Imagem: CartaMaior

Do site Repórter Nordeste:

Comovente é o sofrimento humano, retrato do que nos alcança, balançando em dores outros corpos.

Eu respeito a dor que não me esmaga, porque de alguma maneira ela  me avisa sobre aquilo que me faz humana.

A dor é nossa!

Sem apologia ao desengano, nesta admissão me reconheço parte do que move esta hora. Entre maldições ou louvores, estamos empenhados em fazer girar o que chamamos vida e as feridas abertas haverão de doer em todos.

Assim nos compreendo imersos enquanto terráqueos renitentes, na mesma senda curva da incompreendida ação política.

Caridade, me direis, é a salvação dos tempos.

Sem política, é ação levada pela força dos ventos.

Rasgar esse véu de neutralidade nos ajudará (maioria) a entender, que até aqui temos feito má política, entre uivos egoístas e falsos arrependimentos.

Tudo o que exala discurso religioso contém política.

Sua indiferença diante do meu petitório te faz político também, mesmo quando vestido de diáfano servidor das autoridades humanas e celestiais, teus lugares de poder falarão sobre crenças, convicções e escolhas.

Outra vez aninho a lágrima escondida no vale dos condenados, e nego ser realidade o que abate os improdutivos marcados para a morte por ressecamento, e sei que os parâmetros de utilidade de mercado os mataram ainda em vida, e isso poderia ser diferente se não existisse essa conivência aberrante com a perversidade desta  forma de política.

Esborram palavras, esbravejam os grotões e as entranhas da Terra cospem fogo sobre o medo, a ignorância cultivada e o alienação em nome da equidistante salvação das almas penadas e apenadas.

Como fala fundo na alma a presença da dor. O amor é política ousada de quem acredita em um minuto a mais de esperança, sem parar a dança da sobrevivência.

Políticas de vaidade são abismos instantâneos, que engolem e vomitam egos em promoção.

A cura é política de libertação!

A força dessa hora veste sombra, mas o manto da noite acalenta a aurora.

Vai raiar!

Vai semear.

Cuidando dos que sofrem, ardendo em sonhos novos.  Respeitando a vida e sabendo que a morte engole nossas derrotas enquanto o tempo eterniza o toque da evolução.

domingo, 26 de setembro de 2021

Do Portal do José: Bolsonaro é para sempre? Que fim levarão seus seguidores? Para onde o Brasil está indo?

 

Do Portal do José:

Bolsonaro, diz a pesquisadora Esther Solano, representa o empoderamento de grupos políticos que previamente se sentiam isolados politicamente ou silenciados.

“É o empoderamento do homem médio, conservador, que nunca se sentiu visibilizado pela grande política, e hoje se vê reconhecido pelo bolsonarismo. É a exaltação da masculinidade, branquitude, e da direita”, diz a acadêmica.



"A base fiel bolsonarista está passando por um processo de hiper-radicalização, aponta pesquisa de Esther Solano, doutora em sociologia e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que estuda o fenômeno do bolsonarismo desde 2017.

“Os bolsonaristas radicais têm uma ligação cada vez mais emocional e psicológica com Bolsonaro. A base que anteriormente chamávamos de fiel está passando por um processo de fortalecimento e consolidação do discurso de defesa do presidente”, diz Solano.

Segundo ela, os radicais estão convictos de que Bolsonaro é perseguido por todos, e eles encaram isso como uma perseguição a eles próprios e ao Brasil que idealizam.

Esta base de “bolsonaristas heavy”, como define Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, correspondia a 17% do eleitorado em agosto de 2020 e, hoje, é de 11%.

De acordo com a última pesquisa do Datafolha, os bolsonaristas heavy são aqueles que votaram no Bolsonaro no primeiro e segundo turno em 2018, avaliam o governo como ótimo ou bom e que confiam em tudo o que o presidente diz.

Bolsonaro, diz Solano, representa o empoderamento de grupos políticos que previamente se sentiam isolados politicamente ou silenciados.

“É o empoderamento do homem médio, conservador, que nunca se sentiu visibilizado pela grande política, e hoje se vê reconhecido pelo bolsonarismo. É a exaltação da masculinidade, branquitude, e da direita”, diz a acadêmica.

“Para eles, caindo o Bolsonaro, eles caem junto, e tudo em que eles acreditam cai também; é como se eles voltassem para a invisibilidade.”

A acadêmica faz pesquisas etnográficas, que reúnem pequenos grupos de pessoas que já se conhecem e conversam entre si, de diferentes localidades e classes sociais, para avaliar as narrativas e as visões.

Houve especulação de que o recuo de Bolsonaro, por meio da carta costurada pelo ex-presidente Michel Temer, podia decepcionar a base bolsonarista mais fiel, que apoia os atos mais agressivos do presidente.

Vários dos bolsonaristas analisados por Solano afirmaram ter se sentido inicialmente decepcionados com o recuo, pois ficaram “confusos com as informações de uma imprensa que sempre tenta enganar e destruir o presidente”.

Eles foram às ruas esperando que algo fosse feito contra o STF. Mas, depois, entenderam que foi “pura estratégia” de Bolsonaro, que foi a atitude correta para melhorar as coisas sem que houvesse violência ou caos.

“Ele foi um estrategista de primeiro nível, a imagem dele saiu fortalecida porque demonstrou que é um sujeito explosivo e autêntico, mas que também pode ser um negociador e um homem tático que escuta sua equipe. O dólar baixou, a bolsa subiu, o poder econômico está satisfeito com o recuo e a imagem internacional dele também melhorou”, disse um dos participantes.

“Ele vai tentar primeiro resolver a situação com o STF de forma não violenta, aí, se não der, como última alternativa, ele partirá para uma revolução junto com o povo.”

Muitos, segundo Solano, encaram o presidente Bolsonaro e a pátria como uma coisa só, acreditam que o Brasil está em perigo porque Bolsonaro está em perigo, e foram às ruas atendendo ao chamado do presidente.

“Pelo fato de querer o melhor para o Brasil, a oposição contra nosso presidente estava muito alta, eu vi que o presidente só tem o povo, e resolvi ir para apoiá-lo. Esperava que naquele mesmo dia o STF recuasse do que eles estavam impondo contra o Zé Trovão e os que estavam sendo perseguido por conta de expor a sua opinião, além dos projetos do presidente que o STF vetou", disse outro.

Segundo a pesquisadora, essa base radical dificilmente vai se decepcionar com o presidente, porque a conexão desses apoiadores com Bolsonaro não é programática, nem política; é uma ligação afetiva, emocional, que passa pela forma de entender o mundo.

Discutindo se iriam às ruas de novo se Bolsonaro pedisse, ainda que fosse para tentar algo mais radical como fechar o STF, os pesquisados responderam sem titubear: “Sem dúvidas, estamos fechados com Bolsonaro”. Para eles, fechar o STF não seria golpe.

“Ele está tentando resolver a situação com o STF de um jeito pacífico, mas se os acordos forem descumpridos pelos ministros, e Bolsonaro decidir radicalizar, todo mundo estará com ele, mesmo com guerra civil”, disse um deles.

“Se for necessário chegar nesta situação extrema pelo bem do povo brasileiro, não será culpa de Bolsonaro e sim do STF”, afirmou outro. “Não seria um ‘golpe’, se tudo fosse conforme a Constituição, já que a Carta Magna prevê este tipo de situações. Uma grande parte de militares e as policiais responderiam a este chamado de Bolsonaro”.

Segundo Solano, para eles, foi a esquerda que deu um golpe com a captura do Estado pela corrupção. Bolsonaro, na visão deles, quer fortalecer a democracia ao limpar o Brasil de corruptos. Em relação à vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vencerá se houver fraude nas urnas.

Texto publicado na Folha-UOL em 25/9/21

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O cotidiano, a fantasia e o carisma no mistério do humano no universo, por Leonardo Boff

 "O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas  energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário,  obedecem a seguinte dinâmica tão bem estuda por Ilya Prigogine e Edgar Morin: ordem, desordem, relação, nova ordem, nova desordem, novamente relação e assim sempre de novo."


O cotidiano, a fantasia e o carisma

Texto de Leonardo Boff

Nós viemos do  útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo, daquele oceano sem margens, do big bang, do bóson Higgs que originou o top-quark, o tijolinho material mais primordial do edifício cósmico, passando por todas as fases da evolução até chegarmos ao computador atual e à inteligência artificial. E somos filhos e filhas da Terra. Melhor, somos a Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa,  que quer e ama, que se extasia e adora o Ser que faz ser todos os seres.

Todas estas coisas primeiro estiveram no universo, se condensaram em nossa galáxia, ganharam forma em nosso sistema solar e irromperam concretas na nossa Terra, grande mãe, geradora de vida.

O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas  energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário,  obedecem a seguinte dinâmica tão bem estuda por Ilya Prigogine e Edgar Morin: ordem, desordem, relação, nova ordem, nova desordem, novamente relação e assim sempre de novo.

Mediante essa lógica, criam-se sempre mais complexidades  e diferenciações; na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade em todos os seres até alcançar a sua expressão lúcida e consciente na mente humana. Só pode estar em nós o que antes estava no universo, mesmo em gestação.

Simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a teia de relações, de trocas e de interdepências de todos com todos (tese básica da física quântica de Bohr/Heisenberg) que funciona como um ritornello nas encíclicas do Papa Francisco Laudato si (2015) e Fratelli tutti (2020), Tudo está relacionado com tudo em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação/interioridade/relação: eis a trindade cósmica que preside o funcionamento do universo. O normal do universo não é a permanência mas a mudança.

Como fruto da teia de relações, reciprocidades e simbioses existentes em tudo, na Terra e em nós mesmos, emerge uma nova ordem que, por sua vez, vai seguir a mesma trajetória de desordem, relação e nova ordem.  Enquanto estivermos vivos estamos sempre numa situação de não-equilíbrio  em busca contínua de adaptações que geram um novo equilíbrio.   Quanto mais próximos estivermos do equilíbrio total mais próximos estamos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e o fim do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um outro nível que demanda um novo tipo de reflexão. 

Como se manifesta esta estrutura concretamente em nossa vida? Primeiramente no cotidiano e no prosaico. Cada qual os vive à sua maneira, que começa com a toilette pessoal, como se veste, como toma o seu café, como dá uma olhada no jornal ou escuta as primeiras notícias pela tv ou pelo rádio, como busca sua felicidade e como enfrenta a labuta da vida pelo trabalho.

O cotidiano é rotineiro,  cinzento e com raras novidades. A maioria da humanidade vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve.  Alguns são conhecidos pela primeira vez quando morrem,  pois o anúncio pode aparecer no jornal, se aparecer. É o percurso normal das pessoas. 

Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação,chamada por alguns de “a louca da casa”. Ela rompe as barreiras do cotidiano, permite o poético e dá saltos. A imaginação é, por essência, inventiva; é o reino das probabilidades e possibilidades, de si infinitas. Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos, novo amor.

É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário e construir certo equilíbrio na vida. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa como uma águia pelas nuvens esquecido da Terra e, no limite, pode acabar numa clínica psiquiátrica. 

Pode também se sepultar na rotina do cotidiano e do prosaico e ficar como uma galinha, ciscndo ou com voo rasteiro. Então se mostra pesado, desinteressante e aborrecido.

Quando alguém, entretanto, sabe abrir-se ao dinamismo do imaginário e às chances escondidas no cotidiano, vivificando-o com um toque do imaginário, sua vida se faz uma construção contínua e se  torna uma jornada interessante. O efeito se faz logo notar: começa, sem se dar conta, a irradiar uma rara energia interior. Dele sai uma misteriosa força que se comunica aos outros.

A esta força chamamos de carisma. Ela significa a energia cósmica que tudo vitaliza e rejuvenesce, força que faz atrair as pessoas e fascinar os espíritos.  

Quem são os carismáticos? Todos. A ninguém é negada a força cosmogênica que movimenta, na palavra de Dante,  o céu e todas as estrelas. Por isso a vida de cada um é chamada para brilhar e não permanecer apagado. Cada é desafiado a despertar o carisma escondido nele.        

Mas há carismáticos e carismáticos. Há alguns nos quais esta força de irradiação implode e explode. É como uma luz na noite escura. Pode ser fraca mas basta para mostrar o caminho.

Pode-se fazer desfilar todos os bispos e cardeais diante dos fiéis reunidos num salão.  Pode haver figuras notáveis em vários campos da vida. Mas o olhar de todos se fixa sobre Dom Helder Câmara. Porque ele é carismático. A figura é minúscula. Parece o servo sofredor sem beleza e ornamento.  Mas dele sai uma força de ternura unida ao vigor que  se impõe a todos.

 Muitos podem falar. E há bons oradores que atraem a atenção. Mas deixem Dom Helder falar.  A voz começa baixinha. De repente é tomado por  uma força maior que ele. Há tanta energia e tanto convencimento que as pessoas ficam boquiabertas. Ele, de pequeno, frágil e fraco comparece como um gigante.

Algo semelhante ocorre com Lula. Deixem-no subir ao palanque, diante das multidões. Começa baixinho, assume um tom narrativo, vai buscando a trilha melhor para a comunicação. E lentamente adquire força, as conexões surpreendentes irrompem, a argumentação ganha seu travejamento certo, o volume de voz se alça, os olhos se incendeiam, os gestos ondulam a fala, num momento o corpo inteiro é comunicação e comunhão com a multidão  que de barulhenta passa a silenciosa e num momento culminante, irromper em gritos e aplausos de aprovação.

É o carisma fazendo seu advento no político Luiz Inácio Lula da Silva, o retirante nordestino, o líder sindical, o fundador do Partido dos Trabalhadores, o presidente que inseriu milhões na sociedade e fez com que muitos que estiveram sempre alijados há 500 anos, sentirem o gosto de serem considerados gente. As oligarquias jamais admitiram, nem ontem nem hoje, que alguém do andar de baixo se alce ao andar de cima. De tudo fizeram até, com razões ridículas, o lançarem na prisão por mais de 500 dias. O carisma lhe deu forças para tudo suportar e sair maior do que entrou.Não se apaga uma estrela que um dia surgiu.

Não sem razão Max Weber, o grande estudioso do carisma, chamou-o de estado nascente. O carisma está sempre em estado de nascimento e suscita energia nas pessoas que o cercam. A função do carismático é de ser parteiro do carisma presente nas pessoas.  Sua missão não é dominá-las com seu brilho, nem seduzi-las para que o sigam cegamente. Mas despertá-las da letargia do cotidiano e descobrir a força criadora da fantasia. E, despertas, perceberem que o cotidiano em sua platitude guarda segredos, novidades, energias ocultas que sempre podem despertar e  conferir um renovado sentido e brilho à vida, à nossa curta passagem por esse planeta.

Somos tudo isso, seres complexos e contraditórios, históricos e utópicos, prosaicos e poéticos, enfim, ima expressão da Energia Criadora (Bergson) que em nós se faz consciente a ponto de identificar até Aquele Ser que subjaz a todas as coisas e que sustenta o inteiro universo e a nós mesmos.

Leonardo Boff é autor de O despertar da águia: o sim-bólico e o dia-bólico na construção da realidade, Vozes 2005.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

“Não existe futuro sem partilha, nem Messias de arma na mão”: o samba que o Brasil de Bolsonaro precisa (mas suas elites farisáicas não vão) ouvir: “A Verdade Vos Fará Livre”







Enredo da Mangueira resgata os ensinamentos de Cristo de partilha e paz em oposição ao avanço do conservadorismo e intolerância no País
Jornal GGN “Será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo, os profetas da intolerância. Favela, pega a visão: não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão.”
Com essas palavras, a Mangueira, campeã do Carnaval no Rio em 2019, retorna à avenida em 2020 com mais um enredo político. Dessa vez, a escola de samba resgata os ensinamentos de Jesus Cristo, em defesa do oprimidos, pelo “amor sem fronteiras” e contra a intolerância.
O tema foi decidido há meses, mas calha com um momento em que o País vive, de um lado, atentados à liberdade das religiões de matriz afro e, de outros, ataques à liberdade de expressão de artistas que criticam a intolerância de alas conservadoras, caso do coletivo Porta dos Fundos.
Em “A Verdade Vos Fará Livre”, a escola afirma que Jesus já nasceu de “punhos cerrados”, com “rosto negro, sangue índio, corpo de mulher”.
Na Sapucaí, promete levar Maria Madalena barbada e vestida com as cores LGBT, e Nossa Senhora das Dores de luto, segurando uma bandeira que diz “estado assassino” no lugar de “ordem e progresso”.
A proposta já gerou protestos entre conservadores, que organizam um abaixo-assinado contra o desfile e ameaçam com processos judiciais.
Abaixo, o enredo com legendas:
[Enredo: A Verdade Vos Fará Livre]
Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Eu sou da Estação Primeira de Nazaré
Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente
Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil
Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão
Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão
Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão
Do céu deu pra ouvir
O desabafo sincopado da cidade
Quarei tambor, da cruz fiz esplendor
E ressurgi pro cordão da liberdade
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também
Mangueira
Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

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