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terça-feira, 20 de outubro de 2020

Algumas luzes no fim do túnel brasileiro? Por Dora Incontri

 

 Estamos num momento extremo no Brasil, de um governo que destrói, abandona, não se responsabiliza, entrega nossos bens, escraviza… é um (des)governo que está praticando um genocídio descarado, sem disfarce. E parte da população se atira à autodestruição, mitificando ainda o carrasco, numa atitude no mínimo masoquista. 

Algumas luzes no fim do túnel brasileiro? Por Dora Incontri

É preciso que se quebre essa cadeia patológica de submissão servil e de abuso sádico, para que haja um processo de libertação. Dá-lhe educação que emancipe e terapia que cure.

Jornal GGN:
underground rail tunnel with light show in shanghai

Algumas luzes no fim do túnel brasileiro? Por Dora Incontri

Estamos num momento extremo no Brasil, de um governo que destrói, abandona, não se responsabiliza, entrega nossos bens, escraviza… é um (des)governo que está praticando um genocídio descarado, sem disfarce. E parte da população se atira à autodestruição, mitificando ainda o carrasco, numa atitude no mínimo masoquista. Aliás, todo sistema de dominação, precisa de um dominador sádico e de um dominado masoquista, que por sua vez, pode exercer seu sadismo com outro que lhe está ao alcance.

É preciso que se quebre essa cadeia patológica de submissão servil e de abuso sádico, para que haja um processo de libertação. Dá-lhe educação que emancipe e terapia que cure.

Entretanto, temos visto alguns movimentos na sociedade que nos apontam alguma esperança: cito aqui esse brado internacional do #vidaspretasimportam (#blacklivesmatter) e um novo movimento, lançado agora nesse mês de julho, #liberteofuturo, de que qualquer pessoa pode participar, com um vídeo, um sonho, uma proposta. Ver o site: http://liberteofuturo.net

Observa-se também, como na ausência de políticas públicas decentes, justas, humanitárias, algumas comunidades estão se organizando para dar conta dos desafios da pandemia. Lemos no noticiário que uma das maiores comunidades de São Paulo, a favela de Paraisópolis, tem obtido índices muito menores de óbito, em relação à média da cidade, porque está gerindo por si mesma a crise, numa filosofia, que eu diria, anarquista – organização de base, com lideranças populares…

Assim, vemos que a força que emana do povo, seu ímpeto mais profundo por liberdade, justiça e vida, não consegue ser erradicada e vai abrindo trilhas de transformação.

Estou convencida de que mudanças sociais significativas só podem ocorrer a partir da base mais ampla da sociedade e não de um punhado de gente enquistada no poder, que por melhores intenções que possam ter (o que não é o caso de nosso desgoverno atual), sempre misturam seus próprios interesses, sua embriaguez com o poder, suas paixões pessoais e acabam por desviar do roteiro prometido, pelo qual se elegeram com o voto do povo.

Eu não acredito muito em democracia representativa – embora a prefira, claro, a uma ditadura assumida (digo assumida, porque mesmo numa democracia, há muita opressão, porque ela está inserida num sistema de capitalismo excludente, que encarcera grande parte da população e a separa através de um sistema de classes, de educação e de organização política). Acredito em povo ganhando consciência, se levantando, se organizando em projetos autônomos, sustentáveis e independentes do capital e do Estado, porque o Estado está em última instância, sempre a serviço do capital, e nos melhores casos, dá uma gorjeta mais polpuda em benefícios para o povo. No neoliberalismo vigente e protegido por esse (des)governo brasileiro, nem uma esmolinha quer se dar em políticas sociais.

É preciso que o povo desperte, se organize, faça ao mesmo tempo desobediência civil e autogestão comunitária, de modo que possa oferecer ao mundo um modelo novo de sociedade, sem Estado, sem patrão… Como espírita, não digo sem Deus, mas numa concepção de Deus que não pune, que não interfere em nossas escolhas e é amor, misericórdia e inteligência imanente. E é justamente o pressuposto de uma centelha divina em nós, que dá a garantia, ou ao menos a esperança, de que podemos caminhar adiante, para chegar a esse mundo igualitário, fraterno, cooperativo e justo.

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segunda-feira, 9 de março de 2020

8M no Brasil e no mundo cruzou linha de conscientização e lutas que não aceitará retrocesso, por Arnaldo Cardoso



No Brasil sob o governo Bolsonaro são irrefutáveis os diversos registros de aumento da violência contra as mulheres, como os números do feminicídio demonstram

8M no Brasil e no mundo cruzou linha de conscientização e lutas que não aceitará retrocesso

por Arnaldo Cardoso

O Dia Internacional das Mulheres neste último dia 8 pôs nas ruas milhões de mulheres no Brasil e no mundo com extensa pauta de lutas e demonstrações de maior organização e engajamento. 
Teve no combate ao feminicídio uma das mais importantes bandeiras, uma vez que os casos desse tipo de crime têm aumentado em diferentes países como no Brasil que, em 2019 registrou aumento de 7,3% em relação ao ano anterior, somando 1.314 casos. O Brasil ocupa a vergonhosa posição de 5º país no ranking mundial de feminicídio.
Estupros, espancamentos, violências domésticas variadas contra as mulheres assim como desigualdade de gênero manifestada através de salários mais baixos e precarização das condições de trabalho para mulheres, grávidas, mães, foram outras das bandeiras de protesto levantadas nas ruas.
No Brasil muitas dessas bandeiras ganham ainda mais contundência e urgência em seus combates quando são associadas aos números do racismo.  São mulheres negras que lideram as estatísticas de feminicídios, de encarceramento, de dificuldade no acesso à saúde, de exploração no trabalho, com menores salários e com sub-representação em posições de comando em empresas e em inúmeras entidades da sociedade civil, assim como no Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.
Embora as bandeiras levantadas sejam de defesa das mulheres indistintamente de posições políticas, o que se viu nas ruas neste último domingo foram essas bandeiras convergirem com as de protestos contra governos pois, discursos e políticas públicas marcados pelo sexismo, machismo, misoginia e disseminação do ódio tem  resultado em retrocessos em relação a conquistas que as mulheres vinham acumulando nos últimos anos.
No Brasil sob o governo Bolsonaro são irrefutáveis os diversos registros de aumento da violência contra as mulheres, como os números do feminicídio demonstram e o desmonte deliberado de políticas públicas voltadas à melhoria das condições das mulheres contribuirão para a piora desse quadro.
O 8M em países da América Latina como Chile, Argentina e México deu mostras contundentes da disposição de parcela significativa das mulheres latino-americanas em romper com um estado de coisas inaceitável. No México, onde 2019 registrou 1006 casos de feminicídio, os protestos foram intensos e já há uma agenda de novas manifestações para pressionar o poder Executivo e representantes parlamentares por medidas de defesa de igualdade e punição de crimes contra as mulheres. Na Argentina, a bandeira da legalização do aborto é a que está mobilizando o debate político e ganhou destaque nas ruas. O Chile mais uma vez deu mostra da força de um movimento irrefreável de pressão por mudanças, tendo reunido no domingo mais de um milhão de pessoas, fundamentalmente mulheres, na capital Santiago. 
Também em importantes cidades de outros países pelo mundo como Portugal, França, Espanha, Polônia as mulheres ocuparam praças e avenidas em protestos contra o machismo, a violência e a desigualdade de gênero. Na Itália, país que vive a ascensão de partidos de extrema direita como a Liga de Matteo Salvini e o Irmãos da Itália de Giorgia Meloni, embalados por discurso de ódio contra imigrantes e minorias, e explícita postura machista e racista, os números de feminicídio tem crescido, colocando o país entre os mais violentos contra a mulher na Europa. As manifestações pelo Dia das Mulheres ficaram restritas ao ambiente virtual em função da epidemia de coronavírus que castiga a Itália.
No Brasil, o 8M acontecendo poucos dias antes do segundo aniversário do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, já anunciou para o dia 14 a próxima manifestação de mulheres, que acontecerá em diversas cidades do país. Marielle Franco, mulher negra, do subúrbio do Rio de Janeiro, defensora dos direitos humanos e militante pelos direitos de minorias e contra a violência policial e de milícias, se tornou um ícone da luta das mulheres no Brasil e em outras partes do mundo.
Na tarde de ontem, ainda em meio a chuva, uma mulher de nome Ana Maria, dentista que atende crianças num posto de saúde e maternidade pública na zona sul de São Paulo, em companhia de sua filha adolescente na marcha das mulheres na avenida Paulista, contou que, na última semana atendeu duas recém-nascidas com nome Marielle.
Os sinais de esperança precisam ser percebidos mesmo em meio a um céu ainda carregado de nuvens.
O 8M de 2020 cruzou uma linha no avanço da conscientização pelos direitos das mulheres, que não poderá retroceder. O caminho será de lutas e conquistas mesmo que forças obscuras insistam no retrocesso.
Arnaldo Cardoso, cientista político

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sábado, 28 de dezembro de 2019

Allan Kardec concordaria com Paulo Freire sobre a Educação...



terça-feira, 22 de outubro de 2019

O marketing da mediunidade e da caridade, ou a aparência e o religiosismo valendo mais que a essência, o real conhecimento da doutrina espírita e a ação efetiva para a melhoria social, por Dora Incontri



Então, ser médium e ter um trabalho assistencial não habilita ninguém a falar em nome do espiritismo e colocar suas posições como representativas do movimento todo.



O marketing da mediunidade e da caridade, por Dora Incontri - No Jornal GGN

Pode parecer estranho tratarmos de alguns assuntos internos do movimento espírita nesse jornal, de caráter plural. Mas é necessário pontuar para espíritas e não espíritas algumas questões que atravessam a sociedade brasileira, na qual esse mesmo movimento se faz fortemente presente e é objeto de filmes, reportagens, entrevistas e notícias.
O espiritismo proposto por Kardec é uma filosofia livre, que cada um pode seguir individualmente, mas partidários dela também podem se organizar em centros, sociedades, associações, igualmente livres e independentes entre si. Como Kardec não pretendeu fundar uma religião, constituída de hierarquias, sacerdócios, rituais e sacramentos – embora a filosofia espírita carregue consigo uma proposta de espiritualidade livre – não haveria necessidade de nada disso para a constituição do espiritismo.
Entretanto, no Brasil, o nosso forte componente de cultura religiosa acabou transformando o espiritismo numa religião – apesar de haver pessoas e setores que resistam a essa definição (o que não significa negar aspectos espiritualistas do pensamento kardecista, como a existência de Deus e a possibilidade de orar individualmente ou em conjunto, sem nenhuma fórmula ritualística).
O problema é que a grande maioria de espiritas e não espíritas procura eleger lideranças desse movimento e identificar quem poderia em tese falar em nome do espiritismo. Ninguém pode e todos podem. A verdade é essa.
Mas o que se faz é dar a voz máxima à Federação Espírita Brasileira, que se arrogou como representante oficial do espiritismo brasileiro, apesar de não ser reconhecida como tal por muitos espíritas. E se dá a voz também a médiuns, que se tornam líderes carismáticos e que muitas vezes são protegidos pela FEB.
Ora, como no espiritismo não há cursos oficiais de teologia (como existem entre católicos e protestantes), essas lideranças autodeclaradas ou reconhecidas espontaneamente pelo movimento, carecem muitas vezes não só de uma formação espírita, como de uma formação cultural mais ampla. Aí está o problema! Junta-se a ideia de uma liderança com amplos poderes de influência, com falta de preparo cultural, psicológico e mesmo espírita para isso. O primeiro caso que tivemos nesse sentido foi o médium Chico Xavier. De fato, um médium excepcional, um ser humano decente, mas um ser humano! Como qualquer outro e com grandes limitações culturais, dentro do contexto em que cresceu e viveu.
A partir dele, outros médiuns, como é o exemplo de Divaldo Pereira Franco, se arvoraram (ou foram entronizados) como líderes incensados e que passaram a pontificar sobre vários assuntos: educação, psicologia, sociedade, costumes, sexualidade, política… temas sobre os quais não têm conhecimento ou apenas conhecimentos superficiais.
O que os tornaria confiáveis para pontificarem sobre qualquer assunto? Para muitos espíritas (e não espíritas também, diga-se de passagem) dois critérios servem para eleger essas lideranças: o fato de serem médiuns e as obras assistenciais que realizam.
O primeiro critério contraria frontalmente toda a proposta de Kardec. Para o fundador francês do espiritismo, o médium é um ser humano como outro qualquer, deve submeter suas comunicações à crítica de seus pares (coisa que não se faz com nenhuma produção mediúnica no Brasil) e deve ser discreto no exercício da mediunidade, porque esta não lhe confere nenhum status sobrenatural ou mesmo social.
O segundo critério também é bastante questionável. Segundo a ética de Jesus, adotada por Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo, “a mão esquerda não deve saber o que faz a direita” – ou seja, a caridade não pode ser anunciada como marketing pessoal, coisa que muita gente faz entre nós.
Além do que, se Kardec colocou como premissa ética máxima do espiritismo que “Fora da Caridade não há Salvação”, não se pode entender essa caridade apenas como assistencialismo social. O espiritismo é uma proposta de transformação da sociedade, de mudança estrutural, pois segundo o Livro dos Espíritos “numa sociedade organizada segundo as leis do Cristo, ninguém deve morrer de fome”. Assim, não temos de nos regozijar por haver pobres no mundo para assistirmos e nos sentirmos muito bons por isso. Mas, ao invés, devemos nos constranger por termos uma sociedade onde haja tanta injustiça e desigualdade, trabalhar para mudá-la e quando for absolutamente imprescindível fazer assistencialismo, que isso seja motivo de vergonha e não de vaidade e de incensamento e santificação de pessoas que se dedicam a isso.
Então, ser médium e ter um trabalho assistencial não habilita ninguém a falar em nome do espiritismo e colocar suas posições como representativas do movimento todo.
Muito menos quando essas posições são contrárias à essência do espiritismo. De fato, apoiar um governo que defende a tortura, que trabalha para arrancar os direitos fundamentais do cidadão, que manifesta posições racistas, machistas, homofóbicas, que não protege nosso patrimônio científico, cultural, natural e mineral – e que sobretudo ataca a educação – eixo central do espiritismo, fundado pelo educador Allan Kardec – é uma negação dos princípios fundamentais do espiritismo. Mas a contradição é inerente aos apoiadores do atual (des)governo. O que é preciso é colocá-los no lugar que é deles, que estão apenas manifestando uma opinião pessoal, e não como lideranças de quem não os aceita como líderes.



quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Enquanto no Brasil terraplanista e retrógrado olavista-bolsonarista a conscientização e a inteligência continuam sendo um problema, as greves climáticas e pró ecologia globais atraem milhões



“Durante mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês ousam continuar desviando o olhar e vindo aqui dizer que estão fazendo o suficiente, quando as políticas e as soluções necessárias ainda não estão à vista?”, questionou Greta Thunberg em um discurso na Cúpula de Ação Climática da ONU, no dia 23 de setembro.


do Instituto Humanitas Unisinos – IHU On-line

Conscientização continua sendo um problema enquanto as greves climáticas globais atraem milhões

Depois de aproximadamente 6.000 ações em mais de 180 países em dois dias de manifestações, a terceira greve climática global chegou ao fim.
A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 30-09-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Para Solenne Ramsay-Cortés, a greve climática do dia 20 de setembro em Quezon City, nas Filipinas, foi a primeira.
Estudante do Ensino Médio do Assumption College San Lorenzo, a jovem de 15 anos viu as manifestações como uma tomada de posição “pelo meu futuro, pelo seu futuro e pelo futuro da Terra”.
Ela também se sentiu impulsionada pela frustração.
“Eu acho triste que, anos atrás, os adolescentes estavam dando palestras sobre a importância da justiça climática, e nós ainda estamos fazendo a mesma coisa hoje: promovendo a conscientizando sobre essa questão”, disse Ramsay-Cortés ao NCR.
Outros grevistas climáticos das Filipinas e de outros lugares identificaram a necessidade de uma atenção ainda maior às mudanças climáticas, seja para superar a negação, a distração ou simplesmente a falta de informação. As greves, esperam eles, podem ajudar a derrubar essas barreiras e a criar apoio para encontrar soluções e tomar medidas.
Ramsay-Cortés estava acompanhada da sua mãe e de centenas de outras pessoas no protesto que começou do lado de fora da Ateneo de Manila University, dirigida pelos jesuítas, e deu início a uma semana de greves em todo o país do Sudeste Asiático. A greve ocorreu em meio ao “Ano da Juventude” declarado pelos bispos católicos do país, com o tema “Juventude filipina em missão”.
Para ela, parece haver um ciclo persistente e que “as gerações passadas cometem erros e esperam que as gerações futuras [os jovens] os consertem”.
É um ciclo, segundo Ramsay-Cortés, que precisa mudar.
Em 185 países, as greves climáticas globais dos dias 20 e 27 de setembro atraíram cerca de 7,6 milhões de jovens e idosos para 6.100 ações, de acordo com os organizadores que as classificaram como a maior mobilização distribuída que pede ações contra as mudanças climáticas. As duas datas ocorreram no início e no fim da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York (17 a 30 de setembro), que abriu este ano com uma cúpula de ação climática.
Um dia depois das greves do dia 20 de setembro, a ONU concedeu ao movimento “Sextas-Feiras pelo Futuro” – inspirado pela sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que se juntou aos grevistas na cidade de Nova York – o prêmio Champions of the Earth 2019, sua maior honraria ambiental.
Antes e depois das greves, Thunberg pressionou os líderes eleitos e as gerações mais velhas a guardarem seus aplausos ou elogios aos grevistas jovens. Em vez disso, ela os urgiu a ouvirem primeiro o que os cientistas climáticos estão dizendo – que as emissões globais de gases do efeito estufa devem ser reduzidas quase pela metade até 2030 e chegar a zero líquido até 2050, para manter o aumento médio da temperatura global em 1,5ºC, em comparação com os níveis pré-industriais – e depois a tomarem medidas sérias.
“Durante mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês ousam continuar desviando o olhar e vindo aqui dizer que estão fazendo o suficiente, quando as políticas e as soluções necessárias ainda não estão à vista?”, questionou ela em um discurso na Cúpula de Ação Climática da ONU, no dia 23 de setembro.
Enquanto Thunberg fazia suas avaliações contundentes, ela continuou atraindo críticas.
As farpas lançadas pela apresentadora Laura Ingraham, da Fox News – comparando os jovens ativistas aos personagens de “Children of the Corn” [Filhos do milho], de Stephen King, enquanto afirmava incorretamente que o aquecimento observado é consistente com as tendências climáticas do passado e repreendia o Papa Francisco por manifestar o seu apoio – foram condenadas como “relatos falsos” por parte de uma ordem de religiosas.
“Em seus ataques aos ativistas e ao Papa Francisco, em nenhum momento ela [Ingraham] apresentou qualquer refutação fundamentada, mas repetiu a ideia do lobby dos combustíveis fósseis de que o clima está sempre mudando, e não há nenhuma razão para alarme. Embora Ingraham zombe daqueles que disparam o alarme, já estamos experimentando os efeitos das mudanças climáticas”, disseram as provinciais da Congregação Nossa Senhora da Caridade das Irmãs do Bom Pastor nos EUA em um comunicado conjunto.
Fora dos EUA, as greves climáticas também serviram como uma maneira de dar mais visibilidade àquela que é considerada como uma situação de emergência para o planeta.
Ruby Sampson, 18 anos, e Ayakha Melithafa, 17, ambos membros da Aliança Climática Africana, disseram aos repórteres em uma teleconferência dias antes da greve que sua principal motivação era a educação, já que uma educação de nível superior está fora do alcance de muitos no seu país.
Sampson disse que, embora as pessoas percebam que há mais secas e inundações, elas são menos propensas a reconhecer o papel das mudanças climáticas – que, à medida que as temperaturas globais aumentam, podem prolongar as estações secas e provocar menos chuvas, porém mais fortes.
Junto com a Aliança Climática Africana, os adolescentes conversaram nas escolas com seus colegas, muitas vezes começando por não dizer a eles o que são as mudanças climáticas, mas sim perguntando como eles acham que têm sido afetados. Melithafa lembrou-se de ajudar a sua mãe, uma agricultora, a entender como as mudanças climáticas estavam relacionadas às mudanças nos níveis dos rios e nas chuvas que ela estava testemunhando.
“Estamos aqui apenas tentando conscientizar as pessoas a falar sobre isso e a juntar os pontos”, disse Sampson.
Mitzi Tan, uma estudante recém-formada de 21 anos que participou da greve em Quezon City, disse que havia uma situação semelhante nas Filipinas, ‘onde as pessoas não percebem como a situação aqui é ruim”. Por exemplo, que a nação do arquipélago está entre as mais vulneráveis do mundo aos impactos das mudanças climáticas, como tufões mais poderosos, elevação dos mares e deformações na produção agrícola e pesqueira.
Parte disso, segundo ela, é a falta de conexão entre as mudanças observadas e os impactos que os cientistas identificaram acompanhando o aquecimento do clima. Outro fator são as pessoas preocupadas com outras questões prementes, como a fome, a falta de moradia e o aumento dos preços do petróleo.
“É algo sobre o qual precisamos conversar”, disse Tan.
Maria Lourdes Guinto, paroquiana da Igreja de Nossa Senhora da Esperança, em Quezon City, disse ao NCR que espera que a greve “eleve” a conscientização entre amigos, familiares e outras pessoas “de que o aquecimento global é um assunto sério” e os leve a considerar os pequenos passos que podem ser dados para diminuir o seu impacto no planeta. Ela também quis mostrar como a fé motiva a ela e a outras pessoas, católicas ou não, a cuidar da criação.
‘Este planeta é compartilhado com cada ser individual, e, portanto, cada um tem uma responsabilidade de contribuir para a sua manutenção”, disse Guinto, colaboradora do Movimento Climático Católico Global e mãe de três filhos adolescentes.
Assim como em muitas greves, as pessoas em Quezon City revelaram um aspecto intergeracional.
Marilou Fernando-Canuzo, 60 anos, foi inspirada pelo seu filho mais novo a ingressar no movimento Sextas-Feiras pelo Futuro. A greve do dia 20 de setembro foi a sua segunda, após a greve climática global anterior em maio.
“Uma mãe naturalmente faria qualquer coisa para garantir que seus filhos tenham um futuro brilhante pela frente ou, deveria dizer, um mundo melhor para se viver”, disse Fernando-Canuzo ao NCR.
Ela esperava que a manifestação inspirasse outros pais e idosos a se envolverem, para “entender que as mudanças climáticas não são brincadeira”. Mas, acima de tudo, ela esperava que o governo das Filipinas “levasse isso a sério”.
“Eu vi como as nossas futuras gerações são esperançosas”, disse Fernando-Canuzo, refletindo sobre as mudanças climáticas. “Eu vi o espírito de luta deles. Esses são os valores que eu vi neles. Eles me inspiraram a também lutar pelo que é certo.”
 FONTE
Instituto Humanitas Unisinos - IHU On-line

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Alfebetização Ecológica - Necessária instrução para a vida e criação de um espaço de respeito à natureza e iniciação amorosa. Por Waldemar Boff (com introdução de Leonaro Boff)


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I - Introdução

Waldemar Boff, estudou nos USA, foi redator de revista e coordena uma ONG:SEOP (Serviço de Educação e Organização Popular) cuja ação se concentra em Petrópolis em em Macaé, junto ao rio Surui,dedicando-se à população pobre e marginalizada. Mantém três creches para famílias pobres, cujas mãe têm que sair para trabalhar. Organizou cooperativas de produção agrícola orgânica e atualmente todo o esforço se reduz a ajudar a matar a fome de pessoas que já não recebem a bolsa família e passam extrema necessidade.Com espírito franciscano ama e cuida da natureza e mais que tudo os mais vulneráveis que são as crianças pobres. Tem trabalhado o tema da educação, educação pela pele, pelo toque para que as pessoas se sintam inseridas em nossa humanidade e em nossa fraternidade. Publicamos este texto pois é o que vive com a sua “gente poverella” na Baixada Fluminense. Leonardo Boff

II - Alfabetização Ecológica


Há uma alfabetização difícil e radical. Ela nos obriga à mudança, a outro aprendizado, à humildade e à reverência: é a alfabetização ecológica. As outras alfabetizações (gráfica, tecnológica e digital) geralmente nos colocam desafios operativos, raramente desafios filosófico-culturais.
A alfabetização ecológica desbanca o antropocentrismo e coloca no centro a admirável história da vida (biocentrismo). Desafia até certo ponto o lógos ordenador para instaurar o éros, como força desorganizadora e reorganizadora.
Ademais, a aventura da vida sobre a terra nos indica o nosso lugar no conjunto e outra forma de nos organizarmos socialmente. Afinal, a vida conseguiu ser sustentável e equilibrada através um sistema flexível de redes, de ciclos, de fluxos, de expansão e equilíbrio dinâmico. Os valores que configuram nossa sociedade (individualismo, racionalismo, oposição, competição, materialismo) causam desigualdades, desequilíbrios, agressões e loucura. O resultado é a perda da alegria de viver e a tirania do desejo insaciável.
A exacerbação da razão e a brutalidade das relações nos levaram à atual deselegância social e à vulnerabilidade dos serviços ambientais. A razão enlouquecida e uma civilização estressada nos aceleram o passo e nos fazem esquecer da necessidade da pausa e do descanso. Com isto sai a paz mansa e entra o desassossego turbulento.
A natureza que te circunda, a paisagem do teu território, é um espaço em que você pode se iniciar ou ser ajudado(a) a se iniciar no observar, no maravilhar-se, no enamoramento, na louvação, na ação de graças e na reverência. É uma liturgia pagã, sadia e radicalmente religiosa, isto é, que religa você ao universo criado.
Na alfabetização ecológica importa inicialmente que você pare, se cale e se deixe tocar pela natureza. Permitir que ela entre na sua vida como um outro diverso, mas da mesma família. Isto pode lhe custar muito, porque as coisas vivas freqüentemente nos são objetos sem alma, para nos servir. Parar, sentar-se, calar, exterior e interiormente, para poder ver, ouvir, sentir e degustar o que a vida tem a nos dizer, a nos ensinar, a nos enlevar é um exercício espiritual.
Quando você descobrir que a natureza é um outro e não simplesmente um amontoado de objetos e coisas vivas entre si relacionadas, quando se der conta de que todas essas “coisas” são sujeitos, portadores de história, subjetividade e destino, então poderás entrar em relação de igualdade, respeito e reciprocidade, não simplesmente em relação utilitária, subalterna e fruidora.
O relacionamento amoroso entre duas pessoas é interativo. Os amantes alternam-se nos papéis. Ora um toma a iniciativa e o outro acolhe, ora o que acolhe retorna oferecendo um presente novo e inesperado. Assim, o diálogo entre amante e amado vai se tecendo por palavras, gestos, olhares, toques, abraços, enlevos e delícias.
Poderia ser parecido o teu relacionamento com a natureza, natura- a vida que vem continuamente nascendo, pulsando e acontecendo, quer a gente sinta ou não.
 Waldemar Boff  é educador popular e coordenador da ONG Serviço de Educacação e Organização Popular (SEOP)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Leonardo Boff discute sobre o misterioso destino de cada um




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Cada um de nós tem a idade do universo que é de 13,7 bilhões de anos. Todos estávamos virtualmente juntos naquele pontozinho, menor que a cabeça de um alfinete, mas repleto de energia e de materia. Ocorreu a grande explosão e gerou as enormes estrelas vermelhas dentro das quais se formaram todos os elementos físico-químicos que compõem todos os seres do universo e também o nosso. Somos filhos e filhas das estrelas e do pó cósmico. Somos também a porção da Terra viva que chegou a sentir, a pensar, a amar e a venerar. Por nós a Terra e o universo sentem que formam um grande Todo. E nós podemos desenvolver a consciência desse pertencimento.
Qual é o nosso lugar dentro desse Todo? Mais imediatamente, dentro do processo de evolução? Dentro da Mãe Terra? Dentro da história humana? Não nos é dado saber ainda. Talvez será a grande revelação quando fizermos a passagem alquímica deste para o outro lado da vida. Ai, espero, tudo fica claro e nos surpreenderemos porque todos somos umbilicalmente inter-relacionados, formando a imensa cadeia dos seres e a teia da vida. Cairemos, assim creio, nos braços de Deus-Pai–e-Mãe de infinita misericórdia para quem precisa dela por causa de suas maldades e um abraço amoroso eterno para os que se orientaram pelo bem e pelo amor. Depois de passarem pela clínica de Deus-misericórdia, os outros também virão.
Eu de criança de poucos meses estava condenado a morrer. Conta minha mãe e as tias sempre o repetiam, que eu tinha “o macaquinho”, expressão popular para anemia profunda. Tudo que ingeria, vomitava. Todos diziam em dialeto vêneto: ”poareto, va morir”: “pobrezinho, vai morrer”.
Minha mãe, desesperada e escondida de meu pai que não acreditava em benzimentos, foi à benzedeira, à velha Campanhola. Ela fez as suas rezas e lhe disse: “dê um banho com essas ervas; depois de fazer o pão no forno, espere até ficar morno e coloque seu filhinho lá dentro”. Foi o que fez minha mãe Regina. Sobre a pá de retirar o pão cozido, me colocou lá dentro. Deixou-me, aí por um bom tempo.
Eis que ocorreu uma transformação. Ao me retirar do forno, comecei a chorar, diziam, e a procurar logo o seio para sugar o leite materno. Depois, minha mãe, mastigava em sua boca as comidinhas mais fortes e me dava. Comecei a comer e a me fortalecer. Sobrevivi. Estou aqui oficialmente velho com 80 anos. Há aí algum destino? Só o Supremo o sabe.
Passei por vários riscos que poderiam ter custado minha vida: um avião DC-10 em chamas rumo a Nova York; um acidente de carro contra um cavalo morto na pista que me quebrou todo; um enorme prego que caiu na minha frente, quando estudava em Munique e poderia ter-me matado se tivesse caido sobre a minha cabeça; Nos Alpes, a queda num vale profundo coberto de neve e camponeses bávaros, me vendo com o hábito escuro, me afundado cada vez mais, me retiraram com uma corda. E outros.
Norberto Bobbio me concedeu o doutor honoris causa em política pela Universidade de Turim. Entendeu que a teologia da libertação dera uma contribuição importante ao afirmar a força histórica dos pobres. É insuficiente o assistencialismo clássico ou a mera solidariedade mantendo os pobres sempre dependentes. Eles podem ser sujeitos de sua libertação, quando conscientizados e organizados. Superamos o para os pobres, insistimos no caminhar com os pobres, sendo eles os protagonistas e quem puder e tiver esse carisma, viver como os pobres como tantos fizeram, como Dom Pedro Casaldáliga.
Lembro-me que comecei meu discurso de agradecimento ao título, concedido por essa notável figura que é Norberto Bobbio: “venho da pedra lascada, do fundo da história, quando mal e mal tínhamos meios para a sobrevivência. Meus avós italianos e minha família, desbravaram uma região desabitada e coberta de pinheirais, Concórdia nos confins de Santa Catarina. Eles tiveram que lutar para sobreviver. Muitos morreram por falta de médicos. Depois fui subindo na escala da evolução: os 11 irmãos estudaram, fizeram a universidade, eu pude me formar na Alemanha. Agora estou aqui nessa famosa universidade”.
A pedido de Bobbio, fiz um resumo dos propósitos da Teologia da Libertação que tem como eixo central, a opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da justiça social. Dei muitos cursos por esse mundo afora, escrevi bastante, enxuguei lágrimas e mantive forte esperança de militantes que se frustravam com os rumos de nosso país.
Qual é o meu destino? Não sei. Tomei como lema que era do meu pai que o vivia:”quem não vive para servir, não serve para viver”. A Deus a última palavra.
Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu por seus 80 anos: “Reflexões de um velho teólogo e pensador”, Vozes 2019.


Viver a mensagem de Jesus. Perto do coração de Jesus e dos olhos de Buda Reflexões da Monja Coen, budista



Do Canal MOVA:





Gratidão à vida, apreciar a impermanência das coisas, alegria interior, estímulos para despertar, discriminação e preconceito, satisfação por ser quem se é, a verdadeira liberdade, família, significado do natal, Jesus e cristianismo na ótica budista. O caminho do coração é o caminho de parar de brigar com a realidade e nos deixar fluir com o fluxo da existência.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Jesus: um bebê pobre, visitado por pastores malcheirosos desprezados pelas elites, por Mauro Lopes


"Quem aparece? A escória. Um grupo de pastores (v, 16) malcheirosos, vindos diretamente de sua atividade de lida com o rebanho. Quem eram os pastores no contexto da sociedade em Israel à época? Eram vistos como tipos mais que suspeitos, ladrões, enganadores e pecadores. Eram desconsiderados, ridicularizados pelos fundamentalistas de então (o grupo dos fariseus) porque não seguiam as prescrições da Torá -eram 613 regras! Vivendo no campo, ao relento, os pastores não obedeciam os rituais que regulavam a vida religiosa, social e legal do judaísmo."

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Garota síria segura seu irmão, 2016, campo de refugiados de Indomeni, fronteira entre a Macedônia e Grécia, foto de Szymon Barylski

A expectativa quanto ao nascimento de Jesus Cristo alimentada por séculos em Israel foi completamente frustrada. Esperava-se um Messias -título do rei ideal esperado, que seria Ungido no Templo pelo sumo sacerdote. Nasceu um bebê pobre, em solidão, saudado apenas por uns pastores mal-cheirosos e vistos como suspeitos pela sociedade.]
É isto, exatamente, o que nos informam as duas principais leituras das missas e celebrações da noite de Natal dos católicos, anglicanos e de outras denominações -trechos dos livros do profeta  Isaías e do evangelista Lucas.
O tema do nascimento de Jesus não diz respeito apenas à história ou à fé. Ele lança luz sobre as diferentes visões de Jesus na sociedade. Os fundamentalistas cristãos são vinculados à expectativa alimentada em Israel e não ao relato que nos fazem os Evangelhos. Outra corrente de aparência “piedosa” alimentou durante séculos uma versão higienizada de um Jesus loiro e de olhos azuis que recomendava benemerência em vez de amor.
Nos tempos que escorrem, a versão fundamentalista tem consequências concretas -e dramáticas- pois transforma Jesus num “cruzado” cuja missão seria combater os “infiéis”: os muçulmanos, o candomblé, a umbanda, os comunistas e até os cristãos que não seguem sua cartilha.
O que nos informam os textos?
A primeira leitura (Isaías 9, 1-6) diz-nos que era esperado um menino ao qual estavam destinados os títulos de Conselheiro-maravilhoso, Deus-forte, Pai-para-sempre e Príncipe da Paz (Is 9, 5 -na versão da Bíblia de Jerusalém). Que títulos eram esses?  Eles integravam o protocolo para a coroação do faraó (rei) do Egito à época. Títulos de poder e riqueza, portanto.
Esperava-se um Messias em 736, ano desse trecho de Isaías, a livrar o Reino do Norte da ameça terrível que o rondava, o da invasão imperialista da Assíria -á época, Israel estava dividido em dois reinos, o do norte, Judá, e o do sul, Israel. A invasão acabaria acontecendo pouco depois. O texto referia-se à espera do filho do rei Acaz, capaz de livrar o reino do terror assírio,  e tornou-se uma das principais referências para o Messias ansiado ao longo dos séculos.
E Lucas? O texto lucano frauda completamente tal expectativa. A cena utilizada na liturgia do Natal é Lc 2, 1-14.
No trecho selecionado, descreve-se o nascimento de Jesus tendo como pano de fundo um fato de dimensões globais, o recenseamento “em todo o mundo habitado” (v.1), porção do planeta dominada por Roma, com objetivo de mensurar sua dimensão humana e estabelecer os parâmetros para a tributação.  Os historiadores negam que tal recenseamento tenha ocorrido -no máximo, teria havido à época uma contagem restrita à região da Judeia. O redator do Evangelho buscou, com a extrapolação, contrapor um fato de dimensões universais ao nascimento de um bebê pobre, escondido na periferia do império.
Em função da contagem da população, marido e mulher, grávida, foram a Belém, cidade da família de José. Chegaram na casa de parentes de José e como “não havia um lugar para eles na sala” (v.7), arrancharam-se  no estábulo. O menino nasceu e foi colocado no comedouro dos animais, a manjedoura forrada com palha.
O primeiro aspecto que chama atenção para a cena, além do ambiente de pobreza que em nada lembra o que seria razoável para o aguardado “Conselheiro-maravilhoso”, é a solidão completa de José, Maria e seu bebê. Pouco versículos antes, Lucas descrevera o nascimento de João, filho de Zacarias e Isabel, que se tornaria anos depois o Batista. Mãe, pai e filho foram cercados pela atenção, carinho e alegria dos “vizinhos e parentes” (Lc 1, 58). É um fato importante para o redator do Evangelho. Se não fosse, não estaria lá. Por isso, é impactante o contraste com o nascimento de Jesus. José e Maria estavam hospedados na casa de parentes. Mas ninguém foi ao estábulo para ver o beber e saudá-los. Sozinhos.
Quem aparece? A escória. Um grupo de pastores (v, 16) malcheirosos, vindos diretamente de sua atividade de lida com o rebanho. Quem eram os pastores no contexto da sociedade em Israel à época? Eram vistos como tipos mais que suspeitos, ladrões, enganadores e pecadores. Eram desconsiderados, ridicularizados pelos fundamentalistas de então (o grupo dos fariseus) porque não seguiam as prescrições da Torá -eram 613 regras! Vivendo no campo, ao relento, os pastores não obedeciam os rituais que regulavam a vida religiosa, social e legal do judaísmo.
Eram os perfeitos “zé-ninguém”. Como os pobres de hoje, em especial numa sociedade com as elites pautadas pelo sentimento escravocrata, como o caso brasileiro.
Pois é essa a gente que foi admirar e saudar a chegada do Menino pobre. A cena nada tem de idílica e adocicada, ao contrário das versões do cristianismo falsificado. Imagine o odor de um estábulo. Imagine agora o odor nesse estábulo quando adentra um grupo de pastores fedidos. Esta é a cena que está no texto -e não outra.
Eram gente como os sem terra, os sem teto, os refugiados, os pobres das periferias, os sem-nada do Brasil. Não possuíam direitos civis -pode parecer um escândalo esta frase, mas não é a situação dos sem nada atualmente? Um ditado rabínico popular à época dizia: “Nenhuma classe no mundo é tão desprezível quanto a classe dos pastores”. Não é este o sentimento das elites em relação aos sem terra, sem teto e outros? Não os consideram “vagabundos” e “desprezíveis”.
Como os ricos e poderosos reagiram ao nascimento de Jesus? Lucas não nos informa, mas no Evangelho de Mateus há uma descrição minuciosa (Mateus, 2, 1-18). Quem era, na sociedade judaica à época, o símbolo do poder e da emanação da riqueza? O rei Herodes. Não era o Trump (esse era Otávio Augusto, o imperador romano). Era alguém como um Bolsonaro.
Chegaram ao palácio de Herodes uns viajantes meio amalucados, astrólogos, que o texto designa como “magos”, afirmando que havia nascido “o rei dos judeus” (v.1). Herodes ficou “alarmado” (v.3) e os enviou a Belém, terra onde as profecias indicavam o nascimento do Messias. Mandou que na volta o procurassem de novo com um relato sobre o bebê, “para que eu também vá homenageá-lo” (v. 8). Seu plano era bem outro. Os astrólogos tiveram uma intuição (“avisados em sonho” – v.12) de qual era a real intenção de Herodes e voltaram a seu país por outro caminho.
Herodes, “enfurecido” (v.16) reagiu como os ricos e poderosos de todos os tempos: “mandou matar, em Belém e em todo seu território, todos os meninos de dois anos para baixo”. José, que entendera o risco que corria seu bebê (v.13.14), escapara para o Egito antes do massacre.
O Jesus do relato dos Evangelhos foi admirado e saudado pelos sem terra, sem teto, pelos periféricos e periféricas, representados pelos pastores. Os ricos e poderosos, simbolizados por Herodes, reagiram com ódio, medo e violência. Tem sido assim ao longo da história.
A liturgia do Natal captura esse ambiente de contraste entre a pobreza-saudação dos marginalizados ao bebê nascido no estábulo e a violência que o cerca.
E depois?
O que seria de se esperar num cristianismo de confrontação, que celebra a chegada de um cruzado ou de um cristianismo idílico? Que nos dias seguintes ao nascimento do bebê fossem apresentadas cena de vitória, como um desfile militar ou, no caso do “cristianismo água-com-açúcar”, cenas de alegria em tons pasteis.
Mas não é isso que acontece. Os pontos altos da liturgia dos dias seguintes ao nascimento de Jesus são:  o assassinato de Estevão, membro das primeiras comunidades cristãs, apedrejado em Jerusalém (dia 26), e o massacre dos meninos ordenado por Herodes (dia 28).
Quem captou com profundidade o sentido do nascimento de Jesus à luz desse roteiro litúrgico foi Edith Stein, mártir do povo judeu, mística e profeta assassinada na câmara de gás em  9 de agosto de 1942 em Auschwitz .
Ela escreveu dez anos antes de sua morte e três anos antes de se tornar monja carmelita, uma conferência sob o título “O Segredo do Natal”*. Separei dois parágrafos crucias e tragicamente belos:
Quando os dias ficam cada vez mais curtos, quando caem os primeiros flocos de neve (normal, no inverno alemão), então surgem suavemente os primeiros pensamentos natalinos. Destas simples palavras emana um encanto ao qual é difícil um coração ficar indiferente. Mesmo os que têm uma fé diferente, ou os infiéis, para os quais a antiga história da criança de Belém nada significa, preparam-se para a festa e pensam, em como acender um raio de alegria em toda parte. É como uma correnteza quente de amor perpassando toda a terra, meses e semanas antes. Uma festa de amor e de alegria. (…)
Cada um de nós talvez já tenha experimentado tal felicidade natalina. Mas, até aqui, o céu e a terra não se uniram. Também hoje a estrela de Belém é uma estrela na noite escura. Já, no segundo dia, a Igreja tira as vestes festivas e se reveste com a cor do sangue e, no quarto dia, de cores enlutadas. Estêvão, o protomártir, que primeiro seguiu o Senhor para a morte, e os santos inocentes, as criancinhas de Belém de Judá, mortas cruelmente por mãos de algozes, estão ao redor da criança no presépio. O que quer dizer isto? Onde está o júbilo das potências celestes? Onde está a tranquila bem-aventurança da noite santa? Onde está a paz na terra? ‘Paz na terra aos homens de boa vontade’. Mas, nem todos têm boa vontade”.
Para encerra, socorro-de de padre Júlio Lancellotti, responsável pela Pastoral do Povo da Rua em São Paulo e hoje uma referência de compaixão que ultrapassa em muito as fronteiras do catolicismo. Ele enviou por seus perfis nas redes sociais uma mensagem de Natal escrita originalmente pelo biblista italiano Fernando Armellini. Ela resume o mais exato sentido do nascimento de Jesus:
A imagem da manjedoura é o questionamento decisivo que Deus, o Deus e Pai de Jesus Cristo, faz a cada homem e mulher de todos os tempos: 
“Se vocês procuram um Deus forte, potente, esplendoroso, glorioso, procurem outro; não sou eu!”
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* Edith Stein, O Segredo do Natal, Editora da Universidade do Sagrado Coração, Bauru, 1999, p. 11.15