Mostrando postagens com marcador contra o discurso de ódio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contra o discurso de ódio. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Bolsonarismo, ou ratardocracia, pelo professor Giam C. C. Miceli, publicado no Le Monde Diplomatique

  "Falou-se em libertar o país das “amarras do socialismo”. O eleito, assim como a massa de assalariados aplaudindo como forma de alívio e/ou gratidão, não sabe diferenciar socialismo e políticas públicas com uma qualidade mínima. Do mesmo modo que nos mandam para Cuba, devemos mandá-los para a Suécia e a Noruega."

Do Le Monde Diplomatique:



Será que libertar o país das amarras de um socialismo que nunca existiu por aqui e combater o politicamente correto (entenda-se permitir toda forma de brutalidade moral, verbal e física) vai resolver nossos problemas e fazer com que nosso povo viva melhor?

Quando assistimos a um discurso de posse, sobretudo quando se trata de um presidente da República, esperamos que, em linhas gerais, haja uma breve exposição daquilo que a pessoa eleita se propõe a fazer em quatro anos. O povo espera soluções, alternativas e propostas para cultura, educação, saúde, economia, transporte, dentre outros aspectos imprescindíveis. De modo geral, é possível dizer que o povo (ou parte dele) espera o mínimo de seriedade.

No último dia 1º, tivemos os mesmos delírios que marcaram a campanha eleitoral. Era de se esperar que surtos como o kit gay e a mamadeira em forma de pênis fossem gracejos com o explícito fim de cativar um público sedento por violências (no plural, pois há várias delas). Mas fomos além: conseguimos presenciar delírios (também no plural) em pleno discurso de posse.

Falou-se em libertar o país das “amarras do socialismo”. O eleito, assim como a massa de assalariados aplaudindo como forma de alívio e/ou gratidão, não sabe diferenciar socialismo e políticas públicas com uma qualidade mínima. Do mesmo modo que nos mandam para Cuba, devemos mandá-los para a Suécia e a Noruega.

Falou-se, também, em combate ao “politicamente correto”, o que foi um convite para que o povo seja ainda mais (pois sempre foi) racista, machista, elitista, classista, egoísta e patologicamente violento. Será que não caberia a um chefe do Estado levantar os principais problemas de seu país, prometendo tentar resolvê-los? Será que libertar o país das amarras de um socialismo que nunca existiu por aqui e combater o politicamente correto (entenda-se permitir toda forma de brutalidade moral, verbal e física) vai resolver nossos problemas e fazer com que nosso povo viva melhor?

Tivemos um discurso absolutamente fraco e rasteiro. Um discurso do tipo que agrada à classe média que sonha em ser elite e sonha em ver o pobre em uma situação cada vez pior. Aliás, são esses os valores que nossa classe média porta: sonhar em ser algo que não é e pisotear quem está em posição desfavorável.

Se todos os problemas estivessem no discurso, estaria tudo relativamente bem. O problema é que trapalhadas começam a surgir. Retirar a embaixada brasileira de Tel Aviv, realizando sua transferência para Jerusalém significa colocar o Brasil na rota do terrorismo internacional. Isso, para agradar seitas de beira de estrada em troca de votos. Trata-se de grupos que pararam nos tempos bíblicos e sequer conseguiriam localizar o atual Estado de Israel em um mapa-múndi. Os comentários feitos por ministros e ministras são simplesmente deploráveis. São comentários de quem não entende o básico que o cargo exige. É impossível ver algo além de trapalhadas.

Tivemos um processo eleitoral forjado da maneira mais suja possível: notícias falsas circulando pelas redes sociais. Foi isso. A campanha foi exatamente assim. Não houve propostas, não houve diálogo e nem debates, já que foram evitados por motivos óbvios. Incapacidade. Ausência absoluta de propostas. O pouco de propostas surgiu do impossível: combater o socialismo (qual?); combater uma escola que forma militantes (se escolas formassem militantes, Guilherme Boulos ganharia no primeiro turno e o real vencedor não conseguiria ser síndico de prédio em cidade pequena); combater a ideologia de gênero (defina). E, mesmo após a vitória, temos uma completa falta de seriedade. Vemos uma marionete, alguns fanfarrões tirando proveito da situação e aqueles que provavelmente darão as cartas estão quietos, quietos.

Lamentavelmente, o que temos é isso. Gritaria, balbúrdia, fanfarronice, agressão, truculência e aplausos de uma massa assalariada e sem rumo. Uma massa que aplaude, mas que ficará mais pobre, com menos perspectivas, com menos direitos, com mais chibata (mesmo invisível, ela existe) e com menos acessos. A afirmação de Lima Barreto continua atual: não temos povo, temos público.

Giam C. C. Miceli é professor da rede municipal de Itaboraí, licenciado em Geografia, com pós em Educação e mestrado em História da Educação.

domingo, 21 de outubro de 2018

Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, da CNBB, escreve sobre a verdadeira indecência na política



Imagem relacionada

"(....) Quem patrocina e defende a cultura da morte, sustenta o discurso do ódio e o extremismo, esquecendo que violência gera violência, só poderá levar-nos para o abismo da destruição. Nestas eleições, defendamos a vigência plena dos direitos humanos, por uma Democracia viva e atuante, e pela Paz com justiça."


Da CNBB:

A verdadeira indecência na política


Dom Roberto Francisco Ferreria PazBispo de Campos (RJ)
Nestes últimos tempos, tem-se tomado consciência do câncer da corrupção na sociedade, nas instituições e na política. Clamamos pela ética e a decência na política e uma conduta íntegra e honesta por parte dos gestores públicos. Houve avanços na cultura da transparência e integridade, e procedimentos para o controle e punição da corrupção e venalidade no trato da coisa pública.
No entanto, o espírito republicano e a decência na vida democrática exigem, por igual, o respeito e a confiança na defesa dos direitos humanos, cuja Declaração completa 70 anos, em 2018. Desconsiderá-los ou tratá-los como se fossem manuais ou discurso de proteção a bandidos, é rasgar o pacto civilizatório que, vencedor do fascismo, quis por ponto final às guerras.
O fato de acostumarmo-nos com quem, inchando seu peito, debocha deles e despreza minorias, desqualificando-as, é, sem dúvida, uma grave ameaça à Democracia, depondo contra todos (as) os que deram sua vida e testemunho para que pudéssemos respirar um clima de liberdade e autonomia. A verdadeira indecência não é, somente, roubar dinheiro, mas roubar e eliminar direitos, ferindo mortalmente a dignidade da pessoa humana. Na Espanha franquista, encontrava-se o grande escritor Miguel de Hunamuno lendo um jornal em Madri, quando entrou, naquele recinto, um grupo de falangistas (fascistas) gritando “Viva a Morte!”. Ele, lentamente, baixou o jornal, os olhou e, calmamente, disse: “Vocês, até poderão vencer, mas nunca convencerão.
Porque para convencer há de se dar razões para viver a esperança, não a morte.” Quem patrocina e defende a cultura da morte, sustenta o discurso do ódio e o extremismo, esquecendo que violência gera violência, só poderá levar-nos para o abismo da destruição. Nestas eleições, defendamos a vigência plena dos direitos humanos, por uma Democracia viva e atuante, e pela Paz com justiça.
Que o Deus, misericordioso e compassivo, revelado no seu Filho Jesus, nos torne construtores de fraternidade, diálogo e concórdia, alimentando a esperança que não decepciona. Deus seja louvado!