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quarta-feira, 16 de julho de 2025

Bolsonaro foi o principal articulador, maior beneficiário e autor dos atos mais graves da trama golpista, aponta PGR

 

 

Do Jornal GGN:

Procuradoria acusa ex-presidente de planejar ruptura institucional, manipular a máquina pública para desinformação e se omitir diante do 8 de janeiro


Foto: Tânia Rego/Agência Brasil


A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirma que Jair Bolsonaro (PL) foi o “principal articulador, maior beneficiário e autor dos mais graves atos executórios voltados à ruptura do Estado democrático de Direito“, em uma trama que visava impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após as eleições de 2022. A afirmação consta das alegações finais enviadas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com a PGR, Bolsonaro liderou um plano de ruptura institucional baseado em ações coordenadas para desacreditar o processo eleitoral, manipular estruturas do Estado e fomentar um ambiente de instabilidade que justificasse medidas de exceção — entre elas, a decretação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), a prisão de ministros do STF, a anulação das eleições e a criação de um conselho eleitoral paralelo.

Uso da máquina pública para desinformação

O documento detalha como o ex-presidente se valeu da estrutura do governo para alimentar a desinformação sobre as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral. Transmissões oficiais, discursos inflamados e reuniões com representantes estrangeiros são citados como parte de uma estratégia de propaganda para minar a confiança da população nas instituições.

Com o uso indevido da máquina pública, o ex-presidente alimentou uma narrativa de fraude, insuflou a população e preparou o terreno para justificar uma possível intervenção institucional”, afirma a PGR.

Omissão deliberada no 8 de janeiro

A Procuradoria também destaca a omissão proposital de Bolsonaro diante dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando extremistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. Mesmo fora do país, o ex-presidente teria conhecimento prévio da movimentação e, segundo a denúncia, escolheu não agir.

Diante do agravamento do risco institucional, Bolsonaro optou por não utilizar os instrumentos legais à sua disposição para proteger a democracia, contribuindo, assim, para a consumação dos atos criminosos”, argumenta o texto.

Risco de pena superior a 40 anos

A denúncia apresentada pela PGR inclui cinco crimes: organização criminosa armadatentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direitotentativa de golpe de Estadodano qualificado ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado. Somadas, as penas podem ultrapassar 40 anos de prisão.

O processo encontra-se em fase final no STF. Após o envio das alegações da acusação, as defesas dos réus têm 15 dias para se manifestar. Em seguida, os ministros do Supremo irão produzir seus votos para o julgamento do caso.

Defesa nega e fala em atuação constitucional

A defesa de Jair Bolsonaro nega todas as acusações e afirma que ele “sempre atuou dentro das quatro linhas da Constituição”. Os advogados do ex-presidente sustentam que não houve articulação golpista e que Bolsonaro jamais ordenou ou incentivou ações contra a democracia.

Um julgamento decisivo para o país

A possível condenação de Bolsonaro por liderar uma tentativa de golpe de Estado pode representar um divisor de águas na história brasileira. O julgamento não apenas definirá o futuro político do ex-presidente — que já está inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — como também sinalizará o posicionamento definitivo do Estado diante de ameaças golpistas.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Áudios de militares criminosos reforçam elo entre 8 de Janeiro e a cúpula ORCRIM do governo Bolsonaro no plano de golpe

 

Um dos trechos mostra pedido de militar em posição de comando para Bolsonaro não deixar prender caminhoneiros em manifestação


Do Jornal GGN:

Áudios reforçam elo entre 8 de Janeiro e a cúpula do governo Bolsonaro no plano de golpe




O programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu na noite de domingo (23) uma reportagem que mostra trabalho da perícia da Polícia Federal em cima de mais de 1,2 mil dispositivos eletrônicos apreendidos com os investigados no inquérito da tentativa de golpe e do 8 de Janeiro.

A matéria exibiu áudios inéditos que reforçam o elo entre os acampamentos antidemocráticos, a invasão e depredação os prédios do Três Poderes, em Brasília, e militares em posição de comando que interagiam com Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, em busca de ajudar os bolsonaristas nas ruas.

Vários áudios são protagonizados pelo tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida, que estava no comando de operações terrestres do Exército em Brasília no começo de janeiro de 2023, quando houve a troca de presidente da República. Nas conversas, Almeida revela que se infiltrou em grupos de conversação onde civis organizavam as manifestações contra a posse de Lula.

“Seu tu tiver alguma possibilidade de influenciar alguém dos movimentos, eu tô tentando plantar isso nas redes onde eles estão. Tô participando de vários grupos civis”, disse o militar. participação popular e discutiam como usar manifestantes em frente aos quartéis como massa de manobra para pressionar por uma intervenção [militar].”

Em outro trecho capturado pela PF, Almeida dizia que as manifestações deveriam ser feitas em frente ao Congresso para despertar atenção das Forças Armadas. “Para apaziguar, a gente resolve destituir, invalidar a eleição, colocar voto impresso e fazer nova eleição, com ou sem Bolsonaro”, disparou o militar.

O programa também mostrou que Almeida ajudava os acampamentos bolsonaristas e, quando não tinha como resolver algum problema, ele apelava para que os pedidos dos manifestantes chegassem a Bolsonaro. Foi o que ele fez quando recebeu pedido de ajuda de caminhoneiros que estavam com medo de serem presos por ordem do Tribunal Superior Eleitoral ou Supremo Tribunal Federal. Almeida pediu para Mauro Cid falar para Bolsonaro mobilizar a Polícia Federal ou o próprio Exército para “segurar” os mandados de prisão e “proteger esses caras”.

Para o Fantástico, os áudios deixam claro que a estratégia da cúpula bolsonarista era “manter as manifestações nas ruas e a contestação das urnas”.

No final, no entanto, os áudios revelam que Jair Bolsonaro decidiu não assinar o decreto de golpe porque não houve apoio de todos os comandos das Forças Armadas.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Áudios mostram o militar "faca na caveira" Elcio Franco combinando/tramando com Ailton Barros o golpe do 8 de janeiro

 

Do Jornal GGN:


Em mensagens, eles falam em dar ordens a comandos militares para mobilizar "1.500 homens" e instaurar o golpe criminoso de estado


Desta vez, o ex-assessor especial da Casa Civil de Jair Bolsonaro, Elcio Franco, aparece planejando golpe

O coronel Elcio Franco, ex-assessor especial da Casa Civil de Jair Bolsonaro e um dos braços direitos do ex-mandatário, estava envolvido nos atos golpistas do dia 8 de janeiro. É o que mostram mensagens de áudio, divulgadas pela CNN, nesta segunda-feira (08).

Elcio Franco já havia se tornado pivô de diversas polêmicas do ex-governo, durante a pandemia, por atuar com omissão e em benefício da vacina indiana Covaxin, enquanto era secretário do Ministério da Saúde, braço direito de Eduardo Pazuello (relembre mais abaixo).

Agora, mensagens obtidas pela Polícia Federal nas apurações dos atos de 8 de janeiro revelam que ele não só sabia das intenções golpistas, como também sugeriu ao ex-major Ailton Barros, que está preso, mobilizar 1500 homens para a ação.

Tentativa de alinhar plano com comandante do Exército

A conversa revela o planejamento de Elcio Franco e de Ailton Barros nos atos golpistas, mostrando ainda a resistência e preocupação do então comandante do Exército, Freire Gomes, de ser responsabilizado pela tentativa de golpe.

“O Freire [Gomes] não vai [acatar ao plano golpista]. Você não vai esperar dele que ele tome à frente nesse assunto, mas ele não pode impedir de receber a ordem. Ele vai dizer: morrer de pé junto, porque ele tá mostrando [receio]. Ele tá com medo das consequências, pô.”

Em outro momento, Elcio fala que ao conversar com o ex-comandante do Exército, Freire Gomes traça a hipótese de receber algum tipo de “ordem por escrito”, ao que o trecho indica, do próprio Jair Bolsonaro, para atuar:

“Eu falei, ó, eu, durante o tempo todo [ininteligível] contra o presidente, pô, falei que não, não deveria fazer [supostamente uma tentativa de golpe], que não deveria fazer, que não deveria fazer e pronto. Vai pro Tribunal de Nurenberg desse jeito. Depois que ele me deu a ordem por escrito, eu, comandante da Força, tive que cumprir”, disse Elcio, simulando a justificativa que o comandante do Exército precisaria ter para aderir ao golpe.

Dar a liderança a Brigada de Operações Especiais

Em resposta a Elcio, Ailton Barros fala que precisaria convencer “o general Pimental”: “Esse alto comando de mque não quer fazer as p*, é preciso convencer o comandante da Brigada de Operações Especiais de Goiânia [Carlos Alberto Rodrigues] a prender o Alexandre de Moraes [ministro do STF]. Vamos organizar, desenvolver, instruir e equipar 1.500 homens.”

Depois, Barros combina com Elcio de que “até sexta-feira”, às vésperas do 8 de janeiro, ou o comandante do Exército, Freire Gomes ou o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro precisariam “fazer um pronunciamento” para mobilizar militares para atuar no golpe.

Planejam decreto de golpe e prender Moraes

“Então, o que que nós temos que fazer? Então até sexta-feira, até amanhã à tarde, então, fazer um pronunciamento. Ou o Freire Gomes ou o Bolsonaro, né? De preferência, o Freire Gomes. Aí será tudo dentro das quatro linhas. Não o sendo, vai ser fora das quatro linhas mesmo. Nós já estamos no limite longo da ZL. Não vamos ter mais como lançar [o plano de golpe]. Vamos ter que dar passagem perdida. E aí? Como é que vai ficar o Brasil? Entendeu?”.

O plano deles de supostamente atuar “dentro da quatro linhas [da legalidade da Constituição]” seria assinar decretos ou portarias para dar ordem ao comandante da Brigada de Operações Especiais de “prender o Alexandre de Moraes no domingo, na casa dele”.

“E aí, na segunda-feira, ser lida a portaria ou as portarias, o decreto ou os decretos de garantia da lei e da ordem, e botar as Forças Armadas, cujo comandante supremo é o Presidente da República para agir”, continuava Ailton Barros, no plano com o coronel da reserva Elcio Franco.

Elcio Franco na CPI da Covid

Em 2021, a CPI da Covid levantou informações de que enquanto era secretário na pasta da Saúde, ele atuou a favor da Precisa Medicamentos para a venda da vacina indiana Covaxin a clínicas privadas.

Ele também determinou a retirada da vacina de parceria do Brasil com a China, a Coronavac, produzida pelo Butantan, do primeiro Programa Nacional de Imunizações (PNI), apresentado pelo então ministro Eduardo Pazuello. Élcio também atuou com omissão nas primeiras tentativas da Pfizer de vender vacinas para o país.

Leia mais:

Por trás do golpe: todos os generais da República. Por Francisco Carlos Teixeira Da Silva, Professor Titular de História Moderna e Contemporânea/UFRJ, professor Emérito da ECEME, professor Titular de Teoria Social/UFJF.

 

O agravante de toda situação é que após o oito de janeiro não se deram as mudanças necessárias no setor de segurança institucional e de prevenção de crises

Militares do Exército e terroristas bolsonaristas

Militares do Exército e terroristas bolsonaristas (Foto: ABR | REUTERS/Adriano Machado)

247. - A compreensão plena, transparente, do golpe de Estado fracassado de 8 de janeiro de 2023 torna-se cada vez mais complexa com as novas revelações advindas do episódio dos vídeos revelados pela CNN, em 19 de abril, a fragilidade das instituições de garantia estratégica como o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), e a partir de agora – 3 de maio – com as ações em torno do "círculo interno" de poder, altamente militarizado, durante a presidência Bolsonaro.

Tornou-se claro que a ação do novo governo Lula da Silva foi, na área de segurança institucional, logo nos primeiros dias do mandato, lenta e, no mínimo, parcial. A confiança depositada no general Gonçalves Dias para criar um ambiente de convivência cívica, e também no ministro da Defesa José Múcio Monteiro, mostrou-se por demais otimista. Tanto o general Dias, como José Múcio – com apoio excedente do ministro do Exterior Mauro Vieira, preocupado com a "imagem" de fragilidade das instituições brasileiras no Exterior – buscaram, desde confirmada a eleição de Lula, defender um diagnóstico que apontava no pós-eleições, já em 30 de outubro de 2022, uma volta "gradual" e "sem traumas" à normalidade, sem a necessidade de um enfrentamento direto com o bolsonarismo.

Consideraram que o "perigo" bolsonarista, depois do segundo turno e, em especial, depois da apoteótica cerimônia da posse presidencial, começava a desmilinguir-se por si mesmo, como aquele "leite em pó que dissolve sem bater". Falharam, entretanto, em identificar a clara tentativa de golpe articulado pelo então ministro da Justiça no segundo turno eleitoral como uma ameaça direta de intervenção indevida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) visando anular os resultados da eleição presidencial. Tratava-se, claramente, de passar à continuidade real, concreta, as falsas argumentações sobre as urnas eletrônicas e bem como todo o sistema eleitoral brasileiro, explicitando o ânimo golpista do "círculo íntimo" do presidente, tratado na mídia como "Gabinete do Ódio".

O próprio Lula – que surge como aquele que mais entendeu a extensão, e as dimensões, do oito de janeiro – reafirmou que havia um "complô", uma inteligência geral do golpe, que se exigia punições para todos os envolvidos, denunciando uma completa "falha de segurança" no dia oito. No entanto, no GSI, na Abin e nas Forças Armadas, em especial no comando do Exército, a "Doutrina do Gradualismo" imperou até o oito de janeiro e, mesmo depois, só sendo questionada seriamente a partir de 19 de abril, quando da revelação da presença do ministro-chefe do GSI, e vários dos seus funcionários, não só presentes no Palácio do Planalto, como ainda interagindo com os depredadores invasores e que, mesmo em face das ilegalidades cometidas, não acionaram, em momento algum, o "Plano Escudo" de defesa integrada – Polícia Militar, Forças Armadas, PF e PRF - da capital federal e nem mesmo o "Plano Scooby", de defesa do Palácio do Planalto.

Lembramos que o Batalhão Duque de Caxias possui cinco companhias de pronta ação para defesa do palácio presidencial, cada uma delas com 200 homens e duas delas de choque, que, entretanto, permaneceram acontonadas, e inativas, na garagem do anexo do palácio. Na verdade, o "Plano Scooby" é um desdobramento do próprio "Plano Escudo", que abrange a proteção do conjunto da Praça dos Três Poderes, que não foi ativado por pedido seja do coronel Fernandes da Hora, comandante da Guarda Presidencial, seja pelo general Dutra, então chefe do Comando Militar do Planalto e, tampouco, pelo também então comandante do Exército, general Arruda.

Mas os órgãos federais cuja função precípua é a proteção e a prevenção de crises, como o GSI, não avaliaram as dimensões e os riscos da imensa aglomeração de populares com ânimo golpista desde sexta-feira (6/1) em Brasília. Já era, no sábado (7/1), calculada a multidão em cerca de 20 mil pessoas, das quais 4 mil se dirigiram ao Palácio do Planalto. Nesta marcha, foram "escoltados" pela própria PM do DF, então sob comando de Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro..

Houve a revelação da existência de 160 de vídeos não relatados – nos quais aparecem os funcionários do GSI em atitudes não adequadas junto aos depredadores – e que não foram apresentados ao próprio governo e à sociedade. A justificativa de que os vídeos estavam "sub judice" não parece convincente, em especial quando o próprio STF ordenou a total publicização do material.

Assim, a "falha de segurança" apontada corretamente por Lula da Silva, confirmada pela ação posterior do ministro da Justiça, pelo interventor federal Ricardo Capelli e a AGU com o ministro Jorge Messias, mostrou-se mais profunda e larga que o imaginado. Das três bases de sustentação do golpe de oito de Janeiro – (i) a multidão de depredadores financiados por empresários e transportados para Brasília, além da multidão concentrada no acampamento da Praça dos Cristais em frente ao quartel general do Exército; (ii) a ação e a inação no âmbito do governo do Distrito Federal, incluindo a PM e (iii), no entanto, foi na "terceira base", com os órgãos federais de prevenção de crises e de aconselhamento estratégico como o GSI e a Abin, mas também os serviços de inteligência das Forças Armadas, em especial do Exército, no caso do Centro de Inteligência do Exército/CIE (criado por meio do decreto nº 60.664, de 2 de maio de 1967, como "Centro de Informações do Exército", foi parte importante do aparato repressivo do Estado brasileiro, durante o regime militar), que se deram as "falhas de segurança" mais graves e vastas, como vemos agora nos vídeos liberados, e que acabaram por derrubar um ministro-chefe, e da "cota pessoal", do presidente Lula da Silva.

Devemos ter claro em mente que a "falha de segurança" apontada por Lula da Silva não se deu no vazio. Há causas e estas devem ser analisadas e corrigidas. Já sabemos que houve lentidão na substituição do quadro do GSI comprometido com o bolsonarismo. No entanto, tal "lentidão" – que segue em outros âmbitos do Estado – se deveu a "falha de diagnóstico" da situação política, cultural e social do Brasil.

A "Doutrina do Gradualismo", uma forma de apaziguamento com os setores radicais do fascismo, como no caso dos acampamentos ditos "patrióticos", fomentou a possibilidade de golpe. Tal "falha de diagnóstico", que envolve uma necessária análise teórica, histórica, política do momento em que o mundo passa, suas tendências formadoras de futuro, e o papel do Brasil em tais condições, não foi realizada. A imagem de um "inimigo interno", fomentada por formas de cooperação militar com outras nações, implica numa forte entropia das instituições dedicadas à segurança institucional.

A "falha de segurança" possui sua própria história. No conjunto de grupos de orientação da transição de governo, ainda no final de 2022, com ampla consulta à sociedade civil e suas entidades, a postura dos responsáveis pela área de Defesa, Segurança Institucional e Assuntos Militares foi de completa negação. Não foram criadas as comissões de estudos que existiram em outros campos/ministérios, não foram chamados os especialistas, não se consultou os programas de pós-graduação e os institutos de pesquisa especialistas em Defesa. De forma absolutista, tanto o designado ministro-chefe do GSI quanto o futuro ministro da Defesa, municiados pela "Doutrina do Gradualismo" – mesmo frente ao ardor golpista e terrorista representado nos "acampamentos patrióticos", incluindo a descoberta de planos terroristas para atacar o Aeroporto Internacional de Brasília – concluíram que estavam bastante bem informados para lidar com a "questão militar".

Assim, redigiu-se um documento, no âmbito do GSI, sobre as relações militares-governo Lula, curto e de pouca densidade, dando conta de pontos, denominados de forma absurda como "cláusulas pétreas", que deveriam ser respeitados pelo novo governo. Lá estavam os critérios de antiguidade, de avaliação e pontuação interna, de rodízio das Forças ("a vez" de se nomear alguém do Exército, Marinha ou Aeronáutica) e dentro das Forças o rodízio "de Armas no interior de cada Força" (por exemplo, "a vez" de nomear alguém da Infantaria, da Artilharia ou Fuzileiros Navais, etc.), a intocabilidade do sistema de ensino militar, o que, como bem assinala Celso Castro, inexiste frente a um único sistema nacional de Educação, a formação e atuação dos serviços de informações, ditos de inteligência – que insistem em vigiar a cidadania –, a garantia do papel da Justiça Militar, a salvaguarda de arquivos, etc.

Em suma, o documento saído do GSI e apresentado por Gonçalves Dias parecia bem mais um ultimato de embaixador das Forças Armadas ao novo governo do que um diagnóstico do setor. Em nome do "Gradualismo" nada foi alterado. Os quadros bolsonaristas não foram atingidos e as lealdades devidas aos três generais do Governo Bolsonaro (general Augusto Heleno, Ministro-Chefe do GSI; general Luis Eduardo Ramos, Ministro-Chefe da Secretária Geral da Presidência da República; e general Walter Braga Netto, ministro da Defesa e ex-companheiro de chapa pelo Partido Liberal com Jair Bolsonaro ) se mantiveram em campo, mesmo não sendo esta a corrente dominante no Alto Comando do Exército, preocupado, já então, com os profundos danos que a associação da instituição com o bolsonarismo gerava para o conjunto das Forças Armadas.

O resto é história: Brasília em escombros, a tentativa de forçar o governo a recorrer ao instituto da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), através do polêmico Artigo 142 da Constituição, e a possível paralisia do governo Lula, tutelado por um general designado pelo Comandante do Exército. Essa seria a nova indumentária do golpe no século XXI.

No entanto, a ação rápida de Lula da Silva, do Ministério da Justiça e da AGU, ao lado da construção legal fornecida pelo STF através do ministro Alexandre de Moraes, paralisou o golpe e a esperada "intervenção federal" via GLO não aconteceu. Mesmo que a resistência tenha custado momentos de rara exacerbação e enfrentamento entre o Comandante do Exército, general Júlio César de Arruda e o comandante militar do Planalto, general Gustavo Hnerique Dutra, de um lado, e o ministro da Justiça e o interventor federal Ricardo Capelli, de outro.

Ao longo da semana do golpe, a condição de comandante do Exército do general Arruda mostrar-se-ia insustentável. A agressividade contra ministros da República, a mobilização de tropas e blindados para proteger o "acampamento patriótico" em frente do quartel general do Exército e, a gota d'água, a negativa de remover o tenente-coronel Mauro Cid de um cargo de extrema relevância e de caráter estratégico para a proteção da capital federal (o Comando das Forças Especiais do país, sediado na próxima Goiânia) levariam a exoneração do general em 12 de janeiro, menos de uma semana depois do fracassado golpe e no mesmo dia que se expunha à público as dimensões do genocidio dos Yanomami.

O agravante de toda situação é que após o oito de janeiro não se deram as mudanças necessárias no setor de segurança institucional e de prevenção de crises conforme seria o esperado. Após algumas poucas exonerações, quase óbvias, voltou-se à "Doutrina do Gradualismo", já transformada numa espécie de ideologia das relações militares-governo Lula no âmbito do GSI, da Abin e das Forças Armadas, com a substituição na Secretaria Geral do GSI, do general Carlos Penteado pelo general Ricardo José Nigri, até então responsável pelas missões de paz e inspetor-geral das PMs, ex-oficial no gabinete do general Villas Bôas.

Da mesma, forma os vídeos comprovando o "congelamento' em ação do general Gonçalves Dias e demais funcionários militares do GSI foi considerado "classificado", e assim vedado ao público e autoridades. Somente após o "caso CNN", que guarda ainda fortes ligações com a periferia do bolsonarismo e com interesses muito maiores, e com o afastamento do general Gonçalves Dias e a intervenção decretada no órgão com a nomeação de Ricardo Capelli, começou-se, de fato, a um afastamento dos quadros bolsonaristas.

Por fim, opta-se pela manutenção do GSI – resta saber, se com a configuração prevista na sua criação, como um substituto da antiga "Casa Militar", conforme Medida Provisória nº 1.911/10, de 24 de setembro de 1999, do então presidente Fernando Henrique Cardoso – ou se continuará com seu papel militarizado e dependente de indicações do comandante do Exército. A firme atuação de Ricardo Capelli aponta para uma reformulação e, no entanto, a indicação do general Marcos Antonio Amaro para o cargo – que já ocupara entre 2015 e 2016, quando em face aos escândalos da espionagem norte-americana contra o Governo Dilma – foi extinto o GSI, reforça a prática anterior de considerar a segurança institucional uma "questão militar".