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domingo, 28 de agosto de 2016

Vídeo: A Farsa do Impeachment. A Batalha no Senado Golpista



"Em decorrência da crise econômica, da Lava Jato e da presença de Eduardo Cunha à frente da Câmara, abriu-se uma tripla janela de oportunidade. Michel Temer enxergou a chance de chegar ao poder. Os partidos conservadores vislumbraram a possibilidade de arruinar o PT, talvez para sempre. Os capitais viram a oportunidade de fazer um acerto de contas com os avanços sociais previstos desde 1988 e postos em prática, no ritmo homeopático conhecido, pelo lulismo. Por isso, a provável condenação de Dilma representa muito mais do que a perda de dois anos de estadia no Alvorada pela atual mandatária. Significa um golpe profundo contra a alma cidadã da Carta constitucional vigente." - André Singer

Leia o texto abaixo, de André Singer, sobre o curso do atentado parlamentar-golpista contra a Constituição....


Está em curso um atentado ao espírito da Constituição, por André Singer

Da Folha de S. Paulo (tambem no Jornal GGN)
Por André Singer
julgamento de Dilma Rousseff, cujo início efetivo teve lugar nesta quinta (25), no Senado, é mais importante pelo que oculta do que pelo que revela. A observância meticulosa dos dispositivos legais do processo faz parecer que tudo funciona de modo normal. Mas, por baixo da capa de legalidade, está em curso um atentado, que pode ser mortal, ao espírito da Constituição de 1988.
Os que têm paciência de acompanhar os debates entre a defesa e a acusação percebem que o tema de fundo é a política econômica desenvolvida pela presidente afastada no seu primeiro mandato. Os questionados decretos de suplementação orçamentária e pagamento do Plano Safra pelo Banco do Brasil, ambos de 2015, são meros pretextos para trazer à tona aquilo que realmente incomoda: os gastos de 2014.
Ocorre que tal conduta foi referendada nas urnas. Dilma acabou reeleita porque, apesar dos pesares, manteve o emprego e a renda dos trabalhadores, e isso não teria acontecido caso houvesse feitos os cortes que a ortodoxia econômica propunha. O fato de ter depois realizado o ajuste recessivo exigido, quando prometera não fazê-lo, é grave, mas não justifica o impeachment.
Se justificasse, Sarney precisaria ter sido afastado em 1987 e FHC em 1999. Respeitada a soberania popular, caberia ao eleitorado julgar, em 2018, o destino das forças políticas envolvidas no processo, tal como aconteceu em 1989 e 2002. Convém lembrar que, nos dois casos, a situação perdeu.
Mas, em decorrência da crise econômica, da Lava Jato e da presença de Eduardo Cunha à frente da Câmara, abriu-se uma tripla janela de oportunidade. Michel Temer enxergou a chance de chegar ao poder. Os partidos conservadores vislumbraram a possibilidade de arruinar o PT, talvez para sempre. Os capitais viram a oportunidade de fazer um acerto de contas com os avanços sociais previstos desde 1988 e postos em prática, no ritmo homeopático conhecido, pelo lulismo.
Por isso, a provável condenação de Dilma representa muito mais do que a perda de dois anos de estadia no Alvorada pela atual mandatária. Significa um golpe profundo contra a alma cidadã da Carta constitucional vigente. A maior demonstração está na PEC 241, que cria o teto para os gastos do Estado. Nas palavras do seu mentor, o ministro Henrique Meirelles, a 241 é nada mais nada menos que "a primeira mudança estrutural na questão da despesa pública desde a Constituição de 1988".
Até que ponto o conservador espírito de 2016 conseguirá desfazer o que foi acumulado em torno de 1988 só a luta real dirá. Mas convém a sociedade brasileira tomar consciência de que, por baixo dos formalismos senatoriais, há uma violenta ruptura em curso nestes dias.

segunda-feira, 7 de março de 2016

André Singer, na Folha: "A absurda condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor na manhã de sexta tenta mobilizar e compactar, numa ofensiva final, os que desejam derrubar Dilma e extinguir o lulismo. "

"Disse o delegado da PF, encarregado de expor as razões da medida, que a mesma foi tomada com vistas a preservar a segurança do próprio Lula. Mas é o contrário. Os confrontos em São Paulo teriam sido evitados se o ex-mandatário fosse convidado a depor com toda a tranquilidade em Brasília, como o fez de outras vezes. Afirmar que se procurava preservar a integridade do depoente não faz o menor sentido."


Batalha Final?

André Singer, na Folha

 Ao que parece o comando da Lava Jato, cujas formas decisórias ainda estão para ser esclarecidas, resolveu acelerar o passo e deflagrar o ato final da luta iniciada após a reeleição de 2014. A absurda condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor na manhã de ontem tenta mobilizar e compactar, numa ofensiva final, os que desejam derrubar Dilma e extinguir o lulismo. Veremos nas próximas semanas se será vitoriosa.
A investigação a respeito do ex-presidente pode estar embasada em critérios técnicos, conforme o defendido pelo representante do Ministério Público (MP) no Paraná para explicar o que está em curso. Só o tempo dirá. Mas a justificativa a respeito da condução coercitiva não para em pé.
Disse o delegado da PF, encarregado de expor as razões da medida, que a mesma foi tomada com vistas a preservar a segurança do próprio Lula. Mas é o contrário. Os confrontos em São Paulo teriam sido evitados se o ex-mandatário fosse convidado a depor com toda a tranquilidade em Brasília, como o fez de outras vezes. Afirmar que se procurava preservar a integridade do depoente não faz o menor sentido.
O juiz Sergio Moro certamente sabe o que se produziria se autorizasse o que autorizou. Era óbvio que haveria repercussão midiática nacional e internacional equivalente à da prisão de uma celebridade. Era esse efeito imagético que buscava.
Com todas as atenções voltadas para o factoide, houve difusão extraordinária das acusações formuladas pelo MP, associando Lula de maneira central ao escândalo da Petrobras. Fazê-lo um dia depois de, com o mesmo sentido, os meios de comunicação serem tomados pela suposta delação de Delcídio do Amaral criou massacre noticioso, o qual açula os ânimos antipetistas.
Na outra frente do tabuleiro, numa vingança clássica, o ex-líder do governo ressuscitou o impeachment. Ao afirmar que a presidente tentou interferir na Lava Jato, abre a porta para a oposição acusá-la de obstrução da Justiça. Até aqui era flagrante a inconsistência dos crimes de responsabilidade atribuídos a Dilma.
Por enquanto não há prova de que a acusação proceda. Por mais credibilidade que tivesse o delator, pelo cargo antes ocupado, trata-se só de sua palavra. Talvez por isso o esforço do Partido da Justiça (PJ), via João Santana, obter a incriminação das contas eleitorais.
O desfecho desta que parece ser a mãe de todas as batalhas dependerá de dois fatores. De um lado, a capacidade de o PJ dar materialidade às imputações lançadas contra Dilma. De outro, da temperatura das ruas, aquecidas pelas manifestações programadas pela direita e pela disposição de luta demonstrada por Lula ao se livrar da injustificada coerção policial.

sábado, 26 de dezembro de 2015

A explícita tendenciosidade da chamada "grande mídia" empresarial: As diferenças no tratamento da mídia ao PT e PSDB, por André Singer

   "O pagamento de R$ 60 milhões por parte da Alstom, como indenização por uso de propina no mandato do pessedebista Mário Covas em São Paulo (Folha, 22/12), a revelação de que a dobradinha Nestor Cerveró-Delcídio do Amaral remonta ao tempo em que ambos serviam ao governo Fernando Henrique Cardoso (Folha, 18/12) e a condenação do ex-presidente tucano Eduardo Azeredo a 20 anos de prisão (Folha, 17/12), por esquema análogo ao que levou José Dirceu à cadeia em 2012 (condenado à metade do tempo), confirmam que há dois pesos e duas medidas no tratamento que a mídia dá aos principais partidos brasileiros." - André Singer


Na Folha 
Por André Singer
Fonte: Jornal GGN
O pagamento de R$ 60 milhões por parte da Alstom, como indenização por uso de propina no mandato do pessedebista Mário Covas em São Paulo (Folha, 22/12), a revelação de que a dobradinha Nestor Cerveró-Delcídio do Amaral remonta ao tempo em que ambos serviam ao governo Fernando Henrique Cardoso (Folha, 18/12) e a condenação do ex-presidente tucano Eduardo Azeredo a 20 anos de prisão (Folha, 17/12), por esquema análogo ao que levou José Dirceu à cadeia em 2012 (condenado à metade do tempo), confirmam que há dois pesos e duas medidas no tratamento que a mídia dá aos principais partidos brasileiros.
Enquanto o PT aparece, diuturnamente, como o mais corrupto da história nacional, o PSDB, quando apanhado, merece manchetes, chamadas e registros relativamente discretos. O primeiro transita na área do megaescândalo, ao passo que o segundo ocupa a dimensão da notícia comum.
Isso não alivia a situação do PT, o qual, como antigo defensor da ética, tinha compromisso de não envolver-se com métodos ilícitos de financiamento. No entanto, o destaque desequilibrado distorce o jogo político, gerando falsa percepção de excepcionalidade do Partido dos Trabalhadores. A salvaguarda do PSDB pelos meios de comunicação reforça a tese de que o objetivo é destruir a real opção popular e não regenerar a República.
Note-se que o acordo feito pela Alstom não inclui os processos "sobre o Metrô, a CPTM e as acusações de que a multinacional francesa fez parte de um cartel que agia em licitações de compra de trens", diz este jornal. Os 60 milhões de reais ressarcidos dizem respeito só ao "contrato de fornecimento de duas subestações de energia". Será que o montante completo dos desvios, caso computado, não chegaria a proporções petrolíferas?
Se a mídia quisesse, de fato, equilibrar o marcador, aproveitaria o gancho para mostrar que juízes, procuradores e policiais, vistos em conjunto, têm sido parciais. Enquanto a máquina investigatória avança de maneira implacável sobre o PT, o PSDB fica protegido por investigações que andam a passo bem lento. Aposto que se uma vinheta do tipo "e o metrô de São Paulo?" aparecesse todo dia na imprensa, em poucas semanas teríamos importantes novidades.
O problema, contudo, pode ser mais grave. Hipótese plausível é que os investigadores poupem o PSDB exatamente porque sabem que não contariam com a simpatia da mídia se apertassem o cerco aos tucanos. Conforme deixa claro o juiz Sergio Moro no artigo de 2004 sobre a "mãos limpas" na Itália, a aliança com a imprensa é crucial para o sucesso desse tipo de empreitada. Trata-se de um sistema justiça-imprensa, que aqui tem agido de modo gritantemente seletivo.