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terça-feira, 23 de julho de 2019

Sobre táticas fascistas e a Operação Lava Jato, por Wilson Rocha Fernando Assis, Procurador Federal



“Chamo a atenção para o flerte da Lava Jato com uma estratégia fascista: promessa revolucionária, mobilização das massas, confusão entre Estado e sociedade”
Do Canal de estudos Justificando:

Wilson Rocha Assis: Há fascismo na Lava Jato?

Terça-feira, 12 de março de 2019
Wilson Rocha Assis: Há fascismo na Lava Jato?
Imagem: Procuradores da Operação Lava Jato.
Por Wilson Rocha Fernandes Assis, membro do Ministério Público Federal

A pergunta é grave, porque lança um anátema sobre a mais significativa ação do Ministério Público no combate à corrupção. Se a resposta é afirmativa e parte de um membro da instituição, o caso é gravíssimo, porque se atribui sempre algum nível de credibilidade à fala do insider. E a gravidade do libelo poderá lançá-lo a um ostracismo impiedoso. Feitas as contas, vamos à tarefa.
O fascismo é um fenômeno complexo, que sofreu os males de sucessivas apropriações, filiações, mutações e desdobramentos. Embora seja a Itália o berço do fascismo, foi a ascensão de Hitler na Alemanha que fez do fascismo um fenômeno mundial. Não havia racismo no arco-íris confuso de ideias políticas que Mussolini mobilizou. E não era possível antever as câmaras de gás em sua fala carismática. Mas a filiação de Hitler ao fascismo é um consenso histórico, responsável talvez pela carga semântica marcadamente negativa que gravita em torno da expressão.
Os múltiplos fascismos que pulularam no mundo tornam difícil a tarefa de discernir um ideário comum, embora, com certa facilidade, pudéssemos apontar, na década de 1930, os regimes de inspiração fascista. Não se tratava de uma forma de organização do estado, tampouco de uma teoria política. Era retoricamente revolucionário porque prometia uma radical transformação da sociedade, embora conservador em sua promessa de assegurar às classes altas e médias a manutenção da ordem e da moral tradicionais. Ensina Hobsbawm, em Era dos extremos, que “os fascistas eram os revolucionários da contra-revolução: em sua retórica, em seu apelo aos que se consideravam vítimas das sociedade, em sua convocação a uma total transformação da sociedade”; “denunciavam a emancipação liberal […] e desconfiavam da corrosiva influência da cultura moderna, sobretudo das artes modernistas” (p. 121).
Portanto, embora se trate de um fenômeno datado historicamente – em sentido estrito, o fascismo refere-se ao regime político inaugurado por Mussolini na Itália dos anos 1920 – há desdobramentos posteriores que mantém um núcleo semântico essencial, caracterizado pelo nacionalismo, pelo antiliberalismo e pelo anticomunismo. Na prática, expressava-se como um movimento de massas, articulado em torno de uma liderança política carismática que dispensava a institucionalidade política representativa. Retenho aqui a imagem essencial do fascismo: o machado envolto por um feixe de varas. Uma imagem simplificadora e unificadora da sociedade, direta e firmemente atada ao Estado, sem corpos intermediários ou subsidiários, inteiramente mobilizada ou instrumentalizada como ferramenta de poder.
As corporações tradicionais ralharam diante da ascensão fascista, exatamente pela dispensa de sua intermediação na construção do poder estatal. Registra Hobsbawm que “o único grupo que realmente lançou uma revolta contra Hitler – e foi consequentemente dizimado – foi o velho exército prussiano aristocrático” (p. 131). Sob o nazismo, o sistema de justiça adaptou-se à nova realidade política, substituindo o brocardo “nullum crimen sine lege” pela assustadora fórmula “nullum crimen sine poena”, sinalizando uma expansão do punitivismo estatal, em prejuízo dos princípios liberais clássicos.
Dito isso, a aproximação da Lava Jato com o fascismo certamente guarda dificuldades. Além do distanciamento histórico, há na atualidade um conjunto de atores e instituições inédito. Contextualizando, no limiar do século XXI, o neoliberalismo reformulou a administração pública impondo-lhe métricas de eficiência com pouca permeabilidade democrática. O ativismo do poder judiciário foi fomentado e, depois, aperfeiçoado em complexos processos de planejamento estratégico. A autonomização do judiciário foi tolerada na medida em que percebida como um instrumento de eficientização do próprio estado. Novos tempos, certamente.
A crise capitalista iniciada em 2008 fez crescer a insatisfação social e estimulou novas formas de ação política, com forte questionamento das instâncias tradicionais de representação. Novas formas de mediação social desafiaram os mecanismos tradicionais de intermediação política. Entra aqui o fenômeno radicalmente novo das redes sociais. No sistema de justiça, o mural da repartição, o edital, as portarias tornaram-se anacrônicos diante da velocidade e dos baixos custos das redes sociais. Para o Ministério Público, moldado constitucionalmente para a defesa da ordem democrática, tornou-se sedutor atravessar o caminho das representações tradicionais – partidos políticos e parlamento, sobretudo – para construir diretamente com o corpo social novos consensos democráticos. A burocracia bem formada, situada no topo da Administração, não resistiu à tentação e foi às ruas.
O capital institucional acumulado em décadas de atuação comprometida com a promoção de direitos não dispensou a instituição de fazer promessas revolucionárias para mobilizar as massas, a principal delas, o fim da corrupção. A promessa – efetivamente revolucionária – arregimentou setores heterogêneos da sociedade e o desiderato cumpriu-se com o fortalecimento dos setores da instituição encarregados da persecução penal e do combate à corrupção.
Até aqui, poder-se-ia discutir o acerto da estratégia, a efetividade dos instrumentos propostos ou os limites a serem observados pelo Ministério Público em sua interlocução direta com a sociedade. Mas não haveria que se falar em fascismo. A Lava Jato, embora ensaiasse, não havia ainda lançado um esforço sistemático de mobilização popular. A virada ocorre com o projeto das “Dez medidas contra a corrupção”. Tratava-se de um projeto de lei redigido nos gabinetes do Ministério Público Federal, mas apresentado à sociedade como um projeto de lei de iniciativa popular.
Lançada pela Lava Jato, a iniciativa é encampada pela cúpula da instituição e corre o Brasil financiada com recursos do Ministério Público Federal. Servidores públicos receberam incentivos funcionais para colher assinaturas em diversos espaços sociais. Procuradores da República viajaram pelo país divulgando o projeto de lei. Projeto de lei apresentado como de iniciativa popular, mas elaborado por funcionários públicos, divulgado em campanhas oficiais de marketing, com coleta de assinaturas financiada com recursos públicos. O paradoxo era evidente, mas também era conveniente. Tratá-lo como um projeto de iniciativa popular amarfanhava legitimidade à proposta e incrementava o capital institucional em meio a uma cruzada contra poderosos. Havia guerreiras e guerreiros sinceramente devotados na infantaria. Mas não houve cálculo estratégico. O Congresso Nacional acusou a manobra.
Não teço comentários sobre o conteúdo da proposta, apenas chamo a atenção para o flerte com uma estratégia fascista: a promessa revolucionária, a mobilização das massas, o apagamento da distinção formal e essencial entre Estado e sociedade. Não faltou o personalismo de um herói, o apelo aos valores tradicionais, o medo da classe média frente à crise econômica, os escândalos de corrupção desencadeados por um governo de esquerda. O avanço da operação policial-judicial proporcionou méritos concretos no combate à criminalidade, comparáveis aos de Mussolini. Ensina Hobsbawm que o fascismo foi “o único regime italiano a conseguir suprimir a Máfia italiana e a Camorra napolitana” (p. 131). A promessa da Lava Jato, para além das vicissitudes democráticas e contratempos históricos, estava lançada: doravante, não haverá crime sem pena.
No caso mais recente da fundação anunciada a partir do acordo dos membros da Lava Jato com a Petrobrás, duas questões chamam a atenção. Primeiro, a criatividade institucional. Segundo, a justificativa de que a nova entidade será gerida pela sociedade, em benefício da sociedade.
Há perigosas contradições no desenho institucional proposto. O item 2.4.1, (i), do acordo, prevê um desenho institucional que leve em consideração a autonomia de sua gestão em relação a grupos ou pessoas ligadas à política partidária. O item 2.4.6, por sua vez, reforça o fechamento da fundação ao modelo de representatividade democrática prescrito pela Constituição Federal quando estabelece que “não poderá atuar na fundação, em qualquer função, pessoa filiada a partido político ou que tenha sido filiada nos último 5 (cinco) anos, podendo o estatuto ampliar esta restrição”.
Já o item 2.4.1, (ii), pretende garantir a legitimidade da proposta por meio da pluralidade institucional de sua gestão, da transparência quanto ao critérios para tomada de decisões e pela ampla consulta e participação social.
Ora, os itens 2.4.1, (i) e 2.4.6 colidem frontalmente com o item 2.4.1, (ii), quando excluem da pluralidade institucional pretendida para a gestão da nova fundação grupos ou pessoas ligadas a partidos políticos. Vale lembrar que os partidos políticos destinam-se a assegurar, no interesse do regime democrático, a autenticidade do sistema representativo e a defender os interesses definidos na Constituição Federal, conforme artigo 1o., da Lei n. 9.096/95. Atento às entrelinhas do Acordo, vê-se que Lava Jato não apenas exclui os partidos políticos, agremiações centrais da vida democrática brasileira, mas pretende exatamente criar legitimidade em razão desta exclusão. O equívoco é tremendo.
Trata-se novamente de um flerte com o fascismo? Aproximações são possíveis, na linha do já exposto em relação ao projeto de lei iniciado pelo MPF. Justifico. O princípio da legalidade é provavelmente a maior contribuição do liberalismo clássico à democracia moderna. Ao prescrever a lei como meio e limite da ação estatal, o princípio da legalidade liberta o indivíduo do arbítrio, do capricho e das boas intenções – às vezes pouco refletidas – do gestor público. Por regra de cautela e por amor à democracia, é necessário cautela ao inovar. Quando a inovação surge sem esteio na lei, labora para afastar-se de controles institucionais democráticos e, ainda por cima, tem um forte componente de fortalecimento corporativo, acende-se a luz amarela.
A soma de recursos públicos envolvidos é vultosíssima e sua destinação a uma fundação privada exorbita as prescrições legais. A medida viola o princípio da legalidade e, portanto, os pressupostos teóricos do liberalismo político clássico. Doutro lado, falar em nome da sociedade, do povo ou da nação é sempre um ato solene, cercado de formalidades materiais e formais. Pretender a realização do princípio democrático por meio de referências pouco claras a “organizações da sociedade civil” não é suficiente, sobretudo quando evidenciada a atuação destas organizações subordinada aos poderes da corporação, no caso, do Ministério Público.
Bom, mas isso é fascismo? Pode-se dizer que houve no fascismo um grande esforço para dar a volta nos mecanismos formais de representação democrática, consolidando poderes que exorbitavam os limites da lei e feriam a democracia, em prol de transformações favoráveis no tecido social. Tudo foi feito em favor da sociedade. As vicissitudes e contratempos do regime democrático foram preteridas em prol da eficiência das instituições, segundo a visão privilegiada de um chefe. Dizia-se na Itália que “Mussolini fez os trens rodarem no horário”.
Por fim, para bem entender como o fascismo pode imiscuir-se em projetos inovadores de engenharia social, vale dizer que ele não é uma ideologia. Segundo Hobsbawm, “a teoria não era o ponto forte de movimentos dedicados às inadequações da razão e do racionalismo e à superioridade do instinto e da vontade”. A suposta banalização de seu uso não constitui um erro teórico, mas é expressão de sua natureza imprecisa e difusa. A identificação de suas características em fenômenos políticos contemporâneos demonstra a não superação da realidade histórica que marcou seu nascimento. Hoje, como na década de 1930, crises econômicas que ameaçam o status quo de grupos estabelecidos fazem emergir movimentos ao mesmo tempo reformistas e regressivos, que desafiam a democracia liberal.
A autocontenção é a maior virtude de quem exerce parcela do poder soberano. O fascismo, em suas múltiplas aparições, manifesta-se como estratégias inovadoras de expansão do poder, verdadeiramente criativas, capazes de contornar os meios tradicionais e, às vezes, precários pelos quais se manifesta a democracia liberal, em prol da aceleração do tempo histórico. Impelidos pelo clamor popular, pessoas e instituições podem contribuir com o avanço do fascismo das mais variadas formas. O indiferentismo técnico é um dos instrumentos mais trágicos de ação do fascismo, porque cega o indivíduo acerca das consequências mediatas ou imediatas de suas ações, dispensando-o de sua responsabilidade ética perante os seus semelhantes.
Ao perguntar se há fascismo na Lava Jato, o que se pretende é refletir sobre o processo histórico mais amplo do qual o Ministério Público Federal tornou-se protagonista. No fascismo histórico, havia boas intenções no esforço de eficientização dos processos sociais. Pode haver boas intenções na autonomização da Lava Jato e em sua institucionalização na forma de uma fundação privada. Mas há claro desrespeito às regras constitucionais da gestão da vida democrática. O fascismo é plenamente moderno ao propor a superação das velhas regras do jogo político democrático pela velocidade da relação direta e pessoal de um líder ou uma instituição com “a sociedade”. Sem paramentos, partidos políticos ou liturgia.
Havia fascismo antes das câmaras de gás.
Wilson Rocha Fernandes Assis é Procurador da República em Goiás
                                                                                             
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domingo, 27 de novembro de 2016

O XADREZ DO GOLPE: O homem que delatou Temer, por Luis Nassif



Introdução – características das grandes conspirações
GGN. - Conspirações políticas não se montam com o controle completo e acabado de todas as variáveis, obedecendo a um manual previamente definido.
Quando atua sobre realidades complexas, como o cenário sócio-político-econômico de um país, não há controle sobre todas as variáveis nem clareza sobre os desdobramentos dos grandes lances.
Jogam-se os dados, então, em cima das circunstâncias do momento, tendo apenas uma expectativa sobre seus desdobramentos.
Digo isso, para tentar avançar um pouco no Xadrez de Marcelo Caleró, o ex-Ministro da Cultura que denunciou Michel Temer de pressioná-lo em favor de benefícios pessoais a Geddel Viria Lima..

Peça 1 – jabuti não sobe em árvore

Em 2010 Caleró foi candidato a deputado federal pelo PSDB do Rio. Aluno de Direito da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) sempre chamou a atenção pela extravagância, mas jamais pela vocação do suicídio político. Fazia parte do time de yuppies que ascendeu na gestão Eduardo Paes.
Reagiu contra as jogadas de Geddel Vieira Lima e, provavelmente, se assustou quando este passou a jogar balões de ensaio para setoristas palacianos. Em tempos de grampo e de prisões indiscriminadas, jacaré nada de costas. E aí resolveu pedir demissão e denunciar as pressões.
Até aí, se tinha um Ministro neófito resistindo às investidas de boca de jacaré e gerando uma crise política restrita. Mas o inacreditável amadorismo político de Michel Temer transformou em início de incêndio, ao não tomar a decisão óbvia e imediata de demitir Geddel.
Aí ocorre o lance seguinte, a denúncia contra o próprio Temer na Polícia Federal, com o depoimento vazando para a empresa mal chegou no STF (Supremo Tribunal Federal). Imaginar espontaneidade em lance dessa amplitude é tão improvável quanto acreditar que jabuti sobe em árvore.
O desafio é saber quem pendurou o jabuti na árvore.
Peça 2 – o lance do partido da mídia
A melhor maneira de garimpar os antecedentes é através de um balanço rápido da repercussão:
·      O Jornal Nacional investiu contra Michel Temer com a mesma gana com que atacava Lula.
·      Época, o braço mais manipulável das Organizações Globo, depois da Globonews, registrou Caleró na capa, o sir Galahad do novo, em contraposição ao velho Geddel Vieira Lima.
Folha e Estadão vão a reboque. E todos trataram de poupar Eliseu Padilha, principal avalista do pacote de apoio à mídia.
No mesmo dia, em que o escândalo Geddel expunha o vácuo Temer, FHC aparecia nos jornais online – e no Jornal Nacional – falando do orgulho de ser PSDB, o PSDB representando o novo etc. E, como bom malaco, afiançando, com ar confidente, que a presidência seria de alguma das lideranças presentes. Mas não dele, é claro.
É difícil uma conspiração discreta com FHC porque ele não consegue conter a euforia nos momentos que antecedem o desfecho.
A delação de Caleró serve, portanto, para dois objetivos:
Objetivo 1 – enfraquecer substancialmente a camarilha de Temer.
Objetivo 2 – recolocar FHC no centro das articulações, como a alternativa para a travessia até 2018.
As circunstâncias ditarão os próximos lances, que poderá ser um Temer sem camarilha, sendo tutelado pelo FHC; ou um FHC assumindo a presidência para tocar o barco até 2018, tendo dois trabalhos a entregar:
1.     Completar o desmonte da Constituição de 1988, conquistando o limite de despesas e a reforma trabalhista e da Previdência.
2.     Implantar o parlamentarismo, ou outras alternativas de esvaziamento do poder Executivo e de poder do voto popular.
Peça 3 – uma explicação para a capa de Veja
Há dúvidas de monta sobre a capa de Veja, com a chamada superior informando sobre as acusações contra José Serra e Geraldo Alckmin nas delações da Odebrecht.
Três hipóteses foram aventadas:
1.     Veja começou a fazer jornalismo.
Não bate com a insuficiência de dados da reportagem. A rigor, há uma única informação, sobre a maneira como a Odebrecht repassava o dinheiro do caixa 2 para Serra através do banqueiro Ronaldo César Coelho.
2.     Dar um chega-prá-lá nos três presidenciáveis atuais do PSDB,.
Para deixar claro que o momento não é de disputa, mas de coesão em torno de FHC.
3.     Arrumar um álibi para os três.
É uma teoria um pouco mais complexa, mas que faz sentido.
Sabia-se que haveria dois tipos de delação das empreiteiras. A Odebrecht se concentraria nos financiamentos de campanha; a OAS nos casos de corrupção para enriquecimento pessoal.
Aì houve a intervenção preciosa do Procurador Geral da República Rodrigo Janot, cancelando as negociações com a OAS e provocando um enorme alívio nos advogados de Serra.
Com exceção de Geraldo Alckmin, há indícios robustos de que houve enriquecimento pessoal tanto de Serra quanto Aécio. Focando-se nos pecados menores, confere-se um álibi de isenção à Lava Jato e à mídia e, ao mesmo tempo, desvia-se o foco das investigações dos crimes mais graves.
Peça 4 – o enfrentamento da crise e o fator FHC
O quadro que se apresenta, hoje em dia, é ameaçador.
Na base, o agravamento da crise econômica, expandindo-se por estados e municípios. Os cortes nas políticas sociais, criando situação de fome para parcela expressiva dos beneficiários do Bolsa Família. Um endividamento circular das empresas, travando os negócios. E os grandes investimentos públicos paralisados.
Em cima desse quadro, um conjunto de medidas pró-cíclicas, agravando a crise econômica.
a.     O arrocho fiscal, aprofundando a recessão e ampliando o déficit fiscal pela redução da receita.
b.     A política monetária com taxa básica a 14%, inviabilizando qualquer possibilidade de novos investimentos.
c.     A política cambial provocando a apreciação do real e abortando a recuperação das exportações.
d.     O trancamento do crédito nos bancos comerciais. Não há crédito mais e trabalha-se com extrema cautela a rolagem das dívidas das empresas inadimplentes.
e.     A retirada de R$ 100 bilhões do BNDES, em um momento em que o endividamento circular das empresas paralisa a economia.
Em um ponto qualquer do futuro, haverá a necessidade de uma mudança de 180o na política econômica, com um choque fiscal – ampliando despesas e investimentos públicos -, flexibilização das políticas monetária e creditícia.
Um trabalho de recuperação da economia exigiria um conjunto de qualidades que falta a FHC:
1.     A proatividade para conduzir os diversos instrumentos de recuperação da economia.
Nos seus 8 anos jamais se envolveu no dia-a-dia da gestão política e econômica.
2.     Habilidade política para recompor a base de apoio.
Em seu tempo de presidência, o varejo da política era garantido justamente pelo quarteto que compõem a camarilha de Temer: Geddel, Padilha, Moreira Franco e o próprio Temer. No Congresso, o PSDB atual regurgita ódio e, no campo das ideias, é um mero cavalo das ideias mercadistas.
3.     Credibilidade para conduzir um pacto nacional.
Em todo o período de conspiração, FHC sempre estimulou a radicalização e o golpe. Jamais conseguiu entender que o único papel engrandecedor que lhe caberia seria o de um futuro mediador, no caso de recrudescimento da crise política. Pensa pequeno.
Peça 5 – o jogo de forças pós-Temer
Leve-se em conta que a fritura de Temer promoverá um racha na frente golpista.
A frente é composta pelo PMDB de Temer, PMDB dos caciques nordestinos, PSDB, centrão, PGR- Lava Jato e mídia.
A implosão do governo Temer significará restringir o grupo vitorioso e enfrentar, no Congresso, a reação do PMDB e do chamado centrão, além da oposição da esquerda.
Os 200 e tantos nomes da delação da Odebrecht não reporão de forma alguma a isonomia nas investigações da Lava Jato, pelo fato de incluir políticos tucanos nas delações. Pois a escolha dos investigados caberá exclusivamente a Janot.
O movimento de fritura de Temer acirrará mais as contradições do golpe, até que o aprofundamento da crise promova ou a conciliação ou o caos.
E aí será possível um pacto entre FHC e Lula.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Romero Jucá, articulador da conspiração golpista de Temer, agora age nas sombras

temer-juca
Denunciado em diversas investigações da Lava Jato, por suposto recebimento de propina, senador segue prestigiado e influente, no Palácio do Planalto e no Congresso
Por Bruno Lupion, no Nexo e no Outras Palavras
O senador Romero Jucá (PMDB-RR) conseguiu manter o prestígio sobre o Executivo, o Legislativo e seu próprio partido mesmo depois de ser acusado, por mais de um delator, de pedir propina a empreiteiras da Lava Jato e de ter sido flagrado em gravação sugerindo um “pacto” para tirar Dilma Rousseff do Palácio do Planalto e assim “estancar” a operação que investiga a Petrobras.
Na quarta-feira (20), o jornal “O Estado de S. Paulo” revelou que um ex-diretor da empreiteira Andrade Gutierrez, Flávio Barra, disse em delação premiada que Jucá o orientou a procurar o sócio de uma empresa de fachada, a Ibatiba, “para viabilizar o pagamento da propina”. Segundo Barra, um dos sócios da Itatiba, José Augusto Ferreira dos Santos, indicou a realização de contratos fictícios para transferir suborno relativo às obras para construir a usina nuclear Angra 3, no Rio.
O Ministério Público Federal afirma que a Ibatiba recebeu R$ 30 milhões de 2010 a 2012 das empreiteiras Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e OAS, e diz ser improvável que a empresa tenha prestado algum serviço em troca, pois “não declarou possuir qualquer funcionário e não efetuou qualquer pagamento a contribuintes individuais” no período. A defesa de Jucá afirma que a delação contém informações “falsas” e que seu cliente nunca teve intimidade com Santos.
A gravação de Machado e outras delações
Essa não é a primeira delação que acusa Jucá de pedir propina em obras públicas. Outro ex-executivo da Andrade Gutierrez, Flávio Gomes Machado Filho, também disse ter se reunido com Jucá, no gabinete do senador, e recebido pedido de propina de 3% para o PMDB a título de “custo político” da construção de Angra 3, o que ele também nega.
Jucá é um dos articuladores do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Em maio, enquanto o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AP) adotava uma postura mais equânime sobre o caso, Jucá defendia publicamente a queda da petista.
Onze dias após ter assumido o Ministério do Planejamento na gestão do presidente interino Michel Temer, contudo, Jucá deixou o cargo devido à divulgação de gravações em que ele defendia a realização de um “pacto” para “estancar” a Lava Jato. Os áudios haviam sido gravados em conversa com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, também delator.
Prestígio, porém, está mantido
Apesar de citado em delações e alvo de dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal na Lava Jato — um relacionado à Petrobras e outro à construção de Angra 3 —, e de ter deixado o governo em razão dos áudios de Machado, Jucá se mantém influente sobre o Planalto, o Senado e o PMDB. E segue procurado com frequência por servidores públicos que buscam reajustes de salário em meio à crise fiscal do governo. Acompanhe:
PALÁCIO DO PLANALTO
Jucá saiu do governo dizendo que iria se “licenciar” do cargo, apesar de essa figura jurídica não ser prevista para ministros. Na prática, foi exonerado e a pasta foi assumida pelo então secretário-executivo, Dyogo Oliveira, até que Temer decidis se sobre a volta ou não de Jucá ao posto. Oliveira permanece ministro até hoje.
Em 14 de julho, quase dois meses após Jucá ter deixado o Planejamento, a sala do gabinete do ministro permanecia vazia, em um sinal de “respeito” de Oliveira a Jucá, informou o jornal “O Estado de S. Paulo”.
Jucá também participou, como representante do Senado, de reunião do governo sobre meta fiscal de 2017 e segue influente sobre Oliveira.
SENADO FEDERAL
Jucá é segundo vice-presidente do Senado e um dos congressistas que ajudam na articulação do governo Temer na Casa.
Em julho, foi indicado por Renan para presidir uma comissão especialcriada para analisar temas considerados prioritários pelo presidente do Senado, como o que atualiza a lei sobre abuso de autoridade.
PMDB
Como atual presidente nacional do PMDB, Jucá participa ativamente da preparação do partido para as eleições municipais de outubro.
Em 12 de julho, reuniu-se em Brasília com 19 dos 27 presidentes dos diretórios estaduais da legenda sobre política de alianças, estratégias de financiamento e plataformas de governo.
FUNCIONALISMO PÚBLICO
Na estrutura do governo federal, o Ministério do Planejamento é o responsável por negociar reajustes salariais com o funcionalismo público. Servidores de diversas carreiras têm aproveitado a passagem de Jucá pela pasta e sua influência junto ao governo para pedir apoio a aumentos no holerite.
Os projetos de lei sobre reajustes que já tramitavam foram aprovados em julho pelo Senado, com impacto de R$ 67,7 bilhões até 2018. Outras 14 categorias, que ainda não haviam sido contempladas, conseguiram convencer o Planalto a enviar novos projetos de lei em seu benefício. Entre elas estão os auditores da Receita, que hoje ganham entre R$ 15,7 mil a R$ 22,5 mil, e passariam a ganhar, em reajuste escalonado até 2019, de R$ 22 mil a R$ 30,3 mil.
A proximidade de Jucá com demandas corporativas rende benefícios políticos ao senador. No último mês, ele publicou em sua conta do Twitter fotos com servidores e em apoio a reajustes salariais deauditores fiscaisdefensores públicos da Uniãoservidores federais que trabalham no Rio, militares de Roraima e do Amapá e servidores públicos não identificados.