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sábado, 5 de julho de 2025

CANÇÃO CRÍTICA: CONGRESSO DA MAMATA E INIMGO DO POVO COM A MANIPIAÇÃO DA GLOBO NO JORNAL NACIONAL

 

Do canal MR ED:




segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Programa O Espírito da Coisa, em vídeo, com o tema Espiritismo, o pensamento socialista e o antifascismo.

 

Do Canal da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita:

Dora Incontri e Sergio Mauricio entrevistam Alessandro César Bigheto e Marcio Salles Saraiva - ambos coautores do livro Espiritismo, Sociedade e Política - Projetos de Transformação. No livro, estão representados diversos matizes de pensamento espírita à esquerda, todos buscando inspiração em Kardec e em diálogo com correntes socialistas e anarquistas.


Conheçam o site Espíritas à Esquerda - http://espiritasaesquerda.com.br/ O link para a pré-venda do livro - https://editoracomenius.com.br/produc... Siga a ABPE no instagram: https://www.instagram.com/pedagogia_e...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Um recorte do Natal dos "cidadãos de bem" no Brasil bolsonarista...

 




quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Espiritualidade versus Religiosidade institucionalizada: O Sentido da Cruz e o Espírito da História: Especulações Filosóficas sobre o Cristianismo. Texto de Nathan Caixeta

 Unindo os diálogos, deixo pimentas espalhados pelos séculos de história para cozinhar o caldo dos leitores: É possível traçar uma linha condutora entre a Cruz e os eventos contemporâneos, dos quais destaco, a concentração da riqueza, o narcisismo individualista, a revolução tecnológica e, especialmente, a união entre fé e razão?

Biblioteca IBGE

Segue o texto de Nathan CaixetaPós Graduando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp, publicado no Jornal GGN

Nos últimos dias, tive a oportunidade de conversar com dois seres absolutamente marcantes na minha trajetória. O primeiro, Reinaldo Paublo, o pai que ganhei da vida, assim como, sua esposa Andréia e meus irmãos, Gabriel e Anderson, este último que nos presenteou com Lorena e meu sobrinho Rafael. O segundo, foram as conversas prodigiosas com Luiz Gonzaga Belluzzo a respeito de Hegel, Marx e o novo livro de Jürgen Habermas, o qual escolhemos não nos arriscar na leitura da edição alemã e esperamos a tradução para o inglês.

Reinaldo faz do tipo “paizão”, habita nele um coração que mal cabe em seu peito, embora sua experiência seja denunciada pelos cabelos brancos, misturados aos loiros que ainda lhe restam. Comungamos da mesma fé e sempre que nos encontramos, o papo vai e vem e acaba na mais deliciosa das discussões: o estudo e compartilhamento do espírito cristão. Sempre me despeço renovado, pois embora não tenha completado o seminário de teologia, o famoso “Juca”, amealhou tamanha reflexão sobre as escrituras que receber dele tal conhecimento é um deleite para os ouvidos e uma benção para o coração.

Discordando ao concordar, fomos do livro de Genesis ao Apocalipse, passando pelo Velho Testamento, perambulando pela história de Israel e dos povos gentis, e terminando na Cruz de Cristo. A pergunta que rodeou nossa conversa é a mais fundamental, e curiosamente a mais esquecida de todas dentre os círculos daqueles que hoje se denominam “cristãos”: “qual o sentido da morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo?”

Séculos de filosofia escolástica, rodearam estas questões, até que Nietzche, Freud e Darwin embalados pela revolução cientifica iniciada por René Descartes, entraram na conversa para cravar a aposta de Pascal como meio termo entre fé e razão. Nem tanto para lá, ou para cá, a questão está resolvida, justamente por ser ela indissolúvel em termos da filosofia metafisica, e mesmo da filosofia da história, que dirá da roleta russa lançada pela teologia moderna.

Belluzzo, por outro lado, me lançou uma indagação daquelas de arregalar mais que os olhos, perturbando os neurônios até que as palavras se reúnam num discurso minimamente coerente: como analisar a história das religiões, tal como empreendeu Weber, sem lançar mão da dialética histórica. Cheguei à conclusão que o método Weberiano, embora assertivo em seus termos finais, sofre de um problema gravíssimo: fechar a “gaiola da modernidade” na qual a liberdade e o sentido da vida mutilam-se mutuamente através do mero estreitamento gradual entre as dimensões materiais e culturais/religiosas da vida moderna. Ao falarmos sobre Habermas, auxiliados pelo artigo de Seyla Benhabib “Habermas’s new Phenomenology of Spirit: Two centuries after Hegel”, verificamos na intenção do último dos moicanos da Teoria Crítica, uma janela teórica fundamental: a abertura da gaiola Weberiana a partir da incorporação do Espírito da História hegeliano que oferece como fio condutor da modernidade rumo às ruínas, um sútil vórtice, percebido e avançado por Marx: são as categorias universais que em movimento de transformação conduzem e remodelam as categorias particulares. Logo, são as conquistas modernas de liberdade, igualdade, identidade e razão que se transformam em atores da contenda entre a manutenção da tradição e o atropelo do secularismo.

Unindo os diálogos, deixo pimentas espalhados pelos séculos de história para cozinhar o caldo dos leitores: É possível traçar uma linha condutora entre a Cruz e os eventos contemporâneos, dos quais destaco, a concentração da riqueza, o narcisismo individualista, a revolução tecnológica e, especialmente, a união entre fé e razão?

O relato da estruturação entre o espiritual e o social, oferece uma ligação fundamental com o ato da ressureição. O Sumo Sacerdote deveria entrar uma vez ao ano nas tendas em que estavam separados, homens, mulheres e crianças para então entregar a mensagem divina. As tendas separadas pelo véu, só poderiam ser rompidas pelo Sumo Sacerdote, amarrado por uma corda na cintura. Caso estivesse em pecado, ao entrar na tenda, o pecado recebia seu salário, abocanhando o Sacerdote para a morte. Caso contrário, o véu era rompido e a presença do Espírito Santo se manifestava enquanto a mensagem divina era repassada para o povo. A separação entre o espiritual e o social, tinha uma clara demarcação: o véu que cobria as tendas, não apenas representava a intermediação entre Deus e os Seres Humanos através do Sumo Sacerdote, mas profetizavam o fino corte realizado na Cruz.

Ao ser pregado na Cruz, Jesus, Deus-Filho, Deus-Homem, encarnou o perdão da humanidade, redimindo pelo sangue derramado todos os pecados do fruto do Éden até os mais imperceptíveis e inescapáveis desvios do caminho da salvação, somente redimidos pela graça de Deus, diria o Apostolo aos Romanos. Descendo ao Inferno, Jesus rasga o véu que separa o Homem de Deus, abrindo as portas para a descida do Espírito Santo no dia de Pentecoste. Ao rasgar o Véu, Cristo oferece a humanidade, as duas grandes marcas do mundo posterior a sua ressurreição: a liberdade, conferida pelo amor ao próximo e a Deus sobre todas as coisas; e a igualdade, pois todos somos redimidos por Cristo na Cruz, sob a graça do amor á Deus, condição única e irrestrita para a salvação.

Não por menos, quando a Ordem Revelada é absorvida pela Instituição da Igreja e o espalhamento e comunhão das religiões, a razão cede lugar à prisão da tradição político-religiosa. Precisamente, na modernidade, inaugurada com o rolamento da cabeça dos Reis, a liberdade e a igualdade retornam como promessas à humanidade, sob nova feição: como autoproclamação individual, desconectada de sua raiz espiritual e vendida como símbolo da conquista material. Aqui encontramos o ponto de contato. Da Cruz à Hegel, deste à Weber, de Weber à Habermas: a profecia de João no Livro de Apocalipse, hoje se encontra tão viva quanto os passeios do espírito da história. A adoração do próprio homem pelo próprio homem marcado pelo cifrão monetário conduz da Cruz ao estalido da trombeta pelo Arcanjo, a liberdade e a igualdade oferecida por Cristo, modificada pelo Narcisismo dos homens, entregam um destino múltiplo e desconhecido, embora com data marcada nos mil anos, transcorridos em um dia para Deus. A Gaiola Weberiana não se encontra, portanto, estreitada até esmagar os ossos da razão e da liberdade, mas se expande até não encontrar horizonte visível, pois, disse o profeta entregando a mensagem de Deus aos homens: Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo (Apocalipse, 3:20).

Adianto que esse texto é uma especulação nascida do ato da dúvida. Longe de mim, empurrar crenças aos corações dos leitores. Mas, neste novo ano, deixo como mensagem o que de Cristo recebi: o amor.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Espírito, espiritismo, espiritualismo: vida!

    Este país que nos consome ainda vivos, levando pouco a pouco a beleza que antes encontrávamos nas praças está desafiando a forças das nossas almas, e por isso hoje eu admito precisar de uma dose maior de espiritualidade em meus toques, ser por essa luz também tocada.



Texto da educadora e cientista social Ana Cláudia Laurindo, publicado no Repórter Nordeste


O país que me adoece e todos os dias me mata também obriga a construir saídas. Serão túneis cavados com as mãos na subjetividade exposta, para repouso e refazimento na fase aguda de desidratação das esperanças.

Em algum lugar eu vi anotei uma frase que se dizia pertencer à tradição Fula, e mesmo sem conferir se era verdade encontrei riqueza nela e aqui partilho por esperar acreditar mais fortemente que assim seja: “Maayde timminta wonki juutal balde hortinta hakkillê”, ou seja, “A morte não esgota a alma, a duração do tempo não retrai o espírito”.

A beleza da voz espiritualista movimenta ritmos em um coração ferido que se debate para vencer o medo, esta sabotagem interna da criação.

Desejo diário de abrir as janelas e sentir o vento entrar, renovando os recantos tingidos pela tristeza, essa indutora de mofo na criatividade que cancela a escrita!

Um dia já pensei que entre as boas coisas que a vida nos possibilita realizar a percepção da nossa integralidade funciona como o peso de um tesouro que a experiência aumenta, mas esta mesma vivência aguça dores esticadas, como verdades pontiagudas que nos ferem, não importando o ângulo de visão.

Eis a batalha íntima com este senso de finitude que engole conquistas sobre as quais debruçamos sono e lágrimas.

Este país que nos consome ainda vivos, levando pouco a pouco a beleza que antes encontrávamos nas praças está desafiando a forças das nossas almas, e por isso hoje eu admito precisar de uma dose maior de espiritualidade em meus toques, ser por essa luz também tocada.

Se enquanto seres humanos jamais retraímos a essência espiritual que nos acende, e esta característica pode nos fazer distinguir as diferentes potências energéticas que aguardam impulso e podem movimentar transformações, junto minhas emoções em preces nesta romaria de degredo político, econômico, cultural, hominal.

Hoje faço parte das massas que se amontoam em busca de um porvir como átomos de uma estrutura social feita de crenças e objetivações, mas preciso acreditar que isso ainda não é tudo.

Porque a morte está levando nossos sorrisos e o medo de perder já invadiu nossas moradas.

Se não for capaz de ouvir minha própria voz falando de vida, estarei imersa na mais bruta hemorragia de mim mesma, esvaindo os patrimônios discursivos em acelerados silêncios improdutivos.

Minha consciência enquanto espírito, onde andará? Ainda arde em mim aquela chama?

Em tombos encontro a questão 88 do Livro dos Espíritos, que pergunta e responde sobre algo que importa saber.

“Os Espíritos têm forma determinada, limitada e constante?”

“Para vós, não, para nós, sim. O Espírito é, se quiserdes, uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea”.

Freio o ritmo. Respiro um ar quente e me sinto parte da luz que se traduz em vida.

Enquanto existo em um país que me mata, posso outra vez ouvir a voz assertiva de uma sociologia espírita a dizer que “as posições fortuitas, circunstanciais e passageiras, nem sempre necessárias ou justas, não devem cegar-nos nem criar-nos impedimentos, porque a justiça não se cumpre em um instante de nossa evolução, mas no progresso eterno de nosso espírito”.1

Outra vez percebo a força libertadora que a luz transporta. Não preciso abrir mão da poesia. Pois “mesmo a morte é palingenesia renovadora: só nos parece quietude e estabilidade porque suspende funções que em uma parte mínima do real chamamos “vida”.” 2

Embora não coadune com nenhum tipo de justificativa para a ocorrência do genocídio brasileiro, busco resistir em força íntima na compreensão de que há sempre vida e por essa razão a luta contra a injustiça e o fomento à justiça social devem seguir em pauta.

E não haverá morte dentro de nós, mas um imenso arroubo de luz impulsionando a luta contra os mitos e as sombras.

 

  1. PORTEIRO, Manuel S. Conceito Espírita de Sociologia.
  2. _______________. Espiritismo Dialético.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Eu sei, a gente se acostuma, mas não devia.... Texto de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra

 



"Eu sei, mas não devia". Texto de Marina Colasanti recitado por Antônio Abujamra no programa Provocações da TV Cultura: Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra. A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Em memória à genialidade de Quino e sua inesquecível personagem progressista e anti-ditaduras militares na América Latina, Mafalda

 


Quino, o criador da Mafalda, morre aos 88 anos

Com Mafalda, Quino ganhou mundo e o mundo ganhou ideias progressistas. Ela e seus amigos tornaram-se um símbolo dos anos 60 não só na Argentina, mas geral.


El País

Jornal GGN Joaquin Salvador Lavado, artista gráfico conhecimento mundialmente como Quino, morreu hoje aos 88, na Argentina. Seus traços ganharam o mundo com sua personagem mais conhecida, Mafalda.

Quino nasceu em Mendoza, em 17 de julho e muito cedo iniciou sua caminhada como cartunista e humorista. Em 1954 publicou sua primeira tira no semanário “This is”.

Mundo Quino, seu primeiro livro de humor, foi lançado em 1963 e, em 1964, surge Mafalda, na revista Primera Plana. Com Mafalda, Quino ganhou mundo e o mundo ganhou ideias progressistas. Ela e seus amigos tornaram-se um símbolo dos anos 60 não só na Argentina, mas geral.

Vai-se Quino. Fica conosco sua obra e sua Mafalda.


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Pátria Queimada pelos fascistas do Brasil

 

"Enquanto Mourão perde tempo difamando o INPE e descredibilizando os dados científicos, o Brasil segue queimando. O governo precisa apresentar uma resposta concreta e na escala das queimadas que enfrentamos!"Ivan Valente




sábado, 11 de abril de 2020

Armandinho, o exemplo de Jesus e o absurdo dos "cidadãos de bem" que apoiam quem exalta torturadores....


 Jesus foi preso e torturado pelos "cidadãos de bem" conservadores e ricos, os líderes do Sinédrio em conluio com os interesses estrangeiros de Roma.... Foram esses que se tornaram os antepassados dos atuais "cidadãos de bem" do Brasil, conservadores, elitistas e apoiadores de um apologista da tortura e da ditadura militar....



O personagem Armandinho é uma criação do cartunista Alexandre Beck

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

"A Verdade vos Fará Livre": Samba-enredo da Mangueira mostra de forma clara que Jesus não estaria ao lado da intolerância nem da hipocrisia de "cristãos" que fazem arminha. "Não existe Messias de arma na mão!"






Vencedora do Carnaval do Rio de 2019, escola de samba reforça a história de luta de Cristo contra o estado opressor


Samba-enredo deste ano grita "A Verdade Vos Fará Livre" / Pedro Stropasolas


do Brasil de Fato

Samba-enredo da Mangueira mostra que Jesus não estaria ao lado da intolerância

Nara Lacerda
Brasil de Fato | São Paulo (SP)

EU SOU DA ESTAÇÃO PRIMEIRA DE NAZARÉ  / ROSTO NEGRO, SANGUE ÍNDIO, CORPO DE MULHER / MOLEQUE PELINTRA NO BURACO QUENTE / MEU NOME É JESUS DA GENTE
É dessa forma, em primeira pessoa, que o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira deste ano levará Jesus Cristo para a avenida. Com o título A Verdade vos Fará Livre, a composição provoca, mas foge do panfletário, ao colocar na letra uma verdade que parece tão óbvia e simples quanto esquecida: Cristo defendeu a igualdade, o fim da opressão, os pobres, desvalidos, julgados e criminalizados.
Após um 2019 de sucesso na Sapucaí, com um enredo que homenageava os esquecidos pela história brasileira, o espírito do barracão é taxativo: ninguém na comunidade duvida da força política do Carnaval. Manu da Cuíca, umas das compositoras por trás da narrativa poética que levou o título no ano passado, coloca novamente seu nome na história da escola.
Em conversa com o Brasil de Fato, ela explica porquê usar a figura de Jesus Cristo em primeira pessoa, que tipo de sensibilidade buscou para contar a história de um personagem tão recorrente e evoca a esperança de que desmontes nas políticas culturais, opressão e esquecimento por parte do poder público não têm a capacidade de diminuir a força de uma das manifestações culturais basilares da sociedade brasileira – o carnaval.
“Se fala tanto em Cristo, mas onde ele estaria hoje? Onde ele teria nascido? Ele teria nascido pobre. Ele poderia ter nascido na Mangueira. Se ele tivesse nascido no Morro da Mangueira, como é que seria sua história? O que o estado faz em geral com os jovens moradores de favela?”
NASCI DE PEITO ABERTO, DE PUNHO CERRADO

MEU PAI CARPINTEIRO DESEMPREGADO
MINHA MÃE É MARIA DAS DORES BRASIL
ENXUGO O SUOR DE QUEM DESCE E SOBE LADEIRA
ME ENCONTRO NO AMOR QUE NÃO ENCONTRA FRONTEIRA

PROCURA POR MIM NAS FILEIRAS CONTRA A OPRESSÃO
Durante a conversa, Manu expôs o comprometimento com que essas questões foram colocadas no samba-enredo, traduzido também em cuidado com a figura histórica e criatividade no enfoque.
“Jesus Cristo é uma figura muito cara para as pessoas, muito importante na história mundial. Não é fácil você falar de quem já foi falado tantas vezes.  A gente reforçou o que é de fato a história de Cristo. Cristo foi uma figura que nasceu pobre, lutou e se rebelou contra o estado e foi torturado e assassinado pelo estado. Foi uma pessoa que lutou pela inclusão e deu um sentido muito grande a palavra irmãos. A ideia de fraternidade e a ideia de partilha, que são ideias centrais na figura histórica de Cristo, a gente reforçou e colocou o samba em primeira pessoa, com uma ideia de pertencimento.”

Comunidade da Mangueira busca seu 21º título do carnaval carioca (Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato)
“Quantas chagas da opressão não são também as chagas de Cristo?”
EU TÔ QUE TÔ DEPENDURADO

EM CORDÉIS E CORCOVADOS
MAS SERÁ QUE TODO POVO ENTENDEU O MEU RECADO?
PORQUE DE NOVO CRAVEJARAM O MEU CORPO
OS PROFETAS DA INTOLERÂNCIA
SEM SABER QUE A ESPERANÇA

BRILHA MAIS NA ESCURIDÃO
Pertencimento é uma palavra muito presente no vocabulário de Manu. É com esse termo que ela explica como a comunidade da Mangueira abraçou o samba-enredo. Um sinal de que o povo nunca esqueceu que o Carnaval é um motor político.
“Os ensaios da Mangueira são muito comoventes. A galera está cantando com muita vontade de dizer que a gente precisa de partilhas e com a voz lá em cima. É um samba de todos nós. Eu sou uma das autoras do samba, junto com o Luiz Carlos Máximo, meu parceiro. Mas o samba pertence a muito mais gente do que nós.”
Se no Carnaval do ano passado o descaso do poder público em geral com as questões sociais – em especial a cultural – começava a dar mostras de que viraria prática de governo, agora já não há mais dúvida de que existe uma tentativa de enfraquecimento e desmonte.  Manu sabe que o Carnaval não pode e não vai ficar alheio a essas questões. Ela lembra que a maior festa popular do país sempre foi palco de críticas e quanto maior a opressão, mais criativa a reação é:
“As tensões, contradições e alegrias estão expressas no Carnaval. Sou foliã, gosto de sair no Carnaval, de cuíca, fantasiada pelos blocos, de uma maneira meio anárquica até. Porque eu acho que o Carnaval tem um pouco disso, tem um pouco de subversão, de você tentar fazer valer algumas figuras que não estão representadas durante o ano. Você faz uma inversão, pelo deboche, pela ironia, você tenta fazer provocações.”
Ao falar diretamente do governo municipal da cidade do Rio de Janeiro, a compositora ressalta que a comunidade exige respeito as suas manifestações populares.
“As pessoas não estão alheias ao que a gente está vivendo no país. O Carnaval vive dentro de uma sociedade que está explodindo de contradições, de tensões e com uma força cultural popular que absorve essas questões e tenta apresenta-las em forma de arte. Se posicionar não é uma opção, mas uma necessidade. A gente tem um prefeito que não respeita o Carnaval e ele tem obrigação de respeitar, porque ele é prefeito de uma cidade que tem a sua história misturada à história do Carnaval.”

Ensaio de rua da Estação Primeira de Mangueira (Foto: Pedro Stropasolas/Brasil de Fato)
Provocações levadas a sério na folia
Diante de toda essa reflexão, Manu afirma que as críticas certamente não estarão presentes somente no Carnaval da Mangueira. Em diversas linguagens e manifestações, a política deverá ser elemento presente na Sapucaí e em todo o país.
O recado da Estação Primeira promete ser uma página marcante dessa história, que já começa a se desenhar nos ensaios e pré-carnavais Brasil afora. A escola de samba vai levar à avenida um messias que se aproxima da humanidade e das questões cotidianas do povo: “Um Cristo que ouve o desabafo sincopado da cidade. O samba é o desabafo sincopado da cidade”
“O Brasil é um país em que muita gente se diz cristã e ao mesmo tempo é um país líder de desigualdade social, líder de assassinatos contra minorias, um país que comete muitas barbáries cada vez mais oficializadas. Talvez essa seja uma contribuição da Mangueira para essa reflexão. Tem alguma coisa aí que não bate com o que seriam os ensinamentos de Cristo. O Cristo vivo não estaria ao lado de quem aplaude ou finge não ver esses ataques”, assinala a compositora.
MANGUEIRA

SAMBA, TEU SAMBA É UMA REZA
PELA FORÇA QUE ELE TEM
MANGUEIRA
VÃO TE INVENTAR MIL PECADOS
MAS EU ESTOU DO SEU LADO

E DO LADO DO SAMBA TAMBÉM
Edição: Rodrigo Chagas

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O estranho mundo crepuscular que envolve os vivos em "O Fantasma da Sicília", por Wilson Roberto Vieira Ferreira


Em 1993 um jovem de 14 anos foi sequestrado pela Máfia siciliana como resposta ao seu pai, ex-membro da organização criminosa, que passou a delatar companheiros para a polícia. “O Fantasma da Sicília” (“Sicilian Ghost Story”, 2017) traz ao cinema essa história de uma forma inusitada, misturando a realidade brutal com fantasia onírica: elementos de romance adolescente, psicodrama gótico, fantástico e suspense político. A namorada do jovem estranha porque todos naquele vilarejo (da polícia local aos colegas de escola) são complacentes com o sequestro. Então ela passa a procura-lo não só no mundo físico, mas também com os olhos da mente. “O Fantasma da Sicília” abre para o espectador um estranho mundo crepuscular que envolve o mundo dos vivos: onde o mundo onírico se encontra com o plano astral. 



Há um mundo crepuscular no qual o mundo físico se encontra com o psíquico e com o astral ou espiritual – pós morte, como queiram. Dada uma conjunção de predisposição psíquica, personalidade e adversidades, qualquer um pode contatar essa dimensão repleta de sincronicidades, arquétipos, formas pensamento além de, claro, humanos mortos ou em projeção astral. 
Este Cinegnose já analisou vários filmes ambientados nesse mundo crepuscular: Donnie Darko (2001), Sonhando Acordado (2006), Ink (2009), Branded (2012), a série American Gods (2017-), The Frame (2014), entre outros – veja links ao final dessa postagem.
Mas nada parecido como o filme italiano O Fantasma da Sicília (Sicilian Ghost Story, 2017), uma narrativa que combina elementos de romance adolescente, psicodrama gótico, fantástico e suspense político. 
Uma estória vagamente baseada no caso real ocorrido em 1993 sobre um jovem chamado Giuseppe Di Matteo, cujo pai ex-membro da máfia siciliana, começou a delatar seus antigos colegas à polícia. A Máfia reagiu sequestrando Giuseppe e mantendo-o em cativeiro por quase 800 dias.
Os diretores e roteiristas Fabio Grassadonia e Antonio Piazza contam o drama de Giuseppe sob a perspectiva de uma adolescente, colega do jovem e apaixonada por ele. Ela tem dons artísticos com uma imaginação vívida, um comportamento disfuncional e contestador e uma incorrigível tendência de sonhar acordada.

Em outros termos, O Fantasma de Sicília é o encontro de um Conto Fantástico sobre um primeiro amor com um caso real de crime. Um mix de natural e sobrenatural, fantasia e realidade.
Tudo se passa num bucólico e aparentemente pacífico vilarejo siciliano, Sul da Itália: florestas com árvores frondosas, pacíficos lagos e a presença de animais, como uma onipresente coruja que parece observar a todas atribulações humanas.


Há uma realidade mágica circundante, um crime cometido pela Máfia. Mas também um sombrio pacto tanto da polícia local quando dos moradores com a Máfia – tentam ignorar o sequestro, enquanto a jovem apaixonada pelo seu primeiro amor tenta encontra-lo a todo custo.
Também uma estória de inconformismo tanto político como familiar – o próprio preconceito da sua mãe com o Sul italiano.
O Fantasma da Sicília consegue amarrar todos esses diferentes temas, do plano físico ao plano astral.

O Filme

Luna (Julia Jedilowska) é obcecada pelo seu bonito namorado, o jovem Giuseppe (Gaetano Fernandez) da maneira como todos os adolescentes tendem a ficar obcecados. Ela é atraída pela sua aparência arrojada, hipnotizada pelo seu comportamento encantador.
Os pais de Luna, e principalmente a mãe Loredana (Corinne Musallari), mandam ela se afastar de Giuseppe – há algum problema com a família dele envolvendo violência e assassinatos, embora seja uma família rica e com influência local.
Nas cenas iniciais juntos, Giuseppe parece algo intocável, entre um serafim ou uma fada, ao mesmo tempo perto e inacessível. Diferente da visão tradicional, Sicília no filme é mostrada mística, fria e fabulesca: borboletas voam para as mãos de Giuseppe, animais circundam o jovem casal na floresta. Um interlúdio lírico para algo terrível que está por vir.


Está claro que se criou uma relação onde o amor transcendeu para o espiritual. Por isso, para Luna pouco importa quem Giuseppe realmente é.
De um dia para outro, Giuseppe deixa de frequentar a escola. Preocupada, Luna não recebe respostas satisfatórias da família sobre seu paradeiro. Aos poucos, Luna vai percebendo que há algum tipo de cumplicidade de todo aquele vilarejo - simplesmente os professores, polícia e outros colegas da escola estão pouco preocupados com o sumiço de Giuseppe.
Sem a realidade dar uma resposta satisfatória do desaparecimento, a imaginação de Luna começa a assumir totalmente o controle e ela mergulha em um mundo onírico que mistura a realidade com a fantasia que atormenta mas, ao mesmo tempo, mantém a esperança viva.
Luna percebe que as pessoas criam obstáculos e estratagemas e se vê como a única no local a se importar se Giuseppe está vivo ou morto, a única que ousa entrar na escuridão em busca da mais tênue luz.

Símbolos crepusculares: a Lua e a coruja

O que segue na estória é menos um encadeamento lógico de eventos do que encontros evocativos em algum lugar entre os sonhos e um plano astral – em muitos momentos, Giuseppe no cativeiro vê-se a si próprio, como se o espírito apaixonado ainda tivesse esperanças, enquanto seu corpo enfraquecido jaz inerte na cama do cativeiro.


O filme é hábil em costurar sequências de horror, fantástico e lirismo com momentos de forte comentário social – como a da mãe de Luna obcecada por disciplina, organização e pureza – tranca-se regulamente numa sauna seca no porão da casa para “se purificar”. Na verdade, ela quer pegar sua filha e marido e mudar-se para o Norte do país para fugir daquele lugar infeliz: uma referência ao secular preconceito do Norte italiano industrializado contra o Sul “atrasado”. Como no Brasil, o “Sul maravilha” contra o Nordeste “ignorante”.
A dupla de diretores-roteiristas também explora bastante os simbolismo narrativos. Dois símbolos fazem a mediação entre o mundo físico e o crepuscular: a Lua e a coruja. Luna (Lua) é o nome da jovem protagonista inconformada com a cumplacência de toda aquela comunidade com a Máfia – a polícia é apática e outras crianças da escola acham que Giuseppe recebeu o que merecia. 


Dois símbolos crepusculares. Nesse universo arquetípico a Lua tem um duplo simbolismo: o feminino e da passagem da vida para a morte. Por atravessar fases diferentes, expressa os ritmos biológicos de transformação, crescimento, fecundidade, renovação. 
E também da passagem para a morte como um renascimento: ela parece que desapareceu e está morta. Para depois reaparecer e crescer em brilho.
Conectada com a coruja, a guardiã desse mundo crepuscular. Em O Fantasma da Sicília, as cenas são pontuadas pela onisciente coruja que parece observar as adversidades humanas. Ave noturna conectada com a Lua em diversas culturas, além da associação com a sabedoria. Mas uma sabedoria especial: a clarividência – a capacidade de ver os dois mundos, o físico e o dos mortos.
A grande virtude de O Fantasma da Sicília e conseguir juntar de forma delicada o realismo brutal e a fantasia onírica. Luna não está apenas à procura do garoto desaparecido no mundo físico: está à procura também com os olhos da mente – sonhos, devaneios e vislumbres dessa realidade crepuscular que envolve o nosso mundo.


Ficha Técnica 

Título: O Fantasma da Sicília
Diretor: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Roteiro: Fabio Grassadonia e Antonio Piazza
Elenco: Julia Jedlikowska, Gaetano Fernandez, Corinne Mussilari, Andrea Falzoni, Lorenzo Curcio
Produção: Cristaldi Pictures, Indigo Film
Distribuição: Pandora Filmes
Ano: 2017
País: Itália, França

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