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segunda-feira, 8 de março de 2021

Covid Prolongada e a miséria moral do poder na era da hipocrisia neoliberal em artigo de George Monbiot

 

Ciência identifica sequelas pós-pandemia. Algumas são devastadoras, rememoram um longo episódio de misoginia médica e expõem, em particular, insensibilidade dos governos e corporações que insistem na “volta ao trabalho e ao normal”

Por George Monbiot, no Guardian | Tradução: Antonio Martins

Talvez mais do que nunca, desde a I Guerra Mundial, tornou-se nítido que nossas vidas não importam a quem tem poder. Boa parte dos governantes sequer tenta disfarçar sua despreocupação e insensibilidade. Quase nunca mencionam, em especial, o espantoso número de mortos causado pela negligência diante da pandemia: reconhecê-lo seria admitir sua própria responsabilidade.

Mas nem só de mortes é feito o atlas da indigência moral. Também são vítimas aqueles que permanecerão por muito tempo com sequelas causadas pela covid-19. Já estão, provavelmente, na casa das centenas de milhares. Se as limitadas medidas de quarentena forem suspensas quando a vacinação estiver pela metade, pode haver centenas de milhares a mais.

As sequelas – ou “covid prolongada” – não poupa os jovens, os saudáveis ou os atléticos. Vitima mais as mulheres que os homens, mas pode se abater sobre qualquer um, inclusive as pessoas cuja infecção inicial parecia branda, e até mesmo os assintomáticos. Em alguns casos, a “covid duradoura” pode significar covid para toda a vida.

Os efeitos podem ser horríveis. Entre eles, danos aos pulmões, ao coração e ao cérebro, que podem provocar perda de memória e confusão mental, comprometimento dos rins, dores de cabeça severas, dores nos músculos e articulações, perda de olfato e paladar, ansiedade, depressão e, acima de tudo, fadiga. Todos deveríamos temer as consequências persistentes desta pandemia.

Covid prolongada é um nome genérico para uma série de condições. Alguns cientistas dividem-nas em três grandes categorias; outros, em quatro. Destas, uma parece tocar um alarme. É um conjunto de sintomas muito similar à encefalomielite miálgica, ou síndrome da fadiga crônica (SFC/EM). Trata-se de uma condição devastadora, que afeta aproximadamente 250 mil pessoas no Reino Unido [não há dados consolidados no Brasil] e é frequentemente causada, como a covid, por uma infecção viral.

Entre os sintomas comuns da SFC/EM estão fadiga extrema que não tem alívio com o descanso e “hipertensão pós-exercício”: mesmo esforços físicos ou mentais suaves podem deixar os pacientes muito esgotados. Muitos pacientes permanecem confinados em suas casas ou mesmo camas, com suas vidas sociais e familiares truncadas. Não há, até agora, um teste para diagnóstico, e nenhuma cura. Um estudo publicado no jornal Plos One, da Biblioteca Pública de Ciências dos EUA, descobriu que, de vinte condições observadas, inclusive câncer de pulmão, AVC, esclerose múltipla e esquizofrenia, os pacientes com SFC/EM relataram a mais baixa qualidade de vida relacionada à saúde.

No entanto, a SFC/EM foi miseravelmente negligenciada pela ciência e medicina. Um estudo publicado no British Medical Journal em 1970, e vastamente difundido pela imprensa, deu o tom das investigações científicas que predominaram por quase 50 anos. Ele minimizou as eclosões da doença, tratando-as ou como “histeria de massas”, ou resultado de diagnósticos imprecisos. Os pesquisadores foram incapazes de acessar um único paciente ou entrevistar um único médico. Suas conclusões estavam amplamente baseadas numa observação: a de que a síndrome afetava mais mulheres que homens. Portanto, eles concluíram, era provavelmente manifestação psicossomática.

Em outras palavras, não era ciência, mas misoginia. Nos anos 1990, a condição foi caracterizada por alguns médicos como uma “crença” e uma “pseudodoença”. Os pacientes foram tratados na mídia como fingidores, e sua doença apelidada de “gripe yuppie”.

Um estudo recente mostra que doenças cujas pacientes são predominantemente mulheres tende a receber menos recursos que aquelas que afetam homens. O esforço científico também é, em grande medida, função da efetividade das pressões dos pacientes. Um dos paradoxos cruéis desta condição é que a fadiga extrema causada por ela solapa a possibilidade dos pacientes para se mobilizar por melhores tratamentos.

Um estudo da Associação da Encefalite Miálgica do Reino Unido revela que por mais de 10 anos o país gastou apenas 10 milhões de libras [equivalentes a R$ 76 milhões] na pesquisa da doença – ou menos de R$ 300 por paciente. Em comparação, a pesquisa da epilepsia recebeu R$ 1500 por paciente, a artrite reumatoide, R$ 2200 e a esclerose múltipla, R$ 6000. Ainda hoje, alguns médicos recusam-se a crer nas queixas dos pacientes, minimizam seus sintomas ou prescrevem tratamentos sem comprovação ou danosos.

Para alguns pacientes, a condição que sofrem é uma “morte em vida”. O testemunho de pessoas que me escreveram é pungente. “Estou doente há 15 anos e perdi o casamento, a carreira e os amigos”. “Fui acamado aos 22 e alimentado por sonda desde 2004”. “Meu filho está na cama há 10 anos”. “A luta de 30 anos de meu pai (…) roubou-lhe o que teriam sido os melhores anos de sua vida”. “A pior coisa foi ser mandada a um psiquiatra porque não me acreditavam”. “Diziam constantemente a minha mãe que ela estava louca, fora de sua condição normal”. “Cada consulta médica é uma batalha”. “A luta por aposentadoria foi angustiante e quase me quebrou”. “Ninguém poderia ter me prevenido para a falta de interesse, o abuso e a negligência do mundo médico, científico e político”. Agora, com a covid, milhares de outras pessoas podem ter sido atingidas, no que um professor de medicina chama de “um tsunami pós-viral”.

Algumas coisas estão melhorando. O governo britânico financiou um grande estudo genético chamado DecodeME [referência à abreviação da encefalomielite miálgica em inglês]. São necessários 20 mil participantes. O Nice, órgão de padrões de saúde no país, atualizou seus manuais clínicos. Se algo de bom pode surgir da pandemia, pode ser maior reconhecimento e recursos para as pessoas com SFC/EM. Precisa começar – e é curioso ainda ter de dizer isso em 2021 – com os médicos dispondo-se a ouvir os pacientes e a levá-los a sério. Os tratamentos precisam basear-se em descobertas empíricas e não em ideias velhas e desacreditadas.

O Sistema Nacional de Saúde [NHS, uma das inspirações do SUS] está criando agora clínicas especializadas para tratar a covid prolongada. Mas alguns erros evidentes já começaram a ser cometidos. Sem os cuidados necessários, o NHS recomenda seguidamente níveis crescentes de exercício a pessoas que sofrem de fadiga pós-covid. Mas, como sabem os pacientes da SFC/EM que desenvolvem hipertensão pós-exercício, esta prescrição, ainda que soe intuitiva, pode ser altamente danosa.

Precisamos de programas intensos de pesquisa tanto sobre a covid prolongada quanto sobre a SFC/EM, em paralelo a melhor informação dos médicos. Mas acima de tudo, precisamos de algo que parece faltar há muito: governos que se importem.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Papa Francisco e as vacinas, agora tratada como meio de lucro de quem produz, transporta e distribuiu, e a caridade que humilha

 

“A vacina anti-Covid é o protótipo mais brilhante da “Klondike gold rush” da pandemia. Enquanto isso, ninguém mais fala da vacina como um “bem público global“. A vacina é um elemento que faz disparar para o alto, aliás para muito alto, o lucro de quem a produz, transporta e distribui. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades e não de acordo com os meios disponíveis. Mas acontece exatamente o oposto. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades das populações e não de acordo com os caprichos dos políticos. Mas, novamente, acontece exatamente o oposto”, escreve Alberto Bobbio, editor-chefe da revista Famiglia Cristiana, em artigo publicado por Eco di Bergamo, 05-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.



da Revista IHU On-line, republicado pelo GGN:

O Papa e as vacinas. A caridade que humilha


Eis o artigo.

As doses de vacinas desaparecem no conflito político ou não chegam em muitos países que não conseguem atender as garantias do mercado. Assim, no início de uma campanha global de vacinação nunca vista na face da terra, os problemas previstos parecem superar os benefícios esperados. Provavelmente o Papa Francisco está certo quando, ainda no domingo no Angelus, reiterou que as coisas vão melhorar se “trabalharmos juntos para o bem comum”. Ninguém, nem mesmo o Papa, sabe como tudo vai terminar, mas ele está absolutamente convencido de uma coisa: tudo irá bem se cada um de nós e todos juntos nos comprometemos a cuidar uns dos outros e da criação, que é a nossa casa comum. “Cuidar” será a palavra-chave para 2021, o segundo ano da pandemia.

No entanto, “cuidar” é um conceito que contrasta, para ficar no tema apenas da Covid-19, com outra desventura que muitas políticas de saúde e muitas regras econômicas impuseram e agora se espalham em nível global. Chama-se “nacionalismo sanitário“, uma espécie de corrida do ouro para garantir o melhor para si, fazendo tropeçar os vizinhos e mantendo distante os que já ficaram para trás. Bergoglio já vem dizendo isso há algum tempo, mas nos dias próximos ao Natal o repetiu com mais força.

vacina anti-Covid é o protótipo mais brilhante da “Klondike gold rush” da pandemia. Enquanto isso, ninguém mais fala da vacina como um “bem público global“. A vacina é um elemento que faz disparar para o alto, aliás para muito alto, o lucro de quem a produz, transporta e distribui. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades e não de acordo com os meios disponíveis. Mas acontece exatamente o oposto. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades das populações e não de acordo com os caprichos dos políticos. Mas, novamente, acontece exatamente o oposto.

No Peru, país da América Latina que registra um dos níveis mais altos de mortes em relação à população, as doses se perderam no embate político interno entre o ministério da saúde, o deposto presidente Vizcarra e o Congresso, que se acusam mutuamente de grandes confusões.

Nem um único frasco chegou à Nigéria, o maior país africano. Mas é toda a África que até agora está sendo deixada às margens: ela não tem garantias para oferecer ao mercado das Big Pharma.

A maneira de evitar acabar na areia movediça das finanças e, para muitos países, de ver sua dívida aumentar, seria desvincular todas as vacinas das propriedades intelectuais. Mas o petisco é saboroso demais para oferecê-lo de graça. A faixa de custo por dose é muito ampla, de US $ 2 a US $ 32 por dose. Mas ainda não se sabe quanto custam aquelas russas e chinesas. Depois, há custos e custos. São pagos em dinheiro vivo e influência geopolítica, sem regras ou com regras canalhas.

saúde é um bom negócio para investimentos colaterais de uma ampla cadeia de suprimentos, desde os transportes até a construção de edifícios e descontos sobre as matérias-primas. A logística é o setor que promete excelentes retornos. Como se mantém o controle de quem é vacinado em países onde não há nem mesmo registros de nascimentos? Já apareceram sujeitos garantindo a alguns países africanos resolver os dois problemas. Em troca de uma gorda compensação.

Aqueles que prometem vacinas gratuitas na ausência de uma autoridade de controle ​​supranacional costumam fazer o jogo do gato e da raposa contra o pobre Pinóquio. Um Ente internacional havia sido proposto por Bergoglio no Natal, pois a OMS estava com problemas a esse respeito mas ninguém, absolutamente ninguém, aceitou a sugestão, nem mesmo para criticá-lo. Sinal de que atingiu o ponto mais delicado. Isso não significa que os pobres não terão a vacina nos próximos meses. Significa apenas que a terão por esmola, caridade que humilha, e não pela solidariedade dos cuidados entre iguais.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Precisamos falar de morte… seja causada por coronavírus e/ou por necropolítica! Por Dora Incontri

 

Essas ondas de mortes coletivas, que nos angustiam tanto, são momentos que nos chamam a pensar na vida e na morte, nossa e do outro, lembrando que se há algo que nos iguala enquanto humanidade é a nossa finitude.


Precisamos falar de morte… por coronavírus e por necropolítica!

por Dora Incontri

No mundo contemporâneo, quase nunca se pode falar da morte. Não é de bom tom. A morte a gente hoje esconde, do luto muitos se envergonham. Antigamente, quando morria alguém próximo, carregava-se na roupa um sinal de luto. O doente morria em casa, cercado de familiares. Os velórios feitos na sala, todos participavam, inclusive as crianças. Hoje não. A morte fica à distância. Na UTI, a pessoa morre só. Os velórios, às vezes me choca, são lugares de conversas frívolas – só às vezes, quando parte alguém mais jovem ou mais tragicamente, ouve-se o pranto dos mais próximos. 

E de repente, a morte invade o mundo. Não que ela não nos visite todos os dias. Mas agora, são milhares diariamente, a ponto de faltar covas, a ponto de não termos números exatos. Já houve outras ondas de morte na história de séculos atrás ou na história recente: a peste negra, a peste bubônica, a gripe espanhola, as duas grandes guerras… Nesses momentos, os lutos são mais complicados, deixam marcas mais profundas. Morrer um ser amado num leito tranquilo, cercado pelos familiares em despedida (assim morreu minha mãe), é uma dor, mas uma dor pacífica, que se torna saudade amena. Mas perder um ser amado sem se encontrar o corpo mutilado numa guerra ou sem se poder despedir como se deve, como agora com esse coronavírus, aí a dor é mais angustiante e a marca depois terá de ser muito tratada, com assistência terapêutica e espiritual. É o que se chama luto complicado. 

Entretanto, essas ondas de mortes coletivas, que nos angustiam tanto, são momentos que nos chamam a pensar na vida e na morte, nossa e do outro, lembrando que se há algo que nos iguala enquanto humanidade é a nossa finitude. Todos vamos enfrentar esse momento. Uma pandemia apenas pode convocar algumas pessoas mais cedo do que o esperado, e convocar muito mais pessoas ao mesmo tempo. 

Pensar na morte faz bem, é educativo, é necessário – porque, como diria Renato Russo, é preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã. Quando temos sempre a consciência de nossa finitude, ficamos mais perto dos que amamos, criamos com mais visceralidade, preocupamo-nos em deixar as coisas terminadas e bem feitas a cada dia. E procuramos uma consciência que esteja em paz, para o grande dia da passagem.

Estou sendo fúnebre? Não, apenas a morte faz parte da vida. E agora nos lembramos disso todos os dias.

Para mim, que sou espiritualista e, mais especificamente espírita, a morte não é o fim, mas apenas um recomeço, uma passagem para outra dimensão da existência. Eu, que sou médium, tenho vivências diárias dessa outra dimensão e dos seres que lá habitam e que continuam nos seguindo de perto. Claro que essa convicção não nos exime do luto por alguém que partiu, mas nos consola e nos levanta o ânimo, lembrando do reencontro que virá, quando a nossa hora chegar.

Quando a morte se apresenta mesmo, não há como revidar, não há como fugir. Ela nos leva e ponto. 

Mas há outras espécies de morte – que podem nos afligir: a morte de nossos sonhos, a morte de nossas esperanças, a morte de projetos em que investimos suor e sangue. Todos os brasileiros, conscientes, lúcidos, estamos cientes do imenso número de mortes por coronavírus, que sequer são notificadas, mas também estamos sentindo a morte da nossa democracia (que nunca foi muito viva, na verdade), a morte de nossos projeto de país independente (que nunca foi realizado também), a morte de elementos civilizatórios em nossa sociedade. Bem no momento em que enfrentamos a onda de mortes coletivas no mundo e no Brasil, também temos que lidar com a morte de tudo aquilo que considerávamos princípios e marcos legais e sociais para sermos minimamente uma nação. Por isso, urge uma reação. Porque contra essas mortes, podemos lutar. Quando chega a nossa hora de partirmos dessa para melhor, não há o que nos segure aqui. Mas não somos obrigados a aceitar o decreto de morte de tudo o que nos é caro: a cultura, a arte, a cidadania, a educação, a ciência, o bom senso e o sentimento de sermos brasileiros. E ainda assim nos sentimos impotentes e por isso a sensação de luto é maior, parece incontornável. Precisamos sacudir essa passividade e nos mobilizarmos. Precisamos levantar a cabeça e não colocá-la sob a lâmina no carrasco. Enquanto seres humanos, vamos morrer, mais dia, menos dia; enquanto coletividade, sociedade, nação – o que fizermos hoje terá ressonâncias para nossos filhos e netos. Tenhamos compaixão do futuro e façamos a nossa parte, para tirar do poder os que o tomaram de assalto para destruir o país.

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sábado, 5 de setembro de 2020

Papa Francisco: o vírus vem de uma economia (e mentalidade política) doente(s)

 

I - Intgroldução de Leonardo Boff

Na audiência pública do dia 26 de agosto de 2020, como faz sempre às quartas feiras, o Papa Francisco fez uma fala orientadora para todos que estamos submetidos ao ataque do Covid-19. O Papa foi direto na ferida: este vírus é consequência de uma economia doente. Ela subsiste mediante a exploração das pessoas e da devastação da natureza, coisa que eu mesmo venho insistindo, na contramão da maioria dos analistas das mídias sociais sobre a origem do Covid-19. Consideram o vírus em si, como algo isolado que há que se exterminar, sem analisar o contexto em que se insere e por que foi causado: pelo sistema de produção que avança sobre a natureza buscando riqueza e criando injustiça ecológica e  injustiça social planetária. É um sistema anti-vida. Ou acabamos com ele ou ele vai acabar com a vida na Terra  incluindo a espécie humana como vários notáveis do mundo nos advertem, especialmente biólogos e ecólogos. Dada a clareza didática do discurso do Papa, o publicamos aqui pois é certeiro na análise e nos suscita esperança de que podemos criar uma relação amigável para com a natureza e a Terra, incluindo a todos na justiça, na paz e no amor.Leonardo Boff

II - Fala do Papa Francisco

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Diante da pandemia e de suas consequências sociais, muitos correm o risco de perder a esperança. Neste tempo de incertezas e angústias, convido a todos a acolherem o dom da esperança que vem de Cristo. É Ele quem nos ajuda a navegar nas águas tumultuosas da doença, da morte e da injustiça, que não têm a última palavra sobre o nosso destino final.

pandemia destacou e agravou problemas sociais, especialmente a desigualdade. Alguns podem trabalhar em casa, enquanto para muitos outros isso é impossível. Algumas crianças, apesar das dificuldades, podem continuar recebendo uma educação escolar, enquanto para muitas outras foi interrompida abruptamente. Algumas nações poderosas podem emitir dinheiro para enfrentar a emergência, enquanto para outras isso significaria hipotecar o futuro.

Esses sintomas de desigualdade revelam uma doença social; é um vírus que vem de uma economia doente. Precisamos dizer isso simplesmente: a economia está doente. Ela ficou doente. É o fruto de um crescimento econômico injusto – essa é a doença: o fruto de um crescimento econômico injusto – que ignora os valores humanos fundamentais. No mundo de hoje, poucos riquíssimos possuem mais do que o resto da humanidade.

Repito isso porque nos fará pensar: uns poucos muito ricos, um pequeno grupo, possuem mais que o resto da humanidade. Isso é estatística pura. É uma injustiça que clama ao céu! Ao mesmo tempo, esse modelo econômico é indiferente aos danos infligidos à casa comum. Não cuida da casa comum. Estamos perto de ultrapassar muitos dos limites de nosso maravilhoso planeta, com consequências graves e irreversíveis: da perda da biodiversidade e das mudanças climáticas à elevação do nível do mar e à destruição das florestas tropicais.

desigualdade social e degradação ambiental caminham juntas e têm a mesma raiz (cf. Enc. Laudato Si’, 101): aquela do pecado de querer possuir, de querer dominar irmãos e irmãs, de querer possuir e dominar a natureza e o próprio Deus. Mas esse não é o desígnio da criação.

“No início, Deus confiou a terra e os seus recursos à gestão comum da humanidade, para cuidar dela” (Catecismo da Igreja Católica, 2402). Deus nos pediu para dominarmos a terra em seu nome (cf. Gn 1,28), cultivando e cuidando dela como um jardim, jardim de todos (cf. Gn 2,15). “Enquanto ‘cultivar’ significa lavrar ou trabalhar […], ‘guardar’ significa proteger [e] preservar” (LS, 67). Mas atenção para não interpretar isso como carta branca para fazer da terra o que se quer. Não. Existe “uma relação de reciprocidade responsável” (ibid.) entre nós e a natureza. Uma relação recíproca responsável entre nós e a natureza. Recebemos da criação e damos algo em troca. “Cada comunidade pode tomar da bondade da terra aquilo e que necessita para sua própria sobrevivência, mas também tem o dever de protegê-la” (ibid.). Ambas as partes.

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De fato, a terra “existe antes de nós e foi nos dada” (ibid.), Foi dada por Deus “a todo o gênero humano” (CIC, 2402). E, portanto, é nosso dever garantir que seus frutos cheguem a todos, não apenas a alguns. E esse é um elemento-chave de nossa relação com os bens terrenos. Como recordaram os padres do Concílio Vaticano II, “o homem, usando estes bens, não deve considerar as coisas externas que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também aos outros” (Const. past. Gaudium et spes, 69). Com efeito, “a posse de um bem torna quem o possui administrador da Providência, para que dê fruto e partilhe os seus frutos com os outros” (CIC, 2404). Somos administradores de bens, não donos. Administradores. “Sim, mas o bem é meu”. É verdade que é seu, mas para administrá-lo, não para tê-lo egoisticamente para você.

Para assegurar que aquilo que possuímos agregue valor à comunidade, “a autoridade política tem o direito e o dever de regular o exercício legítimo do direito de propriedade em função do bem comum” (ibid., 2406) [1]. A “subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens […] é uma ‘regra de ouro’ do comportamento social e o primeiro princípio de toda a ordem ético-social” (LS, 93). [2]

Propriedade dinheiro são ferramentas que podem servir à missão. Mas facilmente os transformamos em fins, individuais ou coletivos. E quando isso acontece, os valores humanos essenciais são afetados. O Homo sapiens se deforma e se torna uma espécie de homo œconomicus – no pior sentido – individualista, calculista e dominador. Esquecemos que, criados à imagem e semelhança de Deus, somos seres sociaiscriativos e solidários, com uma imensa capacidade de amar. Muitas vezes nos esquecemos disso. Na verdade, somos os seres mais cooperativos entre todas as espécies e prosperamos em comunidade, como bem se vê na experiência dos santos [3]. Há um ditado espanhol que me inspirou essa frase, e é assim: florecemos en racimo como los santos. Florescemos em comunidade como podemos ver na experiência dos santos.

Quando a obsessão em possuir e dominar exclui milhões de pessoas dos bens primários; quando a desigualdade econômica e tecnológica é tal que dilacera o tecido social; e quando a dependência de um progresso material ilimitado ameaça a casa comum, então não podemos ficar parados, apenas olhando. Não, isso é desolador. Não podemos ficar parados e assistir! Com o olhar fixo em Jesus (cf. Hb 12, 2) e com a certeza de que o seu amor opera através da comunidade dos seus discípulos, devemos todos agir juntos, na esperança de gerar algo diferente e melhor. A esperança cristã, enraizada em Deus, é a nossa âncora. Sustenta a vontade de compartilhar, fortalecendo nossa missão como discípulos de Cristo, que compartilhou tudo conosco.

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E isso foi compreendido pelas primeiras comunidades cristãs, que, como nós, viveram tempos difíceis. Conscientes de formar um só coração e uma só alma, eles colocavam todos os seus bens em comum, dando testemunho da graça abundante de Cristo para com eles (cf. At 4, 32-35). Estamos passando por uma crise. A pandemia colocou todos nós em crise.

Mas lembrem-se: não se pode sair de uma crise iguais, saímos melhores ou saímos piores. Essa é nossa opção. Depois da crise, continuaremos com esse sistema econômico de injustiça social e desprezo pelo cuidado com o meio ambiente, com a criação, com a casa comum? Vamos pensar sobre isso. Que as comunidades cristãs do século XXI possam recuperar esta realidade – o cuidado pela criação e a justiça social: caminham juntas –, testemunhando assim a Ressurreição do Senhor. Se cuidarmos dos bens que o Criador nos doa, se colocarmos em comum o que possuímos para que a ninguém falte, então poderemos verdadeiramente inspirar esperança para regenerar um mundo mais saudável e mais justo.

E, por fim, vamos pensar nas crianças. Leiam as estatísticas: quantas crianças, hoje, estão morrendo de fome por uma má distribuição das riquezas, por um sistema econômico como eu disse antes; e quantas crianças, hoje, não têm direito à escola, pelo mesmo motivo. Que seja esta imagem, das crianças necessitadas com fome e falta de educação, que nos ajude a compreender que depois desta crise devemos sair melhores. Obrigado.

Notas:

[1] Cfr. GS, 71; São João Paulo II, Carta Encíclica Sollicitudo rei socialis, 42 Enc. Centesimus annus, 40,48).

[2] Cf. São João Paulo II, Carta Encíclica Laborem exercens, 19.

[3] “Florecemos en racimo, como los santos”: expressão comum na língua espanhola