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terça-feira, 28 de abril de 2026

Bandidos de Farda (3): Seis décadas depois, é desoberta uma uma vítima de est*pro por militares de extrema direita da ditadura. Reportagem de Juliana Dal Piva, Igor Mello e Chico Otávio para o ICL com base em documentação real

 


A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias.


Do ICL:






A vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada por três dias. Não era militante da luta armada contra o regime e nem sequer se envolvia com política, mas acabou capturada ao lado de três guerrilheiros da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi estuprada pelo menos duas vezes, uma na viatura do Exército, logo após a captura, e outra em um apartamento de Copacabana, usado como aparelho da ALN.

O estupro no imóvel, na Rua República do Peru 143, está descrito em informe sobre “Irregularidades na Seção de Operações”, de 12 de fevereiro de 1970, um dos mais importantes papéis encontrados no acervo pessoal do coronel Cyro Etchegoyen. O documento estava guardado dentro de uma pasta intitulada “Ordem dos gorilas” e com um desenho na capa.

Trechos do depoimento do sargento Sturne denunciando o estupro de Marilene

A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte.

Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias. Em nota, o Instituto Fernando Santa Cruz disse que “teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos”. Além disso, o IFSC vai atuar pelo reconhecimento oficial de Marilene como vítima da ditadura militar brasileira.

No depoimento que prestou a Cyro, o então sargento Israel Sturne, indignado com a atitude dos colegas do CIE, denunciou não apenas a violência praticada contra Marilene, mas o roubo sistemático, por parte de agentes, de bens encontrados com os presos políticos. Na segunda-feira (27), o ICL Notícias publicará novos dados sobre essa denúncia na sequência da série de reportagens.

Carteira de identidade de Israel Sturne

O documento interno descreve que as “irregularidades que estariam ocorrendo na seção de Operações (do CIE), a qual era acusada de praticar violências desnecessárias e excessivas durante os interrogatórios e de apropriação, para uso pessoal de seus integrantes, de objetos pessoais encontrados em aparelhos estourados”. Denominado “Resumo das declarações do sargento Sturne”, de 12 de fevereiro de 1970, o documento diz que, após ser presa na Tijuca, Marilene foi levada para outro local usado como aparelho pela ALN, em Copacabana, e foi estuprada.

Sturne descreveu a violência a Etchegoyen. “Consta que o sargento Iraci forçou a senhora Marilene a dormir com ele na frente dos demais”, relatou. Na sequência, ainda disse ter ficado absolutamente chocado com o episódio. “Sintetizando, disse que funcionalmente o fato que mais o chocou foi a limpeza no apartamento de Domingos e, do ponto de vista humano, chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene e com as torturas violentas observadas durante os interrogatórios”, completou Sturne. Segundo ele, o sargente Canaã também presenciou o crime. Sturne ainda definiu os colegas como “os piores sem sombra de dúvidas”.

O agressor descrito pelo colega é o sargento Iracy Pedro Interaminense Correa e Canaã é o sargento Jairo de Canãa Cony. Em 2014, em depoimento ao Grupo de Justiça de Transição do  Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, Iracy disse que serviu 15 anos no Exército e admitiu que trabalhou no CIE e que conheceu o coronel Cyro. Na ocasião, tanto Iracy como Canaã tinham sido apontados pelo tenente-coronel Paulo Malhães como os sargentos que atuaram com ele na operação para ocultar os restos mortais do ex-deputado federal Rubens Paiva, desaparecido desde janeiro de 1971.

Ao depor, Iracy negou a participação no crime. Questionado sobre seu trabalho, ele reconheceu que atuava junto com Canaã. “Esse Canaã ele era muito ligado na brigada. Então, era um companheiro meu da brigada. Ele era da minha equipe, mas eu não trabalhava quase com ele”, disse. “Eles iam sair, iam fazer a informação e eu ia cuidar da viatura e cuidar de rádio”, informou. Ambos também foram integrantes das equipes que atuaram nas torturas da “Casa da Morte”, de Petrópolis.

Inês Etienne Romeu, única sobrevivente a passar pelo local, também denunciou que foi estuprada ao longo dos três meses em que foi torturada no aparelho clandestino da ditadura. Ela acusou o soldado Antonio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, de tê-la violentado. Ele responde a um processo na Justiça Federal do Rio de Janeiro que aguarda apenas a sentença desde o ano passado. Camarão mora em Mogi das Cruzes, em São Paulo.

Canaã morreu em 1982 e Iracy em 2024.

Sequestrada por três dias

Marilene morava com os filhos e a avó centenária em um sobrado na Rua Tenente Villas Boas 16, na Tijuca. Ela era enteada do ator Modesto de Souza, um velho militante do PCB, que atuou em filmes como “Terra em transe”. Depois que o padrasto morreu, em agosto de 1967, o sobrado passou a ser usado como “casa de passagem” para os militantes da ALN chegados do treinamento de guerrilha em Cuba. A mãe de Marilene, Laura Santos Mello, organizava a acolhida em comum acordo com Zilda Xavier Pereira, sua amiga e uma das mais importantes dirigentes da organização guerrilheira.

A rua, estreita e sem saída, parecia uma vila de casas e prédios baixos. Um bom esconderijo para quem tramava contra o regime militar. O clima insuspeito do local era reforçado pela vizinhança, formada por famílias tradicionais, moradores pacatos e muitos militares. O tenente médico Amilcar Lobo, que seria denunciado anos depois por atuar nas sessões de tortura no Destacamento de Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, era vizinho de porta. Nunca desconfiou da existência do aparelho.

O ex-deputado Carlos Marighella, o fundador da ALN que chegou a ser considerado o inimigo “número um” do regime, frequentava o aparelho da Tijuca para se reunir com os militantes da organização. O líder sindical Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, que coordenou o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick, em setembro de 1969, esteve escondido no local. Ambos foram assassinados pelos militares naquele ano.

Hoje morando em Brasília, o ex-integrante da ALN Gilney Viana lembrou que passou alguns meses no local e conviveu com Marilene e os filhos. “Ela era, no máximo, uma simpatizante”, conta Viana, ao dizer que Marilene sabia que os hóspedes eram integrantes da oposição à ditadura.  “Foi o aparelho que eu fiquei mais tempo. De final de maio até o dia 2 de novembro de 1969″, relembra. “O Marighella, veja bem, eles tinham confiança nesse aparelho porque é um aparelho que normalmente era de trânsito”, explica.

Tanto Viana como o agora advogado Aton Fon Filho, outro integrante da ALN, recordam de encontros com Marighella naquele local. Aton agora vive em São Paulo, mas recorda de cada detalhe daquele 19 de dezembro de 1969.

“Tinha regra na organização: se tiver algo estranho, uma pessoa diferente, foge. Eu descumpri a regra. Subi e entrei. Quando eu entro na casa, a Linda Tayah já havia sido presa e estava sendo torturada numa banheira no banheiro lá dessa casa. Eu sou preso também. Subindo a escada. Eu tomo uns pontapés. Rolo escada abaixo”, relembra. Depois, Aton foi levado para a mesma banheira onde estava a colega da ALN. “Eles molhavam a gente e puxaram o fio de lá de cima do chuveiro elétrico para aplicar choques elétricos na gente. Então, as torturas começaram ali mesmo, na casa”, revela. Aton depois foi levado pelo capitão Maurício Lima para São Paulo e ficou preso até novembro de 1979. Ele não chegou a ver o que ocorreu com Marilene naquele dia.

Quem soube o que Marilene sofreu foi o sargento do Exército Israel Sturne. Ele integrava a equipe que, no dia 19 de dezembro de 1969, estourou o aparelho da ANL na casa de Marilene. No local, foram presos três nomes importantes da organização na cidade: Aton Fon Filho, guerrilheiro treinado em Cuba, que morava no sobrado, Linda Tayar e Domingos Fernandes, primeiro chefe militar da ALN carioca. Marilene foi levada pelos militares para o endereço onde ficava o “aparelho” de Domingos, em Copacabana. Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano” ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene”.

Fon Filho era um quadro importante da ALN. Meses antes da prisão, em junho de 1969, ele participou da ação que detonou uma bomba-relógio no elevador da Câmara Americana de Comércio, nos arredores do viaduto do Chá. O objetivo do atentado era protestar contra a missão do então governador de Nova York, Nelson Rockefeller, enviado ao Brasil pelo presidente norte-americano, Richard Nixon.

Na memória de Augusto dos Santos Mello, 61 anos, existe uma lembrança viva daquele dia. Ele é um dos cinco filhos de Marilene e hoje mora no interior do Rio de Janeiro com a mulher. Ele diz que saiu com Marilene para fazer a feira naquele dia e ela reparou em carros cheios de armas no caminho. Por isso, parou e resolveu telefonar para sua mãe em casa. “Aí quando volta, é o terror, né? Eu e meus irmãos fomos levados para uma sala no centro da casa, toda fechada, a portas fechadas, janelas fechadas e ficamos lá. Ficamos lá até eles saírem da casa e nos jogarem no vizinho”.

No entanto, ao longo do tempo em que os militares torturavam Aton, Linda e Domingos, as crianças ouviram tudo. “Eles encheram a banheira. Nós tínhamos uma banheira de encher com água. E torturavam com fios. Estupraram ela e tudo mais e bateram nela. E foi isso lá que aconteceu. A gente escutou”, relembra.  Depois, a mãe ficou desaparecida por cerca de três dias. “Quando nós voltamos para casa, a minha avó que foi tomar conta da gente”, explica. Augusto diz que a mãe retornou diferente. Calada, distante e por um bom tempo continuou assim. “Ela voltou meio afastada da gente”, revela.

Sobre o que aconteceu a ela no período em que desapareceu, Marilene guardou a dor por muito tempo. A única vez em que revelou parte da violência sofrida foi quando a família estava num carro e precisava passar por um túnel. “Ela só relatou depois de muito tempo, porque a gente tinha que ir visitar minha avó e tinha que passar pelo túnel. Ela não queria passar. Ela tinha trauma do túnel porque ela foi retirada de casa e foi estuprada dentro do túnel”, revela.

O militar Israel Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho, como diziam na época, e que lá era dividido em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.

Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai foi pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa aí para outra. Então, morei em Olaria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.

Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.

Segundo Reinaldo, esse foi o começo da retaliação contra o pai, que teve consequências para toda a família.

“Realmente ele se sentiu perseguido porque ele denunciou alguns colegas de farda. O pessoal estava ameaçando ele, praticamente. Tanto é que ele não tinha local fixo. Ele quase que não ficava com a gente. Passei minha infância todinha prejudicado porque não via meu pai. Ele não vinha pra casa para não expor a família dele a risco”, relembra.

Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.

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Vamos revelar o arquivo secreto do Coronel Etchegoyen com os crimes que os militares esconderam por 5 décadas

17/05, domingo às 20h

Documentário original





sábado, 1 de fevereiro de 2025

Rubens Paiva era torturado por assassinos sádicos da ditadura militar ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, por Urariano Mota

 

"Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

Do Jornal GGN:

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo.



Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos*

por Urariano Mota

Hoje pela manhã, enquanto seguia para um médico, disse à senhora  Francêsca:

– Não me sai da cabeça esta composição de Mozart – e tentei cantarolar, ou assassinar com a voz esta obra-prima

E continuei:

– Isso é bem melhor que Roberto Carlos, não é?

Ao que ela me respondeu:

– É. Aí já seria uma tortura.

Aquilo me ficou. Depois, enquanto esperava no consultório, me lembrei de que eu já havia escrito sobre Roberto Carlos e a tortura nos anos da ditadura brasileira. Ao chegar em casa, revi o texto de 2014, que volta à tona com o justo sucesso do filme “Ainda estou aqui’. Aos trechos.

Em mais de uma oportunidade já escrevi que podíamos escrever a história política do Brasil a partir do som da sua música popular. Assim foi, por exemplo, em páginas de Soledad no Recife, quando a ressurreição dos malditos anos da ditadura se fez sob a canção dos tropicalistas. (Ao que acrescento agora em 2025: assim é com o romance “A mais longa duração da juventude”, onde há discussões homéricas sobre os grandes compositores da música popular).

Mas jamais poderia imaginar, e aqui mais uma vez a realidade supera o imaginado, que a música popular fosse usada do modo mais vil, como o noticiado na imprensa dos últimos dias.

A informação consta de um depoimento escrito pela professora Cecília Viveiros de Castro, que esteve presa nas mesmas instalações que Rubens Paiva. Cecília estava então com 48 anos. Ela foi detida ao voltar de uma visita ao filho, Luiz Rodolfo, exilado no Chile

Com ela estava Marilene Corona Franco, cunhada de seu filho. As duas traziam cartas de outros exilados para suas famílias.  No prédio da Aeronáutica, elas ouviram gritos de um preso que estava sendo interrogado. ‘Era a primeira vez que constatava a existência dos horrores da tortura, tão negados pelo governo’, diz.

Em depoimento anexado pelo Ministério Público à denúncia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um salão ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um rádio foi ligado em alto volume. Tocavam ‘Jesus Cristo’, de Roberto Carlos…”

A notícia não informa, talvez em nome da objetividade, que o ex-deputado Rubens Paiva foi morto ao som de Roberto Carlos por diferentes razões na escolha das músicas. Tentemos um esboço aqui. Roberto Carlos, o Rei, veio na contramão, contrário à rebeldia política, em real estado de conformismo.

A “maioria silenciosa”, nela incluídos os jovens mais alienados do mundo, os pequeno-burgueses que apenas queriam uma razão de se dar bem na vida, em lugar de uma razão de viver, acompanhavam Roberto Carlos na canção “Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui / Jesus Cristo! Jesus Cristo! / Jesus Cristo, eu estou aqui … / Quem poderá dizer o caminho certo / É você, meu Pai / Jesus Cristo! Jesus Cristo!….”

As razões dos torturadores, que mataram um homem ao som de canções com extrema perversidade, não cabem no samba curto de um artigo. As pessoas nascidas nos últimos anos não sabem que no tempo da ditadura a música era também uma realização política, a música era uma concreção, o mais próximo de uma arma possível. O seu lugar na vida e no imaginário da juventude rebelde era um ato inalienável de combate.

Sei que os fãs do “Rei” vão dizer: “Roberto Carlos não tem culpa dos crimes da ditadura”. É verdade. Mas, por coincidência, a música de Roberto Carlos acabou por ser uma das mais representativas desses anos. O Rei não foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. Não. Roberto Carlos foi capaz de compor pérolas que realçavam o mundo ordenado pelo regime. Entre outras, o Rei compôs a canção que foi um hino, um gospel de corações vazios, um som sem fúria de negros norte-americanos. O Rei orou “Jesus Cristo, eu estou aqui”. Que profunda ironia para o nome do filme “Ainda estou aqui”.

É uma perversa vitória do real que esse crime expresse tão cruel o valor da música popular no Brasil. Roberto Carlos e Rubens Paiva, numa estranha associação que eles não queriam.

*Vermelho Rubens Paiva era torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos – Vermelho

Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “


domingo, 31 de março de 2024

LIVE ESPECIAL DE DOMINGO DO PORTAL DO JOSÉ SOBRE OS 60 ANOS DO CRIMINOSO GOLPE MILITAR DE 1964

 

Do Portal do José:




Portal do José: DOMINGÃO! 1964: 60 ANOS DA CANALHICE! MÍDIA NÃO ABORDA HONESTAMENTE! OS EFEITOS SOBRE NOSSOS DIAS!

 

Do Portal do José:

31/03/24 - O GOLPE DE 64 NÃO ESTÁ SENDO BEM ABORDADO PELA MÍDIA. POR UMA RAZÃO MUITO SIMPLES: FORAM CÚMPLICES. A ALIENAÇÃO E DOUTRINAÇÃO SISTEMÁTICA DE PARCELAS DE NOSSO POVO FIZERAM COM QUE O quadro atual proporcionasse uma figura abjeta como Bolsonaro. Nosso dever como cidadãos é manter nossas mentes e corações voltados a termos o nosso país como uma nação soberana e sem os problemas sociais que nos indignam tanto. Sigamos.



terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sobral Pinto, o homem de coragem que desafiou os ditadores militares brasileiros

 

A cineasta Paula Fiúza teve acesso aos arquivos do STM, palco de atuação frequente de Sobral Pinto, bem como nas Auditorias Militares.


Acervo Paula

O documentário sobre Sobral Pinto, Sobral: O Homem que Não Tinha Preço, conta a trajetória do advogado que foi atuante em vários momentos políticos brasileiros, da ditadura à constituinte. O documentário é fruto da vivência e pesquisa de Paula Fiúza, cineasta e neta de Sobral Pinto.

O filme foi feito a partir da descoberta de arquivos secretos de áudio do Superior Tribunal Militar com registros de defesas de presos políticos durante a ditadura. No documentário é evidenciada a luta incansável de Sobral Pinto por justiça.

Paula Fiúza teve acesso aos arquivos do STM, palco de atuação frequente de Sobral Pinto, bem como nas Auditorias Militares. “O STM é o melhor tribunal do país. Nesta hora em que há um medo generalizado, e medo justificado porque ninguém está garantido quando agentes de segurança podem apanhar qualquer um e sumir o cidadão, este STM não tem medo”, afirmou Sobral Pinto.

Sobral Pinto nasceu em 5 de novembro de 1893, em Barbacena (MG) e morreu aos 98 anos em 30 de novembro de 1991. Formou-se em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, que hoje é a Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O documentário traz depoimentos importantes de Luís Carlos Prestes e sua filha Anita Leocádia, de Zuenir Ventura e do próprio Sobral Pinto.

É o resgate da história do advogado que nunca se dobrou, colocou a justiça acima de qualquer ideologia e desafiou os ditadores brasileiros.

Veja o documentário no link abaixo.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Xadrez da intentona - conspiração militar contra a Democracia e o Estado de Direito, por Luis Nassif

 

A mídia precisa, definitivamente, defender a democracia e deixar de lado o temor reverencial em relação aos militares. 



Peça 1 – as peças do jogo militar


À medida que os fatos vão se somando, fica cada vez mais claro que a intentona de 8 de janeiro foi uma tentativa de golpe militar, assim como o bolsonarismo foi apenas uma capa para a tomada de poder pelas Forças Armadas.

Mostramos um apanhado de reportagens do GGN no post  10 reportagens para entender a volta do partido militar, por Luis Nassif

Artigo 1 – “Xadrez de Tarcísio, o super-ministro de Bolsonaro, e os negócios do poder militar”. De 06.12.2021

Artigo 2 – “Xadrez de como Braga Netto tentou operação Davati quando interventor no Rio”. De 01.08.2021

Artigo 3 – Xadrez para entender a história do cabo das vacinas. De 02.07.2021

Artigo 4 – “Entenda a Medida Provisória do governo que beneficiou vendedores de vacinas”. De 11.07.2021

Artigo 5 – “Militar envolvido com negociações da Covaxin ganha cargo no Exército”. De 11.08.2021

Artigo 6 – “Xadrez do fator militar”. De 21.09.2017

Artigo 7 – “Xadrez do caso Marielle e da luta pelo poder com Bolsonaro”. De 14.03.2022

Artigo 8 – “O Xadrez da guerra mundial entre os poderes”. De 18.11.2016

Artigo 9 – “Xadrez do governo Temer e o fator militar”. De 07.05.2016

Artigo 10 – “O Xadrez das vivandeiras dos quartéis”. De 17.10.2016

Peça 2 – os militares no golpe de 8 de janeiro

Agora, à medida que os fatos vão inundando o noticiário, fica nítido que a intentona de 9 de janeiro foi uma tentativa de golpe militar, do planejamento à execução.

Em algum ponto da história, vão aparecer as evidências da mão da inteligência militar na guerra híbrida que levou à criação do “mito” Bolsonaro e à sua vitória. Ou alguém, em sã consciência, acreditaria que o desenvolvimento de uma máquina sofisticada como aquela saiu da cabeça de Carlos Bolsonaro, o mais desequilibrado dos filhos de Bolsonaro?

Nos preparativos para a montagem do governo Bolsonaro – segundo me confidenciou um político com o qual jovens olavistas vinham se aconselhar – os militares entraram armados de dossiês. Em várias disputas de cargos, candidatos olavistas eram eliminados por dossiês preparados pela inteligência do Exército.

A ideologia militar começou a ser plasmada com base na ultra direita americana e nos livros do general General Sérgio Augusto de Avelar Coutinho, falecido em 2011.

O principal combustível para o ativismo militar, no entanto, foi Sérgio Moro e a Lava Jato. A partir da Lava Jato começa a atuação do general Villas Boas.

O golpe tem as seguintes digitais militares:

Ponto 1 – o questionamento das urnas eletrônicas pelo Exército.

Ponto 2 – a montagem de acampamentos em regiões sob comando do Exército, com familiares de militares compondo o grosso dos acampados.

Ponto 3 – a articulação nacional com financiadores, permitindo um modelo padrão de financiamento das ocupações. Depois, a maneira como houve a articulação do lúmpen – o pessoal barra pesada que pintou de todos os cantos do país. Note-se que foi um pacto entre militares, organizações criminosas atuando no garimpo, na Amazônia, CACs etc.

Ponto 4 – a ocupação dos 3 poderes, caracterizando um golpe de Estado clássico, como justificativa para uma operação da Garantia da Lei e da Ordem, que jogaria o comando em mãos militares. Na ocupação, misturaram a bandidagem com famílias – com crianças e velhos – para inibir a defesa e, provavelmente, pensando em produzir uma tragédia que fosse o estopim final do golpe. Note-se, aí, uma absoluta falta de escrúpulos até em relação às próprias famílias militares. Essa inteligência estratégica não brota do nada.

Ponto 5 – o fato do único local que não foi defendido ser o Palácio do Planalto, único sob segurança militar.

Ponto 6 – a proteção dada pelos militares aos invasores, no Palácio, e, depois, nos acampamentos, impedindo a entrada da Polícia Federal até que os acampados saíssem em segurança.

Aliás, é inacreditável a falta de escrúpulos de colocar familiares na linha de frente.

O golpe não deu certo pela ação fulminante do Ministro da Justiça Flávio Dino, intervindo na Segurança Pública do Distrito Federal, com o interventor assumindo de forma fulminante o comando da Polícia Militar.

Ponto 7 – o fato do Alto Comando não ter soltado uma nota sequer de condenação aos terroristas.

Ponto 8 – Bolsonaro ter tirado o time de campo antes de terminar o mandato, certamente com receio de pagar a conta do golpe em andament

A cada dia fica confirmada a hipótese de analistas militares, de que Bolsonaro não passou de um laranja para a implantação de um poder militar pelo voto.

Mesmo assim, o fato do golpe nao ter sido consumado mostra que se, de um lado, há conspiradores militares, por outro não se obteve a unanimidade para aplicar o golpe.

Peça 3 – a desmilitarização do governo

Ponto 1 – Assumir o controle dos sistemas de inteligência. Conforme o GGN publicou, o Comando de Defesa Cibernética do Exército (ComDCiber) e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) adquiriram sistemas sofisticadíssimos de monitoramento de redes sociais e de espionagem, sem nenhuma supervisão civil.

Ponto 2 – Lula assumir-se definitivamente como Comandante em Chefe das Forças Armadas. O primeiro passo foi dado, ao decretar uma intervenção civil contra o golpe de Estado. O segundo será colocar o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) sob controle de um civil. Por mais que o general Gonçalves Dias seja um militar honrado, o espírito de tropa é muito forte nas Forças Armadas, para um trabalho de conter uma conspiração essencialmente de militares.

Ponto 3 – a consolidação gradativa de militares legalistas na hierarquia das Forças Armadas. Obviamente não se acelerará esse processo com promoções baseadas na antiguidade.

Ponto 4 – a identificação dos militares golpistas. Em um primeiro momento, aqueles diretamente envolvidos com a quebradeira. Em um segundo momento, os envolvidos com o planejamento dos atos. O inquérito das fake news, conduzido pelo Ministro Alexandre Morais, já deve ter mapeado muita coisa. Será relevante um foco especial nos militares bolsonaristas, generais Braga Neto, Augusto Heleno, Luiz Eduardo Ramos e Paulo Sérgio.

Pela ampla reportagem do Fantástico, constata-se que o Quartel Geral do Exército, em Brasilia, abrigou criminosos com antecedentes, terroristas, que planejaram explodir um caminhão de combustíveis no Aeroporto. Mesmo após esses episódios, o Exército continuou defendendo os acampados.

Peça 4 – o papel da mídia

A mídia precisa, definitivamente, defender a democracia e deixar de lado o temor reverencial em relação aos militares. 

O off indiscriminado sempre foi uma das sete pragas do jornalismo. Como o jornalismo de clicks exige notas rápidas e constantes, passaram a proliferar não apenas as fontes em off, mas os coletivos. O repórter conversa com UM militar – ou nenhum. Pouco importa se é sargento ou general, se ganhou uma boquinha do governo Bolsonaro ou não. Qualquer declaração, por mais estapafúrdia que possa ser, ganha status e é publicada com destaque nos jornais, atribuídas a “fontes do Exército”. Vale o mesmo para “empresários”, “fontes do mercado”.

Mais que isso, essa falta de cuidados dos editores, e da pressão por notas, abre um amplo espaço para fontes inexistentes.

Por exemplo, Lula declarou que vai tirar os militares do Palácio por desconfiar deles. É óbvio que haverá militares insatisfeitos com as declarações. Logo, não haverá o menor problema se eu criar um militar genérico e atribuir a ele declarações que, certamente, algum militar poderia fazer. 

Como militar profissional não fala para a mídia, cria-se o viés de que as “fontes” – existentes ou não – são militares ativistas, conspiradores. E, aí, o jornal amplia o alcance das declarações, tratando-as como se fosse de um genérico Forças Armadas.

Analise os dois artigos abaixo. Selecionei porque são recentes e de jornalistas experientes, dos melhores que se têm na praça.

Desconfiança de Lula amplia crise com as Forças Armadas” saiu no Estadão.

Começa com uma frase bombástica:

“A desconfiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a atuação das Forças Armadas é vista na caserna como um pedido de divórcio litigioso”. 

Se é divórcio litigioso, e as Forças Armadas têm o poder das armas, acabou o governo. Dá para entender o poder das palavras mal colocadas? Não há nenhuma posição oficial no Alto Comando, nenhuma declaração em on.

 O absurdo não termina aí.

“Na economia, as Forças Armadas são contra a criação de uma moeda comum do Mercosul. A discussão já provocou ruídos. O governo alega que a ideia não diz respeito à adoção de uma cédula única, como o euro. As conversas giram em torno da possibilidade de se estabelecer uma moeda comum, que seria usada em negociações comerciais entre integrantes do bloco sul-americano. Mesmo assim, militares acham que a proposta fere a soberania nacional”.

Desde quando  as Forças Armadas opinam sobre política econômica? Conversa-se com um militar palpiteiro, ignorante no tema, cuja opinião – sobre economia – tem tanto valor quanto qualquer conversa de bar, e publica-se que “as Forças Armadas são contra a criação de moeda comum do Mercosul”. 

Daí, como o Estadão é sempre Estadão, traz de volta o espírito das vivandeiras dos quartéis:

“Passaram-se mais de seis anos desde então, mas a relação entre Lula, PT e Forças Armadas dá sinais cada vez mais claros de desgaste, que muitos consideram incontornável”.

O país institucional lutando ferozmente para a consolidação das instituições, e o jornal decretando um rompimento completo entre governo e Forças Armadas. E para quê? Para vender a ideia da Terceira Via. Não aprenderam nada.

O país nem saiu de um processo nítido de golpe institucional, e as vivandeiras dos quartéis voltam a explorar os velhos estratagemas antidemocráticos.

A segunda matéria é “Generais: Lula “queima pontes” ao falar que “perdeu confiança” em militares”. Quem é a fonte? Segundo a reportagem, um influente general da reserva com passagem pelo governo federal. Precisa mais? A reportagem transformou em verdade acabada a opinião de um general de Bolsonaro.

O ponto central é simples. Se a mídia quiser, de fato, cumprir com sua responsabilidade institucional, deveria seguir os princípios:

  • Só ouvir militar sobre temas ligados à defesa.
  • Condenar expressamente qualquer tentativa de golpe militar.
  • Acabar com esse anti-jornalismo declaratório, que ajuda apenas a desinformar e a ampliar a influência dos golpistas.