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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mensagem aos fundamentalistas que se dizem conscientes "cristãos", do pastor Ricardo Gondim: "Deus nos livre de um Brasil evangélico"



Deus nos livre de um Brasil evangélico

Ricardo Gondim
Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles em avenidas da cidade com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.
Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação à bobagem estampada publicamente; hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. Antes explico: eu gostaria de ver o Brasil permeado com a elegância, solidariedade, inclusão e compaixão do Evangelho. Mas a mensagem subliminar dos outdoors, para quem conhece a cultura do movimento evangélico, é outra. Os evangélicos sonham com o dia em que cidade, estado e país se convertam em massa, e a terra dos tupiniquins tenha a cara de suas denominações.
Afirmo que o sonho é que haja um “avivamento” religioso que leve uma enxurrada de gente para os templos evangélicos. Não reside entre os teólogos do movimento qualquer  desejo de que valores cristãos influenciem a cultura brasileira. Eles anelam tão somente que o subgrupo, descendente distante dos protestantes, prevaleça. A eles não interessa que haja um veloz crescimento numérico entre católicos romanos; que ortodoxos sírios, russos, armênios ou gregos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).
Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse a tal levedação radical do Brasil.
Imagino uma Genebra calvinista brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo nãoinglês, mas moreno. Caso acontecesse, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Respondo: seriam execrados como diabólicos, devassos e pervertedores dos bons costumes. Não gosto nem de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Um Brasil evangélico empobreceria, já que sobrariam as péssimas poesias do cancioneiro gospel. As rádios tocariam sem parar músicas horrorosas como  “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”.
Uma história minimamente parecida com a dos puritanos calvinistas provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?
Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse Charles Darwin como “alucinado inimigo da fé”. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos. Derridá nunca teria uma tradução para o português. O que dizer de rebeldes como Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, seriam pesquisados como desajustados. Ganhariam rótulos para serem desmerecidos a priori como loucos, pederastas, hereges.
Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. A alegria do futebol morreria; alguma lei proibiria ir ao estádio ou ligar televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada de várzea, aconteceria quando? Haveria multa ou surra para palavrão?
Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu. Basta uma espiada no histórico de Suas Excelências da bancada evangélica nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para se apavorar. Se, ainda minoria, a bancada evangélica na Câmara Federal é campeã em faltas e em processos no STF, imagina dominando o parlamento.
Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura estadunidense. Obcecados em implementar os “valores da família”, tão caros ao partido republicano dos Estados Unidos, recrudesceria a teologia de causa-e-efeito, cármica, do “quem planta, colhe”. Vingaria o sucesso como aferidor da bênção de Deus.
Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica. Uma nova elite religiosa (os ungidos) destilaria maldição contra os “inimigos da fé”, os “idólatras”, os “hereges”, com mais perversidade do que aiatolás iranianos. Ficaria mais fácil falar de inferno e mandar para lá todo mundo que rejeitasse algumas lógicas tidas como ortodoxas.
Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro perguntando: Como seria uma emissora liderada por evangélicos? Adianto: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.
Prefiro, sem pestanejar, os textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado, a qualquer livro da série “Deixados para Trás” do fundamentalista de direita, Tim LaHaye. O demagogo Max Lucado (que abençoou a decisão de Bush bombardear o Iraque) não calça o chinelo de Mário Benedetti.
Toda a teocracia um dia se tornará totalitária. Toda a tentativa de homogeneizar a cultura precisa se valer de obscurantismo. Todo o esforço de higienizar os costumes é moralista e hipócrita.
O projeto cristão visa preparar para a vida. Jesus jamais pretendeu anular os costumes de povos não-judeus. Daí ele celebrar a fé em um centurião, adorador no paganismo romano, como especial e digna de elogio. Cristo afirmou que, entre criteriosos fariseus, ninguém tinha uma espiritualidade tão única e bela como daquele soldado que se preocupou com o escravo.
Levar a Boa Notícia – Evangelho – não significa exportar cultura, criar dialeto ou forçar critérios morais. Na evangelização, fica implícito que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, como sempre fizeram. O evangelho convoca à pratica da justiça; cria meios de solidariedade; procura gestar homens e mulheres distintos; imprime em pessoas o mesmo espírito que moveu Jesus a praticar o bem.
Há estudos sociológicos que apontam estagnação quando o movimento evangélico chegar a 35% da população brasileira. Esperemos que sim. Caso alcançasse a maioria, com os anseios totalitários e teocráticos que já demonstra, o movimento desenvolveria mecanismos para coibir a liberdade. Acontece que Deus não rivaliza a liberdade humana, mas é seu maior incentivador.
Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Malafaia e mais uma de suas pérolas: "Não há intolerância na igreja evangélica por termos origem nos EUA..."



O impagável e verborrágico Silas Malafaia afirmou no programa "Na Moral", do Pedro Bial, na última quinta-feira, dia 01, que, entre outras pérolas,  "não existe intolerância na Igreja evangélica (em especial a dele) porque temos origem na igreja evangélica dos Estados Unidos, que é a maior nação democrática do mundo". 

Pois bem.... isso parece explicar toda a empáfia e arrogância malafáica e evangélico-pentecostal, pois a maior "democracia" dá muitas mostras de (in)tolerância: contra a divulgação da espionagem mundial, perseguindo Edward Sonowden; financiando golpes de estado, invasões de países; criando aberrações como a Ku-Klux Klan, o machatismo; a dissolução dos direitos trabalhistas em seu próprio país e, mais ainda, nos outros...

É fato que os Estados Unidos são uma grande nação. Em seu solo, centenas de grandes homens e mulheres deixaram sua marca na história humana. Mas se é verdade que este país nos deu um Thomas Jefferson, um Lincoln e um Franklin Roosevelt, nos últimos tempos também deu nascimento a um Nixon, a um Reagan, aos Bushes e a uma série de fundamentalistas político-religiosos com a ajuda da mídia...  Nos últimos cinquenta anos ficou cada vez mais claro que muitos dos fundamentos humanistas, próprio do pensamento de seus fundadores, da constituição americana vem enfrentado a força de interesses escusos de setores poderosos da economia e da religião com a primeira ligada,  a fim de fortalecer, implantar e exportar um pensamento economicista neoliberal conservador tanto nos Estados Unidos quanto no mundo.

Ah, sim, também exigem eles, na fachada, os direitos humanos nos outros, encobrindo Guantánamo  as prisões do Iraque, no Afeganistão, nas aulas de como se torturar nas ditaduras militares da América Latina, financiadas pelo Tio Sam...  Se é desta excelente cultura que surgem as "igrejas pentecostais midiáticas", maior deve ser nosso cuidado aos difusores destas ideologias norte-americanófilas, muitas das quais fascistas na tendência direitista conservadora, várias teocráticas, que pastores como este senhor representam... E se é verdade que no meio do evangelismo americano surgiram vozes nobres como a de um Martin Luther King Jr, houveram também a de monstros como Jim Jones, David Koresh, etc.

O mesmo discurso-ação (mais por verborragia vazia do que por riqueza de argumentos) de projetar nos outros seus próprios quefazeres pouco nobres é adotado por Malafaia, que diz que os "ateus" foram os que mais ódio e mortes provocaram no mundo... Esquece-se ele não apenas das inquisições (e as houveram protestantes também) e de Salém, mas também das invasões do império americano, muitas vezes com um discurso proto-religioso, como o ridículo Bush filho tanto fazia, da bomba atômica (as únicas lançadas sobre civis na história o foram por ordem e mãos de protestantes americanos), da agressão aos cultos não ocidentais, etc....

E quanto aos desinformados e mal formados pela Globo e pela Veja, que acreditam na "pobre" Yoani Sanchés que pode sair e voltar de Cuba falando mal do governo de lá, ou eles têm memória curta ela, a memória, foi condicionada a ser bem seletiva ao ponto de desconhecer a perseguição do governo americano a Julian Assange e a Edward Snowden pelo "crime" de revelar a espionagem americana contra sue próprio povo e contra outros governos, ou os incentivos para desestabilizar democracias ou outros tipos de governo pelo só afã de preservar seus próprios interesses nestas terras. Dai que o pentecostalismo fundamentalista  yankee tem tudo a ver com o fascismo golpista da extrema direita....

Carlos Antonio Fragoso Guimarães