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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

A Psicologia de Carl Jung: Reflexões para Tornar-se o Seu Verdadeiro Eu.

 

Do Canal Reflexões Quote:

Conheça um pouco da psicologia de Carl Jung. Neste vídeo, mergulhe na mente do renomado psicólogo suíço e descubra como suas teorias sobre o inconsciente, os arquétipos e a individuação podem transformar sua compreensão do eu e do mundo.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Leonardo Boff.- A misericórdia dos dois Franciscos: de Assis e de Roma



"O nosso inconsciente, pessoal e coletivo, guarda na forma de arquétipos e de grandes sonhos, estas experiências feitas sob as duas formas de organizar a experiência religiosa, sob a figura do pai e sob a figura da mãe. Como já Freud observou, elas constituem as bases psíquicas a partir das quais projetamos as nossas imagens de Deus seja como Deus-Pai, seja como Deus-Mãe.

"Além disso, esta figuras estão presentes em nós sob a forma de arquétipos seminais que nos acompanham durante toda a vida, Elas sempre vêm à tona por uma ignota saudade, pelo imaginário, pelas grandes narrativas, pela arte, pela música e por símbolos de toda ordem.

"Mas há uma outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã que nos remete ao tema da compaixão e da misericórdia. Era por onde São Francisco vivenciava a encarnação. Ela se manifesta pelo Deus que se faz criança, que não julga mas que choraminga e convive. Um Deus que se enche de compaixão e chora pela morte do amigo Lázaro; que “compadeceu-se de nossas fraquezas”(Hebr 4,15) e que “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo em solidariedade (compaixão) conosco”(Flp 2,7); que “soube compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque ele também está cercado de fraqueza”(Hbr 5, 5,2) e que “não obstante ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer pelo sofrimento”(Hebr 5,8). Eis os sinais de sua compaixão e misericórdia para conosco: a forma que o Filho tomou ao encarnar-se."

Segue o texto completo de Leonardo Boff:

A convite de confrades franciscanos escrevi a presente reflexão sobre a misericórdia que aqui publico.
É notória a presença da misericórdia na vida de São Francisco, para com os pobres, com os pecadores, com os confrades relapsos e para com os demais seres da criação, seus irmãos e irmãs. Caso se deva impôr alguma penitência, diz na Regra 7,2 que “se faça com misericórdia”. Na Carta aos fiéis 8,43recomenda ao superior que “manifeste e pratique tal misericórdia como gostaria que se lhe aplicasse a ele”. Por fim na Admoestão 27,6 afirma com verdade:”onde há misericõrdia aí não há dureza de coração”.
Até hoje calam fundo na alma as palavras do Testamento:”O Senhor mesmo me conduziu entre os hansenianos (leprosos) e eu tive misericórdia com eles”. Quer dizer, colocou-se no lugar deles, conviveu com eles e participou de todas as discriminações que na época os hansenianos sofriam.
Para São Francisco é por misericórdia que Cristo se fez presépio, se escondeu sob as simples espécies de pão e de vinho e nos visita na roupagem dos pobres dos caminhos.
A mesma centralidade da misericórdia encontramos no outro Francisco, aquele de Roma. Instituíu 2015/2016 o “Ano da Misericórdia”e escreveu o belo opúsculo “O nome de Deus é misericórdia”.
Disse enfaticamente: “O Deus de misericórdia, o Deus misericordioso para mim esta é de fato a carteira de identidade do nosso Deus”.
Efetivamente, o Papa Francisco está na linha da Tradição de Jesus, para quem Deus é fundamentalmente amor mas amor misericordioso que chega a amar “os ingratos e maus”(Lc 6,35). A misericórdia é a nota distintiva do Deus de Jesus Cristo e de todo o cristianismo.
Para Jesus não basta ser bom e observar todas as leis como o irmão do filho pródigo que ficou em casa com seu pai. Precisamos ser misericordiosos. O filho bom e fiel é o único a ser criticado porque não mostrou misericórdia para com o irmão que se havia perdido no mundo mas que, arrependido, voltara à casa paterna (Lc 15, 11-32).
Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica coloca a misericórdia como a forma mais alta do amor. Afirma que “a misericórdia é a virtude maior. Pois, faz parte da misericórdia derramar-se sobre os outros e o que é mais ainda – ajudar a fraqueza dos outros e isto é uma coisa de quem se econtra mais elevado. Por isso a misericórdia é precisamente atribuída a Deus como sua característica essencai; e diz-se que é através dela que sua onipotência se manifesta de forma melhor”.
E conclui com palavras semelhantes:”Entre todas as virtudes que tem a ver com o próximo é a misericórdia a mais elevada e a mais importante, porque tem também um status mais elevado; pois ajudar a fraqueza do outro é, em si, algo de mais elevado e melhor”.
O Papa Francisco reafirmou numa de suas homilías: “A misericórdia é a atitude divina que abraça; é o doar-se de Deus que acolhe, que se predispõe a perdoar”.
Nietzsche que disse tantas irreverências, afirmou em seu Assim falou Zaratustra, algo que merece ser refletido:”Também Deus tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens…Deus está morto, morreu por sua compaixão para com os homens”.
A invés de prolongar uma reflexão teológica mais acurada prefiro extender-me um pouco sobre os fundamentos antropológicos da misericórdia e a imagem de Deus que ela pressupõe.
                            A religião do Deus-Mãe: a misericórdia, a do Deus-Pai a justiça
         As imagens de Deus dominantes nas religiões atuais nasceram, em sua grande maioria, no quadro da cultura patriarcal. Nela a imagem predominante de Deus é aquele do Senhor do céu e da Terra, que dispõe de todos os poderes, justiceiro e Pai severo. Sua característica principal é a justiça.
Anteriormente vigorava a cultura matriarcal, uma das fases da história humana, vigente por volta de vinte mil anos atrás. A imagem de Deus era feminina, da Grande Mãe, da Mãe dos mil seios, geradora de toda vida. Produziu uma cultura mais em harmonia com a natureza e profundamente espiritual. A característica do Deus-mãe era a misericórdia.
O nosso inconsciente, pessoal e coletivo, guarda na forma de arquétipos e de grandes sonhos, estas experiências feitas sob as duas formas de organizar a experiência religiosa, sob a figura do pai e sob a figura da mãe. Como já Freud observou, elas constituem as bases psíquicas a partir das quais projetamos as nossas imagens de Deus seja como Deus-Pai, seja como Deus-Mãe.
Além disso, esta figuras estão presentes em nós sob a forma de arquétipos seminais que nos acompanham durante toda a vida, Elas sempre vêm à tona por uma ignota saudade, pelo imaginário, pelas grandes narrativas, pela arte, pela música e por símbolos de toda ordem.
Mas há uma outra imagem, presente na história das religiões e também na tradição judaico-cristã que nos remete ao tema da compaixão e da misericórdia. Era por onde São Francisco vivenciava a encarnação. Ela se manifesta pelo Deus que se faz criança, que não julga mas que choraminga e convive. Um Deus que se enche de compaixão e chora pela morte do amigo Lázaro; que “compadeceu-se de nossas fraquezas”(Hebr 4,15) e que “aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo em solidariedade (compaixão) conosco”(Flp 2,7); que “soube compadecer-se dos que estão na ignorância e no erro, porque ele também está cercado de fraqueza”(Hbr 5, 5,2) e que “não obstante ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer pelo sofrimento”(Hebr 5,8). Eis os sinais de sua compaixão e misericórdia para conosco: a forma que o Filho tomou ao encarnar-se.
William Bowling, místico inglês do século XVII, concretizava ainda mais a misericórdia de Cristo dizendo:”Cristo verteu seu sangue tanto pelas vacas e pelos cavalos quanto por nós homens”. É a dimensão transpessoal e cósmica da redenção.
O Papa Francisco numa audiência de 28 de outubro de 2015 enfatizou também esta dimensão cósmica da misericórida: “A misericórdia para a qual somos chamados abraça toda a criação que Deus nos confiou para sermos cuidadores e não exploradores, ou pior ainda, destruidores”.
Há um comovente midrash judaico (um relato) sobre o choro de Deus. Quando viu os cavaleiros egípcios com seus cavalos serem tragados pelas ondas do Mar Vermelho depois da passagem a pé enxuto de todo o povo de Israel, Deus olhou para trás e não se conteve. Chorou. E fez-se ouvir com voz clara:
“Os egípcios não são também meus filhos e filhas queridos e não apenas os descendentes de Abraão e de Jacó”?
É rica a tradição bíblica que fala da misericórdia de Deus. Em hebraico misericórdia significa ter entranhas de mãe e sentir em profundidade, lá dentro do coração o sofrimento dos míseros (ter um coração(cor) para com os míseros como o explicou o Papa Francisco certa feita).
O Salmo 103, um dos que pessoalmente mais aprecio, é nisso exemplar   ao afirmar que “Deus tem compaixão, é clemente e rico em misericórdia; não está sempre nos acusando nem guarda rancor para sempre…porque como um pai, sente compaixão pelos seus filhos e filhas porque conhece a nossa natureza e se lembra de que somos pó; sua misericordia é desde sempre e para sempre”. Haverá palavras mais consoladoras do que estas para os tempos maus sob os quais estamos vivendo?
Somente um Papa, vindo do fim do mundo, ousou dizer o que muitos teólogos vinham pensando mas não podiam expressá-lo.
Diante dos novos cardeais surpreendemente lhes disse: ”Não atemorizeis os fiéis com o inferno como sempre foi feito na história da Igreja. Deus não conhece uma condenação eterna.”
Numa outra homilía reafirmou:“nenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la”.
                          A misericórdia da Santíssim Mãe de Jesus
Estas afirmações tão contundentes do Papa me remetem a um apócrifo tardio, do século IX, mas fundado numa tradição antiga, muito popular na piedade russa, chamado O apocalipse da Mãe do Senhor.
Como é sabido pela pesquisa, hoje em dia está em voga o interesse pelos apócrifos, aqueles evangelhos não oficiais que têm mais a ver com a cultura popular que utiliza antes a fantasia do que a razão para realçar o significado da mensagem de Jesus.
Não devemos menosprezar a fantasia porque ela traduz, à sua maneira, a verdade e, por isso, têm seus direitos.
O referido apócrifo é profundamente comovedor e mostra o triunfo da misericórdia divina sobre a justiça. Ele comprova, um vez mais, que para o Deus da misericórdia não existe uma condenação eterna. Ei-lo:
“A santa e gloriosíssima Senhora, mãe de Deus e mãe de Cristo se levantou e quis saber acerca das penas que sofrem os seres humanos, especialmente os condenados ao inferno.
Perguntou ao arcanjo Miguel: “Quantas penas existem lá onde é punido o gênero humano”? Ele respondeu:”As penas não têm número.”
Ele abriu o inferno pelo lado do ocidente. E a santíssima mãe de Cristo viu as muitas penas da humana gente e prantos de muito tormento. Do lugar da pena, os condenados gritaram em voz alta:”˙Há séculos que não vemos a luz. Mas agora vemos a ti que destes a luz ao Senhor”.
Os anjos, por sua vez, clamaram:”Alegra-te, Virgem, luz que nunca se apaga. Alegra-te também tu, arcanjo Miguel, justo intercessor das almas de todos”.
Os anjos também viram os condenados e choraram. A honorabilíssima Mãe do Senhor viu o lamento dos anjos por causa dos condenados. E ela também começou a chorar.
Novamente os condenados gritaram:”Bendita és tu porque vieste até nós que estamos nas trevas por toda a eternidade”.
Disse a santíssima Mãe ao arcanjo Miguel:”Diga aos anjos para levar-me diante do Pai invisível”.
Vieram então os querubins e os serafins e a levaram diante do Pai invisível. E ela estendeu as mãos diante do trono terrível e se inclinou profundamente (fez a proscrínese).
Depois dirigiu os olhos na direção de seu Filho, Senhor do céu e da terra. Suplicou: ”Tem piedade, ó Senhor dos cristãos! Vi tormentos impossíveis de serem suportados. Eu quero sofrer com eles.
Cristo respondeu:”Como poderia ter piedade deles quando eles não tiveram piedade de meus irmãos e irmãs menores, os pobres?”
Apesar disso, suplicou a honorabilíssima Senhora: ”Mesmo assim, ajuda-me, ó Senhor”. E o Filho lhe respondeu:
”Não há na terra ninguém que me invoque e que não seja ouvido por mim. Mas estes não quiseram invocar meu nome”.
E a virgem Maria se voltou para os anjos e santos e para os justos do Reino do céu e para todos os que têm a ousadia de pedir pelos condenados.
E o arcanjo Miguel incitou a todos e ele mesmo se ajoelhou, seguido pelos anjos e por toda a corte dos santos e das santas, com grande caridade. E disse a esplendidíssima Mãe a seu Filho:
”Filho meu amantíssimo, desce de teu trono e veja a oração que fazemos pelos condenados”. E o Filho do Pai, o Cristo Senhor, desceu de seu trono. Aproximou-se do lugar das penas eternas. Vendo-o gritaram os atormentados em alta voz:
”Tem piedade de nós, Filho de Deus.” E o Senhor disse então:
“Escutai todos. Por causa da piedade e da misericórdia de minha mãe e da oração dos anjos e dos santos e santas, a partir de minha ressurreição no dia de páscoa até o domingo de todos os santos, habitareis no paraíso.”
E todos os santos e santas glorificaram a Deus, ficando na expectativa da festa da ressurreição do Senhor. E quando ela chegou, todos os condenados entraram cantando no céu. E diz-se que de lá nunca mais saíram.”
Perguntei a um monge-teólogo ortodoxo russo, numa das viagens à Rússia no contexto do diálogo inter-religioso o que significavam aquelas datas. Ficariam no céu somente por um certo tempo? Ao que me respondeu: quem entrou não sai mais, pois seria invalidar a misericórdia da Mãe do Senhor. Por isso não se deve tomar as festas referidas no sentido temporal, mas no sentido espiritual: são as festas eternas no Reino da Trindade na qual todos os redimidos participam. Por isso é justo que se diga:”E de lá, do céu, nunca mais saíram”.
Com correção teológica asseverou o Papa Francisco:”com a misericórdia e o perdão, Deus vai além da justiça, a inclui e a supera numa dimensão superior na qual se experimenta o amor, que é o fundamento de uma verdadeira justiça”.
A narrativa do apócrifo russo, revela a vitória da misericórdia (religião da mãe) sobre a justiça (religião do pai).
Deus-Pai-e-Mãe não tem uma caixa de lixo
Dito numa linguagem do quotidiano: Deus, Pai e Mãe de bondade e de infinita misericórdia não têm uma caixa de lixo eterna, para onde jogam os que neste mundo não deram certo. Seria uma derrota eterna para Eles que jamais poderão ser vencidos pelas forças do Maligno.
A misericórdia que é o amor dolorido que se compadece dos padecimentos humanos, superou a justiça. No juízo individual no qual se darão conta de sua justiça, os pecadores, envergonhados, reconhecem o mal que fizeram. Sofrem terrivelmente (existencialmente não seria o purgatório?). Mas o sofrimento é purificador. Por isso, este não tem a última palavra. A última página do livro da vida é escrita pelo amor e pela misericórdia. É da natureza divina, toda amor e compaixão, perdoar e reconduzir a todos os seus filhos e filhas ao seu seio bem-aventurado.
Foi para isso que foram pensados e queridos por Deus desde toda a eternidade. E Jesus é o salvador universal, cujo poder de resgate das vítimas do mal não conhece limites. Seu gesto redentor é verdadeiramente universal e sempre vitorioso. Nenhum mal resiste ao amor e à misericórdia. Ele jamais poderá triunfar.
Pala justiça, o mal é reconhecido, faz sofrer de modo que este sofrimento funciona como uma clínica purificadora da Deus. Purificados pelo sofrimento e muito mais pela intensidade incomensurável do amor divino, todos saem transfigurados. Por causa da misericórdia são perdoados. E assim Deus é sempre e eternamente vitorioso contra todas as forças do Negativo da história.
O sentido último da encarnação não é outro que este: Deus vem, assume a nossa condição frágil e mortal e nos toma porque somos seus, leva-nos para a morada eterna que nos foi preparada antes do princípio da criação. E aí viveremos e festejaremos, festejaremos e nos alegraremos, nos alegraremos e conviveremos como irmãos e irmãos, junto com toda a comunidade de vida também ela transfigurada, no Reino bem-aventurado da Trindade, do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Leonardo Boff,
Olim frater, franciscano de espírito, herdado da alma Província da Imaculada Conceição do Sul do Brasil.

domingo, 10 de julho de 2016

Imagens, símbolos, mitos, contos e arquétipos: a linguagem primária da alma, por Carlos Antonio Fragoso Guimarães



 Na Psicologia, em geral, na Psicanálise, em especial, e na psicologia de Carl Gustav Jung, em particular, as imagens, o imaginário, os símbolos e as expressões não verbais são foco de especial atenção: elas expressam -  muitas vezes de forma espontânea e independentemente de nosso pensar racional discursivo - muito de nossa alma, nossas preocupações, sonhos, anseios e, principalmente, sentimentos frente ao outro e ao mundo.

 Nas sociedades tradicionais - e estas possuem váriados aspectos, que vão desde as sociedades não industriais às cidades do interior ainda longe do caos e "coisificação" da grande cidade capitalista -, os referenciais de coesão social e a consolidação de um sentimento de pertencimento a uma comunidade são dadas, prioritariamente, através de histórias e dos mitos culturais, quase sempre pautados na religião.

  Mitos são formas de dar sentido à vida e de preparar as pessoas para os desafios da mesma, bem como para oferecer "modelos" dos papeis sociais a assumir: do herói, da pessoa boa (evitando ser a pessoa má), do sábio, etc.

  O erudito norte-americano Joseph Campbell (1904-1988) tornou-se mundialmente famoso pela série de tv "O Poder do Mito", explicando as funções psicológicas e sociológicas do mito e, como tal, ainda atuante em nossos dias. O mito, portanto, reflete em poesia o que nossa racionalidade tenta ordenar em prosa: dar uma sentido ao mundo em que vivemos. A visão de mundo de uma sociedade normalmente é expressa de forma alegórica em seus mitos e etapas de uma nova forma de ver o mundo são, antes de se tornar conhecida ou compartilhada, primariamente expressa em linguagem mítica. Assim, a pujança racional e ao mesmo tempo lírica dos gregos se arvoravam na discussão de seus deuses e contos épicos, como a Ilíada e a A Odisseia de Homero. Na modernidade, histórias como as do Dr. Fausto de Goethe e o romance Frankenstein, de Mary Schilley, são expressões da guinada à hipertrofia da racionalidade que nos levaram aos paradoxos da modernidade e sua "Matrix" técnica....


Os contos de fada, por sua vez, constituem uma forma mítica curta para expor, em linguagem figurada, processos de desenvolvimento do ser humano no seu crescer e existir. A sexualidade, os paradoxos do amor, as dúvidas existenciais tomam contornos alegóricos ou simbólicos.... As fontes de nossos desejos podem tomar a forma de uma aspecto da natureza ao mesmo tempo belo e sombrio, como o grande oceano ou a floresta, de onde saem  partes de nosso psiquismo que precisamos integrar ou conviver, na forma de uma baleia ou do lobo mal, ou mesmo de uma pessoa extremamente diferente (o mouro, o bruxo, etc.), mas que são partes nossas, nossa sombra (que nem sempre possui aspectos sombrios, mas apenas não reconhecidos como pertencentes a nós mesmos). Não é o conto da Chapeuzinho Vermelho uma alegoria do despertar sexual das meninas?

  Devemos a Sigmund Freud (1856-1939) e, mais em especial, a Carl Jung (1875-1961) o resgate da força e significado das imagens, do sonhar e dos símbolos no entendimento de nossa alma. Mas  realidade do universo imaginário se tornou reconhecida em outras áreas do conhecimento, especialmente na Antropologia, Filosofia e e Crítica Literária. Sua presença nas Artes, em geral, por séculos, não precisa ser discutida.

 O cinema e a literatura, bem como a música, obtém a sua força e encanto do uso deste potencial universal de nosso mundo arquetípico. O estudo dos contos, dos sonhos, da poesia, portanto, só acrescentam e nos tornam mais humanos nestes dias tão estranhos de tanta artificialização e retorno do fascismo....

Para Ler:

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Editora Palas Athena (também em vídeo, pela TV Cultura).

ELIADE, Mirceia. Imagens e Símbolos. Martins Fontes Editora.

JOHNSON, Robert. We - a Chave da Psicologia do amor romântico. Editora Mercuryo.

JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Editora Nova Fronteira

MAY, Rollo.  A Procura do Mito. Editora Manole.

domingo, 17 de janeiro de 2016

A atualidade psicológica da linguagem arquetípica mítica: Como tratas a Héstia, representação do teu coração, do teu lar e da Terra como Casa comum? - por Leonardo Boff




Como tratas a Héstia: o teu coração, o teu lar e a Terra como Casa comum?


Texto de Leonardo Boff


  Atualmente há toda uma nova forma de interpretar os velhos mitos gregos e de outros povos. Ao invés de considerar os deuses e deusas como entidades subsistentes, agora cresce a hermenêutica, especialmente, após os estudos do psicanalista C.G. Jung e seus discípulos J. Hillman, E. Neumann, G. Paris e outros, de que se trata de arquétipos, vale dizer, de ancestrais forças psíquicas que nos habitam e movem nossas vidas. Elas irrompem de forma tão vigorosa que os conceitos abstratos não conseguem expressá-las mas que o são mediante relatos mitológicos. Neste sentido o politeísmo não significa a pluralidade de divindades, mas de energias que vibram na nossa psique.
  Um desses mitos que contem um significado profundo e atual é aquele da deusa Héstia. Segundo o mito, ela é filha de Cronos (o deus do tempo e da idade de ouro) e de Reia, a grande mãe, geradora de todos os seres. Héstia representa nosso centro pessoal, o centro do lar e o centro da Terra, nossa Casa comum. É virgem, não por desprezar a companhia do homem, mas para poder, com mais liberdade, cuidar de todos os que se encontram no lar. Mesmo assim ela sempre vem acompanhada por Hermes, o deus da comunicação (donde vem hermenêutica) e das viagens. Não são marido e mulher. São autônomos mas sempre reciprocamente vinculados.
  Eles representam duas facetas de cada pessoa humana que é portadora simultaneamente do animus (princípio masculino, Hermes) e da anima (princípio feminino, Héstia).
  Héstia significa em grego a lareira com fogo aceso: isso era entendido existencialmente como a harmonia e o ânimo do coração. Tarefa diuturna e sempre continuada é manter sob controle dos demônios interiores e dar o mais possível espaço aos anjos bons.
 Héstia era também  o lar com o fogo aceso como aquele lugar ao redor do qual todos se agrupam para se aquecerem e conviverem. Portanto, é o coração da casa, o lugar da intimidade familiar, longe do tumulto da rua. Héstia protege, dá segurança e aconchego. Além disso, a ela cabe a ordem da casa e detém a chave da despensa para que sempre esteja bem fornida para familiares e hóspedes.
 Nas cidades gregas e romanas mantinha-se sempre um fogo acesso, para expressar a presença protetora de Héstia (a Vesta dos romanos). Se o fogo se apagasse, era presságio de alguma desgraça. Também não se começava a refeição sem fazer um brinde à Héstia: “para Héstia” ou “para Vesta”.
  Héstia, concretamente, significava também aquele canto para onde alguém se recolhe para estar só, ler seu jornal ou um livro e fazer a sua meditação. Cada um tem o seu “lugarzinho” ou sua cadeira preferida. Para saber onde se encontra a nossa Héstia devemos nos perguntar quando estamos fora de casa: ”qual é a imagem que melhor lembra o nosso canto, onde Héstia se oculta? Aí está o centro existencial da casa. Sem a Héstia a casa se transforma num dormitório ou numa espécie de pensão gratuita, sem vida. Com Hestia há afeição, bem-estar e o sentimento de estar “finalmente em casa”. Ela era tida como uma a aranha, por tecer teias que unem a todos  e o centro que recolhe e elabora todas   as informações.
  Héstia era por todos venerada e no Olimpo a primeira a ser reverenciada. Júpitér sempre defendeu sua virgindade contra o assédio sexual de alguns deuses mais assanhados.
A nossa cultura patriarcal e a masculinização das relações sociais tornaram Héstia grandemente enfraquecida. As mulheres fizeram bem em sair de casa, desenvolver sua dimensão de animus (capacidade de organizar e dirigir). Mas tiveram que sacrificar, em parte, a sua dimensão de Héstia. Nelas se mostrou a dimensão de Hermes que se comunica e se articula. Levaram para o mundo do trabalho as virtudes principais do feminino: o espírito de cooperação e o cuidado que tornaram as relações menos rígidas. Mas chega o momento de voltar para casa e de resgatar a Héstia. 
 Ai da casa desleixada e desordenada! Aí emerge a vontade de que Héstia se faça presente para garantir a atmosfera boa, íntima e familiar. Esta não é apenas tarefa da mulher mas também do homem. Por isso em todo homem e em toda a mulher deve se equilibrar o momento de Hermes, estar fora de casa para trabalhar com o momento de Héstia, de voltar ao centro e ter o seu refúgio e aconchego.
 Hoje, por mais feministas que sejam as mulheres, elas estão resgatando mais e mais esta fina dosagem vital.
 Héstia não significava somente a lareira acesa do lar ou da cidade. Também designava o centro da Terra onde está o fogo primordial. Hoje isso não é mais crença, mas dado científico. No centro há ferro incandescente. Logicamente, quando se estabeleceu o heliocentrismo e se invalidou o geocentrismo, houve uma abalo emocional para o pensamento de Héstia, a Casa Comum. Mas lentamente ele foi reconquistado. Se a Terra não é mais o centro físico do universo, ela continua sendo o centro psicológico e emocional. Aqui vivemos, nos alegramos, sofremos e morremos. Mesmo indo aos espaços exteriores, os astronautas sempre revelavam saudades da Mãe Terra, onde tudo o que é significativo e sagrado está lá.
 Hoje temos que resgatar a Héstia, dar centralidade à razão cordial, torná-la a protetora da Casa Comume  manter seu fogo vivo e conferir-lhe sustentabilidade. Não estamos rendendo-lhe as honras que merece, por isso ela nos envia seus lamentos com o aquecimento global e as calamidades naturais. Não devemos rebaixar Héstia como mero repositório de recursos mas como a Casa Comum que deve ser bem cuidada para que continue a ser nosso Lar aconchegante e benfazejo.
 Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor e escreveu o livro Ecologoa, Ciência e Espiritualidade,Mar de Ideias, Rio 2015.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Carl Gustav Jung sobre o "Diabo" em nós mesmos... e nos outros...





“Devido ao seu parentesco com as coisas físicas, os arquétipos (as pré-disposições psíquicas) quase sempre se apresentam em forma de projeções (mecanismo psíquico de ver "fora" o que está dentro, mas inconsciente, em nós mesmos), e quando estas são inconscientes, manifestam-se nas pessoas com quem se convive, subestimando ou sobre estimando-as, provocando desentendimentos, discórdias, fanatismo e loucuras de todo tipo.

"Não devem ser simplesmente reprimidos, mas, devido ao perigo de contaminação psíquica, convém levá-los muito a sério. Como quase sempre se apresentam sob a forma de projeções, e estas só são possíveis quando alguém as recebe, avaliar e julgá-las é extremamente difícil. Pois bem, se alguém projeta o diabo no outro, é porque essa pessoa tem algo em si que possibilita a fixação da imagem. Mas nem por isso tem que ser um diabo. Muito pelo contrário. Pode até ser uma pessoa boníssima, mas é incompatível com a pessoa que projeta, o que tem sobre elas um efeito ‘diabólico’; pode ser uma pessoa tão correta quanto a outra. Surgindo o diabo, isso significa que essas duas pessoas são incompatíveis (pelo menos agora e num futuro próximo), razão pela qual o inconsciente provoca uma ruptura, afastando-as uma da outra. O diabo é uma variante do arquétipo da Sombra, isto é, do aspecto perigoso da metade obscura, não reconhecida da pessoa.” 

C. G. Jung (187501961) in Psicologia do Inconsciente, Volume VII/1das Obras Completas, páginas.86 - 87.

domingo, 16 de setembro de 2012

Carl Jung no cinema: Uma Análise do Filme Labirinto, a Magia do Tempo, de Jim Henson


texto de
 
Carlos Antonio Fragoso Guimarães
 
I - Introdução

 
Este pequeno artigo visa a uma interpretação psicológica, dentro do referencial da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, do enredo do filme Labyrinth (no Brasil, Labirinto – A Magia do Tempo) do diretor norte-americano Jim Henson, o criador dos Muppets e da Vila Sezamo.
 
Em nossa análise, partimos do pressuposto de que a linguagem do filme é de conotação mítica. Como bem expressam os mitólogos, todo o mito possui um significado simbólico e imagético (a linguagem própria da psique profunda) em que se entrelaçam quatro dimensões distintas: o mito trata de uma visão simbólica sobre os processos de desenvolvimento das forças psíquicas internas próprias do ser humano. Essas forças precisam, para se atualizar, de se enfrentar com os aspectos sociais que se apresentam historicamente, ao mesmo tempo que fazem referência às forças inerentes aos inconsciente e às pulsões mais básicas do ser humano, pulsões que se enraizam no inconsceinte, representado pela floresta ou o oceano dos contos de fadas populares. Estas forças são as raízes que ligam o ser às estruturas evolutivas estimuladas pelo próprio ambiente e o cosmos inteiro.
 
Nesse sentido, o filme de Henson parece, quer seus autores tivessem ou não consciência disto – o co-rodutor do filme, George Lucas, da série Guerra nas Estrelas, foi profundamente influenciado pelos estudos em mitologia de Joseph Campbell, um estudioso de Jung -, refletir o esquema básico da maior parte dos épicos da mitologia, conhecido como A Jornada do Herói – ou, no caso do filme em questão, a jornada da Heroína, que parte de um estado de consciência imatura, passa por desafios, e retorna mais amadurecida, com uma nova percepção de si mesma e da vida.
 
II – A Jornada da Heroína

 
O psicanalista e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um dos mais importantes estudiosos a se debruçar sobre os aspectos psicológicos dos mitos, no século XX. Ele demonstrou que a linguagem mais profunda da psique se expressa simbolicamente e que os mitos, que são frutos da criação coletiva, apontam para aspectos do desenvolvimento humano expressos de modo simbólico através do imaginário.
 
Suas idéias foram retomadas e desenvolvidas por pesquisadores como Mircea Eliade e Joseph Campbell. Ambos dirão quase a mesa coisa: “as imagens e símbolos expressam as mais profundas modalidades do ser” (ELIADE, 1996), ou, como diz Campbell, os contos e histórias que tem como base uma figura heróica – que não necessariamente precisa ser um indivíduo, mas também pode ser um grupo de pessoas – expressam figuradamente as capacidades de superação e transcendência presentes em todos. Isso lembra os conceitos de processo de individuação, de Jung, ou da confiança básica dos psicólogos humanistas na capacidade de auto-atualização ou auto-realização, como postulam Carl Rogers e Abraham Maslow. Deste modo, costumava dizer Campbell que, em havendo condições favoráveis mínimas, cada pessoa poderá ter a chance de desenvolver suas capacidades a partir dos desafios da vida, como ocorrem nos diferentes mitos do herói:
 
“Siga sua bem-aventurança até lá, onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir. Quando você alcançar essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde você nem sequer imaginava que pudesse haver algo."

 
Em uma análise mais psicológica, Jung dirá que o herói de um conto ou mito é o ego que se vê repentinamente envolto em desafios de toda a ordem, freqüentemente para lhe fazer ver que o mundo é mais amplo e mais dinâmico do que ele imagina. Muitos dos desafios e monstros de sua jornada advém do seu meio, mas eles estão ligados igualmente às forças internas do inconsciente. Deste modo, parte da ameaça que o Ego percebe ser externa pode, de fato, ser parcela dass projeções de elementos que o próprio sujeito possui e de que seu ego não faz idéia, elementos esses - como coragem, generosidade, compaixão – que só se sabe que se tem diante de desafios.
Neste sentido, o filme de Henson expressa à perfeição essa jornada de auto-conhecimentoe maturação. Talvez isso explique, em grande parte, o fascínio deste filme que, apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria à época de seu lançamento (1986) se transformou em um Cult, marcou a infância e a adolescência de muita gente e vem se consolidando em meio a uma legião de aficcionados que vem crescendo nestes últimos 26 anos.
 
III – Sinopse da história e interpretação do seu significado.
 

 

A jovem Sarah Williams (interpretada pela belíssima Jennifer Connelly que, à época do filme, 1985, ainda não tinha completado 15 anos), é uma garota sensível, que adora os personagens do livro Labyrinth. O filme inicia-se com Sarah, vestida ao estilo medieval, citando os trechos finais do livro.
 
Logo depois, ao badalar do relógio, a jovem é despertada de seu mundo de fantasia e ficamos sabemos que Sarah é uma jovem adolescente órfã de mãe e que se sente ofendida pela madrasta, que a faz ficar em casa tomando conta de seu meio irmão Toby, enquanto ela e o pai saem para se divertir. Sarah se acha impedida de ter vida própria (não é isso o que sete a maioria dos adolescentes, que se vêm crescidos demais para serem vistos como crianças, mas ainda jovens demais para terem a liberdade que sonham?) e, inevitavelmente, culpará os pais e o irmãozinho de menos de dois anos por isso.
A ver que um de seus ursinhos estava faltando em seu quarto, Sarah corre ao quarto do irmão e, irada, pega o ursinho do chão, afirmando que odeia o bebê. Ao mesmo tempo, devido à tempestade que cai lá fora, o bebê, visivelmente assustado com os trovões e relâmpagos, chora desesperadamente. Sarah começa a desabafar contando a história de uma linda garota que era obrigada a cuidar de seu irmão menor. Não agüentando mais o choro do bebê ela expressa o desejo de que o rei dos Gnomos, Jareth (interpretado pelo famoso roqueiro David Bowie) viesse e levasse o irmão para seu reino mágico. E é exatamente o que acontece. Ao agir assim, Sarah demonstra ser como todos os heróis: uma pessoa imperfeita, falível, mas que reconhece seu próprio erro. Ou seja, estava pronta pela vida (e pelo destino) a adentrar em uma aventura que permitesse amadurecer suas qualidades positivas, apesar de seus traços ainda infantis, psicologicamente falando.
 
É assim que, arrependida das consequencias do que desejou, Sarah implora ao Rei dos Duendes (que demonstra uma clara “queda” pela mocinha) que devolva o irmãozinho. Jarethde início tenta convencer Sarah, por meio de um afago ao ego, de que estar sem o irmão traria vantagens para ela. Sarah, contudo, já despertou o suficiente para superar essa tentação e implora pela volta do irmão. Jareth então diz que ela o terá de volta se conseguir, dentro de 13 horas (e ai vemos o tempo psicológico transcendendo o tempo cronológico. São 13 horas porque no mundo do desenvolvimento interno o tempo não segue o padrão do relógio que, como sabemos, marca apenas doze horas em seu mostrador), chegar ao centro do labirinto mágico, onde está seu castelo, ladeado pela cidade dos gnomos ou duendes.
 
Vemos, então, que a aventura de Sarah se dá em um espaço diferente do trivial, o espaço da significação psicológica, com características próprias. A busca pelo irmão no centro do labirinto é o caminho de reconhecimento de suas próprias capacidade. Sarah busca o centro do labirinto e, com isso, caminha ao reconhecimento de seu próprio Self, seu centro interno, sua essência.

 
               Sarah recebe o chamado da aventura e não o recusa. Ela assume sua decisão de ir em busca do irmão, passando por inúmeros perigos e dificuldades, mas que a fará conhecer amigos e ajudantes pelo caminho, como o aparentemente inútil Hogle, o afetuoso grandalhão Ludo e o espevitado Fox Terrier Sir Dydimus. Ou seja, ela adentra no modelo do herói: por escolhas acaba por cair em uma aventura e se lança em busca em meio desconhecido, o labirinto, onde passará por dificuldades e enfrentará os perigos até se encontrar, finalmente, com seu grande rival, Jareth, encontrando, pelo caminho, ajuda improváveis. Cada uma dessas estranhas criaturas ajuda Sarah a entender parte de sua própria realidade e capacidade íntima.

 
                 No final, Jareth, aparentemente querendo fazer o mal, possui a mesma si de Mefistófeles no Fausto de Goethe: por mais que queira fazer o mal, acaba por fazer o bem. Jareth é a representação das projeções da própria Sarah, sua sombra, sua personificação de capacidades boas e más e mesmo sua projeção íntima do que seria do seu ideal infantil do masculino sedutor. No final, Jareth é seu professor. Poderia, como tenta, fazer Sarah fracassar em seu processo de individuação, quando ele mais uma vez a tenta ao dizer que daria tudo o que ela mais desejasse se ela o amasse e obedecesse. Sarah, contudo, aprendeu com sua viagem por este mundo que esta promessa era mais uma armadilha.
 
                Muita gente que assistiu o filme sonha ou desejava que a menina aceitasse o convite de Jareth, o que equivaleria a vender sua alma, rompendo com o mundo real. Mas a moça integrou a força sedutora dos arquétipos em si, fortaleceu o Ego (que não é mais tão egoísta) e triunfa do último grande desafio que lhe foi dado: a tentação de viver fora do mundo real (o que derruba muita gente no universo da fantasia com traços da loucura).
 
 
 
Quando, finalmente, Sarah reconhece, na cena do enfrentamento final, que Jareth não tem poderes sobre ela, ela o derrota – ela integrou os aspectos de seu próprio inconsciente, reconhecendo que os poderes do rival são dela mesma – e, supera seu erro e sai da experiência triunfante e amadurecia, renovada e possuidora de um novo patamar de identidade.
 
O incrível é que essa mesma sensação de completude e alegria atinge uma parte grande das pessoas que assistem o filme, jovens e adultos, indicando que ele desperta nos mesmos uma empatia inconsciente com a personagem central.
 
A jornada de Sarah pelo labirinto é uma metáfora da jornada ao auto-conhecimento que todos nós somos convidados a fazer pela vida, mas que poucos têm coragem de aceitar.
 
FICHA TÉCNICA

Diretor: Jim Henson
Elenco: David Bowie, Jennifer Connelly, Toby Froud, Brian Henson, Shelley Thompson, Christopher Malcolm, Natalie Finland, Ron Mueck, Daivd Barclay.
Produção: David Lazer, Eric Rattray.
Roteiro: Lewis John Carlino, Jim Henson, Edward C. Hume, Terry Jones, John Varley.
Fotografia: Alex Thomson
Trilha Sonora: Trevor Jones
Duração: 101 min.
Ano: 1986
País: EUA – Reino Unido
Gênero: Aventura Fantasia

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Cisne Negro: Uma aula cinematográfica de Psicologia Junguiana



Carlos Antonio Fragoso Guimarães


A sombra... elemento fantasmático, região do espaço cuja penumbra é provocada quando a luz é impedida de fluir por um objeto... a sombra possui os contornos do mesmo objeto, sendo sua projeção negativa...

Na psicologia junguiana a sombra é a representação arquetípica de tudo o que temos, potenciais bons e maus, que não reconhecemos como sendo nosso, mas que nos segue onde quer que vamos e que geralmente projetamos em outras pessoas...

O psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) criou alguns dos conceitos de psicologia mais populares (apesar da resistência dos freudianos). Conceitos que passaram a ser utilizadas pelas pessoas, como “complexos”, indivíduos “introvertidos” e “extrovertidos”, "sincronicidade" e “inconsciente coletivo” são de sua lavra. Ele também propôs que o comportamento humano possui linhas de reconhecimento universal e que são transcritas, metaforicamente, nos mitos e contos de todo o mundo, independente de tempo e cultura. A tendência polar que todos temos (bem e mal, sapiência e demência, etc.) são expressas em histórias folclóricas, mitos, sagas religiosas e contos de fada.

Na história de “O Lago dos Cisnes”, que foi musicada e, assim, imortalizada pelo compositor russo Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893), vemos essa polaridade na presença de Odette, a ingênua e romântica princesa que é transformada em um cisne branco, e Odile, sua irmã gêmea, a maliciosa, sedutora e malvada rainha dos cisnes, e que é o cisne negro. Uma e outra personagem são metáforas das polaridades internas extremas e dos potenciais que todos possuímos, mas que, aqui, se inserem mais na questão do desenvolvimento da psique feminina. A menina sonhadora que desperta para o desejo, à competitividade, ao processo de enfrentar desafios. Quanto mais conscientemente uma dessas polaridades é hipertrofiada, o mesmo ocorre com a outra, mas de modo inconsciente, o que pode causar um conflito psicológico que, em casos extremos, leva ao surto psicótico. Esta ocorrência, que Jung tão bem estudou, foi transposta para as telas em um dos mais notáveis (e raros, dentro do padrão comercial hollywoodiano) filmes dos últimos tempos: Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky, com a esplêndida Natalie Portman no papel da, inicialmente, frágil bailarina Nina.

No filme, Nina é uma bailarina dominada pela mãe frustrada e que faz de tudo para se destacar no corpo de baile. Assim, quando surge a chance de interpretar as gêmeas opostas de “O Lago dos Cisnes”, Nina se entrega totalmente ao projeto. Super controlada pela mãe, insegura, emocionalmente reprimida e sem amigos, Nina dedica-se exclusivamente ao balé, buscando uma perfeição exagerada que se reflete no controle exacerbado da alimentação e do controle do corpo que ela trata como instrumento – a única forma de contato mais íntimo (e já sintoma neurótico da alienação que se estabeleceu entre o desejo consciente de perfeição e repressão dos sentimentos, que tentam gritar a partir do inconsciente) é a auto-mutilação que ela exerce inconscientemente sobre si mesma, por arranhões.

Pressionada por seu coreógrafo e diretor Thomas (Vincent Cassel), Nina será questionada, mais uma vez, a demonstrar suas capacidades, já que sua fragilidade ingênua - que é perfeita para o papel de Odette - comprometeria a interpretação de protagonista de “O Lago dos Cisnes”, pois Nina também deve desempenhar o papel da Rainha dos Cisnes, Odile. Nina, então, é desafiada pela própria vida, pelo seu próprio mundo, a entrar em um acordo com sua psique polarizada entre a "persona" consciente, o papel de menininha da mamãe, e a sua sombra: a mulher sedutora, violenta, que ela reprimie no inconsciente. Nina é a atualização conteporânea da figura mítica de Perséfone: sua mãe é uma Démeter que tenta controlá-la e ver nela a bailaria que não foi e isso impede o desenvolvimento de Nina. Logo ela terá de enfrentar as forças psíquicas represadas em si, seu próprio Hades: precisa integrar, reconhecer-se em sua própria profunidade, sentir seus elementos aparentemente "negativos" se quiser atingir a perfeição (metáfora da individuação). Ela tem de desempenhar simultaneamente o cisne branco (símbolo da pureza e ingenuidade) e o cisne negro (metáfora para a malícia, sensualidade e maldade). Ou seja, Nina teria de unir, na prática, sua própria psique fraturada entre a “menina” meiga e passiva, cujo quarto é cheio de ursinhos de pelúcia, e a mulher que é/foi reprimida pela mãe e por ela mesma, Nina. O desafio da individuação, contudo, não é isento de perigos.

O cisne Negro é, portanto, o desafio do encontro de Nina com sua própria sombra, ou, seja, segundo Jung, com todos os elementos que possuímos mas que são reprimidos, que não reconhecemos como sendo nossos. A questão da projeção interna no meio externo fica sugerida várias vezes pela presença de espelhos sempre presentes ante Nina. Sua maior rival no corpo de baile, a sensual e desinibida Lily, papel desempenhado pela brilhante atriz Mila Kunis, é ao mesmo tempo seu alter-ego, a pessoa que estimula a eclosão do "Cisne Negro" em Nina. Na verdade, as duas belas bailarinas acabam sendo expressões de Odile o Odette ao nível da disputa real, embora, na mente conturbada de Nina, Lily acabe por apresentar traços mais fortes do que realmente possui.

Está claro que Aronofsky em seu filme discorre sobre a fragilidade e o tênue equilíbrio da mente humana, bem como as forças que se desencadeiam no palco psíquico quando uma perturbadora ambição a move em busca de um sonho, mas o faz de uma maneira ao mesmo tempo cruel e poética, o que mexe com a psique da maioria das pessoas que assistem o filme, atingidas, inconscientemente, pelos elementos expostos e que repercutem na própria sombra, na própria polaridade consciente/inconsciente, na dualidade do bem/mal de cada um.

Na busca pela perfeição e na tentativa de provar a Thomas que é capaz de desempenhar o papel (e, inconscientemente, de integrar e expor seu lado mais selvagem), Nina é conduzida de tal forma pelo enredo e pela busca da perfeição que não consegue perceber que isso está liberando todo o seu mundo de elementos reprimidos, que explode de tal modo que ela já não consegue perceber mais os limites entre sonho e realidade. Aos poucos, seu destino se sobrepõe ao enredo de “O Lago Dos Cisnes”. A música de Tchaikovsky, dramática e bela, é quase como uma expressiva contrapartida de sua metamorfose, elemento sonoro envolvente que "narra" e expressa a tempestade íntima de Nina, o que realça de tal modo os sentimentos da personagem que se torna indispensável à trama.

A sombra de Nina, exemplificado pela essência de sua feminilidade, aflora e toma conta de sua personalidade sem que ela consiga controlá-lo. Dá-se inicio a uma metamorfose que expressa aquilo que acontece com muitas pessoas que sucumbem à emergência do material inconsciente pela psicose. No caso de Nina, vemos que tal emergência conduzirá a protagonista a conflitos que a levam a um destino perturbador e extraordinariamente poético, apesar de trágico, numa interpretação arrebatadora de Natalie Portman.

O Filme “Cisne Negro” é uma aula de psicologia e cinema, de poesia dramática e filosofia, indispensável ao estímulo do pensar sobre a vida.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Uma análise psicológica junguiana do filme Labirinto, a Magia do Tempo, de Jim Henson (1986)




Carlos Antonio Fragoso Guimarães


“Desenvolver a fantasia significa aperfeiçoar a humanidade”.

Carl Gustav Jung



I - Introdução

Este pequeno artigo visa a uma interpretação do filme Labyrinth (no Brasil, Labirinto – A Magia do Tempo) do diretor norte-americano Jim Henson, o criador dos Muppets e da Vila Sezamo.
Em nossa análise, partimos do pressuposto de que a linguagem do filme é de conotação mítica e, como bem expressam os mitólogos, todo o mito possui um significado simbólico e imagético (a linguagem própria da psique profunda) em que se entrelaçam quatro dimensões distintas: o mito trata de uma visão simbólica sobre os processos de desenvolvimento das forças psíquicas internas próprias do ser humano. Essas forças precisam, para se atualizar, de se enfrentar com os aspectos sociais que se apresentam historicamente, ao mesmo tempo que fazem referência às forças inerentes aos inconsciente e às pulsões mais básicas do ser humano ( a floresta ou o oceano dos contos de fadas populares ), que são as raízes que ligam o ser às estruturas evolutivas estimuladas pelo próprio ambiente e o cosmos inteiro. Nesse sentido, o filme de Henson parece, quer seus autores tivessem ou não consciência disto – o produtor do filme, George Lucas, da série Guerra nas Estrelas, foi profundamente influenciado pelos estudos em mitologia de Joseph Campbell - refletir o esquema básico da mitologia conhecido como A Jornada do Herói – no caso do filme em questão, da Heroína, que parte de um estado de consciência imatura, passa por desafios, e retorna mais amadurecida, com uma nova percepção de si mesma e da vida.

II – A Jornada da Heroína

O psicanalista e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um dos mais importantes estudiosos a se debruçar sobre os aspectos psicológicos dos mitos no século XX. Ele demonstrou que a linguagem mais profunda da psique se expressa simbolicamente e que os mitos, que são frutos da criação coletiva, apontam para aspectos do desenvolvimento humano expressos de modo simbólico através do imaginário.
Suas idéias foram retomadas e desenvolvidas por pesquisadores como Mircea Eliade e Joseph Campbell. Ambos dirão quase a mesa coisa: “as imagens e símbolos expressam as mais profundas modalidades do ser” (ELIADE, 1996), ou, como diz Campbell, os contos e histórias que tem como base uma figura heróica – que não necessariamente precisa ser um indivíduo, mas também pode ser um grupo de pessoas – expressam figuradamente as capacidades de superação e transcendência presentes em todos. Isso lembra os conceitos de processo de individuação, de Jung, ou da confiança básica dos psicólogos humanistas na capacidade de auto-atualização ou auto-realização, como postulam Carl Rogers e Abraham Maslow. Deste modo, costumava dizer Campbell que, em havendo condições favoráveis mínimas, cada pessoa poderá ter a chance de desenvolver suas capacidades a partir dos desafios da vida, como ocorrem nos diferentes mitos do herói:

“Siga sua bem-aventurança até lá, onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir. Quando você alcançar essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde você nem sequer imaginava que pudesse haver algo."

Em uma análise mais psicológica, Jung dirá que o herói de um conto ou mito é o ego que se vê repentinamente envolto em desafios de toda a ordem, freqüentemente para lhe fazer ver que o mundo é mais amplo e mais dinâmico do que ele imagina. Muitos dos desafios e monstros de sua jornada advém do seu meio, mas eles estão ligados igualmente às forças internas do inconsciente. Deste modo, parte da força que o Ego percebe serem externas são, de fato, projeções de elementos que o próprio sujeito possui e de que seu ego não faz idéia, elementos esses - como coragem, generosidade, compaixão – que só se sabe que se tem diante de desafios.

Neste sentido, o filme de Henson expressa à perfeição essa jornada de auto-conhecimento e maturação. Talvez isso explique, em grande parte, o fascínio deste filme que, apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria à época de seu lançamento (1986) se transformou em um Cult, marcou a infância e a adolescência de muita gente e vem se consolidando com uma legião de aficcionados que vem crescendo neste últimos 24 anos.

III – Sinopse da história e interpretação do seu significado.

A jovem Sarah Williams (interpretada pela belíssima Jennifer Connelly que, à época, ainda não tinha completado 15 anos), é uma garota sensível, que adora os personagens do livro Labyrinth. O filme inicia-se com Sarah, vestida ao estilo medieval, citando os trechos finais do livro.
Logo depois, ao badalar do relógio, a jovem é despertada de seu mundo de fantasia e ficamos sabemos que Sarah é uma jovem adolescente órfã de mãe e que se sente ofendida pela madrasta, que a faz ficar em casa tomando conta de seu meio irmão Toby, enquanto ela e o pai saem para se divertir. Sarah se acha impedida de ter vida própria (não é isso o que sete a maioria dos adolescentes, que se vêm crescidos demais para serem vistos como crianças, mas ainda jovens demais para terem a liberdade que sonham?) e, inevitavelmente, culpará os pais e o irmãozinho de menos de dois anos por isso.
A ver que um de seus ursinhos estava faltando em seu quarto, Sarah corre ao quarto do irmão e, irada, pega o ursinho do chão, afirmando que odeia o bebê. Ao mesmo tempo, devido à tempestade que cai lá fora, o bebê, visivelmente assustado com os trovões e relâmpagos, chora desesperadamente. Sarah começa a desabafar contando a história de uma linda garota que era obrigada a cuidar de seu irmão menor. Não agüentando mais o choro do bebê ela expressa o desejo de que o rei dos Gnomos, Jareth (interpretado pelo famoso roqueiro David Bowie) viesse e levasse o irmão para seu reino mágico. E é exatamente o que acontece. Ao agir assim, Sarah demonstra ser como todos os heróis: uma pessoa imperfeita, falível, mas que reconhece seu próprio erro. Ou seja, estava pronta pela vida (e pelo destino) a adentrar em uma aventura que permitesse amadurecer suas qualidades positivas, apesar de seus traços ainda infantis, psicologicamente falando.

É assim que, arrependida do que desejou, Sarah implora ao Rei dos Duendes (que demonstra uma clara “queda” pela mocinha) que devolva o irmãozinho. Jareth de início tenta convencer Sarah, por meio de um afago ao ego, de que estar sem o irmão traria vantagens para ela. Sarah, contudo, já despertou o suficiente para superar essa tentação e implora pela volta do irmão. Jareth então diz que ela o terá de volta se conseguir, dentro de 13 horas (e ai vemos o tempo psicológico transcendendo o tempo cronológico. São 13 horas porque no mundo do desenvolvimento interno o tempo não segue o padrão do relógio que, como sabemos, marca apenas doze horas em seu mostrador), chegar ao centro do labirinto mágico, onde está seu castelo, ladeado pela cidade dos gnomos ou duendes. Vemos que a aventura de Sarah se dá em um espaço diferente do trivial, o espaço da significação psicológica, com características próprias. A busca pelo irmão no centro do labirinto é o caminho de reconhecimento de suas próprias capacidade. Sarah busca o centro do labirinto e, com isso, caminha ao reconhecimento de seu próprio Self, seu centro interno, sua essência.
Sarah recebe o chamado da aventura e não o recusa. Ela assume sua decisão de ir em busca do irmão, passando por inúmeros perigos e dificuldades, mas que a fará conhecer amigos e ajudantes pelo caminho, como o aparentemente inútil Hogle, o afetuoso grandalhão Ludo e o espevitado Fox Terrier Sir Dydimus. Ou seja, ela adentra no modelo do herói: por escolhas acaba por cair em uma aventura e se lança em busca em meio desconhecido, o labirinto, onde passará por dificuldades e enfrentará os perigos até se encontrar, finalmente, com seu grande rival, Jareth, encontrando, pelo caminho, ajuda improváveis.

Cada uma dessas estranhas criaturas ajuda Sarah a entender parte de sua própria realidade e capacidade íntima.

No final, Jareth, aparentemente querendo fazer o mal, é como Mefistófeles no Fausto de Goethe: por mais que queira fazer o mal, acaba por fazer o bem. Jareth é a representação das projeções da própria Sarah, sua sombra, sua personificação de capacidades boas e más. No final, Jareth é seu professor. Poderia, como tenta, fazer Sarah fracassar em seu processo de individuação, quando ele mais uma vez a tenta ao dizer que daria tudo o que ela mais desejasse se ela o amasse e obedecesse. Sarah, contudo, aprendeu com sua viagem por este mundo que esta promessa era mais uma armadilha. Muita gente que assistiu o filme sonha ou desejava que a menina aceitasse o convite de Jareth, o que equivaleria a vender sua alma. Mas a moça integrou a força sedutora dos arquétipos em si, fortaleceu o Ego (que não é mais egoísta) e triunfa do último grande desafio que lhe foi dado: a tentação de viver fora do mundo real (o que derruba muita gente no universo da fantasia com traços da loucura).

Quando, finalmente, Sarah reconhece, na cena do enfrentamento final, que Jareth não tem poderes sobre ela, ela o derrota – ela integrou os aspectos de seu próprio inconsciente, reconhecendo que os poderes do rival são dela mesma – e, supera seu erro e sai da experiência triunfante e amadurecia, renovada e possuidora de um novo patamar de identidade.
O incrível é que essa mesma sensação de completude e alegria atinge uma parte grande das pessoas que assistem o filme, jovens e adultos, indicando que ele desperta nos mesmos uma empatia inconsciente com a personagem central.
A jornada de Sarah pelo labirinto é uma metáfora da jornada ao auto-conhecimento que todos nós somos convidados a fazer pela vida, mas que poucos têm coragem de aceitar.

FICHA TÉCNICA
Diretor: Jim Henson
Elenco: David Bowie, Jennifer Connelly, Toby Froud, Brian Henson, Shelley Thompson, Christopher Malcolm, Natalie Finland, Ron Mueck, Daivd Barclay.
Produção: David Lazer, Eric Rattray.
Roteiro: Lewis John Carlino, Jim Henson, Edward C. Hume, Terry Jones, John Varley.
Fotografia: Alex Thomson
Trilha Sonora: Trevor Jones
Duração: 101 min.
Ano: 1986
País: EUA – Reino Unido
Gênero: Aventura Fantasia


João Pessoa, 05 de novembro de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010



Mitologia, Filosofia e Espiritualidade a serem compreendidos no final de Lost

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Lost foi, certamente, uma das séries mais instigantes e controversas - senão a mais - de tantas outras já produzidas.

Com um misto de aventura, drama, noções de filosofia, mergulho nos símbolos arquetípicos junguianos e muitas referências míticas, seguindo os padrões da "jornada do herói", tema recorrente encontrado no folclore de todas as culturas, a série Lost chegou ao seu final no dia 23 de maio.

Foram seis anos de histórias envolventes, pistas que levavam à diferentes direções, jogos mentais sobre questões científicas e filosóficas que envolveram milhões de pessoas ao redor do mundo, em um nível psicológico que talvez nem elas mesmas tivessem consciência, mas que vivenciaram no fato de terem se apaixonado pela série...

Ainda que a grande complexidade da trama - complexidade crescente que inevitalvelmente acabaria por deixar várias perguntas sem respostas, em um risco calculado para manter a série no ar por seis anos - levasse à um final que, para vários, deixou certa decepção no ar, grande parte do sucesso da série está em que muitos dos pontos em Lost tocavam em assuntos que, nos atuais dias de noeliberalismo selvagem, competitivo e alienante, trouxeram de volta a muitos espectadores aquele gostinho de beleza e magia que o mundo nos tira atualmente... E uma atenção maior aos episódios finais que puxavam por pistas dadas por diferentes episódios anteriores, de outras temporadas, demonstra que muitas das perguntas foram respondidas, ainda que não do modo discursivo e objetivo que a maioria esperava.

Veremos mais adiante algumas destas respostas-chaves que não foram percebidos pela maioria dos que assistiram à série.

Mas qual, afinal, o sentido simbólico ou metafórico de Lost?

Vamos começar pela estranha ilha que não estava no mapa, o que mostra que a conotação mítica se apresenta desde o início... A Ilha não parecia se localizar precisamente no espaço e, temporadas depois, soubemos que ela também podia transcender o tempo. Embora suas estranhas propriedades tivessem sido descobertas por militares e por alguns cientistas (a iniciativa Dharma, outro nome que nos remete a conceitos profundos, pois "Dharma" é um termo sânscrito do budismo que significa "caminho" ou, em um sentido mais popular, embora incorreto, "destino") - assim como as propriedades profundas da psique também o foram descobertos por alguns e é um mundo a ser explorado - a Ilha parecia ter a capacidade de permanecer relativamente oculta...

Essa camuflagem do transcendente no tirivial é um elemento do espaço mítico (vemos isso muito bem nas obras do filósofo, antropólogo e historiador das religiões romeno Mircea Eliade, em especial em seu livro O Sagrado e o Profano, publicado no Brasil pela Martins Fontes), onde a narrativa se desloca da concretude do físico para as possibilidades do universo simbóloco, como se faz presente os dizeres de abertura dos filmes de Guerra nas Estrelas - "Há muito tempo, em uma galáxia muito distante..." -, ou no era uma vez dos contos de fada e da mitologia, onde se faz referência a uma outra época ou a um outro mundo em que coisas mais vívidas podem ocorrer sem as limitações que nossa condicionada visão de mundo parece impor à realiade. A estranheza da ilha conseguia nos levar a um "mundo" onde a força metafórica das imagens e símbolos tinha, ao estilo das parábolas, muito a nos ensinar superando os limites triviais do mundo ordinário.

Metaforicamente, a Ilha é areferência aos "locais" que, nos dizeres de Mircea Eliade, psicologicamente dão sentido à existência, por serem a imagem da "terra de referência" onde "o espaço não é homogêneo: há rupturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferente das outras" (ELIADE, O Sagrado e o Profano,Martins Fontes, p. 25). É a terra idealizada, seja ela a terra natal, ou das esperanças de um novo mundo por dar sentido à nossa vida, seja ela a terra dos acestrais, a terra prometida, a Utopia, Shangi-lá, o Éden perdido, a fazenda que visitamos uma vez e marcou nossa memória ou seja lá o que for.

Não dá para confirmar ou afirmar que os autores explicaram direta e objetivamente o que é a ilha de Lost, mas quantas coisas que conhecemos a gente consegue explicar, especialmente tudo o que é mais importante como, por exemplo, a vida?

Ainda assim, esta temporada final de Lost, assim como a vida, nos deixou algumas pistas. Ela seria uma espécie de centro do mundo, a "axi mundi" dos antigos, um vórtice ou "chacra" que conectaria a Terra com níveis energéticos mais elevados. Tal energia é representada pela água e pela luz da caverna ao qual Jacob, sua mãe adotiva e, depois deles, Jack, Hugo e Ben deveriam proteger.

A luz e a água sugerem os apsectos essenciais à vida e são encontrados em todas as mitologias religiosas do mundo. Quando Desmond, convencido por "Locke", interfere no equilíbrio eletromagnético da caverna de luz, há um desenquíbrio de forças que e a água para de correr, como na teoria chinesa do Chi nos meridianos da acumpuntura, e a Ilha - e talvez o mundo com ela - passa por um processo de perturbação.

A ilha de Lost era o local onde se vivia essa complementaridade de opostos, da luta entre bem e mal e que chega a transcender esta dualidade. No dizer da personagem que criou os gêmeos Jacob e do homem de preto, a Ilha "possui uma luz que existe em todos os corações humanos". São referências a imagens e símbolos figurados que tocam em assuntos profundos que são geralmente da ordem da filosofia e da religião, mas também da busca de sentido em um mundo desencatado e competitivo, que vitimou quase todos os personagens da série, do médico socialmente frustrado Jack, ao revoltado Sawyer, passando pela igualmente rebelde Kate, indo pelo ex-torturador Said, etc.

O aspecto mágico e desconhecido deste "centro do mundo" que era a Ilha logo atinçou o interesse pragmático dos poucos que conseguiaram perceber sua existência - militares, dos quais estavam Charles Widmore e a mãe de Daniel Faraday, Louise Faraday - e os cientistas e empresários da Iniciativa Dharma. Tudo o que havia de mágico e fantástico na ilha estava ligada àquela energia, sendo que todos os experimentos e bases tecnológicas montados ali tinham como objetivo estudar o controle da mesma. Em seu texto sobre Lost postado no portal Terra, "O que LOST te respondeu?" , Caio Fochetto escreve assim sobre tais tentativas:

"O homem tentando controlar magia e misticismo em prol de uma ciência moderna. E isso eu aplaudo em Lost. Enquanto muitos cobram uma explicação sobre o que é a luz e para que serve a Dharma, os caras simplesmente assumiram o quanto isso é inexplicável através desta instituição que não conseguiu prosseguir com suas pesquisas."


O Reecontro e a Recompensa no pós-vida

Rerências a mitoloogias clássicas não faltam na série. Quem a acompanha pôde perceber as constantes referências feitas, por exemplo, ao Egito antigo: os hieróglifos na escotilha da Dharma onde viva Desmond também se encontram no templo que conhecemos na sexta temporada, e a grande estátua da deusa Taueret onde Jacob morava.


A estátua de Taueret, ou melhor, sua perna, apareceu pela primeira vez na 2ª temporada. Quando das viagens no tempo dos personagens, ela foi revelada inteira no último episódio da 5ª temporada. Na mitologia egípcia, Taueret era a deusa da fertilidade e protetora dos navegantes e das embarcações. Não é à toa que o estranho navio de escravos "Black Rock", que trazia Richard (então Ricardo) prisioneiro, se arrebenta contra esta estátua. Além disso, Taueret era a esposa de Apep, um monstro em forma de serpente que travava uma batalha diária com o deus sol, Rá. Apep era considerado o deus do mal original, o que parece se associar com o monstro da fumaça que aparece na série.


Mas vamos além, nos atendo à mensagem presente ao final da série.

Ainda que a maioria dos que assistiram o os últimos capítulos tenham interpretado que os personagens morreram já na queda do avião no primeiro episódio, passando a história a se dar em uma espécie de limbo ou "purgatório", um melhor olhar nas cenas e, principalmente, nos diálogos entre os personagens mostram outra coisa, apontando para uma direção bem diferente, direção que, coincidentemente no ano em que, no Brasil, os temas espiritualistas estão bastante em voga, toca na questão do sentido espiritual da existência humana...

Vejamos:

Em meio às cenas finais dos personagens em um "Universo paralelo" e das ações heróicas contra o mal na ilha, temos o rápido, mas muito importante diálogo entre Hurley e Benjamin Linus na ilha, quando Hurley assume a função de protetor da ilha após o heróico sacrifício de Jack. Ali, naquele momento, houve o início de algo, uma transformação em Ben, um vilão até então, cujo lado positivo se fez ver no "outro" Ben (O Dr. Ben, professor no "universo paralelo") mas que foi reconhecido por Hurley na ilha ao convidá-lo para o ajudar na sua missão de protetor da Ilha. Pelas pistas dadas - e pelo final, no encontro da Igreja - Hurley e Ben cumpriram a missão de protetores e viveram na ilha por algum tempo, sendo Hurley o novo Jacob, e Ben o novo Richard. O que nos faz pensar que, finalmente, houve o ponto de mutação para Ben, já que a ilha, que era sua obsessão, sua referência, finalmente lhe traria o propósito a que, por tanto tempo, buscou obter na vida.

Logo depois, vemos ambos no "universo paralelo" dialogando em frente à Igreja onde Jack foi levado por Kate... Na comparação com os dois diálogos, temos a também a pista de que os eventos que todos vivenciaram na ilha foram “reais” e que eles estavam discutindo um passado em comum recentemente recordado, uma realidade que se constitui em vivência significativa que os uniu a todos - "Você foi um excelente número dois", diz um amadurecido Hurley a Ben, que, estraordinariamente modificado, responde que Hurley foi um "excelente número um", referindo-se a seu papel como protetor da ilha - que ficou um tanto no ar, mas que parece que será mostrado na versão em DVD/Blue Ray da série.

A conversa decisiva de Jack com seu "falecido" pai, Christian, deixa claro que todos os personagens morreram em tempos diferentes – e não quando o avião caiu no primeiro episódio, como alguns fãs equivocadamente interpretaram. Mas a chave está na afirmação de Christian: "A parte mais importante de sua vida foi quando você esteve ao lado deles"."Todo mundo morre um dia", diz o pai de Jack. E foi exatamente o que aconteceu. Todos os que passaram pela ilha morreram, um dia. Alguns dos que se reencontram na Igreja morreram durante o decorrer da história, nas diferentes temporadas, como Boone, Liebe, Shannon e, finalmente, Jack, no último episódio. Outros, como Ana Lucia, segundo Hurley, ou Daniel Farady Widmore, segundo Desmond, ainda não estavam preparados para encarar a realidade - isso incluiria também Mr Eko, Richard, Charlotte, Danielle Rousseau ou mesmo o Paulo, interpretado por Rodrigo Santoro? - e não se encontravam na Igreja.

Resumindo, o que os personagens viveram durante os eventos que assistismos, em flashes, na dimensão da "realidade alternativa" foi uma vivência de uma realidade que foi o fruto da ação individual deles em vida (ou, se quiserem, a recompensa kármica), repercutindo após a morte de cada um. Algo como o colher dos frutos das ações praticadas junto com os objetivos - frustrados - de vida, que eles tinham acalentado antes de cairem na ilha. Não era, portanto, um purgatório, como muitos pensam. Era um local de acolhida e prepração para a realidade espiritual onde eles precisavam se encontrar, para que pudessem sedimentar suas personalidades com a maturidade adquirada nas vivências da Ilha e, após assimilá-las - quando recordam dela -, seguir seus caminhos. Como Christian Shephard explicou: “Esse é um lugar que vocês fizeram juntos, para que pudessem se encontrar. Você precisa deles e eles precisam de você.” “Para que?” , pergunda um surpreso Jack, ao que Christian responde: “Para esquecer e conseguir em frente”.

Parte do que estamos dizendo aqui também é mais ou menos dito da mesma forma por home pages especializadas em Lost pelo mundo todo, com especial destaque para a ScreanRant. Nelas também são explicadas e demonstradas que os personagens que lutaram, amaram, sofreram, tiveram esperanças e sonhos e que acompanhamos durante seis anos morreram após a morte de Jack, exceto John Locke, Said, Jin, Sun e outros, como Shannon, Charlotte, Daniel Faraday, Boone e outros que vimos morrer no curso da história. Sendo assim, tudo o que aconteceu na ilha Lost realmente aconteceu na ilha em um plano físico.

Mas vejamos outras pistas e indícios do que estamos dizendo, dados pelo capítulo final da série:

O piloto Frank Lapidus conseguiu por o avião para voar com Kate, Sawyer, Richard, Claire e Miles. Jack, pouco antes de morrer, vê o avião partindo, acompanhado do sensível Vicent, o cão labrador amigo que acompanha a turma de Lost desde a primeira temporada. Este avião sugere que todos o que estavam dentro dele sobreviveram e vieram a morrer - e talvez nem todos, pois Lapidus, Miles e Richard não aparecem na Igreja - anos depois. De fato, o ciclo parece se fechar pois a série começa com Jack abrindo os olhos na nova realidade da ilha, após o acidente da Oceanic 815, sendo recebido por Vincent, e termina com ele fechando os olhos ao morrer, tendo no lado o fiel cão. A vida é um ciclo é seu percursso terá as características de heroísmo que a ela dermos com nossas próprias escolhas... A imagem de Danielle Rousseau como mãe efetiva de Alex, a filha adotiva (ou melhor, adotiva por rapto) de Ben demonstra a recompensa por sua luta por saber do paradero da filha durante boa parte da série, desde a primeira temporada.

O intrigante "universo paralelo" que era referência da vida dos personagens na sexta temporada parece ser a representação de uma realidade intermediária, um intervalo em um mundo de regenaração e repouso, em tudo semelhante à realidade vivida pelos personagens da Terra antes das aventuras na Ilha, onde as almas que vivenciaram as provações de Lost poderiam se recuperar vivendo aquilo que não puderam em suas vidas terrenas, especialmente ante os fracassos e frustrações de suas antigas existências. Jack, nesta vida, tinha um filho e não parecia possuir as tensões sociais e existenciais de sua antiga vida. Sawyer era um detetive competente e Daniel Faraday conseguiu ser o concertista de piano que sonhava ser na infância.

Após todos os principais envolvidos terem "falecido" em tempos diferentes - o que fica subentido nos diálogos de Christian com Jack e nas pistas dadas por Hurley e Desmond -, eles parecem ter sido levados a uma dimensão alternativa, mas com todos os elementos familiares de suas vidas terrenas, e a vivenciar vidas mais congruentes até o dia em que se reencontram em um novo vôo Oceanic 815, o que fez o link, conseguindo recuperar novamente a ligação entre todos. Eles começaram a se reencontrar e a lembrar o que fizeram na ilha, vindo a reconhecer que cumpriram uma missão e poderiam, agora, ir em frente. Assim, todos os personagens que ali no "universo paralelo" estavam em uma espécie de momento de balanço depois de mortos, mas eles não tinham consciência disso e, até então, não tinham a memória dos acontecimentos reais ocorridos na ilha. Novamente referências à jornada mítica do herói que acaba por se fortalecer em sua jornada em que tenha consciência disto. Eles finalmente se reencontram recuperados, perdoando-se a si mesmos em suas falhas, podem finalmente encontrar a paz e continuar suas jornadas evolutivas em uma nova realidade da vida.

Como esclarece Caio Fochetto no já citado site do Terra, O que Lost respondeu?, que por sua vez se baseia nos sites Lostpedia e ScreanRant:

"Partindo da hipótese de que cada mente cria seu próprio purgatório baseado em suas experiências de vida (boas e ruins) e que, portanto, não poderia fazer aquele personagem simplesmente seguir em frente, temos Jack e seu problemas com o pai refletidos na criação de um filho que nunca existiu, mas que lhe apresenta a hipótese de consertar o que ali ele não pode, afinal por enquanto seu pai Christian morreu e sobre isso ele não pode fazer nada."


E ainda:

"Todos seguiam o paralelo vivendo seu próprio purgatório de acordo com a culpa que carregavam sozinhos, mesmo após tudo o que passaram juntos. Que, aliás, levaram adiante – em alguns casos até mesmo após a morte. Mas quando eles entram em contato, algo reascende a felicidade do que viveram juntos em algum lugar nas linhas de tempo e espaço, propriamente falando: a ilha! Até mesmo o maior ‘odiador’ de Lost pode apontar o período de vida daqueles personagens na ilha como o mais importante de todo o ciclo de cada um deles. Certo?
Ao primeiro contato na tal realidade paralela’, eles se lembraram das experiências antigas de suas existências, do que tiveram juntos por conta da ilha, percebendo o propósito de terem sido jogados por lá, em situações extremas, concordo. Mas foi esta grande compreensão de quem eles foram (e são) que os fizeram seguir adiante. Tanto que Ben, Michael e alguns outros não passam por isso. Ainda não estavam prontos."


Isso lembra muito a teoria espírita, especialmente em livros como Nosso Lar, de Chico Xavier, e nas obras do pesquisador italiano Ernesto Bozzano, como Depois da Morte, de que algumas "almas" despertam no mundo espiritual paulatinamente a partir de um ambiente semelhante ao que eles conhecima na Terra...



A ilha, portanto, como as terras míticas que transcendem o profano conhecido, seria uma espécie de centro espiritual, um ponto de ligação entre dimensões e o ponto alfa onde matária e energia e o bem e o mal tentam manter um equilíbrio dinâmico. A estátua do deus esgípcio lebra uma divinidade do bem que luta contra uma figura do mal, no caso, homem de preto, atirado na caverna da "luz" quando estava dominado pela raiva, por Jacob. Quando entrou ali dentro, de alguma forma, a raiva se aliou ao mal potnecial e sua alma ou transformou-se no tal "monstro" ou o tal monstro - a sombra que todos nós temos, segundo Jung, e que representa nosso lado escuro - veio a dominar e tomar a forma do homem de negro. Temos aqui referências a Caim e Abel e ao símbolo da dinâmica do Yin e do Yang do taóismo chinês.

Lost, para quem tem certo conhecimento das funções psíquicas da mitologia - os livros de Joseph Campbell são eficazes para dar esta cultura - e equilíbrio para perceber que nossos paradigams são convenções provisórias sobre a realidade, para além dos preconceitos materialistas, e mais algum conhecimento de filosofia e psicologia analítica, representa o palco para a "jornada do Herói" que todos nós temos de fazer através da vida, superando defeitos, aceitando desafios, nos conhecendo e reconhecendo o bem e o mal que todos trazemos em nós e que nos dirigimos para um ponto além de nossa compreensão, um ponto em que todas as religiões - representadas na sacristia da Igreja pelos vitrais, imagens e pintuas com cenas de todoas as grandes religiões - iremos conhecer um dia, talvez após nossa morte....

O psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) e filósofo, antropólogo e mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) foram os principais divulgadores da importância da metáfora mítica para a compreensão da psique humana. Os livros de Campbell tiveram inclusive papel relevante na indústria de cinema, pois suas concepões sobre "a Jornada do Herói" influenciaria roteiristas, diretores e produtores, como George Lucas da série Guerra nas Estrelas e os irmãos Wachowski, de Matrix, entre outros. A "Jornada do Herói" representa a aceitação do desafio de amadurecer e realizar as próprias capacidades individuais enfrentando e, no caso, superando desafios, atingindo aquilo que Carl Gustav Jung chama de individuação, ou seja, o amadurecimento possível das capacidades que cada pessoas traz em si. A estrutura da "Jornada do Herói" segue a seguinte estrutura, que vemos serem seguidas pelos principais personagens de Lost: Partida (às vezes chamada Separação), Iniciação e Retorno.

A Partida lida com o herói aspirando à sua jornada; a Iniciação contém as várias aventuras do herói ao longo de seu caminho; e o Retorno é o momento em que o herói volta a casa com o conhecimento e os poderes que adquiriu ao longo da jornada.

Mesmo as etapas da "Jornada do Herói", que Campbell esclarece em alguns de seus livros, como "O Herói de Mil Faces" (no Brasil editado pela Cultrix) e "O Poder do Mito" (Editora Palas Athena), são visivilmente vistos na série. Que passos são esses?

I - A Origem do Herói no Mundo Comum - O mundo do herói, antes da história começar. Todos os personagens de Lost vieram de uma vida conturbada até que o dia em que todos se encontram no fatídico vôo 815 da Oceanic Air Lines. Essas vidas são vistas em retrospectivas à medida que vamos conhecendo a personalidade de cada personagem;

II - O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura a que ele é convidado a aderir. Os seis principais personagens de Lost, John Locke, Jack Shephard, Kate Huston, James Ford "Sawyer", Said e Hurley são chamados, cada um à seu modo, a desafios compatíveis com suas personalidades.

III - As dúvidas e Receios do Herói ou a Recusa do Chamado - O herói duvida, recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque não a compreende e, assim, a despreza, ou porque tem medo. Ao contrário de John Locke, que desde cedo tem uma forte intuição de que não está na ilha por acaso, Jack é um racionalista que tem dificuldades em perceber as estranhas propriedadas da Ilha, mas quando, finalmente percebe, se dedica heroicamente a tentar desvendar suas implicações, indo às últimas conseqüências.

IV - Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura. Hurley encontra as almas dos que se foram, incluindo o estranho Jacob, que no final se faz visível aos demais principais personagens, com excessão de Said. Também Richard Alpert, o estranho homem que não envelhecia, servia de elo de ligação com forças superiores.

V - Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico. A fonte de energia da Ilha e o próprio universo paralelo são alguns dos exemplos encontrados na série.

VI - Provações, aliados e inimigos - O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial. Precisa de exemplos na série?

VII - Aproximação - O herói pode sucumbir - vários dos personagens morrem no caminho -, mas alguns tem êxitos durante as provações

VIII - Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte. Lembram do sacrifício de Juliet e de como isso mexeu com todos?

IX - Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa. O "Universo Paralelo"

X - O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum. Não hoveram seis que retornaram ao mundo comum na quarta e quinta temporadas?

XI - Ressurreição do Herói - Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido. Todos se reencontraram na vida após a morte...

XII - Regresso com o prêmio - O herói volta para casa com o uma nova visão da realidade. Todos nós, no processo que Jung chama de "individuação" temos, na vida, a possibilidade de burilarmos nossas capacidades humanas, atingindo novas formas de ver e entender a realidade...

Em uma época onde na mídia existe o império da prostituição intelectual e a exploração religiosa por picaretas como Edir Macedo ou Silas Malafaya, seriados inteligentes e culturalmente instigantes como Lost são bem-vindos oásis refrescantes no meio do deserto da mediocridade.

Seriados semelhantes a Lost: Fringe (seriado muito bom, criado pelo mesmo idealizador de Lost, J. J. Abrahms, segue parte da mesma linha que Lost) e Ghost Whisperer (em sua quinta temporada, toca na questão da vida após a morte e na possibilidade de comunicação por meio da mediunidade e tem a acessoria de uma famoso psíquico americano, James van Praagh).