Mostrando postagens com marcador Consciência Cristã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Consciência Cristã. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Pastora luterana Romi Marcia Bencke: Eles pediram um Rei-Instrumentalização entre religião e política

 Nossa laicidade sempre foi frágil. O cristianismo, ao longo da nossa história, foi instrumentalizado para realizar os desejos coloniais e capitalistas.

Foi esta relação distorcida que argumentou a favor da meritocracia para explicar as desigualdades sociais: “se você não tem Terra, Teto ou Trabalho é porque não está se esforçando o suficiente”. Esforça-te e Deus proverá!”.


E eles pedriam um Rei-Instrumentalização entre religião e política

por Romi Marcia Bencke, pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, secretária Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil



“Este será o direito do rei que reinará sobre vós. Ele convocará os vossos filhos e os encarregará de seus carros de guerra e de sua cavalaria…e os fará lavrar a terra dele e ceifar a sua seara, fabricar as suas armas de guerra e as peças de seus carros….Tomará os vossos campos, as vossas vinhas, os vossos melhores olivais…Exigirá o dízimo dos vossos rebanhos, e vós mesmos vos tornareis seus servos…”

(1 Sm 8.11-17)

A 6ª Semana Social Brasileira (6ª SSB) será realizada em um dos momentos mais complexos e tensos da história recente do Brasil. Os temas estruturantes que serão refletidos durante a 6ª SSB estão colocados em xeque, em especial, a soberania, a economia e a democracia. Estas três dimensões são fundamentais para a alcançarmos os direitos de acesso à Terra, ao Teto e ao Trabalho.

É impossível evitar a pergunta se daqui a alguns meses as profecias e as reivindicações por soberania, democracia e uma economia voltada ao bem comum ainda serão possíveis.

A cada dia cresce a máxima de Mateus 25. 29-30: “Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem será tirado”.

Para o sistema capitalista neoliberal não há possibilidade de democracia e nem soberania ou autodeterminação dos povos.

O final do século XX e o século XXI tem nos ensinado que o neoliberalismo sugou a essência de muitas das elaborações civilizatórias da humanidade, entre elas, da democracia e da própria religião.

A tensão entre Estado e poder religioso não é novidade. Na tradição judaico-cristã, esta tensão aparece na história do povo hebreu quando reivindicou a mudança do sistema tribal para o reinado.

Os versículos 11 e 17 de I Sm 8, são bastante explícitos em relação às consequências desta opção: escravização, perda da liberdade, filhos absorvidos para a guerra, altos impostos e desigualdade. A relação instrumentalizada entre religião e política será sempre uma relação que distorce o sentido da fé e que transmuta a benevolência que emana da fé religiosa em um poder nada benevolente. O que fundamenta esta instrumentalização é o poder pelo poder. É uma aliança idolatra, porque se coloca como poder absoluto e legítimo para dominar a vida das pessoas. Esta relação instrumentalizada não autoriza a divergência, nem a diversidade e, muito menos, as profecias.

Nossa laicidade sempre foi frágil. O cristianismo, ao longo da nossa história, foi instrumentalizado para realizar os desejos coloniais e capitalistas.
Foi esta relação distorcida que argumentou a favor da meritocracia para explicar as desigualdades sociais: “se você não tem Terra, Teto ou Trabalho é porque não está se esforçando o suficiente”. Esforça-te e Deus proverá!”.

Nos últimos anos, a relação entre religião e política tornou-se mais complexa. O que temos hoje no Brasil é uma “teopolítica neocolonial” (LIONÇO, 2019), que reivindica o direito à grilagem de terras, o direito à conversão dos povos indígenas e à exploração de garimpos. O fundamentalismo religioso tornou-se política de Estado.

É a instrumentalização da religião pelo poder político que legitima e justifica a morte necessária de alguns para que outros concentrem cada vez mais riquezas e poder. Esta instrumentalização é a necropolítica em forma de homilia e liturgia.

A 6ª Semana Social Brasileira tem como principal inspiração e fundamentação a fé em Jesus Cristo. Apesar de ser um espaço plural, que reúne, a partir desta fé, pessoas de diferentes tradições religiosas e pessoas não religiosas é a partir da fé que nos encontramos para fortalecer a unidade e o comprometimento com a luta por justiça, materializada na divisão radical das riquezas, na justiça socioambiental, na radicalidade da unidade na diversidade.

Na 6ª Semana Social Brasileira afirmamos a dimensão política da fé por confrontar relações de poder e exclusão. No entanto, é uma fé política não instrumentalizada, porque não tutela os movimentos sociais para impor uma vontade e uma verdade absolutas. Não é instrumentalizada porque há espaço para a diversidade de opiniões e a abertura para os questionamentos e críticas necessárias.

Um desafio é compreender que a resposta religiosa jamais pode ser a única e nem a última resposta. Não somos portadores e portadoras da verdade e nem de salvação. Nossa participação política deveria alicerçar-se na autocrítica e na consciência de que sempre que a fé religiosa se transforma na verdade última, utilizando-se de recursos e poderes humanos, ela se torna instrumento de opressão e não libertação.


Perguntas:

  • Quais os desafios a serem enfrentados para libertar a fé religiosa do jugo do capitalismo?
  • A experiência religiosa pode ser um caminho para o aprofundamento da democracia, da transformação da economia de mercado para uma economia distributiva e para a soberania dos povos. No entanto, quais os cuidados necessários para que a experiência religiosa não se transforme em instrumento de opressão?


Referências:
LIONÇO, Tatiana. A Tecnologia da Crueldade na Teopolitica Neocolonial Bolsonarista. In. https://www.justificando.com/2020/04/17/a-tecnologia-da-crueldade-na-teopolitica-neocolonial-bolsonarista/. Acesso em 20/04/2020.
STRECK, Wolfgang. Tempo Comprado. Conjuntura Actual Ed. Coimbra, 2013. Livro eletrônico.

Romi Marcia Bencke, é pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, secretária Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. Fonte do Texto: CNBB

sábado, 29 de julho de 2017

O Mal da Bancada Evangélica e sua responsabilidade no desastre do Golpe, sob auspícios de Eduardo Cunha, Feliciano, Bolsonaro e assemelhados em artigo de Fábio de Oliveira Ribeiro




  "O fenômeno político recente mais importante no Brasil foi o crescimento da bancada evangélica, da qual Eduardo Cunha fazia parte. Apesar de ter sido preso, durante o período em que presidiu a Câmara dos Deputados Cunha sabotou o governo e conseguiu organizar a maioria parlamentar que derrubou Dilma Rousseff e enfiou goela abaixo dos brasileiros o desastroso governo Michel Temer." - Fábio de Oliveira Ribeiro





O dragão da internet contra o pastor evangélico guerreiro
por Fábio de Oliveira Ribeiro
GGN. - O fenômeno político recente mais importante no Brasil foi o crescimento da bancada evangélica, da qual Eduardo Cunha fazia parte. Apesar de ter sido preso, durante o período em que presidiu a Câmara dos Deputados Cunha sabotou o governo e conseguiu organizar a maioria parlamentar que derrubou Dilma Rousseff e enfiou goela abaixo dos brasileiros o desastroso governo Michel Temer.
As lideranças católicas e operárias escreveram a história do Brasil após o fim da ditadura militar. Mas estes dois segmentos sociais perderam a guerra midiática. Comparadas à imensa e poderosa Rede Record controlada pelos donos da Universal do Reino de Deus, a rede de TV dos católicos é modesta e a TVT dos operários é minúscula.
Jair Bolsonaro, que pertence à bancada evangélica, já desponta como um sério concorrente à presidência. Marina Silva, também evangélica, provavelmente disputará uma vez mais a presidência. Gostemos ou não, lideranças evangélicas como Garotinho e sua esposa e Crivella estão reescrevendo a história administrativa do Rio de Janeiro. E até lideranças operárias (como Dilma Rousseff, por exemplo) já se sentem obrigadas a fazer rapapés para os bispos da Universal no Templo de Salomão em São Paulo. Como explicar este fenômeno?
O contato dentro dos templos é pessoal. A posição de autoridade do pastor facilita a construção de consensos políticos e eleitorais. A hierarquia mais ou menos rígida dentro das igrejas evangélicas (obreiros na base e bispos no topo) facilita a criação de vínculos estáveis e fomenta a disciplina política e eleitoral. Os eleitores evangélicos são diariamente instigados a votar em candidatos evangélicos e a fidelidade deles (ou de uma maioria dentre eles) talvez tenha permitido a consolidação de bancadas parlamentares cada vez maiores e mais influentes.   
Depois que chegou ao poder o partido dos operários ficou mais e mais distante de suas bases. A militância virtual dos católicos e dos operários iguala e provavelmente até supera a dos evangélicos, mas isto não se traduz em maior poder político. Talvez isto se deva à uma característica da própria internet.
“Dúzias de estudos psicológicos, neurobiólogos, educadores e web designers indicam a mesma conclusão: quando estamos on-line, entramos em um ambiente que promove a leitura descuidada, o pensamento apressado e distraído e o aprendizado superficial. É possível pensar  profundamente enquanto se surfa na net, assim como é possível pensar superficialmente enquanto se lê um livro, mas não é o tipo de pensamento que a tecnologia encoraja e recompensa.” (O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A geração superficial, Nicholas Carr, editora Agir, Rio de Janeiro, 2011, p. 161/162)
Um pouco adiante o autor é mais específico:
“As dificuldades de desenvolver a compreensão de um assunto ou conceito parecem ser ‘fortemente determinados pela carga da memória de trabalho’, escreve Sweller, e, quanto mais complexo o material que tentamos apreender, maior a penalidade imposta por uma mente sobrecarregada. Há muitas fontes possíveis de sobrecarga cognitiva, mas duas das mais importantes são, segundo Sweller, a ‘resolução de problemas externos’ e a ‘atenção dividida’. Ocorre que essas são duas das características centrais da net como uma mídia informacional. Usar a internet pode, como sugere Gary Small, exercitar o cérebro de modo como faz um jogo de palavras cruzadas. Mas tal exercício intensivo, quando se torna o nosso primário de pensamento, pode impedir o pensamento e o aprendizado profundos. Tente ler um livro enquanto está fazendo palavras cruzadas; esse é o ambiente intelectual da internet.” (O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A geração superficial, Nicholas Carr, editora Agir, Rio de Janeiro, 2011, p. 174/175)
A internet brasileira está sendo continuamente abastecida por textos mais ou menos complexos produzidos por intelectuais de esquerda. Estes textos são freneticamente compartilhados por militantes. Mas nem sempre eles são lidos e compreendidos pelo público em geral. Em contrapartida, a mensagem política simples dos pastores evangélicos (salvação centrada no respeito à autoridade de quem interpreta e repete exaustivamente a Bíblia), é capaz de fixar na memória dos eleitores evangélicos a certeza de que os políticos evangélicos sempre fazem o que é correto (mesmo que eles prejudiquem seus próprios eleitores, como ocorreu recentemente durante a votação da Reforma Trabalhista).
Ao discorrer sobre a dispersão provocada pela internet, Nicholas Carr afirma:
“É importante enfatizar que a capacidade da net de monitorar eventos e enviar automaticamente mensagens e notificações é uma das suas grandes forças como tecnologia de comunicação. Baseamo-nos nessa capacidade para personalizar o funcionamento do sistema, para programar a vasta base de dados para responder às nossas necessidades particulares, interesses e desejos. Nós queremos ser interrompidos, porque cada interrupção nos traz uma informação preciosa. Ao desligar esses alertas, nos arriscamos a nos sentir desconectados ou mesmo socialmente isolados. O fluxo quase contínuo de novas informações pela web também apela à nossa tendência natural de ‘supervalorizar amplamente o que está acontecendo exatamente agora’, como explica o psicólogo do Union College, Christopher Chabris. Ansiamos pelo novo mesmo quando sabemos que o ‘novo é na maior parte das vezes trivial em vez de essencial’.” (O que a internet está fazendo com os nossos cérebros – A geração superficial, Nicholas Carr, editora Agir, Rio de Janeiro, 2011, p. 185)
Os evangélicos se reúnem nos templos. Os militantes operários se reúnem na internet. Os governos Lula e Dilma apostaram na inclusão digital acreditando que poderiam assim aumentar sua base de sustentação política. Este erro estratégico pode ter sido fatal.
É fato, o ambiente virtual escolhido pela esquerda para competir politicamente com os evangélicos é inadequado. Enquanto a profundidade intelectual da esquerda se torna superficial na internet por causa das características da própria rede mundial de computadores, a superficialidade dos pastores evangélicos se torna mais e mais profunda nas consciências dos fiéis porque o ambiente dentro das igrejas proporciona concentração e não dispersão. Portanto, não se engane, ao ler e compartilhar este texto você poderá estar fazendo mais mal do que bem à esquerda operária. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Mais um "milagre" fabricado de Edir Macedo: Os Dez Mandamentos tem ingressos vendidos, mas cinemas vazios...

“Se tem lugar? Tem todos, a sala está praticamente vazia”, disse um funcionário do Playarte Marabá, no centro da capital paulista, à Veja, arriscando, inclusive, sua interpretação para o fenômeno. “Os pastores compraram as lotações de ‘Os Dez Mandamentos’ e distribuíram para os fiéis, mas eles não estão vindo em massa, não. De tarde, aparece um pessoalzinho.”




Do Pipoca Moderna

Os Dez Mandamentos bate recorde de bilheteria com cinemas vazios


por Wilson Vianna

O filme “Os Dez Mandamentos”, versão condensada da novela de mesmo nome, vendeu 2 milhões de ingressos em seus primeiros três dias, atingindo o faturamento de R$ 24,22 milhões. Os dados são da empresa ComScore e foram divulgados nesta segunda-feira (1/2).

Assim, a novela da Record bateu “Tropa de Elite 2”, que detinha o recorde anterior de maior estreia nacional, com 1,2 milhões de ingressos vendidos em seu final de semana de estreia. Os números, por sinal, aproximam a produção televisiva de blockbusters americanos, como “Vingadores: Era de Ultron”, com 2,6 milhões de ingressos, e “Velozes e Furiosos 7”, 2,3 milhões em seus primeiros três dias.

A produção tinha praticamente esgotado todos os ingressos em pré-venda – fala-se em 3 milhões de ingressos vendidos para as primeiras semanas. Mas o estímulo do marketing religioso, que incluiu, segundo levantamento do site UOL, compra em massa de entradas por integrantes da Igreja Universal, rendeu um fenômeno paradoxal: bilheterias esgotadas com salas vazias.

O site da revista Veja também repercutiu o fato, encontrando diversos cinemas vazios em São Paulo, mesmo com todos os seus ingressos vendidos.

“Se tem lugar? Tem todos, a sala está praticamente vazia”, disse um funcionário do Playarte Marabá, no centro da capital paulista, à Veja, arriscando, inclusive, sua interpretação para o fenômeno. “Os pastores compraram as lotações de ‘Os Dez Mandamentos’ e distribuíram para os fiéis, mas eles não estão vindo em massa, não. De tarde, aparece um pessoalzinho.”

Em Recife, um único comprador adquiriu 22.700 ingressos de uma rede de cinemas para todas as sessões, em todos os horários do filme durante as duas primeiras semanas de exibição do longa na cidade.

“Passamos uma manhã inteira imprimindo de uma vez só os 22 mil ingressos. Nunca tinha visto algo do tipo nos dez anos em que trabalho no cinema”, revelou o funcionário do cinema ao UOL, contando que o comprador seria alguém ligado à Universal e que teria dito que pretendia distribuir os ingressos.

Ao UOL, a Igreja Universal disse não ter comprado ingressos.

De acordo com a distribuidora Paris filmes, o lançado de “Os Dez Mandamentos” em 1,1 mil cinemas (um terço de todo o parque exibidor nacional) alcançou média de 550 espectadores por sala. Mas, no humor das redes sociais, esta lotação é quase toda espiritual. “Só tinha anjinhos na plateia, por isso a gente não via”, escreveu no Twitter um dos espectadores de uma das sessões vazias.

A Veja também apurou que o lançamento, com números de blockbuster, não gera filas em lugar nenhum, conforme acontece com as exibições de outros filmes de vendagem similar.

sábado, 30 de janeiro de 2016

A "jihad" nada santa dos Pastores do Congresso...





Como as igrejas evangélicas escolhem seus políticos? Qual o segredo da força da bancada para barrar os avanços sociais e garantir privilégios como a isenção fiscal e a concessão de rádios e TV?

Os Pastores do Congresso

por Andrea Dip - encontrado no Pública e no Contexto Livre


Homens de terno e mulheres de saia com a Bíblia na mão vão enchendo o auditório. Alguém regula o som do violão e dos microfones. A música que celebra “júbilo ao Senhor” estoura nos alto-falantes, e a audiência canta junto. Em um púlpito no palco, os pastores abrem o culto com uma oração fervorosamente acompanhada pelos fiéis.

Uma descrição comum de um culto evangélico não fossem os pastores, deputados, falando de um o púlpito improvisado no Plenário Nereu Ramos da Câmara dos Deputados de um país laico chamado Brasil. E se o (até então) presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), anunciado do púlpito ao entrar no recinto pelos pastores João Campos (PSDB/GO) e Sóstenes Cavalcante (PSD/RJ), não tivesse deixado de lado a agenda oficial para participar da celebração e tirar selfies com pessoas que se amontoavam ao seu redor.

Certamente seria bem menos estranho se logo atrás de mim, no fundo do auditório, assessores de parlamentares não estivessem fazendo piadas de cunho homofóbico e rindo alto durante boa parte do evento, que se tornou show com a chegada da aclamada cantora gospel Aline Barros, vencedora do Grammy Latino 2014 e um dos cachês mais altos do mundo gospel brasileiro. Ela tinha viajado do Rio a Brasília com o marido, o ex-jogador de futebol e hoje pastor e empresário gospel Gilmar Santos, especialmente para cantar e orar naquela manhã de quarta-feira no Congresso. Ao final do culto/evento, todos receberiam um CD promocional de Aline.

Aline Barros entoou alguns de seus sucessos com o auxílio de um playback, antes da pregação do marido. O tema é a luta do profeta Elias contra Jezebel, a princesa fenícia que se casou com o rei de Israel e, uma vez rainha, perseguiu e matou profetas israelitas. A imagem da mulher poderosa de alma cruel é usada por dezenas de sites religiosos, que comparam Jezebel à presidente Dilma Rousseff, ameaçando-a de acabar como a rainha, comida por cães.

“Em Tiago capítulo 5, versículo 17, está escrito que Elias era um homem como nós. Ele orou e durante três anos e meio não choveu. Depois ele orou de novo e Deus manda vir a chuva”, diz o pastor Gilmar, dirigindo-se aos parlamentares. “Muitas vezes a gente tem orado ‘Deus sacode esse país, traz um avivamento, faz algo novo’. Deus está fazendo. Mas a forma que Deus está fazendo nem sempre é do jeito que a gente quer, da nossa maneira. Muitas vezes a gente queria que Deus fizesse chover dinheiro do céu, que fizesse anjo carregar a gente no colo pra levar a gente pra todos os lados e queria pedir pra Deus pra sentar numa rede, pra ele trazer um suco de laranja e operar, trabalhar. ‘Manda fogo, destrói aquele endemoniado, aquele idólatra.’ Mas Deus não faz dessa forma.” Por que Deus escondeu Elias? Por que Deus tem escondido muitos de vocês e ainda não estão nos jornais como sonharam ou não tiveram reconhecimento como sempre sonharam? […] Deus está te escondendo, querido. No momento certo tudo vai acontecer, você vai ser exaltado. Deus sabe como honrar. […] Pode ser o momento mais difícil do seu mandato, mas continua confiando. Muitas pessoas podem estar vivendo uma seca nesse país. Nosso país pode estar vivendo o momento mais seco da história. Vidas secas. Mas o céu nunca vai estar em crise. Nunca tem crise, nunca tem crise.”

Sem crise

O número de evangélicos no Parlamento cresceu, acompanhando o aumento de fiéis. Segundo os últimos dados do IBGE, que são de 2010, o número de evangélicos aumentou 61% na década passada (2000-2010). Por sua vez, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), encabeçada pelo deputado e pastor João Campos, agrega mais de 90 parlamentares, segundo dados atualizados da própria Frente — os números podem variar por causa dos suplentes — o que representa um crescimento de 30% na última legislatura.

A mistura de política e religião é a marca da atuação dos pastores deputados. Campos, por exemplo, é presidente da Frente Parlamentar Evangélica, autor do projeto de lei apelidado de “cura gay” e defensor destacado da redução da maioridade penal, como a maioria da chamada “bancada da bala” — em 2014 ele recebeu R$ 400 mil de uma empresa de segurança para sua campanha. Cavalcante ex-diretor de eventos do pastor Silas Malafaia, seu padrinho na fé e na política, é presidente na Comissão Especial que trata do Estatuto da Família.

Encorajada por Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara dizendo que “Aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver”, a bancada evangélica tem conseguido levar adiante projetos extremamente conservadores, como o Estatuto da Família (PL 6.583/2013), que reconhece a família apenas como a entidade “formada a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos”, que deve seguir para o Senado nos próximos dias. A PEC 171/1993, que usa passagens bíblicas para justificar a redução da maioridade penal, também foi aprovada na Câmara e aguarda análise do Senado, sem previsão de votação. O próprio Eduardo Cunha é autor do PL 5.069/2013, que cria uma série de empecilhos para o direito constitucional das mulheres vítimas de violência sexual realizarem aborto na rede pública de saúde. Esse está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Também foi nesta legislatura que a bancada conseguiu barrar o trecho que trata do debate sobre identidade de gênero nas escolas no Plano Nacional de Educação.

Ainda segundo os dados fornecidos pela FPE, a maioria dos parlamentares pertence a igrejas pentecostais: a Assembleia de Deus é a que mais congrega esses fiéis, seguida pela Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como figura de destaque o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Também tem representantes no Congresso as igrejas Sara Nossa Terra e a Igreja Quadrangular.

Como acontece com os partidos na política, os membros também trocam de denominação. Eduardo Cunha recentemente trocou a Sara Nossa Terra pela Assembleia de Deus, onde já estavam os colegas João Campos e Marco Feliciano. Entre os membros das protestantes históricas estão Jair Bolsonaro (batista) e Clarissa Garotinho (presbiteriana).

Membros da Frente Parlamentar Evangélica por partido


Andrea Dip
No Pública

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Na série "Deus Inc.", a HBO faz uma crítica à exploração das religiões midiáticas, apontando os perigos do fundamentalismo usado como meio de enriquecimento em linguagem muito de acordo com o atual estágio do capitalismo-neoliberalismo


Produção mexicana "Deus Inc." critica duramente a exploração da fé: "É trágico que a fé seja explorada por alguns para seu próprio benefício", diz protagonista

Fonte do texto: On
A HBO lança neste domingo (24) a produção mexicana "Deus Inc.", que promete mexer em uma ferida muito sensível, principalmente nos dias de hoje: o fanatismo religioso. "A palavra-chave da série é fanatismo", explicou o protagonista Rafael Sánchez Navarro em entrevista ao iG na Cidade do México.

Rafael Sánchez Navarro estrela
Divulgação/HBO
Rafael Sánchez Navarro estrela "Deus Inc.", nova série da HBO

O ator interpreta Salvador, um pesquisador que escreveu um livro sobre um filósofo que teria criado o conceito de Deus na Antiguidade. Após passar 10 anos no Oriente Médio e descobrir a tumba do pensador, o personagem volta ao México e descobre que seu livro foi plagiado e é usado como uma espécie de bíblia de uma seita que explora os moradores de uma região carente da capital mexicana.
A nova produção latinoamericana da HBO toca em um tema que é um tabu na região, a religião. Para Sánchez Navarro, discutir esse assunto é algo muito necessário. "Você não vê Hollywood falando de religião, por exemplo. É um assunto importante que deixará coisas a serem pensadas", explicou o mexicano.
O ator acha importante falar sobre o assunto por considerar a fé algo necessário, mas vê o fanatismo como um perigo que a ronda. "Eu acredito que, como seres humanos, nós precisamos de fé para continuar. Você pode ter em você mesmo, no futuro, no destino, em qualquer coisa", explicou.
"É trágico e muito perigoso que a fé, tão necessária para as pessoas, seja explorada por alguns para seu próprio benefício. E olha o que o mundo está vivendo hoje por causa da palavra fanatismo, antes da religião", disse. Ele ainda faz questão de destacar que o fanatismo é algo muito diferente de religião. "Você pode achar fanatismo até no futebol", exemplificou.
Timing perfeito
Produzida há três anos, a série será lançada em um momento em que as tensões religiosas estão ainda mais exacerbadas. "Acho que foi uma premonição", brincou o ator. "Nunca achamos que a série seria lançada nesse momento em que sabemos o que está acontecendo ao redor do mundo", continou.
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
Imagens da série 'Deus Inc.'. Foto: Divulgação/HBO
1/7
Mas ele também acredita que o fanatismo não é um fenômeno recente. "Eu acho que o fanatismo foi assim sempre. A Alemanha nazista e o Império Romano são exemplos de exploração da fé", explicou.
Salada de temas
O primeiro capítulo de "Deus Inc." mostra que a HBO não poupou esforços para que a série fosse uma superprodução. Com cenas no deserto da Califórnia e 43 mudanças de cenário por episódio, o seriado de Santiago García teve 40 locações e não deve nada visualmente a hits do canal como "Game of Thrones" e "Girls".

Sacerdote mascarado é líder de seita maligna em
Divulgação/HBO
Sacerdote mascarado é líder de seita maligna em "Deus Inc.'

Apesar do fanatismo religioso ser o fio condutor da trama, a história tem outros desdobramentos. "O tema principal é fanatismo e as origens de Deus, mas temos 12 capítulos para contar a história", lembrou Rafael Sánchez Navarro.
Por isso, a série ainda mostra os conflitos familiares de Salvador, que abandonou a filha e a esposa para embarcar na jornada rumo ao oriente médio, e toda a disputa entre o pesquisador e a seita que usa seu livro roubado.
À primeira vista, a impressão é de que as subtramas acabam tendo mais importância que a história principal, mas o ator garante que os escritores fizeram tudo da melhor maneira possível. "O tema se tornou muito acessível, com muitas cenas de ação, muito romance e humor", disse o artista.
A veia religiosa e tradicional da América Latina não assusta Rafael Sánchez Navarro: para ele, "Deus Inc." será bem recebida por aqui, mesmo sendo ácida. "Eu espero que a série seja bem recebida porque é uma história diferente, é um tema que não é falado na televisão nem no cinema", explicou. "Temos fé de que vai ser um projeto bem sucedido."

"Deus Inc."Quando: domingo, 24 de janeiro, às 22h
Onde: HBO
    Leia tudo sobre: Deus Inc • séries • HBO

    quinta-feira, 2 de julho de 2015

    As manobras golpistas do evangélico Eduardo Cunha que a direita adora


    Após aprovação da maioridade penal, Marco Aurélio Mello diz estar "assustado" com o comportamento do presidente da Câmara

     Texto extraído da Carta Capital

    Na madrugada desta quinta-feira 2, a Câmara aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 171, que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos em determinados crimes. A votação ocorreu um dia depois de um texto semelhante ser rejeitado pela Câmara, graças a uma manobra do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O peemedebista se diz seguro com o procedimento regimental adotado, mas o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou dúvidas sobre a votação.

    Para Mello, o País vive "tempos estranhos", de "perda de parâmetros, abandono de princípios, no qual o certo passa pelo errado e vice-versa". "O que nós temos na Constituição Federal? Em primeiro lugar, que o Supremo Tribunal Federal é a guarda do documento maior da República. Em segundo lugar, temos uma regra muito clara que diz que matéria rejeitada ou declarada prejudicada só pode ser apresentada na sessão legislativa seguinte. E nesse espaço de tempo de 48 horas não tivemos duas sessões legislativas", afirmou Mello à Rádio Gaúcha

    A base da argumentação de Mello é o parágrafo quinto do artigo 60 da Constituição, segundo o qual "a matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa". Para ele, a violação no caso da votação da maioridade penal foi clara. "Fico perplexo quando se parte para dar uma esperança vã à sociedade como se se tivesse a observância do figurino constitucional, e aí, de forma escancarada, não se tem. O vício formal salta aos olhos".

    Apoiados no Regimento Interno da Câmara e na Constituição, diversos parlamentares protestaram durante a votação desta madrugada e prometeram ir à Justiça contra os procedimentos adotados por Cunha. O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa também disse avaliar a nova votação da PEC 171 como inconstitucional.

    O presidente da Câmara, no entanto, se diz seguro. "Não há o que contestar. Ninguém é maluco. Não tomaremos decisões que sejam contra o regimento", disse. "Estamos absolutamente tranquilos com a decisão tomada. Só cumprimos o regimento", reforçou.

    Eduardo Cunha caminha no Plenário na quarta-feira 1º: a manobra feita por ele permitiu a segunda votação da

    PEC da maioridade penal

    Para Marco Aurélio Mello, a condução da votação por Cunha é temerária. "Fico assustado quando surge no cenário nacional, alguém assim, que quer consertar o Brasil, com s e com c, sem observar as regras estabelecidas. Fico muito assustado", disse à Rádio Gaúcha. "A nossa Constituição está no ápice da pirâmide das normas jurídicas. Não se avança diante de atropelos. A Câmara tem um regimento interno. Mas acima do regimento está a Constituição Federal", afirmou.

    Mello, que é contra a redução da maioridade penal, reforçou sua oposição ao projeto aprovado na Câmara. "Nós não teremos melhores dias reduzindo a maioridade. Precisamos perceber as causas da delinquência", disse.

    Fonte: Carta Capital

    quarta-feira, 4 de março de 2015

    As trevas do fundamentalismo se adensam no Congresso: Eduardo Cunha reafirma que sua prioridade é "lutar pelos princípios evangélicos"



    Carlos Antonio Fragoso Guimarães

         Seja o que for que pretenda dizer o atual presidente da Câmara dos Deputados, é bom ficarmos de olho no Congresso. Conseguimos reverter, por conta da movimentação popular, uma das aberrações de cunha, qual seja, parte do pacote de mordomias que incluía "passagem grátis" para os cônjuges dos deputados (o pacote traz outras mordomias tão caras aos cofres públicos quanto esta, mas só esta ficou mais famosa, embora não seja a única). Mas o que mais assusta é a ênfase reacionária em defender os tais "princípios evangélicos".

        Ora, no meio da controversa bancada evangélica (que traz em suas fileiras tipos como Marco Feliciano), existem projetos anti-sociais e retrógrados, que vão desde a implantação da obrigação de impor, nas escolas, aulas que apresentem a estória do Criacionismo (ou seja, que se adote a metáfora do Gênesis como verdade literal), até formas mais ou menos explícitas de se financiarem cultos evangélicos com dinheiro público num estado que, ao menos nas aparências (e pela Constituição, ao menos no que dita o artigo 19), deveria ser laico, isso sem falar nas perseguições sub-reptícias em outros projetos, desde a perseguição a formas religiosas de grupos considerados "não-cristãos" (cultos afro, por exemplo) à minorias diversas.

      Também assusta a tendência de extrema-direita da bancada evangélica, fortalecendo a movimentação fascistóide que vem tomando conta do Brasil com incentivo externo e da mídia interna, conturbado e alienando de caso pensado a opinião pública e dando margem a que vertentes utra-conservadoras (como o caso de Bolsonaro) acabem obtendo espaço prejudicial no meio público.

        Os tais "príncípios dos evangélicos" em poderiam dar espaço aos princípios de Cristo, entre eles: amar ao próximo, não fazer aos demais aquilo que não gostaríamos que nos fizessem, a partilha (a começar por dar aos pobres boa parte da riqueza amealhada por eles), fazer boas obras, etc.

     Vejamos sobre o avanço do obscurantismo ultra-religioso o que diz a Revista Fórum e o site Pragmatismo Político:



    Eduardo Cunha promete lutar pelos 'princípios da igreja evangélica' no Congresso

    Em culto evangélico, Eduardo Cunha afirmou que a “sociedade pensa como nós [os conservadores] pensamos” e que, por isso, é preciso deixar que “a maioria seja exercida, e não a minoria”. Presidente da Câmara dos Deputados prometeu ainda que lutará para que os princípios da igreja evangélica sejam “levantados e defendidos” no Legislativo.



    Para o presidente da Câmara dos DeputadosEduardo Cunha (PMDB), a maioria do Brasil é conservadora. A afirmação foi feita em um culto evangélico realizado no Rio de Janeiro neste domingo (1º), no templo Vitória em Cristo.
    Centenas de pessoas estavam presentes quando o deputado disse que “a maioria da sociedade pensa como nós pensamos” e que é preciso deixar que “a maioria seja exercida, e não a minoria”, fazendo clara referência a pautas progressistas e da causa LGBT, que historicamente se posiciona de maneira contrária.
    Não sou eu que não vou deixar a pauta progressista andar, não sou eu que sou conservador. A maioria da sociedade pensa como nós pensamos. É só deixar que a maioria seja exercida, e não a minoria”, afirmou, adicionando ainda que os órgãos de imprensa costumam dar “cobertura maior” aos ativistas gays.
    Deixando de lado o princípio do Estado laicoCunha seguiu prometendo mostrar “aquilo que o evangelho exerce” e lutar para que os princípios da igreja evangélica sejam “levantados e defendidos” no Legislativo.
    Essa influência direta da religião dentro da Câmara, por influência de seu presidente, já acontece de forma direta há algum tempo. Todas as sextas-feiras o parlamentar conduz, na Casa, uma cerimônia religiosa com outros deputados.